ISSN 1517-5901(online)
POLÍTICA & TRABALHO
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 93-114
A INTERPRETAÇÃO DE FLORESTAN SOBRE OS MOVIMENTOS NEGROS:
afinidades com as teorias dos novos movimentos sociais
FLORESTAN'S INTERPRETATION OF BLACK MOVEMENTS:
affinities with the theories of new social movements
___________________________________
Remo Mutzenberg
Eliane Veras Soares

Resumo
Em 1964, Florestan Fernandes defendeu sua tese de cátedra, “A integração do negro na sociedade de classes”.
inegável que essa é uma de suas obras mais discutidas, tendo gerado uma literatura extensa, abonando-a ou
denegando-a. “A integraçãodemarca um campo antagônico em relação às análises até então vigentes sobre a
questão racial e o modo de compreender a transformação da sociedade brasileira em uma nova ordem social, a
ordem social competitiva, conformada com o fim da ordem social escravocrata. Apesar de o livro ter se tornado
um parâmetro nesse debate, a análise sobre os movimentos negros passou ao largo da exuberante literatura
produzida sobre os movimentos sociais que marcam as ciências sociais no Brasil a partir dos anos 1970, com a
eclosão das Teorias dos Novos Movimentos Sociais. No presente artigo, expomos questões fundamentais
abordadas por Florestan Fernandes que, posteriormente, se apresentam como centrais nas emergentes teorias sobre
novos movimentos sociais, tanto do ponto de vista conceitual quanto metodológico.
Palavras-Chave: Integração do negro na sociedade de classes. Movimentos sociais no meio negro. Revolução
dentro da ordem. Teorias dos novos movimentos sociais.
Abstract
In 1964, Florestan Fernandes defended his thesis, A integração do negro na sociedade de classes. [The Integration
of the Negro in class society] It is undeniable that this is one of his most discussed works, and it has generated an
extensive literature, both condoning and denying it. His work demarcates an antagonistic field in relation to the
hitherto prevailing analyses of the racial question and how to understand the transformation of Brazilian society
into a new social order, a competitive social order, tied to the end of a social order that included slavery. Although
the book has become a landmark in this debate, an analysis of black movements has been overlooked in the
exuberant literature produced on social movements that has marked the social sciences in Brazil since the 1970s,
with the emergence of the New Social Movement Theories. In this article, we discuss the fundamental issues
addressed by Florestan Fernandes, which later became central to the emerging theories on new social movements,
both from a conceptual and methodological point of view.
Keywords: Integration of black people into class society. Social movements in black circles. Revolution within
order. Theories of the new social movements.
Doutorado em sociologia (PPGS/UFPE). Áreas de pesquisa: movimentos sociais, metodologia e sociologia em
África. Professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da UFPE e ex-membro do Programa de Pós-
Graduação de Sociologia (UFPE). E-mail: remutz@gmail.com.

Professora titular aposentada do Departamento de Sociologia da UFPE. Integrou o corpo docente do Programa
de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE (2002-2022). Fundadora, ao lado de outros colegas, da Coordenação
de Estudos de África do Centro de Estudos Avançados da UFPE. E-mail: elianeveras1@gmail.com.
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
94
Introdução
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem
sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam
diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.
(Karl Marx O 18 de Brumário de Louis Bonaparte).
Os negros precisavam sair da apatia que envergonha a raça de gigantes.
(Vicente Ferreira O Clarim da Alvorada).
O presente artigo tem como objetivo identificar paralelos entre a análise do movimento
negro, realizada por Florestan Fernandes em sua tese de cátedra defendida em março de 1964
(2008a, 2008b), com a literatura do campo dos Novos Movimentos Sociais (TNMS), que se
constituiu a partir do final década de 1960. Referimo-nos, em particular, aos autores que buscaram
um diálogo entre duas orientações analíticas, aqueles que, por um lado, buscaram inicialmente
responder o “porquê” (fatores estruturais) e, por outro lado, aqueles que privilegiaram o “como”
(fatores estratégicos) dos movimentos sociais. A partir da década de 1990, esse diálogo foi objeto
de teorização de autores como Alberto Melucci, Sidney Tarrow, Charles Tilly, David A Snow,
Robert D. Benford, Doug McAdam, John McCarthy, D. Mayer N Zald.
Equiparar as análises de Florestan sobre os movimentos negros na cidade de São Paulo,
entre 1920 e 1937, com essa literatura pode parecer anacrônico e incongruente. É inequívoco
que não encontramos uma teoria dos movimentos sociais que tenha sido medular no conjunto
das preocupações de Florestan Fernandes. O exercício que elaboramos neste artigo limita-se a
identificar como diversos temas e problemas, caros aos autores das TNMS, têm lugar na análise
que compõe os dois volumes da “A integração do negro na sociedade de classes”, mais
especificamente no primeiro capítulo do segundo volume, intitulado “Os movimentos sociais
no ‘meio negro’”. Entre outros fatores que podem explicar tais antecipações e afinidades,
destacamos o fato da sofisticada análise do movimento negro na cidade de São Paulo, em
diferentes dimensões, estar baseada no rico material empírico, resultado do Projeto Unesco e,
o mais fundamental, a perspectiva original do pesquisador, fruto da sua formação e inquietação
teórica, política, metodológica e epistemológica.
Os resultados do Projeto Unesco sobre as relações raciais entre brancos e negro na
cidade de São Paulo (Bastide; Fernandes, 1959) e a tese de cátedra de Florestan, “A integração
do negro na sociedade de classes(Fernandes, 2008a, 2008b), colocaram a questão racial como
referência primeira para a interpretação da formação e consolidação do regime de classes no
Brasil. Do ponto de vista analítico, podemos identificar na obra um estilo lumpen de
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
95 com as teorias dos novos movimentos sociais
pensamento”. Como afirmam os autores de Florestan Fernandes ‘Critical Sociology’: A Social
Theory of Brazil and Latin America:
As temáticas de pesquisa, os horizontes teóricos-metodológicos e as perspectivas
prático-políticas de Florestan Fernandes nas ciências sociais estarão inscritos no seu
estilo lumpen, radical-popular e socialista de pensamento, enraizado nas estruturas
mais profundas de sentimento de uma criança precocemente lançada ao mundo do
trabalho (Costa; Soares, 2024, p. 18, tradução nossa).
Sob o prisma da sociologia produzida no Brasil, no âmbito da questão racial, a pesquisa
realizada por Bastide, Fernandes e colaboradores, bem como a obra posterior de Florestan,
significou uma ruptura com a produção sociológica anterior sobre o tema, um contraponto à
perspectiva freyriana ancorada nas noções de democracia social/racial e do equilíbrio de
antagonismo entre dominadores e dominados, senhores e escravos, brancos e negros (Bastos,
2024). “A integraçãodemarca um campo antagônico em relação às análises da questão racial
e à compreensão da formação da sociedade brasileira.
