Política & Trabalho: Revista de Ciências Sociais  
Programa de Pós-Graduação em Sociologia  
Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes  
Universidade Federal da Paraíba  
Publicação anual do PPGS/UFPB  
Política & Trabalho: Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025  
ISSN 1517-5901 (online)  
CONSELHO EDITORIAL  
César Barreira (Brasil), Christian Azais (França, Cynthia Lins Hamlin (Brasil), Edgard Afonso  
Malagodi (Brasil), Emília Araújo (Portugal), Howard Caygill (ReinoUnido), Frédéric  
Vandenberghe (Brasil), Jacob Carlos Lima (Brasil), Joanildo A. Burity (Brasil), José Arlindo  
Soares (Brasil), Julie Antoinette Cavignac (Brasil), Lee Jonathan Pegler (Holanda),  
MarieFrance Garcia-Parpet (França), Paulo Henrique Martins (Brasil), Regina novais (Brasil),  
Rubens Pinto Lyra (Brasil), Sandra J. Stoll (Brasil), Theophilos Rifiotis (Brasil), Vera da Silva  
Telles (Brasil), Zhou Zhiwel (China).  
EDITORIA  
Marcelo Burgos Pimentel dos Santos, UFPB, Brasil; Rogério de Souza Medeiros, UFPB, Brasil  
COMITÊ EDITORIAL  
Jesus Marmanillo Pereira, UFPB, Brasil; Jórissa Danilla N. Aguiar, UFPB, Brasil; Marcelo  
Burgos Pimentel dos Santos, UFPB, Brasil; Rogério de Souza Medeiros, UFPB, Brasil  
EDITORAS-ASSISTENTES  
Iolivalda Lima Estrêla (PPGS), UFPB, Brasil; Nínive Fonseca Machado (PPGS), UFPB, Brasil  
REVISORA  
Ana Carolina Costa Porto (PPGS), UFPB, Brasil  
DESIGN GRÁFICO  
Imagem da capa: Foto 3x4 para documentos de Florestan Fernandes aos 36 anos de idade. A  
foto pertence ao Fundo Florestan Fernandes, da Coordenadoria de Obras Raras e Coleções  
Especiais da Universidade Federal de São Carlos, e pode ser pesquisada no Pergamum do  
Sistema Integrado de Bibliotecas da UFSCar sob o número de tombo 3787  
Diagramação: Iolivalda Lima Estrêla (PPGS), UFPB, Brasil.  
Projeto gráfico da capa: Rogério de Souza Medeiros, UFPB, Brasil;  
A apresentação de colaborações e os pedidos de permuta e/ou compra devem ser encaminhados  
ao PPGS/UFPB: Universidade Federal da Paraíba Programa de Pós-Graduação em Sociologia  
(PPGS) Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) Bloco V Campus I Cidade  
Universitária CEP 58051-970 João Pessoa Paraíba Brasil Telefax (83) 3216-7204 –  
Email: politicaetrabalho@gmail.com  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais  
Publicação do Programa de Pós-graduação em  
Sociologia da Universidade Federal da Paraíba  
(Campus I - João Pessoa)  
Número 62  
2025  
ISSN 1517-5901 (online)  
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA  
Reitor: Terezinha Domiciano  
Vice-Reitora: Mônica Nóbrega  
Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Evandro Leite de Souza  
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES  
Diretor: Rodrigo Freire de Carvalho e Silva  
Vice-Diretora: Thaís Augusta Cunha de Oliveira  
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA  
Vice-coordenador: Jesus Marmanillo Pereira  
Programa de Pós-Graduação em Sociologia PPGS/UFPB  
Indexação  
Revista de Ciências Sociais Política & Trabalho está licenciada com uma Licença Creative  
Commons Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional. Qualquer parte desta publicação pode ser  
reproduzida, desde que citada a fonte PPGS/UFPB.  
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca Central Campus I –  
Universidade Federal da Paraíba  
R449  
Revista Política e Trabalho / Programa de Pós-  
Graduação em Sociologia Vol. 1. n.62 (2025). João  
Pessoa, 2026.  
301 p.  
1517-5901 (online) -1. Ciências Sociais. 2. Política. 3.Trabalho.  
UFPB/BC CDU:32  
SUMÁRIO  
9
EDITORIAL | Rogério de Souza Medeiros; Marcelo Burgos Pimentel dos Santos  
FLORESTAN FERNANDES: TEÓRICO SOCIAL E INTELECTUAL PÚBLICO  
DOSSIÊ  
13  
26  
APRESENTAÇÃO | Lucas Trindade; Diogo Valença de Azevedo Costa  
UMA CATEGORIA COM SENTIDO LATENTE: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes | Wilson Rogério Penteado  
Júnior  
52  
75  
93  
ANTECEDENTES DO DILEMA RACIAL BRASILEIRO | Ana Rodrigues Cavalcanti  
Alves; Eliane Veras Soares  
FLORESTAN FERNANDES, ROGER BASTIDE E A PALAVRA DA MILITÂNCIA  
NEGRA | Paulo Henrique Fernandes Silveira  
A INTERPRETAÇÃO DE FLORESTAN SOBRE OS MOVIMENTOS NEGROS:  
afinidades com as teorias dos novos movimentos sociais | Remo Mutzenberg; Eliane  
Veras Soares  
115  
148  
O ESPÍRITO DO CAPITALISMO REVISTO DESDE A PERIFERIA: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes | Lucas Trindade; Diogo Valença de  
Azevedo Costa  
POVOS INDÍGENAS E FORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na Constituinte | Aristeu Portela Júnior; Maria de Fátima  
Souza da Silveira  
ARTIGOS  
176  
O PRESTÍGIO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS HOJE: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo | Michel Nicolau  
Netto  
197  
REGULANDO O UBERISMO: Impasses na regulamentação do trabalho por aplicativo  
no Brasil | Ruy Braga; Davi Camargo  
225  
EMPREENDEDORISMO  
COMO  
ESTRATÉGIA  
DE  
COMBATE  
ÀS  
DESIGUALDADES? Dissonâncias entre o Programa Empreender-PB e a proteção  
social do trabalho | Raynnara Laurentino Rodrigues; Maurício Rombaldi  
ENTREVISTA  
251  
ENTREVISTA COM ADALBERTO CARDOSO | Cecilia Soares; Alexander  
Englander; Bruna da Penha; Thiago Brandão  
RESENHAS  
285  
O DISPOSITIVO DA SOCIOLOGIA: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan  
Fernandes | Rodrigo Estramanho de Almeida  
292  
SOCIOLOGIA DO TRABALHO E MODERNIZAÇÃO: os caminhos compartilhados  
entre Brasil e França | Tarik Dias Hamdan  
CONTENTS  
9
EDITORIAL | Rogério de Souza Medeiros; Marcelo Burgos Pimentel dos Santos  
FLORESTAN FERNANDES: SOCIAL THEORIST AND PUBLIC INTELLECTUAL  
DOSSIER  
13  
26  
PRESENTATION | Lucas Trindade; Diogo Valença de Azevedo Costa  
A CATEGORY WITH LATENT MEANING: the notion of “folk” in brazilian folklore  
Studies and Florestan Fernandes’s (critical) perspective | Wilson Rogério Penteado  
Júnior  
52  
BACKGROUND OF THE BRAZILIAN RACIAL DILEMMA | Ana Rodrigues  
Cavalcanti Alves; Eliane Veras Soares  
75  
FLORESTAN FERNANDES, ROGER BASTIDE AND THE WORD OF BLACK  
ACTIVISM | Paulo Henrique Fernandes Silveira  
93  
FLORESTAN'S INTERPRETATION OF BLACK MOVEMENTS: affinities with the  
theories of new social movements | Remo Mutzenberg; Eliane Veras Soares  
115  
THE SPIRIT OF CAPITALISM REVIEWED FROM THE PERIPHERY: expressions  
of bourgeois rationality in Florestan Fernandes | Lucas Trindade; Diogo Valença de  
Azevedo Costa  
148  
INDIGENOUS PEOPLES AND THE BRAZILIAN SOCIAL FORMATION: Florestan  
Fernandes and Ailton Krenak in the National Constituent Assembly | Aristeu Portela  
Júnior; Maria de Fátima Souza da Silveira  
ARTICLES  
176  
THE PRESTIGE OF SOCIAL SCIENCES TODAY: contradictions in the expansion of  
the market for interpreting the social world in contemporary Brazil | Michel Nicolau  
Netto  
197  
REGULATING UBERISM: Deadlocks in the regulation of app-based work in Brazil |  
Ruy Braga; Davi Camargo  
225  
ENTREPRENEURSHIP AS A STRATEGY TO COMBAT INEQUALITIES?  
