ATERRAMENTO, TRANSFIGURAÇÃO E FLORESTANIA COMO MEDIADORES CONCEITUAIS PARA CONSTRUÇÃO DE UM BEM VIVER
GROUNDING, TRANSFIGURATION AND FORESTRY AS CONCEPTUAL MEDIATORS FOR BUILDING GOOD LIVING
Pedro Vanzo *
Alfio Brandenburg **
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77551.p39-56
Resumo
Com o objetivo central de estabelecer condições para a construção de novas epistemologias e paradigmas de vida em nosso planeta, este artigo realiza uma articulação teórico-metodológica entre dois autores, Bruno Latour e Ailton Krenak, por meio dos conceitos de aterramento, transfiguração e florestania. Como mediadores conceituais, tais conceitos nos levam à possibilidade de construção de um Bem Viver, uma nova proposta paradigmática e epistemológica de construção de vida em nosso planeta, estreitamente conectada à natureza e a todos os demais seres e entidades que coabitam conosco o nosso mundo. Essa proposta, a do Bem Viver, é compilada nas obras de Alberto Acosta, um terceiro autor em diálogo, e será articulada justamente pela mediação dos conceitos mencionados acima. Por meio de uma revisão das obras dos autores, o artigo procura um diálogo epistemológico de construção presente e futura de vida em nosso planeta, e a proposta do Bem Viver sintetiza essas discussões como forma elucidativa de transformação possível das maneiras pelas quais estruturamos a construção de nossos coletivos de humanos e não humanos.
Palavras-chave: aterramento; transfiguração; florestania; bem-viver.
Abstract
With the central objective of establishing conditions for the construction of new epistemologies and paradigms of life on our planet, this article performs a theoretical-methodological articulation between two authors, Bruno Latour and Ailton Krenak, through the concepts of grounding, transfiguration and florestay. As conceptual mediators, such concepts lead us to the possibility of building a Good Living, a new paradigmatic and epistemological proposal of life construction on our planet closely connected to nature and all other beings and entities that coexist with us in our world. Such a proposal, that of the Good to Live, is compiled in the works of Alberto Acosta, a third author in dialogue, and will be articulated precisely by the mediation of the concepts mentioned above. Through a review of the authors' works, the article seeks an epistemological dialogue of present and future construction of life on our planet, and the proposal of Good Living synthesizes these discussions as an elucidative form of possible transformation of the ways in which we structure the construction of our human and non-human collectives.
Keywords: grounding; transfiguration; florestania; good living.
Introdução
Em artigo escrito recentemente, Vanzo e Amstel (2023) elaboram uma articulação entre a teoria ator-rede, proposta por Bruno Latour (2012), com as contribuições teóricas e epistemológicas de Ailton Krenak (2020), com o objetivo central de estabelecer condições para a construção de novas epistemologias. Por meio do reconhecimento da participação do não humano na esfera do social, incorporamos esse elemento à leitura de uma epistemologia do Sul — através da necessidade de olharmos para os ''ausentes'' e ''emergentes'' proposto por Boaventura Santos (2004; 2020) —, em específico, no caso, a do grupo indígena Krenak. Ancorados na forma como o povo Krenak tece suas interpretações do mundo que os cerca, constatamos uma expansão das suas experiências sociais, fruto da interação entre fatores humanos e não humanos na revelação e na emergência de saberes oriundos de tal amálgama conceitual.
Ainda mais recente, motivados pelas mudanças climáticas atuais e pela situação do planeta Terra frente a tais mudanças, ambos os autores — Latour e Krenak — lançam novas reflexões com ideias conceituais importantes, procurando responder ao seguinte questionamento: como se orientar perante tal contexto de mudanças climáticas? Ou ainda: existirá futuro de vida em nosso planeta Terra frente a tais mudanças? Que futuro é esse? Assim, ambos os autores lançam conceitos ricos para pensarmos em como construir um futuro — e também um presente — possível de vida em nosso planeta perante esse novo regime climático que estamos vivendo. Tais conceitos, a saber, são o de aterramento, transfiguração e florestania, e é com base neles que o artigo irá tecer seus fios condutores de discussão. Com base nesses conceitos, procuraremos elaborar uma nova reflexão que tem como base principal o diálogo entre esses dois autores como condição encontrada para se pensar não só em novas epistemologias, como também — e fundamentalmente — em novas ações práticas e objetivas que possam nos ajudar a nos orientar nesse contexto de mudanças climáticas que colocam em xeque o futuro de nosso planeta e de nossas vidas.
A partir de tais discussões, fica evidente a necessidade de pensarmos a construção de novos paradigmas de vida, como forma não apenas de se orientar nesse novo regime climático, mas também como forma de manter viva a possibilidade de um futuro viável e habitável em nosso planeta para todos e todas. Por essa razão, o artigo encontra síntese e dialoga com a proposta paradigmática de construção de um Bem Viver[1] como forma de se orientar e dar sentido e destino às novas experiências abertas de construção de vida.