Apesar de o livro ter se tornado um parâmetro nesse debate, a análise dos movimentos
negros na cidade de São Paulo passou ao largo da exuberante literatura sobre os movimentos
sociais que marcaram as ciências sociais no Brasil, particularmente a partir dos anos 1970. A
nosso ver, essa invisibilidade/desconhecimento está relacionada: a) ao impacto provocado pela
ruptura com a produção sociológica anterior sobre o tema da questão racial e da formação
nacional, que se constituiu como foco central da leitura da obra; b) à compreensão equivocada
de que a sociologia de Florestan teria tão somente uma perspectiva
macrossociológica/funcionalista, visão essa que ignora as suas análises sofisticadas das
interações sociais, livres de caráter determinista; c) ao fato do autor acentuar as dimensões
políticas contingentes na formação daqueles movimentos, que o distancia de um viés teórico
que privilegia os movimentos progressistas nas perspectivas teóricas inauguradas nos anos de
1970. Isso implicou, por parte dos estudiosos dos novos movimentos sociais, um olhar
reducionista em relação ao movimento negro, visto, geralmente, a partir da Frente Negra
Brasileira e de sua adesão ao integralismo e ao conservadorismo como estratégia de
enfrentamento ao racismo (1930-1937). Entre outros efeitos, essa perspectiva levou à
invisibilização de distintas posições políticas que constituíram os movimentos daquele período,
algumas delas incorporadas na agenda da luta de movimentos negros posteriores, como a do
Movimento Negro Unificado. Essa ausência reflete-se, por exemplo, no clássico “História dos
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
96
Movimentos e Lutas Sociais” de Maria da Glória Gohn (1995), que não faz referência ao
movimento negro, objeto de análise minuciosa de Florestan.
Não obstante o caráter conservador de uma ala majoritária e do malogro dos
movimentos negros daquele período, Florestan Fernandes lhes dedica especial atenção, pois
eles teriam sido “os únicos mecanismos de reação societária consistente aos dilemas sociais
criados pela situação de contato racial” e porque “eles constituem uma impressionante façanha
histórica, na luta pela modernização da sociedade brasileira no presente” (Fernandes, 2008b, p.
10).
Florestan Fernandes expõe, avant la lettre, muitas das questões centrais ao debate sobre
novos movimentos sociais, tanto do ponto de vista conceitual quanto metodológico. Sua análise
busca identificar quais são os fatores que permitem compreender o “porquê” e o “como” do
surgimento de movimentos e o que os torna viáveis (Fernandes, 2008b, p. 13). Observa, ainda,
como os movimentos negros lançaram uma agenda de afirmação do negro e de suas lutas
futuras.
Diante dessas questões, este artigo está organizado em cinco tópicos, a saber: 1)
exposição sintética do caminho metodológico percorrido pelo autor; 2) apresentação das
mudanças estruturais que desencadearam requisitos psicossociais e socioculturais necessários
ao surgimento do protesto negro na cidade de São Paulo nos anos 1920-1930; 3) abordagem
dos efeitos do colapso da dominação tradicional e da abertura de oportunidades políticas, que
propiciaram a emergência daqueles movimentos; 4) referência à função desempenhada pelas
lideranças dos movimentos negros; 5) conclusões daquilo que conseguimos observar como um
diálogo possível entre o trabalho realizado por Florestan Fernandes e as teorias dos novos
movimento sociais. Convém lembrar que em cada tópico procuramos dar vida a esse diálogo
orientados pelo uso da imaginação sociológica, não sendo nosso objetivo esgotar a complexa
análise de Florestan Fernandes, menos ainda as teorias dos novos movimentos sociais.
Caminho metodológico: “lógicas” e “técnicas empíricas”
A análise que Florestan Fernandes realiza do movimento negro não se apresenta de
forma autônoma, nem com a pretensão de elaborar uma teoria dos movimentos sociais. Ela
integra o exame da sociedade brasileira, na qual a questão racial se coloca como uma
interrogação sobre a construção da nacionalidade. Em outros termos, o autor problematiza o
lugar estruturalmente destinado ao negro nessa sociedade em transição e leva a cabo o
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
97 com as teorias dos novos movimentos sociais
desmascaramento da ideologia expressa na ideia de que “nós somos o paraíso tropical da
convivência democrática das raças” (Fernandes, 2017, p. 21).
Para os fins deste artigo, partimos dos resultados desenvolvidos no primeiro volume de
“A integração do negro na sociedade de classes” (com o sugestivo subtítulo “O legado da raça
branca”), cujo objeto são as transformações estruturais e funcionais da sociedade brasileira.
Transformações essas que não alteraram as estruturas das relações raciais herdadas do regime
escravista, perpetuando “suas principais características obsoletas, mantendo o negro e o mulato
numa situação social desalentadora, iníqua e desumana” (Fernandes, 2008b, p. 7).
Na perspectiva de Florestan, nesse processo se alicerçam dois grandes dilemas sociais.
O dilema da absorção da “população de cor” à nova ordem social e o dilema do “preconceito
de cor”. Esse último resultando na manutenção do status quo da população negra, por meio da
manutenção da “associação entre cor e posição social ínfima, a qual excluía o ‘negro’, de modo
parcial ou total (conforme os comportamentos e os direitos sociais considerados), da condição
de gente” (Fernandes, 2008b, p. 7-8, grifo do autor).
Diante desse pano de fundo, “sob os olhos impassíveis, perplexos ou hostis dos
‘brancos’, ergueu-se ‘o protesto negro’, como o ‘clarim da alvorada’, inscrevendo-se nos fatos
históricos da cidade os pródromos da Segunda Abolição” (Fernandes, 2008b, p. 9, grifo do
autor), marcando a inserção do “negro” e do “mulato” à cena histórica e, ao mesmo tempo, o
desabrochar de uma nova forma de ser e estar na sociedade.
Sabemos que na análise de A integração do negro”, Florestan recorre a uma abordagem
histórico-estrutural, buscando compreender como as ordens políticas e ideológicas se
coadunavam com a economia e a sociedade. No entanto, ao se considerar os distintos níveis de
análise, evidencia-se uma complexidade que requer a mobilização de outros recursos
metodológicos. Tanto na pesquisa com Bastide como na tese de cátedra, convoca-se, junto a
uma perspectiva histórico diacrônica, uma abordagem sincrônica estrutural-funcionalista
(Costa; Soares, 2024, p. 74), acionadas segundo os aspectos dos problemas investigados e
condicionadas pelos fundamentos lógicos da análise
1
. Bastide e Florestan, no projeto de
estudos, salientam que “as hipóteses diretrizes na interpretação de um fenômeno são
construídas, em parte, graças ao modo peculiar de encarar o objeto” (Bastide; Fernandes, 1959,
1
Nos anos 1950, o autor desenvolveu ampla reflexão sobre modelos de explicação sociológica e seus fundamentos
lógicos e empíricos, que resultaram na publicação de “Fundamentos empíricos da explicação sociológica” (1959)
e “Ensaios de sociologia geral e aplicada” (1960). Um relato esclarecedor sobre seus interesses teóricos e
metodológicos pode ser encontrado em Fernandes (1975).
