ISSN 1517-5901(online)
POLÍTICA & TRABALHO
Revista de Ciências Sociais, 60, Janeiro/Junho de 2024, p. 09-11
EDITORIAL
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Rogério de Souza Medeiros
Marcelo Burgos Pimentel dos Santos
A Revista Política & Trabalho chega ao seu número 60 apresentando o dossiê “Embates e
crises democráticas no Brasil em tempos de política digitalizada”, organizado por Tathiana
Chicarino e Emerson Cervi. O dossiê reúne um conjunto de análises sobre o impacto das redes
sociais on-line na atual dinâmica política do Brasil, com uma ênfase maior no antigo Twitter
(atualmente o X), a plataforma mais utilizada pela elite política brasileira. Os artigos enfocam as
maneiras como líderes, militantes e instituições públicas se envolvem em embates discursivos e
como emoções, intenções e projetos são amplificados pelas tecnologias digitais no campo
político. O doss busca explicitar o olhar sobre os conflitos políticos do campo digital e as pautas
de polarização e crises democráticas que marcaram o Brasil nos últimos anos.
A primeira parte do dossiê se concentra em acontecimentos recentes, como a polêmica
sobre as urnas eletrônicas e os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e a forma como a mobilização
e radicalização dos grupos políticos ocorreram pelas redes sociais. A segunda parte abrange as
eleições presidenciais de 2022 e aborda a presença dos candidatos principais, Lula e Bolsonaro,
e as narrativas, as táticas de desinformação e as estratégias populistas adotadas no X. O conjunto
de questões levantadas e problematizadas pelo dossiê coloca em evidência a centralidade das
plataformas digitais como arenas de embate político e o seu potencial de transformação sobre as
sociabilidades democticas. Além das análises reunidas no dossiê, essa edição traz ainda seis
artigos de fluxo contínuo, um ensaio especial escrito por um autor convidado e duas resenhas.
Abrindo a seção de textos de fluxo contínuo, o artigo “A produção sobre as juventudes no
campo das ciências humanas no Brasil: uma análise a partir da plataforma SciELO, de autoria
de Alexandre Barbosa Pereira, apresenta o mapeamento da produção científica brasileira sobre a
temática da juventude no período de 2001 a 2019, revelando que as abordagens se agrupam em
duas grandes concepções sobre a juventude: ora como ator político portador de um potencial de
Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.
Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba .
MEDEIROS. R. S.; SANTOS, M.B.P.
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mudança sociocultural e inovação política, ora como um problema social a ser solucionado. O
artigo finaliza destacando a necessidade de uma concepção alargada de juventude, mais plural e
multifacetada, que seja capaz de evitar análises reducionistas e prevenir a produção e reprodução
de estereótipos.
Na sequência, o artigo de Henrique Rodrigues Moreira e Cristiano Fonseca Monteiro,
intitulado “As disputas em torno dos contratos intermitentes na Câmara dos Deputados (2012-
2017)”, aborda a Reforma Trabalhista promulgada em 2017, com atenção especial para o
processo de tramitação na Câmara dos Deputados que resultou na institucionalização dos
contratos de trabalho intermitente. O estudo explora os diversos elementos que compunham o
contexto político em que se processou a tramitação da matéria e identifica a emergência de uma
janela de oportunidade política que permitiu a aprovação da inclusão dos contratos de trabalho
intermitente como parte do texto final da reforma.
No artigo seguinte, intitulado “Desigualdades na Participação das Mulheres no Mercado de
Trabalho Informal da Bolívia: Um Estudo de 2000 a 2021”, os autores Ana Cristina de Oliveira
Mélo e Alexandre César Cunha Leite se debruçam sobre as estatísticas oficiais referentes ao
mercado de trabalho do país andino ao longo de duas décadas, para revelar uma grande
concentração da o de obra feminina em trabalhos informais, am da reprodução da
desigualdade de gênero no mercado de trabalho em consonância com o que ocorre no resto do
mundo.
Na sequência, o artigo de Guilherme Figueredo Benzaquen, intitulado “O Auxílio
Emergencial e a financeirização da pobreza no governo Bolsonaro”, apresenta uma provocante
análise acerca da política de transferência de renda de caráter emergencial que foi adotada durante
o governo Bolsonaro (2019-2022). O autor caracteriza essa medida enquanto uma forma de
“gestão da pobreza” pelo Estado brasileiro, que é representativa de um processo mais abrangente
de “financeirização da pobreza e constitutivo do padrão atual de dominação/expropriação
capitalista.
Em “O Trabalho por Plataforma na Construção Civil”, Manuela Gomes da Rocha e
Manuela de Carvalho Rodrigues apresentam uma análise acerca do crescimento da presença de
empresas-plataformas que fazem a intermediação de serviços no setor da construção civil,
revelando sua lógica de funcionamento e sua dinâmica de atuação à luz dos debates recentes sobre
terceirização, precarização e uberização do trabalho. A análise revela como essas plataformas
contribuem para a manutenção do quadro atual de predomínio do trabalho precarizado, ao mesmo
Editorial
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tempo que acrescentam camadas adicionais de expropriação do trabalho, configurando uma
“comercialização do desemprego”.
Fechando a seção, temos o artigo de Victor Pimentel Ferreira, João Camargo de
Albuquerque Mello e Rennan Pimentel intitulado “Periferização do mundo: reflexões sobre as
transformações do capitalismo à luz do processo de expansão da condição periférica”. Partindo
de uma análise acerca da ascensão e declínio do Estado de Bem-Estar Social nas últimas décadas,
os autores defendem o uso da noção de “periferização do mundo” como chave anatica
apropriada para a leitura das principais transformações ocorridas no mundo capitalista nas últimas
décadas. O argumento é construído com base em um diálogo com a obra de diversos teóricos
contemporâneos e conclui apontando a necessidade da formação de uma agenda de pesquisa
abrangente acerca de uma recente amplificação da condição periférica e suas consequências para
as mais diversas dimensões da vida social.
Na seção seguinte, temos a satisfação de apresentar um ensaio produzido por um autor
convidado, o sociólogo Renato Ortiz. No artigo, Ortiz nos apresenta uma perspectiva crítica
acerca da relação entre a ideia de “lugar de fala” e as Ciências Sociais. Uma vez que a ideia de
lugar de fala tem sido frequentemente mobilizada por diferentes atores sociopolíticos brasileiros
no debate público contemporâneo, a reflexão apresentada pelo autor traz uma contribuição
importante a esse debate, que é tanto acadêmico quanto político, ao lançar luz sobre aspectos que
nem sempre o claramente tematizados pelos atores em disputa. Com isso, o autor lança pistas
valiosas para compreendermos os limites e as potencialidades dessa ideia, enquanto categoria
identitária, cognitiva e política.
Por fim, essa edição traz ainda duas resenhas. Na primeira, intitulada “A Crise do Cuidado:
Uma Comparação entre Brasil, França e Japão”, as autoras Sheila Stolz e Caroline Ledesma Al-
Alam comentam o livro O cuidado: teorias e práticas”, de Helena Hirata (2022). Já em
“Construção, Diálogo e Prática: o canteiro de obras da interseccionalidade como teoria social
crítica”, Lucas Trindade, Ingrid Daniely Vale dos Santos e Mariane Joyce Ferreira Saraiva
examinam a obra “Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica”, de
Patricia Hill Collins (2022).
Boa leitura!
Os editores.