ISSN 1517-5901(online)
POLÍTICA & TRABALHO
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 75-92
FLORESTAN FERNANDES, ROGER BASTIDE E A PALAVRA DA
MILITÂNCIA NEGRA
FLORESTAN FERNANDES, ROGER BASTIDE AND THE WORD OF BLACK
ACTIVISM
____________________________________
Paulo Henrique Fernandes Silveira
Resumo
No início dos anos 1950, por encomenda da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(Unesco), Florestan Fernandes e Roger Bastide desenvolveram uma ampla pesquisa sobre as relações raciais em
São Paulo. Contra as expectativas da Unesco, a pesquisa constatou a existência da discriminação racial no Brasil.
Entre as estratégias metodológicas adotadas na pesquisa, estavam o emprego de questionários, entrevistas e
histórias de vida, além da organização de seminários com as lideranças da militância negra. Tratava-se de registrar
a palavra de pessoas negras que enfrentavam diretamente o racismo. No livro “A integração do negro na sociedade
de classes”, publicado em 1964, Fernandes retomou seus registros da pesquisa Unesco com as contribuições da
militância negra. Esses registros estão acessíveis no Fundo Florestan Fernandes, na Biblioteca Comunitária da
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A partir de uma pesquisa documental, esse artigo visa a apresentar
e analisar as contribuições escritas e orais da militância negra na formulação das teses desenvolvidas na pesquisa
Unesco e no livro “A integração do negro na sociedade de classes”.
Palavras-chave: Roger Bastide. Florestan Fernandes. Militância Negra. Discriminação Racial.
Abstract
In the early 1950s, requested by United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO),
Florestan Fernandes and Roger Bastide developed an extensive research about racial relations in São Paulo. In
opposition to UNESCO expectative, the research ascertained the existence of racial discrimination in Brazil.
Among the methodological strategies adopted were the use of questionnaires, interviews and life stories, in
addition to the organization of seminars with leaders of black activism. It was about recording the words of black
people who directly faced racism. In the book Integration of Black People into Class Society, published in 1964,
Fernandes revisited the records his UNESCO research with contributions from black activists. These records are
available in the Florestan Fernandes Fund, at the Community Library of the Federal University of São Carlos
(UFSCar). Based on domumentary research, this article aims to present and analyze the written and oral
contributions of black activists in formulating the theses developed in the UNESCO research and in the book The
Integration of Black People in Class Society.
Keywords: Roger Bastide. Florestan Fernandes. Black Activism. Racial Discrimination.
Docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e pesquisador do Grupo de Direitos
Humanos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). E-mail:
paulo.henrique.fernandes@usp.br.
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Que a pesquisa possa contar com pessoas que têm realmente experiência, que não são
estrangeiros que vêm estudar o problema aqui, são pessoas que sofrem o problema na
própria pele. São pessoas que sentem.
(Observação em massa, 1951b, p. 542).
Introdução
No livro “A integração do negro na sociedade de classes”, publicado em 1964, Florestan
Fernandes retoma os registros da pesquisa Unesco, realizada nos anos 1950, sobre as relações
raciais em São Paulo. Utilizando-se de seminários, questionários, entrevistas, histórias de vida
e relatórios, a pesquisa Unesco enfatizou a centralidade das experiências e dos testemunhos das
pessoas negras na construção do conhecimento científico sobre discriminação racial.
No papel de coordenadores da pesquisa, Roger Bastide e Florestan Fernandes
convidaram docentes, estudantes e lideranças do movimento negro para participarem da
investigação. Alguns desses estudantes, como Ruth Cardoso, Fernando Henrique Cardoso e
Renato Moreira, tornaram-se professores da Universidade de São Paulo (USP). Entre as
lideranças do movimento que participaram da pesquisa Unesco, estavam jornalistas, políticos e
dirigentes de associações negras, como Jorge Teixeira, diretor da Associação José do
Patrocínio, e Sofia Campos, presidenta da Federação das Mulheres do Estado de São Paulo e
umas das coordenadoras da Associação das Empregadas Domésticas.
Entre os meses de maio e novembro de 1951, a pesquisa Unesco promoveu uma série
de seminários com as lideranças negras; o primeiro, na Biblioteca Municipal, os demais, na
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP (Campos, 2014). Nesse mesmo
período, Fernandes e Teixeira coordenaram encontros na Associação José do Patrocínio com
mulheres da comunidade negra.
A professora Maria Isaura Queiroz e o estudante Renato Moreira ficaram responsáveis
pela elaboração das histórias de vida. Queiroz (1989) redigiu a história de vida de uma
empregada doméstica negra que trabalhava muitos anos em sua casa. Moreira (História de
vida, 1951) elaborou as histórias de vida dos militantes Francisco Lucrécio e José Correia Leite.
Moreira também escreveu com Leite o texto “Movimentos sociais no meio negro” (2025).
No documentário “Florestan Fernandes - o mestre”, uma homenagem a Florestan
Fernandes, realizado em 2004, Antônio Candido de Mello e Souza afirma:
Ele (Florestan Fernandes) ajudou Roger Bastide a montar um dos mais belos esquemas de
análise sociológica que eu vi, eles mobilizaram a comunidade negra. Ao ins de ir
estudar o objeto, eles puxaram a comunidade negra para ser sujeito, ao mesmo tempo. Quer
77 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
dizer, o negro, a partir dessa pesquisa do Florestan e do Roger Bastide, deixou de ser objeto
de estudo, para ser sujeito de estudo: ele participar, ele falar, ele orientar, junto com os
pesquisadores
1
(Florestan Fernandes - o mestre, 2004, 18min 52s).
