ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 251 - 283  
ENTREVISTA COM ADALBERTO CARDOSO  
INTERVIEW WITH ADALBERTO CARDOSO  
____________________________________  
Cecilia Soares  
Alexander Englander  
Bruna da Penha  
Thiago Brandão  
Esta entrevista com Adalberto Cardoso, professor titular do Programa de Pós-Graduação  
em Sociologia do IESP/UERJ, é um dos resultados do projeto Trajetórias. Pensado e  
desenvolvido desde o início de 2024, o projeto tem como intuito um diálogo com percursos e  
obras do mundo do trabalho. Com o objetivo de debater a trajetória acadêmico-pessoal do  
professor, bem como os principais eixos de sua obra, foram realizadas entrevistas  
semiestruturadas em três ocasiões: 20 de fevereiro de 2024, 3 de maio de 2024 e 29 de janeiro  
de 2025. O material completo dessas entrevistas será publicado posteriormente em um livro,  
que também apresentará um balanço dos principais temas da obra de Cardoso: sindicatos,  
justiça do trabalho, mercado de trabalho, informalidade, classes médias, entre outros.  
Neste artigo, foram reunidas perguntas sobre a formação do professor como profissional  
e pesquisador da área de Ciências Sociais, desde a sua escolha pelo curso, até o período atual,  
Pós-doutoranda no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF).  
Pesquisadora no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET), do Programa de Pós-graduação em  
Sociologia do IESP/UERJ. E-mail: ceciliaebsoares@gmail.com.  
 Pós-doutorando em sociologia no INCT Trabalho, Inclusão e Equidade (IESP/UERJ). Pesquisador no Núcleo  
de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET) do Programa de Pós-graduação em Sociologia do IESP/UERJ, no  
Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria (GPDET/UFRJ) e no Núcleo de Estudos Regionais (NERE) da  
Universidade Regional do Cariri (URCA). E-mail: alexcoueng@gmail.com.  
 Professora adjunta da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professora  
do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana e do Programa de Pós-Graduação em  
Direito, ambos da UERJ. Pesquisadora no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET), do Programa de  
Pós-graduação em Sociologia do IESP/UERJ. Jovem Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). E-mail:  
  
Pesquisador no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET), do Programa de Pós-graduação em  
Sociologia do IESP/UERJ. E-mail: thiagobrandaoperes@gmail.com.  
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passando pelos anos no Cebrap, a relação com temáticas-chave de suas pesquisas, e a atuação  
como professor de pós-graduação, no antigo IUPERJ e, atualmente, no IESP/UERJ. Além  
disso, discutiram-se as mudanças nas condições de trabalho dos cientistas sociais, ao longo das  
últimas décadas, e aspectos da internacionalização da carreira do entrevistado.  
Pergunta: Gostaríamos de começar com uma reflexão sobre o entrecruzamento da sua  
trajetória familiar e profissional. Você foi de Uberlândia para São Paulo; da USP para o Cebrap;  
da sociologia para as artes plásticas, passando e, inclusive, quase ficando no teatro; e de volta  
para a sociologia. Enfim, você foi também de São Paulo para o Rio de Janeiro. Gostaríamos de  
explorar alguns pontos desse seu percurso. Qual foi o papel de professoras e professores na sua  
formação e nas suas escolhas acadêmico-profissionais? Você poderia citar algumas das suas  
principais referências intelectuais nessa jornada, além das contribuições que você extraiu do  
contato com essas pessoas?  
Adalberto Cardoso: Queria, antes, começar por agradecer essa iniciativa que vocês tiveram,  
que me deixou muito tocado. Foi muito generoso da parte de vocês. Eu vou começar por  
Uberlândia. Não pela minha família, meu nascimento, essas coisas; eu vou direto falar da pessoa  
que eu considero um ponto de inflexão na minha adolescência. Foi uma professora de português  
que eu tive no Colégio Polivalente. A dona Maura de Freitas Rocha, que, hoje, é professora  
titular de linguística na Universidade Federal de Uberlândia, teve um papel fundamental na  
minha formação, e de uma turma de colegas que ela meio que adotou. Tentamos fazer trabalho  
de base em escolas da periferia de Uberlândia e coisas desse tipo. Por meio dela, cheguei à  
imprensa alternativa e nanica, lá no período da ditadura. Eu devo à Maura, sem dúvida, a eleição  
das ciências sociais. Foi uma escolha muito consciente. A Maura dizia: “Você vai sair de  
Uberlândia? Você tem que ir para São Paulo. Se você puder, vai para Nova Iorque. Você tem  
que ir para o melhor lugar. A melhor universidade e a cidade mais difícil, mais importante do  
país”. E eu fui para São Paulo em 1978, para fazer três meses de cursinho Equipe. Foi um lugar  
de grande ebulição para mim.  
Entrei na USP em 1979. Tirei nove na redação. Entrei lá nas cabeças. Fiquei muito  
contente com isso e fui muito bem acolhido pela USP, por um lado, e por São Paulo, por outro.  
O primeiro curso que eu fiz foi Antropologia I. A professora era a Aracy Lopes da Silva, e ela  
estava convocando estudantes que quisessem colaborar com ela na Comissão Pró-Índio, que  
ela, a Manuela Carneiro da Cunha e outros/as antropólogos/as estavam criando. Eu entrei nessa  
turma e me vi fazendo um monte de atividades. Achei que ia ser antropólogo, porque eu gostava  
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Entrevista com Adalberto Cardoso  
muitíssimo do que se fazia ali. Já se falava no genocídio Ianomâmi pelos militares. Havia muitas  
denúncias. Em 1979, saiu o filme Mato eles? E houve também o filme do Zelito Viana. A  
Comissão Pró-Índio foi decisiva em publicizar esses filmes lá na PUC-SP. Enfim: muitas  
atividades e denúncia pesada, ainda em um momento em que a ditadura era a ditadura, né?  
Então essa foi um pouco a minha entrada, já de cara, sobretudo pela mão da Aracy. Mas a  
universidade é um lugar que abre portas, né? É um lugar de oportunidade, em que você tem que  
estar aberto. E eu estava buscando as coisas.  
Entrei na universidade com dezessete anos, fui fazer dezoito no primeiro ano da  
faculdade, e eu estava aberto a tudo. No primeiro semestre do segundo ano, eu fui fazer um  
curso de metodologia, com o Reginaldo Prandi. Quantitativista. Um grande professor. E ele  
logo foi convocando a gente para trabalhar com ele e para ele, fazendo pesquisas. Então, no  
terceiro semestre, eu estava fazendo pesquisa de campo, entrevistando médico, para a pesquisa  
dele sobre classes médias. Saiu um livrinho depois, que se chamou Os favoritos degradados.  
Uma parte das entrevistas com os médicos fui eu que escrevi. Ele aceitou a redação e incluiu  
no livro. Ele era esse tipo de pessoa, dava esse tipo de oportunidade. Fizemos, nesse mesmo  
curso de metodologia, umas entrevistas com estudantes de ciências sociais. Foi o primeiro  
survey, na vida, que a gente fez do começo ao fim: “Vamos desenhar o questionário”, “Vocês  
aplicam o questionário”, “Vamos para casa e tem que tabular o questionário”, “E vamos ler o  
questionário usando o Fortran. Vou ensinar vocês a usar o Fortran”. Em um único semestre. Foi  
incrível.  
O Reginaldo me ganhou por essa coisa da pesquisa empírica em um mundo urbano. Ele  
foi fundamental. Trabalhei com ele durante muitos anos. Ele conseguiu uma bolsa de iniciação  
científica para mim. Eu tinha intenção de trabalhar com sociologia da família. Tinha saído um  
livro da Elisabete Dória Bilac, Famílias operárias, estratégias de sobrevivência, assim,  
extraordinário. O Reginaldo tinha acabado de publicar um livro sobre o trabalhador por conta  
própria. Então, ele tinha essa preocupação também. Ali foi o primeiro contato meu com os  
estudos do trabalho, mas no âmbito da família. Famílias operárias. Eu propunha entrevistas.  
Fazer pesquisa de campo em fábrica. Não consegui fazer nada disso, porque eu me meti em um  
monte de atividades. Estudava o tempo todo.  
Aí eu fiz um estudo com base no livro do Luís Flávio Rainho, que deu muito o que falar,  
porque ele transcreveu pura e simplesmente, literalmente, uma centena de entrevistas que ele  
fez com operários, sem fazer nenhuma intervenção. Sem fazer análise, nem nada. Eu peguei  
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aquilo e falei: “Bem. Eu não fiz entrevista, mas ele fez cem”. Então, trabalhei em cima dessas  
entrevistas, né [risos]? O meu trabalho final de IC foi isso. Foi super bem aceito. O Reginaldo  
gostou. Falou: “Você tem que publicar essa coisa”. Enfim, não publiquei.  
Uma pessoa que eu não mencionei no memorial, nem em nenhuma conversa, é a  
Suzanna Sochaczewski. Era técnica do DIEESE. Entrou no mesmo ano que eu, nas ciências  
sociais. Ela devia ter... talvez, quarenta anos? A Suzanna abriu muita porta para mim em São  
Paulo. Ela foi minha madrinha na entrada na cidade, aquela metrópole exuberante. Sempre dava  
dicas de coisas para fazer, coisas para ler, lugares para ir. Teatro, cinema, enfim: foi super  
mãezona, me adotou mesmo [risos]. Foi muito legal.  
Outra figura importantíssima, embora sem uma relação pessoal, foi o José de Souza  
Martins. Fiz dois cursos optativos com ele. Um de sociologia rural, que ele deu esse nome para  
mostrar que era crítico à noção de “sociologia rural”. Porque principalmente, para ele, o que  
existia era uma sociologia agrária. A gente leu todo o marxismo sobre o mundo agrário, do  
próprio Marx até o Kautsky, o Lenin. E depois um curso sobre sociologia da vida cotidiana, em  
que ele juntava também uma herança marxista, mas com muita filosofia. Lefebvre. Agnes  
Heller. Então, dialogava com a filosofia marxista, mas também com o marxismo muito estrito  
da sociologia agrária, e que foi muito importante na minha formação. O melhor Marx que eu li,  
eu li com o Martins, porque ele conhecia tudo, tudo do Marx. Depois ele renegou, como vários  
marxistas renegaram. Mas ele era um professor muito exigente. Muito rigoroso na correção dos  
textos, nos conceitos. Ele foi muito importante nesse sentido. Tentava tirar o máximo dos seus  
alunos, e de quem se dispunha a entrar no jogo dele, ele de fato tirava.  
Outro professor muito importante foi o José Carlos Bruni, que estava ali na fronteira  
entre a sociologia e a filosofia. E, de fato, ele foi para a filosofia depois. Eu fiz Sociologia III  
com ele, que era Marx. E o Marx dele era muito mais amplo, porque era Marx e as suas  
influências. Quem Marx leu, né? Como Marx leu a economia, a economia política. Como Marx  
leu Hegel. E depois, como alguns marxistas trabalharam as ideias do Marx. Ele adorava o  
Lukács. Foi muito importante e revelador para mim, porque foi uma forma de ver o Marx muito  
diferente da do Martins.  
Por fim, o Brasilio, que seria o meu orientador no mestrado e depois no doutorado. Eu  
o conheci fazendo curso sobre transição do trabalho livre e construção da sociedade do café em  
São Paulo. Ele tinha uma coisa mais ensaística, e a gente leu vários autores, viajantes, cronistas  
do século XIX em São Paulo. Lendo os cronistas, eu me apaixonei pela formação da cidade de  
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Entrevista com Adalberto Cardoso  
São Paulo, e não necessariamente do mercado de trabalho. O meu projeto de mestrado era, a  
partir das crônicas e dos viajantes, estudar o início, a formação do núcleo urbano, e, depois, da  
cidade de São Paulo. Era um projeto de sociologia urbana, né? Que não foi para frente...  
