“EU SEMPRE QUIS MAIS”: a migração como uma das formas de manifestação da condição juvenil interiorana
“I ALWAYS WANTED MORE”: migration as one of the expressions of the inland youth condition
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.76127.p150-173
Resumo
Este artigo discute a relação entre juventude e cidades interioranas a partir de uma pesquisa qualitativa acerca das experiências de migração para a cidade de João Pessoa/PB de três jovens interioranos. Seu principal objetivo é identificar como as relações constituídas entre os jovens e suas respectivas cidades interioranas contribuíram para suas experiências de migração para uma cidade grande, visando compreender como as características que definem a condição juvenil, e que muitas vezes são amplificadas pelas particularidades de cada situação juvenil, se chocam com as características que constituem o interior de forma a produzir um restrito campo de possibilidades na vida destes sujeitos. A pesquisa concluiu que mesmo que as motivações para a migração não sejam as mesmas, elas estão atreladas aos limites involuntariamente impostos pelo interior à capacidade de agência e de desenvolvimento dos jovens sujeitos, sendo a migração uma das maneiras encontradas por eles de exercerem a sua condição de jovens, tanto no que se refere ao presente quanto no que diz respeito ao futuro.
Palavras-chave: juventude; interior; migração; motivação.
Abstract
This article discusses the relationship between youth and inland cities, based on a qualitative research on the migration experiences to the city of João Pessoa/PB of three young people from the countryside. Its main objective is to identify how the relationships established between the youth and their respective inland cities contributed to their migration experiences to a big city, seeking to understand how the characteristics that define the youth condition, and which are often amplified by the particularities of each youth situation, collide with the characteristics that constitute the countryside in such a way as to produce a restricted field of possibilities in the lives of these subjects. The research concluded that even though the motivations for migration are not the same, they are linked to the limits involuntarily imposed by the countryside on the capacity for agency and development of the young subjects, migration being one of the ways found by them to exercise their condition as young people, both with regard to the present and to the future.
Keywords: youth; countryside; migration; motivation.
Introdução
O que leva uma pessoa a sair de sua cidade natal para morar em uma cidade maior? Essa pergunta pode ser respondida, sobretudo quando se fala em tendências migratórias, pela necessidade de buscar um local que ofereça melhores condições de vida, pois “Ninguém migra se não por vislumbrar uma melhoria tácita de vida no local onde passará a viver” (Krummer, 2013, p. 56).
A migração, no entanto, é um fenômeno que não se resume ao âmbito das necessidades materiais, dando-se dentro de um contexto simbólico e subjetivo que amplia as possibilidades de sua significação, como destaca Helenilda Cavalcanti (2002, p. 148):
O migrante sai de um universo cultural recebido por herança ao nascer em direção a outro em que é confrontado com o que lhe foi dado a priori. Entre o sair e o chegar, ocorre um processo duplo que vai falar das ilusões dos emigrantes ao sofrimento do imigrante que atravessa a fronteira do estabelecido e do desconhecido.
A noção de “melhores condições de vida” pode apresentar diferentes sentidos a depender de quem o significa, abrangendo tanto as condições materiais de existência — como saúde, trabalho, educação, moradia, saneamento básico, segurança — quanto aspectos que dizem respeito a uma melhor qualidade de vida do ponto de vista subjetivo — como liberdade, acesso ao lazer e a cultura. Essa ampliação de significados se potencializa quando se delimita um público-alvo específico, permitindo construir associações particulares entre as características deste segmento em questão e o desejo por migrar.
Elisa Guaraná Castro (2007), ao abordar a migração do interior para as grandes cidades, destaca a juventude como um dos segmentos sociais que protagonizaram esse fenômeno no decorrer do tempo. Uma das explicações mais recorrentes para este fenômeno está no fato da fase juvenil ser justamente o período de ingresso ao mercado de trabalho (Cavalcanti, 2002), corroborando a ideia da existência de culturas migratórias em decorrência da falta de oportunidade de trabalho diversificado e de qualidade de vida no interior.
A migração, como pontuado anteriormente, não se resume apenas à esfera material, evidenciando, em qualquer análise que se restrinja apenas a esse aspecto, uma percepção reducionista acerca da experiência migratória e do público migrante analisado (Carneiro, 2007). Assim sendo, partindo dessa problematização, o presente artigo visa compreender as particularidades da relação entre juventude e interior e como esta contribui para a experiência de migração juvenil.
A análise decorre da monografia (Pereira, 2025) realizada no curso de Ciências Sociais entre agosto de 2024 e abril de 2025 com jovens interioranos estudantes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e residentes da cidade de João Pessoa/PB. Esta pesquisa, por sua vez, teve como objetivo compreender as motivações que levaram três jovens interioranos a migrarem sozinhos para a capital paraibana, considerando as particularidades de cada jovem sujeito, de suas respectivas situações juvenis e de seus respectivos contextos interioranos.
Para atingir os fins aqui propostos, este artigo foi dividido da seguinte maneira: apresentação da abordagem metodológica empregada na pesquisa; definição dos conceitos de juventude e interior aqui empregados; explanação da postura teórico-metodológica no que concerne a concepção da relação indivíduo e sociedade aqui adotada; discussão acerca das diferentes formas de relação estabelecidas entre juventude e interior a partir do relatos de três jovens interioranos; análise acerca do papel destas relações nas motivações para a migração dos jovens aqui pesquisados.
Metodologia
A abordagem metodológica adotada pela pesquisa foi de caráter qualitativo, tendo como principal instrumento metodológico a entrevista semiestruturada. A escolha dessa abordagem se deu pelo entendimento de que, para a concretização dos objetivos desta investigação, era necessário uma metodologia que possibilitasse o aprofundamento da compreensão subjetiva dos sujeitos quanto às suas experiências de migração.
