A COBERTURA DO TED QUILOMBOS UFPR ENQUANTO EXERCÍCIO DO QUEFAZER CRÍTICO DO JORNALISMO: aspectos de uma comunicação sensível

COVERING THE TED QUILOMBOS UFPR EVENT AS AN EXERCISE IN CRITICAL JOURNALISM: aspects of sensitive communication

Gabriel Airto Domingos *

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77676.p217-236

 

Resumo

Este trabalho se dedica à análise crítica do quefazer jornalístico em relação à cobertura de eventos de comunidades quilombolas envolvidas no projeto Termo de Execução Descentralizada (TED) Quilombos, tocado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com o Incra-PR. Foram duas edições do Encontro da Força Jovem Quilombola no ano de 2025 e, sobre elas, foram produzidas duas narrativas entre reportagens e posts em redes sociais. O embasamento teórico deste trabalho se dá em Moraes (2022) e Freire (2021), tais autores discutem, respectivamente, o jornalismo de subjetividades e sensibilidades e a construção profissional teórico-crítica. A análise crítica, com base na metodologia de Luiz Gonzaga Motta (2013), revelou uma cobertura jornalística em busca de aprendizado para concluir uma aproximação cultural e, a partir daí, criar vínculos com as comunidades quilombolas que permitem a produção jornalística com valores éticos e afetuosos. Esse movimento abre, inclusive, caminhos para a conexão de leitores com tais personagens, proporcionando uma adesão as pautas reivindicadas pelas comunidades.

Palavras-chave: jornalismo; comunidades quilombolas; comunicação sensível; narrativas.

 

Abstract

This work is dedicated to the critical analysis of journalistic practices in relation to the coverage of events in Quilombola communities involved in the Quilombos Decentralized Execution Mandate (TED) project, carried out by the Federal University of Paraná (UFPR) in partnership with Incra-PR. Two editions of the Quilombola Youth Force Meeting took place in 2025, and two narratives were produced about them, including news reports and social media posts. The theoretical basis of this work is found in Moraes (2022) and Freire (2021), authors who discuss the journalism of subjectivities and sensibilities, as well as the professional theoretical-critical construction. The critical analysis, based on the methodology of Luiz Gonzaga Motta (2013), revealed a journalistic coverage in search of learning to achieve a cultural approach and, from there, create links with the Quilombola communities that allow for journalistic production with ethical and affective values. This movement also opens avenues for readers to connect with these characters, fostering engagement with the issues championed by the communities.

Keywords: journalism; quilombola communities; sensitive communication; narratives.

 

 

1 Introdução

 

O texto que se apresenta está embasado na perspectiva de Freire (2021). Em Ação cultural para a liberdade, o educador estabelece critérios para uma prática de constante reflexão crítica sobre o quefazer teórico-prático e profissional da área da educação. Segundo ele, as instâncias da teoria e da prática não podem ser separadas e o que deve ficar de fora do ato educacional, na verdade, é o “[...] blá-blá-blá ou o falso pensar.” (Freire, 2021, p. 21). O presente trabalho parte dessa premissa metodológica de Freire, de constante reflexão sobre a teoria-prática da profissão, neste caso do jornalismo, para examinar as atividades comunicativas e a produção de conteúdo jornalístico-informativo sobre o Termo de Execução Descentralizada (TED) Quilombos, um projeto em parceria entre a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra–PR) para a elaboração de Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTIDs) de nove comunidades quilombolas do estado do Paraná.

         O TED Quilombos é desenvolvido pela UFPR sob a coordenação de professores das áreas da antropologia, da geografia, da arquitetura e do direito. Além deles, há uma equipe de estudantes-pesquisadores, também interdisciplinar. As equipes atuam em conjunto com as comunidades quilombolas para que seja possível a construção dos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTIDs), que são as peças fundamentais para o andamento dos processos de titulação das terras quilombolas.

         Especificamente em relação à produção comunicativa de conteúdo jornalístico-informativo, as ações são conduzidas por dois estudantes, um jornalista e uma designer, que possuem vinculação ao coletivo Planejamento Territorial e Assessoria Popular (Plantear). Tais ações de comunicação têm uma base tradicional. São produzidas reportagens, notícias, vídeos, fotografias, entrevistas, entre outros conteúdos.

         As equipes do TED, professores e estudantes-pesquisadores, organizam-se entre atividades de campo e a produção técnica dos relatórios. Tais atividades podem ser direcionadas pela equipe TED, por exemplo: as visitas de campo para aplicação de questionários com o objetivo de coletar dados. A atuação da equipe TED também inclui a participação em eventos das comunidades. Nesses ambientes, a equipe é envolvida na programação sociocultural e participa de conversas, demonstrando entrosamento e troca recíproca com as famílias quilombolas.

         Dois desses eventos serão examinados com maior afinco neste trabalho, a saber: a 1ª e a 2ª edição do Encontro da Força Jovem Quilombola. Tais eventos foram uma mobilização das comunidades do município de Adrianópolis, entre as quais: Porto Velho, Sete Barras, Córrego das Moças, Tatupeva e João Surá. A intenção das lideranças das comunidades, em parceria com a Congregação das Irmãs de Jesus Bom Pastor, era a reunião dos jovens da região para um momento de prática esportiva e de ações educativas. A primeira e a segunda edição do encontro tiveram a presença de mais de 100 pessoas.

A escolha por essas duas ocasiões de cobertura jornalística in loco se dá pelos seguintes fatores: 1) a cobertura de ambos foi a primeira presencial com as comunidades quilombolas do município de Adrianópolis, Vale do Ribeira; e 2) há diferenças sensíveis na escolha metodológica e na execução da proposta comunicativa do primeiro evento — promovido em 20 de julho de 2025 — para o segundo evento — promovido em 26 de outubro de 2025.