Dissonances between the Empreender-PB Program and social protection of labor |  
Raynnara Laurentino Rodrigues; Maurício Rombaldi  
INTERVIEW  
251  
INTERVIEW WITH ADALBERTO CARDOSO | Cecilia Soares; Alexander  
Englander; Bruna da Penha; Thiago Brandão  
REVIEWS  
285  
THE DEVICE OF SOCIOLOGY: Elide Rugai Bastos interprets Florestan Fernandes |  
Rodrigo Estramanho de Almeida  
292  
SOCIOLOGY OF WORK AND MODERNIZATION: the Shared Paths Between Brazil  
and France | Tarik Dias Hamdan  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 09-11  
EDITORIAL  
___________________________________  
Rogério de Souza Medeiros  
Marcelo Burgos Pimentel dos Santos  
É com renovado compromisso intelectual que a Revista Política & Trabalho apresenta  
seu número 62, uma edição comemorativa pelos seus 40 anos de existência. O presente número  
também celebra Florestan Fernandes com um dossiê especial que marca os 30 anos de sua  
morte. A edição atual também marca uma mudança na política editorial da P&T que, a partir  
deste número, passa a ter periodicidade anual, em vez de semestral. Essa mudança se faz  
necessária para melhor atender às demandas editoriais e facilitar o fluxo de publicações,  
garantindo maior celeridade ao processo para autoras/es.  
Em um momento histórico marcado por profundas transformações nas relações de  
trabalho e por desafios crescentes à democracia, este número convida o leitor a uma reflexão  
que articula a herança do pensamento social brasileiro com as urgências do tempo presente.  
A estrutura deste volume organiza-se em torno de um dossiê temático de fôlego, seguido  
por artigos de fluxo contínuo, uma entrevista biográfica e resenhas que dialogam com obras  
seminais da nossa área.  
O núcleo central desta edição é o dossiê Florestan Fernandes: teórico social e  
intelectual público, que celebra o legado do sociólogo paulista nos marcos de 30 anos de sua  
morte e 50 anos da publicação de A Revolução Burguesa no Brasil.  
Na apresentação, Lucas Trindade e Diogo Valença de Azevedo Costa, organizadores do  
dossiê, sublinham como a obra de Fernandes, enraizada em um estilo de pensamento lumpen,  
oferece ferramentas fundamentais para pensar o devir-periferia do mundo.  
O dossiê é inaugurado pelo artigo de Wilson Rogério Penteado Júnior, que resgata a  
noção de povo nos estudos de folclore de Fernandes, demonstrando como o autor refutou visões  
inerciais e evolucionistas para forjar uma concepção dinâmica de coletividade.  
Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.  
 Editor da Revista Política & Trabalho e professor da Universidade Federal da Paraíba.  
MEDEIROS. R. S.; SANTOS, M.B.P.  
10  
Em seguida, Ana Rodrigues Cavalcanti Alves e Eliane Veras Soares examinam os  
antecedentes do dilema racial brasileiro. Por meio de uma análise diacrônica, as autoras  
contestam a leitura residualista do racismo na obra de Fernandes, evidenciando como, já nos  
anos 1950, o autor identificava as novas funções assumidas pelo preconceito na ordem social  
competitiva.  
Dando sequência a este eixo, Paulo Henrique Fernandes Silveira, no artigo "Florestan  
Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra", mergulha nos arquivos do Fundo  
Florestan Fernandes (UFSCar) para lançar luz sobre uma dimensão metodológica e política  
fundamental da pesquisa Unesco realizada nos anos 1950. O autor demonstra como Fernandes  
e Bastide, ao incorporarem seminários, histórias de vida e o testemunho direto de dezenas de  
lideranças - a exemplo de Jorge Teixeira, Sofia Campos e José Correia Leite -, romperam com  
a tradição de silenciamento dos grupos marginalizados na academia.  
De modo complementar, Remo Mutzenberg e Eliane Veras Soares estabelecem pontes  
entre a interpretação de Fernandes sobre os movimentos negros e as Teorias dos Novos  
Movimentos Sociais (TNMS). O artigo destaca a agência coletiva e a construção de quadros de  
referência (frames) na luta antirracista de São Paulo entre 1920 e 1937.  
A dimensão econômica do pensamento de Fernandes é visitada por Lucas Trindade e  
Diogo Valença, que analisam o espírito do capitalismorevisitado desde a periferia. Os autores  
traçam um diálogo entre Weber, Sombart e as categorias de Fernandes, como a racionalidade  
possívele a resistência sociopática à mudança, para explicar a associação entre  
desenvolvimento capitalista e autocracia burguesa.  
Encerrando o dossiê, Aristeu Portela Júnior e Maria de Fátima Souza da Silveira  
propõem um diálogo entre Fernandes e Ailton Krenak no cenário da Assembleia Constituinte.  
O texto confronta a mitologiada colonização pacífica e ressalta a importância do território  
para o reconhecimento das populações indígenas como nações.  
Na seção de artigos de fluxo contínuo, o texto de Michel Nicolau Netto discute o  
prestígio das ciências sociais no Brasil contemporâneo. O autor argumenta que, embora a  
universidade tenha perdido o monopólio da interpretação social para novos agentes, como  
influenciadores e think tanks, ela permanece como o principal polo de legitimação simbólica  
do campo.  
Já o mundo do trabalho em mutação é o foco de Ruy Braga e Davi Camargo, que  
analisam os impasses na regulamentação do uberismo. A pesquisa detalha a polarização entre  
11  
Editorial  
o conceito de hora logada, defendido pelos trabalhadores como prova de subordinação, e o  
de hora trabalhada, sustentado pelas empresas para manter a autonomia simulada.  
Encerrando a seção de artigos de fluxo contínuo, Raynnara Laurentino Rodrigues e  
Maurício Rombaldi avaliam o programa Empreender-PB. O estudo revela as dissonâncias entre  
a retórica do empreendedorismo feminino e a realidade de precarização, mostrando como tais  
políticas frequentemente deslocam para os indivíduos a responsabilidade pela proteção social.  
Este número conta ainda com uma entrevista exclusiva com o professor Adalberto  
Cardoso, conduzida por Cecilia Soares e equipe. Cardoso narra sua trajetória acadêmica da USP  
ao IESP/UERJ, refletindo sobre sua formação interdisciplinar que transitou entre a sociologia  
urbana, as artes plásticas e os estudos sindicais, além de oferecer um diagnóstico sobre as  
mudanças tecnológicas e o acesso à pesquisa nas últimas décadas.  
Nas resenhas, Rodrigo Estramanho de Almeida discute o livro A máquina das  
desigualdades, de Elide Rugai Bastos, ressaltando o esforço da autora em sistematizar o  
pensamento social da Escola Paulista de Sociologia e a atualidade de Florestan Fernandes para  
a compreensão da marginalidade.  
