ISSN 1517-5901(online)
POLÍTICA & TRABALHO
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 52-74
ANTECEDENTES DO DILEMA RACIAL BRASILEIRO
BACKGROUND OF THE BRAZILIAN RACIAL DILEMMA
____________________________________
Ana Rodrigues Cavalcanti Alves
Eliane Veras Soares

Resumo
Este artigo visa a discutir a gênese da noção de dilema racial brasileiro no pensamento de Florestan Fernandes,
elaborada a partir dos anos 1950 e retomada ao longo de sua trajetória intelectual, em seu esforço de desvelar a
dinâmica das relações raciais no âmbito da sociedade brasileira. Orientado por uma leitura diacrônica, que se
distancia da concepção de “obra acabada”, este trabalho se concentra na primeira fase de elaboração do dilema
racial, inscrita ainda no Projeto de estudo “O preconceito racial em São Paulo”, que fundamentou a pesquisa
Unesco em São Paulo, coordenada por Roger Bastide e Florestan Fernandes e cujos primeiros resultados foram
apresentados em “Relações raciais entre brancos e negros em São Paulo” (1955). Embora o trabalho se limite a
uma fase preliminar da pesquisa, acreditamos que uma análise exegética desse material, em perspectiva diacrônica,
somada aos documentos disponíveis no acervo de Florestan Fernandes, contribua para matizar interpretações
cristalizadas acerca da questão racial no pensamento do autor e para a reconstrução do diálogo entre sociólogos
acadêmicos e intelectualidade negra, que constitui uma das mais recentes agendas de pesquisa das ciências sociais
brasileiras.
Palavras-chave: Dilema racial. Florestan Fernandes. Relações raciais. Análise diacrônica.
Abstract
This article aims to discuss the genesis of the notion of the Brazilian racial dilemma in the thought of Florestan
Fernandes, developed from the 1950s onward and revisited throughout his intellectual trajectory in his effort to unveil
the dynamics of racial relations within Brazilian society. Guided by a diachronic reading that moves away from the
concept of a “finished work,” this study focuses on the initial phase of the formulation of the racial dilemma, which was
still embedded in the research project Racial Prejudice in São Paulo. This project laid the foundation for the UNESCO
study in o Paulo, coordinated by Roger Bastide and Florestan Fernandes, with its initial findings presented in Racial
Relations between Whites and Blacks in São Paulo (1955). Although this work is limited to a preliminary stage of the
research, we believe that an exegetical analysis of this material considering a diachronic perspective and incorporating
documents from Florestan Fernandes' archives can help refine established interpretations of racial issues in his thought.
Additionally, it contributes to reconstructing the dialogue between academic sociologists and Black intellectuals, a topic
that has become one of the most recent research agendas in Brazilian social sciences.
Keywords: Racial dilemma. Florestan Fernandes. Race relations. Diachronic analysis.
Professora adjunta do Departamento de Sociologia e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Coordena o projeto de pesquisa “Luta de raças, de classes e
desenvolvimento: reconstruindo o artesanato intelectual de Florestan Fernandes”, que conta com financiamento
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), termo de outorga n. 0018/2024. E-mail:
anarodrigues@ufba.br.

Professora titular aposentada no Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Cofundadora da Coordenação de Estudos de África do Centro de Estudos Avançados da UFPE. E-mail:
elianeveras1@gmail.com.
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 53
“Em Florestan Fernandes, o pensamento se pensa todo o tempo”.
Octavio Ianni
Introdução
Um dos desafios de se abordar a questão racial no pensamento de Florestan Fernandes
é o de reconhecer que essa discussão foi desenvolvida e constantemente reformulada em
diferentes momentos de sua trajetória intelectual, perfazendo um período de quase cinquenta
anos. Podemos considerar os estudos sobre religião e folclore desenvolvidos na primeira metade
dos anos 1940 como uma primeira fase, que possibilitou o contato do autor com temas relativos
à questão racial
1
, seguida pela participação na pesquisa Unesco sobre relações raciais em São
Paulo, no início dos anos 1950, até sua produção na segunda metade dos anos 1980 ao longo
de seus mandatos parlamentares pelo Partido dos Trabalhadores cujos textos selecionados
pelo autor encontram-se reunidos em “Significado do protesto negro”, publicado em 1989
2
.
Nesse sentido, é possível afirmar que o esforço de análise e interpretação dos padrões
de relações raciais vigentes na sociedade brasileira acompanhou o autor ao longo de toda a sua
trajetória intelectual. No entanto, a sua abordagem da questão racial sempre esteve inscrita em
um enquadramento mais amplo, voltado à interpretação da formação social do país, de sua
estrutura social em diferentes momentos históricos que foi e é uma estrutura racializada e
das condições de emergência e desenvolvimento do capitalismo e do regime de classes sociais
no Brasil. Por essa razão, Florestan sempre buscou demarcar a sua posição com relação aos
estudos sobre relações raciais, sobretudo os estadunidenses, seja no que se refere à perspectiva
teórico-metodológica adotada, seja no que tange ao compromisso ético e político assumido com
o negro, conforme será discutido mais adiante. É justamente esse enquadramento analítico que
permitirá o entrelaçamento do dilema racial aos impasses da democracia no Brasil e,
posteriormente, à noção de capitalismo dependente sentidos a serem analisados em etapa
posterior da pesquisa.
1
Tais estudos encontram-se reunidos na quarta parte de “O negro no mundo dos brancos” (2007). Segundo Diogo
Costa e Eliane Veras Soares (2024), esses estudos correspondem a uma primeira fase da análise de Fernandes
sobre as relações raciais entre brancos e negros no Brasil, com foco nos sistemas culturais, desenvolvida a partir
das pesquisas etnográficas realizadas durante o curso de graduação na USP, nos anos 1940.
2
O livro reúne textos de procedência e finalidade diversas. Em um deles, “Carta à liderança do PT”, encaminhada
em 14 de dezembro de 1993,
Fernandes (2017a) faz um levantamento do conjunto de seus estudos sobre relações
raciais.
54 Antecedentes do dilema racial brasileiro
Nesse enquadramento analítico, Florestan abordou, em cada momento de sua trajetória
intelectual, diferentes aspectos das relações raciais, retomando e reformulando suas categorias
de pensamento à luz de novas leituras e embates teóricos e políticos dos processos histórico-
sociais vivenciados, bem como de suas experiências práticas junto ao movimento negro e a
outros grupos sociais comprometidos com a democratização da sociedade brasileira.
A despeito disso, erigiram-se interpretações cristalizadas no campo das ciências sociais,
que seguem orientando as leituras sobre o autor e seu papel na análise das relações raciais no
Brasil. Entre elas, vale destacar a interpretação de que, para Fernandes, o dilema racial seria
uma categoria residual, uma “sobrevivência do passado”, herdada do antigo regime, que
despontou na obra de alguns(as) cientistas sociais brasileiros(as) e estrangeiros(as),
consolidando-se possivelmente como hegemônica (Hasenbalg, 1979; Motta, 2000; Schwarcz,
2007; Souza, 2006; Wacquant, 2005, entre outros).