         O trabalho parte da seguinte pergunta norteadora: Como construir uma “teoria-prática” da comunicação sensível em casos de vulnerabilidade socioeconômica e sociopolítica? A intenção é examinar os aspectos metodológicos da proposta comunicativa em ambos os eventos que levam a uma aproximação não violenta da comunicação do projeto TED com as comunidades quilombolas.

         As comunidades quilombolas do Vale do Ribeira demandam, sobretudo, a titulação da terra. Em conversa com lideranças locais e com a equipe TED, os relatos a respeito dos quilombos daquela região destacam que a falta de oportunidades de trabalho está entre os principais desafios. Com a titulação, as possibilidades para desenvolvimento do turismo e do cultivo de agricultura seriam expandidas, favorecendo a manutenção dos jovens na região com a geração de renda e oportunidades profissionais.

         Para além disso, existem demandas sobre a constituição de uma educação quilombola, acompanhada de uma oferta mais substancial, de mais acessos ao transporte, de construção de estradas, de mais saúde e de comunicação (mais acesso à internet).

         É neste contexto que esse trabalho se desenha. Entendendo que é uma construção profissional em andamento — tendo em vista que o projeto de comunicação das ações do TED seguirá, pelo menos, até maio de 2026 — o objetivo, aqui, é analisar métodos de trabalho e execução da proposta comunicativa das duas edições do Encontro da Força Jovem Quilombola, bem como a construção narrativa decorrida dessas duas atividades, sejam nos textos jornalísticos produzidos e divulgados pelos meios de comunicação vinculados ao TED, sejam nos discursos e falas das lideranças da região e da equipe TED.

         Tal perspectiva, para o desenvolvimento deste artigo, enquadra-se naquilo que Paulo Freire (2021), em Ação cultural para a liberdade e outros escritos, denomina como constante reflexão crítica sobre o quefazer teórico-prático. Teoria, para o autor, é um elemento indissociável da prática. Isso se dá porque ambas são parte de um ciclo que se retroalimenta. Esse ciclo é constituído pela reflexão crítica que gera produção de conhecimento, que gera transformação na atividade prática e esta, com a constante reflexão, gera novas transformações e aprimoramentos, seja na produção teórica, seja na produção prática.

         Essa constante atividade reflexiva gera questionamentos no âmbito profissional e prático a respeito das metodologias escolhidas para a execução da proposta comunicativa dos eventos. Um desses questionamentos é a respeito do lugar da sensibilidade e das subjetividades, perspectiva teórica do quefazer jornalístico abordada por Fabiana Moraes (2022). No sentido proposto pela autora, o olhar profissional se volta para a lida com os sentimentos das comunidades quilombolas. Este ponto de vista emocional tem uma influência sobre o trabalho jornalístico, na medida em que aspectos como: expectativas das comunidades, perigos, lutas, frustrações e felicidades moldam as relações entre comunidade e pesquisadores e, logo, com os comunicadores.

         Assim, Moraes e Freire são articulados enquanto base teórica para este artigo. Ambos são ferramentas para aprimorar a reflexão crítica sobre o quefazer jornalístico e para sustentar a análise a respeito das narrativas que emergem do encontro entre equipe TED — tanto pesquisadores, quanto comunicadores — e comunidades quilombolas. Tais narrativas são carregadas de expectativa para a transformação sociocultural, socioeconômica e sociopolítica desejada pelas famílias e lideranças locais.

         A análise dessas narrativas será estruturada pela metodologia de Análise crítica da narrativa, de Luiz Gonzaga Motta (2013). A proposta do autor envolve a análise da performance do narrador, nesse caso: o jornalista do projeto TED e personagens das comunidades entrevistadas para as matérias veiculadas no site e redes sociais. Esse método de análise envolve a observação do produto final das narrativas, o texto. Isso se dá mediante a descrição da construção do enredo, da dramatização da história e de construção de personagens.

         Este trabalho utilizará, como objetos de análise, duas reportagens produzidas sobre os eventos citados e publicadas em portal de notícias do projeto TED e cinco publicações em redes sociais a respeito dos dois eventos. Além disso, anotações do caderno de campo[1] servirão como material complementar de análise.

         Cabe ressaltar que a utilização do caderno de campo é um elemento fundamental da metodologia de pesquisa oriunda da área da antropologia. Como apontado por Magnani et al. (2023), o caderno de campo funciona como um diário da pesquisa, e os registros que nele são feitos são, posteriormente, agregados ao relatório de pesquisa. Carvalho e Evangelista (2018) veem semelhanças nas áreas do jornalismo e da antropologia. Na perspectiva dos autores, o olhar e a escuta atenta são ferramentas fundamentais para ambas as áreas profissionais que são descritas por eles como sendo profissionais pesquisadores. Assim, a ida a campo é uma das características deste trabalho jornalístico, e o uso do caderno de campo também se faz importante. Contudo, há diferenças sensíveis nos dados anotados e, sobretudo, em seu tratamento.

         No trabalho jornalístico clássico de Lage (2012), o jornalista vai a campo para verificar os fatos e apurar as informações sobre a história que se desenrolou. No jornalismo literário de Pena (2022), é desenhada uma metodologia que dispõe de um tempo maior para apuração e aprofundamento da história; acontecem mais entrevistas, mais dados são coletados e analisados. Contudo, o foco segue sendo o desenvolvimento da história jornalística, um arco narrativo fechado, enquanto a pesquisa antropológica procura por regras gerais, ainda que em uma perspectiva microssocial.

