EXPERIÊNCIA ESTÉTICO-POLÍTICA DE EXU NO DESFILE DE CARNAVAL: racismo e intolerância religiosa na encruzilhada[1]

 

AESTHETIC-POLITICAL EXPERIENCE OF EXU IN THE CARNIVAL PARADE: racism and religious intolerance at the crossroads

 

Antonio Carlos de Souza *

Tania Hoff **

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.72292.p28-46

 

Resumo

Neste artigo, abordamos o racismo religioso manifesto em relação a Exu, divindade iorubá, em comentários de leitores que reverberam o conteúdo de matérias jornalísticas, veiculadas em portais digitais, sobre o desfile da Acadêmicos do Grande Rio em 2022, cujo samba enredo homenageou Exu. Desenvolvemos análise crítica e interpretativa do racismo religioso, observando aspectos estético-políticos na socialização do sensível em comunidade. Mobilizamos autores das pedagogias exúlicas, Willian (2019) e Rufino (2020), estabelecendo diálogo com Rancière (2009) e DaMatta (1984). Os resultados demonstram que a visibilidade de Exu no espaço midiático possibilita a desconstrução de estereótipos e novas perspectivas de existência, (re)existência e autorrepresentação.

Palavras-chave: racismo religioso; partilha do sensível; diáspora africana; religiões afro-brasileiras.

 

Abstract

In this article, we address the manifest religious racism in relation to Exu, performed by Yoruba deity, in comments from readers who echo the content of news articles, published on digital portals, about the Acadêmicos do Grande Rio parade in 2022, whose samba plot paid homage to Exu. We develop a critical and interpretative analysis of religious racism, observing aesthetic-political aspects in the socialization of the susceptible sensitive in community. We mobilize authors of Exulic pedagogies, Willian (2019) and Rufino (2020), establishing a dialogue with Rancière (2009) and DaMatta (1984). The results demonstrate that the visibility of Exu in the media space enables the deconstruction of stereotypes and new perspectives of existence, (re)existence and self-representation.

Keywords: religious racism; distribution of the sensible; African diaspora; Afro-Brazilian religions.

 

Laroyê, Exu![2]

 

Introdução

 

Exu, divindade iorubá (nagô), é orixá responsável pela comunicação, guardião das ruas e do comportamento humano. Aportou no Brasil juntamente com os negros que navegaram pelas rotas do Atlântico Negro (Gilroy, 2001), processo histórico conceitualmente denominado “diáspora africana”. As reflexões apresentadas neste artigo somam-se a outras realizadas no contexto de crescente debate sobre preconceitos contra religiões de matriz afro, notadamente, o candomblé e a visibilidade que a figura de Exu tem conquistado na mídia. A visibilidade midiática do orixá se expressa no desfile de carnaval do Rio de Janeiro em 2022, quando a Escola de Samba Fluminense Acadêmicos do Grande Rio abordou o racismo religioso, e sagrou-se vencedora com o enredo Fala, Majeté! Sete chaves de Exu, criado e produzido pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad (Cf. Talarico, 2022).

O preconceito contra Exu se manifesta de várias formas, muitas vezes enraizado em estereótipos negativos e na desinformação sobre sua natureza. Exu, erroneamente associado a figuras malignas e demoníacas, sofre com a intolerância religiosa que persiste na sociedade brasileira. Este preconceito é alimentado por uma história de colonização e evangelização forçada, que demonizou práticas religiosas africanas e suas divindades. O desconhecimento, que se expressa na visão distorcida de Exu, perpetua a marginalização das religiões de matriz africana e reforça as barreiras de racismo e intolerância que os praticantes enfrentam no cotidiano.

O documentário Exu Rei Abdias Nascimento (Silva, 2017), que aborda a influência desse arquétipo da cultura negra e sua assimilação pela arte brasileira e também homenageia Abdias Nascimento, ativista da causa negra — ator, poeta, dramaturgo e político —, alicerçou o processo de pesquisa exploratória para o desenvolvimento do artigo, que consiste em um levantamento sobre racismo no Brasil com foco em manifestações religiosas. O documentário ilumina aspectos comunicacionais envolvendo racismo, preconceito e intolerância religiosa, fundamentados por contextos políticos, ideológicos e valores que se mantêm em nossa sociedade desde o período colonial. Em um dos depoimentos apresentados no referido produto audiovisual, a ialorixá e sacerdotisa do candomblé, Mãe Meninazinha d’Oxum, fundadora do terreiro Ilê Omolu Oxum e uma das principais referências do candomblé no Brasil, explica:

 

