TEOLOGIA INCLUSIVA E VIVÊNCIAS DE FÉ: uma análise da Igreja Cristã Contemporânea em Nova Iguaçu

INCLUSIVE THEOLOGY AND FAITH EXPERIENCES: an analysis of the Contemporary Christian Church in Nova Iguaçu

 

Milena Gomes de Senna *

Thaís Silva Lisbôa **

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.72538.p67-88

 

Resumo

O artigo investiga como a teologia inclusiva se manifesta na vivência religiosa de pessoas LGBTQIA+[1] no contexto do pentecostalismo inclusivo, tendo como foco a Igreja Cristã Contemporânea (ICC). Utilizando uma abordagem qualitativa, que inclui entrevistas semiestruturadas, observação participante e análise documental, o estudo examina as implicações sociais e espirituais dessa proposta teológica para os membros da ICC em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. A pesquisa fundamenta-se em contribuições teóricas, como as de Marcelo Natividade (2008), que aborda as igrejas inclusivas no Brasil, e Clifford Geertz (1978), cuja abordagem interpretativa da cultura permite compreender a religião como um sistema de significados compartilhados, que molda práticas e narrativas comunitárias. Os resultados revelam que a ICC articula práticas litúrgicas e discursivas que promovem a aceitação e a inclusão, reforçando valores como o amor divino e a igualdade. Conclui-se que a teologia inclusiva transforma o campo religioso ao legitimar a diversidade sexual e criar novas formas de pertencimento comunitário, oferecendo alternativas às práticas excludentes de outras denominações religiosas.

Palavras-chave: teologia inclusiva; Igreja Cristã Contemporânea; pentecostalismo; diversidade sexual.

 

Abstract

The article investigates how inclusive theology manifests in the religious experiences of LGBTQIA+[2] individuals within the context of inclusive Pentecostalism, focusing on the Contemporary Christian Church (CCC). Employing a qualitative approach that includes semi-structured interviews, participant observation, and document analysis, the study examines the social and spiritual implications of this theological proposal for CCC members in Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. The research draws on theoretical contributions such as Marcelo Natividade (2008) work on inclusive churches in Brazil and Clifford Geertz (1978) interpretative approach to culture, which views religion as a system of shared meanings shaping communal practices and narratives. The findings reveal that the CCC articulates liturgical and discursive practices promoting acceptance and inclusion, emphasizing values such as divine love and equality. The study concludes that inclusive theology transforms the religious field by legitimizing sexual diversity and creating new forms of communal belonging, offering alternatives to the exclusionary practices of other religious denominations.

Keywords: inclusive theology; Contemporary Christian Church; pentecostalism; sexual diversity.

 

 

Introdução

 

A construção da sexualidade como uma norma no cristianismo é um processo histórico gradual e complexo, enraizado em interpretações de textos bíblicos e por contextos culturais e sociais. A tradição cristã, ao longo dos séculos, tem se pautado por uma visão da sexualidade como algo potencialmente pecaminoso, especialmente quando dissociada do casamento heterossexual e da procriação (Silva, 2021).

Antes da invenção do termo sodomia, as atividades sexuais que não se conformavam às normas heteronormativas e procriativas eram geralmente condenadas sob a categoria mais ampla da luxúria. No entanto, a sodomia emergiu como uma categoria específica e altamente estigmatizada, marcando um ponto de virada na história da sexualidade ocidental. Jordan (1997), destaca que a invenção da sodomia foi tanto um ato de construção teológica quanto um ato de descoberta retórica, associada à blasfêmia. Teologicamente, a sodomia foi construída a partir de interpretações de textos bíblicos, como a história de Sodoma e Gomorra, e de ideias sobre a lei natural. Retoricamente, a sodomia foi descoberta como uma ferramenta poderosa para promover agendas morais e políticas.

Musskopf (2005) aponta que a invisibilização das experiências LGBTQIA+ no contexto religioso resulta de um processo histórico de marginalização e exclusão, refletido tanto nas estruturas eclesiásticas quanto na produção teológica tradicional.

Quando sexualidade e religião são analisadas juntas, percebe-se que a religião não apenas regulamenta a sexualidade, mas a transforma em um campo de poder e saber. Para Foucault (1988), a confissão e outras práticas religiosas não apenas controlam o comportamento sexual, mas criam um “saber sobre o sexo”. A igreja, ao longo dos séculos, fez do sexo uma questão pública, definindo o que era permitido ou proibido, e impondo uma moral sexual que afetava diretamente a vida dos indivíduos (Foucault, 1988).

As últimas décadas testemunharam o surgimento de um fenômeno religioso singular no Brasil, as chamadas igrejas inclusivas. Essas igrejas oferecem uma alternativa ao conservadorismo cristão, permitindo que pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgênero (LGBTQIA+), vivenciem sua espiritualidade e ocupem espaços de liderança dentro das denominações religiosas cristãs. Entre as principais denominações auto nomeadas inclusivas no Brasil estão a Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM) e a Igreja Cristã Contemporânea (ICC). Ambas foram pioneiras ao reivindicarem um cristianismo que possibilitasse a diversidade sexual e de gênero, oferecendo uma alternativa às relações hegemônicas entre religião e sexualidade.

A Metropolitan Community Church (MCC), fundada nos Estados Unidos da América por Troy Perry em 1968, expandiu-se rapidamente pelo mundo, chegando ao Brasil no final do século XX. Inaugurada no Rio de Janeiro em 2004, a Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM) é descrita como “vibrante, inclusiva e progressista”, sendo capaz de adaptar-se e renovar suas práticas para agregar novos membros continuamente (Azevedo, 2021). O termo “inclusão”, segundo as lideranças da ICM, é visto como “ecumênico”, por agregar diferentes crenças e práticas cristãs que coexistem sem hierarquia, promovendo a “diversidade” e a “renovação” da mensagem cristã para além do conservadorismo hegemônico (Azevedo, 2021). A ICM-Rio tem se destacado ao promover eventos e discussões sobre diversidade sexual, como o Chá das Drags e cultos dedicados a figuras relevantes na luta pelos direitos humanos, como a socióloga e ativista Marielle Franco (Azevedo, 2021).