         Antes de avançar na pesquisa, cumpre destacar que as comunidades quilombolas aqui citadas e examinadas lutam, há décadas, pelo processo de titulação dos territórios. Tanto o quilombo Tatupeva quanto o quilombo Porto Velho ficam localizados no município de Adrianópolis. A cidade faz fronteira com o estado de São Paulo e faz parte do chamado Vale da Ribeira. As comunidades foram as primeiras a organizar o encontro da juventude, e ambas recebem assessoria da Congregação das Irmãs de Jesus Bom Pastor em questões como a busca por demandas básicas de saúde, transporte, educação e outros direitos. Contudo, a comunidade de Tatupeva não está dentro do projeto TED Quilombos e a presença da equipe da universidade na 2ª edição do encontro com a juventude se deu em função do acompanhamento das outras comunidades, em especial, de Porto Velho e Sete Barras. As comunidades quilombolas de Adrianópolis são acessíveis por estradas de chão e convivem, na região, com atividades de minério e com a luta contra a implementação de barragens.

Esse elemento também é revelador da notoriedade da proposta de análise aqui exposta. Isso porque o papel que lhes asseguraria o direito à terra é propulsor de uma série de conquistas socioculturais, sociopolíticas e socioeconômicas ainda sonegadas. Em conversas para a elaboração das reportagens, como demonstrado nos textos analisados e também nas notas de observações em campo, o principal motivo para a promoção do encontro da Força Jovem é a manutenção da juventude nos territórios, bem como sua mobilização para a reivindicação das pautas fundamentais da comunidade. Ter direito ao território é, apontado pelas lideranças da comunidade, a pedra fundamental para que eles possam criar novos mundos e histórias, com emprego, educação, saúde e possibilidade de renda e subsistência.

 

2 O quefazer crítico e a sensibilidade no jornalismo.

 

         No transcorrer do processo de elaboração dos RTIDs, a equipe TED se deparou com uma série de histórias socioculturais e de vulnerabilidades sociopolíticas e socioeconômicas. Foram organizadas atividades de campo para coletar esses dados que constituem o embasamento dos relatórios. Tal trabalho de pesquisa fundamentou laços entre a equipe de pesquisadores e as comunidades. Estas, por sua vez, convidaram a equipe para participar de eventos locais, como as duas edições do Encontro da Força Jovem Quilombola.

         As duas edições do evento ocorridas em 2025 tiveram cobertura jornalística por parte da equipe TED. Do primeiro para o segundo evento, essa cobertura jornalística sofreu alterações metodológicas que serão aqui discutidas sob a perspectiva de Paulo Freire do constante quefazer crítico da teoria-prática, e do jornalismo de subjetividades de Moraes (2022).

         A temática do projeto TED contempla uma série de características que se enquadram nos critérios noticiosos clássicos de Traquina (2012) e Lage (2012). Tais critérios formam um conjunto de valores-notícia que podem ser: a) relevância; b) interesse público; 3) novidade; 4) notoriedade; 5) proximidade; 6) tempo; 7) notabilidade; 8) inesperado, entre outros.

Lage (2012) explica que o repórter atua modelando a realidade da qual faz o relato. O autor afirma que esse processo é uma competência humana, o que a faz também ser uma metodologia. Para se tornar um método essa organização segue critérios como os de valor-notícia que atuam como um guia da prática jornalística. Esses critérios e a formação de uma prática que se pode chamar de metodologia jornalística correspondem ao que Traquina (2012) chama de profissionalização do jornalismo e também da emergência de uma autoridade profissional.

Para o autor, é na criação do lead que fica evidenciada a preocupação com a autoridade profissional, pois esse formato de texto suscita todos os valores que explicam o porquê daquele relato ser escolhido como notícia. Além disso, é a partir do uso do lead que emergem também princípios como o da objetividade e toda a orientação para o estilo de produção jornalística dominante.

         Tais elementos configuram, para o projeto, o caráter de “necessidade de notícia” (Pontes; Silva, 2009). Os autores apontam a existência do contrato de leitura entre jornalista e leitores (espectadores, consumidores da notícia). Por esta visão, o jornalismo é responsável por transmitir um fato, e aqueles que consomem essa transmissão acreditam na narrativa como sendo correspondente à verdade mesmo se, eventualmente, não tiverem sido testemunhas presenciais dos acontecimentos.

         Para Pontes e Silva (2009), há, no desenvolvimento histórico do jornalismo, um marco da constituição de uma necessidade social de informação. Esta era voltada para contextos políticos, econômicos e histórias com apelo social e emocional. É a sociedade, afirmam os autores, que atribui a um fato a qualidade de acontecimento. Portanto, uma vez que o acontecimento é construído socialmente, o jornalismo — enquanto lugar licenciado para falar do mesmo — também é uma produção social.

         Logo, na execução do TED, há características que fazem despertar o que os autores classificam como necessidade de notícia, a saber: a comunicação de comunidades quilombolas, histórias de interesse público e apelo emocional, informações sobre o cuidado e a preservação com o meio ambiente e, ainda, uma dimensão institucional de o projeto sentir necessidade de comunicar suas ações, pesquisas e resultados. Daí a origem e a constituição de uma equipe para planejar e executar as ações comunicativas aqui analisadas das duas edições do Encontro da Força Jovem Quilombola.

         Autores, como Traquina (2012) e Lage (2012), explicam a produção jornalística por duas vertentes. A primeira é ligada a um conceito de objetividade. Trata-se de olhar para o fato e descrevê-lo de maneira direta com foco no acontecimento mais importante e depois oferecendo mais detalhes. Essa objetividade é o conceito que dita as regras da “pirâmide invertida” que surgiu no jornalismo dos Estados Unidos e é predominante na profissão. A segunda possibilidade é a produção de reportagens. Esta é o aprofundamento da notícia jornalística. Ela tem mais tempo de produção, mais entrevistas, mais informações e, portanto, mais detalhamento em relação ao fato contado “na hora” do seu acontecimento.