Com isso, o artigo está estruturado da seguinte maneira: em primeiro momento, discutiremos as contribuições de Bruno Latour, principalmente no que diz respeito à elaboração que o autor realizou em relação à construção do conceito de aterramento. Em seguida, articularemos tais discussões com as contribuições de Ailton Krenak no que diz respeito à elaboração de seus conceitos, o de transfiguração e o de florestania, como condições de construção de um futuro possível (e ancestral) de vida em nosso planeta. Por fim, como síntese de tais discussões suscitadas por esses dois autores e conceitos, traremos a proposta de construção de um Bem Viver, por intermédio das contribuições de Alberto Acosta (2016). Como forma de construir um futuro possível de vida no planeta Terra, a proposta do Bem Viver se consolida como instrumento teórico/prático de construção de novas realidades, novos paradigmas de vida, ancorados na estreita e íntima relação de nós (humanos) com todos os outros seres e entidades de nosso planeta.
Como se orientar perante a situação climática atual? Uma proposta de aterramento
Bruno Latour (2020), em seu mais recente livro, disserta sobre questões relacionadas àquilo que ele chama de um novo regime climático[2], que tem como principal catalisador — que, inclusive, é um dos motivos de ele ter escrito tal obra — a eleição de Donald Trump nos EUA no ano de 2016. Para Latour, a partir da eleição de Trump, ficou muito mais evidente uma problemática que já existia desde a década de 1980, qual seja, a de que as classes dirigentes já não mais lideram a humanidade rumo ao destino comum — ou ''mundo comum'' —, no qual todos possam habitar com segurança e qualidade, mas sim estão coordenando esforços para se refugiarem desse mundo[3]. Isso porque já constataram, pelo menos desde a década de 80, que o mundo, como está caminhando, não fornece mais condições favoráveis de vida futura, e por isso mesmo coordenam seus esforços em se refugiar desse mundo, porque sabem que mais cedo ou mais tarde tudo irá ruir. Aos mais pobres, os infortúnios da vida. Por essa razão é que Latour vai escrever o livro Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno (2020), como uma espécie de um guia de viagens de como podemos nos orientar neste nosso mundo de hoje perante esse novo regime climático.
Importante frisar que, para Latour, a eleição de Trump é importante, pois escancara uma negação das classes dirigentes a esse novo regime climático que estamos vivendo — tal como sentiu-se mais tarde com Bolsonaro no Brasil. Ou seja, é evidente que o planeta está sucumbindo climaticamente às nossas intervenções — o que enseja o amplo debate em torno do Antropoceno ou ainda Capitaloceno[4] —, mas ao invés de reconhecerem isso publicamente, essas classes dirigentes negam (daí os negacionismos contemporâneos), pois quem paga a conta é sempre os ''outros'' e não eles, isto é, sempre os pobres, periféricos[5]. Tais efeitos deletérios são explicitamente sentidos no caso brasileiro contemporâneo, no que toca a gestão do presidente Jair Bolsonaro de 2018 a 2022 (aumento drástico das violências no campo e desmatamentos alarmantes, por exemplo, conforme relatório da CPT – Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2022)).
Segundo Latour, tais acontecimentos são importantes para reconhecermos, também, que um tipo específico de globalização está a ruir. Não há mais essa ''coerência'' em relação à globalização, justamente porque as classes dirigentes já sabem, há muitos anos que não há mais como pensar em um mundo todo globalizado, onde os parâmetros de desenvolvimento sejam iguais em todos os países e lugares. Essas classes sabem que o mundo não suporta um padrão de desenvolvimento como o que está sendo requerido desde o último século, com especial atenção ao padrão de desenvolvimento propagado após a Segunda Guerra Mundial. Por saberem que não há como pensar em um padrão de desenvolvimento ''global'', no qual todos os países conseguem atingir os níveis de desenvolvimento mais ''avançados'' possíveis, é que esse ''padrão'' de globalização está a ruir. Não há como o mundo suportar esses padrões de desenvolvimento, até porque, para uns serem desenvolvidos, há a necessidade de outros serem mal — ou sub — desenvolvidos[6]. E a partir de tal discussão, o autor nos faz um questionamento muito importante: ''Devemos continuar alimentando grandes sonhos de evasão ou começamos a buscar um território que seja habitável para nós e nossos filhos?'' (Latour, 2020, p. 14-15).
Para Latour, a principal questão, portanto, é a seguinte: como podemos, então, tranquilizar as pessoas quanto ao futuro de nosso planeta? Ou tranquilizar a nós mesmos, evidentemente. Para ele, é possível nos tranquilizarmos e nos orientarmos nesse contexto, e isso ele desenvolve através do conceito de aterramento, que se dá a partir de ''dois movimentos complementares que a provação da modernização havia tornado contraditórios: de um lado, vincular-se a um solo; e de outro, mundializar-se'' (Latour, 2020, p. 21). Para ele, até agora era impossível fazer os dois ao mesmo tempo, tanto é que muitos escolheram se mundializar (daí que vem a globalização tal como a conhecemos), e de outro, principalmente os críticos da globalização, escolheram se vincular a um solo.
