DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.78989.p6-10

 

É com grande entusiasmo que a Revista Caos entrega ao seu público mais um número. Diferentemente dos outros volumes, este tem um quê de diferente em relação aos anteriores; a inquietação que sempre esteve presente nos volumes publicados, hoje encontra-se com a renovação de futuros possíveis.

Neste número, vemos uma coletânea de trabalhos em fluxo contínuo e no dossiê que versam sobre as (des)continuidades de um mundo que, sob a égide do capitalismo, segue numa linha em encontro ao colapso ambiental, humano, animal e moral. Nas inúmeras perspectivas que as ciências sociais apresentam ao analisar as faces do mundo social, encontramos também formas de reexistir, existir e habitar em suas múltiplas formas o mundo à nossa volta.

Mas antes de fazer a apresentação dos artigos que se encontram neste número como é de praxe, tomarei algumas palavras para falar do trabalho editorial, a face oculta que muitas das vezes o leitor(a) não conhece, ficando essa parte relegada a uma questão diminuta e invisível. Há pouco mais de dois anos, adentrei na Caos a convite de Giovanni Boaes, seu editor-chefe — o qual também foi meu orientador na graduação —, metódico, compromissado e, sobretudo, envolvido na construção de um periódico ativo e producente. Reativou a Revista em 2019, após um hiato de sete anos sem publicação.

Giovanni, como é conhecido, ao longo dos últimos sete anos organizou, editou e diagramou quatorze números, contando com o número que ora temos em mãos. Como editor-chefe, acompanhou de perto o processo editorial de mais de cem manuscritos e revisou, ao longo desse tempo, cada artigo já publicado (e tantos outros não-publicados), fazendo questão de ler todos, às vezes mais de uma vez. Sempre com o olhar atento, responsável e, sobretudo, crítico, digno de um “malvado favorito”, como aprendi a gentilmente a chamá-lo.

Ao longo desse tempo, pude aprender como funciona o modelo editorial das revistas, suas questões internas, seus dilemas e, principalmente, a importância dos periódicos para a manutenção científica dos debates, teorias e compreensões acerca do mundo, especialmente o social. Em meio a tudo isso, Giovanni me ensinava, como um bom mentor, a desbravar essa realidade, sempre ressaltando que o trabalho editorial, embora cansativo e, às vezes, solitário, ao final de cada número publicado, era possível sentir a realização de ter contribuído, mesmo que pouco, com a renovação da produção científica.

Disciplinado e adepto dos prazos, sempre cumpridos à risca, ao longo dos últimos anos, a Caos publicou seus números precisamente sempre nos meses de junho e dezembro, impreterivelmente. Duas edições anuais em que a pluralidade de enfoques e perspectivas se tornou característica da revista, nos artigos publicados e nos dossiês organizados. Todo esse processo é resultado de um trabalho incessante e contínuo que, ao longo dos últimos anos, tem aumentado exponencialmente como reflexo da qualidade e abrangência que a Caos, uma revista vinculada ao curso de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba, tem obtido nacionalmente.

Atualmente com uma equipe editorial de quatro pessoas, sabemos todos que nada disso seria possível sem a coordenação de Giovanni Boaes, que agora deixa a função de editor-chefe para prosseguir com suas pesquisas e interesses pessoais na Universidade Federal do Maranhão, onde está lotado desde sua redistribuição em 2023. Não preciso ser parcimonioso nos elogios, pois é notório entre todos e todas que o conhecem a grandeza e eficiência em torno de suas produções e de seu cuidado no trabalho editorial. Com o intuito de ressaltar esse trabalho intelectual, nós, da equipe editorial da revista, agradecemos aos ensinamentos e à vitalidade entregue à Caos de maneira tão nobre nesse tempo enquanto editor-chefe.

Em passagem memorável de um dos seus textos, ele descreve que “a vida é assim: em um momento fazemos, em outro, se tivermos sorte, contemplamos o que fizemos” (Boaes, 2004, p. 97). Sinta-se, então, contemplado ao olhar o crescimento do que ajudou a fixar como referência na construção de um modelo editorial de qualidade teórica, social, cultural, política, educacional e científica. De todos que compõe a equipe editorial da Revista Caos, o nosso muito obrigado.

Ainda embalado pela ideia de renovação que este número representa, é que nós da Equipe Caos saudamos e damos as boas-vindas ao professor Dr. Lucas Coêlho Pereira, que assumirá a chefia da Revista, no lugar de Giovanni Boaes. Além do novo editor-chefe, também damos as boas-vindas a Mariana Soares Pires Melo, que já vinha contribuindo indiretamente com a Caos e passará, agora, a compor o quadro de editores.

É com a certeza de que mudanças são necessárias para a renovação do espírito inquieto e atento às questões sociais, que a Caos, ao longo de sua história, buscou comportar, que fazemos a apresentação dos textos que neste volume buscaram analisar as mudanças e permanências em torno das questões ambientais, que se interseccionam em suas múltiplas questões e perspectivas, seja elas juvenis, urbanas, culturais, políticas e raciais.

Inicialmente, dedico algumas palavras à colagem que compõe a capa desta edição. Obra da artista e ilustradora Mirella Brito[1], que a partir de uma colagem a pedido dos editores da Caos, conseguiu captar genuinamente as questões que permeiam o antropoceno, o meio ambiente, os sujeitos, os desastres e seus dilemas. A capa é um convite à reflexão em torno das mudanças climáticas e das questões sociais que estão envoltas nos dilemas do mundo contemporâneo em seus múltiplos cenários e possibilidades.

