DO TRAÇO À TRAJETÓRIA: o significado atribuído à carreira de tatuadora

FROM LINE TO TRAJECTORY: the meaning attributed to the
career of female tattoo artists

 

Fernanda Cavalheiro Ruffino Rauber *

Marília Gabriela Souza da Silva **

Eloisa Helena de Souza Cabral***

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n35.73891.p169-180

 

 

Resumo

Este ensaio visual discute a inserção e o protagonismo feminino no campo da tatuagem, abordando a relação entre gênero, identidade e resistência simbólica. As mulheres tatuadoras enfrentam desigualdades estruturais e processos de legitimação que demandam negociações específicas para o reconhecimento de sua arte. O estudo utiliza a técnica projetiva para captar, através de desenhos espontâneos, os significados atribuídos pelas tatuadoras à sua trajetória profissional, revelando linguagens estéticas próprias que rompem com padrões hegemônicos. O ensaio se ancora na releitura fotográfica de Marília Gabriela Souza da Silva e integra referências sobre divisão sexual do trabalho e visibilidade de gênero, reafirmando a tatuagem como meio de inscrição autobiográfica e política do corpo feminino. O material evidencia a construção de saberes sensíveis e subjetivos, consolidando as mulheres como agentes centrais na transformação estética e simbólica da prática da tatuagem contemporânea.

Palavras-chave: artificação; identidade; técnica projetiva; tatuadoras.

 

Abstract

This visual essay discusses the insertion and protagonism of women in the field of tattooing, addressing the relationship between gender, identity, and symbolic resistance. Female tattoo artists face structural inequalities and legitimation processes that require specific negotiations to achieve artistic recognition. The research employs the projective technique to capture, through spontaneous drawings, the meanings attributed by the tattoo artists to their professional trajectories, revealing unique aesthetic languages that break with hegemonic patterns. The essay is based on the photographic reinterpretation by Marília Gabriela Souza da Silva and incorporates references on the sexual division of labor and gender visibility, reaffirming tattooing as a means of autobiographical and political inscription on the female body. The material highlights the construction of sensitive and subjective knowledge, establishing women as central agents in the aesthetic and symbolic transformation of contemporary tattoo practice.

Keywords: artification; identity; projective technique; tattoo artists.

 

 

 

 

No form of skin modification is as layered with meaning as tattooing —especially for women. Tattoos tell stories about female experience and trigger reactions that underscore cultural assumptions about women. (Mifflin, 2001, p. i)

 

Para Oliveira e Moura, o envolvimento das mulheres no mundo das tatuagens está entrelaçado com uma infinidade de questões relacionadas a gênero, estereótipos sociais e busca pela autodeterminação que é agravado pela realidade de que tanto tatuadores quanto mulheres tatuadas estão sujeitas a avaliações sociais com base em critérios, como a quantidade de tatuagens, os desenhos em si e suas dimensões, “o que sugere que o corpo feminino ainda é produzido discursivamente dentro de parâmetros socialmente estabelecidos” (Oliveira; Moura, 2021, p. 32).

Mifflin (2001, p. vi) destaca que não é coincidência que o interesse das mulheres pela tatuagem esteja atrelado a movimentos como a primeira onda do feminismo, que ocorreu no final do século XIX; ao movimento sufragista, na década de 1920; e, na década de 1970, à quebra da barreira imposta por gênero. De acordo com a autora, foram “períodos em que o perfil público das mulheres estava em declínio” (Mifflin, 2001, p. vi), essa transformação também ocorria nas faculdades, ambientes profissionais e domésticos, incentivando mulheres a pararem de ver outras mulheres e a si mesmas como propriedades dos homens (hooks, 2022).

Maud Stevens Wagner e sua filha Lotteva Wagner, Mildrea Hull, Ruth Weyland, Cindy Ray, Calamity Jane, Sheila May, Vyvyn Lazangoa, Ruth Marten (Mifflin, 2001), as brasileiras Ana Velho, Cláudia Macá, Liz Henry, Lia, Silvana, Vânia e Meire (Marques, 1997), são exemplos de mulheres tatuadoras e, embora algumas delas tenham aprendido o ofício de maneira formal, boa parte ainda precisou de uma conexão — inevitavelmente um homem — para iniciar no ofício. A profissão apresenta-se como um campo majoritariamente masculino (Oliveira; Moura, 2021), mesmo sendo disseminado que tatuagem se distancia dos valores morais tidos como tradicionais (DeLuca, 2015; Mendes, 2017), ainda se trata de um espaço desigual, onde mulheres enfrentam situações de preconceito tanto por parte dos clientes como de outros tatuadores (Rauber; Zanola; Cappelle, 2023).