Em contraste, a Igreja Cristã Contemporânea foi fundada em 2006 pelos pastores Marcos Gladstone e Fábio Inácio. No mesmo ano, Natividade (2010) visitou a recém-criada ICC, situada em um sobrado no bairro da Lapa, região central do Rio de Janeiro. Descreve um ambiente de receptividade, mas também de apreensão, devido à recente ruptura com a ICM e à ascensão de um novo grupo religioso. Durante sua visita, uma liderança enfatizou a mudança de foco da igreja:

 

Uma de suas primeiras mudanças seria a retirada de todo e qualquer conteúdo teológico do site, especificamente voltado para a diversidade sexual, incluindo textos traduzidos com reflexões sobre o tema “Homossexualidade e Bíblia”. (Natividade, 2010, p. 97)

 

A denominação buscou inicialmente distanciar-se da imagem de igreja gay, adotando práticas pentecostais, com cultos que incluem música gospel, orações, experiências com o Espírito Santo, como glossolalias, curas espirituais e destaque na santificação da homossexualidade por meio de um código de conduta que valoriza a monogamia e a discrição da sexualidade, em oposição ao que considera “comportamentos inadequados” do “mundo gay” (Natividade, 2010, 2017). Foucault (1996) argumenta que o poder não é apenas repressivo, mas produtivo: ele não apenas proíbe, mas também cria subjetividades, comportamentos e discursos. Essa concepção de poder se aplica diretamente à forma como a ICC estrutura sua teologia e seus rituais. A denominação, embora se apresente como um espaço de inclusão e aceitação para fiéis LGBTQIA+, ainda opera dentro de uma lógica de regulação de condutas e identidades.

A chamada teologia inclusiva surge como um contraponto a discursos religiosos excludentes, propondo uma leitura alternativa dos textos bíblicos à luz de valores que tornam a homossexualidade positiva. A explicação de alguns textos bíblicos com referência na abordagem teológica é apresentada no site[3] da ICC, destaca-se que a condenação à homossexualidade é resultado de traduções modernas, que inseriram termos e interpretações inexistentes nos textos originais. Segundo Natividade (2010), às chamadas “igrejas inclusivas”, como a Igreja Cristã Contemporânea (ICC), não apenas buscam alternativas litúrgicas, mas possibilitam uma nova hermenêutica que legitima a diversidade sexual como parte da vivência cristã. Essa abordagem tem sido adotada por diversas denominações e grupos cristãos, embora nem todos se autodenominem “inclusivos” (Musskopf, 2021).

No Brasil, o século XX testemunhou a ascensão do pentecostalismo, com ênfase no batismo do Espírito Santo e na experiência religiosa individual. O sociólogo Ricardo Mariano (2011, 2013) afirma que entre 1980 e 2010 os evangélicos saltaram de 6,6% para 22,2% da população brasileira, o que representa um aumento de 15,6 pontos percentuais. Em termos absolutos, o Censo de 2010 identificou 42,3 milhões de evangélicos no país, sendo 25,4 milhões pentecostais, que compõem 13,3% da população. O pentecostalismo se expandiu especialmente entre as classes populares, nas periferias urbanas e regiões com baixa presença de instituições públicas e católicas. Esse segmento religioso oferece apoio comunitário e espiritual, respondendo às demandas de populações marginalizadas economicamente e socialmente.

Nesse cenário, a ICC localizada no município de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e destaca-se ao propor uma teologia que combina elementos do pentecostalismo com práticas inclusivas, oferecendo aos membros, em sua maioria LGBTQIA+, um espaço para vivenciar sua fé de forma plena (Natividade, 2010). O contexto local é marcado por altos índices de pobreza e falta de políticas públicas eficazes, o que gera dependência de redes de apoio social e espiritual, muitas vezes providas por grupos religiosos (Silva, 2010).

A análise da atuação da ICC neste ambiente tem como objetivo compreender como os membros e lideranças da ICC, especificamente na unidade de Nova Iguaçu, interpretam e vivenciam a teologia inclusiva. A pesquisa fundamenta-se em entrevistas semiestruturadas realizadas com interlocutores da igreja, observação participante e análise documental, buscando investigar a relação entre sexualidade, gênero e religião no contexto das chamadas igrejas inclusivas no cenário da Baixada Fluminense. A relevância deste estudo reside na contribuição para o campo das ciências sociais e teológicas, ao abordar uma temática pouco explorada em estudos sobre religião no Brasil: a interação entre fé e diversidade sexual em igrejas evangélicas inclusivas.

 

Referencial teórico

 

O filósofo estadunidense Mark D. Jordan, em sua obra The Invention of Sodomy in Christian Theology (1997), demonstra que, antes do século XI, o termo “sodomia” não existia como categoria teológica ou jurídica, a construção dessa categoria foi influenciada por contextos específicos de poder e moralidade. O autor cita que alguns teólogos como Peter Damian colaboraram para a narrativa da história de Sodoma e Gomorra, frequentemente utilizada para se referir ao pecado da homossexualidade. O autor destaca a importância do contexto histórico na construção dessa narrativa, a Idade Média é um período marcado pelo poder religioso que cria normas e regula a vida dos fiéis por meio da teologia. O termo sodomia tornou-se uma ferramenta poderosa nesse período, permitindo que a Igreja julgasse e punisse práticas que se opunham às normas sociais e sexuais estabelecidas (Jordan, 1997).