Como sustenta Souza (2020), ao convidarem a militância negra para contribuir com a
pesquisa Unesco, Roger Bastide e Florestan Fernandes rompem com a tradição acadêmica de
silenciamento dos grupos marginalizados da sociedade.
Os registros das diversas contribuições da militância negra para a pesquisa Unesco sobre
as relações raciais em São Paulo encontram-se no acervo do Fundo Florestan Fernandes, da
Biblioteca Comunitária da UFSCar. A partir de uma pesquisa documental, este artigo visa a
apresentar e analisar a importância dessas contribuições na formulação das teses desenvolvidas
na pesquisa Unesco e no livro “A integração do negro na sociedade de classes”.
Colonialismo, racismo e ciência
No início da década de 1950, ocorreu um intenso debate na França a respeito do
colonialismo e do racismo. Esse período foi marcado pelas lutas por independência nos diversos
países colonizados pela França. Em 1950, foi publicada uma primeira versão do Discurso
sobre o colonialismo”, de Aimé Césaire. Dois anos depois, foi publicado na França, com a
tradução de Roger Bastide, Casa grande & senzala”, de Gilberto Freyre. Naquele ano, também
foram publicados “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, e “Raça e história”, de
Claude Lévi-Strauss. Como analisa a historiadora Cibele Barbosa (2018), grande parte dos
intelectuais franceses assumiu posições antirracistas sem questionar a manutenção do
colonialismo, tratava-se de cultivar uma espécie de “colonialismo esclarecido”.
Foi nesse contexto que Alfred Métraux, como um dos coordenadores do programa da
Unesco contra o racismo, encomendou, em 1950, a pesquisa sobre as relações raciais no Brasil
(Prins; Krebs, 2007). Num artigo para Le Courrier de l’UNESCO, Métraux (1952, p. 6) explica
a motivação dessa pesquisa:
1
Essa interpretação de Souza não é unanimidade no meio acadêmico. Em 2014, estudantes da Universidade de
São Paulo organizaram um encontro para comemorar os 50 anos da publicação do livro A integração do negro na
sociedade de classes. Uma das mesas do encontro ocupou-se, principalmente, em criticar o livro. Em sua
comunicação, Sidney Chalhoub (2020, 24min 40s) argumenta: Eu sou muito diferente de Florestan. (...) Eu
aprendo as coisas pesquisando. (...) Nada disso eu aprendi na militância, aprendi estudando”. Ao que parece, para
Chalhoub, as pesquisas acadêmicas devem se basear em arquivos oficiais, documentos históricos e livros teóricos,
mas não nas experiências e nos testemunhos dos militantes do movimento negro.
SILVEIRA, P. H. F. 78
Um dos dogmas essenciais do racismo é o de que homens de raças diferentes não
podem viver misturados sem condenar-se à decadência moral e física. Os racistas
proclamam que a única solução para os países em que coexistem duas ou mais raças
diferentes é a segregação absoluta. (...) O caso do Brasil constitui o argumento mais
forte que pode opor-se à crença racista. (...) Saúda-se o Brasil como um dos raros
países do mundo que tem conseguido implantar a ‘democracia racial’. (...) Vários
estudos realizados anteriormente particularmente os trabalhos históricos de Gilberto
Freyre e as investigações sociológicas de Donald Pierson, na Bahia confirmaram a
opinião favorável que o mundo formou sobre a situação racial do Brasil. (...) Com a
esperança de extrair uma lição do caso brasileiro, a UNESCO delegou às diversas
equipes de sociólogos, antropólogos e psicólogos a tarefa de completar os trabalhos
existentes por meio de estudos levados a cabo em regiões ainda não examinadas e
com grupos sociais diferentes daqueles que já foram considerados.
Essa edição do periódico da Unesco, publicada, concomitantemente, em francês, inglês
e espanhol, apresentou alguns dos resultados da pesquisa sobre as relações raciais no Brasil.
Além de textos dos coordenadores da pesquisa em cada uma das regiões do país investigadas,
o periódico publicou um texto de Gilberto Freyre, que não colaborou diretamente na pesquisa
(Maio, 1999). Em seu texto sobre os resultados da pesquisa em São Paulo, Roger Bastide frustra
as expectativas de Métraux com relação à ausência de discriminação racial no Brasil:
A urbanização e a industrialização, em conjunto com as leis trabalhistas, que se
aplicam a todos os trabalhadores, sem distinção de cor ou de origem, tendem
atualmente a substituir a ascensão de alguns poucos indivíduos pela ascensão do grupo
de cor como um todo. Mas é evidente que, por isso mesmo, o branco passa a se sentir
ameaçado nas posições privilegiadas que ocupava até agora e procura conservar seus
postos de comando frente à invasão cada vez maior de negros e mulatos. Ele tentará
criar barreiras, senão para deter, ao menos para retardar esse movimento. (...) Existe,
assim, toda uma política dirigida para encaminhar os negros unicamente para alguns
setores, como a construção de edifícios ou os trabalhos duros e sujos que o branco não
deseja realizar (Bastide, 1952, p. 9).
Além de ter empenhado poucos recursos para a realização da pesquisa sobre as relações
raciais em São Paulo, a Unesco não financiou sua publicação (Fernandes, 2017a). Ela tampouco
contribuiu para que a pesquisa fosse publicada na França ou em outros países onde atuava.
