ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 61, Julho/Dez de 2024, p. 07-09  
EDITORIAL  
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Rogério de Souza Medeiros  
Marcelo Burgos Pimentel dos Santos  
É com satisfação que apresentamos o Número 61 da Revista Política & Trabalho. Nesta edição,  
reunimos um conjunto de sete textos que, a partir de diferentes matizes teóricas e recortes empíricos,  
lançam luz sobre as complexas relações entre as tentativas de regulação, o avanço da plataformização e  
as persistentes lutas por direitos e reconhecimento. Os artigos reunidos nessa edição oferecem um  
panorama abrangente das tensões que marcam o capitalismo contemporâneo, desde as indústrias  
tradicionais em reestruturação até as novas fronteiras do trabalho digital e das profissões liberais.  
Abrindo este número, o artigo de Tarik Dias Hamdan, "Acordos Marco Globais em subsidiárias:  
o uso de regulações internacionais por parte dos trabalhadores da Volkswagen do Brasil", analisa a  
implementação da Carta de Relações Laborais na indústria automotiva nacional. Sob a ótica do  
institucionalismo histórico, o autor investiga como a origem institucional das relações industriais  
brasileiras - marcadamente hierárquicas e conflituosas - moldou a percepção dos sindicatos, levando-os  
à adoção apenas parcial dos modelos de cogestão de inspiração alemã. O estudo demonstra que, no  
contexto das subsidiárias, os trabalhadores tendem a adaptar instrumentos globais à realidade nacional  
para preservar a autonomia sindical e neutralizar funções de caráter gerencial que poderiam fragilizar o  
poder de barganha frente à matriz.  
Dando continuidade ao debate sobre a ação coletiva frente às transformações tecnológicas,  
Vamberto Ferreira Miranda Filho apresenta "As plataformas digitais de trabalho e os sindicatos na  
Alemanha e em Portugal". O autor utiliza a Abordagem dos Recursos de Poder (ARP) para comparar  
como sindicatos tradicionais, como o IG Metall alemão e o STRUP português, mobilizam poder de  
influência social e discurso para representar cloud e gigworkers. Os resultados sublinham a necessidade  
premente de uma combinação entre recursos de poder tradicionais e digitais, bem como a importância  
da cooperação transnacional entre o Norte e o Sul Global para enfrentar a precarização estrutural imposta  
pela economia de plataformas.  
Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.  
 Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.  
MEDEIROS. R. S.; SANTOS, M.B.P.  
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O terceiro artigo, "Nada para nós sem nós: a luta histórica das trabalhadoras domésticas  
brasileiras e a PEC das domésticas de 2013", de Yasmin Mussalem Haddad e Margarita Olivera, nos  
convida a uma reflexão decolonial sobre uma das categorias mais marginalizadas da nossa estrutura  
social. As autoras articulam as imbricações de gênero, raça e classe para demonstrar que a conquista de  
direitos - simbolizada pela Emenda Constitucional nº 72 - é fruto de um longo processo de resistência  
liderado por mulheres negras. O texto ressalta que, apesar dos avanços legislativos, a implementação  
prática desses direitos enfrenta desafios severos, como a fiscalização limitada no âmbito privado e o  
crescimento da "diarização", que reproduz lógicas de informalidade e precariedade.  
Avançando para o cenário legislativo mais recente, Vinícius Foletto Bevilaqua contribui com o  
artigo "O conflito político-ideológico no capitalismo brasileiro de plataforma: uma análise dos valores  
envolvidos na regulamentação do trabalho do motorista de aplicativo". Através de uma sociologia dos  
valores e da análise das audiências públicas sobre o PLP 12/2024, o autor identifica que os conceitos de  
"autonomia" e "transparência" operam como eixos centrais de disputa entre empresas, Estado e  
associações de trabalhadores. O estudo revela um esvaziamento do pleito tradicional por proteção social  
em favor de uma autonomia que, na prática, encontra-se limitada por uma opacidade algorítmica  
característica da arquitetura das plataformas e pela ausência de canais efetivos de participação dos  
motoristas nas decisões das plataformas.  
No quinto texto, Matheus Silveira de Souza explora a ampliação da precarização para esferas  
de alta qualificação em "Plataformização da advocacia: condições de trabalho e trajetória social de  
advogados uberizados". O autor investiga a plataforma "Jurídico Certo" e demonstra como a arquitetura  
digital impõe dinâmicas de "leilão negativo" e "fragmentação do trabalho jurídico", depreciando  
honorários e reduzindo a autonomia profissional. De maneira instigante, a pesquisa revela que a  
plataformização atinge majoritariamente advogados de origem na classe trabalhadora, para os quais o  
diploma universitário acaba por representar uma "ascensão social na precariedade", mantendo  
rendimentos e instabilidades similares aos de ocupações de menor prestígio.  
Em seguida, temos a resenha de André Campos Rocha sobre a obra de Ergin Bulut, "A  
Precarious Game: The Illusion of Dream Jobs in the Video Game Industry". A resenha destaca como a  
indústria de jogos digitais, frequentemente glamourizada, utiliza discursos de "paixão" e "amor ao  
trabalho" para camuflar regimes de exploração intensivos e desigualdades profundas de gênero e raça.  
Bulut propõe que a precariedade nesses setores criativos é muitas vezes internalizada como destino  
individual, dificultando a organização coletiva e exigindo, como sugere o autor, uma crítica radical às  
formas contemporâneas de alienação "alegre" no pós-fordismo.  
Encerramos esta edição com a contribuição de Aristóteles de Almeida Silva, que resenha a obra  
de Clara Mattei, "The Capital Order: how economists invented austerity". O texto oferece uma análise  
contundente sobre a relação intrínseca entre a austeridade econômica e a ascensão do fascismo,  
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Editorial  
demonstrando que, na Itália de 1922, o sucesso da implementação de políticas de austeridade dependeu  
diretamente do regime de Mussolini. Mattei argumenta que a austeridade não foi apenas um aliado do  
fascismo, mas sua "campeã", servindo como uma reação antidemocrática deliberada para esmagar as  
alternativas ao capitalismo que emergiram nos "anos vermelhos" do pós-Primeira Guerra. A resenha  
destaca um ponto perturbador da obra: como o establishment liberal internacional e financistas  
estrangeiros apoiaram entusiasticamente o governo fascista, por enxergarem no autoritarismo o meio  
mais eficaz de subjugar a classe trabalhadora, reduzir salários e restaurar a "ordem do capital". Ao  
despolitizar a economia sob o manto da tecnocracia neutralista, a austeridade revelou sua face perversa  
como ferramenta de classe que, tanto ontem quanto hoje, busca isolar as decisões econômicas do  
escrutínio democrático para preservar o lucro em detrimento da vida social.  
Em conjunto, os trabalhos que compõem o Número 61 da Política & Trabalho reafirmam o  
compromisso deste periódico com a excelência acadêmica e a sensibilidade social. Ao documentar as  
tensões entre o capital e o trabalho em suas formas emergentes, os autores aqui reunidos não apenas  
diagnosticam as mazelas do presente, mas também oferecem subsídios vitais para imaginarmos futuros  
em que a democracia e o trabalho digno não sejam apenas aspirações, mas realidades concretas.  
Desejamos a todos e todas uma ótima leitura!  
Os Editores.