Os participantes da pesquisa foram identificados a partir de um formulário aplicado — via google forms — nos grupos de estudantes da UFPB dos cursos de Jornalismo, Ciências Sociais, Biomedicina e Contabilidade, tendo como critérios de seleção os seguintes aspectos: ter entre 18 e 29 anos — conforme o estatuto da juventude (Brasil/2013) —; ser oriundo de uma cidade com menos de 30 mil habitantes; ter migrado sozinho (sem a família); e residir em João Pessoa há pelo menos um ano. O formulário ficou disponível para respostas entre os dias 19 e 27 de agosto de 2024 e alcançou um total de 34 pessoas. Sobre a escolha dos entrevistados, esta ocorreu entre os 34 respondentes do formulário, sendo considerada, sobretudo, a pluralidade de situações entre os jovens interioranos migrantes, abrangendo gêneros, orientações sexuais e estados de origem diversos. Essa multiplicidade de critérios decorreu da compreensão de que cada uma dessas particularidades está diretamente vinculada à construção de distintas relações estabelecidas pelos jovens com o interior, promovendo, por sua vez, diferentes experiências migratórias. Para atingir esse objetivo, cinco entrevistas foram realizadas, das quais três foram analisadas.
As entrevistas, por sua vez, ocorreram de forma presencial e oral, apoiando-se em um roteiro de tópicos flexíveis elaborado previamente conforme os objetivos da pesquisa. Elas foram realizadas no campus 1 da própria UFPB, entre os dias 3 e 6 de setembro de 2024, sendo gravadas através do celular do próprio pesquisador, autor deste artigo.
Quadro I – Situação Juvenil dos Sujeitos da Pesquisa
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ENTREVISTADOS |
CIDADE DE ORIGEM |
SITUAÇÃO JUVENIL |
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Monalisa |
São José do Bonfim/PB |
Mulher, 23 anos, parda, heterossexual, moradora da zona rural (sem ser na sede do município), filha de agricultores, possui 4 irmãos |
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Mari Maia |
Itapetim/PE |
Mulher, 21 anos, branca, bissexual, moradora da sede do município interiorano, filha única de pensionista e sobrinha do prefeito |
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Átila |
Porto Franco/MA |
Homem, 22 anos, branco, homossexual, morador da sede do município interiorano, neto de pastores evangélicos, possui uma irmã mais nova |
Fonte: elaboração própria, João Pessoa, 2025.
Visando garantir a privacidade dos jovens entrevistados, foram adotados três nomes fictícios: Monalisa, 23 anos; Mari Maia, 21 anos; e Átila, 22 anos. Sendo estes jovens oriundos, respectivamente, de São José do Bonfim/PB (3. 242 hab.[1]), Itapetim/PE (13.791 hab.) e Porto Franco/MA (23.903 hab.), conforme perfis apresentados no Quadro I.
Quanto à sistematização dos dados, esta ocorreu por meio da transcrição manual das entrevistas, na qual visou-se, por meio da operacionalização da teoria e dos conceitos aqui empregados, identificar similaridades e diferenças nas experiências de migração dos jovens analisados.
Juventude e interior: definindo conceitos
A migração de jovens interioranos para grandes cidades não é um fenômeno recente, constituindo parte significativa da literatura acadêmica acerca dessa temática (Castro, 2007). Porém, o olhar e a abordagem adotados para tratar dessa questão não se mantiveram iguais ao longo do tempo, acompanhando os debates teóricos e as transformações conceituais que circundam o fenômeno em questão. Nesse sentido, antes da discussão acerca das motivações para a migração, é necessário discorrer sobre as duas pontas que constituem a relação juventude e interior, assim como a importância da definição desses conceitos para a análise subsequente.
Começando pela juventude, este artigo parte do pressuposto de que esta é uma construção social e histórica que reflete características e valores sociais específicos[2] (Abramovay; Castro, 2015). Sendo assim, entende-se que independentemente do conceito de juventude utilizado, este, necessariamente, carregará consigo uma percepção cultural e/ou teórica particular acerca desse segmento, orientando, por conseguinte, o tratamento que a este será dirigido.
Partindo dessa compreensão e levando em consideração multidimensionalidade dos jovens enquanto sujeitos, este artigo operacionalizou a distinção entre condição juvenil e situação juvenil, conforme a autora Maria de Assunção Lima de Paulo (2011, p. 71) explica:
A condição juvenil diz respeito ao “modo como a sociedade constitui e atribui significado a esse momento do ciclo da vida, que alcança uma abrangência social maior, referida a uma dimensão histórico geracional”, enquanto que a situação juvenil “revela o modo como tal condição é vivida a partir dos diversos recortes referidos às diferenças sociais — classes, gênero, etnia etc. e podemos acrescentar, lugar de vida”.
Logo, enquanto a condição juvenil diz respeito a como um dado contexto histórico e sociocultural atribui sentido à juventude, a situação juvenil trata de como cada jovem vivencia essa condição dentro das particularidades da situação no qual se encontra, como gênero, raça, classe, orientação sexual, naturalidade etc. Essas diferentes formas de vivenciar a condição juvenil em função de distintos marcadores sociais é o que explicita a heterogeneidade desse segmento social.
Mas o que há em comum entre as juventudes? O que reúne os diferentes jovens brasileiros do século XXI nessa cunha partilhada chamada juventude? Para esse estudo, destacam-se dois elementos preponderantes: a transição para a vida adulta e a moratória vital. No que tange à transição para a vida adulta, esta pode ser definida pela condição de liminaridade no qual o jovem se encontra, não sendo nem criança, desprovido de obrigações e responsabilidades, e nem adulto, com uma existência familiar, profissional e social independente (Weisheimer, 2009).
Seguindo essa lógica, considera-se que o início da juventude pode ser demarcado como um momento no qual diversas possibilidades e potencialidades emergem devido à maturação biológica e psicológica dos indivíduos, se manifestando através da “capacidade de procriar, quando a pessoa dá sinais de ter necessidade de menos proteção por parte da família, quando começa a assumir responsabilidades, a buscar a independência e a dar provas de autossuficiência” (Dayrell, 2003, p. 42). Entretanto, “[…] é preciso dizer que o jovem não é um pré-adulto. Pensar assim é destituí-lo de sua identidade no presente em função da imagem que projetamos para ele no futuro” (Dayrell; Carrano, 2014, p. 106).
A moratória vital, por sua vez, surge como um complemento relevante à condição de transição para a vida adulta, pois redimensiona a importância que o presente exerce na vida das juventudes. Para Mario Margulis e Marcelo Urresti (1996), esse conceito se refere a uma maior disponibilidade de energia, vitalidade e tempo que os jovens carregam em comparação com adultos e idosos, manifestando-se, na maioria das vezes, como uma intensidade significativa nas formas de se viver o presente, sobretudo no que tange aos aspectos que envolvem o campo da sexualidade, da cultura, do lazer e da sociabilidade.
