ISSN 1517-5901(online)
POLÍTICA & TRABALHO
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 09-11
EDITORIAL
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Rogério de Souza Medeiros
Marcelo Burgos Pimentel dos Santos
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É com renovado compromisso intelectual que a Revista Política & Trabalho apresenta
seu número 62, uma edição comemorativa pelos seus 40 anos de existência. O presente número
também celebra Florestan Fernandes com um dossiê especial que marca os 30 anos de sua
morte. A edição atual também marca uma mudança na política editorial da P&T que, a partir
deste número, passa a ter periodicidade anual, em vez de semestral. Essa mudança se faz
necessária para melhor atender às demandas editoriais e facilitar o fluxo de publicações,
garantindo maior celeridade ao processo para autoras/es.
Em um momento histórico marcado por profundas transformações nas relações de
trabalho e por desafios crescentes à democracia, este número convida o leitor a uma reflexão
que articula a herança do pensamento social brasileiro com as urgências do tempo presente.
A estrutura deste volume organiza-se em torno de um dossiê temático de fôlego, seguido
por artigos de fluxo contínuo, uma entrevista biográfica e resenhas que dialogam com obras
seminais da nossa área.
O núcleo central desta edição é o dossiê Florestan Fernandes: teórico social e
intelectual público, que celebra o legado do sociólogo paulista nos marcos de 30 anos de sua
morte e 50 anos da publicação de A Revolução Burguesa no Brasil.
Na apresentação, Lucas Trindade e Diogo Valença de Azevedo Costa, organizadores do
dossiê, sublinham como a obra de Fernandes, enraizada em um estilo de pensamento lumpen,
oferece ferramentas fundamentais para pensar o devir-periferia do mundo.
O dossiê é inaugurado pelo artigo de Wilson Rogério Penteado Júnior, que resgata a
noção de povo nos estudos de folclore de Fernandes, demonstrando como o autor refutou visões
inerciais e evolucionistas para forjar uma concepção dinâmica de coletividade.
Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.
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Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.
MEDEIROS. R. S.; SANTOS, M.B.P. 10
Em seguida, Ana Rodrigues Cavalcanti Alves e Eliane Veras Soares examinam os
antecedentes do dilema racial brasileiro. Por meio de uma análise diacrônica, as autoras
contestam a leitura residualista do racismo na obra de Fernandes, evidenciando como, nos
anos 1950, o autor identificava as novas funções assumidas pelo preconceito na ordem social
competitiva.
Dando sequência a este eixo, Paulo Henrique Fernandes Silveira, no artigo "Florestan
Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra", mergulha nos arquivos do Fundo
Florestan Fernandes (UFSCar) para lançar luz sobre uma dimensão metodológica e política
fundamental da pesquisa Unesco realizada nos anos 1950. O autor demonstra como Fernandes
e Bastide, ao incorporarem seminários, histórias de vida e o testemunho direto de dezenas de
lideranças - a exemplo de Jorge Teixeira, Sofia Campos e José Correia Leite -, romperam com
a tradição de silenciamento dos grupos marginalizados na academia.
De modo complementar, Remo Mutzenberg e Eliane Veras Soares estabelecem pontes
entre a interpretação de Fernandes sobre os movimentos negros e as Teorias dos Novos
Movimentos Sociais (TNMS). O artigo destaca a agência coletiva e a construção de quadros de
referência (frames) na luta antirracista de São Paulo entre 1920 e 1937.
A dimensão econômica do pensamento de Fernandes é visitada por Lucas Trindade e
Diogo Valença, que analisam o espírito do capitalismo revisitado desde a periferia. Os autores
traçam um diálogo entre Weber, Sombart e as categorias de Fernandes, como a racionalidade
possível e a resistência sociopática à mudança, para explicar a associação entre
desenvolvimento capitalista e autocracia burguesa.
Encerrando o dossiê, Aristeu Portela Júnior e Maria de Fátima Souza da Silveira
propõem um diálogo entre Fernandes e Ailton Krenak no cenário da Assembleia Constituinte.
O texto confronta a mitologia da colonização pacífica e ressalta a importância do território
para o reconhecimento das populações indígenas como nações.
Na seção de artigos de fluxo contínuo, o texto de Michel Nicolau Netto discute o
prestígio das ciências sociais no Brasil contemporâneo. O autor argumenta que, embora a
universidade tenha perdido o monopólio da interpretação social para novos agentes, como
influenciadores e think tanks, ela permanece como o principal polo de legitimação simbólica
do campo.
o mundo do trabalho em mutação é o foco de Ruy Braga e Davi Camargo, que
analisam os impasses na regulamentação do uberismo. A pesquisa detalha a polarização entre
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o conceito de hora logada, defendido pelos trabalhadores como prova de subordinação, e o
de hora trabalhada, sustentado pelas empresas para manter a autonomia simulada.
Encerrando a seção de artigos de fluxo contínuo, Raynnara Laurentino Rodrigues e
Maurício Rombaldi avaliam o programa Empreender-PB. O estudo revela as dissonâncias entre
a retórica do empreendedorismo feminino e a realidade de precarização, mostrando como tais
políticas frequentemente deslocam para os indivíduos a responsabilidade pela proteção social.
Este número conta ainda com uma entrevista exclusiva com o professor Adalberto
Cardoso, conduzida por Cecilia Soares e equipe. Cardoso narra sua trajetória acadêmica da USP
ao IESP/UERJ, refletindo sobre sua formação interdisciplinar que transitou entre a sociologia
urbana, as artes plásticas e os estudos sindicais, além de oferecer um diagnóstico sobre as
mudanças tecnológicas e o acesso à pesquisa nas últimas décadas.
Nas resenhas, Rodrigo Estramanho de Almeida discute o livro A máquina das
desigualdades, de Elide Rugai Bastos, ressaltando o esforço da autora em sistematizar o
pensamento social da Escola Paulista de Sociologia e a atualidade de Florestan Fernandes para
a compreensão da marginalidade.
Por fim, Tarik Hamdan resenha a obra As origens da sociologia do trabalho, de
Ricardo Festi, mapeando os percursos cruzados entre as tradições brasileira e francesa nas
décadas de 1950 e 1960 e a influência de nomes como Friedmann e Touraine sobre os
fundadores da sociologia uspiana.
Desejamos que as páginas que se seguem estimulem o debate crítico e contribuam para
o adensamento das ciências sociais brasileiras, honrando a tradição desta revista em ser um
espaço de diálogo entre a teoria rigorosa e o compromisso social.
Boa leitura!
Os editores.