Reginaldo não gostou: “Você não ia estudar família? Vai estudar São Paulo?”. É. É a vida, essa  
coisa de estar aberto para as coisas, né?  
Eu me apaixonei pelo tema. Entrei no mestrado. Prestei o concurso. Passei. Ganhei a  
bolsa. Na USP, você não tinha obrigação de fazer curso nenhum, na verdade, no mestrado. O  
mestrado, como o doutorado, era pesquisa. Você tinha que atender às demandas do seu  
orientador. O Brasilio nunca me forçou a assistir a curso nenhum. E eu tinha feito uma boa  
base. Então, fui fazer curso de arte na ECA, de desenho, com o Carlos Fajardo [risos]. Comecei  
a fazer um de cinema, mas não foi adiante. Era caro. Mas esse curso de desenho de observação,  
do Fajardo, me levou ao Sergio Fingermann, um artista que estava começando, e precisava de  
alunos para poder manter o seu ateliê.  
Entrei no mestrado com o projeto sobre São Paulo, e fui fazer arte. Fui para o ateliê do  
Fingermann, aprender a fazer gravura. Eu não podia pagar. Propus para ele: “Vou ser seu  
assistente. Preparo as suas chapas. Limpo o ateliê depois das aulas. Fico aqui e te ajudo nas  
coisas que você precisar”. Então, troquei trabalho braçal para assistir às aulas dele. E assim foi.  
Fiquei no Sergio até o final de 1984, fazendo gravura em metal, que era a grande coisa dele,  
desenhando, pintando. O Brasilio, coitado, deu essa oportunidade de me aceitar no mestrado  
[risos], e, paralelamente a isso, o Reginaldo me chamou para trabalhar no Cebrap. Então, eu  
estava de assistente de pesquisa no Cebrap, fazendo os cursos de arte, entrei no ateliê do  
Fingermann, não fiz nenhum curso nas ciências sociais, e sumi. Desapareci.  
Mas, enquanto isso, eu estava no Cebrap. Puxado pelo Reginaldo. A gente fez um  
trabalho sobre educação e produtividade no meio rural. Eu viajei muito pelo Brasil. Ficamos  
cinco semanas em Irecê, na Bahia. Tinha cinco anos que não chovia. Era um ambiente  
calcinado. Como eu ficava a maior parte do tempo sem fazer nada, comecei a pintar. Levei  
aquarela. Enquanto fazia as entrevistas, tinha essa atividade paralela. E depois, em cima dos  
desenhos, eu fiz uma série imensa: foi a primeira exposição que fiz, em 1987, lá em São Paulo.  
A primeira individual. Tudo com origem em Irecê, nessa experiência. Então, as coisas andaram  
juntas, muitas vezes.  
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Figure 1 - Catálogo da exposição. São Paulo, agosto de 1987. Acervo de Adalberto Cardoso.  
Mas o Reginaldo, em 1985, saiu do Cebrap. Aí o Vinícius Caldeira Brant estava  
precisando de um assistente para uma pesquisa que estava começando. Ele tinha participado do  
projeto de educação e produtividade no meio rural, mas estava indo para uma pesquisa sobre a  
greve dos petroleiros de Paulínia de 1983. Ele já trabalhava com o Álvaro Comin, que seria  
meu parceiro por muitos anos no Cebrap. Eles tinham trabalhado com metalúrgicos em São  
Paulo, com o pessoal da CUT. Aí eu falei: “Bem, claro que eu vou, né?”. O mundo do trabalho  
tinha sumido do meu horizonte, e fui puxado de volta para ele pelo Vinícius. E essa experiência  
foi formadora, foi uma pesquisa muito, muito interessante.  
Foi uma intervenção sociológica com método do Touraine, junto a um sindicato, que,  
normalmente, no método, não é pensado como um movimento social. E, de fato, aconteceu uma  
coisa impressionante. Ninguém tinha lido Marx, mas eram todos marxistas, todos  
revolucionários. “A gente tem que agir, porque é na ação que você… cria consciência de  
classe”, “você tem que ter um inimigo”. Toda a coisa do enjeu, do que está em disputa, quem é  
o seu inimigo, como é que vocês constroem essas identidades em disputa. E o inimigo era a  
direção da Petrobras. Na época da greve, o Shigeaki Ueki, essa figura lendária, que quis vender  
a Petrobras de tudo quanto é jeito. Dessa pesquisa, saiu a minha dissertação de mestrado. Já não  
era mais a intervenção sociológica, porque eu usei as entrevistas de uma forma mais tradicional.  
Sem referência ao Touraine.  
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Entrevista com Adalberto Cardoso  
No meio do caminho, o Guillermo O’Donnell tinha voltado para o Cebrap. A partir da  
minha experiência com o Vinícius, ele me chamou para fazer um dos estudos que tinha na  
cabeça, sobre o então assim chamado “sindicalismo de resultados”, que tinha surgido lá em  
1986, 1987, com muito estardalhaço, na cena brasileira. Todo mundo queria estudar CUT, o  
novo sindicalismo. “Ninguém olha para a direita? Tem que olhar para a direita!” – o O’Donnell  
falava. E aí fui estudar o sindicalismo de resultados. Foi formador de outro jeito. O’Donnell  
não era um marxista. Era um cara super erudito. Naquele momento, a grande moda era a teoria  
da escolha racional. O O’Donnell lia, e era muito crítico daquilo, sobretudo o Olson.  
O carona era um problema teórico e prático. E se torna um problema político em  
muitas situações. E ele insistia nisso, dizia: “Essa ideia de que o indivíduo é um ser interessado,  
maximizador de utilidade, exclusivamente no ponto de vista individual, não tem sustentação na  
vida”. A vida tem muitos momentos de solidariedade. Em muitas situações, você leva em  
consideração os outros, os coletivos, nem que seja só a família. Esse individualismo  
metodológico não é sociologicamente sustentável, e nem politicamente sustentável. Então, ele  
tinha uma crítica profunda a isso, para mostrar que o individualismo metodológico, em si,  
embora pudesse servir de instrumento heurístico para fazer perguntas sobre o mundo, não podia  
ser instrumento de explicação do mundo. E eu usei muito isso na minha dissertação de  
mestrado: Petroleiros de Paulínia: participação, consciência e identidade. O título da  
dissertação saiu de um discurso deles; eles tinham uma clareza muito grande de que se moviam  
não por qualquer racionalidade de tipo individual, mas por um sentimento de pertença a um  
coletivo, pelo qual valia a pena até morrer. E esse coletivo não era só o grupo próximo aos  
trabalhadores, mas a própria Petrobras.  
A dissertação serviu para criticar tanto o Touraine quanto a escolha racional tal como  
lida pelo O’Donnell. E o meu doutorado, sobre o estudo do sindicalismo pragmático, acabou  
fugindo dessas duas grandes forças da minha formação no Cebrap embora a construção do  
projeto, do problema, tenha sido proposta pelo O’Donnell. Ele colocava: “Quais são as  
virtualidades democráticas de uma ação sindical como essa, num momento em que você está  
construindo a democracia? Como é que o pragmatismo sindical, desse tipo corrupto,  
individualista, moderno, contribui ou não para consolidar a democracia? Que tipo de instituição  
sai daí?”. Ele fez esses questionamentos, cuja resposta eu fui buscar. Na verdade, a tese procura  
fazer isso, mas não nesses termos, e sim nos termos da construção virtuosa de instituições. O  
discurso da “modernidade”, do “mercado”, tudo entre aspas… “Modernidade”. “Mercado”.  
“Individualismo”. Essa ideia da construção pragmática do interesse dos trabalhadores. Nada de  
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identidade. Nada desse negócio de consciência de classe, “é uma bobagem”. Até que ponto isso  
é capaz de furar o cerco da construção oligárquica ainda muito presente, muito consolidada na  
dinâmica do poder no Brasil? Como um discurso como esse era capaz de romper a indiferença  
moral das elites brasileiras em relação aos interesses da maioria? Das maiorias?  
Embora talvez também estivesse respondendo às perguntas do O’Donnell, eu estava  
olhando para isso. E é a isso que eu vou responder no meu doutorado. Estava, ainda, na chave  
que ele estava propondo, mas dando um passo além. Porque isso foi o que eu fui perseguir  
depois: até que ponto o trabalho organizado, o movimento sindical, na sua intervenção, na sua  
interferência e na sua ação coletiva, pública, era ou não capaz de permeabilizar o sistema  
político, e mudar as estruturas do Estado brasileiro, para incorporar, de maneira não  
subordinada, os interesses dos trabalhadores. Isso foi o mais importante.  
Depois veio a Nadya Guimarães (que então era Castro), a convite do Chico de Oliveira.  
Ela era professora da Federal da Bahia, ficou seis meses no Cebrap como visitante em 1993, se  
aposentou na Bahia e voltou definitivamente para São Paulo, em 1995, para assumir a equipe  
do Cebrap. Com Nadya, começamos outros projetos, outras ideias. Reestruturação produtiva.  
Reestruturação industrial. A Nadya era uma pesquisadora de processo de trabalho. Tinha feito  
estudos na petroquímica da Bahia. O interesse dela estava voltado muito para isso. Muitos temas  
novos apareceram. Eu entrei em um projeto internacional sobre reestruturação industrial na  
América Latina, para estudar indústria têxtil, automobilística, petroquímica e outras, a partir do  
contato que eu tive no Primeiro Congresso Latino-Americano de Sociologia do Trabalho, no  
México. E dois alemães estavam procurando pesquisadores no Brasil, na Colômbia e no  
México, para tocar esse projeto comparativo… estudos empíricos nas empresas, para ver o  
impacto da globalização na reestruturação industrial. Esses segmentos estavam sendo mais  
afetados por causa da China, de um lado, e do Japão, do outro. A China na indústria têxtil e o  
Japão na indústria automobilística, e a coisa toda da indústria petroquímica. A partir daí, eu abri  
as portas da América Latina.  
Ali começou o processo real de internacionalização da minha trajetória. Eu fiquei muito  
amigo do pessoal do México, da Colômbia, da Venezuela, da Argentina. E a gente começou a  
se frequentar muitas vezes, em muitos congressos internacionais. Na ALAST, na ALAS, na  
ISA. Acabamos consolidando um grupo que produziu muita coisa junto a partir desse primeiro  
passo, e com o beneplácito dessa dupla de alemães: o Rainer Dombois, que já morreu, e o  
Ludger Pries, que morava no México. Esse processo de aprendizado também foi muito  
importante, porque o Ludger era extremamente rigoroso em termos teórico-metodológicos. Ele  
259  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
tinha uma preferência muito clara pelos teóricos alemães. Ulrich Beck. Em parte, o Habermas.  
Detestava o Bourdieu. Tinha uma crítica muito, muito séria à sociologia latino-americana de  
modo geral. Acho que tem a ver com uma certa postura de uma parte imensa da comunidade  
científica europeia em relação a nós. Ao terceiro mundo, à América Latina.  
O projeto levou três anos. Demorou muito até que a coisa ficasse aceitável. Ficamos  
amigos. A gente passou a se encontrar em outras ocasiões, a gente se entendeu, mas de início  
foi bastante complicado. Essa pesquisa foi muito importante, porque, de novo, eu estava  
voltando, mas para entrevistar níveis hierárquicos distintos na fábrica. Coisa que eu nunca tinha  
feito. Só tinha falado com trabalhadores e lideranças sindicais. Me vi falando com gerência,  
com o presidente da Volkswagen no Brasil.  