Entende-se que, ao mesmo tempo que a preparação para o futuro permanece sendo um aspecto basilar da juventude, as demandas do presente são tão importantes quanto. É na articulação entre essas duas dimensões que se assenta a abordagem deste trabalho.
A condição juvenil, cabe frisar, não ocorre dentro de um vácuo, deslocado da realidade no qual o sujeito está situado, mas sim dentro de um contexto histórico e sociocultural particular. É neste aspecto que reside a outra ponta da relação aqui discutida, o local de origem do qual eles são provenientes e foram socializados: o interior. Esse termo, normalmente utilizado pelo senso comum para designar cidades e municípios distantes das capitais estaduais e das zonas litorâneas, apresenta um caráter extremamente relativo, variando consideravelmente conforme o referencial. Ao falar sobre as pequenas cidades, Maria José Carneiro (2007, p. 57) pontua:
Se observarmos esses espaço a partir de uma perspectiva relacional “eles poderão ser reconhecidos como “cidades” para os moradores das áreas rurais sob sua influência, como poderão, também ser classificados como “rurais” ou “interior” do ponto de vista de um habitante de uma cidade maior.
Partindo dessa perspectiva relacional, utilizou-se neste trabalho o conceito de interior como termo guarda-chuva para abranger tanto as pequenas cidades quanto às zonas rurais, adotando, também, a abordagem de Maria de Nazareth Baudel Wanderley (2007), que observa o espaço rural para além dos critérios institucionais.
Segundo a autora, o rural se configura como um espaço físico diferenciado, que, ao mesmo tempo que é um lugar de vida, ou seja, um lugar onde se vivencia as particularidades do modo de vida local e, consequentemente, desenvolve uma referência identitária, é também um lugar onde se vê e se vive o mundo, ou, em outras palavras, um local pelo qual seus habitantes estão inseridos dentro de um contexto nacional maior (Wanderley, 2007).
Entre as características que definem esse modo de vida particular partilhado tanto pela zonas rurais quanto pelos pequenos municípios, Wanderley (2007) destaca: uma particular vinculação com a natureza; a baixa densidade populacional; uma sociabilidade baseada no interconhecimento; e a precariedade de serviços, de infraestrutura, de oportunidades de trabalho e educação.
No que se refere às relações de interconhecimento, Wanderley (2007) ressalta como essa é uma das principais características que distinguem os espaços rurais e as pequenas cidades das grandes cidades. Essa forma de sociabilidade diferenciada, decorrente da baixa densidade habitacional, está diretamente vinculada com a ideia de “pessoalidade” discutida pelas autoras Rosane M. Prado (1995) e Joseli Maria Silva (2000). Prado (1995) descreve essa pessoalidade como um "paraíso" e, ao mesmo tempo, um "inferno", estando ligada à possibilidade de ser reconhecido e à ausência de anonimato em cidades pequenas.
Nesse sentido, a noção de interior aqui adotada abrange tanto as pequenas cidades quanto as zonas rurais como um único lugar de vida, reunindo as duas sob o mesmo termo ao considerar as diversas similaridades que compartilham — mas sem ignorar as diferenças que as particularizam. No entanto, deve-se pontuar que as cidades interioranas, apesar de compartilharem esse conjunto de características, não são iguais, resguardando suas singularidades locais, regionais e culturais.
Para visualização mais clara das cidades interioranas — e algumas de suas principais características estruturais — pertinentes a esta pesquisa, segue o Quadro II, que fornece um panorama geral das cidades de origem dos sujeitos da pesquisa, explicitando, por meio da comparação com João Pessoa — local de destino dos pesquisados —, as características interioranas que mais contribuíram para a decisão de migrar dos jovens. Entre elas, se destacam o baixo nível de ocupação, de oportunidades de educação e a diminuta densidade populacional — que tem como efeito direto o modo de vida baseado em relações de interconhecimento/pessoalidade. Categorizados em níveis hierárquicos[3] considerados baixos — o que expressa diretamente o nível de autonomia e subordinação de uma cidade em uma dada região —, mesmo sendo cidades com realidade culturais e regionais distintas — o que inevitavelmente produz contornos socioculturais distintos à essas características —, estas constituem o solo material e social da experiências migratórias dos jovens aqui analisados, reunidas em torno de uma constante basilar: a restrição de possibilidades decorrente da infraestrutura local.
Quadro II – Panorama Geral da Cidade de Origem e de Destino dos Sujeitos da Pesquisa de acordo com o IBGE
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CIDADE |
TERRITÓRIO |
NÍVEL HIERÁRQUICO |
HABITANTES |
DENSIDADE DEMOGRÁFICA |
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São José do Bonfim/PB |
153,629 km² |
5: Centro local |
3.242 |
21,10 hab./km² |
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Itapetim/PE |
411,901 km² |
5: Centro local |
13.791 |
33,48 hab./km² |
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Porto Franco/ MA |
1.420,510 km² |
3B: Centro Sub-regional B |
23.903 |
16, 83 hab./km² |
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João Pessoa/PB |
210,055 km² |
2A: Capital Regional A |
833.932 |
3.970,27 hab./km² |
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PIB per capita |
IDHM |
OCUPAÇÃO |
SAÚDE (SUS) |
EDUCAÇÃO |
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São José do Bonfim: R$8.943,38/hab. |
0,578 (2010) |
5,2% |
2 |
Ensino fundamental: 5 Ensino médio: 1 |
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Itapetim: R$10.367,12/hab. |
0,592 (2010) |
8,2% |
6 |
Ensino fundamental: 13 Ensino médio: 1 |
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Porto Franco: R$42.237,94/hab. |
0,684 (2010) |
14,41% |
10 |
Ensino fundamental: 30 Ensino médio: 3 |
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João Pessoa: R$26.936,78/hab. |
0,763 (2020) |
39,11% |
208 |
Ensino Fundamental: 339 Ensino Médio: 133 |
Fonte: elaboração própria, João Pessoa, 2025.