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
98
p. 325, grifo do autor). Isso revela a necessidade de clareza na escolha do método de
interpretação, considerando as suas implicações teóricas, definições conceituais, seleção de
técnicas e métodos, e delimitação do objeto de investigação.
Um outro aspecto metodológico inovador da pesquisa foi a participação ativa dos
pesquisados no desenvolvimento da pesquisa (Bastide; Fernandes, 1959; Fernandes, 2017), o
que possibilitou uma análise sociológica da sociedade paulista a partir da ótica do negro e de
seus movimentos de protesto. Essa participação ocorreu nos vários encontros, mesas-redondas,
estudos elaborados por intelectuais do movimento, análise da imprensa negra, entre outros
recursos. Dessa forma, o chamado Projeto Unesco em São Paulo (1951-1952) resultou em
análise de vasto material, composto por jornais em especial da imprensa negra documentos
diversos, entrevistas, depoimentos, seminários, dados estatísticos, observação, produção de
brochuras, entre outros. Antonia Campos (2014) apresenta uma análise detalhada dos
procedimentos da investigação e das técnicas de pesquisa empírica mobilizadas, focalizando as
mesas-redondas que aprofundaram o contato entre pesquisadores acadêmicos e intelectuais
negros. Destacamos, ainda, o recurso à imprensa negra para o exame das representações, dos
sentimentos, das atitudes e das necessidades comuns a uma classe de indivíduos, isto é, para
apreender o processo de organização do protesto negro (Bastide, 1983). Como observa
Florestan, anos depois, “[as] elaborações perceptivas e cognitivas - das mais elementares às
mais complexas e literárias ou políticas - do movimento negro serviram como ponto de partida
e fio condutor” (Fernandes, 2017, p. 136-137).
Mudanças estruturais e seus efeitos psicossociais
Sob a denominação “novos movimentos sociais”, grosso modo, desenvolveram-se duas
perspectivas. Aquelas centradas no “porquê” (fatores estruturais)
2
e aquelas que focalizam “o
como” (fatores estratégicos) de sua formação. Sob essa designação, as análises voltaram-se para
atores outrora negligenciados e para atores emergentes no contexto social, político e cultural, a
partir do final da década de 1960 (Chazel, 1995; Cohen, 1985; Foweraker, 1995; Laraña;
2
Os autores que recorrem a essa terminologia têm como ponto em comum a sua relação inicial com o marxismo
e progressivo afastamento daqueles pressupostos, com desenvolvimento de abordagens diferenciadas e até opostas.
As tentativas de agrupar tais abordagens são também distintas. Maria da Glória Gohn (1997), por exemplo,
identifica dois grandes grupos, os neomarxistas e os culturalistas-acionalistas. O primeiro subdivide-se entre os
historiadores Eric Hobsbawn, Georg Rude, E. P. Thompson e o histórico-estruturalistas composto por Manuel
Castells, Borja e Lojkine. O segundo grupo estaria composto por três orientações: a histórico-política com Claus
Offe, a psicossocial com Alberto Melucci, Laclau e Mouffe, e a acionalista com Alain Touraine.
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
99 com as teorias dos novos movimentos sociais
Gusfield, 1994; Nascimento, 1998; Neveu, 1996; Gohn, 1997; Melucci 1996; Alonso, 2009;
Scherer-Warren, 1987).
A primeira tendência, que privilegia os fatores estruturais, desenvolveu-se,
principalmente, no contexto europeu, em grande medida em decorrência da crise do marxismo
diante do enfraquecimento do movimento operário (Anderson, 1989; Alonso, 2009). A
segunda, voltada aos fatores estratégicos das manifestações dos novos movimentos sociais, se
expressa como crítica ao estrutural-funcionalismo parsoniano e à Teoria da Mobilização de
Recursos de Olson (1971), que é desenvolvida por autores como McCarthy, Zald, McAdam e
Tilly, integrando contribuições do interacionismo e das TNMS (Laraña; Gusfield, 1994)
3
.
A complexidade e as diferentes dimensões do objeto de estudo revelaram as limitações
dessas abordagens, levando a se buscar análises que articulassem as dimensões do “porquê” e
do “como” (Melucci, 1989, 1991, 1996; Arrow, 2009; Nascimento, 1998; Cohen, 1985).
Sobressaem, nessas sínteses, aspectos estruturais e estratégicos, tais como: estruturas sociais,
estruturas de oportunidades políticas, recursos, repertórios da ação coletiva, identidade, quadros
de referência/ideologia, alinhamento, articulação, entre outros. Em particular, realça-se a
construção de sentidos, colocando em relevo o campo cognitivo e ideológico.
Como veremos adiante, essas questões estão presentes na análise feita por Florestan
Fernandes dos movimentos sociais “no meio negro”, antecipando-se à produção teórica no
campo dos movimentos sociais. Se, por um lado, Florestan parte de uma análise histórico-
estrutural das transformações da sociedade brasileira, a partir do final do século XIX, com o
processo de consolidação da ordem social competitiva, destacando determinados “incentivos”
ao surgimento dos movimentos sociais no meio negro, por outro lado, evidencia as conexões
com as dimensões psicossociais e socioculturais como requisitos à formação desses
movimentos. É nessa conexão entre “incentivos históricos sociais” e os “requisitos
psicossociais ou socioculturais” que Florestan busca o encadeamento dos sentidos das ações
construídos pelos movimentos negros. Assim, compreendemos que a análise não se limita a
fatores puramente econômicos, mas articula fatores sociais, culturais e psicossociais, com a
agência assumindo seu lugar nesse processo.
3
Nesse quadro, três núcleos teóricos podem ser destacados: a Teoria dos Novos Movimentos Sociais (TNMS), a
Teoria da Mobilização de Recursos (TMR) e a Teoria do Processo Político (TPP). Para os fins deste artigo, não
detalharemos as contribuições de cada um desses núcleos. Para uma síntese dessas teorias, remetemos ao texto de
Angela Alonso (2009) “As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate”.
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
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O autor parte, assim, do pressuposto de que as transformações histórico-sociais teriam
alterado a estrutura e o funcionamento da sociedade sem, no entanto, alterar substancialmente
a ordenação das relações raciais, herdadas do “antigo regime”. Em outros termos, os dilemas
se constituíram como anomalias sociais, o que levou à reação de segmentos “espoliados”, isto
é, os “homens de cor”. Tratava-se, nos termos de Florestan, de uma revolução dentro da
ordem” diante da incoerência entre a ordem legal e a ordem social (Fernandes, 2008b, p. 9).