Entretanto, é possível observar, sobretudo a partir das últimas décadas, a emergência de
novas leituras que permitem problematizar aquela interpretação, destacando, entre outras
coisas, a tendência estrutural assumida pelo dilema racial no pensamento de Florestan
Fernandes (Cardoso, 2008; Costa et al., 2021; Costa; Soares, 2024; Gato, 2024; Silva; Brasil
Jr., 2021; Silva, 2016). Algumas dessas análises destacam um progressivo processo de
radicalização teórica (Costa et al., 2021), que só pode ser apreendido por meio de uma análise
do conjunto de sua obra, atenta aos processos de reelaboração conceitual, às continuidades e
descontinuidades da análise, em seu empenho contínuo de apreensão da natureza complexa e
mutável do fenômeno
3
.
Este trabalho converge com alguns dos procedimentos metodológicos e leituras
sustentadas por essa segunda vertente interpretativa, focalizando, porém, não tanto a “fase
madura” de Florestan Fernandes em que tal radicalização teórica se torna mais explícita e
destacada pela fortuna crítica do autor , mas os momentos iniciais de elaboração conceitual,
que já permitem antever elementos que parecem extrapolar certo “diagnóstico residualista” do
dilema racial brasileiro, e cujos sentidos e dimensões serão desdobrados teórica e
empiricamente ao longo da trajetória intelectual de Florestan Fernandes.
3
Paralelamente à análise diacrônica da noção de dilema racial no pensamento de Fernandes, está sendo
desenvolvida uma pesquisa sobre a recepção do autor no campo de estudos sobre relações raciais no Brasil, em
que já é possível antever as duas vertentes acima referidas, bem como algumas afinidades em seus respectivos
percursos teórico-metodológicos e interpretativos.
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 55
Nos limites do presente artigo analisaremos “Brancos e negros em São Paulo” (1959)
4
,
notadamente o projeto de estudo “O preconceito racial em São Paulo”, publicado originalmente
em 1951, no qual são apresentadas as hipóteses diretrizes da pesquisa e a perspectiva teórico-
metodológica que guiou o estudo sobre relações raciais em São Paulo, realizado em parceria
com Roger Bastide e com a colaboração de intelectuais e ativistas do meio negro. Acreditamos
que essa discussão é fundamental tanto para demarcar a posição assumida por Florestan
Fernandes no debate racial corrente no início dos anos 1950 no Brasil quanto para conhecer
seus pressupostos no momento inicial da pesquisa
5
. Além disso, conforme destacado
anteriormente, a discussão sobre as hipóteses de pesquisa e categorias assumidas nesse período
permite matizar leituras e interpretações acerca da questão racial no pensamento de Florestan
Fernandes, como aquela que insere a interpretação do sociólogo paulista dentro de uma
abordagem histórica do racismo, considerado como algo “residual”, ligado ao passado e,
portanto, sem uma função específica na ordem social emergente (Hasenbalg, 1979, p. 60).
Antes de iniciarmos tal discussão, é importante apresentar, em linhas gerais, a
perspectiva teórico-metodológica que orientou nossa leitura da obra de Florestan Fernandes,
estruturada a partir do que estamos chamando de análise diacrônica (Costa et al., 2021) e da
pesquisa documental. Nossa investigação ainda está em fase de desenvolvimento e, neste
trabalho, analisamos somente um “primeiro momento” do dilema racial brasileiro. A presente
discussão intenta destacar aspectos importantes da interpretação de Fernandes sobre o referido
dilema, propondo um convite a novas leituras e interpretações de seu papel no debate sobre
relações raciais no Brasil e, de modo mais geral, de seu esforço de elaboração teórica acerca
dos dilemas que marcam as sociedades latino-americanas, especialmente a sociedade brasileira.
4
Originalmente o relatório da pesquisa foi publicado na Revista Anhembi, v. X-XI, n. 30-34, 1953. Em 1955, foi
publicado como obra coletiva com o título “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. Em 1959,
Bastide e Fernandes publicaram separadamente os resultados de sua pesquisa com o título “Brancos e negros em
São Paulo”. Trabalhamos com a edição mais recente de 2008. Ver notas detalhadas em “Bibliografia de Florestan
Fernandes” (Soares; Costa, 2021, p. 353-354).
5
O próprio Florestan se abstém de aprofundar seus pressupostos teórico-metodológicos em obras posteriores,
fazendo referência à extensa discussão apresentada no “projeto de estudo”, como ocorre na Nota Explicativa de
“A integração do negro na sociedade de classes”. Os capítulos de Brancos e negros em São Paulo” são retomados
e desenvolvidos de modo mais detido no argumento desenvolvido em “A Integração do negro na sociedade de
classes”, o que reforça nossa escolha pela focalização do projeto como ponto de partida da análise.
56 Antecedentes do dilema racial brasileiro
Considerações sobre a análise diacrônica do dilema racial
A pesquisa desenvolvida no âmbito do projeto “O artesanato intelectual de Florestan
Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”, coordenada pelo
professor Diogo Valença de Azevedo Costa, fundamenta-se em uma leitura diacrônica da obra
de Fernandes, interessada no processo de construção do pensamento do autor ao longo de sua
trajetória intelectual, nas continuidades e descontinuidades que marcam o seu exercício de
elaboração teórica e conceitual, bem como nas condições que favoreceram as reformulações de
suas categorias analíticas e interpretativas fundamentais.
Tal abordagem se inspira nas sugestões metodológicas da mais recente edição dos
Quaderni del carcere, de Antônio Gramsci, que busca identificar a data precisa de redação de
cada parágrafo da obra (Cospito, 2016). Nesse sentido, a disposição dos textos em ordem
cronológica se mostra fundamental para uma análise que busca focalizar o pensamento de modo
processual, distanciando-se da compreensão de “obra acabada”. Feitas as devidas adaptações
às diferenças entre as fontes documentais, a obra de Florestan Fernandes pode constituir terreno
fértil para a aplicação de uma leitura diacrônica. Como destacou Octavio Ianni (2004, p. 18),
“em Florestan Fernandes, o pensamento se pensa todo o tempo. As suas contribuições históricas
e teóricas estão permeadas pela reflexão crítica sobre as relações entre o pensamento e o
pensado”. Assim, a presente análise parte do pressuposto de que as categorias elaboradas por
Fernandes estiveram sujeitas a constantes revisões críticas por parte do autor, sendo
reformuladas a partir de embates intelectuais e políticos, de novas influências teóricas, de
processos histórico-sociais como é o caso da revolução cubana, em 1959, e do golpe
empresarial-militar no Brasil, em 1964 , além de experiências práticas junto ao movimento
negro e a outros movimentos sociais.
Obviamente, essa disposição para rever seu pensamento não passou despercebida pela
fortuna crítica de Fernandes, que destaca desde a tese de uma “ruptura epistemológica”, a
demarcar fases distintas na trajetória intelectual do autor (Freitag, 1987), até uma compreensão
do caráter “processual” e “artesanal” de sua obra (Bastos, 2015, 2020; Brasil Jr., 2013; Campos,
2014; Costa et al., 2021; Costa; Soares, 2024; Silva, 2016). Partindo dessa compreensão, a
abordagem diacrônica se orienta pela 1) organização cronológica dos textos de Fernandes
com o objetivo de identificar o uso inicial de um conceito e suas diferentes variações sucessivas,
que conduzem à incorporação de novos aspectos, reformulações ou até abandono dele e 2)
mapeamento das principais referências teóricas, métodos e categorias analíticas mobilizadas.