Também é válido destacar que, em função da alta densidade populacional — 3.970,27 hab./km², no caso de João Pessoa —, um dos principais elementos que diferenciam o modelo de sociabilidade das grandes cidades das pequenas é a impessoalidade (Simmel, 2005). Sobre isso, Gilberto Velho e Machado da Silva (1977, p. 80) destacam: “O que seria característico, então, da grande metrópole é a possibilidade de desempenhar papéis diferentes em meios sociais distintos, não coincidentes e, até certo ponto, estanques. Isto é o que seria o anonimato relativo”. Desta forma, em contraponto às cidades interioranas, as grandes cidades apresentam não apenas maior pluralidade de serviços e oportunidades, mas também maior liberdade — em função do seu modelo de sociabilidade — para usufruir dessa maior variedade de opções.
Assim sendo, é partindo dessas definições e dessas realidades materiais/sociais que este trabalho visa pensar a relação das juventudes com o interior, principalmente no que tange à forma como estas contribuem para a migração, impactam o exercício da condição juvenil e são significadas pelas diferentes situações juvenis.
Agência, campo de possibilidades e associação involuntária
Se a juventude e o interior constituem as duas pontas da relação aqui investigada, o que existe entre esses pontos que os liga? Para responder a essa pergunta, é necessário tratar, anteriormente, do problema fundamental da sociologia enquanto área do conhecimento: a relação indivíduo e sociedade. Dentro das abordagens possíveis para se pensar essa relação, a adotada por este estudo é a que busca conciliar esses polos, não pensando a estrutura como uma força coercitiva que condiciona e determina as condutas sociais, e nem o indivíduo como ser puramente autônomo que age e reage livremente conforme sua subjetividade. Seguindo essa linha, o autor Anthony Giddens (2003) descreve a realidade social como sendo continuamente produzida e reproduzida pelas ações dos indivíduos, que, enquanto agentes, possuem a capacidade de transformá-la por meio de suas escolhas e dos recursos que essa própria realidade lhes oferece.
Mas o que é agência? Segundo o referido autor (Giddens, 2003, p.10-11), “‘Agencia’ diz respeito a eventos dos quais um indivíduo é o perpetrador, no sentido de que ele poderia, em qualquer fase de uma dada sequência de conduta, ter atuado de modo diferente. O que quer que tenha acontecido não o teria se esse indivíduo não tivesse interferido”. Logo, constata-se que agência é a capacidade de escolha existente quando há mais de uma possibilidade de ação, mesmo que sejam reduzidas.
Aliado à esta noção, encontra-se o conceito de “campo de possibilidades”. De acordo com Gilberto Velho (2003, p. 28), “campo de possibilidades trata do que é dado com as alternativas construídas do processo sócio-histórico e com o potencial interpretativo do mundo simbólico da cultura”. Ou seja, refere-se às possibilidades existentes dentro de um espaço social delimitado, sendo este decorrente de um processo sócio-histórico particular. Desta forma, assim como a noção de estrutura de Giddens (2003), o campo de possibilidades oferece margem para desenvolver projetos e escolhas, desde que estejam circunscritos na delimitação socialmente estabelecida pelo campo.
Ademais, embora o campo de possibilidades no qual todo e qualquer indivíduo está inserido não seja determinista, ele também não é voluntário, ou seja, não é decorrente da vontade ou da escolha dos sujeitos, mas sim resultado de uma “associação involuntária”. Isso implica dizer que os sujeitos são obrigados, segundo o autor Michael Walzer (2008), a participarem de determinados grupos e cenários sociais em função de determinados condicionamentos sociais, como a família, a cultura, o Estado e a moral.
Sendo assim, nota-se que a noção de campo de possibilidades e o conceito de associação involuntária corroboram a ideia de que, apesar de os sujeitos disporem da capacidade de agência, essa liberdade de escolha sempre estará circunscrita aos limites impostos pelo contexto social, cultural, político, histórico, econômico e ambiental. Nesse sentido, pode-se dizer que para ambos os autores, “o que a liberdade exige não é o voluntarismo puro, mas a possibilidade de oposição e fuga” (Walzer, 2008, p. 4).
A relação juventude e interior: um delimitado campo de possibilidades
Como pontuado anteriormente, entre os aspectos que caracterizam as cidades interioranas — sobretudo quando comparadas às grandes cidades — estão o modo de vida baseado nas relações de interconhecimento, a baixa densidade populacional e uma série de restrições sociais decorrentes da falta de infraestrutura local (Wanderley, 2007). Essas características, independentemente do recorte social, afetam negativamente o desenvolvimento dos indivíduos, conforme Amartya Kumar Sen (2000) argumenta. Segundo o autor, a capacidade de desenvolvimento de um indivíduo, ou seja, a possibilidade que um sujeito tem de alcançar seus objetivos, se sentir realizado tanto nos planos pessoais quanto profissionais e melhorar sua qualidade de vida, está diretamente atrelada à ideia de liberdade:
A ligação entre liberdade individual e realização de desenvolvimento social vai muito além da relação constitutiva, por mais importante que ela seja. O que as pessoas conseguem positivamente realizar é influenciado por oportunidades econômicas, liberdades políticas, poderes sociais e por condições habilitadoras como boa saúde, educação básica e incentivo ao aperfeiçoamento de iniciativas. (Sen, 2000, p. 19)
Logo, quanto mais oportunidades e condições sociais/materiais, mais possibilidades de escolha o indivíduo tem a sua disposição, sendo o cenário mais propício para alcançar seus objetivos e desenvolver capacidades conforme sua subjetividade enquanto sujeito.
Essa constatação não diz respeito apenas às juventudes, impactando todo e qualquer indivíduo independentemente da fase da vida. Contudo, como Helena W. Abramo (2005, p. 31) enfatiza acerca dos jovens, estes são sujeitos
[...] com necessidades, potencialidades e demandas singulares em relação a outros segmentos etários. Requerem estruturas de suporte adequadas para desenvolver sua formação integral e também para processar suas buscas, para construir seus projetos e ampliar sua inserção na vida social.
Tomando como base essa perspectiva exposta por Abramo (2005), é coerente dizer que essa formação integral não envolve apenas o desenvolvimento de capacidades e habilidades necessárias para ingressar no mercado de trabalho, mas também a capacidade de saber quem é e o que quer para a vida. A ideia de moratória vital, seguindo essa lógica, serve justamente para pensar a condição juvenil como um dado espaço de tempo no qual existe uma maior necessidade de experimentação, em virtude do amadurecimento cognitivo e corporal característico desse período (Dayrell, 2003). Ou seja, nesta fase em específico, combina-se tanto um desenvolvimento cognitivo/corporal quanto uma progressiva autonomia para escolher elementos que não necessariamente a família, primeiro espaço socializador e primeira forma de associação involuntária, disponibilizou.