No contexto brasileiro, o historiador James Green (2020) afirma que desde o Ofício da Sagrada Inquisição havia a criminalização das práticas sodomitas, descrito como um “pecado abominável e pervertido”.

 

Quando dois homens estavam envolvidos, o Ofício da Sagrada Inquisição que se instalou em Portugal em 1553, assim como o código penal português consideravam tanto o penetrador quanto o receptor como sodomitas. Uma pessoa culpada por essa ofensa era condenada à fogueira e podia ter suas propriedades confiscadas. Entre 1587 e 1794, a Inquisição portuguesa registrou 4.419 denúncias. Estas incluíam tanto os suspeitos de terem praticado sodomia quanto os que forneciam confissões atestando o fato de terem cometido o “pecado abominável e pervertido”. (Green, 2020, p.55)

 

No regime republicano, a partir de 1889, a homossexualidade deixa de ser criminalizada no Brasil. Porém, como o título do capítulo do livro de James Green (2020) diz: “Legal, mas nem tanto”, as práticas que fogem da heteronormatividade ainda eram tratadas como ilegais, repercutindo no imaginário social da população daquele período, e sendo propagado até os dias atuais em criação de estigma social (Goffman, 1988) em relação a pessoas LGBTQIA+.

Essa visão é evidenciada em diversas passagens da Bíblia Sagrada (2017), como no livro de Levítico, que proíbe relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo: “Não te deitarás com homem como se fosse mulher; é abominação” (Levítico 18:22). Nas cartas de Paulo, encontramos condenações à “impureza” e à “luxúria”: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia…” (Gálatas 5:19). Esses textos bíblicos têm sido utilizados ao longo da história para justificar a discriminação e o afastamento de pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgênero, intersexuais, assexuais e outras identidades e ou orientação sexual (LGBTQIA+) dos espaços religiosos e da sociedade em geral (Silva, 2021).

No âmbito do cristianismo, a chamada teologia inclusiva rompe com discursos que tratam a sexualidade e a identidade de gênero como pecado ou desvio. De forma ampla, a teologia inclusiva, coloca em debate o dogma religioso que condena a homossexualidade com base na leitura dos textos bíblicos, que visa se distanciar da narrativa hegemônica (Jesus, 2010). Ferreira (2016) destaca que essas igrejas se fundamentam nos princípios cristãos, com referência na teologia inclusiva.

 

Segundo Feitosa (2010, p.13), como o próprio nome indica, Teologia Inclusiva seria uma ramificação da teologia tradicional, que busca incluir as minorias sociais, que ele coloca como “categorias socialmente estigmatizadas” (p. 13) citando mulheres, negros e homossexuais. É tomado como eixo central desta teologia o “Amor de Deus” pelo ser humano de forma incondicional. Feitosa diz que o discurso religioso tradicional lhes negara este amor por séculos. De forma que a Teologia Inclusiva preenche um lapso deixado pela Escritura Sagrada cristã, deixando de observar a diversidade humana existente. (Ferreira, 2016, p.26)

 

Para Ferreira (2016), ao negar o “amor de Deus” a pessoas homossexuais, a teologia hegemônica teria perpetuado a exclusão e o preconceito por séculos. A teologia inclusiva, portanto, surge como uma resposta a essa exclusão, buscando resgatar o princípio cristão do amor universal e aplicá-lo a todas as pessoas, sem distinção.

Historicamente, a sexualidade e a religião sempre estiveram interligadas, mas operaram em domínios diferentes. A religião tradicionalmente exerce controle sobre a sexualidade por meio de normas morais e prescrições de conduta. A sexualidade, por outro lado, é uma dimensão da experiência humana que, segundo Foucault (1988), passou por transformações, especialmente com a introdução da “hipótese repressiva”. Essa hipótese sugere que, desde o século XVII, a sexualidade foi reprimida pelas instituições, em especial pelas religiosas, e relegada ao espaço privado e normativo da família conjugal (Foucault, 1988). No entanto, essa visão é questionada ao apontar que, ao contrário de uma repressão absoluta, houve uma crescente “incitação ao discurso” sobre a sexualidade, com a religião desempenhando um papel central nesse processo. Para Foucault (1988), a religião, especialmente através de práticas confessionais na tradição cristã, contribuiu para  “colocação do sexo em discurso”, obrigando os indivíduos a confessarem seus desejos e práticas sexuais, trazendo o corpo e a sexualidade para o centro das preocupações morais e espirituais.

O controle religioso sobre a sexualidade é um exemplo nítido de biopoder, conceito desenvolvido por Foucault (1988) para descrever as formas modernas de controle que não se limitam à repressão física, mas que também operam por meio da regulação dos corpos e da vida em seus aspectos mais íntimos, como a sexualidade, a saúde e a reprodução. O biopoder é caracterizado por uma “administração da vida” e que ele se manifesta de forma clara na maneira como a sexualidade é monitorada e controlada pelas instituições (Foucault, 1988). Essa noção foucaultiana é fundamental para compreender como a sexualidade se tornou objeto de vigilância e regulamentação, não apenas pelas leis civis e pela medicina, mas também pela religião. A religião, ao estabelecer normas sobre o comportamento sexual, exerce uma forma de biopoder ao definir o que é considerado aceitável ou desviante. Assim, a sexualidade torna-se um espaço onde o poder se materializa, tanto no nível da disciplina dos corpos quanto na regulação das populações, reforçando os valores morais e religiosos.