A inserção de mulheres no campo da tatuagem, mesmo que represente um avanço na desconstrução de profissões tradicionalmente masculinas, não as exime de enfrentar desafios relacionados às desigualdades de gênero. Estudos sobre a divisão sexual do trabalho (Kergoat, 2009) e sobre as experiências de mulheres em profissões não tradicionais (Hirata; Kergoat, 2007) apontam para a persistência de dinâmicas de poder desiguais que podem se manifestar em diversas formas, incluindo o assédio e a discriminação sexual (Araújo et al., 2022; Oliveira; Moura, 2021). No contexto da tatuagem, essas questões podem se apresentar de maneiras específicas, influenciando a trajetória profissional e a construção da identidade das tatuadoras.

A tatuagem, historicamente marginalizada e estigmatizada, atravessa um processo recente de artificação que, como nos mostra Pereira (2021), não ocorre de maneira homogênea entre os gêneros. Embora a profissionalização e legitimação da tatuagem enquanto arte tenham avançado, as mulheres tatuadoras ainda enfrentam negociações específicas para garantir reconhecimento artístico. Elas não apenas inserem seus corpos na cena da tatuagem, mas moldam também linguagens visuais próprias que traduzem experiências sensíveis e subjetivas femininas (Pereira, 2021).

A tatuagem é hoje uma das linguagens em que o sujeito inscreve sua identidade no próprio corpo (Gómez, 2021). Entre as tatuadoras, essa inscrição torna-se ainda mais potente: é simultaneamente autobiográfica e política, desafiando padrões estéticos hegemônicos. Corso e Corso (2014) complementam essa leitura ao apontar que, no contexto contemporâneo, a tatuagem atua como forma de resistência simbólica. A mulher tatuadora, ao ilustrar outros corpos femininos e o próprio corpo, constrói narrativas que escapam da lógica patriarcal do corpo para o outro, reapropriando-o como suporte da própria história.

Essa insurgência visual conecta-se à discussão de Becker (2020), que destaca a produção sensível do saber prático no fazer da tatuagem. Este ensaio evidencia que não se trata apenas de mulheres que tatuam, mas de um campo de sensibilidade estética em transformação: a arte da tatuagem como uma extensão da corporalidade feminina, dos afetos e da memória. Assim, ao centrar mulheres como protagonistas, atualiza-se a reflexão de Lewis e Simpson (apud Kear; Colbert-Lewis, 2011) sobre a visibilidade de gênero. Estas mulheres deixam de ser invisíveis ou exceções para se afirmarem como agentes centrais na (re)construção de significados e práticas no campo da tatuagem.

O ensaio é resultado de um processo que integra a releitura dos registros fotográficos realizado após a finalização das entrevistas com as tatuadoras. As entrevistas foram realizadas entre janeiro e fevereiro de 2023, com quatro mulheres que se enquadravam nos critérios de ter pelo menos um ano de experiência na área e estar atuando como tatuadoras no Brasil. Utilizando uma abordagem por conveniência e acessibilidade (Gil, 2008; Saunders; Townsend, 2018), pudemos acessar as histórias singulares dessas profissionais, cujas vivências são refletidas em suas narrativas. Cada tatuadora trouxe consigo formações e experiências diversas — de biologia a design, da tatuagem itinerante ao atendimento em estúdio fixo —, revelando a busca por representatividade em um universo onde o contato inicial com outras mulheres na profissão ainda é escasso.

Para a composição do material, utilizou-se a técnica projetiva como ferramenta de extração simbólica dos significados atribuídos pelas tatuadoras à sua trajetória profissional (Craig; Douglas, 2005; Ferreira et al., 2019). Durante o registro, as participantes foram convidadas, enquanto respondiam a perguntas sobre as particularidades de seu trabalho, a desenharem livremente, representando, em imagens, o que a carreira na tatuagem simboliza em suas vidas. As quatro tatuadoras projetam seus estilos desafiando a estética dura e hiper masculina, historicamente associada à prática (Miller, 2016).

O registro fotográfico encerrou as entrevistas, capturou o momento de contemplação das artistas e provocou novas reflexões sobre suas carreiras. Inicialmente, as fotografias eram apenas recordações do momento, mas tornaram-se instrumentos de análise sobre a atuação da mulher no campo da tatuagem.

Diante da inabilidade da entrevistadora e autora deste ensaio com o desenho, as fotografias foram encaminhadas à artista Marília Gabriela Souza da Silva, que, por meio do desenho digital, recompôs o momento pós-entrevista das quatro tatuadoras. A escolha por uma mulher para o registro perpassa pelo desejo de que a história das tatuadoras seja contada e registrada através de vozes femininas, mudando o contexto histórico onde predomina a escrita por homens, descrevendo os corpos em suas teses médicas, em jornais ou mesmo em “estudos de autoridades policiais” (Jeha, 2019, p. 207). A escolha pelo desenho digital se deu para que a obra artística das tatuadoras recebesse destaque, uma vez que também foram objeto de análise.

O material que se segue apresenta os desenhos produzidos por cada tatuadora — já estilizados em desenho digital — acompanhados de um breve relato que ilustra os sentidos atribuídos a suas experiências, reafirmando a centralidade da perspectiva feminina na construção desta prática artística.