Por fim, Tarik Hamdan resenha a obra As origens da sociologia do trabalho, de  
Ricardo Festi, mapeando os percursos cruzados entre as tradições brasileira e francesa nas  
décadas de 1950 e 1960 e a influência de nomes como Friedmann e Touraine sobre os  
fundadores da sociologia uspiana.  
Desejamos que as páginas que se seguem estimulem o debate crítico e contribuam para  
o adensamento das ciências sociais brasileiras, honrando a tradição desta revista em ser um  
espaço de diálogo entre a teoria rigorosa e o compromisso social.  
Boa leitura!  
Os editores.  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 13-25  
APRESENTAÇÃO:  
Florestan Fernandes, teórico social e intelectual público  
PRESENTATION:  
Florestan Fernandes, social theorist and public intellectual  
____________________________________  
Lucas Trindade (UFRN)  
Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB)  
Em 2025 completam-se 30 anos da morte de Florestan Fernandes e 50 anos da  
publicação de uma das mais conhecidas e ambiciosas das suas obras, “A Revolução Burguesa  
no Brasil”. Este dossiê, lastreado em um amplo e renovado interesse na obra do sociólogo  
paulista, busca retornar ao seu legado a partir de um conjunto de premissas que têm sido  
cuidadosamente cultivadas por um grupo interinstitucional de pesquisadoras/es unidas/os pela  
paixão dos bons encontros e do rigor crítico-científico.  
Formado em 2019 sob a coordenação de Eliane Veras Soares (UFPE), pesquisadora da  
obra de Florestan Fernandes desde fins dos anos 1980, empreendemos conjuntamente o projeto,  
vigente até 2021, “Florestan Fernandes e os dilemas sociais brasileiros: história do tempo  
presente”, integrado por: Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB), Remo Mutzenberg  
(UFPE), Aristeu Portela Júnior (UFRPE), Ana Rodrigues Calvalcanti Alves (UFBA) e Lucas  
Trindade (UFRN). Além da intensa participação, coletiva ou individualmente, nas diversas  
comemorações do centenário de Florestan Fernandes em 2020, publicamos, como grupo, dois  
principais trabalhos: a obra “Florestan Fernandes: trajetória, memória e dilemas do Brasil”  
(2021) e o Dossiê “Florestan Fernandes: 100 anos” (2020). A partir de 2022, agora sob a  
coordenação de Diogo V. A. Costa, iniciamos o projeto “O artesanato intelectual de Florestan  
Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”, financiado com  
recursos do Edital Universal do CNPq e abrilhantado pela integração ao grupo dos docentes-  
pesquisadores: Wilson Rogerio Penteado Junior (UFRB) e Maria de Fátima Souza da Silveira  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. A.  
14  
(Unilab). Um produto destacado desse projeto, finalizado em março de 20251, é a obra,  
Florestan Fernandes’ critical sociology: a social theory of Brazil and Latin America, publicada  
em 2024 pela editora Routledge em sua série Classic and Contemporary Latin American Social  
Theory.  
Sob um modelo de artesanato intelectual que se inspira no próprio Florestan Fernandes,  
algumas das premissas que orientam o nosso trabalho científico coletivo e os artigos integrantes  
deste dossiê são: a) uma abordagem imanente e diacrônica da obra de Florestan, perseguindo,  
desse modo, temas diversos; b) análise de arquivo, por meio de visitas periódicas ao Fundo  
Florestan Fernandes, localizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); c)  
desconstrução sistemática de mitos em torno da obra de Florestan, produzidos por leituras  
intelectual e/ou politicamente unilaterais; d) interlocução coletiva e crítica recíproca  
permanentes acerca da produção intelectual dos integrantes do grupo; e) uma reflexão sobre a  
atualidade da obra de Florestan tratando-a, para utilizar as precisas expressões de Gabriel Cohn  
(1986, 1987), como um inventário de tensões produtivas que exprimem, rigorosa e  
criativamente, os padrões e dilemas do capitalismo subdesenvolvido, dependente e global.  
Essa última premissa permite evidenciar duas hipóteses de trabalho que atravessam o  
nosso fazer intelectual coletivo. A primeira, no sentido dos fundamentos, é de que as  
contribuições teórico-científicas de Florestan Fernandes seriam impensáveis sem o seu  
enraizamento complexo em um estilo de pensamento periférico (Bastos, 2002) e lumpen (Costa;  
Soares, 2024), que o permitiu ver e, em ciência, ver é reformular ou criar problemáticas –  
(Cardoso, 1996) a sociedade capitalista moderna de modos inauditos até então. Esse modo  
distinto de formular problemas científicos, com um enraizamento histórico e sociológico  
particular, permitiu a produção de uma obra com tal envergadura, profundidade e  
sistematicidade que deve ser lida eis a segunda hipótese de trabalho como uma teoria social  
crítica (Trindade, 2025) capaz de lançar luz não só às especificidades regionais (latino-  
americanas) e nacionais (brasileiras) dos problemas da ordem2, da ação e da mudança sociais,  
mas de oferecer ferramentas para pensá-los em termos internacionais, especialmente em tempos  
marcados por diagnósticos sobre o devir-periferia do mundo (Canettieri, 2022).  
1 Um relato sobre o projeto foi publicado no blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (Alves et al., 2025).  
2 Para uma reflexão específica sobre a problemática da ordem social em Florestan Fernandes, ver Silva (2020) que  
formaliza os atributos do modelo autocrático-burguês e (Silva, 2022) pensa a particularidade das categorias de  
diferenciação e integração sistêmicas em sua obra.  
15  
Apresentação  
Sucintamente, sugerimos que a obra de Florestan Fernandes merece ser lida como uma  
teoria social que não só leva a marca da condição periférica e lumpen, mas que ativamente se  
engajou, cognitiva e politicamente, com os setores subalternizados ou condenados (termo de  
Frantz Fanon adotado por Florestan) de um sistema global. O compromisso transversal e  
mutável entre o intelectual público e o teórico social permite afirmar que a teoria social crítica  
de Florestan Fernandes gravita em torno do problema central da mudança social. Mais  
precisamente, o interesse normativo de elucidar e promover uma mudança social orientada pela  
complexa dialética entre revoluções dentro e contra a ordem capitalista, ao lado da ação coletiva  
das classes trabalhadoras e segmentos subalternos, é o fundamento último do seu trabalho  
intelectual e científico.  
Os textos deste dossiê apresentam formas inovadoras e originais de abordagem da  
trajetória intelectual e política de Florestan, aliando a análise diacrônica e imanente dos seus  
textos a partir de temas específicos, de um lado, e a interlocução com outras obras, autoras/es e  
tradições das ciências e das lutas sociais, do outro. No que diz respeito aos problemas básicos  
da teoria social, é perceptível, como veremos no correr desta apresentação, como alguns dos  
artigos lançam uma luz nova sobre como a ação social ou a agência é abordada no trabalho do  
sociólogo paulista. A seguir, comentaremos cada artigo respeitando a ordem cronológica de  
aparição dos temas tratados na obra de Florestan.  
“Em sentido literal, a análise desenvolvida é um estudo de como o Povo emerge na  
história” (Fernandes, 2021, p. 51). Embora amplamente conhecida, essa passagem da Nota  
Explicativa de “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, de 1964, não motivou uma  
agenda sistemática de pesquisa em torno do uso de noção de povo na obra de Florestan. É a isso  
que se dedica Wilson Rogério Penteado Júnior, professor titular da Universidade Federal do  
Recôncavo da Bahia (UFRB), em seu artigo “Uma categoria com sentido latente: a noção de  
povo nos estudos de folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes”.  