Ele, o Exu, é o rei. Por conta do sincretismo, diz que Exu é o Diabo. Não tem nada a ver com Diabo, não conhecemos esse. Essa figura, a gente não conhece, mas conhecemos Exu, não tem nada a ver com Diabo, mas no sincretismo. Por isso que muita gente tem medo de Exu. Exu é um orixá tão bonito, sem ele a gente não faz nada, nada. (Silva, 2017)

 

A fala de Mãe Meninazinha d’Oxum acerca do sincretismo de Exu e do Diabo explicita as inter-relações na linguagem, aspectos estético-políticos e dinâmicas socioculturais na perspectiva do racismo religioso, problematizando o preconceito e os estereótipos produzidos a partir de valores da colonialidade. Explicita também uma “tecnologia de poder”, conforme concepção foucaultiana (Castro, 2009), pois o colonialismo produz sujeitos esvaziados de sua subjetividade, língua, religião, artes etc.. No que se refere às religiões de matriz africana, o processo de aculturação e de aniquilamento dos costumes vivenciados pelos povos escravizados funciona como tecnologia de poder. Para Almeida (2018, p. 40), “o racismo, enquanto processo político e histórico, é também um processo de constituição de subjetividades, de indivíduos cuja consciência e afetos estão de algum modo conectados com as práticas sociais”.

A partir desse cenário, definimos a seguinte questão-problema: como o racismo religioso se manifesta nos processos comunicacionais na perspectiva estético-política e de linguagem na socialização do sensível em comunidade? Assim, consideramos os vínculos entre comunicação, linguagem e as dinâmicas socioculturais, bem como a produção de ideologia, notadamente o racismo religioso, o preconceito linguístico e os estereótipos.

Quanto à metodologia, adotamos o procedimento Walkthrought, de caráter exploratório que consiste num trabalho netnográfico, envolvendo a coleta e a categorização de dados qualitativos para a análise. A partir de busca orgânica no Google, delimitada ao termo Exu Carnaval 2022, identificamos matérias que divulgaram Exu como tema de desfile na Sapucaí e, dentre aquelas em destaque na primeira página de busca do Google, selecionamos seis que promoveram comentários e, dentre os comentários produzidos a partir das seis matérias selecionadas, definimos o corpus a ser analisado. Deste modo, o corpus é formado por 30 postagens de leitores que comentaram matérias jornalísticas produzidas e veiculadas após a vitória da Escola de Samba do Grande Rio no Carnaval do Rio de Janeiro de 2022, nos Portais UOL, Globo – G1 e em dois canais do Youtube, Mais Carnaval e TV Brasil, no período de 1 de março a 1 de maio, ou seja, os dois meses subsequentes à realização do carnaval.

A primeira investida sobre o material coletado para o corpus envolveu pré-análise, leitura e escuta flutuante do material, deixando nos “invadir por impressões, representações, emoções, conhecimentos e expectativas” (Franco, 2008, p. 52), para a seguir, observar os comentários produzidos no chat de opinião a partir de cada matéria jornalística dos mencionados veículos de comunicação. No segundo momento de exploração do material empírico, nosso interesse recaiu sobre os comentários publicados, a interação e engajamento dos internautas, notadamente suas ideias e valores sobre Exu como tema central de escola de samba na Sapucaí. No terceiro momento de trabalho com o material coletado, desenvolvemos a análise do corpus com foco no preconceito religioso contra o candomblé, religião afro-brasileira formada a partir de tradições africanas trazidas ao Brasil pelos escravizados (Prandi, 2001), mapeando os significados atribuídos ao orixá Exu e suas representações, a partir da noção de “partilha do sensível”, de Rancière (2009).

Para a fundamentação teórica, mobilizamos autores dos estudos de racismo e das pedagogias exúlicas como William (2019) e Rufino (2020), estabelecendo diálogo crítico com autores dos estudos de linguagem, política, estética e cultura, dentre eles Rancière (2009) e DaMatta (1984).

Nos tópicos a seguir, abordamos aspectos simbólicos referentes à figura do orixá, desde sua mitologia, construções ideológicas coloniais e suas representações para as comunidades de terreiro, relacionando aos efeitos do racismo estrutural e religioso, à intolerância religiosa e aos estereótipos que estigmatizam a cultura negra. E, nas considerações finais, apontamos possíveis caminhos para uma linguagem estético-política inclusiva que permita desconstruir estereótipos, preconceitos raciais/religiosos e possibilite novas perspectivas de existência, (re)existência e autorrepresentação.

 

Exu: comunicador, guardião das ruas e do comportamento humano

 

O processo de colonização das Américas e a escravização dos povos africanos como mão de obra foram marcados por violências física e simbólica em nível desumano, explicitamente justificadas por meio de argumentos de ordem cultural, moral e religiosa, o que ofuscava o fator econômico, principal motivo para a colonização e a escravização. Aimé Césaire, ao refletir sobre a crueldade e a perversidade promovida, tanto pela colonização quanto pela escravização – duas faces da mesma moeda –, bem evidencia a destruição implicada nas duas práticas de dominação: “culturas pisoteadas, instituições solapadas, religiões assassinadas, magnificências artísticas destruídas, possibilidades extraordinárias suprimidas” (Césaire, 2020, p. 24-25, grifo nosso).

