ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 292 - 301  
SOCIOLOGIA DO TRABALHO E MODERNIZAÇÃO:  
os caminhos compartilhados entre Brasil e França  
SOCIOLOGY OF WORK AND MODERNIZATION:  
the Shared Paths Between Brazil and France  
____________________________________  
Tarik Dias Hamdan  
FESTI, Ricardo. As origens da sociologia do trabalho: Percursos cruzados entre Brasil e  
França. São Paulo: Boitempo Editorial, 2023.  
“As origens da sociologia do trabalho: percursos cruzados entre Brasil e França” é um  
livro lançado no ano de 2023 por Ricardo Festi, doutor em sociologia pela Universidade  
Estadual de Campinas. Essa obra é resultado de sua tese de doutorado, defendida em 2018, sob  
a orientação do professor Ricardo Antunes, e de um doutorado-sanduíche realizado na França,  
sob a tutela do professor Michel Löwy. Nele, o autor se dedica a analisar os fundamentos sociais  
das ideias dominantes no processo de criação da sociologia do trabalho, concentrando-se nas  
trajetórias da disciplina na França e no Brasil durante as décadas de 1950 e 1960. A escolha  
desse recorte empírico não é acidental, mas sim resultado do objetivo de compreender  
criticamente as motivações dos fundadores da sociologia do trabalho no Brasil, especialmente  
a chamada “sociologia uspiana do trabalho”. Para isso, foi fundamental compreender as  
relações que esses autores mantinham com os sociólogos franceses e a constituição de redes  
transnacionais acadêmicas. Dessa forma, podemos classificar o livro como uma pesquisa  
É doutorando em sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA). Foi  
professor substituto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente é professor substituto na  
Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem interesse nas áreas de sociologia do trabalho e sociologia  
econômica. É integrante do Núcleo de Pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA). E-mail:  
HAMDAN, T. D.  
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genética que, embora reconheça a autonomia relativa das ideias, busca entender as razões  
materiais para o seu surgimento1.  
A primeira parte, intitulada “As ciências sociais na era de ouro do capitalismo”, examina  
o surgimento da sociologia do trabalho após a Segunda Guerra Mundial durante os chamados  
“trinta anos gloriosos” que se seguiram a esse evento. Para o autor, tal período deixou duas  
marcas significativas: a consolidação do modelo taylorista-fordista como um ideal de  
modernização e a constituição de uma comunidade internacional no campo das ciências sociais.  
No que diz respeito ao primeiro ponto, é importante ter em mente que o taylorismo-  
fordismo, chamado por Gramsci de americanismo, passou a ser exportado dos Estados Unidos  
para outros países como sinônimo de modernidade. Na perspectiva dos autores da época, a  
implementação desse modelo de produção visava a superar as relações tradicionais  
provenientes do período pré-capitalista, assim como as relações produtivas desenvolvidas no  
regime capitalista não monopolista do século XIX. A adaptação ao capitalismo monopolista,  
que marcou grande parte do século XX, exigia que o taylorismo-fordismo vencesse a resistência  
tanto dos industriais, que impediam a modernização dos seus empreendimentos ao não aderir a  
formas modernas de gestão desenvolvidas no pós-guerra nos EUA, quanto dos trabalhadores,  
que não aderiam ao padrão taylorista de organização nas fábricas.  
No Brasil, a utopia da modernização foi vivida nas décadas de 1950 e 1960, ou seja, da  
redemocratização, com o fim do Estado Novo, até o golpe de 1964. Ela era sustentada por uma  
economia em expansão, pelo crescimento do proletariado industrial, o êxodo rural e o início de  
uma classe média consumista. De forma semelhante à França, era necessário superar os  
resquícios dos antigos modos de produção e levar as classes sociais a se ajustarem ao  
capitalismo monopolista. No caso brasileiro, embora a Revolução de 1930 tenha iniciado um  
processo de modernização, o país ainda convivia com uma estrutura agrária e de classes,  
herdada da sociedade escravocrata, fundamentada no latifúndio. Nesse sentido, tanto os  
trabalhadores quanto os empresários não contavam com disposições ajustadas à ordem  
competitiva. No caso dos primeiros, isso era fruto de sua socialização em regimes de trabalho  
diferentes do trabalho livre e assalariado (Fernandes, 2008). Já os últimos, de modo similar ao  
1
Embora a pesquisa tenha uma clara inspiração marxista e em especial lukácsiana, os fundamentos sociais não  
devem ser entendidos apenas como relacionados às relações de produção, contemplando também os interesses de  
grupos específicos e redes sociais que se constituíram ao longo do tempo.  
