ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 285 - 291  
O DISPOSITIVO DA SOCIOLOGIA:  
Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
THE DEVICE OF SOCIOLOGY:  
Elide Rugai Bastos interprets Florestan Fernandes  
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Rodrigo Estramanho de Almeida*  
BASTOS, Elide Rugai. A máquina das desigualdades: Florestan Fernandes interpreta o  
Brasil. Petrópolis: Vozes, 2025.  
Desde fins dos anos 1980, a socióloga, professora e pesquisadora Elide Rugai Bastos,  
vem se dedicando ao desafiador empreendimento intelectual de compreender a fundo a obra de  
um dos mais importantes expoentes das ciências sociais: Florestan Fernandes (1920-1995).  
Fizemos questão de não adendar que se tratou, Florestan, de um dos mais importantes cientistas  
sociais do Brasil e/ou da América Latina, pois que pensamos que ele foi um dos mais  
proeminentes sociólogos da história dessa ciência para seu desenvolvimento, quer seja  
epistêmico, quer seja metodológico, em todos os tempos e lugares.  
Essa proposição parece se confirmar à leitura de A máquina das desigualdades:  
Florestan Fernandes interpreta o Brasil, no qual Elide Rugai Bastos reúne mais de uma  
dezena de artigos – boa parte deles anteriormente publicados em periódicos ou coletâneas e que  
foram modificados para a composição do livro – que juntos articulam uma leitura aprofundada  
e simultaneamente desafiadora do legado temático, teórico e metodológico de Fernandes. Faz  
isso, tecendo fios entre as diferentes fases de produção intelectual de Florestan, as quais  
aparentemente não guardariam relação alguma não fosse pela leitura atenta que capta a linha  
comum da carreira de um intelectual que se consagrou em um país de capitalismo  
subdesenvolvido justamente porque interpelou, talvez como nenhum outro, o processo da  
desigualdade como objeto a ser levado a sério, de forma inovadora e implicada.  
* Doutor em Ciências Sociais, professor do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica  
de São Paulo (PUC-SP). E-mail: estramanho@gmail.com.  
ALMEIDA, R. E.  
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No livro, entretanto, Elide não trata da trajetória de vida de Florestan. Ela nos faz ver o  
que até aqui afirmamos sobre “quem foi Florestan” pela retrospectiva em perspectiva da  
produção intelectual desse sociólogo paulista revelando como o dispositivo de sua sociologia,  
após e entre outras sociologias que desaguavam no e do Brasil que se modernizava desde os  
anos 1930, iniciou, a partir de 1950, a modificar indefectivelmente a operação científica para a  
investigação da realidade social brasileira, sobretudo no tema do preconceito racial e da  
mudança social e na relação entre ambos. Essa alteração na forma de se fazer ciências sociais,  
demonstra Elide no livro, criou uma geração e construiu, a partir dos estudos realizados por  
Fernandes e seus alunos na Escola Paulista de Sociologia, não uma sociologia brasileira, mas  
uma sociologia no Brasil. Isto é, uma ciência social interessada e implicada nos problemas de  
sua localidade, mas jamais mimada pelo seu ser e estar, posto que se colocou desde o princípio  
conectada, não com o centro, mas com o próprio cosmopolitismo, pois é assim que toda ciência  
deve ser: local, pois que comprometida com o objeto que analisa, e cosmopolita, pois que deve  
ser compreendida em seus propósitos e resultados por quem quer que seja em qualquer lugar.  
Esse o êxito epistêmico e, evidentemente, político da sociologia de Florestan Fernandes.  
Elide nos mostra que Fernandes logrou essa sociologia com uma trajetória de pesquisa  
que se consolidou desde seus estudos sobre manifestações culturais no interior de São Paulo,  
quando era estudante na Escola de Sociologia e Política, até o livro que o inscreveu entre os  
intérpretes do país, A Revolução Burguesa no Brasil de 1975 e outros. Como a própria autora  
ressalta em diversos momentos, a expressão “circuito fechado”, que intitula o livro de Florestan  
de 1976, é que nos fornece bom ensejo para pensar a inovação do autor na interpretação das  
desigualdades brasileiras. Superando as visões dualistas que tendiam a problematizar a  
realidade brasileira a partir do enclave meridional desenvolvido e setentrional atrasado,  
Fernandes propõe um dispositivo de investigação processualista cujas facetas arcaicas e  
modernas coexistem e coabitam nos mais diversos níveis, o social, o cultural, o psicológico, o  
econômico e o político. Chegou a isto através de um longo trajeto de pesquisa no qual a força  
centrífuga, no mais das vezes, era o estudo das mudanças sociais e, por isso, a investigação das  
práticas institucionais e, também, os comportamentos grupais e individuais.  