Como o próprio título evidencia, o texto literalmente abre a mencionada agenda ao  
realizar uma análise de como a noção de povo “foi operada, dinamizada e debatida” no que  
poderíamos chamar de primeiro Florestan, estudioso do folclore e crítico arguto das orientações  
que buscavam emancipar o folclorismo do campo de problemas mais amplo das ciências  
sociais. Para Florestan, ou o folclore é material analisado pelas ciências humanas e sociais – “a  
história, a linguística, a psicologia, a etnologia ou a sociologia” – ou pode ser uma modalidade  
de estudo humanístico, mas de modo algum uma ciência autônoma. Ao analisar as primeiras  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. A.  
16  
aparições do povo na obra do nosso autor, privilegiando os textos sobre folclore escritos entre  
1944 e 1962, Wilson abre margem para pesquisas futuras sobre as modulações dessa noção em  
trabalhos posteriores de Florestan e o seu diálogo crítico com outras tradições para além dos  
folcloristas.  
Ao lado do estudo minucioso dos textos compilados em “O folclore em questão”,  
privilegiando a primeira edição de 1978, do diálogo com os principais comentadores do folclore  
em Florestan, e da reconstrução das posições de Florestan em relação às obras de Mário de  
Andrade, Silvio Romero e Amadeu Amaral, um outro ponto forte do artigo de Wilson é o uso  
de material pesquisado no Fundo Florestan Fernandes, na UFSCar. Nesse aspecto, é  
particularmente interessante a mobilização das dedicatórias de obras de autoria de destacados  
folcloristas a exemplo de Renato Almeida e Veríssimo de Melo endereçadas ao sociólogo  
paulista, o que evidencia a sua “prestigiosa reputação entre os estudiosos inseridos nesse  
campo”. Isso em razão, continua Wilson em seu texto, da “densidade do conteúdo dos textos  
que escrevia” e do “lugar que ocupava –, isto é, um eminente sociólogo da USP interessado no  
folclore e credenciado em prestigiados veículos de comunicação escrita”.  
No que diz respeito ao problema central do artigo, Wilson demonstra como o próprio  
objeto pretensamente autônomo dos folcloristas era perpassado por posições normativas: uma  
concepção evolucionista das manifestações culturais do povo (leia-se, aqui, setores populares e  
subalternos) e, logo, uma imagem estática e inercial do fato folclórico como sobrevivência ou  
resíduo de tradições culturais tomadas como atrasadas ou ultrapassadas. Contra essa concepção  
apriorística e elitista, Florestan defende, escreve Wilson, que o “trabalho de campo” e a “análise  
de situações concretas poderia, então, oferecer uma concepção mais apropriada acerca do  
elemento folclórico e, consequentemente, da noção de povo”. O que dá lugar a uma concepção  
dinâmica, que toma o folclore (e a polissemia do “povo”) em sua “função modificadora e  
criadora” (nas palavras do próprio Fernandes, enfatizadas por Wilson), bem como a uma  
apreensão das diferenças culturais e de mentalidade entre grupos e classes, não em termos de  
natureza, mas de grau.  
O segundo artigo do dossiê, “Antecedentes do dilema racial brasileiro”, escrito por Ana  
Rodrigues Cavalcanti Alves, professora adjunta da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e  
Eliane Veras Soares, professora titular aposentada da Universidade Federal de Pernambuco  
(UFPE), discute tema com ampla fortuna crítica, mas frequentemente tratado de modo parcial,  
unilateral e enviesado, a saber, a questão racial na obra de Florestan Fernandes. Para trazer  
17  
Apresentação  
maior clareza a debate demasiado espinhoso, Ana e Eliane fazem movimento análogo ao feito  
por Wilson: assim como este analisa os primeiros usos da noção de povo no Florestan  
interessado no folclore, elas retornam à gênese, ou ao que chamam de “primeiro momento”, da  
noção de dilema racial brasileiro em seu pensamento, privilegiando o projeto de estudo “O  
preconceito racial em São Paulo” e a obra “Relações Raciais entre brancos e negros em São  
Paulo”, textos dos anos 1950, escritos em parceria com Roger Bastide.  
A finalidade é evidenciar como já nesse primeiro momento há elementos para superar  
uma leitura que fez carreira desde Carlos Hasenbalg que interpreta as desigualdades raciais  
na obra de Florestan como um resíduo ou sobrevivência sem função específica na ordem social  
competitiva. Leitura esta que abdica da análise diacrônica de uma obra em processo aspecto  
metodológico finamente explicitado e trabalhado no artigo e se concentra em textos  
específicos tomados de modo isolado e descontextualizado, a exemplo de “A persistência do  
passado” e trechos de “A integração do negro na sociedade de classes”. Ao lado da análise  
diacrônica, as autoras se valem da pesquisa documental no Fundo Florestan Fernandes,  
consultando obras de Gunnar Myrdal, Donald Pierson e Carlos Hasenbalg, a totalidade de  
trabalhos resultantes da pesquisa Unesco e cartas de intelectuais em torno das relações étnico-  
raciais enviadas para Florestan. A pesquisa documental permitiu o acesso e a transcrição de  
importante carta (publicada como anexo ao artigo) de Hasenbalg para Florestan, na ocasião da  
publicação, na revista Dados¸ do artigo “Desigualdades raciais no Brasil”.  
A análise detida do projeto de estudo que fundamenta a pesquisa Unesco e dos primeiros  
resultados dessa a busca de um consenso a partir das diferenças entre Florestan e Bastide, as  
considerações teórico-metodológicas, a formulação das hipóteses diretrizes e o delineamento  
dos conceitos norteadores de preconceito racial, de cor e dilema racial tornam o artigo uma  
leitura incontornável para aqueles interessados em aprender, revisitar ou criticar, com rigor e  
seriedade, a abordagem da questão racial na obra de Florestan (e de Bastide). Destacamos os  
seguintes aspectos: a) a construção do projeto e da pesquisa em estreita interlocução com o  
movimento negro, evidenciado o uso do preconceito de cor como categoria nativa mobilizada  
empiricamente; b) a reflexão sobre a questão racial, já desde esse primeiro momento, como  
central para pensar a formação social brasileira de modo mais amplo; c) em contraste com as  
teses de Donald Pierson, um claro esforço de distinguir (e não reduzir um ao outro) preconceito  
de classe e preconceito de cor; d) várias passagens que revelam o interesse de Florestan e  
Bastide em investigar, nas palavras das autoras, “a forma e as novas funções assumidas pelo  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. A.  
18  
preconceito racial na ordem social emergente” e a tendência à sua perpetuação estrutural, em  
frontal contraste com as leituras residualistas da questão racial da obra de Florestan; e) a  
hipótese aventada, em diálogo crítico com Cida Bento, sobre a relação entre racismo e  
resistência sociopática à mudança.  
Um último destaque, que revela o amplo valor teórico do artigo, é como o retorno à  
gênese do dilema racial brasileiro permite enriquecer e nuançar a genealogia da noção de  
dilema (tomada da obra de Gunnar Myrdal) na obra do sociólogo paulista, demonstrando como  
desde os anos 1950 e não somente a partir dos anos 1960 já há uma recepção crítica e tensa  
da teoria da modernização consubstanciada no conceito de demora cultural (tomada da obra  
de William Ogburn). Contra a temporalidade progressiva e linear suposta no conceito de  
cultural lag, o acento sobre a importância da noção de dilema nos primeiros delineamentos da  
pesquisa Unesco evidencia a precoce abertura cognitiva para a reflexão sobre bloqueios,  
impasses, contradições e paradoxos na abordagem da formação social brasileira, na qual o nó  
górdio da raça é fundante. Como hipótese de trabalho a ser seguida em textos futuros, as autoras  
sugerem a centralidade da interlocução com os movimentos e intelectuais negros para a  
definição do dilema racial, o que será feito através de uma análise exegética do clássico “A  
integração do negro na sociedade classese dos textos Aspectos políticos do dilema racial”  
brasileiro e A sociedade escravista.  