Neste sentido, é possível dizer que, conforme os indivíduos crescem e amadurecem, em virtudes das próprias características biológicas, o campo de possibilidades no qual estão inseridos necessariamente se amplia. Entretanto, o que condiciona o alcance dessas possibilidades, delimitando ou potencializando a capacidade de desenvolvimento de cada um, são as associações involuntárias no qual nasceram e pertencem.
Assim, quando se pensa nas características interioranas indo ao encontro das características da condição juvenil, há uma espécie de contradição basilar, tornando-se progressivamente mais evidente conforme os jovens crescem e demandam autonomia para fazer as próprias escolhas, como foi o caso de Mari Maia:
Quando eu entrei no ensino médio, eu percebi que depois do ensino médio, o que era que eu ia fazer? Eu ia ter meus filhos, é… eu ia, não sei, fazer algum cursinho? Porque é basicamente essas opções que eram oferecidas pra gente. [...] Não ia ter muitas oportunidades de estudo, muitas oportunidades de emprego. O meu ciclo social ficava muito fechado, eu percebi que eu não queria ficar acomodada com isso (Mari Maia, 2024, Itapetim/PE).
É possível inferir que, embora as características interioranas cerceiem a liberdade e restrinjam as possibilidades de experiências — tanto do futuro quanto do presente — de todo e qualquer sujeito interiorano, em virtude das suas próprias particularidades, aqueles que sentem de maneira mais direta essas limitações são os jovens. Isso ocorre tanto no que tange à moratória vital quanto no que diz respeito à transição para a vida adulta. No caso da moratória vital, primeiramente, destacam-se dois elementos principais: o controle social decorrente das relações de interconhecimento e a ausência de pluralidade de opções no que tange ao lazer, à cultura e à sociabilidade.
Sobre as relações de interconhecimento e como estas restringem a moratória vital, Silva (2000, p. 27) aponta:
A vivência nesta coletividade, buscando o reconhecimento social, significa, portanto, aderir ao seu sistema de valores e desempenhar comportamentos para cumprir o papel social que foi designado pelo grupo. [...] Os usuários obedecem às regras sem necessariamente dar-se conta disso, pois o padrão está internalizado e, para obter o reconhecimento da coletividade e aproveitar-se das relações sociais profundamente marcadas pela pessoalidade, não se deve transgredir as regras culturais, "não se pode causar falatório na cidade".
Neste sentido, o policiamento e controle social manifestados por meio do “falatório” e da “fofoca", impossibilitam que esse momento de experimentação, fundamental no processo de constituição da identidade, ocorra de forma livre e desinibida. Esse processo, por sua vez, ocorre de duas formas. Primeiramente, através de uma literal vigilância, decorrente da constante e ininterrupta condição de “pessoa” assumida pelos cidadãos interioranos, sendo passíveis de reconhecimento e identificação dentro de sistema social no qual todos ocupam um local e posição muito bem definidos (DaMatta, 1979, 1985). Isso pode ser observado, novamente, na experiência de Mari Maia, que, como ela mesma afirmou, se sentia “constantemente vigiada” em sua cidade:
Outras pessoas da minha família sempre prejudicadas, sendo tipo assim, por fofoca, por pessoas que viu as coisas pela metade e saíam falando assim, porque eu tenho um requisitinho, assim, que é que eu sou sobrinha do prefeito da cidade. Eu adoro minha família, só que, cara, por ser, assim, sobrinha do prefeito, eu estava sendo constantemente vigiada (Mari Maia, 2024, Itapetim/PE).
E, em segundo lugar, por meio da internalização de normas de conduta — a moral socialmente compartilhada — involuntariamente impostas e amplificadas devido ao círculo social consideravelmente pequeno e homogêneo (Walzer, 2008), sendo justamente a realidade vivenciada por Átila:
É uma das coisas que aconteciam, além das próprias conversas, né, que eles tinham entre eles, entre as pessoas, muito, ehh, de preconceito mesmo. Que, querendo ou não, a gente vai ouvindo e vai internalizando e aí acaba virando um ambiente muito, muito difícil de se viver. E eu acho que isso tudo foi me gerando um ódio pela cidade, não pela família, mas pela cidade, porque eu sabia que a cidade influenciava isso tudo. Não só a religião, mas eu acho que a cidade também influenciava, influenciava a eles terem esse pensamento tão fechado. (Átila, 2024, Porto Franco/MA)
Quanto à ausência de opções no que tange ao lazer, à cultura e a sociabilidade, mesmo os jovens interioranos carregando uma disposição para “viver a juventude” — assim como os jovens urbanos[4]— (Abramo, 2007), esta encontra barreiras para sua concretização devido ao clima de estagnação que normalmente caracterizam o cotidiano das pequenas cidades (Silva, 2000):
É sempre as mesmas pessoas, sempre os mesmos lugares, não tinha nada pra fazer, eu não era estimulada intelectualmente, socialmente, amorosamente… Era tudo, assim, muito parado. Numa cidade acima de 14 mil habitantes, a única época animada era quando tinha o São João, então, todo mundo esperava o São João e o São João era a maior festa que tem. Então, a gente passava o ano todo esperando por um ou dois dias, porque no resto dos dias não tinha absolutamente nada pra fazer. (Mari Maia, 2024, Itapetim/PE)
Além disso, em virtude do círculo social mais fechado, existe menos diversidade e pluralidade de culturas, circunscrevendo as experiências juvenis, sobretudo no que se refere aos processos de experimentação e de autodescoberta, a um restrito campo de possibilidades involuntariamente imposto[5]. Assim, as chances de um dado jovem se identificar e se envolver com uma cultura ou estilo de vida distinto daquele vivido em sua cidade é consideravelmente menor, restringindo, por sua vez, a sua capacidade de desenvolvimento enquanto sujeito.
