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O CONCEITO DE “LINHA DE COR” EM DU BOIS E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE ANTIRRACISTA NA CONTEMPORANEIDADE
THE CONCEPT OF “COLOR LINE” IN DU BOIS AND ITS CONTRIBUTIONS TO THE ANTI-RACISM DEBATE IN CONTEMPORARY TIMES
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.70954.p192-205
Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar o conceito de “linha de cor” no debate antirracista contemporâneo, destacando sua relevância teórica e metodológica. Para isso, parte-se da obra As almas do povo negro, de W. E . B. Du Bois, enfatizando sua contribuição para a centralidade da categoria raça na sociologia. Metodologicamente, trata-se de um estudo qualitativo, teórico e analítico-descritivo, baseado na revisão bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos sobre relações raciais. Os resultados indicam que o conceito de “linha de cor” permite compreender as dinâmicas de desigualdade racial e marginalização estrutural na sociedade moderna, evidenciando sua interconexão com os processos históricos de escravidão, colonialismo e expansão capitalista. Conclui-se que as formulações de Du Bois seguem essenciais para os estudos sociológicos e para a formulação de políticas públicas voltadas à promoção da igualdade racial, além de fornecerem ferramentas metodológicas para mensurar avanços e desafios na luta antirracista global.
Palavras-chave: linha de cor; Du Bois; antirracismo; raça.
Abstract
This article aims to analyze the concept of the “color line” in the contemporary anti-racism debate, highlighting its theoretical and methodological relevance. It thus begins with an analysis of W.E.B. Du Bois' The Souls of Black Folk, emphasizing his contribution to the centrality of race as a category in sociology. Methodologically, the study is qualitative, theoretical, and analytical-descriptive, based on a bibliographic review of both classical and contemporary authors on racial relations. The findings indicate that the “color line” concept helps to understand the dynamics of racial inequality and structural marginalization in modern society, revealing its connection to the historical processes of slavery, colonialism, and capitalist expansion. The article concludes that Du Bois' formulations remain essential for sociological studies and for the development of public policies aimed at promoting racial equality, as well as providing methodological tools for measuring progress and challenges in the global anti-racism struggle.
Keywords: color line; Du Bois; anti-racism; race.
Introdução
O presente artigo objetiva discutir o conceito de “linha de cor” no debate antirracista contemporâneo, com ênfase nas contribuições de W. E. B. Du Bois. Inicialmente, abordamos a obra As almas do povo negro (Du Bois, 2021), destacando o caráter epistemológico das suas contribuições para a sociologia e o contexto histórico no qual Du Bois desenvolveu suas análises. Com isso, propõe-se a debater os processos em que ele identificou o racismo como a principal questão a ser enfrentada no século XX, reivindicando uma abordagem que não apenas expusesse as desigualdades raciais sistêmicas, mas também oferecesse uma metodologia rigorosa para estudá-las.
A partir disso, o artigo explora a construção do conceito de linha de cor, uma metáfora que Du Bois utiliza para evidenciar a divisão racial nos Estados Unidos, mas que também possui implicações globais no entendimento do racismo e da desigualdade racial.
Para isso, busca pôr em tela, como Du Bois centraliza a categoria da raça em suas análises sociológicas, propondo que ela é fundamental para se compreender a dinâmica de opressão, marginalização e exclusão dos negros na sociedade americana, e por extensão, nas sociedades colonizadas e pós-coloniais.
Em seguida, a discussão avança para a emergência do movimento antirracista, que se fortaleceu globalmente a partir da segunda metade do século XX. Visto que este movimento, fundamentado nas ideias de Du Bois, busca não apenas compreender a desigualdade racial, mas também desenvolver estratégias de ação política e ativismo social para superá-la.
Considera-se, portanto, a importância de uma abordagem interseccional que leve em conta as múltiplas dimensões da opressão, como gênero e sexualidade, e como a luta antirracista se insere no contexto mais amplo das transformações sociais contemporâneas.
O debate acadêmico atual, especialmente nos estudos pós-coloniais e decoloniais, destaca a necessidade de contextualizar o racismo dentro das estruturas históricas e culturais que o perpetuam, promovendo políticas públicas que valorizem a diversidade e a coexistência multicultural.
No que diz respeito a isso, o conceito de dupla consciência de Du Bois, que revela os conflitos internos e a percepção distorcida de si mesmos vividos pelas pessoas negras em uma sociedade racista, é um ponto central para entender o papel do engajamento político e acadêmico na luta pela superação das estruturas raciais opressoras.