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ambiente francês, resistiam a passar de formas patrimoniais de gestão em favor de modelos  
mais modernos (Cardoso, 2020).  
A consequência das transformações do capitalismo durante esse período tornou o mundo  
do trabalho e da indústria um dos objetos fundamentais para entender a totalidade da sociedade.  
Por essa razão, era necessário o desenvolvimento de estudos sociológicos que, para além de  
entender o processo de modernização das sociedades, pudessem intervir e influenciar os  
desdobramentos, controlando os efeitos das mudanças.  
Ainda na parte 1, o autor analisa que a institucionalização da sociologia do trabalho nas  
décadas de 1950 e 1960 esteve associada a uma série de políticas promovidas por diversos  
agentes com o objetivo de constituir uma comunidade acadêmica internacional. Entre os atores,  
destacam-se ações de organizações como a Unesco, que auxiliou na criação da Associação  
Internacional de Sociologia (ISA), bem como entidades filantrópicas como a Fundação  
Rockefeller, que apoiou o Centre de Documentation Sociale (CDS), e a criação de novos  
periódicos, como a Annales Sociologiques.  
Na segunda parte da sua obra, intitulada “A sociologia do trabalho na França (1950-  
1960)”, Festi analisa o surgimento da sociologia do trabalho francesa após a Segunda Guerra.  
Para isso, destaca o sociólogo Georges Friedmann como principal responsável pelo surgimento  
da disciplina, sendo chamado por muitos de “pai da sociologia”. Além disso, aborda  
personagens que foram influenciados por ele, como Jean-Daniel Reynaud, Michel Crozier e,  
principalmente, Alain Touraine.  
Para Festi, há um momento de inflexão entre o período anterior e posterior à guerra.  
Além da interrupção de pesquisas e o fechamento de centros, ocorreu o exílio e a morte de  
intelectuais importantes. Na França, importantes nomes, como March Bloc e Maurice  
Halbawchs, não sobreviveram à guerra, e outros autores, como Marcel Mauss, foram  
perseguidos e tiveram que interromper suas atividades acadêmicas. Além disso, as  
consequências da ocupação nazista resultaram no exílio de intelectuais em outros países, como  
foi o caso de Georges Gurvitch, Claude Lévi-Strauss, Raymond Aron e, o mais importante para  
o livro, Georges Friedmann.  
O efeito da guerra no campo acadêmico na França foi a perda da hegemonia acadêmica  
e a passagem dela para os norte-americanos. Além de terem sido menos afetados, o exílio de  
parte da intelectualidade francesa permitiu que os pesquisadores desse grupo fossem  
profundamente influenciados pelos desenvolvimentos científicos que ocorreram no país.  
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Gurvitch sintetizou os objetivos da sociologia francesa nas décadas seguintes ao afirmar que a  
missão da sociologia é incorporar os avanços descritivos das ciências sociais norte-americanas  
e enquadrá-los sob esquemas conceituais teoricamente mais ricos, algo que seria uma  
especialidade das ciências humanas na França. Segundo Festi, foi nos estudos sobre o mundo  
do trabalho que essa combinação obteve mais avanços na época. Dessa forma, a característica  
da sociologia do trabalho que se desenvolveu foi ser uma sociologia empírica e aplicada,  
influenciada pelo ideal de modernização do taylorismo-fordismo e com o objetivo de controlar  
os processos de transformação.  
Friedmann foi um dos pioneiros nos estudos sobre trabalho e teve a ambição de realizar  
uma sociologia aplicada, tendo dirigido suas pesquisas no Centre d’Études Sociologiques  
(CES). Para Festi, sua influência no ambiente francês e internacional deve-se não apenas à sua  
competência como pesquisador, mas também ao intercâmbio estabelecido com autores de  
diversos países e suas relações com instituições internacionais como a Unesco e a ISA. É  
especialmente relevante destacar as relações de Friedmann com os estudos do trabalho norte-  
americanos, em especial a sociologia industrial representada pela Escola de Relações Humanas,  
sob a direção de Elton Mayo.  