Utilizando a classificação das ações coletivas de Alberto Melucci (1996), poderíamos
falar, em termos gerais, “de uma competição em que o conflito e a solidariedade estão
confinados dentro dos limites do sistema dado” (Melucci, 1996, p. 32). Em outras palavras,
aqueles movimentos exigiam o cumprimento da ordem legal republicana sob o signo de uma
revolução moral.
Isso significava que os protagonistas dos movimentos sociais no meio negro aceitavam
a ordem legal republicana e a julgavam propícia a satisfazer os seus anseios de segurança, de
dignidade e de igualdade. Os movimentos negros estabeleceram como meta fazer valer a nova
ordem legal, promovendo uma “segunda abolição”, convertendo-se em “agentes diretos da
democratização dos direitos e garantias sociais, estabelecidos pela ordem legal vigente”
(Fernandes, 2008b, p. 21).
Fazer valer a ordem legal tornou-se um quadro de referência (frame) para cobrar
coerência entre o prescrito em lei e a realidade como negação dessa mesma ordem. Nessa
direção, é possível indicar a familiaridade entre a abordagem de Florestan Fernandes e as
análises de McAdam (1982) em relação ao movimento negro dos EUA, em que os Direitos
Civis assumiram a função de um frame (quadro de referência) ou parâmetro para os
enfrentamentos das desigualdades raciais. A noção de frame proporciona, como desenvolvida
por Robert Benford e David A. Snow (1996, 2000), o alicerce para a construção de diagnósticos
(o que está errado; o sentimento de injustiça), de prognósticos (estratégias de enfrentamento) e
motivação (chamado para a ação conjunta) (McAdam; McCarthy; Zald, 1991; Snow et al.,
1986; Pan; Kosicki, 1993; Snow; Benford, 1996; Benford; Snow, 2000). Frame é, nessa
perspectiva, condição para processos de identificação na construção de uma identidade coletiva.
Na análise de Florestan Fernandes, a ordem legal se apresenta como um quadro de
referência que orienta a análise do lugar do negro na sociedade, as estratégias de informação e
formação, e a busca de repertórios de ação (Tilly, 1968). Neste sentido, Florestan afirma que os
movimentos negros
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
101 com as teorias dos novos movimentos sociais
... repontam como uma espécie de vanguarda intransigente e puritana do radicalismo
liberal, exigindo a plena consolidação da ordem social competitiva e do modelo
correspondente de organização democrática das relações entre os homens. Insurgem-
se, literalmente, contra as iniquidades e as impurezas históricas do regime,
propugnando que a sociedade aberta não fosse fechada para ninguém e muito menos
para um contingente racial. Por conseguinte, os movimentos que organizam se
afirmam histórica, política e moralmente como as primeiras grandes tentativas
coletivas de correção substancial das contradições existentes entre o substrato legal e
a realidade social implantados através do abolicionismo e da experiência republicana
(Fernandes, 2008b, p. 9).
Diante dessa reação dos movimentos negros, Florestan se põe a questão sobre as
circunstâncias históricas que possibilitaram ao negro sair de seu conformismo e assumir um
processo de autoafirmação, de solidariedade e uma posição conflitiva no âmbito social e
político. Para responder a essa questão, desenvolve sua análise em quatro tópicos:
os incentivos históricos sociais e os requisitos psicossociais ou socioculturais,
que lograram se concretizar objetivamente, os quais nos permitem compreender como
e por que tais movimentos se tornaram viáveis;
as principais ocorrências, historicamente significativas, que marcam e delimitam
a atualização desses movimentos;
os obstáculos históricos-sociais, inerentes à organização da sociedade inclusiva
e à situação do “meio negro”, que explicam a descontinuidade, as inconsistências e a
frustração final dos movimentos em questão;
as funções sociais construtivas que eles conseguiram preencher, em termos da
integração do negro e do mulato à sociedade de classes, como ela se expandiu e tende
a se expandir na cidade de São Paulo (Fernandes, 2008b, p. 12-13, grifo nosso).
Enquanto os dois primeiros tópicos analisam o encadeamento da eclosão dos
movimentos negros, os dois últimos se debruçam sobre o seu malogro e seus ganhos/funções.
Se considerarmos os dois primeiros tópicos, entre os diferentes modelos de análise dos
movimentos sociais, podemos estabelecer paralelos com o modelo dos processos políticos que
“prioriza uma estrutura de incentivos e/ou constrangimentos políticos, que delimita as
possibilidades de escolha dos agentes entre cursos de ação” e ao mesmo tempo volta suas
atenções para a cultura e a política (Alonso, 2009, p. 56-58)
4
.
4
Doug McAdam (1982) identifica cinco modelos (não menciona a Teoria dos Novos Movimentos Sociais), quais
sejam: Modelo Clássico; Sociedade de massa; Inconsistência de status; Comportamento Coletivo e o Modelo de
Processo Político. Esse incorpora dimensões dos modelos anteriores que visam analisar “um processo contínuo de
interação entre grupos de movimento e o ambiente sociopolítico maior que eles buscam mudar” e considera, ainda,
ser um modelo compatível com uma interpretação marxista de poder (McAdam, 1982, p. 51).
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
102
Fonte: McAdam, 1982, p. 51.
Incentivos históricos sociais e os requisitos psicossociais ou socioculturais
A mobilização de quadros de referência torna-se possível diante de determinadas
condições históricas ou oportunidades políticas (Tilly, 1968; Tarrow, 2009). Se, por um lado, a
abolição da escravatura e a emergência do regime republicano que resultaram em mudanças
das relações sociais, em particular das relações entre negros e brancos geraram novos desafios
e expectativas para os “homens de cor”; por outro lado, o processo acelerado de industrialização
e de urbanização, após a I Guerra Mundial, na cidade de São Paulo, aparecem como incentivos
que exerceram influências mais ou menos decisivas na formação dos movimentos negros
(Fernandes, 2008b, p. 15). Nesse sentido, Florestan identificou três incentivos fundamentais
subjacentes à cimentação das disposições psicossociais/socioculturais:
1) Reação do negro e do mulato ao bloqueamento isolamento degradante da
elite negra, fonte social das insatisfações, das fricções e das tensões diante dos
mecanismos imperantes de ordenação societária das relações raciais; anseios
inconformistas; práticas e ideologias, definindo objetivos comuns de integração social
(Fernandes, 2008b, p. 15-16).
2) Emulação indireta provocada pelo êxito econômico e social dos “imigrantes”
- estilo de vida, trabalho árduo, poupança severa e o anseio de “subir na vida”;
absorção de novas técnicas e instituições sociais; aprendizagem da vida familiar
integrada, da solidariedade doméstica, do respeito pela mulher, da importância da
educação dos filhos etc.; desenvolvimento de modelos de personalidade ideal;
reeducação para o estilo urbano de vida, isto é, dos requisitos psicossociais
necessários à integração (Fernandes, 2008b, p. 16-18).