É, então, a partir dessa problematização em relação à globalização e ao desenvolvimento — que até então só causou (e continua a causar) destruição e violência — que Latour vai propor algo diferente, algo inovador, algo esperançoso. Conforme diz:
[...] eis que sob o solo da propriedade privada, do monopólio das terras, da exploração dos territórios, um outro solo, uma outra terra, um outro território começou a se agitar, a tremer, a se comover. Uma espécie de terremoto, se preferir, com o seguinte recado àqueles pioneiros: prestem atenção, nada será como antes; vocês pagarão caro pelo retorno da Terra, pela reviravolta dos poderes que até agora eram dóceis. (Latour, 2020, p. 27)
Esse retorno da Terra ao qual Latour faz alusão, é, conforme vai ficar claro em seu livro, justamente o reconhecimento da Terra enquanto um ser vivo, enquanto um ator[7]. Os esforços teóricos e metodológicos da teoria ator-rede prepararam Latour para esse reconhecimento. O retorno da Terra do qual ele fala é justamente a Terra, enquanto uma entidade viva, ter ''se cansado'' de tanta destruição, e agora passou a agir contra tal devastação, o que, evidentemente, se justifica por aquilo que ele vem falando de um novo regime climático.
A partir do reconhecimento da Terra enquanto um ser vivo, passamos a ter, segundo Latour, a possibilidade de vê-la agindo e atuando em resposta aos efeitos climáticos negativos causados pelas ações humanas, e por essa razão precisamos reconhecer o seguinte:
Se, apesar de tudo, a situação está cada vez mais clara, é porque, em vez de estarmos suspensos entre o passado e o futuro, entre a recusa e a aceitação da modernização, encontramo-nos agora como se tivéssemos girado 90 graus, suspensos entre o antigo vetor e um novo, impelidos adiante por duas flechas do tempo que não apontam nunca para a mesma direção [...]. O problema todo consiste em identificar de que esse terceiro termo é composto (Latour, 2020, p. 51).
Essa passagem é muito importante porque aqui Latour vai desenvolver a ideia de que nos encontramos perante um novo atrator, algo novo que nos impulsiona para viver, que é justamente a Terra (ou como ele chama, de Terrestre). Ou seja, ''o Terrestre como novo ator-político'' (Latour, 2020, p. 52). Sobre esse Terrestre (a Terra) ser um ''novo '' ator, Latour vai discorrer que a principal questão é que esse atrator (Terrestre) deixou de ser o cenário, ou o plano de fundo, da ação dos humanos. Para Latour, “sempre falamos da geopolítica como se o prefixo ''geo'' designasse apenas o quadro onde se desenrola a ação política. Contudo, a mudança que estamos testemunhando é que esse ''geo'' passou a designar um agente que participa plenamente da vida pública” (Latour, 2020, p. 52-53).
Ao se deparar com o processo necessário de aterramento num novo regime climático sob um novo atrator (Terrestre), Latour reconhece a importância de se olhar para aqueles que há muito já desenvolveram a recusa à modernização, isto é, as populações marginalizadas e ''esquecidas'' pelo projeto moderno global. Mas há um alerta: não é regressar ao passado, e procurar viver uma Terra (ou um Terrestre) que já existiu. Essa Terra não existe mais, e até mesmo para os povos que se recusaram a se modernizar, esse momento também é novo. Esse novo regime climático afeta a todos, e ainda que sejam populações que mantiveram suas tradições e suas formas ''locais'' de se viver, não estão presas no passado. Vivem no presente, e esse presente é novo para todo mundo. Por isso, não é buscar receitas de ''cura'' que se encontram no passado, que diz respeito a uma Terra que nem existe mais. É procurar no presente, no que temos agora em nosso mundo. É a ampliação das experiências presentes para pensarmos possibilidades e expectativas futuras.
Por isso não se trata mais de buscarmos um local ou um global, e sim uma Terra, uma única Terra, um novo atrator (o Terrestre), que, apesar de todas as diferenças históricas, étnicas, culturais, regionais etc., é um lugar onde todos nós habitamos. Não há mais uma fuga para o global (globalização), nem mesmo uma retração para um local, e sim um movimento impulsionado por um novo atrator. Nem só interno e nem só externo, nem só local e nem só global, e sim a Terra, o Terrestre. Como Latour disse, é preciso vincular-se a um solo (achar o seu ''local''), ao mesmo tempo que nos mundializamos.
Como síntese, Latour propõe uma construção conceitual muito rica, dizendo que para enfatizar a escolha de se usar o Terrestre ao invés de concebermos humanos de um lado e natureza do outro, é que talvez ''seja a hora de falar não mais em humanos, mas em terrestres (Earthbound), insistindo assim no húmus e, a bem dizer, no composto presente na etimologia da palavra ''humano'' (a vantagem de falar em ''Terrestre'' é não ter de especificar nem o gênero nem a espécie) '' (Latour, 2020, p. 105). Para vivermos atraídos harmonicamente por esse novo atrator, é necessário, portanto, aterrar. Escolher um lugar (território, espaço etc.) para aterrar, se conectar ao solo, se conectar com o Terrestre. Não é evadir da Terra, mas sim aterrar, se conectar a ela, de novo e de novo, incansavelmente.