Numa carta enviada a Fernandes, em março de 1954, Bastide trata da dificuldade financeira
para publicar a pesquisa na França
2
.
Em 1953, todos os textos e relatórios que compõem a pesquisa foram publicados pela
revista “Anhembi”. Em 1955, a Universidade de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo
2
Eu deveria ter-lhe escrito vários dias, já que finalmente pude ver Éric de Dampierre na (editora) Plon. (...)
Plon estaria determinada a publicar a obra completa em uma coletânea de grande formato, mesmo com os dois
relatórios de Virginia Bicudo e Ginsberg, mas pede um adiantamento de 700.000 francos, a ser reembolsado aos
poucos após a venda do 3.000º exemplar ou seja, um subsídio de cerca de 500.000 francos, a fundo perdido. O
senhor acha que o Governo de São Paulo se comprometeria com tais quantias?” (Bastide, 1954, n.p).
79 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
financiaram a publicação da pesquisa no livro Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo
(Bastide, 1955a).
Entre 1951 e 1952, também por intermédio da Unesco, Métraux financiou as pesquisas
e as publicações, em duas ou três línguas, de uma série de brochuras que tratam do racismo:
“Os mitos raciais”, de Juan Comas; “Raça e biologia”, de Leslie Dunn; “Raça e psicologia”, de
Otto Klineberg; “Raça e civilização”, de Michel Leiris; Raça e história”, de Claude Lévi-
Strauss (Prins; Krebs, 2007). No início do seu trabalho, Lévi-Strauss (1970, p. 231) critica a
hierarquia das culturas e dos saberes:
Falar de contribuição das raças humanas à civilização mundial poderia ser
surpreendente num trabalho destinado a lutar contra o preconceito racista. Seria inútil
ter consagrado tanto talento e tantos esforços para mostrar que nada, no atual estado
da ciência, permite afirmar a superioridade ou a inferioridade intelectual de uma raça
com relação à outra.
Esse texto sofreu críticas duras de Roger Caillois, um sociólogo francês que trabalhava
na Unesco e que percorreu a América Latina com Métraux. Assumindo uma postura racista,
Caillois (1955, p. 65) procura justificar uma hierarquia dos saberes entre as culturas: “Se me
pedissem para apontar, de minha parte, a principal superioridade e, se possível, a incontestável
superioridade da civilização ocidental, responderia sem hesitar que é ter produzido etnógrafos”.
Segundo Caillois, as outras culturas não seriam capazes de produzir ciência.
Na última versão do “Discurso sobre o colonialismo”, que vem a público em 1955,
Césaire (2010, p. 63) refere-se a esse texto de Caillois: “Ia esquecendo o ódio, a mentira e a
arrogância. Ia esquecendo o senhor Roger Caillois”. Césaire compara Caillois com o escritor
Henri Massis, que, em 1927, escreveu o livro “Defesa do Ocidente” contra a perigosa e nefasta
influência da cultura oriental. Tanto Massis quanto Caillois se colocariam como heróis
salvadores do Ocidente.
Em suas análises, Césaire (2010, p. 65) apresenta uma síntese das posições defendidas
por Caillois:
Que o Ocidente inventou a ciência. Que somente o Ocidente sabe pensar; que nos
limites do mundo ocidental começa o tenebroso reino do pensamento primitivo, o
qual, dominado pela noção de participação, incapaz de lógica, é o protótipo mesmo
do falso pensamento.
A principal crítica de Césaire refere-se à apropriação que Caillois faz da lei da
participação, criada por Lucien Lévy-Bruhl, segundo a qual as pessoas das culturas indígenas
compreendem-se como participando, ao mesmo tempo, da essência dos seres humanos e dos
SILVEIRA, P. H. F. 80
animais. Nessa perspectiva, essas culturas não seguiriam o princípio lógico da não-contradição.
Segundo Césaire (2010), em determinada etapa das suas pesquisas antropológicas, Lévy-Bruhl
abandonou sua lei da participação e passou a reconhecer que, do ponto de vista lógico, a mente
das pessoas indígenas não difere em nada da mente das pessoas ocidentais.
Um parágrafo desse livro de Césaire foi utilizado como epígrafe do Pele negra,
máscaras brancas”, de Frantz Fanon. Posto que o livro de Fanon foi publicado em 1952, naquele
momento, ele teve acesso à primeira versão do livro do Césaire, onde não estavam suas
críticas às posições de Caillois. Todavia, acompanhando outros textos de Césaire,
especialmente, seus poemas, Fanon também denuncia as posições colonialistas da ciência
ocidental. Os argumentos de Fanon (2008, p. 159) dirigem-se contra o universalismo que
silencia as experiências das pessoas negras:
Apenas abri os olhos que tinham vendado e querem me afogar no universal? E os
outros? Aqueles que “não têm boca”, aqueles que “não têm voz”. Tenho necessidade
de me perder na minha negritude, de ver as cinzas, as segregações, as repressões, os
estupros, as discriminações, os boicotes. Precisamos botar o dedo em todas as chagas
que zebram a libré negra.
Seminários, questionários, entrevistas e histórias de vida
Em seu mestrado sobre o tema, Antônia Campos (2014) analisa as contribuições de
diversas pessoas do movimento negro na pesquisa Unesco. Além das pessoas citadas nos
trabalhos de Bastide e Florestan (1955), as transcrições dos seminários, questionários,
entrevistas, histórias de vida e relatórios nos permitem identificar outras pessoas que também
colaboraram com a pesquisa.