Mais dois artigos do dossiê debruçam-se sobre a questão racial na obra de Florestan  
Fernandes: o texto “Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra”, de  
Paulo Henrique Fernandes Silveira, professor da Universidade de São Paulo (USP); e “A  
interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades com as teorias dos novos  
movimentos sociais”, escrito por Remo Mutzenberg, professor titular aposentado da  
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Eliane Veras Soares. Se o texto de Ana e  
Eliane desfazem o mito de uma leitura residualista da questão racial na obra de Florestan, os  
artigos de Paulo e de Remo e Eliane tensionam com uma leitura reificante, se assim podemos  
chamar, que percebe naquela obra a negação da agência coletiva de negras e negros nos  
processos de mudança social.  
No artigo de Paulo, contra a imagem do negro reificado no trabalho de Florestan, é  
salientado como “a pesquisa Unesco em São Paulo enfatizou a importância e a centralidade das  
experiências das pessoas negras na construção do conhecimento científico sobre o racismo”,  
importância observável na “elaboração do livro ‘A integração do negro na sociedade de  
19  
Apresentação  
classes’”, o que converge com a agenda de pesquisa proposta no artigo de Ana e Eliane. Como  
precisamente apontado por Antonio Candido, em trecho de depoimento transcrito por Paulo, “a  
partir dessa pesquisa do Florestan e do Roger Bastide, [o negro] deixou de ser objeto de estudo,  
para ser sujeito de estudo: ele participar, ele falar, ele orientar, junto com os pesquisadores”.  
Paulo reconstrói o contexto intelectual de proposição e realização da pesquisa Unesco: as  
dificuldades de publicação e circulação dos resultados da pesquisa em São Paulo, que colidiam  
frontalmente com o imaginário da democracia racial brasileira que motivou o projeto liderado  
por Alfred Métraux; o paradoxo, no pós-guerra, de um discurso antirracista que, ao mesmo  
tempo, não denunciava o colonialismo francês; a controvérsia sobre raça, colonialismo e  
eurocentrismo em escritos de Lévi-Strauss, Roger Caillois e Aimé Césaire; a crítica de Fanon,  
amparada em Césaire, ao “universalismo que silencia as experiências das pessoas negras”. Essa  
reconstrução intelectual prepara o terreno para uma erudita abordagem da relação entre  
experiência e conhecimento, fundamentando-se nos trabalhos de Marilena Chauí, Grada  
Kilomba e bell hooks, que, de diferentes maneiras, investigam e denunciam a violência  
implicada em um discurso supostamente racional e universal que nega a importância da  
experiência e das histórias pessoais na produção do conhecimento.  
Baseado em ampla investigação documental no Fundo Florestan Fernandes, é  
exatamente a valorização da experiência de negras e negros na orientação da pesquisa empírica  
e na construção teórico-conceitual o que se depreende dos arquivos que registram os passos da  
pesquisa Unesco em São Paulo, realizada por meio de histórias de vida articuladas à observação  
de situações de grupo, conferências, seminários, entrevistas, questionários e formulários. No  
artigo, Paulo transcreve amplamente falas, em situação grupais, de Sofia Campos Teixeira,  
Maria Aparecida Camargo, Francisco Lucrécio, Arlindo Veiga dos Santos, Luiz Lobato, Carlos  
de Assumpção, da história de vida de José Correia Leite, de questionário respondido por Jorge  
Prado Teixeira, da conferência realizada por Nestor Borges, para demonstrar como essas foram  
fundamentais, seja no direcionamento de pesquisa3, seja na própria definição de discriminação  
racial, especialmente no mercado de trabalho, no qual o emparedamento do negro (expressão  
de Correia Leite mobilizada por Florestan) se revela de modo particularmente crônico. Não só  
o conhecimento sobre a discriminação racial é inseparável das experiências relatadas pelos  
3
Bastide e Florestan, por exemplo, seguem a sugestão feita por Lucrécio de investigar manifestações do  
preconceito racial em escolas, o que é realizado por Virgínia Bicudo e Aniele Ginsberg. Lucrécio, por sua vez,  
escreve com Renato Moreira relatório sobre relações raciais em parques infantis.  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. A.  
20  
interlocutores de Fernandes e Bastide, como também a palavra de ordem da Segunda Abolição,  
amplamente mobilizada por Florestan em seus textos, atesta, conforme Paulo, a ponte entre o  
vivido (pelos movimentos negros) e a ciência social defendida pelo sociólogo paulista.  
No artigo de Remo e Eliane, como já afirmamos, continuamos a tratar da questão racial  
na obra de Florestan Fernandes, mas vista por um prisma distinto e particularmente inovador.  
Verticalizando a leitura de “A integração do negro na sociedade de classes”, trata-se de analisar,  
por um lado, como essa obra publicada em 1964 ao tratar dos fatores estruturais (o porquê)  
e estratégicos (o como) que desencadearam, deram perenidade e bloquearam o movimento  
negro suscita questões teórico-metodológicas que só tiveram um tratamento mais sistemático  
pelas chamadas Teorias dos Novos Movimentos Sociais (TNMS), a partir dos anos 1970. São  
tais afinidades que permitem, inclusive, uma leitura de “A integraçãopelas lentes de conceitos  
básicos da TNMS, a exemplo de frame (quadro de referência), estrutura de incentivos e  
restrições, espaço público, oportunidade política, funções das lideranças, ciclos de confrontos  
etc. Por outro lado, diferente de aventar apenas antecipações, os autores buscam captar as  
contribuições próprias de Florestan para a análise dos movimentos sociais, permitindo  
preencher, por exemplo, a surpreendente lacuna de uma análise do movimento negro dos anos  
1920 a 1937 em Maria da Glória Gohn, referência básica da TNMS no Brasil.  
Tal análise em via de mão dupla é realizada a partir de uma compreensão de A  
integração”, na palavra dos autores, como um “campo antagônico em relação às análises da  
questão racial e à compreensão da formação da sociedade brasileira”, isso por basear-se: no  
riquíssimo material empírico proporcionado pela pesquisa Unesco nos anos 1950; no diálogo  
permanente com as formulações do próprio movimento negro; e em uma posição epistêmica e  
normativa peculiar, o estilo de pensamento lumpen de Florestan, que permitiu salientar as  
profundas tensões em contraste com o equilíbrio (Gilberto Freyre) que permeiam as  
relações raciais no Brasil. Revisitar “A integração” em diálogo com a TNMS revelou-se uma  
estratégia com amplo alcance teórico, na medida em que permite recolocar o problema da  
agência coletiva e da contingência na obra de 1964, deslocando-a de uma leitura que acentua  
exclusivamente os condicionamentos estruturais e funcionais de ordem macrossociológica.  
Assim, o artigo pode ser lido como uma importante contribuição no ensejo de ler “A integração”  
como obra de síntese. Síntese entre estrutura e ação para pensar uma sociedade em mudança  
ou, nas palavras de Florestan enfatizadas pelos autores, síntese entre “incentivos históricos  
sociais” – especialmente a ordem legal instaurada no pós-Abolição – e “requisitos psicossociais  
21  
Apresentação  
ou socioculturais” – articulados em torno da contraideologia racial para pensar a (situ)ação  
de negras e negros na passagem da ordem estamental para a ordem social competitiva no Brasil.  