O apagamento cultural é procedimento inerente à dominação, de modo que as práticas culturais e religiosas são proibidas aos escravizados. Ainda que fosse possível preservar a cultura e a religião na memória, trata-se de condição muito precária para a transmissão e manutenção de crenças e costumes. Desse modo, o apagamento de divindades africanas, como o orixá Exu, desenvolve-se alicerçado em procedimentos de associação e deslocamento: no Brasil, o sincretismo religioso entre Exu e Diabo possibilitou a mescla de religiões de matriz africana com o catolicismo e formação de religiões afro-brasileiras como o candomblé (Prandi, 2001). Assim, os significados do orixá Exu foram apagados e/ou modificados, carregando fortemente as marcas de preconceito e desqualificação presentes em processos de dominação.

Exu é representado pelas cores vermelha e preta, carrega um tridente, sendo que algumas imagens do orixá apresentam chifres — por vezes em formato fálico — ou falos expostos, conforme a tradição de diferentes tribos africanas. Para o candomblé, esses elementos estão associados à encruzilhada, à força de luta — predisposição ao combate —, à fecundidade e à produção da vida, respectivamente. Por sua vez, no imaginário católico, o garfo, as cores vermelha e preta, os chifres e o falo são representações do mal, do inferno, a personificação do Diabo (signos demoníacos). Para Rufino,

 

ao praticar Exu enquanto demônio, reduziu-se a complexidade das culturas negro-africanas, esfacelaram-se modos de vida, visões de mundo, princípios explicativos e saberes necessários para a formação de uma sociedade que se oriente pela diversidade como princípio ético. Nesse sentido, o projeto colonial e sua agenda política assumiu a responsabilidade de passarmos — como na narrativa popular — a eternidade nas profundezas do inferno da negação de outras possibilidades. (Rufino, 2019, p. 51)

 

Outro aspecto relevante dessa relação sincrética estabelecida entre Exu e o Diabo refere-se à personalidade de Exu, orixá responsável pela comunicação, guardião das ruas e do comportamento humano, que tem características insurgentes e subversivas. Conforme as descrições míticas apresentadas por William (2019),

 

Exu é o princípio dinâmico, a comunicação, o movimento. Senhor da reciprocidade, da sociabilidade e de todas as relações. Mensageiro entre todos os mundos. Exu fala todas as línguas, come tudo que a boca come, bebe tudo que a boca bebe. Ordem e desordem do universo. Exu faz o erro virar acerto e o acerto virar erro. O mais humano dos Orixás vive nas encruzilhadas e mata um pássaro ontem com a pedra que atirou hoje. Exu é memória, é história, é vida. (William, 2019, p. 15)

 

Na mesma perspectiva, para Nascimento (2016, p. 30), Exu não é apenas o mensageiro, mas também o movimento de comunicar a mensagem. Ele não é apenas a figura da encruzilhada, mas também o movimento que se faz diante da multiplicidade de caminhos que a encruzilhada faz ver. Tais características corroboram a associação do orixá com o Diabo, promovida pela colonização portuguesa e seus valores europeus, de modo que a transposição da divindade iorubá para a cultura judaico-cristã resultou no apagamento de certos traços e na mudança de significados. Assim, Exu foi revestido de significados análogos àqueles do demônio cristão, tendo em vista que a influência exúlica poderia acarretar dificuldades no controle dos sujeitos escravizados. Estas construções simbólicas são apontadas como as responsáveis pelos casos de intolerância e racismo religioso. William (2019) assevera que

 

a percepção cristã não deu conta de alcançar os significados de Exu, por isso o orixá foi sincretizado com a figura do Diabo. Ao suportar uma infinidade de estereótipos racistas, Exu tornou-se uma espécie de síntese da demonização que toda cultura africana sofreu no Brasil. Com isso, todos os símbolos dessa tradição foram depreciados, da mesma forma que se deprecia até hoje todo trabalho negro (basta lembrar certas expressões, como “coisa de preto”, “serviço de preto”, “negócio com preto é um preto negócio” etc.). (William, 2019, p. 40)

 

A análise de William (2019) evidencia o fato de que as religiões de matriz africana são alvo de racismo, preconceito e discriminação até nossos dias, de tal modo que a análise dos comentários de internautas/leitores de matérias jornalísticas sobre Exu como tema de escola de samba mostra-se relevante para o entendimento das representações sociais e midiáticas da divindade iorubá.