3) Colapso final da dominação tradicionalista e patrimonialista - dominação que
perdurou nas relações dos “brancos” com os “negros”; transformações profundas na
estrutura de poder da cidade, abrindo um vazio histórico no plano das relações raciais
(Fernandes, 2008b, p. 18-19).
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
103 com as teorias dos novos movimentos sociais
Os incentivos mencionados suscitaram anseios inconformistas comuns, agregando
elementos para a formulação do quadro de referência (frame), e criaram condições para
arregimentar líderes aptos a assumirem os encargos práticos e ideológicos daquela rebelião.
A revolta reprimida trabalhava de forma latente os espíritos, constituindo uma base
natural para a emergência de solidariedade, de consenso e de comportamento coletivo
inconformista a qualquer oportunidade de equacionamento histórico-social do “problema do
negro” (Fernandes, 2008b, p. 21).
Como afirma Florestan, “[A] passagem dessa revolta que se apresentava inicialmente
como desespero, vergonha ou humilhação pessoais, transformando-se em modos socialmente
integrados e conscientes de rebelião dependia, apenas, da existência de catalisadores
psicossociais” (Fernandes, 2008b, p. 21). Nessa passagem entre a passividade e a rebelião,
uma longa laboração que viabilizou transformar o inconformismo latente numa orientação de
fins coletivos mais amplos, que requeriam consciência da realidade ambiente e atuação social
organizada. Florestan explora a evolução da verbalização dessa orientação, desde as conversas
informais, como canais de livre expressão manifesta, às formulações ordenadas, veiculadas pela
imprensa negra, pelos meios (in)formativos (seminários, cursos, manifestações) e pelo
ativismo, constituindo “o nexo efetivo entre a liderança e a massa, bem como entre a
propaganda, a formação de uma ideologia comum e a transformação dos líderes ou dos
aderentes” (Fernandes, 2008b, p. 64).
Forjou-se, assim, um suporte para a mobilização, a organização, os modelos de
liderança, as ideologias e as formas de comunicação que constituem um ator coletivo, sejam
como latência ou assumindo visibilidade a partir de suas intervenções no espaço público. Isso
permite identificar a semelhança com a definição de espaço público feita por Melucci, como
“espaço da palavra, espaço da nomeação, que permite dar voz, nova ou diferente enquanto na
sociedade não se permite reduzir ao nome que a racionalidade técnica impõe ao mundo”
(Melucci, 1991, p. 123-124)
; nesse caso, o discurso das relações raciais hegemonizado pelo
branco. A dimensão cultural ocupa um lugar de destaque na análise dos movimentos negros.
Essa dimensão foi enfatizada no modelo teórico desenvolvido por Melucci nos anos 1980 e
1990, ao considerar que “a solidariedade é de caráter cultural e está localizada no terreno da
produção simbólica na vida cotidiana” (Melucci, 1996, p. 115).
Se havia uma coerência e unidade analítica objetiva feita pelos movimentos negros da
“situação do ‘negro’ e do ‘mulato’” na realidade social paulistana, é também nesse campo que
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
104
Florestan atenta para as tensões internas em relação às estratégias. Tais tensões são patentes nos
atritos entre as perspectivas autoritárias e as democráticas, o que leva o analista à percepção de
que não se tratava de um movimento monolítico. Segundo Florestan,
as primeiras divergências surgiram em função das técnicas autoritárias de organização
do poder, adotadas pelos primeiros líderes principais da Frente Negra Brasileira. [...]
O próprio êxito inicial deixou a direção desorientada e compeliu-a a se apegar às
técnicas autoritárias de arregimentação. O grupo dirigente se tornou impermeável à
comunicação com os demais, aparecendo novas fricções desalentadoras (Fernandes,
2008b, p. 69-70).
A forma como as lideranças catalisaram o inconformismo demostrou, segundo a análise
de Florestan, um certo grau de capilaridade por meio das redes “físicas” submersas
5
existentes
no meio negro. Essas redes encerravam grupos de diferentes matizes e distintos objetivos, com
existência mais ou menos duradoura. Num levantamento não exaustivo, compreendendo o
período entre 1927 e 1945, são identificadas na cidade de São Paulo dezenove organizações,
entre agremiações, associações culturais, clubes, legiões, centros cívicos, irmandades, entre
outras (Fernandes, 2008b, p. 54).
A industrialização e urbanização da cidade de São Paulo conjugadas à presença dos
imigrantes, especialmente italianos compeliram o negro ao inconformismo e a absorver novas
técnicas e instituições sociais, bem como a desenvolver modelos de personalidade ideal a partir
de valores, tais como a vida familiar integrada, a solidariedade doméstica, o respeito pela
mulher, a importância da educação dos filhos. Isto é, novos estilos de vida foram absorvidos
pela população negra na cidade de São Paulo (Fernandes, 2008b, p. 16-18). Esses aspectos
concentraram a atenção dos líderes dos movimentos no que consideravam essencial,
convertidos em itinerário da reeducação do “homem de cor”, preparando-os para agir como
homens livres e lutar construtivamente contra as diversas manifestações do preconceito e da
discriminação racial. Além de a reeducação do “negro”, também buscaram estender suas
influências socializadoras aos “brancos”, denotando um processo de caráter social nacional
(Fernandes, 2008b, p. 41). O âmago desta reeducação voltou-se para a autoestima, a valorização
histórica do negro na sociedade brasileira, o reconhecimento de sua condição de “gente”, de
seus direitos sociais e políticos, isto é, o reconhecimento de sua cidadania conforme a ordem
legal instituída. Essas condições são elementos basilares, consoante a teorização de Alberto
5
A noção de redes submersas, cunhada por Melucci (1996) e desenvolvida por outros autores sob o conceito de
redes sociais, tem como referência as redes “físicas” e virtuais (Barnes, 1987; Castells, 2000; Scherer-Warren,
2005, 2006).
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
105 com as teorias dos novos movimentos sociais
Melucci (1996), para criar um sentido de pertencimento (redes afetivas e simbólicas) e atuar na
construção de identidade (quem somos), no compartilhamento de valores (solidariedade), na
expressividade (dar voz a subjetividades, estilo de vida e valores) e na resistência cultural (luta
contra a dominação e controle social).
