ROCHA, A. C.
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fossem concluídas. Essa política lhes dava liberdade para fazer ginástica durante o dia, levar os filhos à
escola ou ao médico, ou simplesmente não trabalhar caso não se sentissem suficientemente inspirados.
A implementação de uma temporalidade difusa de trabalho, cujo objetivo era expandir a
produção sem sobrecarregar os desenvolvedores, foi muito bem recebida por eles, que agora se sentiam
mais motivados e comprometidos com o projeto, servindo também como um poderoso meio de controle
social por meio da identificação, pelo próprio grupo, daqueles que não estavam plenamente dedicados.
Tratava-se de um recurso para a captura de mais-valia que envolvia uma grande mudança cultural, com
forte dimensão ética: a produtividade tornava-se agora uma questão de responsabilidade moral e
individual. Ou, como diz Bulut (2020), “um maior poder traz mais responsabilidades”.
Essa política de horários flexíveis foi complementada por uma outra: transformar a Desire em
uma espécie de playground rebelde. Ali, as pessoas conversavam, trocavam ideias, jogavam videogame
e bebiam cerveja. Não havia cubículos. O ambiente de trabalho era personalizado, com fotos de família,
pôsteres e tudo o mais. Havia comida e bebida. Havia máquinas de fliperama. Tudo era gratuito,
disponibilizado aos funcionários do estúdio.
Como afirmam Boltanski e Chiapello (2009), essas práticas culturais no local de trabalho
constituem o “novo espírito do capitalismo”. O trabalho torna-se tão espetacular que já nem parece mais
trabalho. É algo dinâmico, divertido e lúdico, totalmente diferente do trabalho industrial com suas
hierarquias, seu tédio e sua sujeira. No entanto, a informalidade, o caos e o caráter lúdico do trabalho
servem para aumentar a produtividade no contexto da economia criativa. Ao investir no bem-estar dos
desenvolvedores, a Desire incorporou ao processo produtivo as características mais corriqueiras da vida
social, amplificando a vida em um ambiente de trabalho não muito diferente de uma sala de estar, repleta
de conversas, risos e lazer.
Por fim, por meio de um programa de treinamento chamado “Diálogos Essenciais”, a gestão da
Desire buscou melhorar as competências linguísticas e comunicativas dos desenvolvedores para que
eles pudessem suportar a intensidade, as tensões e os desacordos inerentes a um processo de trabalho
emocionalmente carregado e acelerado. Desse modo, o treinamento em habilidades comunicativas era
visto como uma plataforma pedagógica para manter uma equipe coesa, motivada e lucrativa. A
linguagem foi transformada em uma tecnologia de autocontrole, necessária para a gestão adequada das
próprias emoções e das emoções dos colegas de equipe.
No capítulo 5, “Reproduzindo a tecnomasculinidade”, Bulut procura desconstruir uma noção
individualista e puramente psicológica de amor, repensando a produção de jogos a partir do trabalho de
reprodução social no espaço doméstico. Como diz Federici (2012, p. 33, tradução nossa), “longe de ser
uma estrutura pré-capitalista, a família, tal como a conhecemos no Ocidente, é uma criação do capital
para o capital, como uma instituição que supostamente garante a quantidade e a qualidade da força de
trabalho e seu controle”. Nesse sentido, afirma Bulut, a cultura do excesso de trabalho na indústria de