Segundo Patrícia Birman (1996), as “passagens” se referem aos processos de transformação que os indivíduos enfrentam ao se deslocarem entre diferentes espaços e práticas religiosas, buscando um sentido de “pertencimento” e autenticidade (Birman, 1996, p. 90). Esse conceito se aplica diretamente às experiências relatadas pelos interlocutores da ICC, que compartilham histórias de deslocamento entre denominações evangélicas hegemônicas e a busca por um espaço que positive suas identidades sexuais e religiosas. Alguns interlocutores narram sua trajetória religiosa com início na infância, influenciados pelos familiares; em contraponto, encontram-se trajetórias com proximidades de outros segmentos religiosos.

No caso da Igreja Cristã Contemporânea (ICC), a teologia inclusiva é mais do que uma postura teológica, é uma prática vivenciada em rituais e no acolhimento comunitário. A ICC abraça a diversidade sexual e de gênero como parte integrante da experiência cristã, promovendo uma liturgia que celebra a pluralidade de sua fidelidade. Essa prática contrasta com a narrativa predominante nas igrejas evangélicas conservadoras, que frequentemente associam a homossexualidade ao pecado e ao afastamento de Deus (Trindade, 2019).

O antropólogo Marcelo Natividade (2010) analisa a ICC como exemplo de como a diversidade sexual pode ser integrada ao espaço religioso, rompendo com o estigma de pecado associado à homossexualidade. Natividade (2008) argumenta que essas igrejas promovem uma teologia adaptada ao contexto local, ao mesmo tempo em que dialogam com influências globais, como a Igreja da Comunidade Metropolitana, fundada nos Estados Unidos na década de 1960. Nesse sentido, a ICC não apenas replica modelos estrangeiros, mas também desenvolve práticas religiosas próprias, moldadas pelas experiências de seus membros e pelas demandas do cenário religioso brasileiro.

Musskopf (2021) analisa a posição das igrejas inclusivas no cenário religioso latino-americano, observando que, apesar de sua proposta de acolhimento, muitas dessas denominações ainda operam dentro de uma estrutura teológica que não rompe completamente com a lógica tradicional. O autor aponta que “o contexto brasileiro e latino-americano ainda parece bastante refratário a esse tipo de experiência, seja no interior de denominações tradicionais ou mesmo em grupos independentes” (Musskopf, 2021, p. 3). Isso se reflete na forma como algumas igrejas inclusivas, ao buscarem aceitação e legitimidade, acabam assimilando aspectos da teologia convencional, evitando um confronto direto com as normas que historicamente sustentaram a exclusão de pessoas LGBTQIA+. Esses aspectos podem ser vistos em igrejas que enfatizam a monogamia e padrões de comportamento moral como forma de demonstrar respeitabilidade dentro do cenário evangélico mais amplo. Musskopf (2021) observa que, muitas vezes, essas comunidades “ficam a meio caminho entre reproduzir uma teologia tradicional que responda aos anseios de quem se sentiu forçado ou forçada a deixar a sua igreja de origem e uma teologia que radicalize as questões de gênero e sexualidade”(Musskopf, 2021, p. 3). Dessa forma, a “inclusão” promovida por algumas dessas igrejas, embora importante, não implica necessariamente uma revisão crítica das estruturas teológicas que perpetuam desigualdades. Isso demonstra que, em certos aspectos, o conservadorismo das igrejas tradicionais ainda se faz presente nas igrejas inclusivas, reforçando normas e valores que delimitam a expressão das identidades LGBTQIA+ dentro do campo religioso.

No diálogo com outros autores, como Trindade (2019), observa-se que as igrejas inclusivas enfrentam desafios significativos, especialmente no embate com correntes neopentecostais mais conservadoras, que ainda tratam a homossexualidade como algo a ser “curado”. Trindade (2019) descreve como essas igrejas utilizam discursos baseados na heteronormatividade e na cisnormatividade para justificar práticas de exclusão, tornando a presença das igrejas inclusivas uma alternativa de resistência para fiéis LGBTQIA+.

Além disso, Mariz e Machado (1996) contextualizam o fenômeno das igrejas inclusivas dentro do pluralismo religioso brasileiro, ressaltando como elas representam uma inovação em um campo historicamente dominado por tradições excludentes. Essas igrejas não apenas acolhem fiéis marginalizados, mas também criam espaços de agência, onde esses indivíduos podem reinterpretar suas vivências à luz de uma fé que os legitima.

Weber (1920) é essencial para compreender como as religiões moldam e são moldadas pela sociedade, especialmente no contexto de sua análise sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. A partir de suas reflexões, é possível discutir como a ascensão de novas formas religiosas, como a Igreja Cristã Contemporânea (ICC), reflete mudanças sociais e valores éticos contemporâneos. Weber (1920) argumenta que a religião tem o poder de fornecer sentido à ação social, funcionando como um sistema de valores que orienta o comportamento dos indivíduos. Nesse sentido, a ICC redefine a relação entre fé e identidade sexual, reinterpretando o papel da religião como espaço de inclusão e resistência às normas heteronormativas.

A abordagem interpretativa de Geertz (1978) é útil para analisar a teologia inclusiva como um sistema de significados compartilhados que organiza a vida dos fiéis. Para Geertz (1978), a religião é um sistema cultural que fornece símbolos capazes de explicar a experiência humana, especialmente em momentos de tensão ou crise. No caso da ICC, a teologia inclusiva atua como um texto cultural que ressignifica a exclusão enfrentada pelos indivíduos LGBTQIA+, transformando a vivência da fé em uma narrativa de acolhimento e pertencimento. Geertz (1978) também destaca a importância do ethos e da visão do mundo religioso na constituição das relações sociais. Na ICC, práticas inclusivas, como celebrações litúrgicas afirmativas e lideranças LGBTQIA+, configuram um ethos que desafia a normatividade religiosa dominante, propondo uma nova visão de mundo baseada na inclusão e no amor incondicional.