Nesse percurso, Fernandes se antagonizou a toda tradição do pensamento social anterior,  
sobretudo a conservadora, pois demonstrou empírica, bem como elaborou teoricamente, que  
“no quadro do capitalismo dependente, ao estudar o regime de classes, é necessário lembrar dos  
dois polos de dominação: o interno e o externo. Portanto, é preciso agregar as conexões causais  
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O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
e funcionais das sociedades hegemônicas àquelas internas” (Bastos, 2025, p. 106). Nessa trilha,  
as teorias dualistas, seja a do par Casa Grande & Senzala da qual os resultados políticos  
culturalistas da democracia étnica são bem conhecidos, ou os Dois Brasis de Lambert, que  
inspiraram debates sobre os enclaves internos obnubilando as relações com as forças da  
dominação externa do capital, se não foram de todo superadas, ganharam, a partir das  
proposições de Fernandes, um contraponto de peso. Ainda, a teoria de Floresta Fernandes, nos  
mostra Elide, foi construída de pesquisa a pesquisa, de relatório a relatório, de livro a livro, de  
modo contínuo e sistemático, sem nunca abandonar o objetivo último que era o de compreender  
os enlaces, razões e motivos da coexistência ambivalente da riqueza e da pobreza e não só no  
plano objetivo econômico, como no subjetivo, nas atitudes e comportamentos do brasileiro.  
Mais do que uma interpretação compreensiva sobre o Estado, a obra de Florestan Fernandes  
mirou sempre a cidadania.  
Nesse quesito é que, segundo Elide Rugai Bastos, o foco de Florestan Fernandes na  
desigualdade racial foi de suma importância. Ora, ainda atualmente – como quaisquer dados de  
fácil acesso podem revelar – há uma grande desigualdade de acesso a direitos entre brancos e  
negros no Brasil, bem como a linha competitiva entre esses é absolutamente díspar e, portanto,  
é inegável que nas mudanças sociais do país, algo, do ponto de vista sociológico, ocorreu para  
que uma parcela, a mais significativa da população, não apareça completamente integrada à  
cidadania. Esse é o ângulo da pergunta dos estudos sobre a desigualdade racial proposto por  
Florestan. Não há democracia social ou étnica. De saída, em quaisquer transformações políticas  
operadas ao longo da trajetória brasileira, parte significativa da população permaneceu às  
margens das mudanças sociais, e a maior parte dessa parte marginal é de pessoas pretas. Estudar  
os óbices à integração do negro na sociedade de classes no Brasil é, pois, estudar, por  
metonímia, as razões do subdesenvolvimento do país. Não se trata de raça e cultura apenas. Se  
trata de raça, cultura, subjetividade, sociedade e política. O entrelaçamento de forças históricas,  
mas que também circulam no presente e se fazem concretas no plano do acesso aos direitos e  
ao mundo do trabalho. As mentalidades que subalternizam e que são subalternizadas devem ser  
compreendidas nas suas contradições e enlaces como forças que contrapõem, mas também se  
arrolam na construção da modernidade capitalista que carrega consigo, no seu sistema  
circulatório, atitudes e comportamentos arcaicos.  
Ainda sobre as pesquisas relacionadas à desigualdade racial, a autora coloca em relevo  
um aspecto metodológico empreendido por Florestan Fernandes que foi muito inovador nos  
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anos 1950 e 1951. No contexto da realização da pesquisa sobre relações raciais em São Paulo,  
promovida no âmbito do Projeto Unesco, o professor Roger Bastide encarregou Fernandes da  
tarefa de feitura do projeto de estudo no qual o autor desenvolveu importante argumentação  
teórica sobre a pergunta “o tema do preconceito pode ser tratado sociologicamente?”, bem como  
fez discussão para diferenciar “preconceito” de “discriminação”. Elide Rugai Bastos revisa com  
profundidade o passo a passo dessa construção e, portanto, não a refaremos aqui, mas vale dizer  
do seu resultado, qual seja, que “a fusão dos conceitos permite uma alteração semântica  
importante. As associações e os agrupamentos sociais questionam a denominação “populações  
de cor” [era esta que vigorava naquele momento] e passam a identificar-se como negros”  
(Bastos, 2025, p. 156). E ainda no projeto de pesquisa, Fernandes considerou entre a realização  
de entrevistas, estudos de caso e aplicação de questionários um procedimento específico muito  
arrojado que foi o de reunir intelectuais negros colaboradores da pesquisa “indicando-os como  
jornalistas, funcionários públicos, escritores, médicos, professores. Essas pessoas participaram  
de seminários e mesas-redondas organizados por Roger Bastide e Florestan Fernandes,  
patrocinados pela Unesco, realizados na Biblioteca Municipal, com associações como José do  
Patrocínio ou reuniões de mulheres de cor, na USP” (Bastos, 2025, p. 162).  