Essa pesquisa abriu as portas da América Latina para mim, e depois do mundo, porque  
eu fui para a Alemanha. Viajei bastante em função dela, e foi essa pesquisa que me abriu os  
olhos para o problema do desemprego, e para o problema das trajetórias ocupacionais, que me  
ocuparia por seis, sete anos daí para frente. Devo isso à Nadya também. Nós trabalhamos juntos,  
no início, sobre esse tema. Depois eu saí do Cebrap para vir para cá, para a UFRJ, e continuei  
com esse tema aqui no IESP (então IUPERJ). Então, isso encerra a minha trajetória no Cebrap,  
que foi formadora. Eu trabalhei quinze anos no Cebrap; foi um período de formação.  
Figure 2 - Correspondência pessoal. Acervo de Adalberto  
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Pergunta: Como você avalia e compara os desafios do processo de formação de um  
pesquisador no início da sua trajetória acadêmica e nos dias de hoje?  
Adalberto Cardoso: Eu vejo algumas diferenças. Por isso que eu acabei de narrar, nunca tive  
contato de fato com graduação, exceto a minha própria. Então, eu posso falar da formação da  
pós-graduação, que é onde eu sempre atuei. Nesse âmbito, acho que as diferenças são imensas.  
A primeira delas é o acesso à literatura. Quando eu estava fazendo a pós-graduação, se eu  
quisesse ler artigos de revistas estrangeiras, a USP tinha uma coleção bastante ampla, mas nada  
comparável às universidades de fora, sobretudo nos Estados Unidos. As francesas não tinham  
acervo semelhante. As alemãs não tinham acervo semelhante. Se você queria pesquisar sério,  
você tinha que sair do Brasil por um período. Hoje, você acha tudo na internet. Todo o Weber.  
Todo o Weber. Tem em alemão, em francês, em italiano, em inglês, etc. O Schluchter está todo  
na internet. Inclusive em português. As revistas estão todas. Você entra no JSTOR, dá uma  
busca. Qualquer artigo. Isso é uma diferença brutal. Hoje em dia, não há a possibilidade de  
você dizer “Não achei”. “Não achei tal coisa”. Tal livro. Tal artigo. Não tem isso. É porque não  
procurou direito. Ou não procurou de jeito nenhum. Antigamente, a gente tinha essa desculpa:  
“Não tive acesso”. “É que não tem na biblioteca da USP”. “Ah, mas você foi na biblioteca da  
Unicamp?”. “Não fui”. “Tenta lá. Quem sabe tem lá”. Mas tinha desculpa.  
Outra coisa: hoje, você pode definir temas de pesquisa, objetos de pesquisa, problemas  
de pesquisa, pode falar coisas relevantes sobre o que está acontecendo no mundo só com as  
fontes às quais você tem acesso via internet. Não é porque a internet é uma boa fonte. Não; é  
porque tudo está na internet. Você entra na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, tem os jornais  
de meados do século XIX até hoje. Todos lá, digitalizados. Você entra no arquivo da Folha de  
São Paulo, do Estadão, d’O Globo. Está tudo lá. Desde o início. O CPDOC digitalizou a maioria  
dos seus grandes arquivos. Você tinha que passar o dia inteiro no CPDOC abrindo aquela  
papelada. Os fungos afetavam, né? Isso acabou. Não para todos. Certos arquivos continuam  
fechados. Por exemplo, para falar do Brasil colonial, você tem que ir a Portugal, ainda. Tem  
parte das coisas lá. Mas todas as instituições, as organizações, os sindicatos, os partidos  
políticos, uns mais, outros menos, têm lá os seus arquivos também disponíveis na internet.  
Então, é uma mudança importante, que tem a ver com a tecnologia.  
Outra mudança fundamental, e que eu já mencionei, é referente à coisa do tempo. Você  
não ter a injunção do tempo, a restrição do tempo para você construir o seu problema de  
pesquisa, para você se dedicar à sua pesquisa, foi, para o bem e para o mal, muito importante.  
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Entrevista com Adalberto Cardoso  
Isso, hoje, é impossível. Os historiadores têm que definir temas cada vez mais miudinhos, para  
poderem se dedicar bem a um período muito curtinho, e no prazo de quatro anos que você tem.  
Porque, se você não publica... Publish or perish, né? A restrição do tempo fez um mal imenso  
para a ciência. Para a ciência social em particular. Nem todo mundo tem essa capacidade de  
produzir coisas de qualidade, bem pensadas, bem articuladas com literatura existente, em pouco  
espaço de tempo, então as pessoas são mais angustiadas hoje do que eram. Eu pude fazer arte.  
Eu pude tentar o teatro. Pude ser artista profissional. Vivi de artes plásticas por cinco anos. Era  
outra coisa, essa possibilidade de multiplicidades de experiências enquanto você está fazendo  
o mestrado, o seu doutorado.  
Outra coisa que eu acho que distingue é o acesso a recursos. As ciências humanas e  
sociais sofrem, no mundo inteiro, um bombardeio neoliberal, que restringiu os recursos de  
pesquisa em todas as agências. No Brasil não é diferente. A gente passou muito a pão e água,  
nos últimos tempos, e não era assim nos anos 1980. Não era assim nos anos 1970. Os militares  
deram muito dinheiro para as ciências sociais via a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).  
A FINEP sustentou o IUPERJ e o Cebrap, junto com a Fundação Ford, durante toda a década  
de 1970. Deu milhões de dólares nos anos 1970 e 1980. Dinheiro dos militares. Essas  
ambiguidades: os caras cassaram todo mundo nas universidades e ajudaram a financiar os  
centros de pesquisa que acolheram as pessoas que foram cassadas. O Fernando Henrique foi  
cassado na USP e fundou o Cebrap, e o Cebrap ganhou dinheiro da FINEP por dez, doze anos.  
Dinheiro dos militares para ciência e tecnologia.  
Já tem muita coisa escrita sobre isso, e não vou entrar nessa seara, mas nós tínhamos  
muito recurso de pesquisa nas ciências humanas, porque havia, no poder público, de modo  
geral, na administração pública, entre as elites políticas brasileiras, e também econômicas,  
embora menos, a ideia de que era possível buscar respostas para os problemas da nação por  
meio de uma ciência social empiricamente bem-feita, embasada e teoricamente sustentada.  
Muita gente acreditava nisso piamente. Celso Furtado era luminar para uma elite que achava  
que sim, era possível intervir a partir do conhecimento racional, científico sobre a sociedade. E  
financiava. Como você enfrenta a desigualdade? Tem que fazer estudo sobre desigualdade.  
Como você enfrenta a pobreza? Tem que fazer estudo sobre pobreza. E não são os economistas  
que dão a resposta para isso, são os cientistas sociais.  
Havia núcleos de estudo: essa é uma outra coisa que distingue, né? A universidade em  
si mesma, com exceção de algumas grandes, USP, Unicamp, não era o lugar da pesquisa em  
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ciências humanas. O lugar eram os centros de pesquisa, que abrigavam boa parte das pessoas  
que tinham sido expulsas da universidade pela ditadura, mas também gente que tinha  
sobrevivido na universidade, que era pesquisador desses centros. Então, a pesquisa era feita  
fora, em uma dinâmica de grupos de pesquisa. Uma coisa que só foi se consolidar muito depois  
na universidade, muito por exigência do CNPq. Isso não era comum nas ciências humanas,  
exceto nos laboratórios. Hoje, todo mundo que entra aqui no IESP/UERJ, entra em um núcleo,  
dois, três. É assim que as coisas se organizam. Esse era um diferencial da formação. E, só para  
terminar, há muitas outras diferenças, mas a bolsa, hoje, é tão pequena que obriga as pessoas a  
trabalhar. A gente tinha mais tempo para se dedicar aos estudos e à pesquisa. A bolsa era  
suficiente para me manter em São Paulo. Eu trabalhava no Cebrap, mas o salário era simbólico.  
Essas são as principais distinções.  
Pergunta: Em vários momentos da sua trajetória profissional e acadêmica, você fez convergir  
variados interesses de pesquisa, passando por etnologia indígena, métodos quantitativos e por  
aí vai. Como essa convergência de interesses muito plurais e muito diversos influenciou, e  
influencia, ainda hoje, a sua produção, a sua formulação teórica? Como você considera e  
visualiza esse papel da contingência na sua trajetória profissional?  
Adalberto Cardoso: Eu me considero afortunado por ter tido acesso a essas oportunidades de  
aprender novas metodologias, e ser obrigado a enfrentar certos temas, que eu não enfrentaria se  
fosse por motu proprio. Não cheguei a fazer etnologia, mas eu considero a forma como eu  
trabalhei o discurso do Luís Flávio Rainho, no relatório final da pesquisa de iniciação científica,  
uma análise de discurso à la antropologia. O estruturalismo lévi-straussiano, que eu li com  
bastante cuidado e interesse. Isso foi uma busca minha. É fundamental você dominar o método.  
Mas o método não pode ser um fetiche. Se você não domina os métodos disponíveis,  
qualitativos, quantitativos, você não sabe que pergunta você pode fazer. Você tem que estar  
aberto à possibilidade de fazer perguntas que você não vai ser capaz de responder com os  
métodos que você domina. Para você ser, justamente, obrigado, e a gente é obrigado o tempo  
inteiro, a buscar métodos novos, para responder àquelas perguntas.  
Aquela história do Marx, de que nenhuma época faz perguntas que não pode responder,  
não vale para a ciência. A ciência tem que fazer perguntas que não pode ainda responder, senão  
não avança. Então, o domínio dos métodos é necessário para você dar respostas rigorosas às  
suas perguntas, mas é preciso que isso tenha flexibilidade para abertura ao novo. Um dos  
problemas da diferença em relação à prática formadora de antes é que, hoje, a frouxidão em  
263  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
relação ao rigor científico está na fronteira do inaceitável. Isso não só no Brasil, mas no Brasil,  
em particular, fez com que a ciência social tenha perdido, em parte, a sua significância ou a sua  
importância no debate público. Não é só por causa do neoliberalismo, do combate às ciências  
humanas no mundo inteiro. Teve esse desleixo metodológico na construção dos problemas. Na  
escolha de métodos. Na escolha de evidência empírica.  
Acho essa uma mazela crescente e inevitável por várias razões, e uma delas, embora não  
a principal, tem a ver com os prazos. Você tem que produzir muito rápido o tempo todo, né? O  
desleixo tem a ver um pouco com isso. Dominar o máximo possível, porque ninguém domina  
tudo, mas o máximo possível de possibilidades de análises quantitativas sobre um fenômeno  
social qualquer, e das possibilidades abertas de análise qualitativa do mesmo fenômeno, e você  
olhá-lo de várias formas e maneiras possíveis, dentro daquilo que você domina, te permite mais  
do que quando não se usa essa multiplicidade. Te permite dizer coisas mais plausíveis sobre  
aquilo que está ali. Essa é a diferença. Tem que convencer o leitor. Você pode achar diferente.  
Mas, então, me mostra diferente; eu estou aberto às várias possíveis interpretações disso, mas  
essa que eu estou te oferecendo, no momento, é que a mim parece ser a mais, ou, pelo menos,  
muito plausível. Não é a verdade, mas… Quer disputar? Traga uma coisa diferente e vamos  
conversar. É assim que se avança nas ciências sociais. O método é para você fazer perguntas  
direito. Mas insisto na coisa do fetiche, porque grande parte das ciências sociais que se faz,  
achando que está se fazendo ciência dura, tem a ver com esse fetichismo do método. Esse é o  
outro lado.  
Pergunta: Você tem, de cabeça, o valor do salário do Cebrap?  
