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ISSN: 2318-9428. V.2, N.2, Outubro de 2015. p. 229-246

DOI: http://dx.doi.org/10.18012/arf.2015.24913

Received: 08/05/2015 | Revised: 09/05/2015 | Accepted: 05/07/2015

Published under a licence Creative Commons 4.0 International (CC BY 4.0)

 

 

 

O homem do subsolo: uma leitura nietzscheana

 

[The underground man: Nietzschean reading ]

 

 

Julie Christie D. Leal*
Mauro Lopes Leal**
Roberto de Almeida Pereira Barros***

 

 

Resumo: Este artigo estabelece uma aproximação entre Friedrich Nietzsche e Fiódor Dostoiévski, a partir da perspectiva da psicologia, presente, tanto no pensamento do filósofo alemão, quanto na literatura do escritor russo, tendo como base, especificamente, a obra do autor russo Notas do Subsolo e sua caracterização do homem do subterrâneo, a qual iremos associar com os conceitos nietzschianos de ressentimento e moral do senhor e do escravo. Tem-se a delimitação de uma espécie de “psicologia das profundezas” no pensamento do filósofo alemão, que ele afirma ter herdado de Dostoiévski. O referido escritor, por sua vez, foi um profundo perscrutador de questões notadamente filosóficas, pertinentes aos debates contemporâneos, tais como: temas morais, religiosos e apreciações em torno do niilismo. Empreender-se-á, por conseguinte, uma análise do personagem central do romance Notas do Subsolo, pela perspectiva filosófica nietzschiana, identificando-o com a figura do homem do subsolo descrito pelo filósofo alemão, priorizando aspectos como o ressentimento e o esquecimento.

Palavras-chave: Filosofia. Literatura. Psicologia. Homem do subsolo. Ressentimento.

 

Abstract: This article establishes a connection between Friedrich Nietzsche and Fyodor Dostoevsky, from the perspective of psychology, present in both the thought of german philosopher, as the russian writer literature, based specifically the work of the russian author Underground Notes and his characterization of the underground man, which we will associate with the nietzschean concept of resentment and moral of master and slave. It has been the definition of a kind of "psychology of the deep" at the thought of german philosopher, he claims to have inherited from Dostoevsky. The said writer, in turn, was a deep researcher at notably philosophical issues relevant to contemporary debates, such as moral issues, religious and assessments around the nihilism. It will be undertaken, therefore, an analysis of the central character of the novel Underground Notes by Nietzsche's philosophical perspective, identifying it with the figure of the underground man described by the german philosopher, prioritizing issues such as resentment and forgetting.

Keywords: Philosophy. Literature. Psychology. Underground man. Resentment.

 

 

 

Introdução

 

Ao falar-se em Literatura Comparada, tem-se a visão de uma disciplina acadêmica que, em um aspecto geral, recentemente, estruturou-se através de características particulares bem definidas1. Contudo, uma breve digressão histórica da produção intelectual nos mostra que o estudo comparativo entre duas áreas de conhecimento distintas não é algo novo. Em terreno filosófico, por exemplo, este tipo de relação remonta aos primórdios de muitos conhecimentos, atualmente tidos como científicos, como é o caso da biologia, psicologia, dentre outras. A literatura, tal como a conhecemos na contemporaneidade, tinha um aspecto e valor diferenciados no passado, como nos diz Aristóteles (1996) na sua obra A Poética, pois este associa o conceito de poesia com imitação de ações (tomadas da realidade).

Contudo, num sentido oposto, para além da mera imitação das ações, na modernidade temos os chamados romances filosóficos, obras, não raramente, escritas por filósofos, como Jean Paul Sartre, Camus, etc., nas quais já é possível vislumbrar a utilização de duas linguagens, inicialmente distintas e possuidoras de corpus significativamente heterônimos, no caso, a filosófica e a literária que, no entanto, encontram-se perfeitamente articuladas (nos casos referidos) a ponto de suscitar algumas dificuldades de demarcação dos limites existentes entre uma e outra abordagem, se essa for a intenção do crítico ou do leitor.

Mas o que se quer demonstrar com tais exemplos é que, mesmo sendo detentora de características próprias, a Literatura Comparada só começou a ser difundida nas universidades no início do século XIX, influenciada, especificamente, pela filologia e pelo positivismo. Sua criação como matéria acadêmica surgiu de uma necessidade de se sobrepor aos estudos das literaturas nacionais. Seu desenvolvimento, por diversos motivos, deu-se de forma lenta e, por vezes, difícil: uma dessas dificuldades diz respeito à questão linguística, uma vez que o estudo comparativo requeria, muitas vezes, o domínio de outra língua. Mais um problema consiste na dificuldade de aceitação do estudo comparativo entre literatura e os demais ramos do conhecimento, tendência esta que já vem sendo superada, como atesta Tânia Carvalhal, no trecho abaixo:

 

Remak considera a literatura comparada o estudo da literatura além das fronteiras de um país em particular, e o estudo das relações entre literatura de um lado e outras áreas do conhecimento e crença, como as artes (pintura, escultura, arquitetura, música), a filosofia, a história, as ciências sociais (política, economia, sociologia), as ciências, as religiões, etc., de outro. Em suma é a comparação de uma literatura com outra ou outras, e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana. (CARVALHAL, 1998, p. 74)