Ao se inspirarem no estrutural-funcionalismo de Pareto, os norte-americanos percebiam  
a empresa como um sistema social cujas partes são interdependentes. Dessa forma, qualquer  
mudança em um elemento pode gerar alterações em outros, alterações essas que podem ser  
patológicas ou levar ao equilíbrio. A tese fundamental de Mayo era a de que a produtividade  
não depende apenas de fatores técnicos e organizacionais, mas também engloba aspectos das  
relações humanas e sociais, chamadas pela Escola de fatores humanos.  
Embora sustentassem a indispensabilidade de considerar as relações humanas, na visão  
de Friedmann e seu grupo era necessário compreender a vida social dos trabalhadores para além  
do ambiente fabril, reconhecendo-os como componentes de uma classe social que demanda  
uma análise holística. Nesse contexto, criticavam a compreensão limitada de Mayo e sua Escola  
em relação às complexidades envolvidas na formação de uma classe social e no  
desenvolvimento de sua consciência.  
Dessa maneira, tornou-se imprescindível desvencilhar-se da tradição da sociologia  
industrial norte-americana e estabelecer uma nova disciplina acadêmica: a sociologia do  
trabalho. Portanto, era necessário realizar estudos interdisciplinares sobre o mundo do trabalho,  
dialogando com a psicologia social, a economia, a demografia e a história do movimento  
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operário. O objetivo central era construir, por meio dos estudos sobre o trabalho, explicações  
sociológicas que levassem em conta a totalidade da sociedade e sua historicidade. Esse novo  
paradigma deu início a uma grande heterogeneidade de temas pesquisados ao longo das décadas  
de 1950 e 1960, como as atitudes operárias e suas consciências, a mobilidade social e  
profissional dos trabalhadores, o impacto das transformações tecnológicas na sociedade, formas  
de organização das empresas, sindicalismo, entre outros.  
Entre os diversos trabalhos desenvolvidos ao longo dessas décadas, há uma visão geral  
que unifica os empreendimentos investigativos realizados pelos sociólogos franceses do  
trabalho, definida a partir do dualismo entre tradicional e moderno. Essa abordagem se justifica  
pelo fato de que o objetivo desses estudiosos era analisar o processo de modernização da  
sociedade francesa e os obstáculos que dificultavam essa transformação. Desse modo, os vários  
fenômenos estudados pelos autores, como os tipos de indústria, a consciência operária e a  
postura dos empresários, poderiam ser compreendidos como manifestações de formas de  
conduta e organização tradicionais ou modernas a primeira representando expressões dos  
modos de produção pré-capitalistas ou relacionadas ao capitalismo concorrencial do século  
XIX, enquanto a segunda refere-se aos comportamentos ajustados ao capitalismo monopolista  
do taylorismo-fordismo.  
Um dos principais estudos exemplificadores da visão dos pesquisadores franceses foi  
conduzido por Alain Touraine e dirigido por Friedmann durante os anos de 1948 até 1954 nas  
fábricas da Renault2. No complexo de fábricas, o autor encontrou evidências que considerou  
como a expressão das “sucessivas etapas da evolução técnica da indústria francesa desde a  
Primeira Guerra Mundial” (Festi, 2023, p. 152). Touraine identificou dois departamentos  
completamente diferentes em termos de técnica e de organização do trabalho O primeiro,  
chamado de usinagem de peças motores, era responsável por fabricar peças para diversos  
motores e nele foram observadas máquinas ultrapassadas e oficinas com chaminés e estoques  
abarrotados. Já o segundo, por sua vez, denominado usinagem e montagem do 4CV, era um  
galpão consagrado para a fabricação do modelo do carro 4CV, com máquinas modernas e um  
estoque reduzido. Esses dois departamentos representavam a diferença entre a velha indústria  
francesa de antes da Primeira Guerra Mundial (arcaica) e as fábricas modernas que passaram a  
dominar o cenário francês depois de 1945.  
2
Esse trabalho resultou na obtenção do diploma de Estudos Superiores em História (mestrado) em 1949 e a  
produção do livro L’ Evolution du travail ouvrier aux usines Renault, publicado em 1955 (Touraine, 1955).  
