HAMDAN, T. D.
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Do ponto de vista do processo de trabalho, o primeiro departamento representava um
sistema de trabalho qualificado, enquanto o segundo era caracterizado pelo trabalho
especializado. Esperava-se que o desenvolvimento da vida econômica resultasse na transição
da primeira forma de organização para a segunda. No sistema de trabalho qualificado, o
operário desfrutava de autonomia profissional e a qualidade profissional era determinada por
suas habilidades – como, por exemplo, rapidez e reflexos. Ademais, as habilidade eram
adquiridas por meio da experiência no trabalho, e as máquinas que utilizavam eram universais,
o que exigia do operário qualificação e habilidade para realizar múltiplas operações e para
fabricar peças diferentes. Em contraste, no trabalho especializado, há o parcelamento do
processo de trabalho através da especialização das máquinas, substituindo o operário
qualificado pelo operário especializado. Nessa fase, os trabalhadores não eram mais
polivalentes e não detinham mais o controle do processo de trabalho3.
Para Touraine, a transição do operário qualificado para o especializado teria resultado
em mudanças na consciência operária. No século XIX, o trabalhador, semelhante ao artesão,
constituía-se em uma classe social que estabelecia uma barreira entre sua cultura e o resto da
sociedade, tornando evidente o antagonismo de classe. Com o desenvolvimento de máquinas
específicas – fenômeno chamado por Friedmann de maquinismo –, as barreiras entre os
operários e a sociedade passaram a ficar ofuscadas devido à alienação do trabalho4, resultante
da perda do controle sobre o processo de trabalho e o desenvolvimento de fenômenos como o
consumo e a cultura de massas.
A visão de Friedmann sobre a passagem do operário qualificado para o especializado
era marcada por ambiguidades. Segundo ele, o parcelamento da força de trabalho, embora
traumático para os trabalhadores, era uma etapa necessária para o processo de automação,
orientado pelo objetivo de reunir novamente concepção e execução em novos termos. Assim,
seguir-se-ia o desenvolvimento de máquinas polivalentes, exigindo trabalhadores qualificados
3 Como é possível perceber, as reflexões do grupo de Friedmann e do estudo feito por Touraine se assemelham às
descrições de Marx em O capital sobre a passagem do artesão para a manufatura e, em seguida, para a fábrica no
século XIX. Segundo Marx (2015), para além de questões ligadas à produtividade, o que estava em questão era a
expropriação do saber do processo de trabalho por parte da burguesia, tendo em vista dificultar as reivindicações
dos trabalhadores.
4 Para Festi, a interpretação da categoria de alienação em Friedmann era fruto de uma leitura particular de Marx.
Para ele, ela significava a perda do controle do processo de trabalho, acompanhado da parcelização do trabalho e,
portanto, a desqualificação dele, tornando a vida na fábrica cada vez mais monótona e repetitiva. Festi ressalta
que, para Friedmann, bastaria a superação dessas características do trabalho para pôr fim a alienação. Para o autor
do livro, essa visão seria uma leitura simplista da obra de Marx, que compreendia que a superação do trabalho
alienado estava relacionada com o fim da sociedade capitalista baseada na extração de mais-valor.