MUDANÇAS CLIMÁTICAS, NATUREZA E SOCIEDADE: apresentação do dossiê
CLIMATE CHANGE, NATURE AND SOCIETY: introduction to the dossier
Luiza de Araújo Farias *
Emílio de Britto Negreiros **
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77653.p12-16
Resumo
O presente dossiê da Revista Caos reúne um conjunto de artigos que discutem as tensões, resistências e possibilidades de vida humana e não humana frente ao avanço das mudanças climáticas. Os trabalhos abrangem a importância da ficção na construção de imaginários e na disseminação de informações, sejam elas dados científicos ou fabulações sobre os fins de mundo; discussões em torno do bem-viver e a relevância das propostas teórico-metodológicas para refletir sobre formas de aterramento; bem como a necessidade de evidenciar as formas de resistência nas ruínas do capitalismo, seja por meio da agroecologia ou da centralidade que o solo possui no espaço urbano de resistência. Há, ainda, leituras críticas sobre os impactos do racismo ambiental presente nas periferias e centros urbanos e nos discursos de (in)justiças socioambientais, que impactam os humanos e não humanos. Em suma, o dossiê se consolida como um campo multidisciplinar, articulando os limites do antropoceno e as possibilidades de uma respons-habilidade, nos termos de Donna Haraway.
Palavras-chave: sociologia da natureza; mudanças climáticas; antropoceno; ecocapitalismo.
Abstract
The dossier presented in this issue of Revista Caos brings together a set of articles that discuss the tensions, resistances and possibilities of human and non-human life in the face of advancing climate change. The contributions address the importance of fiction in the construction of imaginaries and in the dissemination of information, whether through scientific data of fabulations about the ends of the world; debates around Buen Vivir and the relevance of theoretical-methodological proposals for reflecting on forms of grounding; as well as the need to highlight forms of resistance amid the ruins of capitalism, whether through agroecology or through the centrality of soil within urban spaces of resistance. The dossier also includes critical readings on the impacts of environmental racism in peripheral areas and urban centers, as well as on discourses of social-environmental (in)justice, which affect both humans and non-humans. In sum, the dossier is consolidated as a multidisciplinary field, articulating the limits of the anthropocene and the possibilities of response-ability in Donna Haraway's terms.
Keywords: sociology of nature; climate change; anthropocene; ecocapitalism.
Introdução
É com grande alegria que apresentamos o dossiê Mudanças Climáticas, Natureza e Sociedade, que apresenta as tensões e possibilidades das relações humanonatureza, bem como as diversas formas de se relacionar e imaginar modos de viver nas ruínas do colapso ecológico. Pensar as mudanças climáticas a partir de perspectivas coletivas, de um “nós” influenciado por uma prática de respons-habilidade em mundos possíveis é o que propomos ao longo da presente edição da Revista Caos.
As inquietações que oferecem a provocação inicial para o desenvolvimento dessa coletânea partem da reflexão sobre os fins de mundo apresentados como possibilidades por Donna Haraway (2009,2023), bem como sobre as formas de viver nas ruínas em Anna Tsing (2019, 2022). Embora possuam diferenças cosmológicas e epistemológicas, essas autoras desenvolvem pensamentos-chave para olhar criticamente e exercitar uma perspetiva para além do limite do antropoceno, explorando as formas de vida e resistência que emergem.
Fins de mundo como uma categoria de emergência, como um chamamento para a construção de uma nova perspectiva política, epistêmica e cosmológica, com a intenção de desenvolver narrativas científicas, culturais e econômicas de ruptura. A partir dos trabalhos selecionados, pensamos quais são as possibilidades de vida em cenários disruptivos e disfóricos. Considerar novas relações e possibilidades frente ao avanço das mudanças climáticas, seja por meio das mídias, da literatura ou do campo científico, nos ajuda nesse processo de reflexão e ação. Os artigos selecionados auxiliam na formação de um imaginário sobre as formas de vida em meio ao caos e à catástrofe, evidenciando a necessidade de refletir sobre os possíveis eixos pelos quais a sociologia, em diálogo com outras áreas, vem debatendo a questão das mudanças climáticas, como campo de experimentação ontológica, ética e política.
Os trabalhos, aqui presentes, abordam fins de mundo em suas expressões concretas, como vemos no contexto geopolítico, espacialmente a partir dos acontecimentos recentes da COP30 (2025), realizada em Belém do Pará, na região Norte do Brasil, em novembro de 2025. A conferência foi marcada por contestações e por contradições características do ecocapitalismo. Evidenciou-se como o “enfrentamento” à emergência climática é um espaço de disputa pelo lucro das grandes empresas que visam seus interesses econômicos e geopolíticos. Assim, o presente dossiê reúne trabalhos que contribuem para pensar e apresentar formas de resistência frente às ruínas do capitalismo.
O primeiro artigo intitulado A produção cinematográfica como meio para fabular fins de mundo possíveis: science fiction e mudanças climáticas é um recorte da pesquisa de mestrado de Luiza Farias, sob orientação de Emílio Negreiros, no qual mobilizamos a relação entre o lúdico da produção cinematográfica e o discurso ambiental, trazendo conceitos-chave para compreender como o debate sobre as mudanças climáticas extrapola o espaço informacional tradicional. Filmes, documentários e séries também são espaços de diálogo com a realidade, nesse sentido, a ficção também é uma forma de expressão e de construção de imaginários sobre a realidade concreta. O artigo tem como eixo central abordar as conexões estabelecidas entre elementos ficcionais e dados científicos, destacando como esses elementos são mobilizados e extrapolados no primeiro episódio selecionado, visto que a transmissão da informação e o ato de narrar diferentes histórias são atravessadas por escolhas estéticas e políticas que moldam formas específicas de perceber e reagir às mudanças climáticas.