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 57
A análise diacrônica se interessa também pelos “bastidores” da produção intelectual,
favorecida pelo recurso à pesquisa documental no Fundo Florestan Fernandes disponível na
Coordenadoria de Coleções Especiais e Obras Raras da Biblioteca Comunitária da
Universidade de São Carlos, que reúne o acervo pessoal do autor (correspondências, livros,
notas de aula, material de pesquisa, objetos pessoais, entre outros materiais), tomando tais
arquivos como fonte de investigação e teorização. Desse modo, é possível consultar, por
exemplo, suas referências teóricas, as marginálias dos livros lidos pelo autor, acessando, em
alguma medida, as “conversações interiores” (Archer, 2011) de Florestan e sua relação com os
textos; bem como o material empírico construído durante a pesquisa sobre relações raciais em
São Paulo no início dos anos 1950 e nos anos seguintes. O material coletado por meio da
pesquisa documental permite, portanto, confrontar e complementar a leitura de sua obra no
esforço de reconstrução do artesanato intelectual de Fernandes.
A análise diacrônica se orienta por uma perspectiva de síntese, que se coloca para além
da dicotomia “texto versus contexto” na análise da produção intelectual. Nesse sentido, tão
importante quanto a análise internalista dessa produção intelectual, é a consideração das
condições históricas, socioculturais e políticas que possibilitaram a sua emergência dando
lugar, em alguns casos, a revisões críticas e construção de novas categorias interpretativas. Na
trilha desse artesanato, consideramos também o conjunto de entrevistas e textos autobiográficos
produzidos pelo autor, correspondências trocadas com intelectuais brasileiros e estrangeiros,
assim como ampla revisão da sua fortuna crítica, os quais ajudam a reconstruir as circunstâncias
históricas de sua produção teórica
6
.
Tal enfoque se mostrou particularmente profícuo na investigação sobre a noção de
dilema racial, resultante de décadas de pesquisa teórica e empírica e cuja recepção no campo
dos estudos sobre relações raciais no Brasil tem sido marcada por uma interpretação
hegemônica que afirma o seu caráter “residual”, de modo que as desigualdades raciais
tenderiam a ser superadas com o desenvolvimento do capitalismo. Uma breve análise dos textos
que afirmam essa interpretação permite observar a concentração da crítica em ensaios
específicos como “A persistência do passado” ou em uma única obra do autor, mais
comumente “A integração do negro na sociedade de classes
7
. Por outro lado, as interpretações
6
Infelizmente, os limites do artigo não nos permitem inserir aqui o rico material encontrado no acervo.
7
Ver, por exemplo, a crítica de Carlos Hasenbalg (1977, 1979), considerado possivelmente o precursor dessa
interpretação (Silva; Brasil Jr., 2021, p. 14-15), de Jessé Souza (2006) e de Loic Wacquant (2005, p. 23-24).
58 Antecedentes do dilema racial brasileiro
que se contrapõem a tal diagnóstico ou que enfatizam a tendência estrutural do dilema racial
em Fernandes tendem a privilegiar uma análise do conjunto da sua obra, mais atenta às
nuances inscritas na análise do fenômeno e aos processos de reelaboração conceitual ao longo
da trajetória intelectual do autor (Bastos, 2015; Campos, 2014; Costa et al., 2021; Costa; Soares,
2024; Silva; Brasil Jr., 2021; Silva, 2016).
Alinhada a essa última perspectiva, acreditamos que uma análise diacrônica da obra de
Fernandes possibilita a identificação da gênese e múltiplos sentidos e dimensões assumidos
pela noção de dilema racial, bem como a emergência de novas leituras que permitam rever a
recepção do autor no campo de estudos sobre relações raciais. Para tanto, a presente pesquisa
partiu de uma organização cronológica das obras de Fernandes referentes à questão racial,
algumas das quais foram lidas e discutidas coletivamente. Buscou-se identificar as referências
teóricas, conceitos e categorias mobilizadas pelo autor nessas obras, conforme mencionado
anteriormente. Paralelamente, foram consultados documentos disponíveis na biblioteca
Florestan Fernandes, como anotações do autor sobre a noção de demora cultural, mobilizada
para pensar alguns aspectos do padrão de relações raciais vigente na nova ordem social; livros
como os de Gunnar Myrdal (An american Dilemma, 1944), Donald Pierson (Brancos e Pretos
na Bahia, 1945), Carlos Hasenbalg (Discriminação e desigualdades raciais no Brasil, 1979) e
todas as obras resultantes da pesquisa Unesco, além de cartas enviadas por diversos
intelectuais
8
.
Sobre essas últimas, vale mencionar uma carta de Carlos Hasenbalg endereçada a
Florestan Fernandes em junho de 1977, em que o autor comunica a publicação de seu artigo
“Desigualdades Raciais no Brasil”, na revista Dados, informando sua leitura crítica ao trabalho
do sociólogo paulista acerca da conexão entre escravidão e relações raciais pós-escravistas, ao
tempo em que reafirma a importância da sua obra como ponto de partida para uma análise das
relações raciais no Brasil (ver anexo I). Não sabemos se Florestan chegou a respondê-lo, mas,
ao que tudo indica, o artigo de Hasenbalg assumiu um papel relevante na recepção da obra de
Florestan Fernandes no campo intelectual brasileiro, contribuindo para consolidação daquela
interpretação segundo a qual a questão racial seria um “resíduo” do passado, que tenderia a ser
superado com a expansão e pleno desenvolvimento da ordem social competitiva
9
.
8
Agradecemos ao professor Diogo Valença de Azevedo Costa pela coleta, sistematização e envio de parte desse
material.
9
Encontramos um número da referida revista no acervo Florestan Fernandes, o qual não conta com nenhuma
marginália de Florestan Fernandes. Em contrapartida, no exemplar de “Discriminação e desigualdades raciais no
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 59
A partir da análise desse material, procedemos a uma investigação dos momentos
iniciais na formulação do dilema racial, realizados conjuntamente por Roger Bastide e Florestan
Fernandes. Consideramos a análise desse primeiro momento da maior importância, haja vista
que boa parte da fortuna crítica do autor tende a se concentrar em suas obras posteriores,
características de uma fase considerada mais “madura” ou “radical”, conferindo menor atenção,
por exemplo, ao projeto de estudo que fundamenta, teórica e metodologicamente, a pesquisa
Unesco em São Paulo sobre o qual nos debruçamos na próxima seção
10
.
Origens do dilema racial no projeto de estudo “O Preconceito Racial em São Paulo”
A pesquisa sobre relações raciais em São Paulo, liderada por Bastide e Fernandes no
início da década de 1950, que origem ao relatório de pesquisa Relações raciais entre
Brancos e Negros em São Paulo”, pode ser percebida como o produto de uma confluência de
condições intelectuais e políticas. De um lado, o estudo da mudança social assumia crescente
interesse por parte dos(as) cientistas sociais brasileiros(as), em um contexto de intensas
transformações histórico-estruturais no país, nas quais teve lugar o próprio processo de
institucionalização da área (Fernandes, 1977a; Miceli, 1987). De outro lado, intelectuais e
ativistas ligados ao movimento negro, oriundos em sua maior parte desse processo de
reestruturação societária, elaboravam estudos sobre a questão racial e tentavam forçar o diálogo
com a intelectualidade brasileira, exercendo importante influência sobre a agenda das ciências
sociais nesse período
11
.
