SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.
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Michigan. O Vilmar Faria, que, na época, trabalhava com o O’Donnell no grupo de estudos
políticos, além de ter, ele mesmo, o seu núcleo de pesquisa sobre desigualdade e pobreza no Brasil,
conseguiu uma bolsa da Fulbright, para eu fazer esse curso. E eu apliquei, via os trâmites do
próprio programa, para ter uma bolsa deles. Porque eles estavam abrindo, naquele ano,
especificamente, em 1992, um programa de Métodos quantitativos para a América Latina. E
estavam dando dez ou quinze bolsas para latino-americanos fazerem esse curso, passarem dois
meses em Michigan. Eu consegui dinheiro da Fulbright e ganhei a bolsa deles, né?
Então, eu cheguei em Ann Arbor, que é uma cidadezinha desse tamanhozinho assim, com
cinco mil dólares no bolso. O salário do O’Donnell não era cinco mil dólares, para vocês terem
uma ideia. E ele era pesquisador top, sênior, de carreira. Era muito dinheiro, naquela época.
Quarenta anos atrás. Muito dinheiro! [risos] Fiquei dois meses lá, com esse dinheiro. Fiquei
morando em uma república, onde tinha mais um brasileiro, um croata e uma norte-americana. Um
pessoal da área de Geologia. Então, imagina: pagando 400 dólares de aluguel. Eu pude viajar. Fui
a Chicago. Fui a Detroit. Sempre com os colegas de curso, né?
Me lembro do O’Donnell falando: “Quando a gente pega o primeiro avião, não para mais.
Então, você se prepara”. E, de fato, essas coisas servem para você fazer rede, você abrir o seu
espaço. Eu conheci um monte de gente. Um mundo velho de latino-americanos. Com alguns, tenho
relação até hoje. E gente não latino-americana, mas que eram norte-americanos latino-
americanistas. Gente com quem mantive relações longas, por muito tempo. Então, essa foi a
primeira experiência, de fato, internacional, certo?
Ali, foi a primeira vez que eu entrei em uma grande biblioteca, na minha vida. A biblioteca
da Universidade de Michigan. Um prédio de oito andares, mais três andares para baixo. Era assim:
você entrava, você fazia a pesquisa, já no computador, e você ia lá na estante, pegar o livro. E
aquela coisa labiríntica… eu levei alguns dias para me achar. Mas a hora em que você se acha, é
um negócio… foi uma experiência incrível. Você chega, você quer um livro tal. Como os livros
estão organizados por assuntos próximos, você chega naquela estante do livro tal… aqui, na
biblioteca do IESP, você tem dez, quinze, vinte livros relacionados. Lá, você tinha mil. Mil e
quinhentos. Né? [risos] Aquele assunto ocupava quatro, cinco, seis estantes. O tamanho da sua
ignorância fica muito evidente. [risos] E a absurdidade que é a produção acadêmica, né? Em
qualquer tema que vocês puderem imaginar. Isso ficou evidente para mim ali. Hoje em dia, todo
mundo tem essa experiência. Você faz uma pesquisa na internet, essa coisa cai na sua cabeça.
Antes, você tinha que ir em uma biblioteca para isso. E é uma experiência fascinante, e muito