Adalberto Cardoso: É impossível. Eu entrei no Cebrap em 1983 e saí em 1996. Em 1989, o  
Brasil teve mil e duzentos por cento de inflação. O dinheiro que eu recebia entrava em uma  
conta do Banco do Brasil, que tinha remuneração diária. Overnight. A remuneração  
acompanhava a inflação. E alimentava a inflação. Então, a gente não tinha noção de preço. Não  
tinha parâmetro. A única coisa que eu sei é que eu vivia uma vida muito espartana. Meu amigo  
Edu (Eduardo Furia César) também era artista plástico e fazia ciências sociais… A gente  
decidiu parar de fumar. E eu fumava um maço de cigarro por dia. Hollywood. “Vamos parar de  
fumar?”. “Vamos. A gente faz junto. A gente consegue”. Parei de fumar. No final do mês, eu  
fui ao Bexiga comer um macarrão com vinho, de tanto dinheiro que sobrou do cigarro que eu  
não fumei.  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
264  
Morei em república, sempre dividindo, mesmo trabalhando no Cebrap. Eu me lembro  
da bolsa ser duas vezes o salário do Cebrap. Eu sei que era muito pouco dinheiro [risos]. Às  
vezes eu saía para comer uma massa no Bexiga, mas eu fazia comida em casa. As grandes  
coisas que eu fazia em São Paulo, que aí eu fazia mesmo, juntava dinheiro para fazer: às vezes  
ficava sem comer para comprar disco. Por um disco do Bartók, o primeiro grande importado  
que eu comprei, fiquei dois dias sem almoçar. Tinha o Festival de Jazz do MASP. Eu não perdia.  
Era caríssimo. Mas eu juntava dinheiro, ficava sem fazer coisa para ir. E o Festival de Cinema  
do MASP, que ocorria em vários lugares e era a semana inteira. Eu ficava de nove da manhã a  
nove da noite dentro do cinema [risos]. Assistia a tudo. Comprava o passe para a semana toda.  
Isso também eu não perdia. Depois de 1987, eu comecei a ganhar dinheiro com arte e pintura.  
Aí a vida mudou. Mas até ali, meu amigo, era duro.  
Pergunta: Pegando um gancho, essa mesma arte tem um papel muito significativo na sua  
trajetória inclusive, você trabalhou como artista plástico por um período considerável. E, além  
disso, em uma rede social, você ainda teve como foto de perfil, por um bom tempo, a litografia  
Desenhando mãos, do Escher. Essa obra remete a dois sujeitos compondo um ao outro e, no  
final, formando um mesmo quadro que está, simultaneamente, inconcluso e concluído. A gente  
escolheu essa imagem para direcionar algumas perguntas sobre essa faceta. Seu trabalho navega  
entre várias categorias bem clássicas: pintura, literatura, música e por aí vai. Como você se  
identifica em relação a essas nomenclaturas e categorias? E, se você puder, fale um pouco  
também sobre o seu processo criativo.  
Adalberto Cardoso: A foto do perfil na rede social era a capa do meu romance As mãos de  
Escher, justamente. São duas histórias que correm paralelas, que podem ter sido escritas tanto  
por um quanto pelo outro personagem. Essa é um pouco a ideia. O processo criativo: eu comecei  
a pintar lá em 1983, quando fui fazer esse curso de desenho com o Fajardo. Fui para o ateliê do  
Fingermann; lá, conheci o Jacques Jesion, e a gente ficou amigo. E o Jacques falou: “Cara,  
vamos abrir um ateliê. Tem um espaço ali na Frei Caneca. Eu fui lá olhar, mas eu não tenho  
dinheiro. Sozinho eu não consigo fazer”. Eu fui lá ver com ele, e era um espaço incrível. Perfeito  
para um ateliê de gravura. Ali eu comecei a pintar de verdade. Pinturas grandes.  
Em 1986, eu ganhei um prêmio no Salão Paulista de Arte: o Prêmio Aquisição. O meu  
primeiro prêmio. E, nesse ano, o Paulo Prado, que era um marchand lá de São Paulo, foi no  
meu ateliê. Aí comecei a trabalhar com ele. Em 1987, eu fiz a primeira exposição. Trinta e seis  
pinturas. Eu vendi trinta e cinco. A que sobrou está lá em casa, até hoje. Eu vivi de arte entre  
265  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
1987 e 1990. Ganhava dez vezes com arte o que eu ganhava no Cebrap. O ateliê se sustentava,  
me sustentava e ainda mandei dinheiro para a minha mãe. Foi um período bacana.  
Processo criativo: eu trabalhava no Cebrap até às seis e ia para o ateliê, e ficava no ateliê  
até às quatro, cinco da manhã. Muitas vezes cheguei depois do almoço no Cebrap, mas o pessoal  
não achava ruim, porque eu fazia as coisas que tinha que fazer. Entregava o que tinha que  
entregar. Fazia os relatórios que tinha de fazer. Então, não havia incompatibilidade. Nessa  
primeira exposição individual, o Cebrap foi lá ver. O Giannotti estava curioso; o filho dele  
também pintava. Ele foi à exposição. Ficou lá uma hora. Aí, no Cebrap, no outro dia, ele falou:  
“Você vai ter que escolher, né?”. Eu: “Como assim?”. “Você não vai conseguir levar as duas  
coisas, né? Você vai ter que escolher”. Aí eu falei: “Bem, ele gostou do que viu, né?”. Vi isso  
como um elogio. Então, falei: “Enquanto eu puder levar as duas coisas, eu vou levar”.  
Hoje, eu não me considero um artista mais. Mas eu me considero um romancista. Um  
dia, eu estava falando com o Wanderley Guilherme dos Santos. Ele também estava escrevendo  
um romance, e falou: “Mas a que horas que você trabalha? Você publica esse monte de coisa.  
Que horas você escreve?”. Eu: “Wanderley, eu acordo às sete e meia da manhã. Tomo meu café  
da manhã e, antes de ler jornal, eu sento, escrevo três horas. Todo santo dia. Aí eu vou ler jornal.  
Vou fazer as outras coisas. Pronto. Passou”. Com isso, eu escrevi quatro romances em um  
período de oito anos. Metodicamente. Sistematicamente. Claro que tem inspiração. Mas você  
tem que trabalhar. E trabalhar com o olhar da arte.  
A poesia é diferente. Eu sempre escrevi poesia na juventude, né? Meu interesse pela  
poesia voltou há quatro anos, quando, por acaso, fuçando livros lá em casa, eu achei um livrinho  
da Hilda Hilst, uma espécie de pot-pourri, nem uma antologia, vários fragmentos de poesia,  
prosa. Eu li aquilo e terminei arrepiado. Eu li em uma sentada. Voltei e li de novo. Arrepiado  
com aquilo fiquei. Falei: “Vou retomar”. Nunca deixei de ler poesia. E retomei com uma  
facilidade que me assustou, como os temas vinham. Como a métrica vinha. Comecei a ler os  
meus poemas em voz alta. Vi que aquilo fazia sentido. Quando eu vi, tinha quarenta poemas  
escritos. Cento e vinte haicais. Adoro escrever haicais. Reaprendi que eu gosto de fazer isso.  
Um prazer imenso. A poesia eu escrevo todo dia. Eu me impus como obrigação escrever um  
poema por dia, mesmo que seja uma porcaria. Aí, jogo fora. Deleto. Mas faço isso todo dia.  
Então, o meu processo criativo, hoje, que tem a ver com literatura e poesia, está muito ligado  
ao fato de que eu sou um leitor voraz. Faz parte do processo criativo você se deixar submeter  
pela literatura do outro. Eu acho que isso tudo é parte do processo criativo.  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
266  
Figure 3 - O artista pinta o sociólogo. Ilustração de Adalberto Cardoso. Acervo pessoal de Adalberto Cardoso.  
Pergunta: Ainda no contexto dos anos 1980, da redemocratização, qual a sua relação com o  
futebol? E com a Democracia Corintiana?  
Adalberto Cardoso: Olha, eu nasci atleticano, evidente. Meu pai era cruzeirense, meu irmão  
mais velho era cruzeirense. Meu primo mais velho, que foi morar conosco, era cruzeirense,  
então eu tinha que ser atleticano [risos]. Foi simples assim. Mas nunca fui fanático por futebol.  
Fui ver o Atlético em campo uma vez, quando eu morava em São Paulo, e quando o Atlético ia  
jogar contra o Santos, porque o meu grande amigo na época, Antônio Manuel Teixeira Mendes,  
era um santista fanático, e ele me disse: “Vamos ver o Santos. Você vai, vamos lá pra você ver  
o Atlético perder”. Foi a única vez que eu fui ao campo ver o Galo.  
Nunca vi o Corinthians em campo ao vivo. Por outro lado, eu era aficionado pela  
Democracia Corintiana. Por incrível que pareça, vários dos meus colegas mais próximos do  
Cebrap eram todos palmeirenses. Rapaz… Eu cercado de cruzeirenses lá em Uberlândia, e de  
palmeirenses lá no Cebrap. Mas mesmo os palmeirenses achavam bacana essa história da  
Democracia Corintiana, porque era uma diferença imensa, como eles construíram uma ação  
267  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
coletiva para mudar o modo de se gerir o futebol e até de escalar o time. Isso extravasou, porque  
entrou junto no debate da redemocratização: o Corinthians como um exemplo de como  
deveriam ser as instituições no Brasil. A participação, a horizontalidade, todos os jogadores  
tinham voz junto ao técnico, junto às direções. Você tinha conflitos, evidentemente, mas tinha  
o Sócrates como grande liderança. A Democracia Corintiana foi uma coisa extraordinária.  
Durou pouco e, enquanto durou, deu resultados. O Corinthians ganhou um monte de coisa no  
período. As pessoas iam para ver o Corinthians democrático, mas eu nunca fui. Eu não tinha  
dinheiro também.  
Pergunta: E como foi a sua transição para o Rio de Janeiro? Você poderia nos falar sobre a sua  
experiência e a sua agenda de pesquisas no antigo IUPERJ e no atual IESP/UERJ?  
Adalberto Cardoso: Eu estava no Cebrap, em um projeto com a Nadya, sobre os  
metalúrgicos… eu tinha, na verdade, conseguido um financiamento na FAPESP, para fazer um  
estudo sobre as centrais sindicais, e isso implicava aplicar um questionário em algumas  
categorias de trabalhadores da CUT e da Força Sindical, para comparar as suas atitudes. Isso  
resultou em um artigo com o Alvaro Comin, chamado Centrais Sindicais e Atitudes  
Democráticas. Depois disso, a Nadya estava interessada na reestruturação produtiva. A partir  
desse estudo com os metalúrgicos, ela me forçou a participar do congresso de fundação da  
ALAST, no México, em 1993. Ela disse: “Você tem que ir! Esse trabalho que você está fazendo  
é muito bacana. Vai ser muito bom, você tem que começar a sua carreira internacional”.  
Arrumei um dinheiro lá no Cebrap para ir, e fui. Fomos. De fato, foi muito bom, porque  
foi um congresso concorrido. Todos os latino-americanos importantes, da área da sociologia do  
trabalho… A ALAST nasceu como “Associação Latino-Americana de Sociologia do  
Trabalho”, depois virou “de Estudos do Trabalho”. Nesse congresso, a Nadya me disse que dois  
alemães estavam atrás de um pesquisador brasileiro, para tocar parte de uma pesquisa  
comparativa que eles estavam organizando. Era o estudo de setores automobilístico e têxtil, no  
Brasil, no México e na Colômbia, para testar algumas hipóteses sobre o impacto da globalização  
nas relações de trabalho e nas relações industriais. Porque tinha a hipótese de que a globalização  
ia fazer convergir os regimes de trabalho, os regimes de relações industriais, nos países latino-  
americanos. Então, foram escolhidos esses dois setores, e mais alguns estudos de caso, como a  
petroquímica, aqui do Brasil; na Colômbia, foi um outro setor de que não me lembro. Enfim,  
não importa. Eu fiquei responsável por quatro estudos de caso. Dois estudos de automobilística,  
e dois na indústria têxtil. Foi por esses alemães, o Rainer Dombois e o Ludger Pries, que eu me  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
268  
meti nesse projeto, que… levou a várias coisas. Várias viagens ao México, à Colômbia… eles  
vieram ao Brasil algumas vezes. Foi um projeto bem intenso, que terminou em 1996.  