Colapso da dominação tradicionalista e patrimonialista como oportunidade política
Há, atualmente, um consenso de que os movimentos sociais não podem ser derivados,
de forma direta, das privações padecidas ou da desorganização de suas sociedades. Seriam
condições necessárias, mas não suficientes para compreender a sua emergência. Segundo
Sidney Tarrow (2009), essas condições são mais duradouras, o que varia são “os níveis e tipos
de oportunidades com que as pessoas se deparam, as restrições em sua liberdade de ação e a
percepção de ameaças a seus interesses e ações” (Tarrow, 2009, p. 99). Ainda na perspectiva
desse autor, os confrontos estariam mais relacionados a estruturas de oportunidades e restrições
para a emergência de ações coletivas, vistas junto a repertórios, enquadramento de mensagens
e acesso ou construção de mobilização unificadoras. Essas estruturas de oportunidades se
relacionam à obtenção de recursos externos, ao sentimento de ameaças ou de ofensa do senso
de justiça e, fundamentalmente, quando se abre o acesso institucional, quando surgem divisões
entre as elites, disponibilidade de aliados e diante do declínio da capacidade de repressão do
Estado (Tarrow, 2009, p. 99)
Seguindo a análise de Florestan, no contexto do processo de industrialização, da
universalização do trabalho assalariado e da consolidação da ordem social competitiva, foi
colocada em xeque igualmente a dominação tradicionalista e patrimonialista. Mesmo que esse
domínio tenha se mantido durante mais tempo na relação entre “brancos” e “negros”,
gradualmente ele deixa de ter vigência plena e indiscutível entre os “brancos” (Fernandes,
2008b, p. 18). A presença de novas forças sociais, ligadas à indústria e ao comércio levou,
paulatinamente, à desorganização da oligarquia. Entretanto,
A secularização de atitudes não chegara a ser suficientemente profunda para
engendrar uma autêntica compreensão dos movimentos sociais [...] ou para suscitar
uma colaboração frutífera ‘dos brancos’ em seu desenvolvimento. Ainda assim, deu
lugar a certas transigências e indiferenças que tiveram enorme importância
(Fernandes, 2008b, p. 29).
Esses fatores criaram condições para elevar os patamares de consciência, discussão e
crítica, bem como abriram um “vazio histórico no plano das relações raciais, que equivalia, na
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
106
prática, a uma repentina dilatação da autonomia moral do ‘negro’ e do ‘mulato’” (Fernandes,
2008b, p. 20). Esses incentivos ou oportunidades dependiam do desenvolvimento da percepção
analítica e da formulação ideológica como fatores de agregação e organização do negro.
Funções das lideranças
Na nossa análise, indicamos a perspectiva histórico-estrutural de Florestan Fernandes,
que situa as transformações e permanências estruturais da sociedade brasileira, entre o final do
século XIX e meados do século XX. A partir daí, destacamos os incentivos e os requisitos
psicossociais ou socioculturais que, na interpretação do sociólogo paulistano, criaram as
condições e oportunidades que suscitaram um novo estado de espírito dos “homens de cor”,
assim como polarizaram as aspirações integracionistas e assimilacionistas em direções
reivindicativas de teor igualitário. Embora esse espírito tenha desabrochado
“espontaneamente”, as funções políticas de organização e difusão do movimento, assumidas
pelas lideranças, indicam uma ação consciente por parte delas. Da mesma forma, a
descontinuidade, as inconsistências e o malogro dos movimentos têm seus fundamentos na
natureza especificamente social e não devem “ser encarados em termos de atributos
psicológicos diferenciais do ‘negro’ [...] nem de sua ‘incapacidade’ de construir socialmente
seu próprio destino” (Fernandes, 2008b, p. 73).
Ao longo da análise, Florestan Fernandes apresenta também as funções das lideranças,
quais sejam: promover a definição dos objetivos, desenvolver estratégias e táticas para a ação,
formular uma ideologia. Os rumos de um movimento, o envolvimento de seus membros e a
construção de um consenso estão intimamente ligados à ação das lideranças
6
. No âmbito da
TNMS, a questão da liderança foi desenvolvida em duas dimensões, seu papel interno e externo.
Tarrow (2009) focou no papel externo das lideranças, enquanto Melucci (1996) concentrou-se
nas dinâmicas internas. Em ambos os níveis, a liderança assume o papel de mediador entre o
interior e o exterior do movimento. Isto é: formular políticas, articular redes, manter a coesão
identitária e coordenar as práticas, bem como, em nível externo, manter relações com a mídia,
6
Nos primeiros estudos sobre movimentos sociais no Brasil, na década de 1970, o debate sobre liderança estava
ausente, em grande parte devido à própria repressão política naquele período (Cardoso, 2004, p. 82). Em termos
da teorização, na América do Norte, diferentes perspectivas se debruçaram sobre o papel das lideranças. Aldon
Morris e Suzanne Staggenborg (2002) apresentam uma sinopse e indicam lacunas teóricas sobre liderança. Melucci
teve particular interesse em teorizar o tema da liderança (Melucci, 1996).
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
107 com as teorias dos novos movimentos sociais
instituições e outros grupos. Isso requer a habilidade de “traduzir” a linguagem do movimento
para um público mais amplo, sem perder a identidade.
As condições para o exercício de uma liderança pressupõem capacidade de formação
cognitiva e de formulação de objetivos, estratégias e “ideologia”. Essa capacidade se
desenvolve à medida que possibilidade de acesso a diferentes perspectivas e conhecimentos.
Florestan identifica essas condições que permitiram acesso à instrução, mesmo de forma
circunscrita, e possibilitaram as próprias inquietações que ganham corpo após a I Guerra
Mundial, com o delineamento de movimentos sociais, novas perspectivas do movimento
proletário e movimentos culturais. Apesar das limitações insanáveis, decorrentes da
desorganização social permanente, da incapacidade de cooperação para fins coletivos próprios
e da inexperiência política quase total, um pugilo de pioneiros
7
conseguiu abalar a inércia
8
do
“meio negro” (Fernandes, 2008b, p. 14).
É esclarecedora desse processo a citação de Renato Jardim Moreira Leite, em estudo
de caso denominado Movimentos sociais no meio negro”, elaborado em parceria com o
militante José Correia Leite, no âmbito do Projeto Unesco:
A estas transformações de estrutura social, corresponde uma série de outros sucessos
que influíram na tomada de consciência, por parte dos negros, de seus problemas
específicos. [...] A partir da Guerra de 1918, começou a efervescência dos negócios
de ismos (socialismo, comunismo). Frequentei reuniões da U.T.G., onde se
embaralhava a revolta do negro com reivindicações do proletariado. Nas nossas rodas
de conversa apareciam negros e brancos envolvidos nas teorias marxistas. Estes
diziam que a posição verdadeira do homem negro era lutar contra a ordem social, pois
a culpada da situação era a exploração do regime capitalista. Falavam de um famoso
pintor mexicano que tinha feito um mural onde aparecia Lenine no meio de dois
trabalhadores: um branco e um negro, com as mãos entrelaçadas, tendo Lenine as
mãos sobre eles (Moreira Leite apud Fernandes, 2008b, p. 23-24).
O foco da análise não é a Frente Negra Brasileira em si, mas o processo que levou àquele
movimento
9
. Neste sentido, são as dinâmicas, a composição de uma unidade, as tensões internas
e externas que são os eixos da atenção do autor. Nessa análise, torna-se evidente o
7
Florestan Fernandes está atento às nuances da composição e analisa os fatores da predominância da presença de
“mulatos”, que se localizam no âmbito sociológico e não em fatores individuais: “parece que o ‘mulato’ teve maiores
chances em virtude da própria experiência e do presgio granjeado anteriormente” (Florestan, 2008b, p. 52).
