UMA BREVE INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

A BRIEF INTRODUCTION TO SOCIOLOGY OF EDUCATION

Rodolfo Alves de Macedo *

 

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77544.p238-244

 

SOUZA, Renato Antonio de. Sociologia da educação. São Paulo: Cengage, 2017. 92 p.

 

A Sociologia da Educação, como disciplina voltada à análise das relações entre sociedade e escola, tem sido constantemente revisitada em obras de caráter introdutório. Esses manuais não apenas sistematizam teorias clássicas e autores de referência, mas também incorporam discussões atuais sobre desigualdades, políticas públicas e práticas pedagógicas, oferecendo ao leitor uma visão panorâmica das tensões que atravessam o campo educacional. Ao mesmo tempo, cumprem a função de aproximar estudantes e profissionais das principais questões que estruturam a área, servindo como porta de entrada para debates mais complexos.

Ao retomarmos a história dos manuais de sociologia no Brasil, remontamos ao início do século XX, quando da institucionalização da disciplina no país. Em seu livro Institucionalização da sociologia no Brasil, Simone Meucci (2011) se dedica a analisar os materiais didáticos de sociologia entre as décadas de 1920 e 1940, período em que houve uma produção significativa de manuais, dada a introdução da disciplina de sociologia em escolas normais e cursos secundários, revelando a preocupação em consolidar a sociologia como campo autônomo de conhecimento científico. No entanto, Bodart e Marchiori (2021) apontam para a obra Educação moral, noções de sociologia e direito usual, de Elpídio de Abreu e Lima Figueiredo, publicado em 1917, como provavelmente o primeiro manual escolar brasileiro destinado ao ensino secundário.

Desde então, diversos outros manuais, menos ou mais complexos, foram elaborados e reelaborados em função de atualizações na área. No âmbito da Sociologia da Educação no Brasil, uma obra de referência como Educação e sociedade, publicada em 1964 e organizada por Luiz Pereira e Marialice Foracchi, encontra-se esgotada há muitas décadas.

E na intersecção entre educação e sociologia, o campo possui mais uma obra para compor sua vasta bibliografia. Trata-se da sucinta obra de Renato Antonio de Souza, intitulada apenas como Sociologia da educação. Souza é licenciado em Letras pelas Faculdades Integradas Tibiriçá e mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui experiência como docente e na formação de professores. Publicado em 2017 pela Editora Cengage, o livro está organizado em 4 capítulos divididos ao longo das suas 92 páginas. Pensada para o leitor que busca informações de maneira dinâmica, a obra aborda brevemente temas abrangentes, como conceitos gerais de sociologia, educação formal e democracia.

O primeiro capítulo, intitulado Conceitos gerais, cumpre a função de apresentar ao leitor os fundamentos que estruturam a relação entre sociedade e educação. São discutidos conceitos centrais como sociologia, fato social, educação e democracia, que servem de base para compreender como a vida social se organiza e de que maneira a educação se insere nesse processo. A introdução da noção de fato social, formulada por Émile Durkheim, é particularmente relevante, pois evidencia que os modos de agir, pensar e sentir são gerais — isto é, se colocam a todos —, exteriores ao indivíduo e exercem sobre ele uma força de coerção. Essa perspectiva permite compreender a educação como prática social que não se reduz a escolhas individuais, mas que responde a necessidades coletivas e históricas. O texto também relaciona o conceito de fato social às noções de grupo social, sanções, normas, valores e símbolos sociais, todos definidos de maneira objetiva e esclarecidos para facilitar a compreensão do leitor. Essa articulação mostra como a educação está imersa em um sistema de significados e regras que orientam a vida em sociedade.

Um dos pontos de destaque é a discussão sobre o processo de socialização, diferenciando entre socialização primária — aquela que ocorre no seio da família e nos primeiros grupos de convivência — e socialização secundária, que se dá em instituições como a escola. Essa distinção é fundamental para analisar as práticas educativas e compreender a escola como instituição social responsável por transmitir valores e conhecimentos que sustentam a coesão social.