Participaram da pesquisa Unesco mais de 40 pessoas negras, entre as quais: Edila
Nogueira; Nair Pinheiro; Maria de Lourdes Rosário; Maria Aparecida Camargo; Sofia Campos
Teixeira; Benedita Vaz Costa; Maria Nascimento; Maria José Santos; Maria Helena Barbosa;
Ruth de Souza; Nilza de Vasconcellos; Jorge Prado Teixeira; José Correia Leite; Nestor Borges;
Francisco Lucrécio; Luiz Lobato; Geraldo Campos de Oliveira; Jayme Aguiar; Arlindo Veiga
dos Santos; José Pelegrini; Raul Joviano do Amaral; Carlos de Assumpção. Além dessas
pessoas negras que militavam no movimento negro, a docente Virgínia Bicudo também
colaborou com a pesquisa.
Em 1950, Bastide e Florestan participaram do I Congresso do Negro Brasileiro,
realizado no Rio de Janeiro. Ali eles estiveram com algumas lideranças negras paulistas que
participariam, no ano seguinte, da pesquisa Unesco, como Jorge Prado Teixeira (Nascimento, 1982).
81 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
Nos semirios promovidos pela pesquisa, algumas lideraas negras afirmam ser amigas de
Bastide. O outro ponto de contato entre os professores da Universidade deo Paulo e a militância
negra era Antonio Candido de Mello e Souza, que fazia parte da Esquerda Democtica, na qual
militavam: Sofia Campos Teixeira, Francisco Lucrécio, Luiz Lobato, e Geraldo Campos Teixeira,
lideraas negras que colaboraram com a pesquisa Unesco (Sotero, 2015).
No projeto elaborado para a pesquisa Unesco, apresentado em abril de 1951, Bastide e
Fernandes justificam a importância da palavra das pessoas negras:
A abolição é relativamente recente. (...) Ainda hoje vivem em São Paulo alguns ex-
escravos e ex-senhores; uma das possibilidades de conhecimento sociológico desse
período consiste em explorar sistematicamente tais fontes vivas. Isso poderá ser feito
de dois modos: através de entrevistas, orientadas por um pequeno formulário; e
através de coleta de histórias de vida. (Bastide; Fernandes, 1959, p. 346).
Em “A integração do negro na sociedade de classes”, Fernandes apresenta uma
justificativa um pouco diferente: “As lacunas da documentação histórica sobre a situação
econômica e social do negro aconselharam a apelar para os testemunhos dos agentes humanos”
(2008a, p. 414, n. 95).
As entrevistas com pessoas brancas, pardas e negras encontram-se nos arquivos:
“Material de pesquisa” e “Entrevistas”. Os questionários encontram-se no arquivo:
“Observação em massa”. Os seminários com a militância negra realizados na Biblioteca
Municipal e na FFCL da USP encontram-se no arquivo: Observação em massa (situação
grupal)”. As reuniões com mulheres negras realizadas nessa mesma faculdade encontram-se no
arquivo: Reunião com mulheres negras”. Os seminários com mulheres negras realizados na
Associação José do Patrocínio encontram-se no arquivo: Seminários (Associação José do
Patrocínio)”. As histórias de vida de José Correia Leite e de Francisco Lucrécio, coletadas e
redigidas por Renato Moreira, encontram-se no arquivo: “História de vida”. Não foi localizado
o arquivo com a história de vida coletada e redigida por Maria Queiroz.
O arquivo “Material de pesquisa” traz as transcrições de entrevistas e observações da
colaboradora Marialice Foracchi, em sua pesquisa de campo em fábricas de massas e de café.
O arquivo “Estudos de caso II” traz as transcrições de entrevistas e observações registradas pela
mesma colaboradora e por Florestan Fernandes, em pesquisas de campo no Jacareí e em outros
cortiços do bairro da Bela Vista.
O intelectual e militante do movimento negro Jorge Teixeira foi convidado por Bastide
e Florestan para ser secretário da Comissão para o Estudo das Relações Raciais da Pesquisa
SILVEIRA, P. H. F. 82
Unesco. No primeiro seminário, realizado na Biblioteca Municipal, em 8 de maio de 1951,
Teixeira afirma que foi escolhido para ser secretário pelo fato de estar cursando sociologia. Ao
apresentar os objetivos da pesquisa, no mesmo seminário, Bastide argumenta:
Falando deste assunto com meu amigo Jorge Teixeira, ele teve a ideia muito feliz de
fazer uma mesa redonda para discutir entre nós este preconceito de cor, ou da
existência de miscigenação racial asiática. Foi por isso que pedi o comparecimento de
alguns intelectuais negros e dos líderes de cor, assim como de alguns estudantes
brancos que se interessam pelo problema racial. (Observação em massa, 1951b, p. 1).
Além de presidir e coordenar alguns encontros dos seminários, Teixeira foi um dos
responsáveis por convidar as lideranças negras para colaborarem com a pesquisa. Teixeira
também elaborou os relatórios: “Arregimentação eleitoral e politização no meio negro”
(Estudos de caso, 1951) e Casamento de negros qualificados na classe alta da comunidade
negra” (Fichas, 1951).
Sempre atraindo um grande público, os seminários e mesas-redondas realizados na
FFCL da USP transcorreram durante todo o ano de 1951, geralmente, às terças-feiras, a partir
das 20h30. Cada encontro trouxe um ou mais temas para o debate, aberto para a participação
de todas as pessoas do auditório. Os militantes do movimento negro foram convidados para
apresentarem conferências sobre os temas debatidos.