O estudo das relações raciais no Brasil é um ponto de partida fundamental, na obra de  
Florestan, para a intelecção dos dilemas estruturantes que atravessam a formação do capitalismo  
e da moderna sociedade de classes, dando base teórica e empírica para a formulação dos  
conceitos entrelaçados de capitalismo dependente, dupla articulação, autocracia burguesa e  
descolonização congelada. Logo, “A revolução burguesa no Brasil”, de 1975, não pode ser  
pensada sem “A integração do negro na sociedade de classes”, de 1964. No quinto artigo do  
dossiê, “O espírito do capitalismo revisto desde a periferia: expressões da racionalidade  
burguesa em Florestan Fernandes”, Lucas Trindade, professor adjunto da Universidade Federal  
do Rio Grande do Norte (UFRN), e Diogo Valença de Azevedo Costa, professor titular da  
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), oferecem ao lado do dilema racial  
trabalhado de diferentes formas nos artigos anteriores uma segunda chave analítica para  
pensar a gênese e o desdobramento de outro problema central na obra de 1975: a particularidade  
da mentalidade, racionalidade ou espírito capitalista na América Latina, especialmente no  
Brasil.  
Para fazer isso, os autores, em primeiro lugar, reconstroem o debate clássico entre  
Werner Sombart e Max Weber em torno dos atributos que definem a differentia specifica do  
espírito capitalista moderno. Aos autores importa destacar como, partindo de um consenso (a  
caracterização do espírito tradicionalista católico, anticapitalista), Sombart e Weber seguem  
caminhos distintos. Para o primeiro, que centraliza a influência da ética econômica judaica na  
formação do espírito capitalista, não há qualquer incompatibilidade entre racionalismo  
econômico e disposições predatórias e espoliativas, por isso os vínculos entre colonialismo,  
guerra, capitalismo e luxúria estudados pelo autor. Weber, por sua vez, que centraliza a  
influência do ascetismo intramundano protestante, estabelece uma clara descontinuidade entre  
princípio predatório (ética econômica judaica) e racionalismo econômico, bem como entre  
capitalismo pária (típico das colonizações e dos cercamentos) e capitalismo moderno (baseado  
na organização racional da empresa e do trabalho).  
Feito isso, os autores investigam, em um recorte de textos escritos entre 1959 e 1974,  
como Florestan, leitor de Weber e Sombart, reelaborou criativamente a problemática do espírito  
capitalista ao pensá-lo a partir da periferia do sistema global. Além da análise diacrônica dos  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. A.  
22  
textos, os autores também se valem da análise da marginália de obras de Weber e Sombart  
consultadas na biblioteca e arquivo particulares de Florestan Fernandes, na UFSCar.  
Se nos textos escritos entre 1959 e 1962 é possível notar a busca por uma clara distinção  
típica entre a primazia de atitudes/motivações favoráveis e desfavoráveis ao desenvolvimento,  
bem como entre Fase Liberal e Era do Planejamento, bifurcações que ressoam a separação entre  
ação capitalista tradicional (predatória) e ação capitalista moderna (racional) em Weber, a partir  
de 1962, e da formulação do conceito de resistência sociopática à mudança, é notável uma  
crescente aproximação com o tipo sombartiano de espírito capitalista. Ao ponto de, em 1967,  
no texto “Sociedade de classes e subdesenvolvimento”, Sombart ser explicitamente mobilizado  
para caracterizar o caráter espoliativo, especulativo e a pirataria econômica do espírito  
capitalista na periferia. Um “espírito capitalista especial”, como define Fernandes em texto de  
1971, caracterizado por uma “racionalidade pragmática” e uma “filosofia exclusivista” ou pela  
“associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia”, na fórmula definitiva  
inscrita em “A revolução burguesa no Brasil.  
Nas páginas finais do artigo, Lucas e Diogo discutem como o próprio Florestan,  
especialmente a partir da segunda metade dos anos 1970, começou a problematizar o dualismo  
entre um espírito capitalista de tipo weberiano no Centro (ou ao Norte) e um espírito capitalista  
de tipo sombartiano na Periferia (ou ao Sul), evidenciando tendências de autocratização a nível  
global, o que enseja uma agenda cosmopolita de releitura da sua obra.  
O último artigo do dossiê, “Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de  
Florestan Fernandes e Ailton Krenak na constituinte”, escrito por Fátima Silveira, doutora em  
Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), e Aristeu Portela Júnior, professor adjunto  
da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), estabelece um produtivo diálogo  
entre Florestan e Krenak tomando como terreno comum a atuação de ambos na Assembleia  
Nacional Constituinte, o que permite mostrar, nas palavras de Fátima e Aristeu, como os  
“dilemas da relação entre os povos indígenas, a ‘nação’ e o Estado no país” são pensados pelos  
dois intelectuais.  
Pode causar estranhamento alocar um artigo sobre a questão indígena ao final de um  
dossiê dedicado à obra de Florestan. Fizemos essa escolha pelas seguintes razões.  
Primeiramente, o artigo parte da última fase de Florestan a sua atuação parlamentar para  
revisitar de modo transversal o tratamento do que poderíamos chamar de dilema indígena  
brasileiro em sua obra. Esse exercício permite, em segundo lugar, retirar o tema indígena de  
23  
Apresentação  
uma suposta primeira fase funcionalista do sociólogo uspiano e pensá-lo como uma das vias  
privilegiadas que levaram Florestan a uma crescente consciência (teórica e política): da  
especificidade da violência que forja a sociabilidade autocrática no e para além do Estado –  
no Brasil; das limitações de um olhar eurocentrado para pensar a nossa formação social; das  
diversas lutas e resistências que se insurgiram e se insurgem contra a estabilização do poder  
colonial, neocolonial e, por fim, heterônomo ou dependente.  
No artigo, o nó que une as dimensões científica, ética e política é evidenciado na análise  
cuidadosa da atuação de Florestan na Constituinte. Elemento que ata tais dimensões é a  
socialização lumpen do sociólogo paulista, que permite uma práxis teoria e prática que vê  
a partir e com os setores excluídos e marginalizados da sociedade de classes, em especial no  
contexto do capitalismo dependente e subdesenvolvido. Por isso, a coerente e intransigente  
defesa da “iniciativa popular” como fundamento do fazer legislativo e da formação de “um  
processo popular de construção de um Brasil antielite e anti-imperialista”, nas palavras do  
sociólogo citadas pelos autores. A atuação de Ailton Krenak, na época coordenador da União  
das Nações Indígenas (UNI), é símbolo do processo desejado, mas fundamentalmente frustrado,  
de Florestan. Frustação que perpassa os discursos dos dois intelectuais, cientes do imenso fosso  
que permeava o texto da Constituição e os anseios advindos da iniciativa e organização  
populares na Constituinte. Tal crítica comum baseia-se numa afinidade de atuação de Krenak e  
Florestan frisada por Fátima e Aristeu: “o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos  
de direito, de um lado, e a crítica à relação do Estado brasileiro com esses povos, de outro lado”.  
No caso de Krenak, o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos de direitos  
significa reconhecê-los como nações, termo do colonizador estrategicamente ressignificado  
para reivindicar, contra esse, as ontologias, identidades e histórias próprias de cada um desses  
povos, o que Fernandes lê como evidência da racionalidade e autonomia dos povos indígenas,  
agudamente conscientes do que desejam, não como minorias, mas como nações “dentro do  
País”. Definir como “minoria” implica um jogo duplo de reconhecimento e subalternização, ao  
tomar o indígena como cidadão que demanda tutela, como cidadão de segunda categoria, crítica  
que perpassa as falas dos dois intelectuais e é analisada de modo fino por Fátima e Aristeu. No  
caso de Fernandes, a crítica à infantilização e à tutelagem do indígena concentra toda uma  
trajetória intelectual de oposição a concepções evolucionistas e eurocêntricas das organizações  
sociais, culturais e históricas que vem desde os seus estudos sobre os Tupinambá e sobre o  
folclore no meio urbano (como já vimos no texto de Wilson que abre o dossiê). Contra a “tutela  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. A.  