 

        Neste sentido, pode-se discorrer acerca da aproximação entre as obras literárias e outras de diferentes campos tendo em vista a questão da interdisciplinaridade, onde se toma o estudo de qualquer fenômeno literário em consonância com a abordagem de outra disciplina intelectual, ou até mesmo várias2. Para aclarar tal afirmação basta nos referirmos à própria estrutura dos romances, tendo em vista as expressivas mudanças sofridas por eles, principalmente a partir da modernidade. Deste momento em diante já é possível ponderar sobre romances históricos, romances filosóficos, etc., ou seja, a literatura incorporou a si elementos até então ignorados ou inexistentes. Como não falar em psicologia na obra machadiana? Como ignorar o historicismo presente em alguns romances de Tolstói?

Dostoiévski figura entre os romancistas que inegavelmente ultrapassou os limites literários. Suas obras adentram no que há de mais particular e ambíguo no homem, descrevendo neste o embate de forças característico de qualquer ser vivo moral e social. Seus romances são profundos estudos da psique humana, como já havia detectado o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, a quem o escritor russo será relacionado mais adiante.

 

 

1. Dostoievski, Nietzsche e a psicologia das profundezas

 

Não foi sem razão que os romances de Dostoiévski foram objeto de estudo dos mais diversos intelectuais e pensadores, dentre eles podemos destacar o filósofo Friedrich Nietzsche, confesso leitor do romancista russo, a quem atribui o título de “psicólogo”: “Dostoiévski, o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual tive algo a aprender. Ele está entre os mais belos golpes de sorte de minha vida, mais até do que a descoberta de Stendhal” (NIETZSCHE, 2006, p. 95).

Nietzsche entreviu nos romances de Dostoiévski a psicologia nos moldes que ele acreditava ser o desejado: uma psicologia mais vinculada à realidade, denominada psicologia das profundezas, que intentava investigar os subsolos mais recônditos da natureza humana, oposta á metafísica dualista que propunha uma separação entre alma e corpo, mundo perfeito (vinculado às ideias) e mundo imperfeito (terreno, corruptível), psicologia esta que ele denominou de “tradicionalista” e que era responsável por muitos enganos de raciocínio, uma vez que a psicologia, em termos nietzschianos, não deve se limitar ao mero ato da observação.

 

Não cultivar a psicologia barata! Nunca observar por observar! Isso produz uma falsa visão, uma visão de soslaio, algo forçoso e exagerado. Vivência como desejo de vivência – isso não dá certo (...). Um psicólogo nato cuida instintivamente de não ver apenas para ver; o mesmo vale para um pintor nato. Ele nunca trabalha “conforme” a natureza (...) Que acontece quando se age de outro modo? Por exemplo, quando se cultiva a psicologia barata á maneira dos romances parisienses, por atacado e varejo? Fica-se, por assim dizer á espreita da realidade (NIETZSCHE, 2008, p. 66-67).

        Se muitos romancistas franceses permaneceram à margem da realidade, segundo Nietzsche, o mesmo não ocorreu com Dostoiévski. Suas obras enfocam de maneira verossímil a realidade presente. Em seus personagens delimitam-se claramente o caráter paradoxal do homem e seus mais íntimos conflitos (salvação x perdição, espírito x carne), o sofrimento, arrependimento, o sensualismo, as pulsões e até a loucura. Impossível não nos remetermos a Raskólnikov, personagem central de Crime e Castigo, como exemplo do tipo realista e que encerra em si forte presença da psicologia na obra dostoievskiana. Estudante de Direito, motivado por uma moral própria, Raskólnikov assassina uma velha usurária e também, “acidentalmente”, a irmã desta. Decorre desta ação homicida, uma série de consequências para o estudante, principalmente no campo psicológico.

        Pressionado pela polícia e, principalmente, pela sua própria consciência, o homicida adentra em um estado patológico que inclui febre, devaneios, fadiga, delírios, em uma condição quase esquizofrênica, mas que indica, sobretudo, a ação do sentimento de culpa. Contudo, não abordaremos tal obra em nosso trabalho por acreditarmos que ela suscite problemáticas arraigadas para além do alcance que delimitamos para este trabalho.  Iremos nos ater à novela Notas (ou Memórias) do Subsolo3, obra datada de 1864. Esta pode ser dividida basicamente em duas partes e não se caracteriza por um enredo propriamente dito, mas pelo monólogo de um homem que narra alguns fatos ocorridos em sua vida, permeando tal narrativa com indagações de cunho político, filosófico e existencial.

Notas do Subsolo, assim como a maioria das obras de Dostoiévski, apresenta um forte conteúdo de natureza psicológica, a começar pelo próprio personagem central do romance, herói este (ou anti-herói) apresentado como um indivíduo solitário, sem amigos, que demonstra uma espécie de baixa estima e uma visão negativa de si: “Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho amigos” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p.11).