Já no que diz respeito à transição para a vida adulta, esta ocorre dentro de um cenário marcado pela baixa diversidade de oportunidades de trabalho e estudo, conforme Wanderley (2007) argumenta. Essa, por sua vez, foi a realidade vivenciada de maneira consideravelmente explícita por Monalisa:
Eu sempre quis, né? Alguma forma de ajudar meus pais, melhorar de vida, melhorar a (vida) dos meus pais e dos meus irmãos, e lá não tinha emprego. Eu também sempre gostei muito de estudar e lá é geralmente o máximo que a gente consegue terminar é o ensino médio, e eu sempre quis mais. Isso me entristecia muito, eu queria estudar, também queria trabalhar e lá eu não conseguia. (Monalisa, 2024, São José do Bonfim/PB)
É importante salientar que, assim como a cidade grande, o interior é um espaço caracterizado por uma heterogeneidade de situações, possibilitando uma pluralidade de vivências e atravessamentos da condição juvenil. Ou seja, tanto no que concerne à transição para a vida adulta quanto à moratória vital, a condição juvenil é experienciada a partir das particularidades de cada situação juvenil. No que tange aos sujeitos desta pesquisa, as semelhanças e as particularidades de cada situação juvenil podem ser visualizadas no Quadro I.
Nesse sentido, se os jovens, em função das características da própria condição juvenil, sentem de maneira amplificada as restrições impostas pelo interior enquanto lugar de vida — se comparados com indivíduos de outras faixas etárias —, isso se intensifica ainda mais ao interseccionar a categoria juventude com outras categorias e elementos que particularizam cada situação juvenil. Dentro disso, uma das entrevistadas comentou,
Ehh… Eu já morei em muitos lugares, mas morando em cidade pequena na adolescência, eu percebia que pra mulheres era muito limitado. Principalmente, sendo bem do interior do sertão ehh… A oportunidade que a gente tinha era encontrar alguém que provavelmente era um cara, no ensino médio, era um cara mais velho, sair e casar e daí, um ou dois anos depois, ter filhos, e começar ali a maternidade com 19 anos. Isso foi uma das coisas que me desesperou, porque não era isso que eu queria. (Mari Maia, 2024, Itapetim/PE)
No caso específico de Mari Maia, existem duas particularidades que chamam atenção: o fato dela ser mulher e de ser sobrinha do prefeito. A articulação entre esses elementos e as demandas por autonomia relacionadas à juventude se chocavam diretamente com as relações de interconhecimento baseadas na pessoalidade, tornando, para entrevistada, a experiência no interior “opressiva” e “desestimulante”.
Outro exemplo de intersecção entre categorias que promove a ampliação das limitações vivenciadas e sentidas pelos jovens interioranos é a união entre juventude, gênero feminino e ser membro de uma unidade de produção agrícola, como pode ser visualizado na situação de Monalisa:
Eu morava na zona rural, certo? Eu me sentia, assim isolada do mundo, realmente. Porque era bem assim, rural mesmo, dentro dos mato, assim 5 km de mata fechada pra chegar. Eu me sentia isolada, sem oportunidades [...] Por que tem muito isso de indicação, né? Eu pensava muito nesse lado, porque lá no interior, se você não for amigo do prefeito, se você não for parente de empresário, você não trabalha,
Porque, pensa, gente do interior tem uma cabeça bem fechada. Como eu falei, o contexto da vida de uma menina é esse: só sai de casa pra casar. Minha mãe sempre me dizia isso: “você só vai sair de casa um dia se for pra casar”. (Monalisa, 2024, São José do Bonfim/PB)
Em virtude da ambivalência familiar característica das unidades de produção agrícola, devido à convergência das relações familiares e de trabalho em um único espaço, “os jovens oscilam entre o projeto de construírem vidas mais individualizadas, expresso no desejo de 'melhorarem o padrão de vida', de 'serem algo na vida', e o compromisso com a família” (Oliveira, 2006 apud Carneiro, 1999, p. 34), sendo um cenário ainda mais restritivo se tratando das mulheres.
Por fim, como um último exemplo de intersecção, há o caso de Átila, que, em virtude de ser homossexual e neto de pastores evangélicos, sofreu diferentes formas de discriminação e preconceito:
Começou, eu acho, no início do ensino médio, que foi quando eu tava, assim, descobrindo minha sexualidade, né? Foi quando eu tive, por exemplo, o meu primeiro namorado, ficante, sei lá, não sei o que que era, mas enfim, foi o meu primeiro contato com a minha sexualidade em si, real, né? Ehh, e aí pra ele também, eu acho que foi a mesma coisa, desse menino, e aí foi quando algumas questões religiosas começaram a bater.
Ehh, aí o que acho... O que mais me pegou foi quando a gente passou por uma situação meio delicada, porque ele também tava se descobrindo, e aí os pais dele também tinham essa relação com ele, sabe, de preconceito por causa da religião também. E aí os pais dele descobriram, né, sobre a gente e tudo mais, e eu acho que essa foi a principal situação, que foi quando rolou ameaça de violência física e tudo mais, que aí a gente precisou separar, assim, não só se separar de relacionamento, mas até de amizade, tipo, qualquer contato. (Átila, 2024, Porto Franco/MA)
Ao considerar o cenário vivenciado por Átila, marcado pela intersecção de sua condição de jovem interiorano e gay, oriundo de uma família evangélica, especialmente dentro de um contexto juvenil de autodescoberta e emergência de desejos e potencialidades ainda inexploradas, evidencia-se como sua experiência em Porto Franco foi baseada em uma constante tensão entre ser aquilo que ele era e aquilo que se esperava dele.
Portanto, apesar das particularidades de cada situação juvenil, é notável nas relações explanadas o sentimento de rejeição e recusa aos limites involuntariamente impostos pelo interior, enquanto lugar de vida, para a satisfação de suas demandas como sujeitos, configurando-se como um cenário de tensão e desacordo entre os desejos juvenis e as características locais.