         Moraes (2022), em seu A pauta é uma arma de combate: subjetividade, prática reflexiva e posicionamento para superar um jornalismo que desumaniza, escreve que a reflexividade da prática jornalística tem seu início na pauta. Para a autora, as perguntas que constroem a pauta são as responsáveis por guiar uma produção que poderá contribuir, de fato, com um debate para melhorias sociais. Moraes entende que é um exercício de pensar uma comunicação transformadora na base da produção do conteúdo informativo-noticioso.

         Ao criticar o conceito “clássico” de objetividade no jornalismo, Moraes argumenta que essa prática não confronta os preconceitos e, portanto, não produz um debate que resulte em avanços sociais. Ainda nesse sentido, a autora vê uma aproximação violenta da comunicação na medida em que esta pode não alcançar a todos e todas. Outro resultado desse tipo de objetividade, para Moraes, é a produção de narrativas que valorizam uma perseverança ante dificuldades socioeconômicas, algo que não contribui para a desconstrução de discursos e narrativas de dominação socioeconômica e sociopolítica.

         Moraes ainda argumenta que o jornalismo costuma privilegiar aspectos técnicos em suas decisões editoriais e de produção de conteúdo. Para que seja possível alcançar um potencial mais elevado, a autora aponta como solução a busca por aprendizado e reflexão sobre o que é dito e sobre as narrativas que são produzidas pelo jornalismo. Essa solução converge para a argumentação de Paulo Freire (2021) em seu Ação cultural para a liberdade e outros escritos.

         Escreve Freire que o processo de orientação dos seres humanos no mundo envolve “pensamento-linguagem” e “trabalho-ação” transformadores. Para o autor, deve existir, como ideal educacional e de busca pelo aprendizado, um esforço coletivo e engajado em realidades sociais. Desse esforço, ele acrescenta, pode-se dar partida em um ciclo virtuoso donde a prática produz questionamentos, estes se transformam em novas teorias e estas, por sua vez, embasam atualizações das práticas profissionais e sociais. Daí que, ele argumenta, não seja possível separar teoria da prática.

         Freire entende que existe uma relação entre o ato de pronunciar o mundo e o de transformá-lo. Por isso, ele escreve “[…] a palavra humana é palavração […]” (Freire, p.78, 2021). Nesse sentido, a produção de narrativas de comunicação e de conteúdo informativo é uma forma de agir com palavras para contar a história das comunidades quilombolas, inseridas no projeto TED. Logo, constitui-se também a necessidade de ter, no fluxo de trabalho, uma constante atividade de reflexão sobre o quefazer teórico-prático.

         Freire também argumenta que sem o conhecimento de como as populações à margem da cultura dominante fazem de suas vulnerabilidades uma força, o que se produz é um tipo de colonialismo intelectual. Nesse sentido, a produção de comunicação sobre as comunidades só pode ser feita mediante a proposta de um jornalismo de subjetividades encontrada em Moraes (2022).

         Freire escreve: “Para os seres humanos, como seres da práxis, transformar o mundo, processo em que se transformam também, significa impregná-lo de sua presença criadora, deixando nele as marcas de seu trabalho” (Freire, 2021, p. 112). Aqui o autor indica que aquilo que emerge da atividade reflexiva é a transformação do mundo. Esse processo se dá, segundo ele, pelo fazer-utópico, pelo sonhar novas possibilidades. E este sonho, argumenta, é aquilo que confere a criatividade ao trabalho de reflexão, de compreensão e de mudança.

         Novamente, um caminho possível para a constante reflexão crítica, questionamentos e para a transformação criativa do mundo são as narrativas. Estas, no caso deste trabalho, as produzidas sobre o 1º e o 2º Encontro da Força Jovem Quilombola pela equipe de comunicação do TED. Tais narrativas foram produzidas no contexto de diálogo, mas, principalmente, de escuta das comunidades sobre suas demandas, seus sonhos, seus medos e suas forças. No percurso da proposta de comunicação dos eventos, diferentes metodologias do fazer jornalístico foram aplicadas e estas receberão, a seguir, um exame acurado, levando em conta a proposta de Freire — presente também em Moraes — de produção teórico-prática crítica e engajada na perspectiva da transformação do mundo, seja da profissão jornalística, seja do contexto sociocultural das comunidades quilombolas.

 

3 As narrativas transformadoras: metodologia de análise crítica e diálogos com o quefazer e a reflexividade

 

         A proposta metodológica de Luiz Gonzaga Motta (2013) está colocada em seu Análise crítica da narrativa. Tal metodologia pode ser interpretada, no que diz respeito a sua operação, como uma descrição densa das narrativas. O objetivo dessa descrição é verificar no produto narrativo — o texto — elementos que revelam a performance de narradores. Essa performance está vinculada a dois momentos do ciclo narrativo de Paul Ricoeur (2010), a saber: 1) o pré-texto e 2) o texto.

        O primeiro momento, de acordo com o autor, é aquele em que o narrador está inserido em um contexto sociocultural. No caso da análise que se seguirá: as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, Paraná. A partir disso, acontece a coleta de elementos para produzir a narrativa. Enquanto o segundo momento é aquele em que o narrador, munido de detalhes, informações e elementos do enredo, utiliza estratégias de linguagem e de argumentação para produzir a narrativa propriamente dita.

        De modo a operacionalizar está análise, Motta propôs uma série de procedimentos, a saber:

1) compreender a intriga como síntese do heterogêneo, 2) compreender a lógica do paradigma narrativo, 3) deixar surgirem novos episódios, 4) permitir ao conflito dramático se revelar, 5) personagem: metamorfose de pessoa a persona, 6) as estratégias argumentativas e 7) permitir as metanarrativas aflorar. (Mota, 2013, p. 139-209)

 

Como forma de complementar a análise, Motta sugere o diálogo com uma base teórica — que neste artigo é dada por Freire e Moraes, na proposta de construção de um jornalismo reflexivo — e também a utilização de dados complementares — que neste trabalho serão as anotações de campo, a partir de uma observação jornalística.