Viver em comunhão e sintonia com a Terra: transfiguração e florestania como caminhos de possibilidades
Krenak inicia um diálogo muito importante a respeito da questão sobre o futuro em nosso planeta. Está ele se indagando e refletindo sobre o futuro, se haverá futuro, e como esse futuro pode ser. No estado atual de nosso planeta Terra, é possível pensar em futuro? Ou num futuro saudável para todos? Um planeta habitável para todos? Até aqui, questionamentos parecidos com os proferidos por Latour, conforme vimos anteriormente. Latour e Krenak se aproximam a partir da particularidade de se pensar as crises climáticas atuais e nossas ações humanas no planeta Terra, e para além disso pensam também em alternativas teóricas/práticas para superarmos esse tempo moderno de crises e desastres ecológicos. Ambos os autores, ainda que distantes (geograficamente e culturalmente) entre si, nos auxiliam, em conjunto, para pensarmos e contextualizarmos nosso mundo atual frente às mudanças climáticas e nossas ações humanas sobre a Terra.
Mas diferente de Latour, Krenak também nos oferece caminhos muito interessantes, só que ancorados em sua etnia, em sua cultura, em sua visão de mundo, que é ancestral, segundo ele. Assim, Krenak comunga dos valores culturais da etnia Krenak que vive em território brasileiro há muito tempo, e apesar das aproximações epistemológicas entre os dois autores, cada um desenvolve suas reflexões a partir de pontos de vista distintos e caminhos diferentes. Enquanto Latour comunga da linguagem sociológica e acadêmica, Krenak nos conta histórias de sua cultura e seu cotidiano de vida como forma elucidativa das próprias discussões epistemológicas suscitadas por Latour. Enquanto Latour, por exemplo, procura sistematizar suas contribuições a respeito da teoria ator-rede, Krenak nos conta histórias de seu cotidiano que exemplificam e oferecem sentido à explicação teórica proferida por Latour. Krenak então resolve iniciar o diálogo olhando para os rios, para pensar nesse futuro, e assim ele nos diz: ''Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui'' (Krenak, 2022, p. 11).
Vejam que interessante: através do rio, desse ser ancestral, mágico e fluido, Krenak nos põe a pensar não só o futuro do planeta, mas também o presente e o passado. O rio enquanto carregador de caminhos, de histórias, de tempos e de coisas. O rio enquanto sabedoria cósmica, planetária. O rio como detentor de conhecimento, de saberes. Logo de saída, põe diante de nossos olhos os mistérios desse mundo, as magias e ações — e mediações — desses seres até então ''adormecidos '' pelo olhar sociológico ''clássico'', conforme problematiza também Latour (2012).
Para ele, os rios — chamados também de rios-montanhas — estão em tudo. Não são só aparentes correntezas de água. Estão também nas árvores, no subsolo do mundo, nas folhas, nas plantas, nas montanhas, em nós. Está em tudo. Segundo ele, todos os assentamentos humanos que se tem conhecimento foram sempre atraídos pelos rios. É em torno desses seres mágicos que se iniciaram e ainda se iniciam grandes civilizações. Contudo, mesmo que ainda sempre perto das águas, Krenak vai discorrer que aprendemos muito pouco com a fala dos rios. Nós, modernos, não sabemos escutá-los, quiçá concebê-los enquanto entidades capazes de falar, de agir.
Assim, Krenak nos mostra a importância do rio para aquilo que podemos chamar de cultura Krenak, ou seja, como o próprio povo Krenak concebe a si próprio em comunhão com o rio e suas águas correntes. Ele discorre:
À noite, suas águas correm velozes e rumorosas, o sussurro delas desce pelas pedras e forma corredeiras que fazem música e, nessa hora, a pedra e a água nos implicam de maneira tão maravilhosa que nos permitem conjugar o nós: nós-rio, nós-montanhas, nós-terra. Nos sentimos tão profundamente imersos nesses seres que nos permitimos sair de nossos corpos, dessa mesmice da antropomorfia, e experimentar outras formas de existir (Krenak, 2022, p. 14).
Contudo, há também as outras faces das relações de nós (humanos) com os rios, e essas outras faces são problematizadas pelo autor, que explicita os seus lados negativos. E com negatividade, Krenak discorre sobre como esses rios, e todos os rios e águas do mundo, estão sendo constantemente e gradativamente cada vez mais mutilados, maltratados, poluídos, seja pelo garimpo, pela mineração, pela apropriação indevida da paisagem, bem como pelos modos de vida predatórios que os modernos assumiram para si enquanto forma de viver e ''evoluir'' em nosso planeta. Para ele, viver em comunhão com os rios já é por si só um ato de coragem e de resistência.
Segundo Krenak, conforme avançam os maus-tratos com os rios, esses seres, dotados de muita sabedoria e conhecimento do mundo, estão fazendo um movimento de se esconder. Não querem e não desejam mais aparecer aos nossos olhos, mas sim estão se escondendo como forma de se manterem vivos. Estão existindo, mas no subsolo do mundo, nos lençóis freáticos, e não mais como corpo de rio expostos[8]. Tudo como estratégia de sobrevivência e resistência. Nós ainda temos muito que aprender com os rios, com as águas, com as plantas e com as montanhas, e está ficando cada vez mais tarde para fazermos isso.
Assim, Krenak se reinventa, se torna ativo, mais que apenas reflexivo. Propõe inúmeras alternativas reais, palpáveis, para pensarmos e vivermos nesse novo regime. É um reconhecimento, por parte do autor, para que se quisermos viver de uma forma diferente nesse mundo, logo de saída precisamos assumir sua alteridade, sua heterogeneidade. Não há uma força e uma forma de vida que seja correta, verdadeira, melhor. Estamos todos juntos, e assumir as diferenças é assumir também a possibilidade real de continuação de vida em nosso planeta. Pois o contrário, que é a defesa de uma forma homogênea de viver a vida, é o que está nos definhando.
