EDITORIAL

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.74351.p6-8

 

Chegamos a mais uma edição, dessa vez temos como temática o dossiê religiões e espiritualidades, e não poderíamos deixar de mencionar as perdas que tivemos nesse ano, a morte de Papa Francisco, também reconhecido como “Papa dos Pobres”, em 21 de abril e o desencarne de Divaldo Pereira Franco, líder espírita kardecista no Brasil, em 13 de maio. Ambos são latinos, o Papa argentino e o Médium brasileiro, representantes de duas expressões religiosas que no Brasil e no mundo detêm centenas de milhares de seguidores e fiéis.

Francisco, como era conhecido, também, como “papa das Américas”, desempenhava as funções de chefe de Estado e líder religioso. Nascido em Buenos Aires na Argentina, obteve vasta influência entre os setores da Igreja Católica atuando como missionário. Além de ter atuado na (re)configuração da Igreja Católica e seus dogmas, ora conservadores e ora liberais (mas nem tanto), num esforço de reconhecer os erros cometidos pela igreja e concomitantemente apresentar novas visões, atraindo os já devotos e os novos fiéis, numa maratona de declarações, viagens e reuniões, trazendo um ar de modernidade à instituição da igreja. Após a morte do pontífice, um grande legado foi deixado e, afinal, ser reconhecido como “Papa dos Pobres” e sua ligação com São Francisco de Assis, o torna um ser singular.

Divaldo Pereira Franco, por outro lado, desencarnou aos 98 anos, nasceu em Feira de Santana na Bahia, e era considerado o maior líder espírita em atividade no Brasil, psicografando e publicando mais de 250 livros. Junto com Nilson de Souza, fundou a obra social Mansão do Caminho, na cidade de Salvador, estado da Bahia, em 1952, com a orientação espiritual do espírito Joanna de Ângelis. A missão era/foi desenvolver atividades socioeducacionais, assistenciais e médicas para a população carente. Divaldo partiu para o mundo espiritual, como acreditam os kardecistas, deixando um grande legado de doação e caridade, como o lema dos espíritas: “fora da caridade não há salvação”.

Religiões e espiritualidades não deveriam ser reduzidas ao cristianismo, pois os conceitos transcendem as escolhas individuais e desembocam nas subjetividades coletivas e suas formas de autoidentificação e autorrepresentação. Ultrapassam as barreiras geográficas, políticas, sociais, e, sobretudo, culturais. Não existe uma religião melhor ou pior, todas são válidas e estão intrinsecamente conectadas ao universo do sagrado/profano (Oro, 1996; Durkheim, 1996).

Na contramão do cristianismo, as religiões afro-brasileiras, de matriz africana, brasileira, indígena, ou seja, as não ocidentais sofrem com o preconceito e a discriminação, configurando um marcador social da diferença, assim, são alvos de ataques e notícias falsas, como consta no título da obra de Pedro Ivo Oro: O outro é o demônio. Talvez essa expressão seja a forma mais fácil de atacar as religiosidades que diferem das já estabelecidas e sancionadas pela elite branca etnocêntrica e eurocêntrica.

O dossiê desta edição, Mudanças e Permanências no Cenário das Religiões e Espiritualidades Populares, foi organizado pelo professor Dr. Antonio George Lopes Paulino, Dra. Joanice Santos Conceição e Me. Antonio Renaldo Gomes Pereira, professores e pesquisadores com vasta experiência nessa área temática. No texto de apresentação do dossiê, descrevem as principais características do fenômeno religioso e espiritual na contemporaneidade, tendo como base o território brasileiro e o pluralismo religioso. Trazem algumas indagações, como: se o Estado é laico, qual a causa da aceitação de algumas religiões/religiosidades em detrimento/negação/perseguição de outras? Assim os autores problematizam e convidam os/as leitores/as para refletirem sobre o tema. Coube aos organizadores a apresentação dos artigos que compõem o dossiê.

Além dos sete artigos que compõem o dossiê, trazemos três artigos livres. O primeiro, escrito por Matheus Botelho e Júlio Donadone, Dinâmica política do Estado de Exceção Econômico Permanente: tensões silenciosas entre mercados financeiros e instituições democráticas, discute a ascensão do capital financeiro e as ameaças aos princípios democráticos, ao Estado democrático e ao bem-estar social. Os autores apontam a influência do capital financeiro influenciando na criação e manutenção das políticas públicas, acentuando ainda mais as desigualdades sociais.

O segundo, O conceito de “linha de cor” em Du Bois e suas contribuições para o debate antirracista na contemporanaeidade, escrito por Éwerton Santos, faz uma análise do conceito de linha de cor e o debate antirracista na contemporaneidade, tendo como base a obra: As almas do povo negro, de W. E. B. Du Bois e sua contribuição para entender e problematizar as desigualdades raciais e os processos históricos da escravização e as heranças da colonização.

Em seguida, temos a contribuição de Cristiane Oliveira e Luan Vinicius Bernardelli, com a pesquisa: Uma proposta de intervenção para o uso da realidade aumentada no Museu Antropológico da UFG. Aqui temos a discussão do avanço das novas tecnologias (Realidade Aumentada) em diversas áreas, sobretudo, nos museus e que pressupõe que sejam sinônimos de progresso e inovação. Assim, a proposta é investigar/avaliar os possíveis benefícios da RA no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás.

Completando esta edição, temos a entrevista: Resistência e existência: o grande legado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva, com as colaborações de Carlos Benedito Rodrigues da Silva, Ana Vitória Santos Ferreira, Maria Luísa Almeida Barros e Piettra Lopes. As entrevistadoras destacam a trajetória do professor, antropólogo e pesquisador Carlos Benedito Rodrigues da Silva e sua contribuição como militante no movimento negro, suas pesquisas em torno do reggae, Black Soul e sua relevância na criação da LIESAFRO, assim, torna-se interessante quais são suas perspectivas e visões da educação e cultura afro-brasileira.

Diante disso, esperamos que as leitoras, os leitores e leitorxs tenham uma boa experiência com a proposta desta edição, sagrada ou profana, espiritual ou material, divina ou humana, que ela seja boa.

 

Adailton Aragão

Anderson dos Santos Cordeiro

 

Referências

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

ORO, Pedro Ivo. O outro é o demônio: uma análise sociológica do fundamentalismo. São Paulo: Paulus, 1996.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.74351.p6-8

 

_____________________

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança médiaÉ permitido compartilhar (copiar e redistribuir em qualquer suporte ou formato) e adaptar (remixar, transformar e “criar a partir de”) este material, desde que observados os termos da Licença CC BY-NC 4.0.