        O corpus de análise é composto por duas notícias publicadas no site do projeto TED Quilombos, cinco posts publicados nas redes sociais do Coletivo Plantear – UFPR, cujos membros são integrantes do projeto TED, além das anotações feitas a partir de observação jornalística. Esse escopo contempla toda a produção informativa sobre os dois eventos examinados. Como o corpus é relativamente pequeno e, entre os textos disponíveis no site e nas redes sociais, existem semelhanças, não foi necessário eliminar nenhum conteúdo do conjunto selecionado.

        Em relação aos procedimentos operacionais, a análise da narrativa aqui proposta dará enfoque a duas categorias principais, a saber: 1) personagens — buscando observar quais são citadas e com que espaço e 2) elemento principal do enredo/descrição de cenas — nesta categoria é observado o destaque principal, aquele elemento que puxa o enredo da matéria, além das descrições de cenas que dão a dimensão das estratégias de apuração e observação usadas. A intenção é verificar as mudanças de uma cobertura para outra e, dessa forma, observar como é possível construir uma “teoria-prática” para uma comunicação sensível e reflexiva.

 

4 Análise crítica das construções narrativas, aspectos de transformação sociocultural

 

        O corpus de análise deste trabalho é tal como descrito a seguir:

 

 

Quadro 1 – Reportagens publicadas no site

Título

Local/Data

Descrição

Entrevistas

O Quilombo Porto Velho joga com a juventude na preservação da natureza e das culturas locais.[2]

Quilombo Porto Velho, Adrianópolis.

 

Data do evento: 20 de julho.

Data de publicação: 24 de setembro.

Trata da realização do evento, da vivência de capuêra, de uma explicação geral do trabalho do TED na região e a repercussão pós-evento. Esse texto foi publicado no site do projeto.

Maria Sueli

Miriam de Sousa

Raquel Mombelli

 

Falas colhidas no dia em diálogos e escutas e recuperadas das anotações de campo.

Tem gente que ouve e sente o chamado.[3]

Quilombo Tatupeva, Adrianópolis.

 

Data do evento: 26 de outubro.

Data da publicação: 6 de novembro.

Relato mais apurado da vivência de capuêra, foco em Heliton, personagem envolvido pela atividade. Breve descrição de como foi o evento e informações importantes, como a ida a COP.

Apenas falas colhidas em campo e recuperadas das anotações.

Fonte: elaborado pelo autor, 2026.

 

Quadro 2 – Postagens nas redes sociais

Título

Local/Data

Descrição

Entrevistas

Futebol, diversão e medalhas: como foi o 1º Encontro da Força Jovem Quilombola.[4]

Quilombo Porto Velho, Adrianópolis.

Data do evento: 20 de julho.

Data da publicação: 19 de agosto.

Publicação nas redes sociais do Plantear.

Relato do evento com foco em Jeferson, jovem quilombola que estava atuando na disputa do futebol. Outros relatos de jovens que estavam participando do evento e informações gerais.

Texto produzido com base nas anotações feitas em campo.

O Quilombo Porto Velho joga com a juventude na preservação da natureza e das culturas locais[5]

Divulgação, nas redes sociais, da notícia divulgada no site.

Quilombo Porto Velho, Adrianópolis.

Data do evento: 20 de julho.

Data da publicação: 17 de outubro.

Publicação nas redes sociais do Plantear.

Divulgação da notícia do evento publicada no site. Na legenda, são abordadas informações gerais.

Texto produzido com base nas informações da reportagem

Boletim Plantear – Episódio 2.[6]

Data da publicação: 25 de outubro.

O Boletim Plantear é um conteúdo em áudio divulgado no Instagram do coletivo. O objetivo do conteúdo é aproveitar o conteúdo de entrevistas realizadas para as matérias jornalísticas e relembrar eventos, acontecimentos e outras divulgações importantes. Nesse caso, um dia antes do 2º Encontro da Força Jovem Quilombola, foi relembrada a primeira edição.

Conteúdo com base na entrevista de Maria Sueli, ainda para a primeira reportagem publicada no site.

Como foi o segundo Encontro da Força Jovem Quilombola.[7]

Quilombo Tatupeva, Adrianópolis.

Data do evento: 26 de outubro.

Data da publicação: 30 de outubro.

Descrição, em estilo mais objetivo, das coisas que aconteceram no segundo encontro. Fala da representante do poder público de Adrianópolis, eventos esportivos e vivência de capuêra angola.

Texto produzido a partir das anotações do caderno de campo e da observação e escuta jornalística.

Tem gente que ouve e sente o chamado.[8]

Divulgação da notícia publicada no site nas redes sociais do Plantear.

Quilombo Tatupeva, Adrianópolis.

Data do evento: 26 de outubro.

Data da publicação: 11 de novembro.

Divulgação, nas redes sociais, da notícia publicada no site. Traz uma descrição geral das informações.

Texto produzido a partir das informações da segunda notícia divulgada no site do TED. A fonte principal são as anotações das observações em campo.

Fonte: elaborado pelo autor, 2026.

 

         As anotações do caderno de campo são a respeito de informações passadas no evento e falas importantes das lideranças quilombolas ou da juventude que estava envolvida com as atividades esportivas e com a vivência de capuêra[9]. São notas baseadas na observação jornalística. Daí que muitas anotações sejam palavras-chave para recuperar falas de personagens e/ou sejam notas de diálogos com as pessoas das comunidades quilombolas.

         A análise, portanto, será dividida em dois grupos, a saber: grupo A – notícias e publicações sobre o evento em Porto Velho, e grupo B – notícias e publicações sobre o evento no Tatupeva. A ordem seguirá o acontecimento de cada evento, sendo Porto Velho primeiro e, depois, Tatupeva.