Metodologicamente, o trabalho adota uma abordagem qualitativa e analítico-descritiva, revisitando a obra de Du Bois e os estudos subsequentes que aprofundam suas contribuições. A análise se dá a partir de uma revisão crítica dos textos e recortes teóricos que se alinham ao objetivo de investigar como o conceito de linha de cor e as ideias de Du Bois oferecem um arcabouço para o entendimento e a superação do racismo estrutural, tanto no passado quanto na contemporaneidade.
Du Bois e as almas do povo negro
Autor da obra As almas do povo negro, William Edward Burghardt Du Bois, nascido nos Estados Unidos, em 23 de fevereiro de 1868, dedicou sua vida às ciências sociais e foi engajado na luta pelos direitos civis da população afro-americana. Sobretudo, seus esforços como acadêmico e ativista estiveram concentrados nos debates sobre raça e racismo, assim como na denúncia do caráter estrutural das relações raciais nos Estados Unidos. Tal fato o consagra como um dos maiores intelectuais da causa no século XX, e um dos fundadores da sociologia no país (Martins Jr., 2020).
Sobre tais aspectos, podemos então traçar fundamentos teóricos de sua obra mais famosa, com o intuito de demonstrar elementos que nos forneçam subsídios para direcionar a questão do antirracismo na contemporaneidade a partir de um posicionamento epistemológico substancial em que Du Bois fundamenta e introduz a ideia da linha de cor.
Previamente, é pertinente apontar que a obra foi lançada no século XX, no ano de 1903, momento em que, nas ciências sociais, predominavam produções intelectuais de homens brancos, que tinham em suas obras, o ideal iluminista da Europa dos séculos XVIII e XIX, o que, consequentemente, reproduzia doutrinas que legitimavam o racismo científico (Albuquerque, 2021).
Desse modo, Du Bois, como homem negro, localiza-se em uma conjuntura na qual a inferiorização dos negros era naturalizada pela sociedade norte-americana. Contudo, essa realidade é confrontada nos EUA por ele, quando se consagra como o primeiro afro-americano a receber o título de PhD em Harvard.
Assim, o primeiro ponto importante consiste no formato de suas pesquisas, que o destacam como um sociólogo clássico ao ir de encontro à ideia biológica da inferiorização racial e visava transformar o fazer científico nas ciências sociais a partir da lente racial (Lewis, 1995). Conforme destaca Lewis (1995), suas contribuições tiveram grande impacto para a teoria sociológica e os estudos afro-americanos.
Portanto, um segundo ponto é que, para isso, ele parte dos pressupostos pertinentes às desigualdades sociais e raciais nos EUA, apontando que se trata de um problema de magnitude estrutural, tese comprovada a partir de análises objetivas e subjetivas em diversas dimensões, como culturais, políticas e econômicas, utilizando-se de métodos empíricos rigorosos, tais como a observação-participante e entrevistas (Du Bois 2021; Lewis, 1995; Martins Jr., 2020). Tendo isso em mente, como então, o seu trabalho mais famoso, As almas do povo negro, mostra-nos seus pilares teóricos-metodológicos?
As almas do povo negro
A obra em destaque, demonstra o cânone de Du Bois como um clássico da sociologia pela rigidez e robusteza em que ele denuncia uma realidade sociológica dos EUA, que no século XX, diante das leis Jim Crow[1], legitimava a segregação racial do país, o que encaminha seu horizonte para a dimensão estrutural do racismo (Morris, 2016).
Nesse sentido, trata-se de uma coleção de ensaios em que ele relata a vivência do povo afro-americano, destacando a questão do véu e a dupla consciência que o negro experiencia, aos quais podemos considerar instrumentos críticos de análise sociológica e cultural (Almeida, 2021).
Para isso, metodologicamente ele realiza uma combinação de abordagens: suas próprias narrativas pessoais como homem negro, análises de fatos históricos de luta e resistência das comunidades negras e formas literárias de apresentar suas reivindicações e denunciar o racismo norte-americano, o que expressa sua habilidade metateórica, ao combiná-las com questões universais e pessoais, com o uso de dados quantitativos e qualitativos oriundos também da observação empírica (Lewis, 1995).
Epistemologicamente, trata-se de uma atitude contra as abordagens dominantes da época, uma vez que retira a centralidade das narrativas brancas, proclamando uma sociologia, que se feita para os Estados Unidos e além, deveria compor as vozes afrocentradas. Com isso, podemos então adentrar em como ele organizou um modelo de pesquisa sociológica em torno da variável raça no livro em questão, que culmina no problema da linha de cor (Morris, 2016).