Figure 4 Gabriela Arango, Marcia Leite, Consuelo Iranzo, e Juan José Cortillo. Congresso de fundação da  
ALAST, México, 1993. Acervo de Adalberto Cardoso.  
Eu terminei a minha parte da indústria têxtil já no Rio, quando o projeto já tinha acabado.  
Mas eu tinha o compromisso de terminar. Eu já não estava ganhando nada, mas fiz, mesmo  
assim, o estudo de caso, aqui na Fábrica de Tecidos Bangu. Esse projeto teve um resultado não  
antecipado: fizemos a última reunião na Alemanha. Inicialmente, o Ludger morava no México.  
Nesse momento, o Rainer tinha uma relação muito sólida na Colômbia. E eles precisavam de  
alguém no Brasil. E o Ludger voltou para a Alemanha, então a última reunião de trabalho do  
projeto foi lá. Eu fiquei hospedado na casa dele e, fuçando a biblioteca dele, a gente  
conversando, eu disse que a gente estava pensando em fazer um projeto sobre destinos  
profissionais dos demitidos da indústria automobilística, né?  
Nos estudos sobre reestruturação, o que a gente estava vendo era um número imenso de  
demissões, que estavam acontecendo na automobilística e na indústria têxtil também. A fábrica  
que eu estudei, em São Paulo, tinha perdido 30% dos seus operários, só no período em que eu  
estava fazendo a pesquisa. É uma coisa avassaladora, então isso chamou a nossa atenção, minha  
e de Nadya, e nós decidimos estudar esse tema através de trajetórias ocupacionais. Para onde  
269  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
essas pessoas estavam indo? O Ludger abriu um sorriso, meteu a mão lá nos livros dele, e tirou  
dois trabalhos que ele tinha feito no México, sobre isso. Duas brochurinhas, em que ele  
analisava exatamente isso: o que acontecia com as pessoas que estavam perdendo o seu  
emprego. Ele estava interessado nas trajetórias do informal para o formal, e do formal para o  
informal. Em que período da vida das pessoas isso acontecia. Ele fez um trabalho muito…  
artesanal. Com alguns poucos estudos de caso, mas uns gráficos muito elegantes de como as  
pessoas entravam na informalidade, saíam, voltavam, em que momento ficavam para sempre  
fora do mundo do emprego formal.  
Ele me deu, além disso, três outros livros de metodologia de análise de dados  
longitudinais. Em inglês. O cara mais importante disso, na época, era um alemão. O Hans-Peter  
Blossfeld. E tinha ali, no que ele me deu, alguns artigos desse Blossfeld, que eu usei muito no  
meu livro sobre transição ocupacional a partir da indústria automobilística. Eu voltei para o  
Brasil com esses livros debaixo do braço. Na verdade, um desses de metodologia eu li em  
Frankfurt. Eu esperei, sei lá, dez horas [risos] a baldeação do voo enfim, li um deles lá. E o  
outro, quase todo, na viagem de volta. Quando eu cheguei em São Paulo, fui ao Cebrap, com  
os livros debaixo do braço, e falei: “Nadya, a gente mirou no que viu e acertou no que não viu,  
porque o Ludger me abriu muitos caminhos, olha só isso aqui”. Ela ficou super entusiasmada.  
A partir daí, a gente começou a trabalhar trajetórias.  
Fato é que, por causa desses estudos, a Alice Rangel de Paiva Abreu me convidou para  
participar de um seminário aqui no Rio de Janeiro, no final de 1994. Eu vim para esse seminário,  
e fiquei responsável por fazer um comentário sobre uma das sessões. Recebi os textos antes, li  
e no hotel preparei um comentário elaborado sobre os textos. Ao final da sessão [risos], o cara  
que eu estava comentando me chamou: “Escuta, você já publicou isso que você escreveu?”. Eu  
falei: “Não, isso é uma reação ao trabalho de vocês. Eu fiz aqui”. Aí ele ficou super  
entusiasmado. Era o Gary Gereffi, um cara que estudava cadeias de valor. Cadeias produtivas  
mundiais. Ele estava interessado, por exemplo, na cadeia de valor do Walmart, e também das  
indústrias, né? Indústria têxtil, indústria automobilística e várias outras.  
A Alice ficou muito impressionada com esse meu desempenho lá, e me convidou:  
“Escuta, a gente tá pensando em pedir uma bolsa de pós-doc. lá no IFCS, você não quer vir para  
cá?”. Eu falei: “Uai, mas eu ainda não tenho doutorado”. “Mas então você tem que defender o  
seu doutorado. Rápido”. Eu fui para cima do meu orientador, e falei: “Brasilio, eu tenho essa  
oportunidade. Vamos correr com esse meu doutorado? Ele já está pronto. É só uma questão de  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
270  
a gente correr com ele”. E, de fato, o Brasilio foi super solidário, e trabalhou intensamente,  
comigo, sobre um relatório que eu tinha feito… sobre o sindicalismo de resultados, e que virou  
a minha tese. Eu defendi em agosto de 1995. A gente entrou imediatamente com o pedido de  
bolsa. E eu tinha pedido, com essa bolsa, um dinheiro para o projeto que a gente estava fazendo  
no Cebrap, de trajetórias; mandei para o CNPq como projeto para pedir dinheiro, para fazer  
pesquisa. Ele foi aprovado, mas o dinheiro nunca saiu, porque o CNPq estava sem recursos.  
Mas a bolsa saiu. Então, eu vim para o Rio. Essa foi a razão da minha vinda para cá: o convite  
da Alice, a partir da minha inserção nas redes da Nadya Guimarães, né?  
Aqui no Rio, eu vim, portanto, para o IFCS. Eu cheguei aqui, a bolsa foi aprovada em  
março, abril, para ser implantada em agosto. Então, a partir de agosto, eu passaria a dar aula de  
metodologia no IFCS. Foi para isso que eu vim. Era uma vaga para métodos quantitativos. Daí  
eu dei a minha primeira aula no IFCS. Logo depois, as federais entraram em greve, e ficaram  
quatro meses em greve. Então, eu pude usar esse tempo [risos] para terminar um monte de coisa  
que eu tinha feito no Cebrap, que tinha forma de relatório de pesquisa. Comecei a produzir  
loucamente os artigos e coisas que tinham ficado represadas. Foi assim que eu publiquei um  
mundo de coisa, em 1997, 1998, 1999… dois livros em 1999, outro livro em 2000, tudo por  
causa daquela coisa represada pelo Cebrap, muito projeto, relatório tinha pouco tempo para  
dar tratos à bola, transformar em trabalhos acadêmicos mais elaborados.  
Ainda durante a greve, pintou um concurso no IFCS. E a Alice falou: “Você tem que  
prestar esse concurso. Você não terá competidores, porque a pessoa que possivelmente  
competiria com você, e que está aqui conosco há dois anos, como pós-doc., disse que não vai  
prestar”. Naquela época, não tinha tanto doutor na praça. [Risos] Doutor era uma coisa mais  
rara. Então, falei: “Tá bom, eu vou prestar”. Embora fosse uma coisa que não tivesse nada a ver  
comigo. Era uma cadeira de métodos histórico-comparados. Sociologia histórico-comparada.  
Quem idealizou o concurso foi a Elisa Reis. Essa era a área de trabalho dela. Então, eu fui  
aprender, né?  
Passei dois meses na biblioteca do IFCS, lendo as coisas sobre isso. Revoluções  
comparadas, Barrington Moore e toda essa coisa. Charles Tilly. Foi ótimo, porque eu aprendi  
muito. Fui surpreendido pela Alice, em um dia em que eu estava lá estudando. Ela falou: “Olha,  
infelizmente, a pessoa que não ia prestar vai, então você vai ter competidor. Mas não se  
preocupe, porque isso é assim mesmo, se não der agora, sempre tem outra vaga”. E aí  
prestamos, e eu fiquei em segundo lugar.  
271  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
Quem estava na banca era a Maria Regina Soares de Lima. Uma das pessoas externas  
ao IFCS. A Neuma Aguiar tinha ido para Belo Horizonte. Tinha prestado concurso para a  
UFMG e tinha saído do IUPERJ, então estavam atrás de um professor de sociologia. A Maria  
Regina chegou e falou: “Ó, tem essa pessoa que prestou o concurso lá no IFCS, ficou em  
segundo lugar, mas ele tem tal perfil, o memorial dele é tal coisa. Acho que ele tem o perfil  
aqui da casa; melhor falar com ele”. O Luiz Werneck Vianna me conhecia, porque eu tinha  
publicado um artigo na Novos Estudos, que ele leu. E eu soube que ele tinha gostado muito  
dele. Foi o meu primeiro artigo sobre a Força Sindical sobre o Medeiros, na verdade, e o  
sindicalismo de resultados. O artigo tinha saído em 1992. E o Werneck falou: “Não! Claro,  
agora! Fala com ele, vê se dá”.  
A coordenadora de área, na época, era a Maria Alice Rezende de Carvalho. O diretor da  
casa era o Renato Lessa. Então, eu fui convocado pelo Renato Lessa. Ele falou: “Ó, nós temos  
essa vaga, queremos que você venha para cá. Com dedicação exclusiva, porque estamos  
transformando todos os contratos aqui em DE. A gente quer que as pessoas fiquem aqui”. Eu  
falei: “Bem, o sonho de consumo de qualquer um, né?”. Ir para o IUPERJ [risos]. Um centro  
de excelência, e não tinha graduação. Três horas por semana em sala de aula. Tempo à beça  
para trabalhar, estudar, fazer pesquisa. E com aquele corpo docente maravilhoso. Um negócio  
do balacobaco. Eu falei: “Claro. Tô nessa”. Aceitei.  
Enquanto estava nos trâmites de contratação, documentos, exame médico, eu recebo  
uma carta da reitoria da UFRJ, dizendo que eu tinha um mês para tomar posse na vaga para a  
qual eu tinha prestado concurso. A banca tinha errado. Eles tiraram uma média das cinco notas,  
mas, na verdade, o que eles deveriam ter feito era o número de maiores notas. E, como eu tinha  
tido três maiores notas, contra duas maiores notas da outra candidata, quem tinha passado em  
primeiro lugar era eu. E eu tinha um mês para tomar posse [risos]. Aí… eu fui conversar com  
as pessoas… eu conhecia a turma do IUPERJ há muito tempo, por frequentar as reuniões da  
ANPOCS e o Capelinha, um bar ali no Hotel Glória, em Caxambu, onde a gente ficava bebendo  
até às 4, 5 horas da manhã, tocando violão, cantando. A turma do IUPERJ era muito festeira.  
Eu conheci as pessoas assim.  
Então, fui falar com o Marcus Figueiredo, com quem eu tinha uma relação mais  
próxima, lá em São Paulo, porque ele estava dando aula na USP, na época. E eu fui falar com  
ele: “Olha, Marcus, eu estou nessa situação: a UFRJ me chamou, mas eu já estou nos trâmites  
para assinar o contrato com o IUPERJ. Quero um conselho”. Aí ele falou: “Olha, o Fernando  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
272  
Henrique está com um projeto de destruição da universidade pública. O projeto do Paulo  
Renato, que é um projeto do Banco Mundial, é privatizar o ensino público superior no Brasil.  