 

Análise do Grupo A

 

         Tanto em relação ao evento no quilombo Porto Velho quanto no Tatupeva, o principal produto comunicativo foram as notícias divulgadas no site do TED Quilombos. Por isso, a publicação que será foco da análise do grupo A é: O Quilombo Porto Velho joga com a juventude na preservação da natureza e das culturas locais.

         O texto foi ao ar no dia 24 de setembro no site, dois meses e quatro dias após a realização do evento, em 20 de julho. O tempo de distância entre o evento e a divulgação da notícia é um primeiro indício de um processo de busca por aprendizagem e também do quefazer crítico da profissão, tal como promovido pela base teórica deste trabalho, Freire (2021) e Moraes (2022). Além disso, a notícia que foi ao ar sobre o 1º Encontro da Força Jovem teve a realização de três entrevistas mais longas que foram a base do conteúdo.

 

Categoria 1: personagens

 

         As personagens da notícia sobre o evento realizado no quilombo Porto Velho foram: 1) Mestre André; 2) Daniele Pontes; 3) Walace Pereira; 4) Raquel Mombelli; 5) Maria Sueli; 6) Miriam de Sousa; 7) Heliton; 8) Airton Piajone; e 9) Izaias. Destes, os três últimos são membros das famílias quilombolas da região. Heliton é um dos jovens, enquanto Izaias e Airton são lideranças. Maria Sueli e Miriam de Sousa integram a Congregação das Irmãs de Jesus Bom Pastor — as Pastorinhas. Daniele Pontes e Raquel Mombelli são professoras integrantes do TED. Walace Pereira também faz parte do TED Quilombos e do grupo Zimba, assim como o Mestre André.

         Daniele Pontes e Walace Pereira foram apenas citados brevemente no texto da notícia. Maria Sueli, Raquel Mombelli e Miriam de Sousa foram entrevistadas e, assim, parte considerável do corpo da narrativa se desenvolveu a partir das declarações e informações dadas por estas três personagens. Izaias e Airton foram ouvidos pela reportagem em diálogo, para que fosse possível coletar uma opinião sobre a realização do evento. Da mesma forma, Heliton foi ouvido em rodas de conversa durante o dia de programação cultural e teve destaque por conta do gosto pela capoeira. Nesse sentido, do relato da vivência de capuêra Angola, o Mestre André foi o personagem principal.

         Antes de prosseguir com a análise, citando trechos importantes do texto, é destinado um olhar para o elemento de gênero. Em relação às personagens das comunidades quilombolas que aparecem na notícia, são três homens. É destacado no caderno de notas que a aproximação com mulheres e meninas foi mais difícil. Mesmo as demais personagens que não foram citadas no texto da reportagem, em sua maioria, também são homens ou meninos[10]. Nesse sentido, o post Futebol, diversão e medalhas: como foi o 1º Encontro da Força Jovem Quilombola também teve como personagem principal um homem: Jeferson. Ele foi destaque no futebol naquele evento e também tentou seguir carreira como jogador. Hoje, dedica-se aos estudos para o vestibular.

         O evento em análise foi o primeiro com presença da equipe de comunicação e, dessa forma, o diálogo com a comunidade quilombola foi mais tímido. O trecho a seguir revela esse caminho de tentativa de aproximação:

 

Ambos estavam em uma rodinha de conversa após a exposição do mestre André e enquanto os jovens iniciavam a disputa do futebol, no 1º Encontro da Força Jovem Quilombola. Com eles, estava Weliton[11]: “meu sonho é treinar capoeira”, afirmou. A fala do garoto, André me confidenciou depois, tocou profundamente nele. Isso porque, Weliton vive uma história semelhante à do mestre André, tendo a paixão pela capoeira plantada, ainda criança, por um familiar que foi mestre. (Site do TED Quilombos, 2025)

 

         Observando a descrição da cena é possível notar que a figura do narrador-repórter se posiciona como ouvinte para acompanhar a história que se construía entre Heliton e André. Mais adiante, é observado um diálogo entre narrador e André, e este explica o contato que teve com o jovem, além de relatar os sentimentos presentes naquele encontro.

         A divisão da reportagem revela que as personagens ligadas à universidade ou à Congregação, que assessoram as comunidades locais em reivindicações de demandas, tiveram um espaço para explicações técnicas do desenvolvimento dos trabalhos de assessoria, bem como do papel da equipe do TED. Por outro lado, capoeiristas e personagens da comunidade apareceram para relatar o evento e para opinar e dar uma visão sobre a realização do Encontro.

 

Categoria 2: elemento principal da narrativa

 

A análise da reportagem revela dois elementos para a comunicação do primeiro evento, a saber: 1) a divisão técnica/vivência e 2) a constituição de uma personagem-guia do enredo. Em relação ao primeiro ponto, fica evidenciado na leitura dos conteúdos do grupo A que a escuta das pastorinhas e das personagens ligadas ao trabalho técnico da universidade cumpre a função de escopo técnico da reportagem. Ou seja, a escuta delas funciona como base para a informação sobre o desenvolvimento dos trabalhos de pesquisa e assessoria. Para além disso, outra função importante é o estabelecimento de uma ponte cultural.

         A comunicação do TED Quilombos é originada pela universidade e, como tal, tem uma vinculação mais profunda com a cultura citadina. Tanto as pastorinhas quanto a Raquel Mombelli, ainda que vivam contexto semelhante de origem na cidade, estão envolvidas com o trabalho e, portanto, muito mais próximas da vivência cultural quilombola. Assim, as três personagens edificam a ponte que permite uma aproximação cultural não violenta. Esse processo tem por objetivo evitar erros de informação.