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Do ponto de vista do processo de trabalho, o primeiro departamento representava um  
sistema de trabalho qualificado, enquanto o segundo era caracterizado pelo trabalho  
especializado. Esperava-se que o desenvolvimento da vida econômica resultasse na transição  
da primeira forma de organização para a segunda. No sistema de trabalho qualificado, o  
operário desfrutava de autonomia profissional e a qualidade profissional era determinada por  
suas habilidades como, por exemplo, rapidez e reflexos. Ademais, as habilidade eram  
adquiridas por meio da experiência no trabalho, e as máquinas que utilizavam eram universais,  
o que exigia do operário qualificação e habilidade para realizar múltiplas operações e para  
fabricar peças diferentes. Em contraste, no trabalho especializado, há o parcelamento do  
processo de trabalho através da especialização das máquinas, substituindo o operário  
qualificado pelo operário especializado. Nessa fase, os trabalhadores não eram mais  
polivalentes e não detinham mais o controle do processo de trabalho3.  
Para Touraine, a transição do operário qualificado para o especializado teria resultado  
em mudanças na consciência operária. No século XIX, o trabalhador, semelhante ao artesão,  
constituía-se em uma classe social que estabelecia uma barreira entre sua cultura e o resto da  
sociedade, tornando evidente o antagonismo de classe. Com o desenvolvimento de máquinas  
específicas fenômeno chamado por Friedmann de maquinismo , as barreiras entre os  
operários e a sociedade passaram a ficar ofuscadas devido à alienação do trabalho4, resultante  
da perda do controle sobre o processo de trabalho e o desenvolvimento de fenômenos como o  
consumo e a cultura de massas.  
A visão de Friedmann sobre a passagem do operário qualificado para o especializado  
era marcada por ambiguidades. Segundo ele, o parcelamento da força de trabalho, embora  
traumático para os trabalhadores, era uma etapa necessária para o processo de automação,  
orientado pelo objetivo de reunir novamente concepção e execução em novos termos. Assim,  
seguir-se-ia o desenvolvimento de máquinas polivalentes, exigindo trabalhadores qualificados  
3 Como é possível perceber, as reflexões do grupo de Friedmann e do estudo feito por Touraine se assemelham às  
descrições de Marx em O capital sobre a passagem do artesão para a manufatura e, em seguida, para a fábrica no  
século XIX. Segundo Marx (2015), para além de questões ligadas à produtividade, o que estava em questão era a  
expropriação do saber do processo de trabalho por parte da burguesia, tendo em vista dificultar as reivindicações  
dos trabalhadores.  
4 Para Festi, a interpretação da categoria de alienação em Friedmann era fruto de uma leitura particular de Marx.  
Para ele, ela significava a perda do controle do processo de trabalho, acompanhado da parcelização do trabalho e,  
portanto, a desqualificação dele, tornando a vida na fábrica cada vez mais monótona e repetitiva. Festi ressalta  
que, para Friedmann, bastaria a superação dessas características do trabalho para pôr fim a alienação. Para o autor  
do livro, essa visão seria uma leitura simplista da obra de Marx, que compreendia que a superação do trabalho  
alienado estava relacionada com o fim da sociedade capitalista baseada na extração de mais-valor.  
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para operar as novas máquinas. A esse grupo de trabalhadores, Friedmann chamou de “novos  
artesãos”.  
Outros estudos do mesmo grupo destacam a importância do dualismo tradicional e  
moderno. Touraine, por exemplo, estudou a consciência dos trabalhadores na França e na  
América Latina em especial no Chile5 , investigando como diferentes trajetórias produzem  
consciências operárias diferentes. Tanto na França como no Chile, operários de lugares mais  
tradicionais vindos do meio agrário, por exemplo tinham tendências à ruptura com a ordem  
moderna, sendo sua percepção moldada pela comunidade de maneira geral, sem formar um  
grupo autônomo. Em contraste, os operários de origem urbana ou que não pertencem à primeira  
geração de trabalhadores industriais representavam exemplos de consciência de classe mais  
explícita. Esses trabalhadores constituíam um grupo autônomo e, em vez de almejarem uma  
ruptura com a ordem moderna, demonstravam uma consciência de progresso econômico e  
social. Festi destaca a influência desse tipo de estudo na sociologia do trabalho brasileira,  
impactando autores como Leôncio Martins Rodrigues, que reproduziu essa tese no livro  
“Industrialização e atitudes operárias” (Rodrigues, 2009).  