Este é o homem do subsolo, o indivíduo que apresenta uma rígida incapacidade de ação, que se pune através da humilhação. Desse modo, coloca-se em situação de inferioridade, de penúria, julgando-se perseguido e, por isso mesmo, autorizado a voltar-se contra o outro, a quem toma por opressor, ou por aquele que o humilha. O outro é posto como mau, como odioso. Em um determinado momento da obra, o homem do subterrâneo narra uma contenda que teve com certo (oficial) militar, que o moveu de um lugar ao outro, pois o funcionário obstruía a passagem do militar. A partir de então o anti-herói dostoievskiano inicia uma “cruzada” para a recuperação da sua dignidade e honra. E nesse processo passam-se anos até que o funcionário público acredite-se vingado. Na segunda parte da obra tem-se a narrativa de dois casos ocorridos com o homem do subsolo4: uma relacionada com os colegas de repartição e outro com uma meretriz. Em ambos os episódios são reforçadas as ideias da insignificância e da debilidade desse tipo de homem.

Interessante enfatizar também que Notas do Subsolo se configura enquanto uma das poucas obras de Dostoiévski que não possuem um caráter religioso, isto é, que não é finalizada com arrependimento e conversão, com a busca por redenção através da aceitação do castigo. O personagem da referida obra é o indivíduo comum, debilitado pela sua incapacidade de ação, e que se angustia com a própria inércia. Prefere ocultar-se no seu subsolo a viver, e viver aqui tomado sob o sentido nietzschiano, ou seja, de se defrontar com os fatos da existência sejam eles bons ou maus e, mais que isso, que também possa aceitá-los.

O homem do subsolo recolhe-se ou encerra-se em seu subterrâneo, a saber, no interior de si mesmo, onde não experimenta a sua existência de forma plena, restando-lhe apenas vociferar contra o mundo e contra as pessoas que, ao contrário de si, agem. Esse tipo de indivíduo Nietzsche denominou de ressentido.

 

 

2. Uma interpretação nietzschiana de Notas do Subsolo: observações sobre o tipo ressentido

 

Não apenas não consegui tornar-me cruel, como também, não consegui me tornar nada: nem mau, nem bom, nem homem honrado, nem herói, nem inseto. Agora vivo no meu canto, provocando a mim mesmo com a desculpa rancorosa e inútil de que o homem inteligente não pode seriamente se tornar nada, apenas o tolo o faz. Sim, senhores, o homem do século XIX que possui inteligência tem obrigação moral de ser uma pessoa sem caráter; já um homem com caráter, um homem de ação, é de preferência um ser limitado. Essa é a minha convicção aos quarenta anos. (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 13)

 

 Tem-se, no fragmento acima, a ato-destruição do homem do subsolo, do homem ressentido, no sentido nietzschiano do termo. Incapaz de se tornar algo, tal indivíduo, sob a máscara do homem inteligente, conjectura de forma racional sobre a sua própria inércia, estabelecendo uma distinção entre homens sem caráter, os que não agem, e os que possuem caráter, o homem de ação. Essa divisão é-nos importantíssima para entender o conceito nietzschiano de ressentimento e, para tanto, partir-se-á da concepção do filósofo alemão acerca da existência de duas morais: a do senhor e a do escravo.

Em Para uma Genealogia da Moral, Nietzsche argumenta que nos primórdios da história humana, havia a coexistência natural entre dois tipos de indivíduos, os dominantes (senhores, aristocratas) e os dominados (escravos). A moral senhorial apresentava características sadias e guerreiras:

 

Os juízos de valor cavalheiresco-aristocrástico tem como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve à sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma atividade robusta, livre, contente (NIETZSCHE, 2008, p. 25).

 Essa moral aristocrática, portanto, era voltada à saúde, ao vigor, ao combate, em outras palavras, à ação, à atividade, acima de tudo livre. A liberdade nesse tipo de moral é um fator de expressiva importância, pois ao se falar em atividade, está-se, sob a perspectiva nietzschiana, indicando um caráter de natureza criadora na moral senhorial, pois somente cria quem é livre, o que não ocorre com a moral escrava, uma vez que todas as escolhas desse tipo de indivíduo sempre recaem na pré-concepção de certos determinismos morais.

 

Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante sim a si mesma, já de início, a moral escrava diz não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e esse Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação (NIETZSCHE, 2008, p. 29).

 

        O homem ressentido não é livre por estar preso ao que lhe é externo. Necessita do outro, não é autônomo, não tem a iniciativa da ação. Na relação com o outro, usa este como uma espécie de medida de si mesmo, uma vez que este outro é sempre “mau”, enquanto o ressentido é “bom” por acreditar que é oprimido pelo senhor, pelo homem ativo. O ex-funcionário público de Notas do Subsolo busca no outro um objeto ao qual dirigir o seu ódio, a sua repulsa insignificante, o seu desprezo sem valor. Na obra, esse objeto pode ser tomado como o oficial militar em um primeiro momento e, posteriormente, os colegas de repartição do personagem, como já foi dito antes.

 

(...) Depois da história com o oficial, algo começou a me atrair ainda mais para a Avenida Névski: era lá que eu o via com mais frequência, lá podia admirá-lo, embora ele também saísse do caminho diante de generais e pessoas de alta posição e também serpenteasse como uma enguia entre eles, quando se tratava de alguém como eu, ou mesmo um pouco melhor, ele simplesmente o esmagava; caminhava diretamente para a pessoa, como se na sua frente houvesse um espaço vazio, e nunca cedia passagem. Eu me embriagava com a minha raiva, observando-o, e... todas as vezes cedia-lhe o caminho, furioso. Torturava-me ver que nem mesmo na rua eu conseguia ser igual a ele (DOSTOIÉVSKI, 2008, p.64-65).

