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O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes
e funcionais das sociedades hegemônicas àquelas internas” (Bastos, 2025, p. 106). Nessa trilha,
as teorias dualistas, seja a do par Casa Grande & Senzala da qual os resultados políticos
culturalistas da democracia étnica são bem conhecidos, ou os Dois Brasis de Lambert, que
inspiraram debates sobre os enclaves internos obnubilando as relações com as forças da
dominação externa do capital, se não foram de todo superadas, ganharam, a partir das
proposições de Fernandes, um contraponto de peso. Ainda, a teoria de Floresta Fernandes, nos
mostra Elide, foi construída de pesquisa a pesquisa, de relatório a relatório, de livro a livro, de
modo contínuo e sistemático, sem nunca abandonar o objetivo último que era o de compreender
os enlaces, razões e motivos da coexistência ambivalente da riqueza e da pobreza e não só no
plano objetivo econômico, como no subjetivo, nas atitudes e comportamentos do brasileiro.
Mais do que uma interpretação compreensiva sobre o Estado, a obra de Florestan Fernandes
mirou sempre a cidadania.
Nesse quesito é que, segundo Elide Rugai Bastos, o foco de Florestan Fernandes na
desigualdade racial foi de suma importância. Ora, ainda atualmente – como quaisquer dados de
fácil acesso podem revelar – há uma grande desigualdade de acesso a direitos entre brancos e
negros no Brasil, bem como a linha competitiva entre esses é absolutamente díspar e, portanto,
é inegável que nas mudanças sociais do país, algo, do ponto de vista sociológico, ocorreu para
que uma parcela, a mais significativa da população, não apareça completamente integrada à
cidadania. Esse é o ângulo da pergunta dos estudos sobre a desigualdade racial proposto por
Florestan. Não há democracia social ou étnica. De saída, em quaisquer transformações políticas
operadas ao longo da trajetória brasileira, parte significativa da população permaneceu às
margens das mudanças sociais, e a maior parte dessa parte marginal é de pessoas pretas. Estudar
os óbices à integração do negro na sociedade de classes no Brasil é, pois, estudar, por
metonímia, as razões do subdesenvolvimento do país. Não se trata de raça e cultura apenas. Se
trata de raça, cultura, subjetividade, sociedade e política. O entrelaçamento de forças históricas,
mas que também circulam no presente e se fazem concretas no plano do acesso aos direitos e
ao mundo do trabalho. As mentalidades que subalternizam e que são subalternizadas devem ser
compreendidas nas suas contradições e enlaces como forças que contrapõem, mas também se
arrolam na construção da modernidade capitalista que carrega consigo, no seu sistema
circulatório, atitudes e comportamentos arcaicos.
Ainda sobre as pesquisas relacionadas à desigualdade racial, a autora coloca em relevo
um aspecto metodológico empreendido por Florestan Fernandes que foi muito inovador nos