 

 

Imagem 1: Florescer[1]

 

Desenho de um cachorro

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[...] Foi um desenho que eu fiz logo que eu comecei a tatuar e que representava isso, que eu tinha me encontrado, sabe, na tatuagem, era o meu florescer. E aí a partir desse primeiro desenho, as pessoas se identificaram e aí eu comecei a fazer paras clientes.

 

 

 

 

 

Imagem 2: Candy Crush[2]

 

 

Desenho preto e branco

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É uma harmonia muito bem sincronizada, assim, estruturada e intensa. [...] Quando eu comecei a desenhar, eu estava muito introspectiva, assim, pensando nessa coisa do processo em si de desenhar, nessa coisa dolorida assim que a gente tinha falado, sabe? E aí depois à medida que eu fui desenhando, o trem foi soltando aqui e eu fui ficando mais alegrinha assim, sabe?

 

 

 

 

 

Imagem 3: Revolução e Resistência[3]

 

 

Desenho de uma pessoa

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A tatuagem ela é uma forma de expressão [...] para mim, a tatuagem é um ato revolucionário, assim, né, de poder se expressar, de poder colocar a vista, né, alguns de seus pensamentos ou dos seus gostos, ou do que você realmente representa para você, né, e ser tatuador já é realizar isso também, não só em mim como nas outras pessoas também.

 

 

 

 

 

Imagem 4: Resiliência[4]

 

 

Desenho de um cachorro

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É uma questão de resiliência, é uma questão de força [...] para ser tatuadora, é mais difícil, mas, ao mesmo tempo, tem o seu valor, porque muita mulher procura outra mulher para se tatuar. [...] ser tatuadora é gratificante, você trazer autoestima para uma pessoa, você dá um sorriso no rosto de uma pessoa.

 

 

 

As imagens e relatos apresentados neste ensaio visual revelam que, para além da técnica, a trajetória de cada tatuadora constitui uma prática de resistência e de afirmação de identidade. Os desenhos projetados traduzem vivências que ressignificam o espaço da tatuagem, transformando-o em território de expressão feminina e artística. Assim, este trabalho evidencia que a construção da carreira na tatuagem, para essas mulheres, é também a construção de uma narrativa de si, gravada não apenas na pele, mas na história e na arte.

Adotando a perspectiva de Cixous (2022), buscou-se honrar a escrita feminina para explorar as trajetórias e lutas de mulheres tatuadoras, partindo da premissa de que, historicamente, os corpos das mulheres foram violentamente excluídos, assim como sua participação na produção de conhecimento (Cixous, 2022). Em um sistema capitalista que, como aponta Federici (2019), relegou as mulheres a um estado de inferioridade e exploração semelhante à escravidão, o ato de tatuar e ser tatuada assume um significado de resistência e autodeterminação.

Nesse sentido, revela-se um olhar apaixonado pela arte e pela profissão, mas também barreiras enfrentadas pelas tatuadoras. As lutas e a resistência são expressas de forma ainda mais visceral em seus desenhos e em suas próprias peles. O ensaio se aprofundou nessa dimensão, mostrando como o sentido de valor e de protagonismo é construído por cada uma delas. É nesses traços que reside o amor, a busca por espaço e a resistência diária.

Em última análise, as narrativas e os corpos tatuados das participantes confirmam o que Oliveira e Moura (2021) discutem: a presença da mulher na tatuagem é marcada por questões de gênero e por um esforço constante de autodeterminação. A quantidade e o tamanho das tatuagens de uma mulher ainda são alvo de avaliação social, “o que sugere que o corpo feminino ainda é produzido discursivamente dentro de parâmetros socialmente estabelecidos” (Oliveira; Moura, 2021, p. 32). No entanto, o ato de tatuar-se e de tatuar outras mulheres surge como um meio de manter o protagonismo e a liberdade. A tatuadora, ao desenhar na pele, escreve uma nova história, desafiando as normas e reafirmando o controle sobre o seu corpo e de suas clientes, escrevendo novas narrativa.

 

Referências

 

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Recebido em: 27/04/2025.

Aceito em: 10/11/2025.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n35.73891.p169-180

 

 



* Doutoranda em Administração pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), Brasil. E-mail: fcr.adm@gmail.com.

** Bacharela em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Brasil. E-mail: mj.papillon.art@gmail.com.

*** Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil. Professora permanente do Mestrado Profissional em Administração Pública da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Brasil. E-mail: eloisa.cabral1@ufla.br.

[1] Desenho de Marília Gabriela Souza da Silva (2025).

[2] Desenho de Marília Gabriela Souza da Silva, realizado em 2025.

[3] Desenho de Marília Gabriela Souza da Silva, realizado em 2025.

[4] Desenho de Marília Gabriela Souza da Silva, realizado em 2025.

 

 

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Desenho de um círculo

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