
MEDEIROS. R. S.; SANTOS, M.B.P. 10
Em seguida, Ana Rodrigues Cavalcanti Alves e Eliane Veras Soares examinam os
antecedentes do dilema racial brasileiro. Por meio de uma análise diacrônica, as autoras
contestam a leitura residualista do racismo na obra de Fernandes, evidenciando como, já nos
anos 1950, o autor identificava as novas funções assumidas pelo preconceito na ordem social
competitiva.
Dando sequência a este eixo, Paulo Henrique Fernandes Silveira, no artigo "Florestan
Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra", mergulha nos arquivos do Fundo
Florestan Fernandes (UFSCar) para lançar luz sobre uma dimensão metodológica e política
fundamental da pesquisa Unesco realizada nos anos 1950. O autor demonstra como Fernandes
e Bastide, ao incorporarem seminários, histórias de vida e o testemunho direto de dezenas de
lideranças - a exemplo de Jorge Teixeira, Sofia Campos e José Correia Leite -, romperam com
a tradição de silenciamento dos grupos marginalizados na academia.
De modo complementar, Remo Mutzenberg e Eliane Veras Soares estabelecem pontes
entre a interpretação de Fernandes sobre os movimentos negros e as Teorias dos Novos
Movimentos Sociais (TNMS). O artigo destaca a agência coletiva e a construção de quadros de
referência (frames) na luta antirracista de São Paulo entre 1920 e 1937.
A dimensão econômica do pensamento de Fernandes é visitada por Lucas Trindade e
Diogo Valença, que analisam o “espírito do capitalismo” revisitado desde a periferia. Os autores
traçam um diálogo entre Weber, Sombart e as categorias de Fernandes, como a “racionalidade
possível” e a “resistência sociopática à mudança”, para explicar a associação entre
desenvolvimento capitalista e autocracia burguesa.
Encerrando o dossiê, Aristeu Portela Júnior e Maria de Fátima Souza da Silveira
propõem um diálogo entre Fernandes e Ailton Krenak no cenário da Assembleia Constituinte.
O texto confronta a “mitologia” da colonização pacífica e ressalta a importância do território
para o reconhecimento das populações indígenas como nações.
Na seção de artigos de fluxo contínuo, o texto de Michel Nicolau Netto discute o
prestígio das ciências sociais no Brasil contemporâneo. O autor argumenta que, embora a
universidade tenha perdido o monopólio da interpretação social para novos agentes, como
influenciadores e think tanks, ela permanece como o principal polo de legitimação simbólica
do campo.
Já o mundo do trabalho em mutação é o foco de Ruy Braga e Davi Camargo, que
analisam os impasses na regulamentação do “uberismo”. A pesquisa detalha a polarização entre