As conferências apresentadas durante os seminários foram: “O preconceito racial no
Brasil”, por Vicente de Paula Custódio, representante da Irmandade Nossa Senhora do Rosário
dos Homens Pretos; “O problema do negro no Brasil”, por Edgard Sant’Anna; “O elemento
negro na população de São Paulo” e “Reflexões sobre o preconceito”, por Raul Joviano Amaral;
“Evolução da situação de contato”, por Sofia Campos Teixeira; “Comportamento da polícia e
do juizado de menores com relação ao elemento negro”, por Adélio Silveira; “Brancos e negros
numa sociedade de classes”, por Luiz Lobato; “Situação econômica do negro brasileiro”, por
Nestor Borges (Observação em massa, 1951b).
O último seminário, excepcionalmente realizado num sábado, dia 17 de novembro de
1951, às 15 horas, teve a participação de Alfred Métraux e do escritor Oswald de Andrade. Em
sua intervenção, Métraux sustentou que o objetivo da pesquisa Unesco era mostrar que o Brasil
era um país livre de preconceitos: “Será uma prova, uma demonstração concreta das
possibilidades de convivência” (Observação em massa, 1951b, p. 695). No decorrer do
encontro, sua posição foi criticada por diversos intelectuais e militantes do movimento negro.
83 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
O questionário para pessoas negras e pardas aplicado na pesquisa tratou das seguintes
questões e temas: 1- Como vive em São Paulo?; 2- Quem são seus amigos?; 3- Em que
trabalha?; 4- Quais são as suas diversões?; 5- Como gasta o seu dinheiro?; 6- Ideias religiosas;
7- Ideias políticas; 8- Ideias raciais; 9- A convivência com os brancos; 10- O que se deveria
fazer para melhorar a situação do preto em São Paulo?; 11- A sociedade em que gostaria de
viver (Observação em massa, 1951a).
O arquivo “Entrevista com pretos” traz quatro modelos de formulários para as
entrevistas: 1- entrevistas formais com pessoas brancas; 2- entrevistas ocasionais com pessoas
brancas; 3- entrevistas formais com pessoas negras e pardas; 4- entrevistas ocasionais com
pessoas negras e pardas. Os arquivos com as transcrições das entrevistas mostram que a maior
parte delas foi ocasional e anônima (Material de pesquisa, 1951; Entrevistas, 1951). As
entrevistas realizadas não perpassaram todas as questões dos formulários. Algumas entrevistas
ocorreram com as pessoas negras que participaram dos seminários. As formas de preconceito
comuns no Brasil foram um tema presente nos quatro modelos de formulário.
Os coordenadores e alguns dos colaboradores da pesquisa Unesco escreveram sobre as
peculiaridades da história de vida como técnica da pesquisa social. Em 1951, Oracy Nogueira
(1969) ofereceu um curso sobre técnicas da pesquisa social na Escola Livre de Sociologia e
Política. Suas anotações de aula sobre a história de vida foram publicadas em 1952, na revista
“Sociologia”. A mesma revista publicou, em 1953, textos de Bastide, Queiroz e Moreira sobre
o emprego da história de vida na pesquisa Unesco. Em 1956, Fernandes também publicou um
texto sobre essa técnica.
No debate entre os coordenadores e os colaboradores da pesquisa Unesco sobre a
história de vida são apontadas algumas dificuldades no emprego dessa técnica da pesquisa
social. Segundo Bastide (1989, p. 151), a principal dificuldade no emprego da técnica da
história de vida está no perigo de as pessoas pesquisadas se preocuparem mais com as questões
psicológicas, com o desenvolvimento da personalidade na sua relação com o meio social ou
cultural do que com os fatos sociais propriamente ditos”. Atentos a essa questão, Queiroz (1989)
e Moreira (1989) procuraram extrair das pessoas pesquisadas o maior número de fatos sociais
relevantes.
Em suas análises, Fernandes indica uma preocupação semelhante no emprego da técnica
da história de vida nas pesquisas sociológicas. Para enfrentar essa dificuldade, Fernandes
(1960) defende que se empregue a história de vida associada a outras técnicas de pesquisa, tais
SILVEIRA, P. H. F. 84
como: a entrevista, o questionário e o formulário. Essa foi, justamente, a estratégia utilizada na
pesquisa Unesco. Apesar dessa dificuldade envolvendo o emprego da história de vida, os textos
dos coordenadores e colaboradores da pesquisa Unesco não questionaram a legitimidade e a
importância da palavra das pessoas negras pesquisadas.
Discriminação racial no mercado de trabalho
Desde o primeiro seminário promovido pela pesquisa Unesco, os testemunhos da
militância negra trouxeram exemplos de situações de discriminação racial. Em sua única
participação nos seminários, o militante Carlos de Assumpção afirma: “Quem melhor sabe dizer
sobre o preconceito é o negro, porque é ele quem sente” (Observação em massa, 1951b, p. 216).
3
Os exemplos citados pela militância negra são quase todos de experiências pessoais ou de
pessoas próximas. As principais situações de discriminação racial narradas relacionam-se às
barreiras enfrentadas pelas pessoas negras no ensino básico e no mercado de trabalho. Numa
de suas intervenções, a professora Sofia Campos Teixeira argumenta:
Meu aparte foi para reforçar o ponto de vista de que existe preconceito de raça,
conforme os fatos que acabam de citar. Tenho mais um. Aqui mesmo em São Paulo,
em uma organização religiosa, elas têm a franqueza de negar a matrícula das pessoas
de cor. Eu digo com conhecimento de causa: foi no colégio normal de uma cidade do
interior. A diretora negou-se a matricular uma criança, alegando que devido às
condições melhores das outras alunas, esta negrinha não podia fazer parte do Instituto,
mas falaram para o pai aguardar mais três ou quatro meses para então fazer a
matrícula, porque estavam estudando a possibilidade de construir um pavilhão para
pessoas de cor (Observação em massa, 1951b, p. 93).