Conforme ele diz, ''não vamos deixar de morrer ou qualquer coisa do gênero, vamos, antes, nos transfigurar, afinal a metamorfose é o nosso ambiente, assim como das folhas, das ramas e de tudo que existe'' (Krenak, 2022, p. 42-43). Essa passagem é extremamente importante, pois com ela vem junto a mensagem que esse artigo procura evidenciar, isto é, como encontrar formas de transfigurar nossa vida para pensar em um futuro possível para o planeta Terra, para as gentes, os povos, as montanhas, os rios e as plantas. Essa é a palavra: transfiguração. No novo regime climático, ou negamos e aceitamos a condição de evasão do planeta, ou aceitamos e escolhemos um lugar para aterrar. Aterrando em algum lugar, a ideia é procurar a transfiguração. Nosso aterramento não é utópico, não está no futuro, mas sim no agora, no presente, no tempo e no espaço em que nos encontramos. A transfiguração está dentro de nós, é ancestral, nós só a desaprendemos porque entramos de cabeça em um projeto modernizador global. Podemos resgatá-la e reaprender, e isso é tarefa imediata, imprescindível, se é que acreditamos ser possível construir um novo mundo, um outro mundo.
Assim, ele se indaga: ''Como reconverter o tecido urbano industrial em tecido urbano natural, trazendo a natureza para o centro e transformando as cidades por dentro?'' (Krenak, 2022, p. 66). E continua: ''como fazer a floresta existir em nós, em nossas casas, em nossos quintais? Podemos provocar o surgimento de uma experiência de florestania começando por contestar essa ordem urbana sanitária ao dizer: eu vou deixar o meu quintal cheio de mato, quero estudar a gramática dele'' (Krenak, 2022, p. 65). Vejam que rico. Esse conceito lançado por Krenak é um mote de entrada teórica para se pensar nessa transfiguração, nessa construção de um novo e diferente mundo, e o conceito é o de florestania.
Florestania significa trazer a floresta, as plantas, a própria natureza em sua complexidade para o centro das cidades, esse lugar que é, a princípio, inapropriado, inóspito, insalubre, estéril. Segundo o autor, é possível começar a alterar essa lógica por dentro. Deixar o mato crescer, ou sempre que der plantar uma planta nova em diferentes lugares. A vida das plantas é cósmica, também ancestral, e elas podem nos ensinar muito. O conceito de florestania é fabuloso exatamente por isso: nos abre caminhos reais e objetivos de transfiguração, de co-presença e de devir-com (Haraway, 2022)[9]. Ao deixar o mato invadir as cidades, deixamos também ele nos invadir, e abrimos caminhos possíveis de aprendizado com ele. O que o mato nos diz? O que as plantas nos contam? Que histórias estão contidas ali? Como ouvir a ''voz'' das plantas e aprender com elas?
Florestanear é assim também um verbo, uma ação, um caminho de inúmeras possibilidades. É o ato de nos abrirmos efetivamente para a transfiguração, e enfim nos aterrarmos, nos conectarmos à um solo, a um lugar, a um território, a uma Terra (e a um Terrestre, segundo expressão de Latour). Ao nos abrirmos para a florestania, é possível, segundo Krenak, nos abrirmos também para construção de outros e novos mundos, múltiplos, diversos, heterogêneos. Segundo ele: ''Só assim é possível conjugar o mundizar, esse verbo que expressa a potência de experimentar outros mundos, que se abre para outras cosmovisões e consegue imaginar pluriversos'' (Krenak, 2022, p. 83). Mundizar (ou mundificar) é a possibilidade de construção de um mundo no qual caibam muitos outros mundos (pluriverso). É assumir a responsabilidade do exercício da alteridade constantemente. É reconhecer que não existirá futuro se logo de saída não assumirmos que o mundo é constituído por muitos mundos distintos, diversos, e até contraditórios, inclusive. É o reconhecimento do outro em seu próprio tempo e espaço (o exercício da alteridade).
Por essa razão é que Krenak propõe, entre várias propostas já discorridas, que aqui no Brasil também se construa um Estado Plurinacional, como feito no Equador e Bolívia, a partir da noção de Bem Viver, muito bem explicitado por Acosta e discutido na próxima seção. A plurinacionalidade, inclusive, não só enquanto algo construído só por humanos e suas diferentes ''culturas'', mas incluindo todos os seres e entidades de nosso planeta. Conforme diz Krenak: ''Nossa sociabilidade tem que ser repensada para além dos seres humanos, tem que incluir abelhas, tatus, baleias, golfinhos'' (Krenak, 2022, p. 101).