Como dito anteriormente, ele sistematiza esse modelo apresentando dois conceitos importantes. O primeiro definido como véu, que consiste em ocultar da sociedade a existência do ser negro, demarcando as relações raciais, especificamente nos EUA, em que a vida do branco e do negro se distinguem na forma de existir. Para ele, o véu seria a construção social da raça como condição existencial, que impede as pessoas pretas de serem vistas, ao mesmo tempo que as impedem de terem acesso ao mundo (Du Bois, 2021).
Aqui, ele manifesta a noção de raça como algo que vai além da discriminação racial por características físicas e biológicas, incorporando a questão da “alma”. Assim, o racismo, como resultante dessa condição, é um problema que abrange dimensões objetivas e subjetivas. O véu, que divide o mundo entre brancos e negros, é a condição da raça como projeto de dominação e do racismo praticado contra pessoas negras em diversos âmbitos. Então, para explicitar melhor, Du Bois descreve como funcionam esses dois mundos dentro e fora do véu.
Dentro do véu, estaria a experiência do povo afro-americano e seu histórico de luta e resistência, simbolizada pelas constantes injustiças e desigualdades raciais. Todavia, existe seu legado cultural e espiritual. Fora do véu, por sua vez, está o que hoje podemos considerar como pacto da branquitude (Bento; Carone, 2002). Em outras palavras, explica como o mundo é organizado estruturalmente para atender os interesses do sujeito branco, enquanto não há o reconhecimento da condição do negro (Du Bois, 2021).
A partir disso, ele introduz o conceito de dupla consciência, operacionalizado dentro do véu. Nele, a visão dessa sociedade racista reflete na percepção que os negros têm de si mesmos. A dupla consciência seria, portanto, a dualidade de um conflito que o negro sofre em que de um lado está sua identidade afro-americana e do outro sua identidade imposta pela branquitude (Du Bois, 2021).
Para Du Bois, reflete a sensação do ser negro a partir da visão de um Outro que constantemente o despreza. Desse modo, o que compõe a história dos EUA e sua relação com sua população afro-americana repousa na conciliação dessas duas realidades, e o maior desafio para o negro usufruir de sua cidadania plena é retirar o véu. Assim, ele reitera que isso é feito a partir da retomada de uma consciência de si e do engajamento no ativismo político e intelectual.
O conceito de linha de cor como instrumento de análise sociológica
Diante da construção desse modelo, no qual se combinam os conceitos de véu e dupla consciência, estabelece-se a linha de cor. Esta é a resultante desse cruzamento: sua materialização. Representa os limites, injustiças e barreiras em que o véu e a dupla consciência contribuem para naturalizar a condição do ser negro nos EUA e, por conseguinte, legitimar uma estrutura social baseada na segregação racial.
Portanto, a compreensão da segregação racial nos EUA, especialmente a partir da vivência da população negra, passa por uma articulação conceitual elaborada por Du Bois, que não apenas traduz a experiência subjetiva dos negros em uma sociedade estruturalmente desigual, mas também ajuda a entender como essa desigualdade se cristaliza socialmente.
É a partir desse entrelaçamento que a linha de cor — um limite simbólico e concreto que demarca a separação racial — torna visível a institucionalização de uma estrutura segregacionista: ela materializa os obstáculos, as barreiras e as injustiças cotidianas que mantêm os negros em posição de subalternidade, em que o véu e a dupla consciência operam como mecanismos que lhes dão legitimidade.
Sobre tais aspectos, a linha de cor se configura como um conceito que denuncia o racismo em todas as dimensões do mundo social, político, objetivo, subjetivo e metafisico, que ordena as relações entre os indivíduos e suas instituições.
Podemos, então, pensar como Du Bois contribui para a sociologia frente a esse viés do desenvolvimento da linha de cor e seu uso como instrumento de análise sociológica. No livro As almas do povo negro, por exemplo, para construir tais conceitos, ele se utiliza do método histórico ao fazer um resgate em relação a como se deu a segregação racial no país. Dessa maneira, aponta e identifica os processos de abolição da escravidão e a institucionalização do regime Jim Crow como ponto de emergência da linha de cor, uma vez que existiria limites na sociedade norte-americana em que a população afro-americana não poderia ultrapassar (Chandler, 2014).