No item seguinte, analisamos o corpus, composto por comentários vinculados às matérias jornalísticas que anunciavam a vitória da escola de samba fluminense Acadêmicos do Grande Rio, com o enredo Fala, Majeté! Sete chaves de Exu, considerando a presença de racismo, preconceito e estereótipos enunciados contra pessoas negras e religiões de matriz africana.

De modo geral, os comentários que compõem o corpus evidenciam dissensos, preconceitos, relações estético-políticas estabelecidas em comunidade e formas de autorrepresentação. Para o ator, roteirista e escritor luso-guineense Welket Bungué,

 

a autorrepresentação, enquanto conceito e atitude, é uma forma de desconstruir preconceitos, de empoderar vozes vulnerabilizadas e de entender o mundo sob uma perspectiva mais livre, onde nossa participação, onde quer que seja, é feita a partir de um olhar com propriedade sobre as coisas nas quais nós intervimos, sobre as temáticas, sobre a nossa agenda política comunitária e que também afeta esta comunidade global da qual fazemos parte. (Esteves; Oliveira; Lima; 2022, p. 310)

 

Uma vez que a nossa imagem, o nosso corpo, a nossa voz e o nosso conhecimento conformam nosso entendimento do mundo, a autorrepresentação possibilita uma mudança fundamental, de modo que o indivíduo sai da posição de objeto e passa à condição de sujeito de suas próprias narrativas, produzindo novas imagens, novas linguagens e outras subjetividades sobre si, sua cultura e religião.

 

Comunicação, estética e política: partilha do sensível

 

O espetáculo produzido pela Escola de Samba Grande Rio na Marquês de Sapucaí suscitou o debate no espaço público — interações sociais em presença ou por redes sociais — acerca de conflitos religiosos na sociedade brasileira. Manifestações e ataques racistas contra as comunidades tradicionais de terreiro (CTTro) ainda são práticas comuns no Brasil: circulam na cena midiática desde relatos de ofensa verbal até notícias de invasão e destruição dos espaços religiosos.

Em 2019, os integrantes de um grupo denominado Bonde de Jesus (Cf. Estado de Minas, 2019), formado por oito traficantes, foram presos na baixada fluminense, após se converterem à religião pentecostal e iniciarem atos de intolerância racial e religiosa. Comentários preconceituosos e ameaças contra religiões e outras manifestações culturais de matriz africana, como o samba, a capoeira e a congada, são comumente encontrados nas redes sociais e, não raro, trazem referências ao demônio.

Após a vitória da Acadêmicos do Grande Rio, que teve Exu como tema do samba enredo e trouxe o orixá na comissão de frente, os veículos de comunicação publicaram diversas matérias e veicularam imagens do desfile, na sua maioria, exaltando a coragem da escola e a originalidade do tema. No ambiente digital, foi expressivo o número de comentários elogiando o espetáculo, mas também foi igualmente significativa a onda de ataques contra a figura do orixá. Juntamente com a visibilidade conferida a Exu, emergem discursos que reiteram os preconceitos religioso e racial, bem como reforçam estereótipos relativos à cultura africana, materializados nos enunciados que desqualificam Exu e a comunidade de terreiro.

O preconceito contra as religiões de matriz africana está associado ao preconceito racial perpetuado em nosso país. Nessa perspectiva, é importante ressaltar que, “embora haja relação entre os conceitos, o racismo difere do preconceito racial e da discriminação racial” (Almeida, 2018, p. 26), pois o preconceito racial baseia-se em estereótipos relativos a pessoas de determinados grupos racializados, podendo ou não ser de cunho desqualificador. Atribuir certas características a negros, judeus ou orientais baseado no fator raça é exemplo de preconceito: assim, é manifestação de racismo justificar a agressão a um negro por considerar que os negros são violentos ou admirar um oriental porque os orientais são inteligentes.

No corpus selecionado para análise, observamos expressiva presença dos preconceitos racial e religioso que se justapõem, apresentando-se como a dupla face da mesma moeda. A visibilidade conferida a Exu no desfile da escola campeã do carnaval do Rio em 2022 deixa entrever tensionamentos que se expressam em comentários elogiosos e enaltecedores da cultura e religião africanas, mas também em comentários que explicitam preconceito e discriminação de manifestações culturais de origem africana.

A seguir, apresentamos um quadro, no qual agrupamos informações — título, veículo e data de publicação — sobre as seis matérias jornalísticas, a partir das quais os internautas/leitores tecem comentários sobre o fato de Exu ser tema de samba enredo na Sapucaí e ser uma divindade caracterizada pelo sincretismo religioso.