 

 Em outra passagem, temos o seguinte:

 

De desgosto, tomei vários copos de lafitte e xerez. Como não estava habituado, fiquei logo embriagado e, com isso, cresceu ainda mais meu ressentimento. De repente me deu vontade de ofender a todos da maneira mais insolente e depois ir embora. Aproveitar o momento propício e mostrar meu valor – eles que digam depois: apesar de ridículo, ele é inteligente... e... e... ora, ao diabo com eles! (NIETZSCHE, 2008, p. 90).

 

 No primeiro excerto acima temos o ex-funcionário público em uma espécie de “disputa” com o oficial, a quem passa a espionar, a seguir, contribuindo, dessa forma, para o aumento de sua raiva, procurando uma maneira de se “vingar”, e na impossibilidade da execução desse plano de vingança, temos o hipertrofia de seu ressentimento. No segundo excerto, o homem do subsolo, em uma clara demonstração de humilhação própria, acompanha os outros funcionários da repartição que não nutrem por ele qualquer outro sentimento além do desprezo. Mesmo tendo consciência dessa repulsa dos outros em relação a si, ele insiste em acompanhá-los, em uma espécie de masoquismo moral. Degrada-se nessa situação, o que aumenta mais ainda sua repulsa pelos outros.

 Por vezes, o comportamento do homem do subterrâneo pode ser relacionado com medo e covardia, o que não deixa de ter uma sustentabilidade. Ora, a moral do senhor é vigorosa, sadia, de constante afirmação, segundo Nietzsche, enquanto que a moral do escravo é débil, ressentida e inercial. Contudo, com o passar do tempo, o que era considerado bom, natural, ou seja, a moral do senhor, foi colocada sob um prisma negativo, ocorrendo aí o que Nietzsche denominou de transvaloração dos valores, pois a moral escrava tornou-se o desejável, o aceitável, o bom. Sofrer e ser humilhado eram agora as novas máximas. Os sacerdotes cristãos, segundo Nietzsche, tiveram forte influência nessa inversão de valores. O indivíduo que sofria era o “eleito de Deus” e tinha a sua alma salva através da miséria e da dor que experimentava. A moral escrava foi o embrião da moral cristã, tal como a conhecemos na modernidade. Moral esta tão enraizada em nossa sociedade que até os indivíduos que não se consideram cristãos, são portadores desse mesmo tipo de moral. No cinema, por exemplo, temos muitos filmes nos quais se observa a recompensa do herói, seja em dinheiro ou sentimento, que muito sofreu e, não raro, foi humilhado e ofendido. No campo religioso, aquele que mais se humilha e se apequena, o que sofre resignadamente, situando-se, principalmente em uma situação de pobreza pecuniária, é o escolhido para ascender a um mundo superior, edênico.

        O que a moral cristã nos diz? Que o homem deve ser piedoso, solidário, sofredor, pensar primeiramente no outro, ser penitente, trabalhador, adotar a vida simples e pobre, renegar as mais “danosas” paixões em nome da salvação eterna. Esse é o bom indivíduo em nossa sociedade atual. Entretanto, como já foi dito, para o filósofo alemão, a moral cristã é antinatural ao homem, pois força, ideologicamente e psicologicamente, tal indivíduo a abandonar, ou reprimir, os seus instintos mais básicos, como o da luta, da guerra, decorrendo daí o adoecimento deste homem moralizado, incapaz de agir, pois teme, dessa forma, incorrer em pecado e perder a sua oportunidade de uma lugar no paraíso, metáfora que serve para simbolizar a aceitação de todos os valores metafísicos por excelência, como o são os ideias ascéticos5, por exemplo.

 Mas além das referidas características, Nietzsche irá identificar na postura do homem do ressentimento, um enfeixamento muito peculiar, pois esse tipo de homem volta-se para a memória, e esta se relaciona com o processo de internalização de culpas, sofrimentos, mágoas, o que pode acarretar em um adoecimento orgânico, uma vez que isso leva a incorporação de sentimentos negativos que nada acrescentam à vida. Por conta disso, a questão do esquecimento assume uma importância fundamental no pensamento do filósofo, posto que tal mecanismo esteja diretamente arrolado à saúde e equilíbrio orgânico, especialmente se levarmos em consideração o viés “psíquico”, ou seja, aquele responsável pelos sentimentos, afetos e impulsos. Dostoiévski, assim como o filósofo alemão, também encetou questões em torno da problemática do esquecimento em sua obra.

 

 

3.  O litígio do esquecimento em Nietzsche e Dostoievski

O homem do ressentimento é o indivíduo incapaz de esquecer. Para o filósofo alemão, o esquecimento tem um caráter terapêutico, uma vez que através dele, a consciência não será atingida por memórias dolorosas “mal digeridas”:

 

Esquecer não é uma simples vis inertiae [força inercial], como crêem os superficiais, mas uma força inibidora, ativa, positiva no mais rigoroso sentido, graças o que é por nós experimentado, vivenciado, em nós acolhido, não penetra mais em nossa consciência, no estado de digestão (ao qual poderíamos chamar “assimilação psíquica”) (...). Fechar temporariamente as portas e janelas da consciência; permanecer imperturbado pelo barulho e luta do nosso submundo de órgãos serviçais a cooperar e divergir: um lugar para o novo, sobretudo para as funções e os funcionários mais nobres, para o reger, prever, determinar (pois o nosso organismo é disposto hierarquicamente). – Eis a utilidade do esquecimento, ativo, como disse, espécie de guardião da porta, zelador da ordem psíquica (NIETZSCHE, 2008, p. 47).