A partir desse fenômeno, o racismo se justificava em suas diversas dimensões, manifestando-se na educação, nas escolas, nos espaços públicos, na segregação dos bairros e nos transportes. Como consequência, essas desigualdades aprofundam as assimetrias raciais, contribuindo para a marginalização econômica da população negra e limitando suas oportunidades diante da escassez de oportunidades.
Com isso em vista, Du Bois articula métodos sociológicos para observar a realidade da população negra nesses vários aspectos da sociedade, com o intuito de explicar que a desigualdade racial e econômica nos EUA no século XX era um problema da linha de cor. Em The Study of Negro Problems, de 1898, ele investiga a realidade social e as condições de vida da população negra, apropriando-se de processos qualitativos por meio da interdisciplinaridade — ao usar, por exemplo, técnicas de pesquisa das áreas da antropologia, história e economia —, bem como quantitativos, ao operar seus resultados com dados estatísticos (Du Bois, 1898).
Assim, sendo a linha de cor as barreiras sociais institucionalizadas e impostas na vida social, ela pode ser usada como instrumento para observar como o racismo e a divisão racial se sustentam, como se manifestam e como podem ser superadas, uma vez que ela explica como a questão da raça é manipulada em diferentes searas da sociedade (Chandler, 2014; Du Bois, 2021).
Por exemplo, ela auxilia na investigação de questões como estratificação social, discriminação, espacialidades, segregação, diferentes formas de racismo, disparidades econômicas, construção da identidade e manifestações culturais. Além disso, também pode abranger aspectos da política, justiça, cultura, educação, criminalidade, economia, gênero, sexualidade e meio ambiente, entre outros.
Para tanto, demonstra que não se reduz apenas para entender e desafiar o problema do racismo, da segregação, discriminação e desigualdade racial, mas da sociedade em sua totalidade como um organismo funcional, das questões voltadas aos seus valores, tradições, comportamentos, formas de interação e de organização política, econômica e social.
A expansão do debate e do movimento antirracista na contemporaneidade e o pioneirismo de Du Bois
Du Bois evidenciava que o maior problema dos Estados Unidos no século XX era o racismo, e o maior desafio para a população afro-americana consistia na retirada do véu que era um obstáculo para a emancipação. E, a partir disso, teriam suporte para transcender a linha de cor por meio do engajamento do movimento negro em processos políticos e no ativismo social. Podemos, então, considerar o antirracismo e a composição de sua agenda não só voltada para a sociedade norte-americana, mas abrangendo o mundo todo, cuja emergência forte se deu a partir da segunda metade do século XX. Com isso, Du Bois e sua obra receberam o reconhecimento merecido, tornando-se referência fundamental nas discussões sobre a promoção da igualdade racial e consolidando-se como um cânone na sociologia.
Tendo isso em vista, o antirracismo está ligado aos pensamentos e ações voltadas para o combate ao racismo e suas distintas problemáticas mundiais internalizadas nas estruturas sociais, sendo uma delas a própria formação das relações entre Sul Global e Norte Global e suas assimetrias. De acordo com Bonnett (2000), é um fenômeno com processos diversos e complexos em âmbitos políticos e sociais. Para ele, é importante ter em mente as ampliações e abordagens em sociedades ocidentais e não-ocidentais, geralmente interligadas com movimentos reivindicatórios em todo o mundo.
Nesses debates, vemos que a linha de cor, não se restringindo apenas aos EUA, revela as profundas desigualdades raciais que surgiram dos processos de expansão colonial europeia. Esses processos não apenas legitimavam a escravidão e a exploração global sob o pretexto de uma missão civilizadora, mas também carregavam um caráter racial intrínseco, pois servia para justificar a inferiorização dos povos nativos dos continentes colonizados. Como Du Bois argumentou, a questão racial e a linha de cor são centrais para entender a dinâmica de poder e opressão no mundo moderno, onde o colonialismo europeu perpetuou e institucionalizou a hierarquia racial global, especialmente ao tratar, por exemplo, de questões econômicas, em que estudiosos afastavam o fato de a desigualdade ter relação direta com a variável racial, e as implicações resultantes disso, legitimadas pela dimensão estrutural em sua totalidade.
Diante dessas denúncias, a obra dele evidencia que a exploração da população afro-estadunidense no mercado de trabalho não é um subproduto acidental do capitalismo, mas sim um elemento estrutural que reforça a hierarquia racial como parte do próprio funcionamento do sistema. O racismo, nesse contexto, não atua de forma isolada, mas como um operador estratégico que permite ao capitalismo maximizar lucros por meio da segmentação racial da força de trabalho.