 

Quadro 1 – Matérias jornalísticas que geraram comentários por parte do público leitor

 

Matéria jornalística

Canal digital

Data publicação

1. “Exu não é Diabo”: saiba quem é orixá mensageiro da Grande Rio

Portal Globo - G1 (2022a)

24/04/2022

2. Fala, Majeté! Sete chaves de Exu: entenda o enredo da Grande Rio, campeã do Carnaval do RJ

Portal Globo - G1(2022b)

26/04/2022

3.Exu da Comissão de Frente da Grande Rio no desfile das campeãs do Carnaval 2022

YouTube

(Exu, 2022)

01/05/2022

4. Com Exu, Grande Rio é campeã do carnaval do Rio pela primeira vez

YouTube (Com Exu, 2022)

26/04/2022

5. Quem é Exu, a entidade que abre os caminhos da Grande Rio no Carnaval 2022?

UOL

(Talarico, 2022)

23/04/2022

6. O Carnaval "empretecido" que libertou Exu

UOL (O Carnaval, 2022)

26/04/2022

Fonte: Elaborado pelos autores

 

As chamadas jornalísticas enaltecem a vitória da Acadêmicos do Grande Rio, destacam a importância de se abordar o “racismo religioso” atualmente, e dão visibilidade a questões raciais. A matéria 1, por exemplo, informa que “Exu não é o Diabo”, esclarecimento necessário em tempos de desinformação e manifestações de ódio contra grupos estigmatizados na mídia, notadamente na digital. Na mesma linha argumentativa, que privilegia a informação, a chamada das matérias 2 e 5 enunciam: “Fala Majeté (...) entenda o enredo da Grande Rio” e “Quem é Exu”, promovendo espaço para a interlocução e esclarecimento acerca do orixá. Já as chamadas das matérias 3 e 4 conferem visibilidade para Exu, deslocando seu nome do terreiro de candomblé para a festa das campeãs do carnaval. Esse deslocamento coloca as religiões de matriz africana, bem como suas divindades — notadamente Exu —, num espaço outro, promovendo uma alteração nos sentidos comumente atribuídos ao orixá e, ao mesmo tempo, abrindo possibilidades outras de produção de sentidos e de ação no mundo.

Conforme postula Rancière, a noção de “partilha do sensível” implica “um sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas” (Gomes, 2009, p. 6). Deslocar Exu do sincretismo religioso, que o associa ao Diabo, e apresentá-lo no contexto das religiões de matriz africana, com todo o significado e complexidade que o reveste como uma divindade, evidencia uma partilha do sensível, na medida que define quem participa do comum.

Outro aspecto implicado na noção de “partilha do sensível” diz respeito ao fato de que o desfile de escolas de samba no carnaval, uma festa popular, estabelece um elo entre arte e política, tal como explica Rancière. Ou seja, os desfiles das escolas constroem um sistema de evidências sensíveis para divulgar outros entendimentos acerca de Exu e torná-los comum. A performance do personagem Exu na apresentação do desfile das escolas de samba suscita a partilha do sensível, pois amplia as possibilidades de interação e conhecimento da divindade que, tal como se apresenta na avenida, em muito se diferencia dos sentidos e significados atribuídos a ele no processo de sincretismo religioso.

Nessa perspectiva, o conceito “encruzilhadas”, proposto por Rufino (2019), auxilia a evidenciar como se dá a partilha do sensível quando se desloca Exu do terreiro de Candomblé para o samba enredo/desfile de carnaval no sambódromo. Conforme Rufino, as encruzilhadas servem para “credibilizarmos as ambivalências, as imprevisibilidades, as contaminações, as dobras, atravessamentos, os não ditos, as múltiplas presenças, as sabedorias e linguagens, ou seja, as possibilidades” (Rufino, 2019, p.15). Ainda segundo Rufino, “o conceito de encruzilhada combate qualquer forma de absolutismo” (2019, p.15), e sua potência se expressa naquilo que o autor denomina “cruzo”, ou seja, “o devir, o movimento inacabado, saliente, não ordenado [...] o cruzo versa-se como atravessamento, rasura, cisura, contaminação, catalisação, bricolagem” (2019, p. 15-16).

Assim, o autor brasileiro postula que a “encruzilhada” e seus “cruzos” possibilitam “a transgressão dos regimes de verdade mantidos pelo colonialismo” (Rufino, 2019, p.16). A homenagem a Exu no desfile de uma escola de samba no atual momento sócio-histórico do Brasil, quando emergem o conservadorismo e ideias da extrema direita, expressa as ambivalências de nossa época. Exu na avenida do samba desloca ou amplia os sentidos da partilha do sensível provida pela colonialidade: assim, tanto evidencia os preconceitos enraizados pela razão totalitária inerente ao processo de colonização e pela manutenção de valores coloniais, como também movimenta e promove entrecruzamentos/cruzos de sentidos outros, sejam de natureza religiosa, sejam estéticos-políticos.