Brasil” (Hasenbalg, 1979), disponível no Fundo Florestan Fernandes, poucas anotações, mas na página 21 se
pergunta “em suma = que traz de novo?” ou se Hasenbalg seria “parsoniano?”; na página 23, questiona a falta de
perspectiva histórica: “boa contribuição mas seria preciso uma perspectiva histórica para explicar o ‘refluxo
demográfico’ em termos raciais”; por fim, na página 29, questiona se “o escravo poderia constituir uma classe no
sentido marxista?”. Essas são as únicas anotações significativas contidas na leitura de Florestan Fernandes, não
havendo qualquer anotação nas passagens em que Hasenbalg o critica diretamente. Para uma discussão mais
aprofundada sobre as críticas aos trabalhos de Florestan Fernandes sobre a questão racial, ver Costa (2023).
10
Entre autores(as) que se aprofundam na análise do “projeto de estudo”, mencionamos o instigante texto
“Sessenta anos de um relatório de pesquisa exemplar” de Elide Rugai Bastos (2015) e a dissertação de mestrado
de Antônia Junqueira Malta Campos, intitulada “Interfaces entre sociologia e processo social: A integração do
negro na sociedade classes e a pesquisa Unesco em São Paulo” (2014).
11
É conhecido o esforço do movimento negro em envolver intelectuais brasileiros e estrangeiros na sua luta contra
o racismo. É possível citar como exemplo o jornal Quilombo, dirigido por Abdias Nascimento no final dos anos
1940, que em sua seção “Democracia racial” convidava intelectuais reconhecidos para discutir o tema, como
Arthur Ramos, Gilberto Freyre e Estanislau Fischlowitz. Em outras seções, é possível encontrar artigos de Alberto
Guerreiro Ramos e do próprio Abdias Nascimento. Tal hipótese merece certamente uma análise minuciosa. Mais
destacadas na literatura têm sido a realização da Conferência Nacional do Negro, em 1949, e do I Congresso do
Negro Brasileiro, em 1950, que exerceram profunda influência sobre uma geração de cientistas sociais dedicados
ao estudo das relações raciais no Brasil. Ao ser convidado por Alfred Métraux para coordenar a pesquisa Unesco
em São Paulo, Roger Bastide declara a sua intenção de envolver a comunidade negra, conferindo à investigação
60 Antecedentes do dilema racial brasileiro
Um dos méritos da investigação de Antônia Campos (2014), realizada por meio de
pesquisa nos arquivos do Fundo Florestan Fernandes, é o de dar visibilidade ao intenso trabalho
de colaboração entre Roger Bastide e Florestan Fernandes e intelectuais do meio negro, bem
como ao impacto exercido pelo I Congresso do Negro Brasileiro sobre os contornos assumidos
pela pesquisa Unesco em São Paulo. Nas suas palavras,
[É] significativo o fato de que neste congresso estiveram presentes alguns dos
colaboradores mais proeminentes da pesquisa e, embora não seja possível afirmar com
certeza se sociólogos e intelectuais negros encontraram-se pela primeira vez no
congresso ou mesmo antes, parece plausível afirmar que a proximidade entre os dois
grupos e a possibilidade de uma colaboração já era uma realidade mesmo antes do
acordo feito com a UNESCO. Desde o seu início, portanto, a pesquisa fora
imaginada tendo em conta esta colaboração (Campos, 2014, p. 7-8).
Quando Roger Bastide recebeu o convite para coordenar a pesquisa Unesco em São
Paulo, tanto ele quanto Florestan Fernandes estavam imersos nessa atmosfera intelectual e
política, marcada por maior visibilização das tensões raciais, engajados em um estudo sobre o
tema na metrópole paulista, patrocinada pela Editora Anhembi. No prefácio à segunda edição
de “Brancos e Negros em São Paulo”, publicado originalmente na edição de 1959, Florestan
afirma que “quando Métraux travou os primeiros contatos com os primeiros estudiosos do
assunto, o plano desse trabalho já estava pronto e algumas de suas partes em desenvolvimento”
(Bastide; Fernandes, 2008b, p. 17).
Como destaca Campos (2014, p. 8), dada a amplitude da pesquisa e o grande número de
colaboradores envolvidos, um intervalo de tempo relativamente curto “entre o fechamento
dos acordos com Métraux (novembro de 1950), a redação do Projeto de Estudo (publicado em
abril de 1951), e o início da realização das Mesas Redondas (8 de maio de 1951)” o que
permite pensar que os contatos entre sociólogos e a intelectualidade negra vinham sendo
cultivados desde antes. O projeto Unesco atuaria, portanto, como agente catalisador do estudo
sistemático das relações raciais no Brasil, convergindo com as condições favoráveis à pesquisa
em ciências sociais que floresciam no país naquele momento e com o interesse dos(as)
próprios(as) cientistas sociais em investigar a situação racial brasileira em um contexto de
mudança, atrelado à crescente industrialização e urbanização do país (Maio, 1999).
Em “As relações raciais em São Paulo reexaminadas”, Fernandes (2017b) destaca que
a escrita do projeto de estudo foi motivada pela necessidade de alinhamento teórico entre ele e
um sentido prático, em conformidade com as reivindicações apresentadas naquele congresso (Campos, 2014;
Maio, 1999; Nascimento, 1982; Ramos, 2023).
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 61
Bastide, uma vez que o antropólogo francês era mais moderado na crítica ao padrão de relações
raciais vigente no Brasil e à própria ideia de uma democracia racial. Já Fernandes contava não
somente com a experiência de suas pesquisas realizadas nos anos 1940, mas sobretudo com
uma “origem lumpen” que lhe permitiria “manejar a ‘perspectiva do oprimido’ e por aí,
desmascarar a hipocrisia reinante sobre o assunto” (Fernandes, 2017b, p. 132). Tendo
vivenciado a formação de uma sociedade de classes em São Paulo desde uma das posições mais
desfavoráveis, Florestan sabia que a ordem social competitiva não era tão aberta assim, ainda
menos no que se refere à população negra (Fernandes, 1977b, 2017b). Segundo ele,
existiam divergências entre Bastide e eu na forma de encarar a situação concreta do
negro. (...) O professor Bastide, por suas investigações, compartilhava de muitas das
minhas convicções; mas rejeitava outras, em particular porque preferia os meios-tons,
aquilo que se poderia chamar de ‘verdade redentora’, aparente no perdão mútuo, no
esquecimento, a superação pelo negro das ‘injustiças’. (...) Achei que seria fecundo
colocar em suspenso as diferenças, através de um projeto de pesquisa que firmasse
certas hipóteses diretrizes fundamentais
12
(Fernandes, 2017b, p. 132-133).