         Outro fator que aparece na análise é a constituição de uma personagem condutora da narrativa e, no caso da comunicação do evento em Porto Velho, três foram essas personagens, a saber: 1) mestre André; 2) Airton Piajone; e 3) Jeferson. Essas personagens são os elementos centrais de cada narrativa na medida em que a partir delas o enredo se desenvolve para contar os acontecimentos daquele dia. A personagem-guia também cumpre a função de, na construção narrativa, abrir espaço para a atividade criativa de Paulo Freire (2021) e, a partir de tal exercício, construir um enredo de potencial transformador.

 

Análise do Grupo B

 

Os conteúdos do grupo B foram ao ar, respectivamente, em 6 de novembro — no site —, 30 de outubro e 11 de novembro, nas redes sociais. Em relação ao primeiro evento, o tempo para a publicação dos textos noticiosos foi menor. Assim, é possível considerar essa distância temporal menor como um indício de maior adaptação da proposta comunicativa para o segundo evento, além de uma simplificação nas estratégias de conteúdo.

 

Categoria 1: personagens

 

As personagens das narrativas sobre o 2º Encontro da Força Jovem Quilombola são: 1) Jocimeire Mariano Santos Pereira; 2) Aldevanio Mariano Santos; 3) Irmã Angela; 4) Walace Pereira; 5) Cecil; 6) Tamara; 7) João; 8) Miriam de Sousa; 9) Vanessa da Rocha; e 10) Heliton. Aqui, nesta análise, cabe ressaltar uma das anotações feitas em campo, a saber: “a diferença feita pelo uso da câmera no segundo encontro.”

No primeiro evento, as fotografias foram produzidas com o uso do celular como equipamento. No segundo Encontro, foi utilizada uma câmera fotográfica. Esta permitiu uma abertura maior de diálogo com a comunidade quilombola. Notadamente, é impossível afirmar que seja este o único diferencial, uma vez que a maioria das pessoas que esteve presente no segundo encontro, também estava no primeiro e, portanto, estavam informadas sobre o trabalho de comunicação realizado no dia 26 de outubro. Contudo, o uso da câmera proporcionou, de forma espontânea, que a juventude fizesse pose para algumas fotos, assim como as lideranças. Um desses momentos foi quanto Heliton pediu que ele fosse gravado fazendo um salto “mortal”.

         Tamara, Cecil e João, integrantes do grupo Zimba, foram apenas citados brevemente no texto. Miriam de Sousa também foi apenas citada quando da informação sobre a participação na COP 30. Vanessa da Rocha foi citada quando do relato sobre a roda de conversa. Walace, Heliton, Aldevanio e Jocimeire são as personagens principais do texto e dão o tom do desenvolvimento narrativo.

 

Categoria 2: elemento principal da narrativa

 

         Diferentemente do conteúdo produzido em relação ao primeiro evento, as notícias do segundo evento não tiveram entrevistas mais longas com personagens vinculadas à universidade ou à Congregação das pastorinhas. Dessa forma, as informações técnicas consistiram em relatos dos acontecimentos do evento, tais como: os jogos de futebol, vôlei e outros recados como a informação de participação na COP 30.

         Assim, o elemento principal da narrativa passou a ser as personagens-guia. A primeira dessas personagens é Jocimeire. O texto abre com ela, descrevendo-a como a anfitriã e também como uma peça importante para a organização do evento. Depois, é dado maior destaque para a vivência de capuêra Angola e para o diálogo constante entre Walace e Heliton. Eles tiveram uma conversa com Walace, ensinando a tocar os instrumentos da capoeira para o jovem quilombola interessado. Depois, o texto fecha novamente com Jocimeire que demonstrou carinho pela equipe do TED e convidou para que os estudantes-pesquisadores e o pessoal do grupo de capoeira pudessem retornar mais vezes para o quilombo.

         A construção desta narrativa, embora mais curta em relação à primeira, tem um foco na vivência das comunidades quilombolas no dia do evento. Novamente, isso configura um movimento de busca por aprendizado, de coletar elementos para entender como as pessoas fazem de suas vulnerabilidades um elemento de força em lutas sociopolíticas. Dessa forma, o texto tenta retratar com maior detalhamento a vivência quilombola e as formas criativas de questionar a dominação sociocultural de grupos políticos e econômicos e, com tais informações, elaborar suas demandas e reivindicações por melhorias.

 

5 Atravessamento da ponte cultural: as vulnerabilidades em força e a emergência de narrativas transformadoras

 

         A análise crítica das narrativas que emergiram da cobertura do 1º e do 2º Encontro da Força Jovem Quilombola revelou a necessidade de aplicação do passo da busca por aprendizagem como parte da metodologia de comunicação jornalística na constituição do trabalho. Esse movimento é convergente com uma proposta teórico-prática de constante reflexão crítica sobre o quefazer profissional, algo que é desenhado por Freire (2021) como fundamental nos processos educacionais — quaisquer que sejam — da sociedade.

         Moraes (2022) enxerga nesse movimento a abertura para o pensamento sobre a essência do fazer jornalismo. Para a autora, começam na pauta as perguntas e reflexões que permitirão ao profissional jornalista subir de nível em relação ao objetivismo clássico da profissão que, aponta ela, caracteriza-se por reduzir narrativas e/ou simplificá-las. Tal como colocado por Freire (2021), se se desconhece como as pessoas transformam fraquezas em forças, não se dá ouvidos a suas capacidades transformadores. Logo, a busca por aprender e conhecer tem papel central na prática jornalística que deseja produzir narrativas com valor ético e de transformação sociocultural.

         Esse movimento se conecta à teoria-prática de uma comunicação sensível. E isso se dá a partir de deslocamentos e encontros. Quando se está presente com o corpo, dizem Martinez e Heidemann (2019), começam as relações de afeto. É por intermédio desse contato, afirmam as autoras, que o comunicador é convidado a atravessar uma “ponte cultural” — se este parte de um contexto diferente, como é o caso da comunicação do TED — para se conectar com o outro e estabelecer uma relação.