Nessa linha de interpretação, se os preconceitos racial e religioso se apresentam como uma dupla desqualificação, os novos sentidos que emergem no cruzo da estética e da política abrem frestas e possibilidades de leitura — ou vislumbre — de outros mundos, outras existências e outras formas de invenção e re-invenção da vida em sociedade. No corpus analisado, há comentários que expressam uma leitura positiva da presença do orixá na festa carnavalesca e sugerem uma partilha do sensível fora da lógica da polícia.

Por sua vez, de modo geral, os comentários dos leitores revelam mais preconceito que conhecimento das características da divindade do candomblé, o que nos instiga a questionar quanto deslocamento de sentido é necessário para que tenhamos novas partilhas do sensível. Tal como se apresentam, os comentários referentes às notícias jornalísticas evidenciam maior intensidade de dissenso e, portanto, mais preconceito e intolerância religiosa.

Para Rancière:

 

O dissenso no sentido mais ordinário do termo: uma perturbação no sensível, uma modificação singular do que é visível, dizível, contável. O dissenso tem assim por objeto o que chamo o recorte do sensível, a distribuição dos espaços privados e públicos, dos assuntos de que neles se trata ou não, e dos atores que têm ou não motivos de estar aí para deles se ocupar. Antes de ser um conflito de classes ou partidos, a política é um conflito sobre a configuração do mundo sensível no qual podem aparecer atores e objetos desse conflito. (RANCIÈRE, 1996, p. 372-373)

 

O dissenso se apresenta em comentários que evidenciam o sincretismo do orixá com a figura do Diabo manifestos na visão de mundo de evangélicos e católicos por meio do emprego de passagens bíblicas e da ironia, procedimentos retórico-argumentativos que buscam desqualificar e invalidar as manifestações favoráveis ao espetáculo do desfile da Acadêmicos da Grande Rio no sambódromo. São exemplos, os seguintes enunciados extraídos das matérias jornalísticas que compõem o corpus (ver quadro 1):

a) “Pelos comentários dá pra sacar que estão presos pelo cabresto de lúcifer: o dízimo, bora ler gibi que é mais lucro!!!!”;

b) “Sem nenhum preconceito. O cara disse que Exu abre portas, traz prosperidade e na África todo mundo clama Exu. E desde quando alguém adota África como exemplo de prosperidade?”; e

c) “Graças a deus campeão? Nada contra o que fizeram até pq vivemos em uma ‘democracia’ mais agradeça a seus exu existe dois lados e aposto como esse exu e essas entidades africanas jamais compartilha o mesmo caminho do senhor Jesus Cristo”.

O dissenso, expresso por meio do discurso religioso (menção a Jesus Cristo, por exemplo) e discursos de ordem política (valores econômicos/pobreza da África e democracia), fundamenta-se no senso comum e na generalização. No caso do discurso religioso, observamos valores binários em comentários que valorizam uma religião em detrimento de outra, ou ainda, a ideia de que há um deus melhor que outro; já no que se refere aos discursos políticos, o fato de a África ser um dos continentes mais pobres do mundo torna-se argumento para desqualificar manifestações culturais e divindades africanas.

No corpus analisado, também identificamos discursos de ódio, de intolerância religiosa, presentes em enunciados que desqualificam Exu e as religiões de matriz africana. Por exemplo:

a)“O que as pessoas não fazem por 15 minutos de fama...até exaltar lixo de exu, pomba gira e outras tranqueiras! O meu DEUS é mais!!!”;

b) “Sangue de Jesus tem poder...”; e

c)“Depois reclamam das tragédias uma após a outra”.

Nessas sentenças, o preconceito é explicitado pela desvalorização de Exu em relação aos deuses de religiões que não são de matriz africana, evidenciando intolerância religiosa, já que o Brasil é um país com liberdade de credo.

Concebendo o carnaval como um megaevento, um show com finalidade de entretenimento, o dissenso presente no corpus analisado reitera o preconceito, pois são manifestações de sujeitos que marcam posição na disputa por espaços e valores, o que pode ser entendido como uma perturbação na ordem do sensível. Apesar de o direito ao culto ser reconhecido constitucionalmente no Brasil, observamos uma condição opaca em relação ao Estado laico e democrático de direito.

Na arena discursiva que o corpus materializa, os comentários positivos caracterizam uma partilha do sensível, pois qualificam o desfile e Exu como tema de samba enredo, ressaltam a importância da diversidade, da necessidade de conhecimento e respeito pelas tradições religiosas de matriz africana. São exemplos:

a) “Uma das melhores performances de EXU que eu já vi. Parabéns!”;

b) “Nunca foi sorte, sempre foi Exu. Vitória cheia de axé e em boa hora. Salve grande rio, salve Exu!”;

c) “Exu abriu os caminhos da Grande Rio. Vitória merecida”; ou ainda

d) “Vim dá risadas dos comentários dos crentes. Salve Exu!”.