É com essa motivação que Florestan Fernandes redige o “projeto de estudo”, o qual
será revisado por Bastide que se encarrega de atenuar as críticas a Donald Pierson. Segundo
Fernandes (2017b, p. 133), Bastide “só alterou algumas passagens sobre Pierson, atenuadas ou
omitidas, que eu havia utilizado deliberadamente como espécie de straw man, ressaltando assim
as ambiguidades e inconsistências que deveríamos evitar (ou controlar) em uma investigação
comprometida com o próprio negro”. O projeto foi publicado, inicialmente, pelo Instituto de
Administração da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de
São Paulo, em abril de 1951. O texto foi publicado, novamente, em 1959 como apêndice de
“Brancos e Negros em São Paulo” e como capítulo na segunda edição de “Sociologia numa era
de revolução social”, em 1976.
No que tange aos objetivos deste artigo, interessa destacar na discussão sobre o “projeto
de estudo”: 1) o enfoque teórico-metodológico adotado pelos autores; 2) as hipóteses diretrizes
12
Sobre o espírito conciliador mencionado por Fernandes, ver o “Prefácio à segunda edição” de O negro
revoltado”, em que Abdias Nascimento (1982, p. 9-10) destaca, em tom de autocrítica, o caráter “demasiadamente
conciliador para com os brancos liberais” e a excessiva condescendência para com os racistas deste país”
assumido pelos participantes do I Congresso do Negro Brasileiro. O autor destaca que tal caráter seria uma herança
do “racismo paternalista brasileiro” e que, naquele momento, uma postura mais radical seria recebida como
“racismo às avessas” acusação que chegou a ocorrer, inclusive, nos embates com os intelectuais profissionais.
As dificuldades enfrentadas pelos movimentos sociais do meio negro com relação ao padrão tradicionalista e
assimétrico das relações raciais foram registradas nas páginas de “A Integração do Negro na Sociedade de classes”
ver, em especial, o terceiro capítulo do primeiro volume: “Heteronomia racial na sociedade de classes”.
62 Antecedentes do dilema racial brasileiro
que orientaram a pesquisa e 3) a elucidação das noções de preconceito racial, “preconceito de
cor” e dilema racial.
É importante destacar que o ciclo de estudos da Unesco favoreceu a retomada do debate
sobre o preconceito no campo intelectual brasileiro, que tinha o estudo de Donald Pierson,
“Brancos e Pretos na Bahia” (1945), como uma de suas principais referências. Como afirma
Guimarães (1999), muitas das divergências teóricas, metodológicas e interpretativas observadas
entre os diversos estudos realizados sob os auspícios da Unesco são decorrentes da avaliação
crítica em torno da obra de Pierson.
No “projeto de estudo”, Bastide e Fernandes (2008a)
13
visam a demarcar sua posição
com relação ao debate vigente. Para os autores, a falta de precisão conceitual no uso da noção
de preconceito racial constitui uma das condições insatisfatórias da pesquisa de caráter
científico. Outra dificuldade se refere ao fato de o conhecimento prévio acumulado sobre o
tema ter sido construído a partir de investigações sobre uma realidade muito distinta daquela
predominante em São Paulo, notadamente nos Estados Unidos. Desse modo, Bastide e
Fernandes (2008a, p. 266-267) assumem como um dos objetivos da pesquisa conhecer a
natureza e função do preconceito racial no Brasil.
Considerando o caráter geral e variável da noção de preconceito racial, tratava-se de
examinar a manifestação do fenômeno particular no contexto da sociedade brasileira, de modo
que sua definição é proposta como um dos “resultados teóricos da investigação, representando
uma das contribuições dos autores ao estudo sociológico do preconceito racial” (Bastide;
Fernandes, 2008a, p. 272) como afirmam em nota de rodapé. Verifica-se, portanto, no
“projeto de estudo”, a intenção de “contribuir para o refinamento teórico da Sociologia e, ao
mesmo tempo, desvelar as tensões estruturais e históricas da sociedade brasileira”
considerados “dois aspectos indissociáveis do projeto intelectual de Fernandes” (Costa et al.,
2021, p. 317-318).
Nesse esforço, a definição conceitual é encarada como ponto de chegada e não ponto de
partida da sua análise em contraposição às interpretações que importavam conceitos de outros
contextos intelectuais no exame das relações raciais no Brasil. Segundo Bastide e Fernandes
(2008a, p. 272), “a noção de preconceito racial pertence àquela categoria de termos sociológicos
13
A referência Bastide e Fernandes (2008a) é relativa ao “projeto de estudo” intitulado “O Preconceito Racial em
São Paulo”, publicado originalmente em 1951. A referência Bastide e Fernandes (2008b) é relativa à íntegra do
livro “Brancos e negros em o Paulo”, publicado originalmente em 1953 como relatório de pesquisa (ver nota 3).
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 63
cuja delimitação conceptual depende da plena adequação do vocábulo à realidade ou à situação
particular investigada”.
Nesse mister, os autores se ancoram em um método de interpretação baseado na noção
durkheimiana de “meio social interno”, que permite investigar os fenômenos particulares “em
seu modo de integração ao contexto social” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 268). Segundo esse
método, o preconceito racial não seria um componente imediato da estrutura social, nem
tampouco mero epifenômeno da vida social, sendo concebido, mais precisamente, como
“conexão do ‘meio social interno’”. Nessa perspectiva, Bastide e Fernandes (2008a, p. 271)
afirmam que “o preconceito racial o é considerado, em si mesmo, um componente da
estrutura social”, exprimindo “maneiras de estar ligado no todo e pelo todo social”.
Com tal método de interpretação, seria possível investigar o preconceito racial à luz de
uma análise da estrutura social brasileira, focalizando suas funções no sistema de relações
sociais. Desse modo, seria possível abordar sociologicamente o preconceito racial,
considerando cinco grupos de problemas: a formação do preconceito, seu modo de
exteriorização, de integração à cultura, as funções assumidas e sua transformação. Essas últimas
estariam atreladas à própria transformação da ordem social, que condiciona o significado e a
função do preconceito racial.
O método de interpretação adotado também teria implicações para a conceitualização
do fenômeno, ao possibilitar o aproveitamento teórico de noções centrais estabelecidas tanto
pelo “uso popular” como pelo emprego científico corrente do termo, ao mesmo tempo que se
singulariza com relação a esses últimos, ao acentuar o caráter descritivo e neutro do conceito.
É dentro dessa perspectiva que Bastide e Fernandes (2008a, p. 285) incorporam a noção
de “preconceito de cor” em sua pesquisa, como uma espécie de “categoria nativa”, dado o seu
amplo emprego pela população de São Paulo naquele momento “subentendendo-se que o
termo ‘cor’ se aplica ao negro e seus descendentes mestiços mais escuros”. Em nota de rodapé,
os autores afirmam que “talvez seja conveniente utili-la no presente estudo. Nesse caso, o
termo preconceito racial deveria ser empregado em sentido técnico, nas explanações de
caráter teórico” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 285). Tratava-se de investigar o significado do
“preconceito de cor” no contexto nacional e, em especial, para os negros, questão que será
retomada e analisada posteriormente em A integração do negro na sociedade de classes”.