Já começou, já está havendo um processo de desfinanciamento, as federais em greve há quatro,  
cinco meses, não tem aumento de salário há oito anos”. E, na verdade, o salário do IUPERJ,  
naquela época, era três vezes maior do que o salário da UFRJ. E, “por outro lado, a Cândido  
Mendes é uma instituição muito sólida. O IUPERJ é o melhor lugar para se trabalhar no Brasil.  
Eu não pensaria nem uma vez. Nem duas, nem uma vez. Aceitaria. Ficaria no IUPERJ”. E foi  
assim que eu fiquei no IUPERJ.  
Os primeiros projetos meus, no IUPERJ, foram aqueles que eu estava trazendo do  
Cebrap. Tinha uma análise dos bancos de dados, sobre trajetórias ocupacionais, com base na  
RAIS, que eu e Nadya tínhamos construído. Comecei a trabalhar muito próximo do pessoal da  
Datamec, aqui no Rio, que depois virou UNISYS. A Datamec era responsável por rodar os  
dados da RAIS, e eu comecei a trabalhar muito próximo deles e do Ministério do Trabalho. Fui  
consultor de lá por uns quatro, cinco anos, para a construção da RAIS Migra, uma base de dados  
montada a partir da RAIS, que permite a gente acompanhar as pessoas no mercado de trabalho,  
ao longo da sua vida produtiva formal, e também validar a própria RAIS e o CAGED.  
Ajudei a criar o CAGED estatístico, que é o CAGED limpo, digamos, das impurezas, e  
que ficou mais preciso na produção de estatísticas sobre evolução do mercado de trabalho  
formal. Montamos uma metodologia para validação da RAIS, que a tornou independente da  
PNAD. Até ali, o Ministério esperava sair a PNAD de um ano para validar a RAIS do mesmo  
ano, e ver se ela não estava muito distante do emprego formal existente na PNAD. Eu disse que  
isso era um absurdo, porque a PNAD não tem absolutamente nada a ver com a RAIS, né? A  
PNAD é uma pesquisa domiciliar; portanto, de entrevistas com indivíduos. É uma pesquisa do  
lado da oferta. Do lado dos trabalhadores. A RAIS é uma pesquisa do lado da demanda. Do  
lado das empresas. São as empresas que dão a informação. Então, você não pode buscar essa  
outra fonte, que é totalmente distinta… é amostral – enfim, dei várias razões para que isso  
deixasse de ser assim.  
E a RAIS Migra permitiria, esse foi o meu argumento, a gente validar a RAIS olhando  
para trás. Isto é: a menos que tivesse uma hecatombe no mercado de trabalho, você não deveria  
esperar grandes mudanças de um ano para outro. O passado te permitiria validar a informação  
que você estava olhando. O que aconteceu no ano passado e no anterior? Essa empresa estava  
lá no ano anterior? Dois anos atrás, três anos atrás? Com isso, a gente criou esse mecanismo  
273  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
interno, algorítmico, muito simples, de automaticamente validar a RAIS, a partir da RAIS  
Migra. Eu fiquei nisso bastante tempo, porque a consultoria com o Ministério do Trabalho  
durou até 2011, 2012. Publiquei bastante coisa sobre isso, um livro, vários artigos.  
Para vocês terem uma ideia, nessa minha circulação internacional na América Latina,  
fui convidado pelo pessoal da ALAST da Argentina. Eles estavam trabalhando como  
consultores do Ministério do Trabalho argentino, na gestão do Carlos Tomada, Ministro do  
Trabalho na gestão de Néstor Kirchner, para fazer uma base de dados, a partir da versão da  
RAIS deles, de acompanhamento de trajetórias no mercado formal argentino, que é muito maior  
do que o nosso. 80% da força de trabalho assalariada na Argentina era formal. Então, era até  
mais fidedigno, no caso deles, o retrato do mercado de trabalho, a partir dos registros  
administrativos. Ajudei os caras a montar isso. Infelizmente, quando a gente começou a  
trabalhar para ter um projeto comparativo, da gente fazer pesquisa comparada Brasil x  
Argentina, teve aquela crise horrorosa lá… os Kirchner perderam o poder, o pessoal foi  
mandado embora, então a coisa não teve continuidade. Esses projetos foram todos suspensos.  
A minha transição, portanto, do Cebrap para o IUPERJ, foi facilitada pelo tanto que eu  
trouxe de lá. Em parceria sempre com Nadya, com Alvaro Comin, com a equipe… com o Chico  
de Oliveira. Isso facilitou muito a minha entrada, e essa enorme produtividade que eu tive, na  
minha chegada aqui [risos]. Foi realmente… assustador, do ponto de vista até do pessoal do  
IUPERJ, que era muito produtivo. Eu publiquei a minha tese em 1999, e um livro: Sindicato,  
Trabalhadores e a Coqueluche Neoliberal. Foi uma obra resultante de uma consultoria que  
eu dei para o Ministério do Trabalho. Quem estava como assessor lá era o Juarez Brandão, que  
tinha sido meu professor na USP, e me conhecia, e que foi perguntar para o Leôncio Martins  
Rodrigues quem devia fazer um trabalho de avaliação da estrutura sindical brasileira. O Leôncio  
falou: “Eu não tenho dúvida, é o Adalberto”. O Juarez se lembrou. Fui [risos], fiz essa  
consultoria para eles. Que virou Sindicato, Trabalhadores e a Coqueluche Neoliberal.  
Em 2000, saiu o livro sobre trajetórias na indústria automobilística. Então, foram três  
livros em dois anos, e uns… sei lá, dez artigos em dois anos. Uma loucura. Tudo, tudo, tudo  
represado do Cebrap. Porque até a consultoria que eu fiz para o Ministério do Trabalho, o  
contrato foi feito quando eu ainda estava no Cebrap. Eu terminei o estudo no final de 1997, já  
aqui no Rio, para publicar o livro em 1999. Nessa transição, foi muito importante, para mim, a  
acolhida do Wanderley Guilherme dos Santos. Porque foi ele quem abriu as portas, por  
exemplo, da editora FGV. A editora, na época, era a Alzira Abreu. No dia em que ele me viu  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
274  
pela primeira vez, ele perguntou: “Adalberto, o que você está fazendo?”. Eu tinha acabado de  
terminar o Coqueluche Neoliberal. E falei: “Isso aqui, ó!”. Pum. Dei na mão dele. Ele leu  
aquilo do jeito que ele lia: assim, dinamicamente, né? Leu lá em dez minutos, o livro, e falou:  
“Vamos publicar. Você quer publicar isso na FGV?”. Falei: “Mas é claro”. “Então peraí, vou  
pegar o telefone”.  
Daí pegou o telefone, ligou para a Alzira: “Ó, estou aqui com um livro que você não  
pode não publicar. Eu vou até fazer a orelha”. Pronto [risos]. Então foi isso, né? E ele fez a  
orelha, muito simpática, dizendo: “esse é um livro contra a maré”. Porque, na verdade, era uma  
crítica ao que já era a hegemonia neoliberal, ali no final do primeiro mandato do Fernando  
Henrique Cardoso. E “contra a maré”, porque é um livro que vai contra todos os argumentos  
dos economistas de então, sobre a rigidez do mercado de trabalho no Brasil, a rigidez da  
legislação trabalhista, enfim: todo o debate sobre empregabilidade. Um dos capítulos é uma  
crítica  
teórica  
muito  
sólida  
sobre  
a
ideia  
de  
“empregabilidade”.  
Ainda  
não  
“empreendedorismo”, que não estava na moda. Então, essa foi a minha chegada no IUPERJ.  
Pergunta: Por fim, você poderia falar sobre a internacionalização da sua carreira, que começou  
através do contato e da parceria com o grupo de pesquisadores alemães? Tanto na Europa  
quanto na América Latina…  
Adalberto Cardoso: Aqui no Rio, logo que eu cheguei, eu criei um grupo de discussão para  
montar um projeto de pesquisa. A FAPERJ, na época, estava com bastante dinheiro. Não havia  
dinheiro nos outros lugares de financiamento de pesquisa no Brasil, exceto na FAPESP. E  
também na FAPERJ. E havia a possibilidade de tentar arrumar um dinheiro para um projeto  
maior, de tipo temático, que envolvesse mais gente. E aí eu convoquei algumas das pessoas  
mais ou menos na minha estatura, digamos, mesmo momento de carreira, e alguns doutorandos  
e doutorandas, para montar um grupo de pesquisa de estudos do trabalho. Ler e debater textos  
relevantes, para dar uma nivelada em todo mundo, discutir os trabalhos de doutorado das  
pessoas que estavam no grupo. Eu ainda não tinha orientando no IUPERJ, então eram  
doutorandos do IFCS e de outros lugares, da UFF e tal. Além de alguns colegas: Marco Aurélio  
Santana, por exemplo.  
Esse grupo foi muito importante, porque a gente conseguiu fazer um grande projeto de  
pesquisa, que se chamou Trabalhar no Rio de Janeiro. Era um projeto multidimensional, que  
tentava olhar para trajetórias ocupacionais, sindicalismo e ação coletiva, participação política:  
atitudes em relação à democracia. Então, aplicava-se tanto um survey retrospectivo sobre  
275  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
trajetórias quanto um sobre atitudes em relação à democracia. Sindicalismo, como eu falei: a  
gente ia estudar sindicatos de telecomunicações, o sindicato de metalúrgicos do Rio de Janeiro.  
Havia propostas de estudos de caso na nascente indústria automobilística do Sul Fluminense.  
Foi um projeto imenso. Cento e trinta páginas. Nós submetemos à FAPERJ uma vez, outra vez,  
e ele nunca foi aprovado. Minto: na segunda vez, ele foi aprovado, mas não foi implantado,  
porque não tinha recurso. Prioridades da FAPERJ na época.  
Mas isso permitiu a consolidação de laços na comunidade de estudos do trabalho no Rio  
de Janeiro. A gente organizou um grande seminário no IUPERJ sobre isso. Dois dias, com todas  
as pessoas que estudavam trabalho aqui no Rio. Todas as universidades envolvidas. Tinha gente  
da PUC, da UFF, do IFCS, eu do IUPERJ, além do Werneck, que também abriu uma das mesas.  
Foi um evento bastante concorrido… sala cheia, o dia todo. Enfim, foi superbacana. E o  
primeiro do gênero do IUPERJ voltado estritamente para os estudos do trabalho, para a  
comunidade dos estudos do trabalho. Não tinha historiadores esse foi um erro que eu cometi,  
que só fui resolver muito mais tarde. Incluir os historiadores nessa rede, né? Isso veio bem  
depois.  
Então, aqui no IUPERJ, eu desenvolvi um número bastante grande de pesquisas,  
financiadas ou não, boa parte delas tendo a ver com os projetos de produtividade em pesquisa  
do CNPq. Eu entrei no sistema do CNPq em 1997, com, justamente, o projeto de trajetórias.  
Esse foi o projeto que eu mandei para produtividade. Essa bolsa de produtividade em pesquisa  
sempre foi o estímulo mais forte para eu renovar os horizontes de investigação. Sempre fazendo  
projetos novos, ou dando continuidade a projetos já em andamento, e tal.  