Trabalhadores negros são historicamente direcionados aos postos mais precarizados, com menores salários, menor proteção social e limitada mobilidade profissional, o que reduz os custos da produção e amplia a margem de lucro das elites econômicas, por exemplo.
O racismo institucionalizado, por sua vez, age como engrenagem dessa lógica ao moldar as instituições — como o sistema de justiça e as políticas educacionais — para manter essa desigualdade, ao negar uma educação de qualidade e equitativa ou ao reforçar práticas judiciais seletivas e punitivistas. Dessa forma, o Estado contribui para que grande parte da população negra permaneça em posições que a impeçam de ascender socialmente. Dessa forma, a reprodução da desigualdade racial não é apenas tolerada, mas necessária à sustentação de uma ordem capitalista racializada, em que o privilégio branco se consolida também como vantagem econômica (Almeida, 2009).
Ao reconhecer essa realidade, o movimento antirracista busca mobilizar pensamentos e práticas voltadas para a erradicação do racismo, concentrando-se no desenvolvimento de formas de identificação de sua manifestação e de sua superação (Bonnett, 2000; Almeida, 2009). Com esse horizonte, seu uso se expande com levantes de emancipação a partir da década de 1960, com protestos antirracistas, antissexistas e anti-homofóbicos (Bonnett, 2000).
Diante desses cenários, com o ideal antirracista, observa-se como a retirada do véu se torna essencial nas lutas emancipatórias, o que ilustra a necessidade de expor as realidades ocultas da opressão racial. Essa revelação não apenas ressoa profundamente na negritude, mas também se destaca pelas interseccionalidades com gênero e sexualidade, ganhando espaço nos movimentos sociais. As lutas emancipatórias, portanto, são fortalecidas pela compreensão dessas múltiplas camadas de identidade e opressão, promovendo uma solidariedade mais ampla e inclusiva.
Na Europa, o sociólogo francês Pierre-André Taguieff (1988) buscou evidenciar a relação entre antirracismo e racismo e suas contradições, em que ele pontua que o antirracismo é um problema do Ocidente, resultante de pensamentos e ações de intelectuais ocidentais ao longo do tempo. Nos estudos não-ocidentais, por sua vez, o antirracismo é trabalhado por intelectuais que se situam nas abordagens pós-coloniais/decoloniais, nos estudos subalternos e culturais, presentes no que compõe majoritariamente grupos que partem da experiência no Sul Global (América Latina, África e Ásia), embora esses também se façam presente nos centros do Ocidente.
Em geral, buscam explicar o antirracismo por meio da (des)construção de narrativas que permitem localizar as relações entre raça e racismo, etnicidade, identidade, cultura e multiculturalismo e suas implicações em torno das diferenças, principalmente no que concerne aos diversos significados que são atribuídos ao racismo (Fanon, 2008;
Said, 1978; Bhabha, 1994; Guimarães, 1999; Houfbauer, 2003; Munanga, 2004; Costa, 2006). Assim, tais noções precisam estar articuladas com as configurações históricas e sociais iniciadas por meio da colonização, em que inicialmente a ideia de raça como instrumento de controle do Ocidente se torna mecanismo legitimador de uma estrutura escravocrata e consequentemente racista (Quijano, 2000; Mignolo, 1998; Spivak, 2010; Hall, 2016).
Dessa forma, esse processo também permite pensar o antirracismo e os conflitos raciais em diferentes conjunturas e aspectos sociopolíticos e culturais, assim como permite verificar seu avanço por meio do desenvolvimento de políticas antirracistas no cenário internacional. Tais debates, no aspecto transnacional, enfatizam os processos globais em torno da diversidade cultural, em que o reconhecimento da diferença, seus condicionamentos históricos de racialização e etnização social possibilitam a valorização e a formulação de políticas públicas identitárias e culturais que permitem a coexistência multicultural (Cabecinhas; Amâncio, 2004; Fassin, D.; Fassin, E., 2009).
Eles demonstram a preocupação sobre como a dupla consciência opera de maneira distinta em diferentes sociedades que sofrem com a divisão e a desigualdade racial, moldadas por um mundo social construído pela branquitude. Nesse contexto, emergem debates sobre a valorização e emancipação de identidades e legados culturais historicamente marginalizados e oprimidos.