Assim, é possível observar, no texto do projeto de estudo”, o emprego do conceito de
64 Antecedentes do dilema racial brasileiro
preconceito racial nas explanações de caráter teórico e o uso da noção “preconceito de cor” nas
discussões de ordem empírica.
Haveria ainda o desafio de definir o significado social da raça no Brasil. Em nota de
rodapé, os autores afirmam tomar a noção de raça em seu sentido sociológico, e não biológico,
à maneira de Gunnar Myrdal em sua análise da sociedade norte-americana, segundo a qual o
sentido social da raça determinaria o status dos indivíduos e sua posição nas relações inter-
raciais. Porém, seria necessário considerar a particularidade do fenômeno no âmbito da
sociedade brasileira, marcada por variações no que diz respeito às classificações raciais dos
seus membros (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 269).
É sobretudo no que diz respeito à interpretação do preconceito racial que se colocariam
os problemas mais delicados. Nesse quesito, os autores partem, mais uma vez, de uma
contraposição crítica a Donald Pierson, questionando:
[A] afirmação de que o ‘preconceito de cor’ no Brasil é um preconceito de classe não
colide com a forma de seleção e de imputação dos atributos, que apanha as diferenças
ou as marcas raciais? Ao contrário do que afirma [Pierson], parece que o ‘preconceito
de cor’ existe e penetra, em maior ou menor grau, todas as classes sociais, sem contudo
associar-se a manifestações ostensivas (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 274).
Os argumentos críticos e as hipóteses diretrizes sustentadas pelos autores sugerem a
especificidade do preconceito racial com relação à estratificação em classes e sua concepção
como processo social vigente no seio da sociedade brasileira. Desse modo, uma primeira
hipótese afirma que
as flutuações da conduta dos brancos diante dos negros se explicam pela
complexidade da situação de contato e em vez de serem um índice da inexistência do
preconceito racial constituem, ao contrário, um sintoma de que a intensidade com que
ele se manifesta varia até um extremo limite (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 276, grifo
dos autores).
De modo semelhante, a segunda hipótese visa a apreender a vinculação do preconceito
com a dinâmica social. Nas palavras dos autores,
o desenvolvimento das classes sociais e do regime econômico capitalista em São
Paulo, uma sociedade étnica e racialmente heterogênea, estão se processando de modo
a modificar as condições sociais de ajustamento inter-racial entre brancos e pretos, o
que se reflete na transformação da antiga ideologia racial e, por consequência, nas
formas de exteriorização e na função do ‘preconceito de cor’ (Bastide; Fernandes,
2008a, p. 276-277, grifo dos autores).
Longe de insinuar a superação do racismo, a desagregação da antiga ideologia racial,
provocada pelas transformações da estrutura social, estaria se processando de modo a permitir
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 65
“a reintegração do ‘preconceito de cor’ à cultura urbana” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 276).
Nesse sentido, mesmo os imigrantes europeus recém-chegados ao Brasil estariam incorporando
estereótipos raciais e preconceitos na sua relação com os negros. Por outro lado, a incorporação
de valores urbanos por parte dos negros, somada ao alargamento das suas oportunidades de
acesso ao mercado de trabalho, estariam favorecendo a alteração das situações de contato. Os
negros agora passavam a “forçar a situação”, enfrentando e desnaturalizando as expectativas
sociais com relação ao lugar” do negro (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 276). Os exemplos
elencados pelos autores, já no desenvolvimento do projeto, são indicativos da sua proximidade
com a complexa realidade investigada.
A terceira e última hipótese estabelece prospecções acerca da correlação entre
preconceito racial e dinâmica social. Longe de apresentar um processo de mudança social
uniforme e de tipo irrefreável, Bastide e Fernandes destacam seu caráter aberto, complexo e
contraditório
14
, em razão das disputas de interesses entre os diferentes grupos raciais, bem como
da heterogeneidade inerente a cada um deles. Nesse sentido, os autores destacam a
desagregação da antiga ideologia racial como algo socialmente inevitável, embora muitos dos
seus elementos culturais pudessem ser reintegrados à cultura urbana, entre os quais o
“preconceito de cor” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 277).
O conhecimento da nova ideologia racial, por sua vez, dependia da análise das atitudes
expressas por brancos e pretos, levando em consideração os seus interesses diversos, bem como
variações e contradições inerentes a cada grupo. Já as transformações relacionadas ao processo
de modernização da sociedade tais como o desenvolvimento das classes sociais, a
industrialização e a urbanização são tomadas como “ponto de referência para acompanhar a
repercussão dos interesses sociais nas atitudes raciais e [como] um elemento prospectivo para
identificar a provável orientação do processo” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 278). Dada a
complexidade da situação investigada, a hipótese prospectiva se apresenta com direções
distintas:
Presume-se que essa forma de “preconceito de cor” se modificará, de modo a integrar-
se às condições sociais de ajustamento inter-racial em uma sociedade de classes: a)
perdendo lentamente sua força inibidora ou coatora sobre o comportamento dos
negros; b) assumindo uma expressão provavelmente mais extensiva nos círculos
sociais ou nos grupos étnicos dos brancos em que se perpetuar como símbolo social
14
A esse respeito, Silva e Brasil Jr. (2021, p. 14) destacam, no prefácio da mais recente edição de A integração
do negro na sociedade de classes”, uma concepção não-linear da mudança social em Fernandes, em contraposição
a uma visão dualista que despontou na recepção crítica do autor, notadamente no campo de pesquisa sobre relações
raciais, na qual a ordem estamental e a sociedade de classes seriam “compostas por variáveis sistêmicas
interligadas e incompatíveis entre si”.
66 Antecedentes do dilema racial brasileiro
de status (real ou compensatório) e como meio de defesa econômica (Bastide;
Fernandes, 2008a, p. 278, grifo dos autores).
Nas hipóteses suplementares apresentadas na sequência, Bastide e Fernandes (2008a)
destacam que, ainda quando mantém a mesma forma, os elementos da antiga ideologia racial
tendem a mudar de função. Assim, representações coletivas sobre os negros que visavam a
legitimar a exploração do preto pelo branco na sociedade escravocrata, assumem a função de
demarcar a distância social entre os grupos raciais na nova ordem social.
Portanto, já no delineamento das hipóteses diretrizes da pesquisa, os autores expressam
seu interesse em desvelar a forma e as novas funções assumidas pelo preconceito racial na
ordem social emergente em nítido contraste com a interpretação ainda presente no campo
intelectual brasileiro de que, segundo Fernandes, tal fenômeno perderia sua função sob o
capitalismo ou tenderia a desaparecer com o pleno desenvolvimento da sociedade de classes
(Hasenbalg, 1979; Motta, 2000; Souza, 2006). Para Roger Bastide e Florestan Fernandes, o
preconceito racial não somente seria passível de se manifestar em uma ordem capitalista, como
também poderia ser combinado com outras formas de preconceito como o preconceito
religioso e o preconceito de classe. A incorporação seletiva de elementos da antiga ideologia
racial se daria conforme a sua consistência “com as modernas condições de existência social”
(Bastide; Fernandes, 2008a, p. 280).