 

Metodologia

 

A pesquisa foi conduzida a partir de uma abordagem qualitativa, considerando a profundidade necessária para compreender os significados atribuídos pelos membros da Igreja Cristã Contemporânea (ICC) à teologia inclusiva. Três métodos principais foram utilizados, sendo esses: entrevistas semiestruturadas, análise documental e observação participante.

As entrevistas foram realizadas com quatro interlocutores, membros da ICC de Nova Iguaçu, com o objetivo de acessar suas narrativas sobre fé, sexualidade e pertencimento à comunidade religiosa. Esse método permitiu explorar as percepções individuais e coletivas sobre a prática da teologia inclusiva, além de entender como esses fiéis experienciam a inclusão em um ambiente religioso. As entrevistas foram baseadas em um roteiro flexível, possibilitando o aprofundamento em temas emergentes durante as conversas. Segundo Duarte (2002), a realização de entrevistas semiestruturadas é uma técnica amplamente utilizada em pesquisas qualitativas, pois permite ao pesquisador captar, com profundidade, as narrativas e os significados atribuídos pelos sujeitos entrevistados, ao mesmo tempo que garante a flexibilidade necessária para explorar novos temas emergentes durante o diálogo.

Documentos institucionais da ICC, materiais litúrgicos, postagens em redes sociais e conteúdos divulgados no site oficial da igreja, foram analisados para compreendermos como a teologia inclusiva é apresentada e legitimada no discurso oficial da denominação. Essa análise complementou as entrevistas, fornecendo uma visão sobre como os valores inclusivos são comunicados e praticados na comunidade. A análise documental, entendida como um processo sistemático que permite compreender documentos como fontes de informação, foi conduzida com base em técnicas qualitativas, que privilegiam a interpretação do conteúdo e a identificação de significados contextuais (Lima Junior et al., 2021). De acordo com os autores, a análise documental é uma metodologia robusta para investigar documentos não tratados analiticamente, permitindo inferências sobre a dinâmica social subjacente aos dados documentados. Essa análise complementou as entrevistas, fornecendo uma visão sobre como os valores inclusivos são comunicados e praticados na comunidade.

A observação participante foi fundamental para captar as práticas e dinâmicas sociais em um contexto real, permitindo a vivência imersiva no ambiente pesquisado. Segundo Cicilia M. Krohling Peruzzo (2017), a observação participante:

 

[...] implica na presença constante do observador no ambiente investigado, para que ele possa “ver as coisas de dentro”, bem como no compartilhamento das atividades do grupo, possibilitando uma vivência consistente e sistematizada das experiências e interações. (Peruzzo, 2017, p. 165)

 

Para a realização deste trabalho, a observação participante foi ocorreu em cultos, reuniões e eventos da ICC. Essa imersão permitiu uma compreensão mais ampla das dinâmicas religiosas e sociais da igreja, enriquecendo a análise com detalhes etnográficos que ilustram as vivências inclusivas promovidas pela comunidade.

A unidade da ICC de Nova Iguaçu foi escolhida como campo de estudo devido à sua relevância no cenário religioso da Baixada Fluminense. Nova Iguaçu é um município com alta concentração de evangélicos, além de possuir um contexto socioeconômico marcado por desigualdades e pela busca por pertencimento social e espiritual (IBGE, 2010). A ICC se destaca nesse território como um espaço alternativo de acolhimento para fiéis LGBTQIA+, desafiando as normativas religiosas locais e oferecendo uma nova perspectiva de inclusão e espiritualidade.

Os interlocutores da pesquisa, cujos nomes foram substituídos por pseudônimos para garantir o anonimato, incluem membros ativos da ICC com diferentes níveis de engajamento na comunidade religiosa: um pastor homossexual, que lidera as práticas litúrgicas e articula o discurso teológico inclusivo da igreja (Pastor Ricardo); um diácono homossexual, responsável por tarefas administrativas e de recepção dos membros e visitantes (Diácono Luís); uma pastora lésbica, que lidera as práticas litúrgicas e articula o discurso teológico inclusivo da igreja (Pastora Amanda); e um obreiro homossexual, que auxilia nos projetos e no acolhimento dos membros (Obreiro Marcos).

A escolha de Nova Iguaçu como recorte territorial justifica-se por seu perfil demográfico e religioso. A cidade é um dos maiores polos evangélicos do Rio de Janeiro, oferecendo um cenário ideal para investigar como a ICC se posiciona e dialoga com a realidade local. Além disso, a Baixada Fluminense apresenta desafios únicos para populações LGBTQIA+, o que torna a atuação da ICC particularmente relevante como um espaço de resistência e aceitação.

 

Resultados e discussões

 

Os membros da Igreja Cristã Contemporânea (ICC) veem a teologia inclusiva como uma expressão de acolhimento e reconciliação, ressignificando suas vivências religiosas em um ambiente que valoriza a diversidade sexual e de gênero. Segundo relatos dos entrevistados, a teologia inclusiva é central para a construção de um espaço de “pertencimento” que rompe com as narrativas de exclusão amplamente difundidas em outras denominações cristãs. Podemos observar essa exclusão a partir da fala do diácono Luís:

 

Quando fui para igreja, estava disposto a buscar Jesus, eu precisava daquilo na minha vida, eu precisava de Jesus, porque durante um tempo eu acreditei que ele estaria em todos os lugares, em qualquer religião independente do que fosse eu ia encontrar Jesus. Só que para mim não serviu, cheguei a ir em outros lugares visitar, porque eu queria Jesus, eu acreditava assim, como a gente sempre ouve, você está fadado ao inferno porque você é gay, não adianta, isso é pecado e você tem que abandonar. (Entrevista Diácono Luís, 2024)

 

A fala do diácono Luís não apenas expõe os efeitos do discurso excludente de igrejas cristãs, mas também ilustra como a ICC oferece uma resposta a essa exclusão. Por meio da teologia inclusiva, a igreja permite que seus membros vivenciem a fé de maneira plena, resgatando sua relação com o divino e construindo um espaço onde a dignidade humana é central. Birman (1996) utiliza o conceito de “passagens” para explorar a fluidez e o sincretismo presentes nesse trânsito religioso, desafiando a ideia de fronteiras fixas entre as religiões. A autora se respalda em teorias de Marshall Sahlins (1985) sobre contato cultural para defender a ideia de que o contato entre diferentes sistemas culturais gera um “mal-entendido produtivo”, um processo de apropriação e reelaboração simbólica que resulta em mudanças sociais.