As manifestações de dissenso mostram-se ancoradas no sincretismo religioso, mas também no desconhecimento da religião e da cultura africanas, promovidos pelo preconceito, que reduz o entendimento dos processos sociais e reforça a ideia de superioridade de um grupo social em relação a outros. O preconceito religioso está alicerçado na compreensão de que certos grupos são melhores que outros; daí a ideia de que o deus de uma religião pode ser melhor que o deus de outra. Tal organização do mundo, ou da experiência sensível do mundo, implica questões de ordem política e estética.

 

Carnaval, espetáculo do terreiro

 

As questões estético-políticas encontram-se imbricadas nos elementos que compõem o desfile da Acadêmicos do Grande Rio, os quais entrelaçam arte e política, o que nos permite debater questões problematizadas por Rancière (2009) e DaMatta (1984), na ordem da estética, da política e da cultura.

Em O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer, DaMatta (1984) explora os significados e a importância da festa carnavalesca para o povo brasileiro. Para DaMatta, o carnaval brasileiro não se representa por máscaras, e o melhor termo a ser utilizado seria “fantasia”, concebida como algo mais abrangente que envolve os seguintes aspectos: primeiro, como vestimenta utilizada para construção das alegorias e dos personagens; segundo, a fantasia enquanto a possibilidade de ficcionar e de criar mundos possíveis. Sobre a segunda possibilidade, DaMatta argumenta que,

 

a fantasia liberta, desconstrói, abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite e ajuda o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano torna proibitivo com as repressões da hierarquia e dos preconceitos estabelecidos. É a fantasia que permite passar de ninguém a alguém; de marginal do mercado de trabalho à figura mitológica de uma história absolutamente essencial para a criação do momento mágico do Carnaval. (DaMatta, 1984, p. 66)

 

Para Rancière, a política tem uma dimensão estética e representa uma forma do exercício do poder, pois a política e a estética são maneiras de organizar o sensível. Por meio da política e da estética, são produzidas formas de se fazer entender, de ser visto e de construir visibilidade e inteligibilidade dos fatos. O conceito de “partilha do sensível”, elaborado por Rancière, descreve a formação da comunidade política com base no encontro discordante das percepções individuais. Para ele, a política é notadamente estética, e se constitui no mundo sensível, assim como as expressões artísticas. Segundo o referido autor, a estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de modo a possibilitar o entendimento e a visão de mundo, bem como a construção da visibilidade e da inteligibilidade dos acontecimentos. Em seu livro, o Le spectateur émancipé (2008), Rancière defende que, no espetáculo, o espectador é levado a trabalhar, porque aquilo que ele tem à sua frente o obriga a um trabalho de síntese.

O espetáculo de carnaval abarca diversas formas de linguagem, de modo que o desfile integra símbolos vinculados a Exu utilizando-se da palavra, da música e do corpo que dança. Forma-se, assim, um espaço de significados que pode ser conceituado como um entre, a produção de um espaço e as interpretações. De um lado, as imagens produzidas pelo espetáculo; do outro, o público separado e conectado pelo espaço-tempo, permanecendo, em suspenso, os significados. Com espetáculo apresentado na avenida, a comunidade de terreiro politicamente apresenta formas de resistência, de (re)existência e de autorrepresentação.

DaMatta (1984) salienta conflitos inerentes à comunidade brasileira, apontando que o carnaval é “inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. Ressalta também o movimento numa sociedade com horror à mobilidade, sobretudo a mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social” (DaMatta, 1984, p. 69). E complementa: “Carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade” (DaMatta, 1984, p. 69).

DaMatta observa como são expressas as relações de poder na festa carnavalesca. Segundo o referido autor, o carnaval subverte a ordem social, de modo que o poder é deslocado do centro para a periferia/comunidades periféricas. Assim, quilombolas e/ou “favelados”, por exemplo, podem se colocar na condição de elaborar ficções, construir suas próprias narrativas, não importando se tais narrativas são utópicas ou históricas, o importante é a condição de partilhar e tomar parte na partilha, o sensível na comunidade.

Para Rancière, “a partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce” (Rancière, 2009, p.16). Nessa perspectiva, Exu é homenageado no desfile das escolas de samba; no entanto, apesar da partilha do sensível possibilitada pelo megaevento, o dissenso também se apresenta, revelando a força do preconceito forjado pelos valores coloniais que ainda vicejam em nossa sociedade.