Que futuro pensamos ou queremos construir? O Bem Viver como proposta de mudança paradigmática
Alberto Acosta é um dos principais ideólogos do início da Revolução Cidadã no Equador, tendo sido um dos responsáveis pelo plano de governo da Alianza País, partido encabeçado por Rafael Correa, cuja ascensão à presidência da república, em 2007, deu início a uma série de transformações nesta nação (Equador). ''O Equador se tornou, assim, uma referência para utopistas e lutadores sociais'' (Acosta, 2016, p. 13). Para Célio Turino, quem abre a obra de Acosta, o Bem Viver não é algo restrito das populações indígenas. Apesar de ter sua origem nessas populações, o Bem Viver se amplia e é muito mais extenso e abrangente do que uma primeira visão poderia supor. Isto é, o Bem Viver se estende a todos e a todas aqueles que almejam construir um novo mundo, um outro mundo, com base na solidariedade, na alteridade, no respeito, na comunhão. É uma filosofia e uma prática de vida que comunga as mais variadas entidades de nosso planeta em uma vida em harmonia, em transfiguração, para usar o termo de Krenak. Conforme Acosta (2016), o Bem Viver, fundamentalmente, recupera uma sabedoria ancestral, andina e amazônica, rompendo com o processo alienante do capital onde tudo e todos viram meros objetos e mercadorias.
Acosta discorre em sua obra de onde vem toda essa discussão em torno do Bem Viver. Tudo se passou no município de Montecristi, no litoral noroeste do Equador. Esse município foi escolhido como sede da Assembleia Constituinte que, entre 30 de novembro de 2007 e 25 de outubro de 2008, debateu, escreveu e aprovou a atual Constituição da República do Equador, reconhecendo, em seu capítulo 1º, o caráter ''intercultural'' e ''plurinacional'' do país, e estabelecendo, em seu preâmbulo, a decisão de construir uma nova forma de convivência cidadã, em diversidade e harmonia com a natureza, para alcançar o Buen Vivir, o Sumak Kawsay. Alberto Acosta, portanto, foi presidente dessa Assembleia Constituinte e fez parte ativamente para construção e elaboração de todas essas discussões.
O conceito de Bem Viver, segundo o autor, não se trata de construir um novo mundo a partir de novos arranjos de acumulação de capital. O Bem Viver, assim, é uma proposta de mudança paradigmática e epistemológica de como vivemos em nosso mundo. Esse debate todo tem origem nos primeiros anos da década de 2000 na América Latina, em especial motivado pelas mobilizações e rebeliões populares, especialmente a partir dos mundos indígenas equatoriano e boliviano, onde verdadeiros ''caldeirões'' de longos processos históricos, culturais e sociais formaram a base do que hoje podemos conhecer por Buen Vivir, no Equador, ou Vivir Bien, na Bolívia. Segundo o autor:
No Equador, reconheceu-se a Natureza como sujeito de direitos. Esta é uma postura biocêntrica que se baseia em uma perspectiva ética alternativa, ao aceitar que o meio ambiente — todos os ecossistemas e seres vivos — possui um valor intrínseco, ontológico, inclusive quando não tem qualquer utilidade para os humanos (Acosta, 2016, p. 28)[10].
E assim, o Bem Viver, como será desenvolvido pelo autor, pode ser compreendido da seguinte maneira: ''[...] o Bem Viver, Buen Vivir ou Vivir Bien também pode ser interpretado como sumak kawsay (kíchwa), suma qamaña (aymara) ou nhandereko (guarani), e se apresenta como uma oportunidade para construir coletivamente uma nova forma de vida'' (Acosta, 2016, p. 23). Vejam só a quantidade de referências, todas andinas e amazônicas (de populações indígenas e tradicionais das regiões). Isto é, o Bem Viver enquanto um processo que é proveniente de uma ''matriz comunitária de povos que vivem em harmonia com a Natureza'' (Acosta, 2016, p. 24). É elementarmente isso a que se relaciona o Bem Viver: a harmonia e a vida em comunhão com a natureza. É um conceito, mas também uma ideia, uma filosofia e uma prática de vida que tem na Natureza a principal representação.
Com isso, o Bem Viver pode também ser compreendido, logo de saída, como uma crítica à modernidade, bem como à globalização e, principalmente, à própria ideia de ''desenvolvimento''. Muitas populações já estão vivendo segundo essa lógica do Bem Viver, e as populações indígenas, por exemplo, estão aí para nos provar isso. Então, não precisamos pensar no fim do capitalismo para que possamos pensar na real possibilidade de desenvolver essa prática e filosofia de vida, porque ela já está aqui entre nós, operante e objetiva. Ao mesmo tempo, não há como pensar numa ampliação efetiva de tal filosofia e prática se o sistema, aos poucos, não der lugar para uma mudança radical, tanto epistemológica como paradigmática. É assim, portanto, uma ideia já existente no presente, que visa um futuro diferente, sobre outro modo de produção, não mais esse do desenvolvimento e da globalização (capitalismo, em última instância).
Assim, como uma das garantias primeiras de começar a fomentar a ideia do Bem Viver, está, segundo o autor, na construção de um Estado plurinacional e intercultural, como foi feito nas constituições do Equador e da Bolívia. Ou seja, o Estado não é o único responsável por construir o Bem Viver, mas seu papel é importante principalmente pelo reconhecimento da alteridade, da heterogeneidade do mundo, representado assim pela construção de um Estado plurinacional e intercultural. Segundo Acosta, por trás de uma proposta de harmonia com a Natureza está toda uma ideia de reciprocidade, complementaridade, solidariedade e relacionalidade entre indivíduos e comunidades ao redor do mundo, e desses com a Natureza (cósmica e ancestral). Assim, o Bem Viver abre as portas para a formulação de visões múltiplas de vida.