Segundo Elide Rugai Bastos, no capítulo sete, intitulado “Dois livros: dez anos de  
intervalo”, foi este manancial empírico e teórico, colhido e elaborado em inícios da década de  
1950 no contexto do Projeto Unesco, que garantiu as condições e possibilidades para Florestan  
Fernandes escrever, entre 1963 e 1964, aquele que é “sem dúvida, um dos mais importantes  
livros direcionado à compreensão do Brasil” (Bastos, 2025, p. 163), A integração do negro na  
sociedade de classes, pois que é nesse livro, segundo Elide, que Fernandes derruba de uma vez  
por todas quaisquer interpretações sobre a realidade brasileira baseadas na democracia racial.  
Ao tratar do negro como “o elo mais fraco da corrente social” (Bastos, 2025, p. 170), Florestan  
procura compreendê-lo como cidadão que vive à margem da sociedade de classes e busca  
demonstrar, metodologicamente, como “um grupo que carrega desvantagens maiores do que  
outros para integrar-se socialmente” pode ser tomado como metonímia de um processo maior,  
pois “a partir da periferia percebe-se melhor o movimento da sociedade, possibilitando, assim,  
a percepção dos princípios que a articulam”. (Bastos, 2025, p. 170) O estudo do negro e as  
dificuldades de sua integração na sociedade de classes sugere, pois, em nível microcósmico o  
que se pode estudar em nível macrocósmico sobre os problemas de integração nas relações  
entre centro e periferia do capitalismo.  
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O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
O leitor que procurar nesse livro de Elide Rugai Bastos aquele “lugar comum” que  
afirma haver um Florestan Fernandes cientista social funcionalista até idos de 1964 e um outro  
Florestan Fernandes marxista combativo após sua aposentadoria compulsória pela Ditadura  
Militar, por óbvio, se desencantará. Em A máquina da desigualdade, a professora Elide  
apresenta uma hipótese sofisticada que vai muito além de querelas desnecessárias: em  
realidade, a partir dos trabalhos de Florestan Fernandes e de suas orientações teóricas e  
metodológicas, seus alunos, entre eles, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, José de  
Souza Martins, inovaram a agenda de pesquisa sociológica em temas que Elide sistematizou na  
chave “pensamento social da Escola Paulista de Sociologia”, quais sejam: i) o atraso como eixo,  
que permitiu formulação de questões importantes sobre o dinamismo da produção, as  
disparidades regionais, a comparação com outras realidades latino-americanas e a coexistência  
do arcaico e do moderno na estrutura da sociedade brasileira; ii) um padrão teórico-  
metodológico que é o de se debruçar sobre a periferia para a partir dela perceber, por metonímia,  
o movimento da sociedade e assim buscar a compreensão de seu funcionamento; iii) a tensão  
como constitutiva da sociedade, afastando-se, pois, da ideia de que as tensões sociais são  
sempre disruptivas e anômicas e que, pelo contrário, ela pode em si ter validade heurística uma  
vez que ela faz parte da natureza da sociedade, sobretudo em contextos de subordinação externa  
e dependência; iv) sujeitos políticos/sujeitos sociais, tensão que aparece sobretudo nos estudos  
de Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni sobre o mundo agrícola e escravista, nos quais  
“a natureza da sociedade condiciona a própria emergência dos sujeitos políticos” (Bastos, 2025,  
p. 244); v) a crise, como conceito que Florestan concebe como “móvel do pensamento  
sociológico nas condições latino-americanas” e José de Souza Martins utilizará como elemento  
explicativo em análises de conjunturas; vi) passado e presente, a dinâmica entre o velho e o  
novo no estudo do sistema político ou no estudo das cidades como fez Maria Arminda do  
Nascimento Arruda no seu livro Metrópole e cultura: São Paulo no meio do século XX; vii)  
ambivalência, sobretudo a dos intelectuais, suas ideias e suas práticas já que leem o que é  
moderno, mas vivem em realidade escravista como analisou Walquiria Leão Rego ao tratar de  
Tavares Bastos e; viii) a crise da modernidade, ou “por que as expressões da modernidade  
emergente não cumpriram todas as virtualidades contidas em suas promessas” (Bastos, 2025,  
p. 262).  