24  
orfanológica”, representação ainda fortemente enraizada no imaginário brasileiro, Florestan e  
Krenak convergem na defesa intransigente de que os direitos indígenas e a sua integração ao  
processo constituinte deveriam se dar a partir da “consciência da realidade” (Florestan) e “visão  
dos problemas” (Krenak) dos próprios povos indígenas.  
O fosso entre a Constituinte e a Constituição conforma um texto que não frena a  
violência do Estado, seja no que se refere às nações (não-reconhecidas) viventes em um  
território continental, seja no que se refere ao modo de relação com a natureza, tomada como  
mero recurso a ser extraído em prol do desenvolvimento, o que colide frontalmente com aquela  
visão indígena dos problemas. Para Krenak, o Estado brasileiro conforma-se como uma  
“plataforma extrativista” que toma os indígenas como “inimigos de guerra”, continuando, nas  
palavras precisas de Fátima e Aristeu, a “violência colonial por outros meios”. Essa  
compreensão guarda afinidades possíveis com a crítica de Florestan à captura da nação por um  
Estado autocrático conduzido, fundamentalmente, pelos interesses de uma burguesia  
ultraegoística e predatória, interpretação radical que enseja reflexões capazes de ir além do  
“paradigma da formação” ao pensar o Brasil e suas “fraturas” (Oliveira, 2025).  
Embora subscritos por autoras e autores individuais ou em dupla, o conjunto de textos  
publicados neste dossiê são o produto de um frutífero e prazeroso trabalho coletivo, como deve  
ser a boa ciência. É transversal aos artigos não só a exposição de resultados alcançados a partir  
de escolhas metodológicas claras, mas, igualmente, a partilha de hipóteses e agendas de reflexão  
que possam ser recolhidas e cultivadas por outros grupos de pesquisa e investigações,  
ampliando assim a ressonância do afetuoso labor que orienta o grupo “Sociedade Brasileira  
Contemporânea”. É isso que ansiamos ao desejar, a todas/os/es, uma boa leitura!  
Referências  
ALVES, Ana Rodrigues Cavalcanti; PORTELA JR., Aristeu; COSTA, Diogo Valença de Azevedo; SOARES,  
Eliane Veras; SILVA, Lucas Trindade da; SILVEIRA, Maria de Fátima Souza da; MUTZENBERG, Remo;  
PENTEADO JR., Wilson Rogério. Anotações sobre o projeto “O artesanato intelectual de Florestan Fernandes:  
uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social,  
BASTOS, Elide Rugai. Pensamento social da Escola Sociológica Paulista. In: MICELI, Sergio (org.). O que ler  
na ciência social brasileira (1970-2002). São Paulo: Editora Sumaré, 2002. p. 183-230.  
CANETTIERI, Thiago. O devir-periferia do mundo: crise do capital e a condição periférica. GEOgraphia,  
Niterói, v. 24, n. 52, e39362, 30 mar. 2022.  
CARDOSO, Miriam Limoeiro. Florestan Fernandes: a criação de uma problemática. Estudos Avançados, São  
Paulo, v. 10, n. 26, p. 89-128, abr. 1996.  
25  
Apresentação  
COHN, Gabriel. Padrões e dilemas: o pensamento de Florestan Fernandes. In: FERRANTE, Vera Lúcia;  
MORAES, Reginaldo; ANTUNES, Ricardo (org.). Inteligência brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.  
p. 125-148.  
COHN, Gabriel. O ecletismo bem temperado. In: D’INCÃO, Maria Angela (org.). O Saber militante: ensaios  
sobre Florestan Fernandes. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1987. p. 48-53.  
COSTA, Diogo Valença de Azevedo; SOARES, Eliane Veras. Florestan Fernandes’ critical sociology: a social  
theory of Brazil and Latin America. New York: Routledge, 2024.  
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Editora Contracorrente,  
2021.  
OLIVEIRA, Lucas Amaral de. Fractured form: formation and deformation in Brazilian social thought. Estudos  
Históricos, Rio de Janeiro, v. 38, n. 86, e20250618, 2025.  
SOARES, Eliane Veras; COSTA, Diogo Valença de Azevedo; MUTZENBERG, Remo. Dossiê Florestan  
Fernandes: 100 anos. Estudos de Sociologia, Recife, v. 2, n. 26, p. 3-362, 2020. Disponível em:  
SOARES, Eliane Veras; COSTA, Diogo Valença de Azevedo (org.). Florestan Fernandes: trajetória, memórias  
e dilemas do Brasil. Chapecó: Marxismo 21, 2021.  
SILVA, Lucas Trindade da. Modelo autocrático-burguês: Uma sociologia do desenvolvimento desigual e  
combinado. Estudos de Sociologia, Recife, v. 2, n. 26, p. 231-263, 2020.  
SILVA, Lucas Trindade da. Diferenciação e integração sistêmicas em Florestan Fernandes. Sociologia e  
Antropologia, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p. 1-28, 2022.  
TRINDADE, Lucas. A teoria social crítica de Florestan Fernandes. SciELO Preprints, 2025. Disponível em:  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 26-51  
UMA CATEGORIA COM SENTIDO LATENTE: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
A CATEGORY WITH LATENT MEANING: the notion of “folk” in brazilian folklore  
Studies and Florestan Fernandes’s (critical) perspective  
____________________________________  
Wilson Rogério Penteado Júnior  
Resumo  
Como se sabe, o sociólogo Florestan Fernandes teve importante participação no campo dos estudos de folclore no Brasil a  
partir dos fecundos debates que estabeleceu com intelectuais inseridos naquele campo de produção do conhecimento.  
Dentre os vários aspectos estudados de sua obra, no que se refere à sua relação com a temática do folclore, a noção de povo,  
tal como tratada e problematizada por esse autor, não mereceu a devida atenção de estudiosos. Nesse sentido, o presente  
artigo tem por objetivo circunstanciar e problematizar como a categoria povo é acionada por esse autor no debate que  
estabeleceu com os folcloristas. Para tanto, toma-se como material de análise a antologia publicada por ele em 1978,  
intitulada “O Folclore em Questão”, que reúne textos de sua autoria veiculados na imprensa escrita entre 1944 e 1962.  
Comoresultado,constata-sequeFlorestanFernandescriticavacertaconcepçãodepovoquecondenavasetoresdasociedade  
à inércia cultural e histórica, supostamente marcados por “sobrevivências culturais” e arcaísmos. Em contraste, povo para  
Fernandes assume no debate um sentido abrangente, não restrito a um único estrato social, e sim equivalendo a uma  
sociedade em sua extensão, onde os elementos tidos como folclóricos circulam pelas camadas dessa sociedade de modo  
dinâmico e inventivo. Dessarte, conclui-se que as críticas que Florestan Fernandes empreendeu sobre a pretensa formação  
de um campo autônomo dos estudos de folclore, envolvendo questões de método e objeto, perpassaram também pela  
concepção inventivade “povocolocadasob tensão naqueledebate. Ademais, conclui-sequetal concepção depovo forjada  
por Fernandes nos ajuda a melhor compreender sua disposição em defender o folclore como uma disciplina humanística.  
Palavras-chave: Florestan Fernandes. Estudos de Folclore. Folclore brasileiro. Povo.  