A migração como uma das formas de manifestação da condição juvenil interiorana
Uma das principais estratégias adotadas pelos jovens para lidar — e muitas vezes superar — o delimitado campo de possibilidades instaurado pela relação juventude e interior é a migração para uma grande cidade. Segundo José C. A. Pereira (2007), as motivações para migração podem ser analisadas à luz de dois tipos de fatores, sendo estes macro e microssociais. Sobre essa distinção, o referido autor explica:
a) fatores de ordem macrossocial e estrutural — infraestrutura regional, políticas públicas, arranjos institucionais; b) fatores de ordem microssocial, mais tangíveis nas práticas cotidianas dos indivíduos, suas famílias e/ou redes de sociabilidade. (Pereira, 2007, p. 149)
Dentro dessa lógica, mesmo que seja inviável estabelecer um critério uniforme que homogeneíze as motivações para o migrar dos jovens, um aspecto ainda permanece como sendo central: a busca por melhores condições de vida. Ou, em outras palavras, a busca por romper com os diversos limites impostos pelo interior e alcançar/atender seus objetivos e necessidades ali não satisfeitos. Entretanto, o que significa “melhores condições de vida” não é algo objetivo e unívoco, mas elaborado e almejado conforme o contextos micro e macro nos quais cada um está inserido. Esse cenário, no que diz respeito aos jovens sujeitos desta pesquisa, pode ser visualizado de maneira mais completa no Quadro III.
É possível notar, a partir das motivações para migração visualizadas no quadro, como estas estiveram diretamente vinculadas às particularidades de cada situação juvenil — gênero, orientação sexual, condição socioeconômica, situação familiar, cidade de origem, — e suas diferentes formas de lidar com as características interioranas. Ao mesmo tempo, estas também se deram dentro de uma condição juvenil comum, vivenciada em contextos sociais com diferentes níveis de infraestrutura e com realidades socioculturais distintas.
Sobre as semelhanças que reúnem as motivações para migração dos três entrevistados, destacam-se, sobretudo, os aspectos macrossociais, como a ausência de oportunidades de educação, trabalho e lazer, fazendo-se presente, nos depoimentos dos três jovens interioranos, a percepção do interior como um local cujo campo de possibilidades era consideravelmente diminuto. Quanto às diferenças, sobressaem-se os aspectos microssociais, especialmente no que tange à ausência, ou não, de identificação com o modo de vida interiorano. Estas diferenças, por sua vez, influenciaram o momento/idade no qual o desejo por migrar floresceu, assim como as expectativas nutridas quanto à capital da Paraíba[6].
Quadro III – Contexto pré-migração
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QUESTÃO |
MONALISA |
MARI MAIA |
ÁTILA |
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1. Relação com a cidade de origem |
Local isolado e sem oportunidades de trabalho e estudo |
Sem oportunidades de trabalho e estudo; mentalidade fechada; sem opções de lazer; fofoca; se sentia oprimida e não estimulada |
Sem oportunidades de trabalho e estudo; mentalidade fechada; sem opções de lazer; fofoca; sentia ódio pela cidade e a achava “tóxica” |
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2. Quando surgiu o desejo de migrar |
Infância (10 anos) |
Adolescência (15/16 anos) |
Adolescência (13 anos) |
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4. Motivo (s) para migrar (entrevista) |
Falta de oportunidades de trabalho e estudo, “melhorar de vida” |
Oportunidades de estudo, falta de identificação com a cidade que morava, desejo por liberdade e conhecer pessoas diferentes |
Escape da família e cursar biomedicina |
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5. Influência direta |
Primos e irmãos |
Amigos e professora de literatura |
Pais e professor de física |
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6. Papel da família |
Suporte material da irmã |
Suporte emocional e material da mãe e do tio |
Suporte emocional dos pais e suporte material dos avós |
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7. Expectativa quanto a João Pessoa |
Conseguir um trabalho |
Ampliar seu círculo social e suas oportunidades |
Se estabelecer emocionalmente |
Fonte: elaboração própria, João Pessoa, 2025.
Ademais, embora a migração não seja uma demanda universal no que diz respeito aos jovens interioranos, e também não seja o objetivo deste trabalho hierarquizar o interior e as grandes cidades como “pior” e “melhor”, é observável que, para estes jovens sujeitos em específico, a migração foi a maneira encontrada por eles para exercerem sua condição juvenil, algo que, em virtude de diversas características interioranas — principalmente no que se refere às restrições materiais e sociais —, suas cidades de origem não deram conta de abarcar. Isso pode ser observado de maneira nítida na experiência de Mari Maia após migrar para João Pessoa:
Assim, eu não posso dizer que fiquei decepcionada em nenhum quesito. Eu consegui ter experiências novas, conheci lugares novos, conheci pessoas novas. Conheci muitas vivências que não têm nenhuma relação com a minha realidade. Também abri mais os braços pras vivências que são diferentes da minha, porque antes eu achava que isso era limitado, mas caramba, agora vejo que são muitos tipos de vivências. Eu consegui também um estágio muito rápido; eu tive uma oportunidade muito boa de estagiar assim que cheguei aqui. (Mari Maia, Itapetim/PE, 2025)
Nesse sentido, conforme Prado (1995, p. 51-52) destaca: “[...] se ir para fora, ou estabelecer contato com gente de fora, alivia a sujeição à mesmice e ao controle social”. Esse ponto vai ao encontro das responsabilidades do Estado frente às juventudes como sujeitos de direitos (Brasil, 2013), tendo como princípios a promoção da autonomia, da emancipação, do bem-estar, da experimentação e do desenvolvimento integral do jovem. A partir disso, é possível notar que o exercício da condição juvenil é um direito das juventudes, independentemente dos locais nos quais residem.
Sobre isso, ao discorrer especificamente sobre as juventudes rurais — mas ainda enquadradas na noção de juventude interiorana aqui empregada —, Paulo (2013, p. 337) aponta:
Pensar desenvolvimento deve ser sinônimo de possibilitar para os indivíduos, como atores sociais, o direito de escolher seu destino e de agir em relação a essas escolhas. Assim, se quiser ficar, o jovem precisa ter mais do que políticas que visem à produção (e nesse sentido, pode-se apontar que o modelo agroecológico poderia potencializar isso), mas também outros aspectos, pois é própria da condição juvenil socialmente cunhada, a necessidade de lazer, consumo, educação, esporte e acesso a tecnologias e os jovens, independente das situações juvenis rurais, mesmo adotando para estes significados diferentes e os utilizando para fins específicos, querem participar dessa condição do ser jovem.
Logo, como observado por Paulo (2013) e pelos próprios jovens interlocutores desta pesquisa, em diversos aspectos, a realidade encontrada das cidades interioranas não oferece as condições para efetivação desses direitos, sendo, em muitos casos, necessário recorrer à migração para “fazer valer” seus direitos enquanto jovens cidadãos.