 

        Nietzsche aponta o esquecimento como uma espécie de inibidor de fatores externos negativos que, se em contato com a consciência, tornará enferma a psique do indivíduo. Além disso, o esquecimento, ao fazer essa função, também possibilita que a mente esteja aberta para o que é novo, uma vez que ela não está se ocupando do que é nocivo a si. Dessa forma, pode-se dizer que sem o esquecimento não se pode falar em um bem-estar, uma existência saudável.

 No homem do subterrâneo dostoievskiano, de maneira contundente, nota-se a constante presença da lembrança. Sua incapacidade de esquecimento torna-o um homem ressentido, amargurado. Não é à toa que acusa, injuria, vocifera contra seus “ofensores” de forma constante e incansável. Os anos de sua vida são consumidos relembrando uma ofensa, uma humilhação sofrida, e promete vingar-se, mas sem efetividade.

 

É evidente que essa história miserável não poderia terminar simplesmente assim em se tratando de mim. Encontrei depois de muitas vezes o tal oficial na rua e o estudei bem. Só não fiquei sabendo se ele me reconhecia. Creio que não, alguns indícios me levam a essa conclusão. Quanto a mim, olhava para ele com raiva e ódio, e isso durou... vários anos, senhores!. (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 62)

 

 A ofensa vivida pelo homem do subsolo é recordada por um longo tempo. Ele se lança nela, abraça-a, procura-a, torna-se seu escravo e, a partir de então, sua vida, pode-se assim dizer, voltada-se para a “correção” dessa ofensa. É a dita “vingança”, que buscará os mais diversos meios para se efetuar.

 

Certa manhã, embora eu nunca me dedicasse à literatura, veio-me de repente a ideia de descrever a esse oficial na forma de uma denúncia, de maneira caricatural, e de fazer disso uma novela. Fiz acusações e até calúnias: a princípio, modifiquei levemente o sobrenome, de uma maneira que ainda pudesse ser reconhecido (...) mas não estavam na moda ainda as denúncias, e eles não publicaram a minha novela. Fiquei muito chateado com isso. Ás vezes a raiva me sufocava (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 63).

 

 Observa-se, no fragmento acima, que o homem do subterrâneo não tem forças, não é capaz de dar vazão ao seu desejo de reparação, uma vez que nem mesmo o sobrenome do oficial é posto em calúnia. Isso evidencia, novamente, o caráter acovardado de tal tipo que, incapaz de exigir retratação pessoalmente, utiliza-se de outros artifícios para tanto, como a escrita de um embuste para difamar seu ofensor, mas nem mesmo neste há a execução da vingança. O que se tem, portanto, é um homem em voltas com uma situação que lhe é, de certo modo, degradante (ele espiona, analisa, segue o seu ofensor).

Citou-se acima o termo escravo. Justifica-se o uso de tal expressão devido à falta de força, principalmente moral, do homem do subsolo em livrar-se daquilo que o oprime, que o coloca em uma espécie de cárcere da consciência. Seu pensamento volta-se para a humilhação e desta não consegue mais se desvencilhar. Fenômeno inverso ocorre com aquele que Nietzsche (2008) denomina de “indivíduo soberano”, ou seja, o homem da vontade própria e independente, que desfruta de uma verdadeira liberdade de consciência. O que se vê no indivíduo do subterrâneo é o sujeito que não vive livremente, pois se encontra aprisionado aos devaneios rancorosos que internalizou e potencializou em sua mente. Incapaz de agir por vontade própria, pois é refém do ressentimento.

Em outro extremo, o homem livre é confiante, é senhor da sua vontade. Para ele não existe destino, mas apenas o resultado das suas ações. O ressentido, por sua vez, é o tipo das “ideias fixas”, ideias estas reforçadas por doutrinas religiosas, como a crença no pecado. Ora, o que seria o pecado? Nada mais do que a ideologia de que se o homem errou, ele deve não apenas ter consciência disso, mas também da sua punição. O homem do subsolo não é declaradamente um pecador, mas as suas atitudes podem ser comparadas as de um: o pecador sofre pelo seu pecado, pelo seu crime, e somente encontra a paz para a sua consciência através da absolvição dos seus erros. O homem do subsolo tem a tranquilidade alcançada quando, supostamente, consegue por em prática a sua vingança. É o que ocorre com o personagem de Dostoiévski, que após anos de tormento, um dia decide enfrentar o seu oponente e esbarra-lhe no ombro propositalmente, caracterizando assim, ao menos para si, a sua tão almejada “vingança”.

 

Eu não cedi nem uma polegada e passei por ele como um igual! Ele nem ao menos se virou e fingiu que não notara, mas foi somente fingimento, estou certo disso. Até hoje tenho certeza disso! Claro está que eu sofri mais, porque ele era mais forte, mas não era isso que importava. O importante foi que consegui meu objetivo, mantive a minha dignidade (...). Voltei para casa completamente vingado de tudo (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 67-68).