O diácono Luís, descreveu sua experiência ao ingressar na ICC: “Entendi que Jesus me aceitava do jeito que eu sou, eu não precisava usar máscara, não precisava fingir”. Essa perspectiva evidencia como a ICC, por meio de sua teologia, oferece uma alternativa ao discurso conservador que associa a homossexualidade ao pecado.

A fala do obreiro Marcos sobre o que é uma igreja inclusiva exemplifica a essência do acolhimento promovido pela ICC e reforça a exclusão vivenciada pela igreja convencional. Ele ressalta que, ao contrário de muitas igrejas católicas e evangélicas, onde pessoas LGBTQIA+ frequentemente enfrentam olhares de julgamento e até mesmo são solicitadas a se afastar, a ICC adota uma postura de plena aceitação.

 

Quando você vai em outras igrejas, a pessoa quando é gay, lésbica, trans ou travesti, o que for... vão te olhar de rabo de olho... tem relatos lá de pessoas que a própria igreja pediu pra se afastar. E lá não, lá você já é bem-vindo, da forma que você é, do jeito que você é (Entrevista Obreiro Marcos, 2024).

 

O pastor Ricardo destacou que a teologia inclusiva da ICC não se limita ao acolhimento, mas também promove um discurso de aceitação:

 

Em 2009, quando eu cheguei, o nosso slogan era, “Levando o amor de Deus a todos sem preconceito”, e hoje nós temos essa logomarca: “Sorria, Jesus te aceita!”. Como eu disse, lá atrás quando eu cheguei na Contemporânea, eu me entendia como uma pessoa gay, mas não me aceitava, se eu pudesse negar aquilo que eu sentia, eu negaria, se eu pudesse ser diferente eu seria, e após conhecer a igreja, após conhecer o amor de Jesus por mim, mesmo eu sendo uma pessoa gay, virou uma chave, hoje se falasse para mim: “se você tivesse a oportunidade de morrer e nascer de novo”, eu diria sim mil vezes, os gays são melhores (diz em tom de risada). Eu seria gay mil vezes, porque eu entendo que isso é uma aceitação que não tinha antes, antes de entender o amor de Deus por mim, antes de aceitar o amor de Deus por mim, isso não era possível na minha cabeça, me aceitar, acabar de falar isso que eu falei, antes eu não falaria, antes de conhecer a igreja eu falaria que queria nascer hétero com certeza. (Entrevista Pastor Ricardo, 2022)

 

O pastor Ricardo destacou que a teologia inclusiva da ICC não se limita ao acolhimento, mas também promove um discurso de empoderamento, conforme explicitado em sua fala sobre a importância do slogan “Sorria, Jesus te aceita!”. Essa transformação, descrita por ele como uma “virada de chave”, reflete uma jornada de auto aceitação mediada pelo “amor divino”, reconfigurado pela perspectiva inclusiva da igreja: “Eu seria gay mil vezes, porque eu entendo que isso é uma aceitação que não tinha antes, antes de entender o amor de Deus por mim”. A fala demonstra como a teologia opera para legitimar identidades que historicamente foram marginalizadas no contexto religioso, rompendo com discursos que associavam homossexualidade ao pecado.

De acordo com Natividade (2010), a ICC estrutura um ethos religioso que não apenas acolhe, mas empodera por meio da legitimação da diversidade como parte integrante do corpo de Cristo. Isso significa que, na ICC, a aceitação vai além do simples pertencimento e se transforma em uma prática ativa de valorização das diferenças. A fala do pastor Ricardo exemplifica como essa abordagem permite que indivíduos previamente oprimidos pelo discurso tradicional experimentem um profundo senso de dignidade e plenitude espiritual. Sua declaração “antes eu falaria que queria nascer hétero com certeza”, seguida pela mudança para “eu seria gay mil vezes”, ilustra como o acolhimento e a mensagem inclusiva da ICC ajudam a ressignificar a identidade LGBTQIA+ como algo não apenas aceito, mas celebrado.

Além disso, essa dinâmica pode ser entendida à luz de Geertz (1978), que enxerga a religião como um sistema simbólico que organiza experiências e dá sentido ao mundo. Nesse contexto, a ICC transforma símbolos e práticas religiosas previamente excludentes em instrumentos de libertação. A auto aceitação promovida na teologia inclusiva não é apenas uma experiência pessoal, mas também coletiva, pois articula um novo significado para a fé, desafiando preconceitos internalizados e externos.

Trindade (2019) complementa essa visão ao enfatizar que a reconciliação entre fé e identidade sexual, promovida pela ICC, funciona como um processo de cura emocional e espiritual. A igreja não se limita a dizer que “Jesus te aceita”, ela cria espaços e narrativas em que essa aceitação é tangível e vivida. Para Ricardo, essa aceitação divina foi o ponto de partida para se libertar das amarras do estigma social e religioso, permitindo-lhe integrar fé e identidade sem contradições.

