ISSN 1517-5901(online)
POLÍTICA & TRABALHO
Revista de Ciências Sociais, nº 60, Janeiro/Junho de 2024, p. 13-15
APRESENTAÇÃO:
EMBATES E CRISES DEMOCRÁTICAS NO BRASIL EM TEMPOS DE POLÍTICA
DIGITALIZADA
PRESENTATION
CONFLICTS AND DEMOCRATIC CRISES IN BRAZIL IN THE ERA OF
DIGITALIZED POLITICS
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Emerson Cervi (UFPR)
Tathiana Chicarino (FESPSP; PUC-SP)
O presente Dossiê intitulado Embates e crises democráticas no Brasil em tempos de
política digitalizada” traz à luz uma sistemática discussão sobre política nas redes sociais on-
line, a partir de análises empíricas realizadas no ambiente digital mais usado pela elite política
brasileira, o Twitter (atualmente X).
Desde sempre a política, enquanto uma forma de ação humana ligada ao poder, diria
Maquiavel (1976), esteve sujeita a transformações mais ou menos intensas a depender da
perspectiva adotada pelo observador/estudioso da política.
E como há em toda tecnologia uma ambivalência intrínseca, Lévy (2011, p. 21) vai dizer
que ela transporta para o mundo material nossas emoções, intenções e projetos: “não somente
as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso [...] como também é o
próprio uso intensivo de ferramentas que constitui a humanidade enquanto tal”. E são essas
emoções, intenções e projetos o objeto de nosso Dossiê.
Reiterando o dito acima, as tecnologias digitais amparadas na internet não são a priori
positivas ou negativas dependem dos contextos e de seus usos e tampouco neutras já que
é condicionante ou restritiva, abrindo ou fechando possibilidades. No caso brasileiro, o antigo
Twitter (atualmente X) foi escolhido como o ambiente digital preferencial para as
manifestações públicas da elite política, não apenas por parte das lideranças, em suas contas
pessoais, como também de forma institucional, pelas agências de Estado e órgãos políticos. Isso
fez com que jornalistas e militantes políticos usassem o espaço para embates discursivos em
apoio ou crítica a líderes ou a instituições. O dossiê proposto aqui tem o objetivo de tratar de
CERVI. E.; CHICARINO, T.
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diferentes embates entre lideranças políticas, militantes e instituições públicas no ambiente
digital nos últimos dois anos. Do ponto de vista prático, o dossiê reúne trabalhos de
pesquisadores de diferentes instituições e regiões do país com o objetivo comum de observar
conflitos políticos em ambientes digitais.
Assim, desde as manifestações glocais do início dos anos 2010, temos observado o uso
das redes sociais digitais na mobilização e organização de protestos (Gerbaudo, 2020) e também
na delimitação dos léxicos mobilizados por ativistas e movimentos de viés progressista e/ou
situados no campo da esquerda (Andrés, 2023), mas também por grupos de direita (Alonso,
2023), que anos depois se radicalizarão na extrema direita, sendo fundamentais na vitória de
Bolsonaro em 2018 (Cesarino, 2018).
Estamos, portanto, diante de uma transformação na sociabilidade política, sendo assim,
entendemos que discussões metodológicas são de extrema relevância para o campo das
Ciências Sociais. Como o artigo “Metodologia aplicada às Redes Sociais On-line: a importância
de considerar a unidade de análise para a pesquisa” que se debruça sobre diferentes níveis de
análise que vão desde os padrões discursivos de contas on-line, passando pela interação entre
contas, e culminando em uma dimensão temporal da presença e intensidade do tema em casos
concretos, quais sejam, a reunião do ex-presidente Jair Bolsonaro em julho de 2022 com
embaixadores sobre as urnas eletrônicas e os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Considerando o período de mandato presidencial de Bolsonaro, trazemos mais dois
artigos. Um que analisa o comportamento e o posicionamento ideológico de perfis acerca da
demissão do então ministro da Educação no texto “A Controvérsia Weintraub: atores, traços
digitais e posicionamentos políticos no Twitter”. E o outro, intitulado “Análise das emoções no
debate sobre vacinação infantil contra covid-19 no Twitter”, busca identificar emoções contidas
em publicações digitais, e seu uso enquanto ferramenta de mobilização social, no período que
compreende a autorização da vacinação infantil contra covid-19 pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA).
Indo para o pleito de 2022, apresentamos mais três artigos que buscam compreender os
novos caráteres das campanhas eleitorais em contexto hipermidiático (Ituassu et al., 2019) e
espetacularizado (Debord, 2016). Um deles busca compreender a presença digital dos
candidatos Lula (PT) e Bolsonaro (PL) na perspectiva da Teoria do Discurso laclauniana (2015)
em “Engajamento e populismo: A presença digital de Lula e Bolsonaro nas eleições 2022 no
Twitter”. O artigo “Storytelling político no Twitter: uma análise das narrativas de Lula e
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Bolsonaro nas eleições de 2022” objetiva compreender como estruturas narrativas são utilizadas
para engajar e influenciar o eleitorado no ambiente digital. Na sequência, o artigo
“Desinformação e Narrativas: Uma análise das desinformações verificadas pela página ‘Fato
ou Boato’ durante as Eleições de 2022”, ao analisar uma iniciativa de combate à desinformação
realizada pelo TSE, evidenciou sua dinâmica temporal e a relação com o clima político.
E, por fim, um artigo que trata de outra rede social, especificamente acerca do “Discurso
de ódio homofóbico no Facebook: uma análise dos comentários das publicações de notícias nos
Ciberjornais de Campo Grande”, buscou investigar como se dá a repercussão e manutenção do
preconceito e da discriminação.
Referências
ALONSO, Angela. Treze. A política de rua de Lula a Dilma. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
ANDRÉS, Roberto. A razão dos centavos. Crise urbana, vida democrática e as revoltas de 2013. Rio de Janeiro:
Zahar, 2023.
CESARINO, Letícia. Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo digital no Brasil.
Internet & Sociedade, São Paulo, v. 1. n. 1, fev. 2020.
DEBORD, Guy. A Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.
GERBAUDO, Paolo. Redes e Ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo. São Paulo: Editora Funilaria, 2020.
ITUASSU, Arthur et al. De Donald Trump a Jair Bolsonaro: democracia e comunicação política digital nas
eleições de 2016, nos Estados Unidos, e 2018, no Brasil. In: CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E POLÍTICA, 8., 2019, Brasília. Anais do VIII Congresso da
Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política. Brasília: UnB, 2019.
KUHN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.
LACLAU, Ernesto. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2015.
LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2010.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Círculo do Livro, 1976.