Consegui financiamento na FAPERJ algumas vezes. O mais importante deles foi um  
PRONEX, em 2010, por demanda do IUPERJ. Eu estava em Paris; na época, eu tinha mais  
tempo. Alguém tinha que fazer um projeto. Um dos temas era juventude; eu estava interessado  
em juventude. Recebi um telefonema da Argelina, que era diretora de pesquisa: “Olha só, nós  
temos que mandar, estamos precisando de dinheiro aqui no IUPERJ”. Isso em 2009. Montei o  
projeto em 2010. Foi aprovado. Lá em Paris. A coisa da internacionalização: já entro nisso,  
porque a trajetória no IUPERJ está muito ligada a isso, né? É… Ainda Nadya, né? [risos]  
Quando eu ainda estava no Cebrap, houve um seminário internacional, que a Nadya  
coordenou, trazendo pesquisadores da França, da Colômbia e da Inglaterra, para tratar de  
trajetórias. Nós trouxemos Alain Degenne, Marie Odile Lebeaux, de um laboratório de estudos  
longitudinais, na França. O Olivier Barbary, francês, trabalhava na Colômbia, na época,  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
276  
também estudando trajetórias. E trouxemos o Peter Elias, um economista inglês do Institute for  
Employment Research, com quem eu teria uma longuíssima relação. Faríamos coisas juntos,  
publicações e tudo o mais. A Kate Purcell veio na segunda reunião. Nessa primeira, veio a  
Margaret Birch, também do IER.  
Esse seminário foi decisivo, deu um salto imenso nos nossos estudos sobre trajetórias.  
O primeiro artigo que eu publiquei na Dados, sobre trajetórias, eu usei a metodologia que o  
Alain Degenne apresentou nesse seminário, de criação de classes de trajetórias com análise  
fatorial de correspondência. Que era uma forma bastante inovadora de análises temporais. Dois  
anos depois, nós fizemos outro seminário. Aí eu já estava no IUPERJ. O seminário foi em parte  
aqui no Rio, e em parte no Cebrap. A gente trouxe, dessa vez, além do Peter Elias, e da Kate  
Purcell e outros lá de Warwick, o Claude Dubar. Um estudioso de socialização, construção de  
identidades profissionais. Era um pesquisador muito criativo e foi ótima a vinda dele para cá.  
Sempre via essa rede da Nadya.  
O Peter entrou na rede a partir desse convite. A gente não o conhecia; ele recebeu com  
surpresa o convite, lá na Inglaterra, evidentemente: “Quem são esses brasileiros loucos, que  
saem do nada?” [risos]. Eu não sabia, nós não sabíamos, mas ele já tinha tido uma relação  
bastante sólida com o Brasil via IBGE, porque ele tentou, no começo dos anos 1990, convencer  
o instituto a fazer uma pesquisa longitudinal. Ele deu uma longínqua consultoria para o IBGE,  
para convencê-lo a mudar o seu código de ocupação e passar a usar a ISCO (International  
Standard Code of Occupations) mais recente. O IBGE ainda usava a ISCO 67, 68, nas suas  
pesquisas. Ele falou: “Mas tem uma ISCO melhor aí, 88”. Ele foi um dos responsáveis por isso.  
A gente não sabia disso. Soubemos quando ele chegou e contou essas histórias, né? Ele já tinha  
vindo ao Rio, conhecia o Brasil e, quando ele foi convidado, achou ótimo: “Opa, vou voltar ao  
Rio”. Ele adorava o Rio de Janeiro.  
Com isso, nós montamos esse seminário financiado pela Fundação Ford com um  
projeto, uma chamada via ANPOCS. Levantamos esse seminário, e esse projeto também  
financiou idas nossas para a Inglaterra. Eu fui por um período de 15 dias; Nadya foi por um  
período de uma semana. A Valéria Pero, que também era do projeto, e, na época, trabalhava no  
CIET, que era o Centro de Investigação e Estudos do Trabalho ligado ao SENAI… Ela, hoje, é  
professora de economia na UFRJ, mas, na época, ela participou conosco no esforço de  
construção da RAIS Migra. Ela e o Luiz Antonio Cruz Caruso foram pioneiros, na verdade. A  
Nadya foi participar de um congresso não sei onde, e quem estava lá apresentando o trabalho,  
277  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
a partir dos resultados da RAIS, era o Caruso. E a Nadya chegou no Cebrap: “Opa, olha só! A  
gente está aqui pensando como fazer essa coisa das trajetórias, tem esse cara lá do SENAI que  
está fazendo. Temos que entrar em contato”.  
Bom, aí entramos nessa rede do SENAI, para construir uma base de dados para  
demitidos da indústria. Assim nasceu a RAIS Migra. O nosso interesse, inicialmente, era  
também a indústria, porque… era isso que estávamos estudando no Cebrap. Mas logo ficou  
claro que não era suficiente, porque o pessoal demitido não voltava mais para a indústria. Ia  
para o comércio, para os serviços, ou ia para a informalidade. Então, a gente tinha que olhar a  
economia como um todo, né? Foi assim que saiu a iniciativa de procurar o Ministério do  
Trabalho, para além do SENAI, para tentar construir uma base de dados mais geral, que pegasse  
a economia como um todo, e foi isso que aconteceu. Quando a RAIS Migra nasceu com esse  
nome, já era uma base de todo o mercado formal de trabalho.  
Essas idas de curta estadia na Inglaterra, no meu caso, foram sobretudo para  
levantamento de bibliografia. A gente não tinha portal de periódicos, não tinha acesso às  
grandes revistas acadêmicas europeias… Então, eu passei esses períodos de curta duração, na  
Inglaterra, fazendo levantamento bibliográfico, copiando capítulos de livros, copiando artigos  
de revistas, etc., enchendo a mala [risos]... e comprando livros, evidentemente. Isso foi da  
primeira vez que eu fui, em 2001, ou 2002. Já não me lembro.  
Quando eu fui em 2004, aí já para ficar seis meses, na Universidade de Warwick, as  
coisas já estavam bastante mais avançadas nessa área da digitalização das revistas. A Inglaterra  
tinha uma rede pública, para todas as universidades públicas, como é o portal de periódicos da  
Capes, para acesso às revistas que existiam em linha. Não só as inglesas, mas as revistas em  
linha no mundo. Ali, eu pude levantar bibliografia sem precisar imprimir, botando em disquete  
textos franceses, italianos, britânicos, espanhóis, portugueses, norte-americanos, etc., sobre os  
temas que me interessavam na época. Trajetórias ocupacionais, ação coletiva, sindicalismo,  
mercado de trabalho, mobilidade ocupacional de modo geral, estrutura social, desigualdade.  
Vocês não fazem ideia da quantidade de material que eu levantei; nem tudo eu li. Essa  
coisa, você monta uma biblioteca: “um dia eu vou precisar disso”. Várias coisas eu não precisei,  
nunca; mas uma boa parte… não sei nem se a maioria, foi compor a minha cesta de pesquisas  
a partir daí. Foi um período muito produtivo, também. Eu escrevi muito. Escrevi três artigos  
enquanto eu estava lá. Eu tinha uma vida monástica. Lia todo dia. Eu morava em um  
apartamento dentro da universidade. Ia a pé para o escritório, todo santo dia. Almoçava por lá,  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
278  
ou levava um sanduíche para comer com o Peter Elias. Essa vida monástica me permitiu ler  
muito, escrever muito, e foi assim… Eu estava num monastério [risos], e foi um período de  
total reciclagem.  
Eu voltaria à Inglaterra não mais para ficar longos tempos, mas continuei indo e vindo,  
nessa relação com eles, por mais três ou quatro anos. Nesse meio do caminho, encontrei, um  
pouco casualmente, em termos acadêmicos, com o Edmond Préteceille, que era casado com a  
Licia Valladares, com quem eu convivia no IUPERJ. Ela era do IUPERJ quando eu cheguei,  
mas, logo em seguida, passou a ficar mais tempo na França do que no Brasil, até que ela prestou  
um concurso em Lille e ficou definitivamente por lá.  
Nessas idas e vindas, a Licia me convidou para o casamento dela com Edmond. Já tinha  
o Eurostar, e fui. Foi uma coisa curiosa, porque o Edmond estava atrás de um parceiro no Brasil.  
E mencionou isso no casamento dele, rapidamente: “Ah, pois é, inclusive, depois a gente  
conversa sobre isso”. Depois disso, eu me tornei mais assíduo na França. Um pouco pelas  
relações do pessoal da rede de trabalho, mas também porque o Edmond me propôs escrever um  
artigo comparando Rio de Janeiro e Paris, na temática das desigualdades urbanas. Em especial  
a segregação espacial urbana, levando, se possível, em consideração a questão de raça, mas  
também de classe social. Eu achei o convite assim: “Bom, lá vou eu, né? Abrir uma outra janela.  
Sociologia urbana. Vamos estudar segregação urbana, desigualdades urbanas? Vambora”. E  
pronto.  
Então, eu trouxe, para o Rio de Janeiro, bastante coisa sobre essa questão. Fui aprender  
metodologias de análise de segregação. Fui ler estudos urbanos de maneira mais sistemática.  
Sempre li isso, porque são áreas muito afins, em vários sentidos. Só que a sociologia urbana é  
mais multidisciplinar. O urbano é tudo, né? É escola, é transporte, é habitação, é pobreza, é  
desigualdade. É violência. Então, fui trabalhar com o Edmond, e a gente conseguiu… deu uma  
trabalheira louca, a gente tinha que tornar compatíveis a nossa classificação de ocupações com  
a classificação francesa de ocupações. Para trabalhar com classe social a partir de ocupação,  
comparando os dois países, a métrica tinha que ser a mesma. Ficamos dois anos nessa  
transcrição de uma classificação na outra. A gente teve que mexer dos dois lados. Tanto a  
classificação francesa precisou ser mudada quanto a classificação brasileira precisou ser  
mudada. E a gente conseguiu essa compatibilização e escreveu um artigo sobre isso. Que saiu  
em 2008.  
279  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
A partir daí, a minha cooperação virou-se da Inglaterra para a França. A partir desse  
artigo, eu pedi uma bolsa do CNPq para passar seis meses em Paris, em um pós-doc. Essa bolsa  
saiu para o segundo semestre de 2009. Voltei ao Brasil em março de 2010. Pude escrever o  
projeto sobre juventudes, um PRONEX que resultou em três livros, no final de três anos. O  
livrão sobre A Construção da Sociedade de Trabalho no Brasil, eu terminei em Paris. Levei  
todo o material de que eu precisava, de pensamento social brasileiro, tudo o que compôs os  
primeiros capítulos da primeira parte, num CD-ROM. Copiei a Brasiliana que tinha no IUPERJ,  
na época… paguei uma assistente para xerocar, escanear os livros. Levei um mundo velho de  
coisa para lá e terminei o livro lá. A parte empírica da pesquisa já tinha sido feita aqui, né?  
Então, essas saídas são importantes por isso, entendeu? Ali em 2009, nos doze anos de  
IUPERJ, eu tinha passado oito, nove anos na diretoria. E nunca parei de publicar [risos], de  
produzir muito, mesmo assim, mas… essa parada, várias coisas ficam represadas. Aí você para  
seis meses, desova um monte de coisa. E foi isso, aconteceu de novo, como tinha acontecido  
quando eu vim do Cebrap para cá. Lá, eu terminei A Construção da Sociedade de Trabalho  
no Brasil, cuja origem também remonta a 2003. Eu conto isso na introdução do livro. Tudo o  
que eu escrevia, eu botava na mão do Wanderley, né? Ele começou a fazer isso também. Em  
2002, ele tinha escrito um textinho para aquele Fórum Brasil… O fórum do João Paulo Reis  
Velloso. Era uma reunião anual, em que ele juntava intelectuais, os mais variados expoentes,  
etc., para discutir o Brasil. Ele lançava um tema, e sempre saía um livro.  