Na terceira parte, intitulada “A sociologia Uspiana do trabalho”, Festi situa o início da  
sociologia do trabalho no Brasil na Universidade de São Paulo (USP) com os estudos de Mario  
Wagner Vieira da Cunha, no Instituto de Administração, nos anos 1950. Esse campo de estudo  
foi consolidado com o grupo de pesquisa vinculado à Cadeira de Sociologia 1, o Centro de  
Sociologia Industrial e do Trabalho, liderado por Fernando Henrique Cardoso.  
Para Festi, a sociologia do trabalho no país foi influenciada pela vinda dos sociólogos  
franceses para a América Latina nas décadas de 1950 e 1960. Ao mesmo tempo, outro fator  
influenciador foi o patrocínio de pesquisas envolvendo a temática do trabalho por organizações  
internacionais, como a Unesco, a Organização dos Estados Americanos (OEA), fundações  
filantrópicas, entre outras. Sobre o intercâmbio com os acadêmicos franceses, uma das  
principais visitas foi feita por Friedmann, em 1958, na USP. Ela foi possível devido à  
consolidação da comunidade acadêmica internacional, em especial, dos vínculos feitos desde a  
criação da ISA, em que a participação dos brasileiros nas diretorias foi relevante. Já sobre a  
participação de outras entidades internacionais, cabe destacar os incentivos da Unesco, como a  
5 Touraine participou no Chile da criação de uma linha de pesquisa de sociologia industrial. Um dos autores que  
ajudou o autor francês na época foi o jovem Enzo Faletto. Eles estudaram uma mina de Carvão em Lota e uma  
siderúrgica em Huachipato. A primeira representava o mundo tradicional, enquanto a segunda, o moderno.  
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criação da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e o Centro Latino-  
Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (Clapcs), que começaram a funcionar em 1958.  
Após a primeira fase de desenvolvimento da disciplina com a vinda de Friedmann, a  
principal figura que desembarcou em 1960 foi Alain Touraine. Ele ministrou um seminário de  
sociologia do trabalho e ajudou professores e assistentes a planejarem a criação do Cesit, que  
começou a funcionar oficialmente em fevereiro de 1962.  
De forma semelhante à sociologia do trabalho francesa, o paradigma que estruturou os  
trabalhos produzidos por esse grupo foi o dualismo tradicional e moderno. Com o processo de  
industrialização e o crescimento significativo da classe operária, a questão central passou a ser  
a superação do atraso por meio da introdução de efeitos modernizadores na parte arcaica.  
Assim, um conjunto de trabalhos foram feitos sobre a organização das empresas, a mentalidade  
dos empresários e a consciência dos operários tendo em vista diagnosticar os motivos pelos  
quais formas não adequadas ao capitalismo monopolista continuavam a sobreviver na sociedade  
brasileira6.  
Um exemplo claro do dualismo tradicional/moderno e da influência francesa no  
pensamento da sociologia do trabalho brasileiro pode ser observado no trabalho de Leôncio  
Martins Rodrigues. Similar à tese de Touraine, Rodrigues apontava que a natureza do processo  
de industrialização, em interação com as características da sociedade, teria colaborado para que  
características arcaicas perdurassem na consciência e atitude dos operários. A especificidade  
do Brasil residiria no fato de que os trabalhadores vindos do campo estariam orientados por  
aspirações de integração à sociedade urbana e moderna, tendo em vista uma racionalidade  
individualista que não permitiu a constituição de uma classe operária com consciência de classe.  
Além disso, a participação política dessas classes se deu sob a égide do populismo, orientadas  
por lideranças paternalistas de classes superiores, o que demonstrava a permanência, na vida  
política, de valores ligados ao mundo tradicional (Rodrigues, 2009).  