8
Florestan Fernandes utiliza o termo inércia não como inerente à natureza do negro, mas como um estranhamento
em relação à sociedade que o repelia, no fundo um repúdio aos valores da sociedade do branco, daí o papel dos
movimentos negros em proporcionar as motivações e fundamentos das ações.
9
Como já afirmava Gramsci, as análises, geralmente, levam em conta as correntes já constituídas, sem investigar
a sua formação, que se trata “de um processo molecular, miudíssimo [...] do qual nasce uma vontade coletiva com
um determinado grau de homogeneidade, grau que é necessário e suficiente para determinar uma ação coordenada
e simultaneamente no tempo e no espaço geográfico em que o fato histórico se verifica” (Gramsci, 1978, p. 90).
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
108
reconhecimento de uma heterogeneidade, tanto em nível das lideranças como entre a população
negra, que permitiu uma unidade de objetivos e o poder de mobilizar esse grupo social, mas
também implicou rupturas entre as lideranças, em particular na definição das estratégias.
Rastreando a “agitação larval”, Florestan constata que, no início da década de 1920,
havia uma consciência formada, segundo o estudo de caso elaborado por Renato Jardim
Moreira. A análise acompanha um longo processo desenvolvido por intelectuais e militantes na
formulação dos objetivos, mobilização de cursos e seminários necessários para a formação,
disseminação dos sentidos da luta antirracista, articulação de diferentes grupos e organizações.
Em outros termos, é dessa ordenação que se estabelece a utopia, que formava o fundo da
contraideologia construída, apontava para uma sociedade de classes aberta racialmente”
(Fernandes, 2008b, p. 123)
10
, isto é, a construção de uma nova imagem da “raça negra”. Essa
análise se coaduna à teoria da liderança como processo não estável, em que as funções de
liderança são partilhadas para manter e articular as identidades coletivas (Melucci, 1996).
Entre os autores da TNMS encontramos diferentes formulações sobre as funções das
lideranças. No entanto, uma concordância em atribuir à liderança a formulação de um
conjunto doutrinário sistematizado e coerente de ideias, princípios, valores e interpretações da
realidade. Esses diferentes enfoques podem ser resumidos em três abordagens fundamentais:
1) Ideologia como núcleo organizador e doutrinário fixo da tradição marxista; 2) Framing
como narrativas que tornem as reivindicações inteligíveis e legítimas, centrado “no como” é
usado (McAdam; McCarthy; Zald, 1996; Tarrow, 2009; Tilly, 1968; Pan; Kosicki, 1993;
Benford; Snow, 2000; Snow; Benford, 1988, 1996); 3) Códigos culturais, em substituição a
“ideologia”, reconhecendo-se seu caráter não fixo e um maior pluralismo interno,
particularmente nas perspectivas de Touraine (1996) e Melucci (1996). Apesar dessas
diferenças, todas as abordagem dão destaque ao papel das lideranças na construção de sentidos
que orientam a organização das ações coletivas e de movimentos sociais.
Evidencia-se na análise de Florestan uma perspectiva “em fluxo”, como um campo de
disputas na construção de sentido e estratégias, designando o conjunto doutrinário como
contraideologia racial. Recorrendo às noções de funções manifestas e latentes
11
, segundo
definição de Robert K. Merton (1968), identifica as funções básicas da contraideologia racial
10
Os conceitos de utopia e ideologia, na perspectiva de Florestan, baseiam-se na obra de Karl Mannheim,
“Ideologia e utopia”.
11
Identificamos em Melucci (1991) a observância dos processos latentes e manifestos na análise dos movimentos
sociais, recorrendo a Robert Merton.
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
109 com as teorias dos novos movimentos sociais
em dois planos. Das distintas funções cumpridas pelo movimento negro, destacamos duas: 1)
“desmascarar as racionalizações, opiniões e avaliações consagradas pela ideologia racial
dominante, evidenciando os fatores e os efeitos reais da desigualdade racial vigente” e 2)
“unificar a percepção e a explicação da realidade, bem como as manifestações individuais ou
coletivas de inconformismo e as aspirações de justiça social, objetivadas historicamente como
reivindicações de uma categoria racial exposta à ‘espoliação secular’” (Fernandes, 2008b, p. 131).
A análise salienta, ainda, a preparação cívica do “negro” e do “mulato”, um processo de
aprendizagem condicionado ao tipo de movimento.
O sentido e o teor dessa aprendizagem específica, subordinada às tarefas práticas
propriamente ditas e às suas implicações doutrinárias, variavam, naturalmente, com
os tipos dos movimentos. Onde prevaleciam os modelos autocráticos, a
arregimentação se fazia formalmente de modo rígido e segundo uma disciplina
paramilitar; onde vingavam os modelos democráticos, ela aparecia como uma
educação espontânea, alicerçada no exemplo ou no debate (Fernandes, 2008b, p. 97).
Não há, portanto, um determinismo na configuração dos movimentos sociais,
condicionamentos. Daí a formação heterogênea das lideranças com implicações nos processos
de mobilização e escolhas políticas.
Foi assim que a contraideologia racial tornou-se basilar para a mobilização de recursos
materiais, humanos, sociais e culturais/simbólicos (Tilly, 1968), lançando mão dos repertórios
de ação (realização de seminários, cursos, difusão da imprensa negra
12
, promoção de
manifestações, entre outros), devidamente analisados na obra de Florestan.
No conjunto da análise de Florestan, identifica-se a relevância dos fatores históricos-
estruturais como condicionantes, mas se evidencia o envolvimento ativo dos agentes na
formulação de uma contraideologia, escolhas de estratégias e posicionamentos políticos. A
relevância dos fatores históricos-estruturais é também a base para o entendimento da derrocada
do movimento negro daquele período, com o fechamento da Frente Negra Brasileira em 1937,
mesmo com a sobrevida do jornal “Clarim da Alvorada” até 1948. A questão central do
empreendimento de Florestan foi compreender “por que” e “como” os movimentos sociais
reivindicatórios surgiram, questão orientadora do “porquê” desses movimentos não terem
vingado nem mesmo no “meio negro” (Fernandes, 2008b). Para o autor, a resposta parece
simples:
12
A imprensa negra estava presente desde o século XIX, mas se tornou muito mais presente a partir dos anos
1920. Sobre imprensa negra em São Paulo ver Ferrara (1985) e Malatian (2018).
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
110
A sociedade inclusiva não desaprovava os propósitos integracionistas da
contraideologia racial elaborada pelos “negros”. Todavia, ela não se propunha de
modo idêntico os problemas da democratização da riqueza, dos níveis de vida e do
poder, isto é, fazendo tabula rasa do sistema vigente de dominação racial. A ordem
social competitiva se abria diante do negro e do mulato; mas de forma individualista
e ultraseletiva (Fernandes, 2008b, p. 132).