É também no “projeto de estudo” que Bastide e Fernandes (2008a, p. 286) empregam
possivelmente pela primeira vez a noção de “dilema”, tomada do clássico estudo de Myrdal
(1944) sobre a sociedade norte-americana, mas que ganhará contornos próprios no estudo da
estrutura social brasileira e se tornará tão cara às interpretações de Florestan Fernandes sobre o
Brasil e a América Latina.
A breve discussão sobre o dilema racial no “projeto de estudo” provoca certa inflexão
no debate desenvolvido pela fortuna crítica de Fernandes em torno do par conceitual “demora
cultural x dilema” sem, de modo algum, diminuir a importância desse debate. Em linhas
gerais, segundo essa interpretação, Fernandes teria substituído progressivamente o conceito de
demora cultural pela noção de dilema, a partir do final dos anos 1950 e início dos anos 1960,
de modo a destacar o caráter estrutural das contradições da sociedade brasileira (Brasil Jr., 2013;
Costa et al., 2021, Silva, 2021). No entanto, a recuperação da noção de dilema já no início dos
anos 1950, na análise das relações raciais, sugere que esse processo de elaboração conceitual é
anterior e talvez mais complexo ainda mais considerando o emprego da hipótese da demora
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 67
cultural em obras posteriores do autor, como A integração do negro na sociedade de classes”
e “A revolução burguesa no Brasil” (Silva, 2021). O conceito de demora cultural não é
empregado no “projeto de estudo” e aparece somente em nota de rodapé no segundo capítulo
de “Brancos e Negros em São Paulo” em referência à explicação de Sérgio Buarque de
Holanda sobre o descompasso entre a mentalidade dos fazendeiros paulistas que, inicialmente,
tendiam a atribuir o “antigo status do escravo” ao trabalhador branco e ao imigrante, e o sistema
de trabalho nas fazendas que se transformava em ritmo mais acelerado (Fernandes, 2008, p. 93).
a noção de dilema será empregada inicialmente para abordar a situação dos negros
na nova ordem social, entravada pela existência de barreiras culturais e raciais. Nas palavras
dos autores:
Em regra, os negros se encontram diante do seguinte dilema: o acesso a determinadas
posições ou serviços é dificultado pela falta de qualificação técnica; mas a
qualificação técnica nem sempre garante a seleção racional, isto é, ela pode ser
relegada a segundo plano, por causa da “cor”. Ou seja, a carreira social do negro
apresenta aspectos peculiares; aqui se evidenciam tanto os efeitos do equipamento
cultural tradicional dos pretos (...) quanto os efeitos inibidores do “preconceito de cor”
propriamente dito (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 286).
O dilema adquire o sentido de impasse ou contradição que se coloca para o negro, cuja
posição na estrutura social seria marcada por uma dupla desvantagem nos processos de
classificação social, tanto em função de seu equipamento cultural tradicional como pelos efeitos
do “preconceito de cor”
15
. A nossa hipótese é de que Fernandes elabora tal categoria a partir de
um diálogo direto ou indireto com intelectuais e ativistas negros atuantes no final dos anos
1940, que destacavam as dimensões socioculturais, econômicas, psicológicas e propriamente
“raciais” – referentes às barreiras do “preconceito de cor” do chamado “problema do negro”
em seus estudos e encontros
16
.
15
Ao abordar o estado de anomia social prevalecente no meio negro durante os chamados “anos de espera”,
Fernandes destaca que as tendências assumidas pelo processo de urbanização “impediram a preservação dos mores
afro-brasileiros, que poderiam garantir a transformação da ‘população negra’ numa minoria racial integrada e
autônoma” (Fernandes, 2020, p. 130, grifo do autor). Nessa e em outras passagens da obra, o autor sugere que a
desvantagem cultural da população negra se deve, em parte, ao despojamento de seu repertório cultural, que
acompanha o processo de colonização, escravização e branqueamento da sociedade brasileira e se deu sem
qualquer compensação no sentido de dotá-los dos recursos materiais e morais valorizados na nova ordem social.
Tais condições agravam, portanto, o estado de anomia social transplantado da ordem escravocrata.
16
Cumpre destacar a esse respeito os registros de Guerreiro Ramos sobre a atuação do Teatro Experimental do
Negro (TEN) e, particularmente, o I Congresso do Negro Brasileiro, apresentados na antologia “Negro Sou”,
organizada por Muryatan Barbosa. No primeiro texto da antologia, que constitui o discurso proferido por Ramos
por ocasião da instalação do Instituto Nacional do Negro Centro de estudos e pesquisas do TEN, do qual se
tornou diretor –, em 9 de setembro de 1949, ele afirma que “a condição jurídica de cidadão livre dada ao negro foi
um avanço, sem dúvida. Mas foi um avanço puramente simbólico, abstrato. Socioculturalmente, aquela situação
não se configurou; de um lado, porque a estrutura de dominação da sociedade brasileira não se alterou; de outro
68 Antecedentes do dilema racial brasileiro
Como destaca Gabriel Cohn (1986) em seu clássico texto “Padrões e dilemas: o
pensamento de Florestan Fernandes”, embora se refira a um problema de ordem estrutural, a
noção de dilema teria também um sentido subjetivo, relacionado às escolhas que se colocam
para os indivíduos que se encontram diante de um impasse. Assim, o dilema racial impactaria
tanto a competição dos negros com os brancos, em termos objetivos, quanto a formação dos
ideais de vida dos negros, em termos subjetivos.
Já nesse momento é possível observar o interesse dos autores em investigar a formação
de uma contra-ideologia racial” e “os sentidos em que estão sendo projetadas a lealdade dos
pretos”, por meio de um estudo das organizações e dos movimentos sociais do meio negro
(Bastide; Fernandes, 2008a, p. 284-285). Essa dimensão do dilema subjetiva ou
microssociológica assume um caráter coletivo e contornos propriamente políticos, que se
tornam fundamentais para pensar o dilema racial brasileiro e ganham centralidade em
momentos posteriores da trajetória intelectual de Florestan Fernandes
17
.
Considerações Finais
A análise do projeto de estudo permite ir de encontro a certa leitura “residualista” da
questão racial no pensamento de Florestan Fernandes, ao menos em seus momentos iniciais de
elaboração teórica que constituíram objeto da presente discussão , uma vez que se tratava de
investigar a natureza e funções assumidas pelo preconceito racial em um contexto de mudança
social. Se o preconceito racial não é encarado no projeto como um fenômeno propriamente
estrutural, ele estaria diretamente ligado às transformações da estrutura social, mediado pelos
interesses e atitudes dos grupos raciais e classes sociais específicos.
A sofisticação teórica manifesta no projeto se faz notar também em sua concepção
relacional do preconceito racial, que se reflete no interesse dos autores em analisar o grupo
racial dominante. Nas suas palavras,
Os brancos, à medida que se incorporam às classes dominantes, do ponto de vista
racial, não sentem o peso e os efeitos do ‘preconceito de cor’. O mesmo não acontece
com os negros, que aprendem desde cedo a ‘ficar em seu lugar’ e isso quase sempre
por meio de humilhações, de ressentimentos e de frustrações, que passam
despercebidos à maioria dos brancos (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 287).
lado, porque a massa juridicamente liberta estava psicologicamente despreparada para assumir as funções da
cidadania” (Ramos, 2023, p. 45).