Partindo de uma leitura crítica sobre o processo de pensar novos paradigmas e novas epistemologias, o artigo Aterramento, transfigurações e florestania como mediadores conceituais para construção de um bem viver, de autoria de Pedro Vanzo e Alfio Brandenburg, apresenta uma leitura que busca estabelecer bases teórico-metodológicas para a construção de novas epistemologias e paradigmas de vida diante do atual regime de mudanças climáticas. Os autores propõem um diálogo entre Latour e Krenak, buscando saídas práticas e ontológicas que recusem a evasão ou a negação da crise ecológica, sintetizando o bem-viver como uma ferramenta de transformação humana e não humana de aterramento para a construção de um mundo possível.
Seguindo o tema das possibilidades de repensar as relações a partir de um respons-habilidade, podemos relembrar uma passagem do trabalho de Haraway, em que a autora afirma: “somos todos responsáveis por moldar as condições para o florescimento multiespécie diante de histórias terríveis, que às vezes também são cheias de alegria, mas não somos todos respon-hábeis da mesma maneira. As diferenças importam- para as ecologias, as economias, as espécies e as vidas” (Haraway, 2023, p. 55).
Nesse sentido, temos um bloco de artigos que se debruçam sobre essas assimetrias, ao discutirem conceitos como desigualdades estruturais e socioambientais.
No artigo de Eduarda Paz Trindade, intitulado Viver e insistir nas ruínas do antropoceno: agroecologia em comum no Pampa Sul, a autora investiga as práticas agroecológicas territorializadas presentes no Pampa-Sul e demonstra como elas estão estruturadas por uma prática política geradora de possibilidades de reorganização da vida em meio ao antropoceno. Trata-se de uma análise que leva em consideração a totalidade de influências que constituem as consequências da crise climática, trazendo uma perspectiva fundamental de ações concretas de luta e permanência. Essa dimensão das possibilidades de vida em meio às ruínas do capitalismo também está presente na escrita de Lucas Santos Daniel, no artigo, Fins de mundo, mudanças climáticas, produção do espaço e a vida nas ruínas do antropoceno em São Gonçalo (RJ), ao apresentar uma perspectiva de múltiplos fins de mundo, ou seja, múltiplos processos de ruptura territorializados e vivenciados de formas profundamente distintas. O autor realiza sua análise a partir de uma crítica ao racismo ambiental presente na periferia urbana do Estado do Rio de Janeiro, ao expor os problemas sócio-históricos de vulnerabilidade que fazem parte de um espaço de conflito de interesses em torno da distribuição dos investimentos públicos.
As disputas e as formas de resistência também constituem um tema central, como apresentado no texto Não há futuro sem chão: colapso climático, solos urbanos e a política da sobrevivência, de autoria de Márcio Silveira Nascimento, ao defender que o solo das cidades funcionam como um marco sociológico importante para compreender a crise climática. Ao evidenciar os problemas e riscos atrelados à degradação e desigualdade nos espaços urbanos marcados pelo antropoceno. Propondo um olhar para as realidades concretas a partir do solo, do chão urbano para fabular, criar possibilidades de vida frente ao avanço das mudanças climáticas.
Em conjunto, temos, por fim, o artigo de Silvia Cristina de Jesus, intitulado Transição energética, (in)justiça socioambiental e a produção de mundos possíveis no antropoceno, lançando um olhar crítico sobre a transição energética, e os desdobramentos de uma linguagem tecnocêntrica marcada pelas assimetrias sociais. Através de uma análise tridimensional, o estudo articula as dimensões da desterritorialização, os impactos ambientais e a pegada ecológica ampliada como eixos importantes para diferenciar os níveis de impacto no processo de transição energética.
Boa leitura!
Referências
COP30 BRASIL. COP30: negociações apresentam resultados emblemáticos em meio a tensões geopolíticas sem precedentes. 23 nov. 2025. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/cop30-negociacoes-apresentam-resultados-emblematicos-em-meio-a-tensoes-geopoliticas-sem-precedentes. Acesso em: 27 nov. 2025.
HARAWAY, Donna J. Ficar com o problema: fazer parentes no chthuluceno. Tradução de Ana Luiza Braga. São Paulo: n-1 edições, 2023.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, SP, n. 5, p. 7–41, 2009. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1773. Acesso em: 9 ago.2025.
TSING, Anna Lowenhaupt. O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. São Paulo: n-1 edições, 2022.
TSING, Anna. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no antropoceno. Brasília, DF: Mil folhas do IEB, 2019.
Recebido em: 29/05/2026.
Aceito em: 01/06/2026.
DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77653.p12-16
* Doutoranda e mestra em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil. E-mail: luiza.adfarias@gmail.com.
** Doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil. Professor do Departamento de Sociologia e da Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil. E-mail: emilio.negreiros@ufpe.br.
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