E nesse contexto de pensar os dilemas do mundo contemporâneo e em cenários sociais diferentes, que apresento o trabalho de João Pedro Souza Pereira, intitulado: “Eu sempre quis mais”: a migração como uma das formas de manifestação da condição juvenil interiorana. O trabalho traz como ponto chave a discussão a partir do processo de migração de três jovens que saem do interior para morar na capital paraibana. A pesquisa conduzida a partir de entrevistas semiestruturadas conduz a leitura para uma experiência que intercala experiências sociais, as questões da juventude e das questões urbanas e interioranas em torno da vivência desses jovens. A análise e argumentação do autor destacam como as possibilidades de ascensão e de novas possibilidades se manifestam dentro das questões dos jovens que residem no interior e buscam nas grandes cidades novas formas de existir e ascender seja socialmente ou economicamente.

Passando agora para o artigo de Carolina Maia Lins, que realizou uma análise a partir da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em torno das mulheres que vivem da pesca na região litorânea entre Alagoas e Pernambuco, campo situado na Costa dos Corais. Seu artigo intitulado: Marés invisíveis: os direitos das mulheres pescadoras e a Convenção 169 da OIT na Costa dos Corais, analisou como as condições dessas mulheres são efetivadas ou não a partir dessa lei. A partir de uma reflexão que combinou análise documental, bibliográfica, além de normativas e materiais da organização civil, a autora destaca que a Convenção 169 registra um importante passo para a implementação de políticas públicas voltadas para essas mulheres. Porém, ainda há uma lacuna entre as condições de efetivação e a chegada desses direitos na prática cotidiana das mulheres que participam da pesca artesanal e das marisqueiras que residem nessa área, que além da forte presença masculina, é permeada pelos conflitos socioambientais. A autora ainda problematiza como as questões de gênero e da preservação ambiental são desmobilizados em torno de práticas que visam o lucro, a destruição ambiental e da invisibilização das mulheres como parte desse sistema.

Seguindo por outra perspectiva em torno das identidades na modernidade, o trabalho de Guilherme Sena — A constituição da identidade cultural na pós-modernidade e na transmodernidade: um estudo de teoria social comparativa — problematiza como a noção de identidade na pós-modernidade, sobretudo as vinculadas a Stuart Hall e da transmodernidade — conceito trabalhado por Enrique Dussel —, é operacionalizada a partir da leitura exegética que o autor realiza e mobiliza. A discussão questiona não apenas os aspectos das identidades na contemporaneidade, como também as articula para pensar as questões conceituais e teóricas que são empreendidas pela noção eurocêntrica. O convite ao debate e à reflexão do texto de Sena, traz a dimensão da identidade em suas múltiplas contextualizações, abrangendo novas formas de compreensão dos dilemas da identidade cultural na modernidade, na pós-modernidade e na transmodernidade, seja no centro ou na periferia do capitalismo.

O último trabalho que compõe a seção de artigos em fluxo contínuo desse número é de Gabriel Aidos Domingos, intitulado: A cobertura do TED quilombos UFPR enquanto exercício do quefazer crítico do jornalismo: aspectos de uma comunicação sensível.  Este trabalho faz uma análise da prática do quefazer do jornalismo, mas envolto nas questões das comunidades quilombolas que participaram do projeto desenvolvido na UFPR durante o ano de 2025. Partindo de uma “análise sensível”, o autor aponta como a produção de saberes no seio das comunidades quilombolas são importantes na  produção de uma prática profissional eticamente ligada às questões dessas comunidades, assim como da prática jornalística como questionamento crítico das produções e narrativas acerca das comunidades quilombolas no Brasil.

Passando agora para as resenhas — seção que, com grande entusiasmo, tem recebido, nas últimas edições da Caos, uma demanda cada vez maior de submissões —, o que amplia o debate e a leitura de obras de diversas perspectivas que se encontram no campo das ciências sociais.

Assim, abrimos a apresentação com a resenha de Rodolfo Alves de Macedo — Uma breve introdução à sociologia da educação — que resenhou a obra de Renato Antonio de Souza, um pequeno livreto sobre sociologia da educação, publicada em 2017. A resenha de Macedo destaca-se pelos ganhos analíticos em torno da análise crítica que faz das questões relativas à sociologia da educação, da questão educacional, de seus agentes e da estrutura presente nesse contexto. Ainda de acordo com o autor, a obra resenhada tem um caráter “generalista”, mas a resenha convida o leitor a refletir sobre como a sociologia da educação desempenha tamanha importância para a análise do indivíduo em sociedade.

Encerrando a apresentação dos trabalhos desta edição, temos a resenha de Francisco Lacerda — Averiguação dos conceitos-chave presentes nas obras de Karl Marx: resenha sobre o livro de Jorge Grespan: Marx: uma introdução — que resenhou a última obra de Jorge Grespan. Lacerda enfatiza como a obra traz, em caráter didático, alguns conceitos da obra de Marx, e que contribuem para a análise da realidade social, assim como das críticas ao capitalismo contemporâneo. A resenha faz o convite à obra de Grespan como ferramenta teórico-didática em torno dos conceitos explicitados, mas, especialmente, faz o convite à obra marxiana do autor alemão.

E por fim, deixo aqui os agradecimentos a todos e todas os pareceristas que contribuíram para a efetivação deste número. O trabalho editorial é formado por muitas mãos, e os pareceristas são parte essencial da produção científica. Assim, nós da Revista Caos desejamos a todos(a) uma boa leitura e reflexão em torno das problemáticas e análises lançadas nesse número.

Anderson Santos

 

Referências

BOAES, Giovanni. Antropoconto. João Pessoa: Ed. Manafatura, 2004.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n36.78989.p6-10

 

 



[1] Para mais detalhes das obras e artes feitas pela autora ver sua página no Instagram: @mylady10000

 

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Desenho de um círculo

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