O discurso do pastor Ricardo evidencia como a teologia inclusiva não apenas acolhe, mas empodera, convidando os fiéis a celebrarem quem são como uma expressão legítima do amor de Deus. Isso desafia modelos religiosos excludentes e contribui para o fortalecimento de lideranças LGBTQIA+ dentro da estrutura eclesiástica, como observa Natividade, e para a ressignificação de experiências religiosas, como apontado por Geertz (1978).

Além disso, os membros frequentemente relacionam a teologia inclusiva a uma reinterpretação das escrituras sagradas. Para o pastor Ricardo, “Jesus sempre pregou o amor e o acolhimento. Na Bíblia, o foco é a graça divina, não a condenação”. Essa abordagem dialoga com autores como Geertz (1978), que veem a religião como um sistema simbólico que ajuda os indivíduos a darem sentido às suas experiências, especialmente em momentos de crise.

Os textos bíblicos tradicionalmente utilizados para estigmatizar a homossexualidade têm sido ressignificados pela teologia inclusiva da Igreja Cristã Contemporânea (ICC). Essa abordagem desconstrói interpretações literais e historicamente enviesadas, promovendo uma leitura contextualizada que valoriza a dignidade humana e a diversidade. Este movimento, além de reabilitar a relação de indivíduos LGBTQIA+ com a fé, também desafia as estruturas de poder que perpetuam preconceitos religiosos. Abaixo exploraremos os versículos destacados no site[4] da ICC, na aba homossexualidade, trazendo sua concepção sob a luz da teologia inclusiva.

 

Sodoma e Gomorra: Gênesis 18 e 19

 

A narrativa de Sodoma e Gomorra é frequentemente associada à condenação da homossexualidade, mas uma análise cuidadosa, apoiada em estudos culturais e teológicos, revela que o pecado dessas cidades estava relacionado à violação da hospitalidade, xenofobia e violência sexual, como observa Natividade (2010). Weber (1920) argumenta que os códigos morais refletem as relações sociais e econômicas da época, e a hospitalidade era uma obrigação central nas culturas do Oriente Próximo Antigo. Dessa forma, a condenação não é da homossexualidade, mas da falha moral de não acolher o outro e de impor violência.

Geertz (1978), ao tratar a religião como um sistema simbólico, ajuda-nos a compreender que a interpretação da passagem foi moldada por valores dominantes que estigmatizam minorias, distorcendo o significado original do texto. A ICC, ao recontextualizar a narrativa, desafia essa apropriação ideológica, promovendo a leitura do texto como uma defesa do acolhimento e do respeito ao próximo, alinhando-se ao ethos inclusivo que pratica.

 

“Com homem não te deitarás”: Levítico 18, 22

 

A passagem do Levítico, comumente citada como condenação à homossexualidade, é ressignificada ao considerar o contexto cultural e religioso da época. O termo hebraico toebah, traduzido como abominação, está associado a práticas idolátricas e rituais culturais de fertilidade, comuns nas religiões cananeias. Conforme Goffman (1988), os estigmas são construções sociais que criam fronteiras simbólicas entre o “normal” e o “desviante”. O uso dessa passagem para marginalizar pessoas LGBTQIA+ é, assim, uma forma de reforçar a ordem simbólica heteronormativa (Foucault, 1988).

A ICC subverte esse estigma ao reinterpretar o texto como um alerta contra práticas idolátricas, e não como uma condenação de relações afetivas entre iguais. Esse esforço demonstra como as narrativas religiosas podem ser ressignificadas para incluir, em vez de excluir, promovendo cura emocional e espiritual, como sugerido por Trindade (2019).

 

Romanos 1

 

O contexto histórico de Romanos 1, onde Paulo critica práticas imorais atribuídas à Roma imperial, como as promovidas por figuras como Calígula e Nero, reforça que a condenação é dirigida aos excessos e abusos associados à idolatria e à imoralidade, e não à homossexualidade em si. Weber (1920) nos lembra que a ética protestante surgiu como uma resposta a excessos históricos, destacando que a moralidade é situacional. Ao desafiar a leitura literal, a ICC destaca a diferença entre práticas de exploração e abuso, criticadas por Paulo, e relações homoafetivas baseadas em amor e respeito. Geertz (1978) também contribui aqui, ao nos lembrar que a religião organiza símbolos para dar significado à experiência humana. Ao reinterpretar Romanos 1, a ICC reordena esses símbolos para refletir a graça e a aceitação divina.

 

“Efeminados e sodomitas”: 1 Coríntios 6, 9 e 1 Timóteo 1,10

 

As palavras gregas malakoi e arsenoikoitai foram historicamente mal traduzidas, criando uma condenação inexistente a homossexuais. Estudos linguísticos apontam que malakoi refere-se à frouxidão moral, enquanto arsenoikoitai descreve exploradores sexuais. A ICC, ao adotar traduções mais precisas, desafia a legitimidade das interpretações que vinculam essas palavras à homossexualidade.

Goffman (1988) destaca que os estigmas são sustentados por narrativas que reforçam normas sociais. A ICC, ao desmistificar essas passagens, desestabiliza tais narrativas e promove um espaço onde as pessoas LGBTQIA+ podem viver sua fé sem vergonha ou culpa, reconfigurando os papéis sociais e religiosos que lhes são atribuídos.