Outra análise parecida foi feita por Fernando Henrique Cardoso em “Empresário  
Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil” (2020). Para Cardoso, os empresários  
estariam influenciados pelas formas de gestão tradicional das empresas, baseadas no  
6
Pesquisas semelhantes já haviam sido feitas por Juarez Brandão Lopes na década de 1950 e 1960, no Centro  
Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE). Ao analisar o processo de industrialização de duas cidades-piloto  
(Leopoldina e Cataguases), Lopes (2009) tinha como problemática a adaptação da sociedade tradicional,  
representada pelos trabalhadores rurais, à nova sociedade industrial marcada pelo contexto fabril.  
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paternalismo e na transmissão familiar. Nesse sentido, faltaria a eles a racionalidade  
instrumental weberiana para desenvolver a economia brasileira.  
Para Festi, os golpes militares ocorridos nos países da América Latina, como Brasil,  
Argentina e Chile, colocaram fim ao projeto de modernização da sociologia do trabalho desse  
período, pautado na pesquisa empírica para a transformação social. Isso se relaciona com dois  
motivos. O primeiro é a perseguição e aposentadoria compulsória dos intelectuais brasileiros  
partidários da transformação social por caminhos progressistas. Centros como o Cesit deixaram  
de realizar suas pesquisas em andamento para se dedicar à formação de quadros para a Cadeira  
de Sociologia I, buscando substituir os professores perseguidos. O segundo motivo tem a ver  
com o fim do ideal de modernização encampado pelos intelectuais da USP, ou seja, o ideário  
nacional-desenvolvimentista que, por meio do planejamento, controlaria a mudança social e  
econômica. Influenciadas pelo contexto latino-americano, mas também após o seminário  
“Resistências à mudança” organizado pelo Clapcs e a Flacso em 1959, as reflexões de  
personagens como Fernandes e Cardoso se deslocam para os debates sobre os conflitos sociais  
e para a imprevisibilidade das suas consequências. Os resultados serão livros lançados pós-  
golpe, como foi o caso de “A Revolução Burguesa no Brasil” (Fernandes, 2020) e  
“Dependência e Desenvolvimento na América Latina” (Cardoso; Faletto, 2004).  
O livro termina com uma reflexão proposta por Festi sobre a importância de se estudar  
as origens da sociologia do trabalho no Brasil e na França nas décadas de 1950 e 1960. Para  
ele, em uma época em que as ciências sociais estão dominadas pela crença na  
incognoscibilidade da totalidade e pela crescente especialização e fragmentação da sociologia  
em múltiplos campos, o projeto defendido pela sociologia do período estudado se mostra ainda  
de grande relevância, uma vez que se direciona na contramão desse processo. Para os teóricos  
da época, os estudos sobre o mundo do trabalho e da indústria eram pontos de entrada para  
refletir sobre a formação das sociedades de maneira geral, convidando a sociologia a se dedicar  
ao estudo da totalidade concreta novamente.  
Para além disso, revisitar as reflexões feitas ao longo dessas décadas sobre o mundo do  
trabalho nos permite refletir criticamente sobre o dualismo tradicional/moderno que fundou a  
sociologia do trabalho e, em certa medida, está na origem das ciências sociais. Para Festi, uma  
alternativa para esse paradigma é pensar como o binômio atraso/moderno são lados da mesma  
moeda e como o desenvolvimento do capitalismo ocorre de forma desigual e combinada.  
HAMDAN, T. D.  
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Referências  
CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio  
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.  
CARDOSO, Fernando Henrique. Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil. Rio de  
Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.  
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Globo, 2008.  
FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica. São Paulo:  
Editora Contracorrente, 2020.  
FESTI, Ricardo. As origens da sociologia do trabalho: Percursos cruzados entre Brasil e França. São Paulo:  
Boitempo Editorial, 2023.  
LOPES, Juarez Rubens Brandão. Crise do Brasil arcaico. Rio de Janeiro: Centro Edelstein, 2009.  
MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo:  
Boitempo Editorial, 2015.  
RODRIGUES, Leôncio Martins. Industrialização e atitudes operárias: estudo de um grupo de trabalhadores.  
Rio de Janeiro: Centro Edelstein, 2009.  
TOURAINE, Alain. L'évolution du travail ouvrier aux usines Renault. Paris: Centre National de Recherche  
Scientifique, 1955.  
Recebido em: 16/6/2023  
Aceito em: 1/9/2023