Conclui-se, por conseguinte, que a migração para as grandes cidades, apesar de não se configurar como uma necessidade para sua concretização, opera como uma das formas de manifestação da condição juvenil interiorana, ocorrendo conforme as especificidades de cada cidade interiorana, as particularidades de cada situação juvenil e a historicidade/subjetividade de cada sujeito.
Considerações finais
No artigo, discutiu-se a relação das juventudes com interior e de que forma esta contribui para a migração dos jovens interioranos para grandes cidades. Para isso, além do manuseio e articulação dos referenciais teóricos acerca das categorias abordadas, considerou-se o relato de três jovens interioranos que haviam migrado para a cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba.
Por meio dos depoimentos dos jovens entrevistados, percebeu-se como cada motivação e expectativa reveladas estavam diretamente vinculada às particularidades de cada situação juvenil. Dentro disso, notou-se também como a intersecção entre diferentes indicadores sociais e a categoria juventude contribuiu para amplificação das restrições vivenciadas pelos entrevistados em suas respectivas cidades natais. No entanto, apesar das diferenças, como o nível de identificação com o modo de vida local e até mesmo o grau de restrições materiais vivenciado — seja pela situação familiar ou pela própria infraestrutura local —, constatou-se que nos três casos havia um cerne motivacional comum: a busca pela ampliação dos respectivos campos de possibilidades.
Este texto corrobora a percepção de que a base de toda e qualquer migração é a busca por um local que ofereça melhores condições de vida. No entanto, o que diferencia cada situação, como no caso dos três sujeitos da pesquisa, são os critérios e percepções individuais acerca do que é uma vida melhor e uma vida pior, e como as características sociais do contexto no qual se está inserido afeta diretamente essa realidade.
Portanto, constatou-se nesta pesquisa uma dissonância entre os aspectos que caracterizam a condição juvenil — transição para a vida adulta e moratória vital — e as características que definem o interior enquanto lugar de vida — modo de sociabilidade baseado na pessoalidade e a precariedade de serviços, bens e oportunidades —, sendo a migração uma das maneiras adotadas pelos jovens para exercerem tal condição e romperem com as associações involuntárias que limitavam seu desenvolvimento.
No entanto, o exercício da condição juvenil é direito da juventude, independentemente do local ou região em que esteja. Nesse sentido, faz-se necessário perceber os jovens interioranos como sujeitos de direitos, que demandam políticas públicas voltadas para a integralidade de suas necessidades e potencialidades, tanto no que concerne ao presente quanto no que diz respeito ao futuro. É somente a partir dessa compreensão que será possível pensar um cenário social no qual a migração não surja como uma forma de o jovem fazer valer seus direitos como cidadãos, e sim como decorrente de sua vontade pessoal e subjetiva.
Referências
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Recebido em: 04/09/2025.
Aceito em: 11/05/2026.
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.76127.p150-173
* Graduado em Ciências Sociais (Bacharelado) pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brasil. E-mail: pedrojohnspp@gmail.com.
[1] Conforme o censo de 2022 efetuado pelo IBGE.
[2] Longe de ser algo biologicamente natural, universal e imutável da raça humana, a fase juvenil é algo que necessariamente se manifesta conforme o cenário social no qual cada indivíduo está inserido. Isso não implica dizer que não há um solo biológico no qual as características juvenis socialmente elaboradas florescem — como puberdade, desenvolvimento corporal e cognitivo —, apenas que o contexto sociocultural é o que dá contorno e sentido a essas características.
[3] A hierarquia urbana indica a centralidade da Cidade de acordo com a atração que exerce a populações de outros centros urbanos para acesso a bens e serviços e o nível de articulação territorial que a Cidade possui por estar inserida em atividades de gestão pública e empresarial. São cinco níveis hierárquicos, com onze subdivisões: Metrópoles (1A, 1B e 1C), Capitais Regionais (2A, 2B e 2C), Centros Sub-Regionais (3A e 3B), Centros de Zona (4A e 4B) e Centros Locais (5). Alguns Municípios são muito integrados entre si e constituem apenas uma Cidade para fim de hierarquia urbana, trata-se dos Arranjos Populacionais, os quais são indicados no complemento da hierarquia urbana quando ocorrem (IBGE, 2018).
[4] Essa comparação se faz pertinente, pois, historicamente, a sociologia da juventude carrega uma tendência a privilegiar os jovens urbanos, em detrimento dos jovens interioranos — como objetos de análise para compreender as diferentes manifestações culturais e de sociabilidade associadas a esse segmento social. Abramo (2007), todavia, enfatiza que, apesar de não haver as mesmas condições e recursos para tal, os jovens interioranos — tanto de pequenas cidades quanto das zonas rurais — mantêm as mesmas disposições que os jovens urbanos, adequando-as ao contexto e às limitações impostas pelo interior enquanto lugar de vida.
[5] A presença de um restrito campo de possibilidades na esfera do lazer e da cultura não implica dizer que não havia formas encontradas e desenvolvidas pelos jovens para se entreter em suas cidades de origem. Seja em praças locais, ou atividades em espaços naturais de suas cidades, como mencionado pelos três entrevistados. No entanto, é importante reiterar que, apesar de haver possibilidades de entretenimento e lazer, os interlocutores, especialmente Mari Maia e Átila, sentiam essas possibilidades de forma consideravelmente restritiva.
[6] Cabe frisar que a escolha especificamente pela capital da Paraíba, nos três casos, possuiu justificativas pessoais e influências endógenas. Monalisa, primeiramente, além de ser a capital mais próxima de sua cidade natal, escolheu a cidade de João Pessoa por ser o local onde sua irmã mais velha residia, sendo esse suporte material e afetivo um fator determinante em sua decisão. Mari Maia, por sua vez, foi influenciada por 4 amigos que também migraram para João Pessoa e representavam uma segurança nessa transição inerentemente desafiadora. Por fim, Átila, mesmo sendo do estado do Maranhão, escolheu a capital da Paraíba por já possuir uma relação afetiva com a cidade em decorrência do seu pai ser oriundo do estado da Paraíba e pelo fato de, quando mais novo, ter visitado João Pessoa e se “encantado pelo mar”.
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