Na sequência do debate, a também professora Maria Aparecida Camargo acrescenta
outro exemplo de discriminação racial no ensino básico:
Em Piracicaba, uma colega foi recusada na secretaria da Escola Normal por ser de cor
e sofreu três anos de atraso na sua vida de estudante, não podendo continuar por ser
de cor. Ela estava no pré-normal e ali permaneceu uns três anos. Foi chamada à
diretoria e o diretor lhe disse: ─ acho melhor você sair do nosso colégio, porque nós
não concedemos diploma para moças de cor. (Observação em massa, 1951b, p. 93).
Em outro encontro do seminário, o militante Francisco Lucrécio retoma esse tema com
mais exemplos:
3
Essa afirmação de Carlos de Assumpção poderia referendar as análises de Djamila Ribeiro (2017, p. 86) sobre o
conceito lugar de fala: Numa sociedade como a brasileira, de herança escravocrata, pessoas negras vão
experenciar racismo do lugar de quem é objeto dessa opressão, do lugar que restringe oportunidades por conta
desse sistema de opressão. Pessoas brancas vão experenciar do lugar de quem se beneficia dessa mesma opressão”.
85 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
Nos grupos escolares, nas escolas particulares, bem como nos parques infantis, eu tive
a oportunidade de observar, as crianças pretas não são tratadas como as crianças
brancas. (...) Isto prova que o preconceito inicia-se desde o banco escolar, já incutindo
no espírito da criança a situação de obediência e de inferioridade. Pesquisas nessas
escolas, mesmo sob a orientação do mestre, seriam de grande valor, porquanto já
atacaríamos o assunto (Observação em massa, 1951b, p. 205).
A sugestão de Lucrécio foi acolhida pelos coordenadores da pesquisa Unesco. As
professoras e pesquisadoras Virgínia Bicudo e Aniele Ginsberg foram contratadas para elaborar
dois relatórios sobre a discriminação racial em escolas de São Paulo (Fernandes, 2017a). Esses
relatórios de pesquisa foram publicados pela revista “Anhembi”, em 1953, e republicados no
livro: “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo”, editado por Bastide e Florestan.
O próprio Lucrécio ficou encarregado de elaborar com Renato Moreira o relatório: Relações
entre crianças brancas e negras em parques infantis da capital” (Estudos de caso, 1951).
No texto elaborado sobre sua história de vida, Lucrécio narra uma experiência pessoal
de discriminação racial enfrentada no trabalho:
Um dia entrei para um banco: ganhava 600.000, um dinheirão para a época. Ia muito
bem, conhecia todo mundo e arranjava bons negócios para o banco. Certa vez, houve
um desfalque e mudaram o gerente. (...) Chegou um telegrama comunicando a vinda
do novo gerente e mandando eu providenciar casa para ele. Fiquei encarregado disso,
pois conhecia a todos da cidade. Arranjei a casa, mandei limpá-la, e quando os móveis
chegaram, mandei arrumá-los. (...) Terminado tudo isso, já no banco, me manda o sr.
R.A.L. limpar os sapatos dele. Disse violentamente que tinha cuidado de suas
acomodações porque tinha ficado encarregado disso, mas era empregado de escritório
e não me cabia fazer o que me havia mandado. Negro é para isso mesmo...’,
respondeu-me. Catei-o pelos colarinhos!... (História de vida, 1951, p. 53).
Em sua história de vida, o militante José Correia Leite traça um amplo panorama sobre
as perspectivas profissionais das pessoas negras nos meios populares:
No começo da minha vida adulta, os negros tinham profissões domésticas, realizavam
todos os serviços da casa. Os cocheiros eram geralmente brancos, mas os que
cuidavam dos cavalos eram negros. (...) Nas pensões, os serviçais eram negros. Havia
mesmo lavadores de casa que faziam ponto num determinado lugar. (...) Os negros
fortes eram bem vistos para servirem como capangas. (...) Eram raros os negros que
tinham profissão; pedreiro, carpinteiro, barbeiro, alfaiate e sapateiro eram profissões
difíceis e os negrinhos aprendizes tinham dificuldade para conseguir essas colocações.
Nas fábricas, havia poucas oportunidades para os negros, pois sempre foram
propriedades dos italianos, era para quem tinha ligações com famílias italianas.
Assim mesmo, havia serviços de negros nas fábricas os que os italianos não queriam,
os serviços pesados e arriscados para a saúde. A mulher negra, ao lado das
dificuldades que encontrava e ainda encontra até hoje para ser aprendiz e chegar a ser
tecelã, somente conseguindo quando não nenhuma candidata forte, sempre foi de
tradição doméstica e, por isso, recebia emprego, quando não proteção das famílias
tradicionais. Assim, não iam parar nas fábricas (História de vida, 1951, p. 119).
SILVEIRA, P. H. F. 86
O militante Arlindo Veiga dos Santos lembrou que, mesmo sendo proibidos desde a
CLT de 1943, alguns jornais ainda publicavam anúncios racistas sobre ofertas de emprego para
empregadas domésticas: “Há anúncios com os seguintes dizeres: ‘Procura-se empregada, não
se aceita de cor’. Ou este então: ‘Procura-se empregada branca’” (Observação em massa, 1951b,
p. 65).