 

A expressão “como um igual”, suscita inúmeras interpretações, mas considerando-se o prisma pelo qual decidiu-se analisar a referida obra, pode-se situar, tal afirmação do referido personagem, como uma confirmação de que ele, de modo consciente ou não, coloca-se em uma situação de desnível em relação às outras pessoas. Ao ser diminuído, ao ser humilhado e rebaixado, tal homem vê-se em um patamar de inferioridade, de marginalização, o que torna ainda mais significativa a sua patologia do ressentimento. A ação do outro, que ele julga indigna contra a sua pessoa, marca-o de forma profunda, inserindo-o em um cárcere privado.

A necessidade de reparação observada pelo narrador, se é que ela existiu um dia de fato, uma vez que pode ser compreendida como um aspecto completamente interno do referido personagem, efetua-se de forma banal, tal como se iniciou a ofensa, o que permite concluir que o ressentido é o indivíduo das pequenas coisas, das ninharias do dia a dia, das efemeridades do cotidiano aos olhos alheios, mas que perante a concepção ressentida adquire aspectos monumentais, inesquecíveis. De certa forma, a consciência ressentida parece atuar de forma tal que sempre conceba a alteridade sob um prisma opressor, o que equivale também a situá-la em um nível também superior, uma vez que aquele que oprime o faz porque pode fazê-lo, pois sua força se sobressai à força do outro, menor, menos expressiva e vigorosa. Em uma sociedade marcada pelo “amor ao outro” e conceitos de piedade, respeito, a realidade mostra-se bastante diferente do que apregoam determinadas concepções, religiosas ou não, pois o homem mostra-se em constante combate com o outro. A todo o momento o homem está desejando, e este desejo, não raro, confronta-se com o desejo do outro. A necessidade de dinheiro, emprego, moradia, espaço, carinho, dentre outros inúmeros aspectos, coloca o homem em embate com os outros membros da sociedade de modo constante e ininterrupto. No homem do subsolo, tal disputa se situa em um nível que ultrapassa o que se pode considerar normal, uma vez que em determinados casos, como o do funcionário público e do militar, não se tem propriamente dito um conflito estipulado, mas a imaginação, a criação pessoal de uma contenda por parte do narrador.

Uma vez satisfeita a sua necessidade de reparação, o homem do subsolo irá retornar ao seu submundo, de onde irá emergir somente em busca de outra situação na qual possa se inserir no papel de vítima e reiniciar, dessa maneira, o seu processo de apequenamento e adoecimento. Ciclo este que pode ser suprimido, conforme Nietzsche, através do esquecimento. Sobre esse aspecto, expõe Barrenechea:

 

O esquecimento, por sua vez longe de ser interpretado por Nietzsche como uma falha, ou como a incapacidade temporária da consciência para reter o já vivido, trata-se de um mecanismo de proteção, de preservação orgânica; o esquecimento é uma forma de digestão psíquica que permite relaxar diante das experiências vividas, se distender diante do passado (BARRENECHEA, 2009, p.103).

 

O ato de esquecer, portanto, não é visto por Nietzsche como uma falha da memória, mas como uma atitude salutar diante de impressões e experiências negativas para a vida do indivíduo. Essa distinção, entre o que pode ou não ser assimilado pela memória, é importante, para que não se compreenda aqui levianamente a concepção nietzschiana sobre a necessidade do esquecimento, uma vez que não se deve, como se frisou acima, esquecer tudo, mas somente aquilo que prejudica a mente e consequentemente o corpo, efetuando-se a preservação orgânica, a saúde física, algo que falta ao personagem de Dostoiévski, como se pode observar nas palavras do ex-funcionário logo no início da obra: “Sou um homem doente... Sou mal. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que me dói” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p.11). O próprio narrador desconhece a origem da sua doença, não podendo identificar o local da enfermidade, lançado apenas conjecturas sobre o mal que o atinge, pois acha que o fígado deve ser a causa das suas dores, as quais, entretanto, não consegue precisar, e tampouco a fonte exata da sua angústia física, se tiver mesmo esta natureza.  

Mais adiante, o referido narrador associa consciência à doença: “Asseguro-lhes que ter uma consciência exagerada é uma doença, verdadeira e completa doença” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 14-15). A consciência a qual o ex-funcionário faz referência não é aquela considerada normal, mas uma extrapolação, que se excedeu nas suas funções do cotidiano, o que já indica uma possível resposta para os males de saúde que afligem o narrador. Sobre a questão da consciência, Nietzsche a situa como um meio de comunicação, subordinado aos instintos do corpo, este sim, a grande razão, e não a consciência, como muitos apregoam. Para o filósofo germânico a consciência adquire um aspecto de menor relevância do que o apregoado pela filosofia tradicional, pois ela funciona apenas como um filtro dos pensamentos, estes articulados na mente. A necessidade de interação social do homem, de proteção mútua, de convívio grupal, conduziu tal indivíduo, nos primórdios da sua história, a desenvolver uma linguagem para comunicar-se. Entretanto, em um meio social, nem tudo pode ser dito, pois as consequências podem ser negativas para a coesão social. E nesse ponto que a consciência surge, ou seja, como um mecanismo de filtragem daquilo que será exteriorizado pela linguagem.  