Neste momento, percebe-se a influência da clássica obra de Durkheim Educação e sociologia, especialmente ao considerar que “cada sociedade possui um ideal de homem, cujas características intelectuais, físicas e morais norteiam a educação dessa sociedade. Assim, a educação perpetua essa homogeneidade de cidadãos, o que permite que ela exista” (Souza, 2017, p. 19). A afirmação de que “a educação, então, tem por objeto produzir um ser social” (Souza, 2017, p. 19) evidencia que essa prática social não ocorre de forma aleatória, mas responde às exigências de um determinado tempo e espaço.

Embora o capítulo seja coerente na exposição dos conceitos clássicos, consideramos que a ênfase em Durkheim poderia ser complementada com referências a perspectivas mais recentes da sociologia da educação, como Pierre Bourdieu e Michael Apple. Isso ampliaria o diálogo entre tradição e contemporaneidade, permitindo ao leitor perceber a influência das ideias durkheimianas e também seus limites diante das transformações sociais atuais.

Além disso, o autor dedica atenção às questões de infância e juventude, reconhecendo que diferentes fases da vida demandam abordagens específicas da sociologia. Esse ponto é relevante porque evidencia que a educação não pode ser pensada de forma homogênea, mas deve considerar as particularidades de cada etapa do desenvolvimento humano. O capítulo também abre espaço para discutir a educação contemporânea, marcada por desafios como a diversidade cultural, as desigualdades sociais e as novas demandas do mundo globalizado. Essas considerações permitem pensar em uma atualização da educação, que precisa responder às transformações sociais e tecnológicas sem perder de vista sua função integradora.

Mas afinal, o que faz a Sociologia da Educação? Segundo Souza (2017), trata-se de uma subárea da sociologia responsável pelo estudo dos fatos sociais relacionados à educação. Seu objeto de análise inclui o processo educativo em sentido amplo, o sistema escolar, a escola como instituição, a sala de aula e os professores. Essa definição mostra que a Sociologia da Educação não se limita a teorizar sobre a escola, mas busca compreender como ela se relaciona com a sociedade e como participa da reprodução ou transformação das estruturas sociais.

O capítulo ainda aborda a ideia de educação social, enfatizando sua função na formação cidadã e na construção de vínculos comunitários. Essa perspectiva amplia o olhar do leitor para além da sala de aula, situando a educação como prática social multifacetada que se manifesta em diferentes espaços da vida cotidiana. Esse ponto é particularmente relevante, pois evidencia uma preocupação em conectar educação e democracia. No entanto, o texto poderia explorar mais os desafios concretos dessa relação, como as tensões entre desigualdade social e participação política, fortalecendo a reflexão crítica e aproximando-se da sociedade civil.

Ao relacionar educação social e democracia, o autor ressalta que a formação cidadã deve ser orientada por valores republicanos e democráticos, de modo que o indivíduo participe ativamente da vida política e social. Nesse sentido, a educação é concebida como processo que exige uma formação crítica e reflexiva, capaz de preparar cidadãos para enfrentar os dilemas e responsabilidades da sociedade contemporânea.

O segundo capítulo, Antropologia da educação, abre com uma introdução geral à Antropologia, apresentando-a em seus pressupostos históricos como ciência dedicada ao estudo do ser humano em sua diversidade cultural, social e histórica. O texto evidencia como a antropologia busca compreender as práticas, os valores e os modos de vida em contextos culturais específicos.

Na sequência, o foco se desloca para a Antropologia da Educação, campo que investiga os processos educativos a partir de uma perspectiva cultural, e que tem, na cultura do indivíduo, seu ponto em comum. É neste ponto onde evidencia-se o diálogo entre as áreas, dado que ambas tratam da assimilação da cultura. São discutidas questões como a transmissão de saberes em diferentes sociedades e como a Antropologia pode contribuir com investigações acerca do currículo, da função docente e de sua transmissão de valores. Essa abordagem amplia o olhar do leitor, mostrando que a educação não se limita ao espaço institucional, mas se manifesta em múltiplas práticas sociais.