         Esse atravessamento da “ponte cultural”, na primeira reportagem, tem início com a escuta das personagens que explicaram o trabalho técnico-científico de assessoria da Congregação das Irmãs de Jesus Bom Pastor, as Pastorinhas, e da universidade, no contexto do desenvolvimento do TED. Já na segunda narrativa, a ambientação maior — com um primeiro contato já realizado — proporcionou novas estratégias de observação jornalística e, dessa forma, as personagens-guia da narrativa foram lideranças e jovens quilombolas em sua criatividade do ser para pensar e reivindicar demandas e melhorias socioculturais.

         Ainda há os aspectos do uso da câmera fotográfica e da ambientação do segundo encontro que proporcionaram um diálogo mais afetuoso e aberto entre a equipe de comunicação, a juventude e as lideranças quilombolas. Tal situação indica a origem de um vínculo entre comunicador e comunidade. Esse vínculo é, para Martinez e Heidemann (2019), gerador da observação das complexidades da vida e do material jornalístico com valor ético e estético. Para além disso, as autoras colocam que esse fazer jornalismo abre uma porta de conexão com os leitores, isso porque é uma atividade de narrar sentimentos e é a partir deles que se constroem novos vínculos entre leitor e personagem.

Por fim, a análise indicou a importância do constante questionamento crítico e da busca por aprender enquanto chaves do processo comunicativo. Contudo, a descrição das narrativas e as notas de campo demonstram que o trabalho comunicativo está em fase inicial. Esse fator fica evidenciado pelas mudanças da primeira para a segunda narrativa e pelas metodologias diferentes aplicadas para a comunicação de ambos os eventos. Assim, isso indica uma possibilidade de, nas próximas produções narrativas, serem registradas novas metodologias, estratégias e argumentações narrativas.

 

Referências

 

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FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2012.

MAGNANI, José Guilherme Cantor; SPAGGIARI, Enrico; NOGUEIRA, Mariana Hangai Vaz Guimarães; CHIQUETTO, Rodrigo Valentim; TAMBUCCI, Yuri Bassichetto. Etnografias  urbanas: quando o campo é a cidade. Petrópolis (RJ): Vozes, 2023.

MARTINEZ, Monica; HEIDEMANN, Vanessa. Jornalismo literário: afeto e vínculo em narrativas. Lumina. Juiz de Fora, v. 13 n. 1, p. 4–14, jan.-abr. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.34019/1981-4070.2019.v13.26055. Acesso em: 13 jan. 2024.

MORAES, Fabiana. A pauta é uma arma de combate: subjetividade, prática reflexiva e posicionamento para superar um jornalismo que desumaniza. Porto Alegre: Arquipélago, 2022.

MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2013.

PENA, Felipe. Jornalismo literário. 2. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2022.

PONTES, Felipe Simão; SILVA, Gislene. Jornalismo e realidade: da necessidade social de notícia. Revista Galáxia, São Paulo, n. 18, p. 44–55, dez. 2009. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/2638. Acesso em: 11 nov. 2023.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. v. 1.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: porque as notícias são como são. 3. ed. Florianópolis: Insular, 2012.

 

Recebido em: 10/01/2026.

Aceito em: 25/05/2026.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.77676.p217-236

 

 

 



* Mestre e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil. E-mail: gabrielairto@outlook.com.

[1] Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1BXhpinUvkobSTdnS3fQ28niad-0yf9kF/edit?
usp=sharing&ouid=100106216338661868908&rtpof=true&sd=true.

[2] Disponível em: ttps://projetos.ufpr.br/quilombos/2025/09/24/o-quilombo-porto-velho-joga-com-
a-juventude-na-preservacao-da-natureza-e-das-culturas-locais/.

[3] Disponível em: https://projetos.ufpr.br/quilombos/2025/11/06/tem-gente-que-ouve-e-sente-o-chamado/.

[4] Disponível em: https://www.instagram.com/p/DNi6v-KR26D/?igsh=MXNvZWZmMmphd3RjZQ==.

[5] Disponível em: https://www.instagram.com/p/DQOfXhpksT0/.

[6] Disponível em: https://www.instagram.com/p/DQOfXhpksT0/.

[7] Disponível em: https://www.instagram.com/p/DQcHXC2Ebum/.

[8] Disponível em: https://www.instagram.com/p/DQ4oxX0kWeM/?img_index=1.

[9] Em alguns momentos do texto é possível encontrar as palavras capoeira e capuêra. A primeira é a palavra tal como usualmente utilizada. A segunda é uma expressão adotada pela equipe TED em referência às atividades desenvolvidas junto às comunidades em Adrianópolis.

[10] Faz parte das intenções do projeto de comunicação do TED aprimorar o contato com as mulheres. Em novembro de 2025, em visita às comunidades do Sítio Coqueiro e do Rio Verde, município de Guaraqueçaba, essa maior aproximação foi possível a partir de conversas triviais e de um maior tempo de contato disponível. Já em dezembro, novamente em Adrianópolis, outra conversa com mulheres se desenrolou por ocasião da visita da equipe TED na cooperativa CAFA. Fica indicado que este elemento poderá aparecer em novos trabalhos oriundos do exame do projeto de comunicação do TED.

[11] O trecho é aqui reproduzido da forma como está no site do TED Quilombos no dia 14 de novembro de 2025. O nome correto do jovem, contudo, é Heliton. Cf. https://projetos.ufpr.br/quilombos/2025/09/24/o-quilombo-porto-velho-joga-com-a-juventude-na-preservacao-da-natureza-e-das-culturas-locais/.

 

 

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Desenho de um círculo

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