Apesar de apresentar-se como um fator positivo para o homem, a consciência marca a renuncia do homem no que se refere aos seus aspectos mais intrínsecos e particulares, abrindo mão do que lhe é próprio para poder se integrar no meio social, na segurança do rebanho:

 

O aparecimento da consciência é, portanto, um processo de vulgarização, de banalização das experiências vividas. O homem, com o objetivo de manter-se sob a proteção da comunidade e garantir sua segurança, nos momentos de perigo renuncia àquilo que lhe é mais próprio. Usando palavras, ele se torna inteligível para o “rebanho”; através desse mesmo procedimento, o rebanho, por sua vez, torna-se compreensível para ele (BARRENECHEA, 2009, p.102).

 

Assim posto, observa-se que a consciência marcou de forma significativa a natureza humana, pois os instintos tiveram que ser, em sua grande parte, suprimidos para dar lugar à segurança e à sociabilidade. O homem do subsolo reconhece-se como o indivíduo da “consciência exagerada”, o que explicaria parte do seu comportamento ressentido diante do outro, uma vez que o caráter doentio da sua personalidade é marcado por essa expressiva hipertrofia da consciência, esta que Nietzsche declarou ser perigosa e enfermiça: “Afinal, a consciência crescente é um perigo; e quem vive entre os mais conscientes europeus sabe até que é uma doença” (NIETZSCHE, 2012, p.223).

Nietzsche e o homem do ressentimento dostoievskiano coadunam no que se refere aos perigos da consciência, posto que o segundo, posteriormente na obra, reconhece que a consciência não é uma doença somente quando associada a um elevado grau, mas qualquer consciência, seja em qual grau for: “Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só a consciência em alto grau é uma doença, como também o é qualquer consciência” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 15).

A consciência, conforme exposto pelo homem do subsolo, representa um reconhecimento de aspectos desagradáveis da vida que parecem fixar-se à mente, à lembrança do homem que, se não possuir força suficiente para esquecer, tornar-se-á refém destas lembranças, o que significa dizer que este homem estará preso a um determinado aspecto da vida, em um ponto específico, que o marcou de modo tão desagradável, doloroso, repugnante etc., que não será eliminado pelo esquecimento, uma vez que a consciência se mostrará mais vigorosa do que o ato de esquecer: “Quanto mais consciência eu tinha do bem e de todo esse “belo e sublime”, mais afundava no meu lodo e mais capaz me tornava de atolar-me nele completamente” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 15-16).

A situação do homem ressentido apresenta-se em uma escala ascendente no que se refere à consciência, um processo que parece exaurir-lhe as forças, impossibilitando-o de reagir diante dos sentimentos grotescos que o atingem ou, em muitos casos, que ele próprio interpreta como tais, como já citado anteriormente sobre os casos banais que se transformam em dolorosos acontecimentos para o ressentido.

Por fim, o personagem da referida obra, depois de inúmeras conjecturas e argumentos labirínticos, expõe de forma direta a sua condição de ressentido, configurando-se, de modo evidente, as causas da sua até então estranha e incompreensível doença:

 

Sou desconfiado e ressentido, como um corcunda ou um anão, embora, verdade seja dita, houvessem momentos em que, se me dessem uma bofetada, eu talvez ficasse alegre até com isso (...). E quando ocorre a bofetada, aí então você fica esmagado pela percepção de que o trituraram até virar pasta (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 17).

 

Reconhecendo-se desconfiado e, principalmente, ressentido, o homem do subsolo expõe a fonte dos seus tormentos. A bofetada marca uma atitude bastante complexa para tal tipo, uma vez que a agressão, inicialmente, deflagra uma evidência existencial de tal indivíduo, ou seja, ele foi agredido e reconhecido como o alvo da violência, o que o satisfaz, pois se tornou alvo – mesmo que seja de um ato grotesco e que este dure um ínfimo segundo – de uma ação alheia que o colocou na posição de oponente. Todavia, após este inicial sentimento, retorna o reconhecimento da sua insignificância, do seu descaso para consigo mesmo, e o outro agressor torna-se novamente maior, mais opressor, o que força o homem do ressentimento a voltar-se para si, esconder-se no seu subsolo existencial, de onde poderá apontar o dedo, frustrado, para os outros e vociferar em segurança, adoecendo cada vez mais, uma vez que incapaz de esquecer.

 

 

Considerações finais

 

        Enfim, o homem do subsolo tão primorosamente descrito e caracterizado por Dostoiévski na obra Notas do subsolo, expressa muito bem o tipo de homem inerte, incapaz de se impor de forma afirmativa, uma vez que todas as suas ações sejam, na verdade, reações àquilo que o outro supostamente praticou contra si. Como alguém que busca consolo na ideia de “vingança”, vê crescer em seu âmago, raiva, ódio e desgosto em relação a tudo o que o outro é ou representa. Assim, torna-se apequenado e doente, pois cultiva a memória, acumulando lembranças que lhe são verdadeiramente perniciosas e prejudiciais.

