MEDEIROS. R. S.; SANTOS, M.B.P.
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O terceiro artigo, "Nada para nós sem nós: a luta histórica das trabalhadoras domésticas
brasileiras e a PEC das domésticas de 2013", de Yasmin Mussalem Haddad e Margarita Olivera, nos
convida a uma reflexão decolonial sobre uma das categorias mais marginalizadas da nossa estrutura
social. As autoras articulam as imbricações de gênero, raça e classe para demonstrar que a conquista de
direitos - simbolizada pela Emenda Constitucional nº 72 - é fruto de um longo processo de resistência
liderado por mulheres negras. O texto ressalta que, apesar dos avanços legislativos, a implementação
prática desses direitos enfrenta desafios severos, como a fiscalização limitada no âmbito privado e o
crescimento da "diarização", que reproduz lógicas de informalidade e precariedade.
Avançando para o cenário legislativo mais recente, Vinícius Foletto Bevilaqua contribui com o
artigo "O conflito político-ideológico no capitalismo brasileiro de plataforma: uma análise dos valores
envolvidos na regulamentação do trabalho do motorista de aplicativo". Através de uma sociologia dos
valores e da análise das audiências públicas sobre o PLP 12/2024, o autor identifica que os conceitos de
"autonomia" e "transparência" operam como eixos centrais de disputa entre empresas, Estado e
associações de trabalhadores. O estudo revela um esvaziamento do pleito tradicional por proteção social
em favor de uma autonomia que, na prática, encontra-se limitada por uma opacidade algorítmica
característica da arquitetura das plataformas e pela ausência de canais efetivos de participação dos
motoristas nas decisões das plataformas.
No quinto texto, Matheus Silveira de Souza explora a ampliação da precarização para esferas
de alta qualificação em "Plataformização da advocacia: condições de trabalho e trajetória social de
advogados uberizados". O autor investiga a plataforma "Jurídico Certo" e demonstra como a arquitetura
digital impõe dinâmicas de "leilão negativo" e "fragmentação do trabalho jurídico", depreciando
honorários e reduzindo a autonomia profissional. De maneira instigante, a pesquisa revela que a
plataformização atinge majoritariamente advogados de origem na classe trabalhadora, para os quais o
diploma universitário acaba por representar uma "ascensão social na precariedade", mantendo
rendimentos e instabilidades similares aos de ocupações de menor prestígio.
Em seguida, temos a resenha de André Campos Rocha sobre a obra de Ergin Bulut, "A
Precarious Game: The Illusion of Dream Jobs in the Video Game Industry". A resenha destaca como a
indústria de jogos digitais, frequentemente glamourizada, utiliza discursos de "paixão" e "amor ao
trabalho" para camuflar regimes de exploração intensivos e desigualdades profundas de gênero e raça.
Bulut propõe que a precariedade nesses setores criativos é muitas vezes internalizada como destino
individual, dificultando a organização coletiva e exigindo, como sugere o autor, uma crítica radical às
formas contemporâneas de alienação "alegre" no pós-fordismo.
Encerramos esta edição com a contribuição de Aristóteles de Almeida Silva, que resenha a obra
de Clara Mattei, "The Capital Order: how economists invented austerity". O texto oferece uma análise
contundente sobre a relação intrínseca entre a austeridade econômica e a ascensão do fascismo,