E o Wanderley tinha produzido esse textinho, de dezesseis páginas, que se chamava  
Hobbes exausto. Nele, ele discutia a centralidade, ou não, da desigualdade para o  
funcionamento da democracia. Olhando o mundo inteiro, ele mostrou que a desigualdade era  
presente em, praticamente, todas as democracias. Você não tinha grandes desigualdades, como  
o Brasil, mas você tinha, em alguns casos, desigualdades muito grandes, como nos Estados  
Unidos, na Espanha, e outros lugares em que a desigualdade era importante, mas isso não  
colocava em risco o princípio da democracia.  
Você tinha países com desigualdade até importante, índice de Gini acima de 40, por  
exemplo, estáveis democraticamente. Então, ele achava que a questão mais importante não era  
tanto a desigualdade, mas a relação entre desigualdade e pobreza. Isto é, ao longo da  
modernização, os países se mantêm desiguais, mas as pessoas vão deixando a condição de  
pobreza. Deixam de ser escravas da necessidade, alguma coisa assim… Essa sociedade pode se  
estabilizar, mesmo que os ricos tenham lá os seus navios, os seus iates, e não sei o quê, desde  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
280  
que os mais pobres tenham o seu carro, possam sair de férias, possam usufruir da liberdade que  
o capitalismo permite. Nesse sentido de liberdade de acesso a bens de consumo e qualidade de  
vida. Então… isso seria uma condição para a sustentabilidade da democracia, mais do que a  
questão propriamente dita da desigualdade.  
Estou falando desse texto nesses termos porque nisso está, também, o recheio do que eu  
mesmo coloquei nele. Isso é o que eu vi nele, está certo? Esse texto teve um grande impacto na  
minha agenda de pesquisa, porque… nesse mesmo momento, a Celi Scalon estava no IUPERJ,  
na época, coordenando o programa do International Social Survey Program (ISSP) que tinha  
acabado de fazer uma pesquisa sobre percepção da desigualdade no Brasil. Era uma pesquisa  
internacional, feita em onze, ou doze, ou dezenove países, já não me lembro, mas muitos países,  
e o Brasil conseguiu ser incluído nela. Ela me convidou para escrever um capítulo do livro que  
ela estava organizando a partir desse survey.  
E eu fui explorar essa ideia do Wanderley. O meu capítulo trata disso, nesses termos  
que eu falei aqui, só que, enfim, vou mais adiante. Tento levar mais a fundo essa ideia do  
Wanderley. E isso fermentou, e, a partir desse texto, publicado em 2004, foi o que eu fiz da  
vida, né? Investigar… me pus a ler sobre essa questão de por que a desigualdade no Brasil é tão  
persistente, e talvez seja uma das razões de por que a nossa democracia é tão instável.  
Figure 5 - No IESP, com Wanderley Guilherme dos Santos. Sem data. Acervo de Adalberto Cardoso.  
281  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
O tema da instabilidade da democracia não entrou no meu livro de 2010. Eu me ative à  
questão de por que a nossa desigualdade é tão persistente. Fui buscar os mecanismos mais  
profundos de reprodução das desigualdades. As engrenagens mais profundas. Desde sempre que  
o Brasil se conhece, ou que se tem estatística sobre a desigualdade de renda no Brasil, ela é sempre  
muito alta. O nosso processo de modernização foi diferente do processo europeu. A desigualdade  
se manteve, em muitos casos aumentou muito, sem que a maioria da população deixasse a  
condição de pobreza. O que impedia, por exemplo, que as pessoas legitimassem não só o regime  
político, mas a própria ordem social.  
Esse livro foi, até então, com certeza o mais importante que eu tinha publicado. O  
argumento permaneceu no meu horizonte por muito tempo, ainda. A minha intenção era escrever  
um segundo volume. Não consegui. Eu consegui escrever um capítulo para um livro, que resumia  
o que seria o segundo volume. Esse capítulo eu introduzi na segunda edição do livro, né? Que  
virou o capítulo 5. Mas, felizmente, como eu falo até na introdução da segunda edição, vieram as  
teses do Alexander Englander e do Tomás Garcia Coelho. Ainda que com perspectivas distintas,  
obviamente… a do Tomás, menos. A do Alexander, mais claramente distinta. Mas que, do meu  
ponto de vista, cumpriram essa função de tapar os buracos que ficaram ali. Além desse capítulo  
que eu escrevi. Então, a coisa do IUPERJ é um pouco isso. Eu continuei indo e vindo, né? Passei  
outro ano, dessa vez, um ano inteiro, na França. Em 2018-2019. Um pouquinho antes da pandemia.  
Foi outro período altamente produtivo. Lá eu fiz… de novo, na França, a segunda edição d’A  
Construção da Sociedade de Trabalho no Brasil, escrevi o livro sobre bolsonarismo, e publiquei  
dois romances. Que [risos] que já estavam prontos há muito tempo, mas eu publiquei na Amazon.  
Então, foi um ano superprodutivo de novo. Essas saídas são importantes.  
Pergunta: Uma última pergunta, para amarrar esse conjunto. A gente conversou muito sobre,  
primeiro, você estar aberto. Você já entrou na graduação aberto. E, segundo, sobre os contrastes.  
Sobre como era o preparo na pós-graduação, e para pesquisa, quando você estava nessa fase, e  
depois as atualizações, principalmente com a internet. E você viveu esse período da sua  
internacionalização exatamente com essa mudança da tecnologia. Como foi, para você, ter essas  
oportunidades? Era uma coisa que você imaginava que ia acontecer na sua carreira, ou você foi  
percebendo que também fazia parte de uma ampliação da sua visão de pesquisa?  
Adalberto Cardoso: No Cebrap, eu trabalhei alguns anos com o Guillermo O’Donnell. E o  
O’Donnell foi importante, também, nessa coisa de abrir portas. Ele tinha lá o grupo de estudos  
políticos, e apareceu a oportunidade de eu ir fazer o curso de metodologia quantitativa em  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
282  
Michigan. O Vilmar Faria, que, na época, trabalhava com o O’Donnell no grupo de estudos  
políticos, além de ter, ele mesmo, o seu núcleo de pesquisa sobre desigualdade e pobreza no Brasil,  
conseguiu uma bolsa da Fulbright, para eu fazer esse curso. E eu apliquei, via os trâmites do  
próprio programa, para ter uma bolsa deles. Porque eles estavam abrindo, naquele ano,  
especificamente, em 1992, um programa de Métodos quantitativos para a América Latina. E  
estavam dando dez ou quinze bolsas para latino-americanos fazerem esse curso, passarem dois  
meses em Michigan. Eu consegui dinheiro da Fulbright e ganhei a bolsa deles, né?  
Então, eu cheguei em Ann Arbor, que é uma cidadezinha desse tamanhozinho assim, com  
cinco mil dólares no bolso. O salário do O’Donnell não era cinco mil dólares, para vocês terem  
uma ideia. E ele era pesquisador top, sênior, de carreira. Era muito dinheiro, naquela época.  
Quarenta anos atrás. Muito dinheiro! [risos] Fiquei dois meses lá, com esse dinheiro. Fiquei  
morando em uma república, onde tinha mais um brasileiro, um croata e uma norte-americana. Um  
pessoal da área de Geologia. Então, imagina: pagando 400 dólares de aluguel. Eu pude viajar. Fui  
a Chicago. Fui a Detroit. Sempre com os colegas de curso, né?  
Me lembro do O’Donnell falando: “Quando a gente pega o primeiro avião, não para mais.  
Então, você se prepara”. E, de fato, essas coisas servem para você fazer rede, você abrir o seu  
espaço. Eu conheci um monte de gente. Um mundo velho de latino-americanos. Com alguns, tenho  
relação até hoje. E gente não latino-americana, mas que eram norte-americanos latino-  
americanistas. Gente com quem mantive relações longas, por muito tempo. Então, essa foi a  
primeira experiência, de fato, internacional, certo?  
Ali, foi a primeira vez que eu entrei em uma grande biblioteca, na minha vida. A biblioteca  
da Universidade de Michigan. Um prédio de oito andares, mais três andares para baixo. Era assim:  
você entrava, você fazia a pesquisa, já no computador, e você ia lá na estante, pegar o livro. E  
aquela coisa labiríntica… eu levei alguns dias para me achar. Mas a hora em que você se acha, é  
um negócio… foi uma experiência incrível. Você chega, você quer um livro tal. Como os livros  
estão organizados por assuntos próximos, você chega naquela estante do livro tal… aqui, na  
biblioteca do IESP, você tem dez, quinze, vinte livros relacionados. Lá, você tinha mil. Mil e  
quinhentos. Né? [risos] Aquele assunto ocupava quatro, cinco, seis estantes. O tamanho da sua  
ignorância fica muito evidente. [risos] E a absurdidade que é a produção acadêmica, né? Em  
qualquer tema que vocês puderem imaginar. Isso ficou evidente para mim ali. Hoje em dia, todo  
mundo tem essa experiência. Você faz uma pesquisa na internet, essa coisa cai na sua cabeça.  
Antes, você tinha que ir em uma biblioteca para isso. E é uma experiência fascinante, e muito  
283  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
distinta de fazer uma pesquisa na internet. A pesquisa na internet raramente te permite um encontro  
acidental com um texto. A possibilidade disso é em uma biblioteca ou boa livraria. Onde as coisas  
também estão, às vezes, organizadas por assunto ou por disciplina. Na internet, você não tem isso.  
Pergunta: Em que ano foi essa ida a Michigan?  
Adalberto Cardoso: 1992. Passei dois meses lá. Com o dinheiro que sobrou, comprei uma  
passagem, fui para Amsterdã. Minha irmã estava morando lá. Passei um mês em Amsterdã, com  
ela. Olha só [risos]. Levei duas malas grandes e uma mala pequena. As duas malas grandes ficaram  
na casa de um amigo da minha irmã, em Nova Iorque. E eu fui com a mala pequena para Amsterdã.  
Quando eu voltei, não queriam me deixar entrar de volta nos Estados Unidos. Fui barrado na  
imigração. “O que você está fazendo aqui?”. “As minhas malas estão na casa de fulano de tal”.  
Eles queriam que mostrasse a passagem de volta. “Cadê a sua passagem?”. “A passagem está  
dentro da mala. O senhor pode ligar lá, ele abre a mala. Disse para o senhor que a passagem está  
lá”. Foi uma novela. Fiquei umas três horas no chiqueirinho em que eles deixam a gente lá.  
Porque eu volto de Amsterdã barbudo, né, com um violão. Então, eu era um jovem  
imigrante ilegal, evidentemente. Que tinha lá trinta e um anos de idade. Mas o cara falou: “Não, tá  
bom. Você originalmente era um J-1”, J-1 é um visto de estudante, “então vou deixar você entrar.  
Mas o senhor me garante que vai sair”. “Não, não. Eu só voltei para cá porque vai ter uma  
exposição do Matisse no MoMa, que eu vou ver, e eu já estou com os ingressos comprados”. E,  
por sorte, os ingressos estavam no meu casaco. Porque eu comprei antecipadamente os ingressos.  
Aí pude entrar. Senão, imaginem, eu teria sido deportado dali para o Brasil, sem ver o Matisse!  
Foi a primeira grande retrospectiva do Matisse no MoMa, depois de décadas! Foi uma  
experiência…  
Pergunta: Mas viu…  
Adalberto Cardoso: Vi! Opa! Eu dei uma de desentendido para cima dos caras. Tinha hora para  
entrar. Você só podia ficar duas horas, e passei o dia inteiro na exposição. Nem comi. Entrei às 10  
horas, saí de lá às 8 horas da noite, quando fechava [risos].  
Recebido em: 31/3/2025  
Aceito em: 17/5/2026