 

Se você vai escrever alguma lei, você vai escrever a lei segundo aquilo que você pensa, entende? Então, quando alguém vem e diz que a homossexualidade é pecado, ela está falando segundo a vivência dela, segundo o pensamento dela, segundo aquilo que ela foi criada dentro daquele corpo, daquele preceito, daquela forma de ver. E isso não é diferente dos pastores, entende? Então os pastores foram. Eles estão hoje replicando. Eles estão só repetindo algo que eles ouviram na infância deles. Sempre foi assim. Por isso que eu te falo que eu não acho que é preconceito, que a Bíblia não nos condena. Quem nos condena são os seres humanos, os homens que nos condenam. (Entrevista Pastora Amanda, 2024)

 

Nesse sentido, os líderes religiosos mencionados pela pastora replicam simbolismos que foram transmitidos em seus próprios contextos socioculturais (Geertz, 1978). Weber (1920), por sua vez, argumenta que a ética e os valores religiosos refletem os interesses e as estruturas das sociedades em que são produzidos. Assim, as leituras conservadoras da Bíblia que condenam a homossexualidade podem ser entendidas como expressões de uma ordem social que valoriza a manutenção de hierarquias e normas heteronormativas.

A liturgia da ICC também incorpora símbolos e linguagem que promovem a inclusão. Durante os cultos, orações e cânticos enfatizam o amor universal de Deus, reforçando a ideia de que a graça divina é acessível a todos. De acordo com Luís, diácono da igreja, “o amor de Deus é o tema central em tudo o que fazemos. Ele nos chama pelo nome, e não pela orientação sexual”. Esse discurso dialoga com a análise de Natividade (2010), que aponta a centralidade da hermenêutica inclusiva como ferramenta para ressignificar passagens bíblicas historicamente utilizadas para discriminar.

A liderança da Igreja desempenha um papel crucial na legitimação da inclusão. Muitos líderes da ICC são pessoas LGBTQIA+, o que reforça o compromisso da igreja com a igualdade. Essa representatividade é vista pelos membros como um sinal de que a teologia inclusiva é vivida na prática, e não apenas proclamada. Amanda, liderança da igreja, afirmou: “Foi assim uma porta que o senhor abriu para nós, homoafetivos (..) Nós amamos a Igreja porque nós podemos sentir a presença de Deus aqui (..) Isso nos dá força para acreditar que Deus nos aceita”.

Outro aspecto relevante é o uso estratégico das mídias sociais pela ICC. Por meio de postagens, vídeos e transmissões de cultos, a igreja comunica seu compromisso com a inclusão a um público mais amplo. Segundo Trindade (2019), essa presença digital é fundamental para construir uma imagem pública de acolhimento e alcançar indivíduos que, por razões diversas, ainda não se sentem confortáveis em frequentar igrejas físicas.

 

Considerações finais

 

A análise da Igreja Cristã Contemporânea (ICC) em Nova Iguaçu evidencia como a teologia inclusiva promove a ressignificação de experiências religiosas de indivíduos LGBTQIA+ em um contexto marcadamente excludente. O estudo revelou que a ICC não apenas oferece um espaço de acolhimento, mas também legitima a diversidade sexual como parte integrante da vivência cristã, desafiando as narrativas tradicionais das igrejas evangélicas conservadoras. A partir de práticas litúrgicas inovadoras e de uma hermenêutica que valoriza o amor divino e a igualdade, a ICC ressignifica as interseções entre fé e sexualidade, criando um modelo que combina espiritualidade, resistência e empoderamento.

A ICC, ao reinterpretar essas passagens, não apenas combate os estigmas impostos por leituras tradicionais, mas também resgata a centralidade do amor divino como fundamento teológico. Weber (1920), Geertz (1978) e Jordan (1997) oferecem ferramentas para compreender como as interpretações bíblicas estão enraizadas em contextos culturais e sociais específicos, enquanto Goffman (1988) e Natividade (2010) iluminam o impacto dessas narrativas na construção de estigmas. Essa ressignificação citada pelos interlocutores permite que a ICC articule um ethos inclusivo, em que a fé é um espaço de acolhimento e empoderamento, em vez de exclusão e culpa. Ao reinterpretar a Bíblia, a ICC exemplifica como as instituições religiosas podem refletir para promover a  inclusão e a dignidade humana. Musskopf (2021) observa que, no contexto brasileiro e latino-americano, essas denominações ou grupos, muitas vezes, dividem-se entre reproduzir uma teologia tradicional ou uma teologia radical sobre as questões de gênero e sexualidade. Essa dualidade reflete a complexidade do processo de inclusão, que, embora importante, nem sempre implica uma revisão crítica das estruturas teológicas que perpetuam desigualdades.

As contribuições da ICC são significativas no campo religioso brasileiro, pois dialogam com transformações sociais mais amplas que reivindicam justiça e inclusão. Contudo, a pesquisa também aponta desafios, como a resistência de setores conservadores e a necessidade de maior visibilidade acadêmica e social para as igrejas inclusivas. Este trabalho reforça a importância de compreender a religião como um espaço de transformação cultural e social, especialmente em um país de intensa pluralidade como o Brasil.

 

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Recebido em: 18/12/2024.

Aceito em: 28/04/2025.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.72538.p67-88

 

 



* Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense, Brasil. Atualmente é discente/bolsista Capes do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil. E-mail: milenagssenna@gmail.com.

** Estudante de Bacharelado em Administração Pública na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Brasil. E-mail: thaislisboa1996@gmail.com.

[1] LGBTQIA+ é a sigla utilizada para denominar lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros e queer, intersexuais, assexuais e + para outras identidades de gênero e ou orientação sexual.

[2] LGBTQIA+ is the acronym used to refer to Lesbians, Gays, Bisexuals, Transvestites, Transsexuals or Transgenders and Queer, Intersex, Asexual and + for other gender identities and/or sexual orientation.

[3] Cf.: https://www.igrejacontemporanea.com.br/homossexualidade.

[4] Cf. https://www.igrejacontemporanea.com.br/homossexualidade. Acesso em 10 de dez. de 2024.

 

 

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Desenho de um círculo

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