 Tomando como parâmetro a perspectiva de Nietzsche, poder-se-ia dizer que o homem do subsolo dostoievskiano se assemelha à figura do homem do ressentimento, que nada mais é, para o filósofo, do que o homem moderno. Isto é, um homem incapaz de criar e experienciar o momento presente de forma afirmativa. Apega-se a memória das circunstâncias passadas, especialmente aquelas que lhe trazem más recordações. E o ressentimento aflora-lhe justamente porque retoma tais recordações sucessivas vezes, demonstrando, com isso, inaptidão para o esquecimento, tão necessário à vida saudável, segundo o filósofo alemão.

 Ao invés de agir, afirmar, se impor, o homem do subsolo ou homem moderno torna-se cada vez menor perante o outro, posto que se lhe torne praticamente impossível superar as forças reativas que o encarceram as lembranças, às memórias, passando essas a assumir um lugar de comando sobre suas atitudes e sua vida.

 Não se pode negar que o homem do subsolo ou homem ressentido esteja em busca de respostas para as suas frustrações, decepções e/ou angústias. Contudo, essas respostas já não podem ser encontradas nos ideais metafísicos ou simplesmente na moral cristã. Quanto mais aflito esse homem se torna, mais ele se fecha em seu próprio mundo, como uma espécie de crisálida, onde pouco ou nada se move, mas, ao contrário da borboleta que em estágio de crisálida passa por um processo de maturação sexual e crescimento para emergir já adulta, o homem do subsolo enterra-se em seu subterrâneo absurdamente frio, doloroso e hostil.

 

 

Referências:

 

ARISTÓTELES. Poética. Trad., Pref., Introd., Com., Apend. de Eudoro de Sousa. Porto

Alegre: Globo, 1966.

BARRENECHEA, M. A. Nietzsche e o corpo. Rio de Janeiro: 7letras, 2009.

CARVALHAL, T.F. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 1998.

_____. Literatura comparada no mundo: questões e métodos. Porto Alegre: L&PM Ed., 1997.

COUTINHO, E. F. Literatura comparada, literaturas nacionais e o questionamento do cânone. In: Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 3, Rio de Janeiro: 1996.

_____. Literatura comparada: reflexões sobre uma disciplina acadêmica. In: Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 8, Rio de Janeiro: 2006.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Notas do subsolo. Tradução: Maria Aparecida Botelho Pereira de Soares. Rio de Janeiro: L&PM, 2008.

FRANK, Joseph, Sementes da Revolta. Tradução Vera Pereira. São Paulo: EDUSP, 2008.

GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche como Psicólogo. São Leopoldo, RS: Editora UNISINOS, 2001.

______. O Anticristo e o Romance Russo. In: Primeira Versão, São Paulo: IFCH/UNICAMP, 1994.

NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012.

 ______. Crepúsculo dos Ídolos. Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006.

______. Genealogia da Moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza. – São Paulo, Companhia de bolso, 2008.

STAINER, George, Tolstói ou Dostoiévski. Tradução: Isa Kolpeman. São Paulo: Perspectiva, 2006.

* Mestrado em Letras pela Universidade Federal do Pará (2011). Mestrado em Filosofia pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Pará. Integrante do Grupo de Pesquisa de Filosofia Contemporânea da UFPA registrado no CNPq. Professora de Filosofia pela Secretaria de Estado de Educação do Pará - SEDUC.

** Mestrado em Letras pelo PPGL da Universidade Federal do Pará (2014-16). Integrante do Núcleo Interdisciplinar Kairós - Estudos de Poética e Filosofia (NIK/UFPA)/CNPq. Integrante do projeto de pesquisa Perspectivismo e modelos interpretativos na filosofia de Nietzsche (PPGFil-UFPA).

*** Pós-Doutorado em Filosofia pela universidade de Hildesheim - Alemanha (2010/2011). Doutor em Filosofia pela Technische Universität Berlin (2006). Professor Adjunto da Universidade Federal do Pará, Faculdade de filosofia, Professor permanente do programa de Pós-graduação em Filosofia (Mestrado) e colaborador junto ao programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes) da UFPA. Membro do GT Nietzsche da ANPOF

1 “Qualquer revisão crítica da Literatura Comparada em seu desenvolvimento histórico leva de imediato à percepção de que a disciplina sofreu, de meados dos anos 70 para o presente, considerável transformação, que poderíamos sintetizar, sem riscos de reducionismo, na passagem de um discurso coeso e unânime, com forte propensão universalizante, para outro plural e descentrado, situado historicamente, e consciente das diferenças que identificam cada corpus literário envolvido no processo de comparação”. (COUTINHO, 1996, p. 67)

2  Sobre a questão da interdisciplinaridade em literatura comparada, ver Coutinho, E. F. 2006, p. 44.

3 Alguns tradutores optam por utilizar o termo memórias ao invés de notas. No presente trabalho, utilizaremos o termo notas, conforme a tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira de Soares.

4 Homem do subsolo é uma noção que foi empregada primeiramente na obra de Dostoiévski, e posteriormente apropriada por Nietzsche para fazer referência ao homem do ressentimento. Este é o indivíduo da inércia, da incapacidade de agir, que cultiva o ódio, incapaz de se livrar das más lembranças, para o qual todos são seus antípodas.

5 Os ideais considerados nobres e elevados, tais como, pureza, amor ao próximo, comiseração etc.





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