Já Rufino, ao propor uma “pedagogia das encruzilhadas”, parte da necessidade de avançar em equidade, colocar em diálogo diferentes práticas de saber, e preservar a vida em sua diversidade. A perspectiva da Encruzilhada emerge como potência educativa, “que transgride os limites de um mundo balizado em dicotomias” (Rufino, 2019, p.12). 

 

Considerações finais

 

No processo de constituição do país, as dinâmicas socioculturais são subjetivadas pelas tecnologias de poder cristão e colonial. Os sujeitos da diáspora africana são destituídos de sua cultura, arte, religião, língua e até sua identidade primária, seus nomes e quaisquer outros laços com sua pátria. Nessa perspectiva, ao elegermos como tema deste artigo o racismo religioso, com foco no orixá Exu, encontramos rastros produzidos pela colonialidade e principalmente pelo ethos católico.

O sincretismo produziu a transmutação do orixá Exu no Diabo católico, impingindo à divindade significados que não estão presentes no imaginário das religiões de matriz africana, como a dicotomia entre o bem e o mal, as ideias de sofrimento e de castigo, ou ainda, a significação negativa e de cunho moral atribuída a elementos como a capa, o tridente e as formas fálicas. A ressignificação do universo semântico do orixá Exu com os significados da religião católica promove o preconceito não somente à divindade, mas também às denominações das religiões de matriz africana. Uma vez construídos os estigmas à divindade, esses mesmos elementos promotores de preconceito se estendem aos sujeitos e a todos os elementos culturais a ele vinculados, estigmatizando e perpetuando os estereótipos.

Na análise do corpus, identificamos elementos de resistência, (re)existência e autorrepresentação, pois a escola de samba consiste num espaço de congregação de sujeitos periféricos, negros, mulheres, LGBTQIAP+ e indígenas. O carnaval, na sua dimensão estético-política, cria condições de representação e de produção de utopias. O espetáculo promovido pelo samba enredo Fala, Majeté! Sete chaves de Exu e o desfile da acadêmicos do Grande Rio na Marquês de Sapucaí evidenciam o aquilombamento, reproduzindo o terreiro, onde a comunidade da diáspora africana pode cultuar seus deuses em espaço público. A avenida se transforma em espaço de resistência e de (re)existência, pois possibilita a oportunidade a sujeitos subalternizados, violentados e impedidos de criar sua própria narrativa, de ficcionar-se, historizar-se e exercer o poder, o ser e o saber.

As reflexões desenvolvidas neste artigo trazem a lume, e permitem avançar no estudo, questões que estruturam a sociedade brasileira e se encontram entrelaçadas como os estereótipos, o preconceito religioso e o racismo. Consideramos que os resultados alcançados possam contribuir com o debate acerca das múltiplas faces do racismo na sociedade brasileira, embora este trabalho não esgote as possibilidades de investigação do tema. Consideramos ainda a necessidade de mais pesquisas sobre racismo religioso, a partir de outras lentes teóricas, como os estudos decoloniais, por exemplo.

Nessa perspectiva, valorizamos uma linguagem com ginga e possibilidades de expressão do axé dos terreiros, de modo a intensificar a partilha do sensível. O emprego do termo ginga está circunscrito em um contexto estético-político, no qual uma abordagem inclusiva e dinâmica de Exu permita a expressão autêntica e empoderada da identidade cultural, bem como promova novas formas de autorrepresentação e de desconstrução de estereótipos e preconceitos.

No corpus analisado, observamos que os dissensos entre religiões se mantêm, mas há mudanças significativas quando a religião passa a ocupar outros espaços, como a política e a mídia. Ao ocupar esses novos espaços, que vão além daqueles estritamente religiosos, amplia-se a visibilidade do debate e das manifestações religiosas. O desfile da escola de samba que homenageia Exu vai nessa direção, ampliando a visibilidade e promovendo uma nova forma de diálogo, mesmo que no contexto carnavalesco, onde as inversões são possíveis e permitidas. Essas mudanças indicam um movimento de (re)existência e autorrepresentação, evidenciando as pedagogias das encruzilhadas e a importância da ginga como forma de resistência e expressão cultural.

 

Referências

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Recebido em: 27/11/2024.

Aceito em: 29/04/2025.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.72292.p28-46

 

 

 



[1] Este artigo apresenta resultados parciais de pesquisa com apoio da CAPES e CNPq.

* Doutorando e mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo (PPGCOM ESPM-SP), Brasil. E-mail: souzaantonio.acad@gmail.com.

** Doutora em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Brasil. Professora-pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (PPGCOM-ESPM), Brasil. E-mail: thoff@espm.br.

[2] Saudação a Exu, que solicita permissão para abertura dos trabalhos nos terreiros e nas pedagogias da encruzilhada.

 

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