A economia do livro é um convite à leitura: traz texto na orelha interna do sociólogo,  
professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Antonio Brasil Junior, e texto na quarta  
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capa do sociólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas, Mário Augusto Medeiros  
da Silva. A introdução é indispensável: situa o leitor, de fato, para o que virá a seguir e o mais  
importante, justifica a atualidade do livro, pois “a questão da desigualdade abordada por  
Florestan Fernandes e autores que compõem a tradição por ele inaugurada é o grande tema do  
mundo contemporâneo” (Bastos, 2025, p. 31).  
O volume segue divido em três partes e onze temas: Parte 1 Teoria e Metodologia:  
Questão social e sociologia, onde é discutido o conceito de questão social, os temas da  
diversidade e da desigualdade, da consciência social e da democracia; A construção das ciências  
sociais, na qual Elide disserta sobre a ambiência cultural de São Paulo, a cidade como campo  
de pesquisa e as questões da implicação política do fazer sociológico nos anos 1950; Uma  
sociologia local e cosmopolita, tópico no qual está discutida a tese de que a sociologia de  
Florestan é feita na periferia, mas não por isso deixa de ser central para a sociologia; O controle  
das mudanças sociais, por que Florestan adotou mudanças no plural e qual a atualidade do tema  
para a sociologia; A história nunca se fecha, na qual a autora aborda a centralidade da expressão  
“circuito fechado” elaborada por Florestan Fernandes e suas implicações teórico-  
metodológicas, bem como sua importância para a atualidade na pesquisa social. Parte 2 –  
Questão Racial e Modernização: Raça e revolução burguesa, no qual a autora reconstrói o  
itinerário do tema da desigualdade racial nos estudos e pesquisas de Florestan e como ele se  
solda da perspectiva micro à macrossocial; Dois livros: dez anos de intervalo, em que Elide  
trata da relação entre dois livros “muito importantes para o desenvolvimento das ciências  
sociais no Brasil” (Bastos, 2025, p. 149), quais sejam, Relações raciais entre negros e brancos  
em São Paulo, de Roger Bastide e Florestan Fernandes de 1955 e A integração do negro na  
sociedade de classes, de Florestan Fernandes de 1965; Um entre outros debates sobre  
preconceito racial, no qual a autora escreve sobre um polêmico artigo de Paulo Duarte de 1947  
e, a partir dele, o debate sobre o preconceito racial na Revista Anhembi, a questão da  
democracia racial e o problema do negro na realidade brasileira. Parte 3 Uma Tradição  
Sociológica: Raça e Nação, em que são revistados os estudos e pesquisas da Universidade de  
São Paulo sobre a questão racial, a partir dos estudos em Florianópolis e Curitiba, bem como a  
relação entre raça e organização nacional; Pensamento Social da Escola Paulista de Sociologia,  
ao qual já fizemos referência acima e; Atualidade do pensamento social brasileiro, no qual os  
temas do subdesenvolvimento, da marginalidade e da mudança social são repostos à  
compreensão da agenda vigente de pesquisa nas ciências sociais brasileiras.  
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O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
Ademais, cabe perguntar, em um livro que trata tanto da metodologia de um dos mais  
importantes sociólogos, qual foi o método da autora? Diremos que ela não se deixou enganar  
pelos discursos acessórios, pelos críticos e comentadores e por revisões bibliográficas insólitas  
e maçantes, pois foi procurar na fonte primária as respostas às suas questões. Isto é, o manancial  
empírico de seu trabalho são os textos de Florestan Fernandes e dos sociólogos da Escola  
Paulista de Sociologia. São eles que falam, mais uma vez, pelas palavras de Elide Rugai Bastos  
em um livro que organiza e faz compreender o lugar e a importância de um sociólogo que viveu  
e trabalhou na e sobre a periferia do capitalismo e nos legou uma escola para o aprendizado do  
Brasil e, simultaneamente, nos ensinou como fazer sociologia em qualquer lugar.  
Recebido em: 27/5/2026  
Aceito em: 29/5/2026