Para além desses fatores estruturais, podemos nos interrogar, utilizando-nos da noção
de ciclos de confrontos de Sidney Tarrow (2009), sobre as mudanças das oportunidades e
restrições políticas que possibilitariam ou não a constituição de movimentos sociais,
“disponibilizando conhecimentos e repertórios flexíveis de confronto, desenvolvendo quadros
interpretativos de ações coletivas e identidades coletivas, e construindo estruturas de
mobilização em torno de redes sociais e de organizações” (Tarrow, 2009, p. 181). Não
poderíamos falar, assim, de uma abdicação dos sentidos explorados em “A integração do negro
na sociedade de classes”, mas em sua latência, emergindo em outros momentos ou ciclos de
confronto, tal como se manifestou no movimento negro da década de 1970 e em momentos
posteriores, numa atualização daquele legado.
Considerações Finais
Em seis décadas que nos separam da publicação de “A integração do negro na sociedade de
classes”, presenciamos profundas mudanças políticas, econômicas, culturais, ideológicas,
tecnológicas e comunicacionais. O campo da sociologia foi afetado por novas perspectivas
epistemológicas e filosóficas, tornando-se cada vez mais heterogêneo e complexo. Nesse contexto,
uma multiplicidade de novos sujeitos de contestação entraram em cena em diferentes veis, sejam
eles locais, regionais, nacionais ou transnacionais. A própria noção de movimento social, para
alguns autores, tornou-se obsoleta, daí preferirem outra terminologia, como movimentos de
confronto ou de contestação. Mas esses também foram desafiados com a emergência de
contramovimentos” de caractesticas conservadoras/autoritárias, particularmente os movimentos
de extrema direita (McAdam; Tarrow; Tilly, 2009; Bringel, 2012; Silva; Pereira, 2020).
No Brasil, as lutas pela democratização dos anos 1970 e 1980, que resultaram na
Constituição Cidade 1988, vista como caminho de superação da ordenação das relações sociais
herdadas do passado, geraram um otimismo, e as interpretações críticas sobre os processos poticos,
sociais e culturais elaboradas por Florestan Fernandes pareciam estar em vias de superação. Com a
ocorrência de movimentos poticos com perspectivas conservadoras e autoritárias na década de
2010, que permaneciam latentes, voltou-se a perguntar sobre continuidades e descontinuidades das
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades
111 com as teorias dos novos movimentos sociais
estruturas da sociedade brasileira
13
. Dito isso, e diante da análise apresentada no presente artigo,
cabe perguntar sobre a posvel atualidade de Florestan Fernandes no campo da teorização dos
movimentos sociais/protestos no cenário contemporâneo.
Diante das novas formas de organizão, de motivações, de recursos humanos, ideológicos
e culturais, da reciclagem e criação de novos repertórios e ação, as perguntas iniciais de Florestan,
o do “porquê” e do como”, permanecem desafiando os pesquisadores, bem como a busca de
nteses que articulem fatores estruturais e estratégicos. Evidenciou-se que o autor não desenvolveu
uma teoria dos movimentos sociais e essa não foi objeto de pesquisa. Não obstante, a análise dos
movimentos negros apresenta uma contribuição relevante no âmbito metodológico. O autor o
parte de um modelo previamente fixado, mas assume uma perspectiva processual, em que o
material empírico é examinado de forma acurada e atenta às dinâmicas internas e externas, às
diferentes dimenes psicossociais, sociais, culturais e poticas. Florestan dedicou-se à reflexão
teórica e metodológica com vistas a amoldar a análise sociológica à formação histórica particular
da sociedade brasileira, estendida tamm às sociedades latino-americanas. Ele mirou de forma o
dogmática os desafios das diferentes dimensões da realidade, fazendo uso de distintos todos
capazes de lhe dar sentido. Ao que Gabriel Cohn (1987) define como “ecletismo bem temperado”,
preferimos designar como composição coerente de diferentes perspectivas.
Florestan situa os movimentos negros no contexto da ordem social competitiva e suas
transformações na nova ordem social, em que o arcaico e o moderno se fundem (Trindade, 2025).
Na análise, o autor sobreleva a dimensão estrutural, numa perspectiva hisrica diacrônica e
sincrônica, a partir da qual identifica as contradões entre uma ordem legal e a ordem social real
que estimularam os movimentos. Isto é, as oportunidades políticas (estímulos), quadros de
referência (frames), a contraideologia, as motivações objetivas e subjetivas, os recursos formativos
e informativos, a formação de lideranças, as discorncias quanto às estratégias mais ou menos
democráticas, as formas de mobilizão e articulação interna e externa. Compreende-se que a
alise o se limita a fatores puramente econômicos, mas adentra em fatores sociais, culturais e
psicossociais a partir dos quais emergem as ões políticas dos movimentos. Acrescente-se a
disponibilidade do avultado material construído na pesquisa inserida no Projeto Unesco sobre as
relações raciais no Brasil. Além disso, destaca-se o papel ativo de lideranças e intelectuais inseridos
13
Essa volta aos escritos de Florestan Fernandes é visibilizada no crescente número de artigos e dossiês publicados
na última década.
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.
112
nos movimentos negros, provocando questões epistemológicas relacionadas à não neutralidade do
fazer da sociologia, bem como sendo suporte dos próprios movimentos.
Hoje um dos grandes desafios para a alise dos protestos/movimentos sociais e poticos é
a intepretação das sociedades contemporâneas diante das transformações sinalizadas, num quadro
cada vez mais complexo, ao mesmo tempo globalizado e com uma heterogeneidade crescente de
sujeitos, demandas e perspectivas políticas. Quais o os quadros de referência/códigos
culturais/ideológicos mobilizados, os repertórios da ão coletiva, os modelos de liderança, as
formas de organização e articulação que estão em vigência?
Em Florestan Fernandes, como sugere Gabriel Cohn,
Interessa mais a ordem dos procedimentos para se dar conta da realidade do que a ordem
dos conceitos na teoria internamente consistente. Por essa via, em Florestan a construção
da obra não tem tanto a ver com uma vio tópica, local, de níveis de abstração do texto,
mas tem mais a ver com uma visão de processo, com uma visão de sequência e
encadeamento dos procedimentos que buscam dar conta dos fenômenos. As queses
metodológicas subordinam a si as questões propriamente teóricas da construção dos
grandes arcabouços conceituais; as questões pticas subordinam as questões teóricas
(Cohn, 1987, p. 49).
Esse nos parece um olhar acurado para a contribuição de Florestan Fernandes para as
cncias sociais, seja na periferia seja no centro do sistema.
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Recebido em: 11/9/2025
Aceito em: 27/1/2026