Em seu questionário, Jorge Prado Teixeira afirma que a discriminação racial está
presente no interior das próprias empresas: “Tenho a dizer, também, que o preconceito de cor
ou de raça domina a classe proletária no Brasil. Conheço vários casos de impossibilidade dos
negros se manterem chefes em oficinas e indústrias, por sabotagem dos colegas” (Observação
em massa, 1951a, p. 255).
Nesse mesmo sentido, o militante Luiz Lobato denuncia a discriminação racial sofrida
por pessoas negras no interior das fábricas: “Há certos operários que têm mais preconceito de
cor do que certos brancos. Eu tenho visto piqueniques, em certas fábricas, onde se passam
convites dizendo: ‘fulano não pode ir porque é preto’” (Observação em massa, 1951b, p. 69).
Lobato acrescenta outro exemplo sobre esse tema:
O dr. Sant’Anna, médico de uma instituição qualquer, foi chamado à casa de um
operário para ver sua esposa, e chegando foi repelido. O próprio operário disse:
‘Calcula se eu vou deixar um negro examinar minha mulher’. A mulher morreu e o
médico colocou isto no memorando, isto consta do Sindicato dos trabalhadores de
Marília, da folha de trabalho desse médico. (Observação em massa (situação grupal),
1951, p. 657).
A militância negra que colaborou com a pesquisa Unesco foi unânime na defesa de tese
de que, comumente, as pessoas negras conseguem colocação em serviços nos quais as
brancas não querem atuar. Um testemunho de Arlindo Veiga dos Santos endossa essa tese:
Um amigo tinha arranjado um emprego para ele na Light. Era serviço de escritório.
(...) Quando escreveu para obter o lugar, não houve nada. (...) Mas quando apareceu
para tomar posse e obter o lugar, foi barrado, porque preto só pode ser motorneiro ou
cobrador. Como era serviço de escritório, não aceitaram. Sei de casos idênticos, e
outros. Há uma infinidade de casos (Observação em massa, 1951b, p. 93).
Sobre essa forma de discriminação racial, Carlos de Assumpção oferece um exemplo
pessoal:
Chegando em São Paulo, procurando emprego, não foi possível encontrar uma
colocação onde eu pudesse agir mais à vontade, onde eu pudesse empregar o que eu
havia adquirido. Procurei então pessoas conhecidas de relevo, que pudessem me dar
uma carta de apresentação, e me mandaram à redação de um grande jornal da capital.
(...) Mas o chefe da repartição me disse: Infelizmente, não posso lhe dar o lugar
87 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
porque já foi preenchido. Como revisor, não temos vaga, mas se o senhor quiser ser
limpador, o serviço é um pouquinho duro, mas com o tempo o senhor se acostuma. A
minha situação era precária e acabei aceitando. Eles acham que o único serviço para
o negro é o serviço braçal, o serviço sujo (Observação em massa, 1951b, p. 216).
Dados do censo do município de São Paulo, de 1940, reproduzidos por Fernandes
(1955a) na pesquisa Unesco, confirmam essa distribuição de pessoas brancas, negras e pardas
entre os setores de serviços. Na indústria de transformação, a soma total de negros e pardos era
de 12.248 trabalhadores, contra 147.085 trabalhadores brancos. No comércio de mercadorias,
a desproporção era ainda maior: 2.110 trabalhadores pardos e negros, contra 43.645
trabalhadores brancos.
Essa disparidade também ocorria na distribuição das mulheres brancas, negras e pardas
entre os setores de serviços. Na indústria de transformação, a soma total de pessoas negras e
pardas era de 3.031 trabalhadoras, contra 47.957 trabalhadoras brancas. No comércio de
mercadorias, a soma total de pessoas negras e pardas era de 156 trabalhadoras, contra 5.692
trabalhadoras brancas (Fernandes, 1955a).
É importante considerar que, segundo o censo demográfico de 1940, a população de
pessoas negras e pardas correspondia a 8,19% da população total no município de São Paulo.
A partir desses dados, Fernandes (1955a, p. 56) sustenta que:
As pessoas de cor não participam, em regra, nem das garantias proporcionadas pelos
serviços bem remunerados ou de alguma representação social, nem dos benefícios
colhidos pela livre iniciativa numa economia urbana. Semelhante distribuição das
ocupações traduz a persistência das barreiras econômicas que sempre distinguiram
socialmente os representantes das duas raças no Brasil, e de antigos critérios de
seleção ocupacional associados à cor.
Acompanhando os testemunhos da militância negra, especialmente, nos debates
realizados nos seminários, Bastide reconhece que o mercado de trabalho não oferece muitas
oportunidades às pessoas negras, além dos serviços duros e sujos, todavia, indaga o sociólogo:
“A questão é saber até que ponto essa situação depende da falta de preparo do preto e em que
medida é fruto da vontade do branco” (1955b, p. 144).
Valendo-se, uma vez mais, da palavra da militância negra, Bastide destaca uma série de
situações em que fica expressa a discriminação racial nos processos de seleção de trabalho.
Somam-se a isso as barreiras impostas às pessoas negras em todas as etapas da sua formação.
Ao se referir a essas e outras barreiras num texto autobiográfico, Fernandes (1977) recupera
uma expressão que Correia Leite (2025) utiliza numa das suas contribuições para a pesquisa: o
emparedamento do negro.