Para o autor, o conceito de Bem Viver ''questiona o conceito eurocêntrico de bem-estar. É uma proposta de luta que enfrenta a colonialidade do poder'' (Acosta, 2016, p. 34). Ou seja, a ideia eurocêntrica do bem-estar ou do bom vivant, remete especificamente àquele que, sob ótimas e abundantes condições materiais, desfrutam de ''tudo que há do bom e do melhor do mundo'', justamente porque tem dinheiro para pagar por tudo isso. Porém, por trás dessa ideia está toda a depredação e exploração de nosso planeta segundo os projetos coloniais de globalização e desenvolvimento: para uns poucos desfrutarem de tudo que há de bom e do melhor, há a necessidade de muitos outros não serem capazes de fazer o mesmo. Para que existam países desenvolvidos, é estritamente necessário que, na mesma medida, existam países sub ou mal desenvolvidos. Isso está na essência da modernidade, da colonialidade e do capitalismo. Ir contra o projeto de globalização e desenvolvimento é exatamente ir contra isso. E partindo dessas reflexões, podemos nos perguntar: como podemos construir esse Bem Viver na prática? Em nossos contextos, urbanos, capitalistas, modernos e industrializados? As propostas de Latour, em diálogo com as de Krenak, nos deram ótimos indicativos disso.
Entende-se também que o Bem Viver é apenas o começo de um projeto paradigmático e epistemológico de vida. Estamos apenas iniciando essa trajetória, ainda que muitos povos já estejam vivendo segundo essas lógicas. Por isso, não é um ponto de chegada, nem muito menos uma definição clara e objetiva de como devemos viver em coletivos daqui em diante. Isso construiremos na prática, juntos.
Considerações finais – um ''final'' nada concluído, e sim como ponto de partida
Ao optarmos pelo Bem Viver, estamos optando por nos conectarmos à um solo (aterrarmos). Aceitamos a condição do novo regime climático e decidimos não negar nem rejeitar tal regime, mas sim corroborar com o nosso planeta para superação dele. Assim, nos aterrarmos é uma forma de construção do Bem Viver, nos mundificando e construindo formas múltiplas e heterogêneas de vida em nosso planeta.
Quando Latour nos propõe o aterramento, nos provoca a pensar em maneiras reais e objetivas de construir um presente e um futuro em nosso planeta, e não se evadir dele. A partir disso, e em diálogo com Krenak, encontramos ressonância que, por meio da prática da transfiguração, podemos conjugar novas e outras vivências que possibilitam a construção de novos mundos, mundos construídos com as outras espécies, e não contra elas. Também relacionamos que praticar a florestania está no centro da proposta desse trabalho, e se concretiza enquanto uma forma concreta de aterrar e transfigurar nossas vivências.
Tais ideias e conceitos mobilizados neste breve artigo são muito valiosos, principalmente no que diz respeito às pessoas e comunidades imersas no urbano e no ''turbilhão do capitalismo''. Florestanear e nos transfigurarmos é possível, ainda que imersos nesse contexto de concreto e aço. Os dentes de leão e as ervas consideradas ''daninhas'' quebram a rudeza do cimento com maestria e resistência. Devemos nos inspirar nisso e nos orgulharmos por termos essas ervas, pois nos ensinam que é possível quebrar com essa rudeza. Podemos aprender mais e mais a cada dia. Podemos, sim, nos transfigurarmos.
Construir o Bem Viver, portanto, está estreitamente relacionado com a escolha de aterrarmos, nos conectarmos à terra, ao solo, ao Terrestre, como disse Latour. Está na possibilidade de transfigurarmos, como disse Krenak, e nos tornarmos nós-rios, nós-montanhas e nós-plantas: enfim, desenvolver a florestania e a transfiguração. De outro modo, estaríamos aceitando a derrota e prontos para reconhecer a necessidade de evasão de nosso planeta em um futuro muito próximo.
Mas a nossa resistência não está sob negociação: faremos isso agarrados uns aos outros. Podemos agarrar nossas espécies companheiras e juntos permanecer firmes e confiantes num futuro possível em nosso planeta. Ao escolhermos aterrar, não é possível conceber outra alternativa senão a de construir nossas vidas em constante busca de harmonia com tudo que está ao nosso redor. Evidente que aterrar, transfigurar e florestenear não envolvem somente a harmonia, mas também conflitos e controvérsias. Não é só de harmonia que construiremos esse mundo proposto por tais conceitos, pois as relações interespécies são complexas e múltiplas e requerem uma infinidade de negociações e intermediações. Contudo, a busca pela harmonia resume-se à uma busca por respeito: não negamos as controvérsias e conflitos, mas acreditamos que respeitar todas as formas de vida é um caminho de possibilidade real de construção do aterramento, da transfiguração e da florestania. Tanto na harmonia como na controvérsia, acreditamos que o Bem Viver possa nos auxiliar para construir um futuro de vida possível em nosso planeta.
Referências
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Recebido em: 22/12/2025.
Aceito em: 25/04/2026.
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77551.p39-56
* Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSocio) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil. E-mail: pedrohvanzo@gmail.com.
** Docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil. E-mail: alfiob@hotmail.com.
[1] O Bem Viver (ou Sumak Kawsay) é uma filosofia indígena andina e amazônica que tem como base elementar a harmonia entre os seres humanos e a natureza, priorizando o bem-estar coletivo e a sustentabilidade dos ecossistemas. Nesse conceito, a natureza não é vista como um recurso explorável, mas sim como um ser vivo dotado de direitos do qual, inclusive, o ser humano faz parte. Na última etapa do artigo discutiremos com mais detalhes as origens do conceito e os debates suscitados a partir dele.
[2] Para Latour, é certo que as questões climáticas estão hoje no centro de todos os problemas geopolíticos, e que por sua vez se encontram diretamente relacionadas às questões de injustiças e desigualdades sociais, por exemplo. Para ele, fazem parte do mesmo problema.
[3] Um bom exemplo dessa ''fuga'' do mundo coordenada pelas classes dirigentes está no constante desenvolvimento de tecnologias espaciais. Empresários como Elon Musk, por exemplo, (re)afirmam constantemente a necessidade de conseguirmos conquistar novos planetas, com a justificativa que nosso planeta (Terra) não perdurará por muito tempo se o ritmo produtivo continuar assim. Essas tecnologias espaciais se tornam, dessa maneira, a salvação das classes dirigentes frente às mudanças climáticas e ao eminente desastre ecológico que pode pôr fim ao nosso mundo.
[4] O Antropoceno vem sendo discutido como uma proposta de uma nova era geológica que tem como centro e características os impactos significativos e irreversíveis das atividades humanas no mundo. Tal termo não é um consenso entre os geólogos e cientistas mundiais, mas tem servido para pensarmos nos impactos negativos que as atividades produtivas humanas vêm ocasionando na estrutura de nosso Planeta, a contar com as crises climáticas atuais e o eminente colapso de nosso planeta por conta dessas crises. O termo Capitaloceno, igualmente ao termo Antropoceno, vem propor também uma nova era geológica, em que não apenas as ações humanas são o centro dos impactos atuais, mas sim o próprio modo de produção atual, o capitalismo. Tais termos são amplamente discutidos por diversos autores, e uma autora interessante para acompanhar esses debates é Donna Haraway (2016).
[5] Isso está muito claro quando discutimos as questões de justiças sociais e ambientais segundo a ecologia política, por exemplo, justamente por reconhecermos que quem sofre os problemas mais graves, aqui no caso os ambientais, é sempre a população e os países periféricos, e não os ricos e ''dirigentes''(Martilez-Alier, 2018).
[6] As classes dirigentes sabem isso a muito tempo, assim como diversas linhas teóricas e críticas das ciências sociais, como por exemplo os debates suscitados pelas teorias da dependência (Fernandes, 1972); teoria do sistema mundo (Wallerstein, 1974a; 1974b), como também teorias pós-coloniais e decoloniais (Said, 1990; Spivak, 2010; Quijano, 2005). A globalização que está a ruir é justamente essa tão sonhada e propagada pelo famigerado desenvolvimento, como bem elaborada e criticada por autores como Acosta (2021), Boaventura Santos (2002), entre outros e outras.
[7] A ideia de ação e ator para Latour é ampla e reconhece, de imediato, que qualquer coisa ou objeto, seja humano ou não humano, pode se tornar um ator (e um mediador) no fluxo das ações e na formação das redes. Para Latour, o martelo, por exemplo, não é simplesmente um objeto que nós humanos utilizamos para pregar pregos, mas é também um mediador porque ele próprio, em sua existência, permite que o prego seja pregado. Há, com isso, um deslocamento da noção de ator e ação que é focada exclusivamente na esfera dos humanos, através de um movimento de tornar a ciência não antropocêntrica e reconhecer, assim, que os objetos e coisas não humanas também agem e constroem junto conosco o nosso mundo.
[8] Os rios, assim como a floresta, estão resistindo, conforme Krenak. Como forma de se opor aos padrões de desenvolvimento do mundo moderno e capitalista, esses seres e entidades resistem pelo fato de existirem: ocupam espaços degradados, rebrotam em nascentes e córregos, enfim, persistem e perduram. Bons exemplos disso estão em projetos de restauração e conservação das matas nativas, que evidenciam, através desses projetos e ações, que os rios e as florestas, quando cuidados, resistem e perduram fortemente.
[9] Para Donna Haraway (2022), é possível aprender a viver interseccionalmente, isto é, nós (humanos) e nosso próprio corpo (humano) é composto por inúmeros outros seres (não humanos), e por essa razão, não vivemos ''sós'', mas sim constantemente interseccionados. É possível aprender a devolver o olhar para os outros não humanos, sentir e aprender o que eles têm para nos dizer. Para ela, ser uma pessoa (ou qualquer outra entidade que seja) é sempre devir com muitos outros. É uma co-criação de vida.
[10] Isto ficou bem evidente quando discutimos Bruno Latour e Ailton Krenak, e, por exemplo, o papel da ''natureza'' na ''cultura'' do povo Krenak. Os demais seres vivos possuem influência e ação suficientemente importantes em nossas próprias vidas (humanas). São mediadores e construtores do nosso ''social''. Somos coletivos e não sociedade: humanos e não humanos compõem o ''social'' e isso tudo que entendemos por ''sociedade'', conforme ficou evidente também pelas discussões de Latour e da teoria ator-rede.
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