Por fim, o capítulo aborda a ideia do homem como educador, ressaltando que a capacidade de ensinar e aprender é constitutiva da condição humana. A reflexão destaca que, em qualquer sociedade, o ser humano atua como mediador de conhecimentos e valores, reafirmando a educação como prática universal e essencial para a continuidade da vida social, mas além disso aborda também múltiplas dimensões humanas que impactam na atuação do educador, como as dimensões pessoal, profissional, política e cidadã, enquanto sujeito formado no processo histórico.

Essa discussão funciona como elo entre Antropologia e educação, reforçando a ideia de que compreender o ser humano em sua totalidade é indispensável para pensar práticas educativas mais amplas e contextualizadas. Ainda assim, seria interessante problematizar como essas dimensões do educador se manifestam em contextos de desigualdade ou de diversidade cultural intensa, já que tais situações desafiam diretamente a prática pedagógica, como, a título de exemplo, a recepção de alunos estrangeiros na escola.

Avançando para o capítulo 3, Conceito educacional contemporâneo, o autor inicia com um breve relato histórico da educação, apresentando a evolução das práticas educativas desde as sociedades antigas até os sistemas escolares modernos. O texto evidencia como diferentes períodos históricos — da educação clássica à formação voltada para o trabalho na modernidade — moldaram concepções de ensino e aprendizagem, permitindo ao leitor perceber a educação como construção social em constante transformação. Essa retomada histórica cumpre a função de situar a educação em seu percurso, mostrando que cada época produziu modelos próprios de escolarização, sempre em diálogo com as necessidades sociais vigentes.

Na sequência, o foco recai sobre a educação na contemporaneidade, marcada por desafios e tensões próprios do mundo atual. São discutidos aspectos como a influência da globalização, a diversidade cultural e os dilemas relacionados à inclusão, evidenciando que a escola contemporânea precisa dialogar com demandas sociais complexas, sem perder de vista sua função formadora. Essa parte do capítulo convida o leitor a refletir sobre como a instituição escolar se adapta às rápidas mudanças sociais e tecnológicas, ao mesmo tempo em que enfrenta contradições ligadas à desigualdade e à exclusão.

Porém, apesar de tratar de questões relevantes e atuais sobre a educação, acaba por deixar de lado certas tensões contraditórias sobre o discurso corrente acerca do processo de escolarização, que ora adquire uma característica reprodutora da estrutura social vigente e suas relações de poder, e ora emancipadora, para então tratar de modelos de educação.

Por fim, o texto aborda diferentes modelos de educação, comparando propostas que vão desde abordagens tradicionais até perspectivas inovadoras, como a Pedagogia Tradicional, a Escola Nova e outras abordagens psicológicas em educação. São analisadas concepções que privilegiam a transmissão de conteúdos, modelos centrados no aluno e experiências que buscam integrar escola, comunidade e sociedade. Essa diversidade de propostas oferece ao leitor um panorama das alternativas existentes, estimulando a reflexão sobre qual modelo melhor responde às necessidades educacionais do presente.

Ao apresentar esse conjunto de possibilidades, o capítulo reforça a ideia de que não há um único caminho para a educação, mas sim múltiplas formas de pensar e organizar o processo de ensino-aprendizagem, cada uma com suas potencialidades e limitações.

O quarto e último capítulo da obra, Educação formal, não formal, informal e seus aspectos biossociais, dedica-se a examinar as diferentes modalidades de educação, distinguindo entre educação formal, não formal e informal.