SILVEIRA, P. H. F. 88
Numa de suas intervenções, Luiz Lobato faz uma análise a respeito dessas barreiras
impostas às pessoas negras:
Quanto mais elevada é a categoria social a que o negro quer chegar, maior é a probabilidade
de resisncia oposta pelo elemento branco dessa categoria social. Por exemplo: o negro
chega mais ou menos a ser dentista, contador, mas, quando quer ser bacharel, quando quer
atingir uma categoria mais elevada médico, engenheiro, advogado, maior é a barreira social
imposta ao negro (Observação em massa, 1951b, p. 653).
Uma vez refutada a ideologia de que o Brasil seria um país livre de preconceitos, onde
se colocaria em prática a democracia racial, coube a Fernandes (1955b) desenvolver um estudo
sobre a luta contra o preconceito de cor. Esse seria o primeiro de vários trabalhos de Fernandes
a respeito da organização do protesto negro.
4
No primeiro seminário promovido pela pesquisa Unesco, respondendo a Arlindo Veiga
dos Santos, que pergunta aos demais como criar oportunidades de trabalho para as pessoas
negras que não seja com a vassoura, Luiz Lobato argumenta: “Como dar essa oportunidade?
Instruindo o patrão branco, porque é ele precisamente quem não vai dar esse emprego ao negro”
(Observação em massa (situação grupal), 1951, p. 65).
Na conferência do militante Nestor Borges, ministrada no último seminário da pesquisa,
configura-se a ideia de que se deve lutar por uma “Segunda Abolição”:
De fato, as providências adotadas a fim de prover a lavoura de novos braços,
providências que nunca terminam, gastando-se com isso quantias fabulosas, deviam
ter ditado os homens responsáveis pelos destinos do país, providências idênticas no
sentido de amparar a grossa massa de trabalhadores libertos, proporcionando-lhes
também os meios necessários para a sua recuperação. Nada disso se fez até hoje,
decorridos 63 anos, em uma época em que a estabilidade econômica é a base de todo
o progresso social, só nos resta, como pensava Tobias Barreto, uma segunda abolição.
Se a primeira nos deu o título de cidadão com os direitos civis e políticos que dele
decorrem, cabe à segunda promover a nossa emancipação econômica que, bem
analisado, pertence a quase todo o Brasil (Observação em massa, 1951b, p. 735).
Em “A integração do negro na sociedade de classes”, Fernandes (2008b) considera a
“Segunda Abolição” como uma palavra de ordem para o movimento negro. Nos anos 1980,
acompanhando de perto a nova geração da militância negra que surge com o Movimento Negro
Unificado (MNU), Fernandes (2017b, p. 87) volta a defender essa mesma palavra de ordem:
O essencial é que uma abolição a ser construída e que os negros tomaram em suas mãos,
há mais de cinquenta anos, a ideia de realizar uma Segunda Abolição”.
4
Depois da pesquisa Unesco, Florestan analisou o protesto negro nos livros: “A integração do negro na sociedade
de classes”, publicado originalmente em 1965; O negro no mundo dos brancos”, de 1972; “Circuito fechado:
quatro ensaios sobre o ‘poder institucional’”, de 1976; “Significado do protesto negro”, publicado, originalmente,
em 1989.
89 Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra
Considerações Finais
Num relato sobre sua história de vida, Fernandes (1977, p. 143) afirma que suas
experiências pessoais de pobreza na infância o ajudaram a compreender as barreiras econômicas
e sociais impostas às pessoas negras: “Antes de estudar esse processo na pesquisa sobre o negro,
vivi-o em todos os matizes e magnitudes”.
Nesse mesmo texto, Fernandes afirma que, por conta da sua origem humilde, muitas
vezes, sentiu-se como um intruso” entre os colegas da FFCL da USP. No período em que a
pesquisa Unesco foi realizada, a FFCL possuía um único docente negro, Rozendo Sampaio
Garcia, professor assistente da cadeira de História da Civilização Americana (Observação em
massa, 1951b). É nesse contexto que, entre os meses de maio e novembro de 1951, o auditório
da FFCL, na rua Maria Antônia, foi ocupado por dezenas de pessoas negras, de diferentes
formações e classes sociais, para debaterem sobre as relações raciais em São Paulo, no Brasil e
no mundo.
A militância negra contribuiu de diversas formas com a pesquisa Unesco: coordenando
atividades; participando de seminários, reuniões e entrevistas; preenchendo questionários;
elaborando conferências e histórias de vida. As transcrições desses materiais foram retomadas
e reexaminadas por Fernandes em sua tese de cátedra: “A integração do negro na sociedade de
classes”.
Algumas hipóteses desenvolvidas nos textos de Bastide e Fernandes que compõem a
pesquisa Unesco e “A integração do negro na sociedade de classes” partem dos testemunhos,
lembranças, vivências, frustrações, posicionamentos, informações, ideias e análises da
militância negra, especialmente, aquelas relacionadas à discriminação racial no mercado de
trabalho.
Como sustentou o militante Carlos de Assumpção, é a pessoa negra quem melhor sabe
dizer sobre o preconceito, pois é ela quem o sente. Numa das suas falas nos seminários,
Florestan Fernandes corrobora essa tese.
A pesquisa Unesco em São Paulo foi um trabalho coletivo que conseguiu aproximar a
universidade e as associações do movimento negro, a investigação acadêmica e a luta militante,
o discurso científico e a experiência concreta. Foi assim que ela desconstruiu o mito da
democracia racial no Brasil.
SILVEIRA, P. H. F. 90
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