17
abordamos em outro texto a ênfase progressiva de Florestan Fernandes sobre a dimensão política do dilema
racial brasileiro como parte do movimento de radicalização do seu pensamento (Costa et al., 2021).
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 69
Os autores afirmam a necessidade de investigar igualmente os efeitos do preconceito
racial sobre brancos e negros e já apontam alguns desses efeitos no “projeto de estudo” – como
o de conferir ao branco o sentido de coerência de suas atitudes na interação com os negros com
relação aos padrões de moralidade e dignidade humana da sociedade em que vive (Bastide;
Fernandes, 2008b, p. 287-288). Essa proposta é retomada em A integração do negro na
sociedade de classes”, ao analisar as decisões políticas que garantiram a reprodução dos
privilégios da camada dominante do grupo racial branco na passagem para a nova ordem social,
e ganha relevo sobretudo nos escritos dos anos 1970, ao abordar os sentidos assumidos pelo
dilema racial sob o capitalismo dependente.
Essa discussão permite matizar a recepção crítica de Florestan Fernandes pelos mais
recentes estudos sobre branquitude, nos quais se destaca uma análise unilateral relativa ao autor
sobre a deformação da escravidão, voltada somente à personalidade dos negros. Isso aparece
no argumento de Cida Bento como sintoma da branquitude na análise do autor. Segundo a
autora, “se Florestan Fernandes, tão consciente do racismo no Brasil, não conseguiu enxergar
o impacto da escravidão no seu próprio grupo branco, era preciso compreender a cegueira
conveniente e o silêncio cúmplice da branquitude” (Bento, 2022, p. 63). No entanto, a nossa
hipótese é de que essa preocupação, presente no projeto de estudo”, é retomada de modo
progressivo na trajetória intelectual de Florestan e desemboca em sua análise sobre a
“resistência sociopática à mudança” das classes dominantes, que forma ao processo de
mudança em curso na sociedade brasileira, orientando-o para a preservação pura e simples de
seu status quo (Fernandes, 1976). É essa característica que configurará, para Fernandes, o
âmago do nosso “dilema social”, elaborado em texto do início dos anos 1960.
Por fim, Bastide e Fernandes (2008a, p. 288-289) destacam o contexto de transição em
que o estudo sobre relações raciais estava sendo realizado no início dos anos 1950 o que
explica sua relação direta com o tema da mudança social. Por essa razão, tal estudo tanto poderia
servir para “caracterizar uma situação que tende a desaparecer” como para contribuir com o
conhecimento de algo que está em desenvolvimento incipiente a depender da ênfase colocada
pelo pesquisador. No caso dos autores, interessava investigar os elementos da antiga ideologia
racial que tendiam a se conservar como parecia ser o caso do preconceito racial , assim como
o sentido da transformação da situação social dos negros.
No prefácio à segunda edição de “Brancos e Negros em São Paulo”, Fernandes (2008,
p. 18) afirma que não foi possível redigir o estudo sociológico final nessa obra, restringindo-se
70 Antecedentes do dilema racial brasileiro
a uma discussão predominantemente descritiva acerca dos resultados da investigação em
virtude do curto prazo estipulado pela Unesco para a publicação do relatório da pesquisa. Por
essa razão, Campos (2014) destaca que a discussão apresentada na obra respondeu a dois dos
objetivos estipulados no projeto o plano informativo e o descritivo , sem desenvolver
devidamente o plano interpretativo. Bastide e Fernandes não teriam conseguido, nesse primeiro
momento, explorar toda a riqueza dos dados coletados na pesquisa empírica. A análise desse
material e sua interpretação serão retomadas por Florestan Fernandes em A integração do
negro na sociedade de classes”, defendida como Tese de Cátedra em março de 1964. A despeito
disso a gênese da noção de dilema, que se tornará sua categoria interpretativa fundamental para
abordar as relações raciais no Brasil, já se encontra no texto do “projeto”.
Ademais, vale destacar que os autores apresentam, ainda em “Brancos e Negros”, alguns
prognósticos que sugerem a possibilidade do “preconceito de cor” se tornar um fenômeno
estrutural. No capítulo “Cor e estrutura social em mudança”, redigido por Fernandes, o autor
afirma que “a) é possível que o preconceito de cor encontre na sociedade de classes condições
estruturais favoráveis à sua perpetuação; b) é provável que se desenvolvam preconceitos de
classe aplicáveis nas relações dos indivíduos de cor entre si” (Fernandes, 2008, p. 153).
Portanto, ao abordar as tendências emergentes, Fernandes destaca a possível
coexistência de dois sistemas de estratificação racial e social na nova ordem social, cuja
complexa e imbricada relação será fundamental para pensar o dilema racial brasileiro. Apesar
disso, os autores não retomam o conceito de dilema na análise apresentada em Brancos e
Negros em São Paulo”, talvez pelas razões aventadas anteriormente, relacionadas ao tempo
limitado para o desenvolvimento do plano interpretativo, bem como para explorar o material
produzido em colaboração com intelectuais e ativistas do meio negro. Como mostra Campos
(2014), Fernandes se refere ao conteúdo produzido nas mesas-redondas propostas em
colaboração com intelectuais negros(as) no último capítulo da referida obra “A luta contra o
preconceito de cor” –, em sua discussão sobre as reações à lei Afonso Arinos no meio negro.
A nossa hipótese é que a interlocução estabelecida com os(as) colaboradores(as)
negros(as) da pesquisa será fundamental para o delineamento da noção de dilema racial
brasileiro em suas distintas dimensões, de modo que seu emprego enquanto categoria
interpretativa das relações raciais no Brasil moderno somente será retomado em “A integração
do negro na sociedade de classes”. Trata-se de explorar, a partir de agora, os sentidos e
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V. 71
desdobramentos teóricos e empíricos assumidos por tal categoria nos momentos subsequentes
da trajetória intelectual de Florestan Fernandes.
Para tanto, em uma segunda etapa da pesquisa, seguiremos com a análise diacrônica da
categoria dilema racial na obra A integração do negro na sociedade de classes” (1964), que
constitui não somente a obra capital do autor, mas também o lugar em que o dilema racial é
elaborado em suas múltiplas dimensões, podendo ser lido como uma etapa relevante da resposta
sociológica do autor à não integração do negro à sociedade de classe. Serão também retomados
dois ensaios produzidos nos anos 1970, a saber: “Aspectos políticos do dilema racial brasileiro”
e “A sociedade escravista”, publicados respectivamente em “O negro do mundo dos brancos”
(1972) e “Circuito Fechado” (1976). Tais ensaios permitem observar o progressivo processo de
radicalização do pensamento de Florestan, por meio de uma articulação do dilema racial à noção
de capitalismo dependente e de maior ênfase analítica nos processos de reprodução das
desigualdades raciais pelos estratos dominantes da raça branca. Essa radicalização teórica
ganhará contornos político-programáticos em “Significado do protesto negro” (2017), quando
o autor atua como deputado constituinte (1987-1988) e deputado federal (1989-1994) pelo
Partido dos Trabalhadores, somando-se à luta do Movimento Negro Unificado (MNU).
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Recebido em: 2/4/2025
Aceito em: 27/8/2025
ANEXO