A primeira é apresentada como aquela que ocorre em instituições estruturadas, como escolas e universidades, caracterizada por currículos definidos, certificações e objetivos pedagógicos sistematizados. Já a educação não formal é descrita como processos organizados de aprendizagem que acontecem fora do sistema escolar, em espaços como associações comunitárias, cursos livres e projetos sociais, desempenhando papel relevante na formação cidadã e profissional, bem como o papel da universidade corporativa em oferecer um tipo de formação alinhada à especificidade de um negócio com vistas à sua ampliação. A educação informal, por sua vez, é abordada como o conjunto de aprendizagens espontâneas que se dão no cotidiano, nas interações familiares, culturais e sociais, mostrando que o ato de educar transcende os limites institucionais.

Essa distinção entre modalidades é bastante útil para ampliar a compreensão do leitor sobre os diferentes espaços de aprendizagem. No entanto, essa classificação sistemática que é proposta pode não corroborar com a prática, uma vez que elas não se apresentam de maneira isolada. Muitas vezes, a educação formal se articula com práticas não formais e informais e vice-versa.

Na segunda parte, o capítulo discute os aspectos biossociais da educação, ressaltando como fatores biológicos e sociais se entrelaçam na formação humana. São exploradas questões relativas ao desenvolvimento físico e cognitivo, às condições de saúde e nutrição, bem como às influências do meio social, da cultura e das relações interpessoais. Essa análise evidencia que a educação não pode ser compreendida isoladamente, mas deve ser vista como prática que articula dimensões biológicas e sociais na constituição do sujeito.

Em resumo, o livro Sociologia da educação de Renato Antonio de Souza se trata de uma obra de caráter introdutório, que apresenta, em forma de síntese, os principais temas e conceitos da Sociologia da Educação. É necessário ressaltar que a obra não foi escrita por um especialista em Sociologia com sólida formação na área. Sendo assim, sua proposta generalista é oferecer ao leitor uma visão geral das questões fundamentais da área, funcionando como porta de entrada para estudos mais aprofundados, que devem necessariamente complementar a leitura. Logo, nota-se a ausência de uma exposição sistemática do pensamento sociológico de diferentes autores, o que limita a compreensão das múltiplas perspectivas teóricas que compõem o campo, fator que poderia ser beneficiado com um debate aprofundado sobre diferentes aspectos da educação — como a tensão entre reprodução e emancipação, currículo e relações de poder — caso dialogasse com outros autores. Por outro lado, um aspecto positivo é a presença de glossários ao final de cada capítulo, recurso que facilita a consulta e contribui para a fixação dos conceitos apresentados.

Desse modo, a obra pode ser uma opção para estudantes universitários iniciantes ou então para professores em atuação, mas que necessitam de uma leitura agilizada sobre determinados aspectos educacionais, devendo ser prosseguida por obras de referência para o campo, como as já citadas anteriormente Educação e sociologia, de Émile Durkheim, ou Educação e sociedade, organizada por Luiz Pereira e Marialice Foracchi, ou outras mais atuais como Sociologia da educação, de Nelson Piletti e Walter Praxedes, em que abordam autores clássicos e contemporâneos.

 

Referências

 

BODART, Cristiano das Neves.; MARCHIORI, Cassiane da C. Ramos. Fragmentos da história do ensino de sociologia no Brasil: Figueiredo e seu manual escolar de sociologia de 1917. Revista Brasileira de História da Educação, Maringá, v. 21, n. 1, p. 1-25, jun. 2021. Disponível em: http://dx.doi.org/10.4025/10.4025/rbhe.v21.2021.e181. Acesso em: 1 jun. 2026.

MEUCCI, Simone. Institucionalização da sociologia no Brasil: primeiros manuais e cursos. São Paulo: Hucitec, 2011.

SOUZA, Renato Antonio de. Sociologia da educação. São Paulo: Cengage, 2017.

 

Recebido em: 20/12/2025.

Aceito em: 07/03/2026.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77544.p238-244

 

 



* Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (EHPS/PUC-SP), Brasil. E-mail: rodolfo.macedo95@gmail.com.

 

 

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