E, além desse reconhecimento, mobiliza questões fundamentais para a promoção de alternativas que transcendem as barreiras impostas pela linha de cor em convergência com o que Du Bois proclamava: pela necessidade de um posicionamento ativo através do debate acadêmico, do engajamento político e do ativismo emancipatório, sugerindo que estas são vias essenciais para desafiar e superar as estruturas raciais opressoras.
Considerações finais
O presente artigo teve como proposta enfatizar a importância e a evolução do pensamento antirracista, destacando as contribuições de W.E.B. Du Bois em As almas do povo negro e seu modelo da linha de cor. Com isso, e como um dos principais intelectuais do século XX, ele introduziu conceitos cruciais para a análise do racismo e das desigualdades raciais, que nos oferece perspectivas metodológicas e de análise com a centralidade da categoria raça.
Sobre tais aspectos, a linha de cor refere-se à divisão racial, enquanto a dupla consciência nos descreve a experiência dos negros que veem a si mesmos por meio dos olhos de uma sociedade que tem na sua estrutura lógica de interações racistas. Nesse sentido, esse conceito demonstra o caráter subjetivo e os conflitos internos dos sujeitos vítimas do racismo.
Para tanto, o uso da metáfora do véu em sua obra evidência a ignorância e a indiferença da sociedade branca em relação à realidade vivida pelos negros. Tendo isso em vista, o movimento antirracista ganha ímpeto, não apenas nos EUA, mas globalmente, especialmente na segunda metade do século XX, e compreende as múltiplas manifestações e interligações do racismo, principalmente da sua relação com a expansão colonial europeia, a escravidão e a formação do sistema capitalista de produção, que institucionalizaram uma hierarquia racial.
Ao mesmo tempo, Du Bois é reconhecido pela relevância de estudos pós-coloniais, culturais e decoloniais, especialmente aqueles desenvolvidos por intelectuais do Sul Global, como na América Latina, e dos demais movimentos sociais, que exploram a (des)construção de narrativas raciais e novos discursos de empoderamento, conscientização e mobilização política. Sobretudo pela denúncia da dupla consciência e do pacto da branquitude, que é vital para a busca da superação do racismo estrutural.
Com esse horizonte, Du Bois e sua agenda de pesquisa são fundamentais para a compreensão de como fazer pesquisa sociológica rígida, em que o componente da raça, como uma categoria central, direciona a construção de metodologias, e o desenvolvimento das análises e de apuração de dados de maneira interdisciplinar, com formas quantitativas e qualitativas. Em especial, ao versar sobre relações étnico-raciais e todas as dimensões que elas englobam, sua principal função é nos oferecer mecanismos de identificação do racismo em suas formas objetivas e subjetivas, principalmente quando suas fronteiras não estão bem definidas e/ou delimitadas, como em casos de desigualdade econômica, marginalização cultural, práticas preconceituosas e estereotipadas, ausência de oportunidades etc.
Tais fatos podem ser demonstrados com a coleta de dados que partem de desenhos de pesquisa rigorosos que sustentam o viés de como o racismo em todos os níveis e dimensões da estrutura social geram a desigualdade racial e marginalização de populações afrodescendentes. E com isso, também elucidar todos os outros problemas que pairam em torno disso.
Paralelamente, os mesmos métodos, ao usar a centralidade de raça, podem ser utilizados para investigar, compreender e mensurar os avanços que a luta antirracista tem proporcionada mediante a busca pela igualdade racial, além de ser o motor para o uso de estratégias de conscientização da sociedade em diferentes âmbitos, como o político, econômico e cultural.
Em relação a outros formatos, como a exemplo do antirracismo como movimento de militância e ativista, Du Bois deixa sua sabedoria no que concerne à luta contra a exploração do sistema capitalista e do engajamento focado na conscientização sobre o que é o racismo e como ele opera em consonância com esse modo de produção hegemônico, em que não podem estar em caminhos opostos, mas difusos, uma vez que o capitalismo e as bases que sustentam sua lógica naturalizam e legitimam uma estrutura que põe negros e não-brancos às margens e fora de um sistema de privilégios, sustentando-o ao mesmo tempo.
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Recebido em: 30/07/2024.
Aceito em: 20/05/2025.
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.70954.p192-205
* Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/UEPB), Brasil. Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brasil. E-mail: ewertonsantosri@gmail.com.
[1] Regime segregacionista estabelecido em 1876 nos EUA, ao qual determinava leis e espaços específicos para brancos e negros na sociedade, assim como pela participação política e econômica discriminada (Pereira, 2019).
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