Abstract  
As is well known, the sociologist Florestan Fernandes played an important role in the field of folklore studies in Brazil,  
particularlythrough the fruitfuldebates heestablished with intellectuals engaged inthatareaofknowledgeproduction. Among  
the various aspects of his work that have been studied, his approach to the concept of “folk” in relation to folklore has not  
received due attention from scholars. In this regard, the present article aims to contextualize and critically examine how the  
category of “folk” is mobilized by Fernandes in the debate he held with folklorists. To this end, the article analyzes the  
anthology published by Fernandes in 1978, entitled O Folclore emQuestão (“Folklore in Question”), which compiles texts he  
published in the written press between 1944 and 1962. The analysis reveals that Fernandes criticized a certain conception of  
“folk” that condemned specific sectors of society to cultural and historical inertia, supposedly marked by “cultural survivals”  
andarchaisms. Incontrast,forFernandes,folkinthisdebateassumesabroadermeaning, notlimitedtoasinglesocialstratum  
but rather encompassing society as a whole, within which folkloric elements circulate across its layers in a dynamic and  
inventive manner. Thus, the article concludes that Fernandes’s critique of the supposed formation of an autonomous field of  
folklore studieswhich involved questions of method and objectalso touched upon his inventive conception of “folk,”  
which was placed under tension in that debate. Furthermore, it isargued that this conception offolk” developed byFernandes  
contributes to a deeper understanding of his commitment to defending folklore as a humanistic discipline.  
Keywords: Florestan Fernandes. Folklore Studies. Brazilian Folklore. Folk.  
Doutor em antropologia social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professor titular da  
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). E-mail: penteadowjr@ufrb.edu.br  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
27  
Introdução  
Mas, pense-se o que se quiser, uma maior preocupação pelo folclore brasileiro e pelos  
estudos folclóricos em geral sempre esteve (...) desde os fins do [século XIX ...] e em  
particular, com a efervescência provocada pelo movimento modernista (...) na raiz da  
busca de uma identificação mais profunda e mesmo de uma certa comunhão da  
intelligentsia brasileira com o “saber popular” e com os estratos ao mesmo tempo mais  
humildes e mais conspícuos do Povo (Fernandes, 1978, p. 3).  
A passagem que aqui se apresenta como epígrafe é parte do parágrafo que encerra a  
“Nota explicativa” escrita por Florestan Fernandes para o seu antológico “O folclore em  
questão”, livro publicado originalmente em 1978 e que reúne a maioria dos textos do autor  
voltados à temática do folclore entre as décadas de 1940 e 1960. No fragmento, Fernandes toca  
em um elemento essencial, ou espécie de base fundamental, dos estudos de folclore: uma  
pretensa busca pelo conhecimento da cultura do “povo”. Não à toa o autor finalizava a referida  
nota explicativa de seu livro com tal observação. Ele compreendia a centralidade dessa  
categoria no empreendimento folclorístico e a partir dela teceu suas reflexões críticas que  
espelham, em boa medida, a projeção entusiasmada, “endopática”, que “sempre cimentou o  
[seu] interesse pessoal pelo estudo do folclore” (Fernandes, 1978, p. 3).  
Embora o autor tenha reconhecido que o folclore constituiu uma área de aprendizagem  
e “um setor marginal em [seus] centros de preocupações” (Fernandes, 1978, p. 1), o fato é que  
o conjunto de estudos que produziu nessa seara e os posicionamentos que assumiu marcaram  
um capítulo importante na história do pensamento social brasileiro. Como bem observa  
Oswaldo Xidieh, o trato de Florestan Fernandes com os estudos do folclore “foi rápido, de  
passagem, mas absolutamente significativo e fecundo” (Xidieh, 1987, p. 95). Especificamente,  
sua contribuição foi decisiva, pois “realizou um levantamento e um reexame das posições pré-  
teóricas, teóricas e das contribuições empíricas dos folcloristas brasileiros, deixando clara sua  
nova fórmula: os estudos científicos do folclore por uma perspectiva sociológica” (Mazza,  
2015, p. 12).  
Florestan Fernandes iniciou seus estudos sobre o folclore nos primeiros anos da década  
de 1940. Em 1941, ainda em seu primeiro ano como estudante de Ciências Sociais na então  
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, foi-lhe solicitado um trabalho sobre “O  
folclore em São Paulo”, a ser apresentado à cadeira de Sociologia I, conduzida pelo professor  
Roger Bastide. Foi então que se dedicou à pesquisa de campo, beneficiando-se de seu  
conhecimento dos bairros populares paulistanos, dada sua origem modesta, para coletar dados  
a respeito das “trocinhas”, que consistiam em grupos formados por crianças que se reuniam  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
28  
para brincar. Tais brincadeiras infantis foram detidamente observadas e analisadas por  
Fernandes, resultando em um trabalho de contribuição “ao mesmo tempo, (...) à sociologia e ao  
folclore” (Fernandes, 2004, p. 231).  
A temática o acompanhou nos anos subsequentes, cujas investigações tinham como  
mote abordar aspectos do folclore brasileiro e paulistano, em especial1 inserindo-os em uma  
abordagem sociológica de análise. Isso se constituiu, conforme nos lembra Sylvia Garcia  
(2001), em contraposição direta ao folclore como campo autônomo de estudos, de modo que  
Florestan Fernandes passou a travar uma longa discussão com os folcloristas ancorado em “sua  
adesão a uma sociologia científica, baseada na sistematicidade dos procedimentos de  
observação e na abrangência das explicações.” (Garcia, 2001, p. 143). Sobre isso, vale destacar  
o que disse o próprio Fernandes em artigo que escreveu em 19462:  
O folclore permanece até hoje [1946] numa posição incômoda, a cavalo entre a ciência  
e a arte. Isso por causa de seu próprio objeto. O mesmo nome folclore serve para  
designar os elementos da tradição oral, da arte popular, e o seu estudo propriamente  
dito. E tanto é folclorista quem se dedica ao estudo científico do folclore como quem  
se lhe dá por diletantismo (Fernandes, 1978, p. 162).  
Com isso, do lugar de onde argumentava, isto é, da seara da sociologia, “Florestan  
defini[u] padrão e nível irreversíveis de trabalho científico” (Xidieh, 1987, p. 96), inclusive no  
debate travado com os estudos de folclore. Tal circunstância, em certa medida, o notabilizou de  
modo a ser “tomado quase sempre como ‘herói fundador’ das ciências sociais acadêmicas no  
país” (Vilhena, 1997, p. 58).  
Ao longo de sua obra, Florestan Fernandes concebeu o termo folclore distinguindo-o de  
duas formas: como realidade objetiva e “como ponto de vista especial, que permite observar e  
descrever essa realidade” (Fernandes, 1978, p. 71). Foi, pois, tomando o folclore como  
“realidade objetiva” que o nosso autor iniciou sua incursão aos estudos de folclore, tendo como  
objeto de pesquisa a “cultura dos grupos infantis” e que deu origem ao seu “As ‘trocinhas’ do  
Bom Retiro: contribuição ao estudo folclórico e sociológico da cultura e dos grupos infantis”,  
publicado em 1947 na Revista do Arquivo Municipal, de São Paulo. Não obstante, no mesmo  
1 Importante observar que Florestan Fernandes, embora tenha devotado ao longo daqueles anos atenção ao folclore  
brasileiro e, em especial, ao paulistano, demonstrava acurado conhecimento e interesse pelo folclore estrangeiro.  
Em sua biblioteca particular, que desde 1996 está organizada na Biblioteca Comunitária da Universidade Federal  
de São Carlos (SP), compondo o Fundo Florestan Fernandes, é possível constatar considerável quantidade de livros  
estrangeiros voltados à temática do folclore, tanto o folclore de países europeus como da América Latina.  
2 Mário de Andrade e o folclore brasileiro (Fernandes, 1978, p. 147-168).  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
29  
período, desenvolvia seus primeiros textos analisando as características, potencialidades e  
limites do folclore como ponto de vista especial, isto é, enquanto pretenso campo de estudos.  
Neste tocante, Florestan não evitou tecer severas críticas a algumas pretensões de intelectuais  
que arrogavam para si o status de folclorista. Defendendo a cientificidade de sua disciplina a  
sociologia esse autor desenhava as impossibilidades de o folclore se tornar uma “disciplina  
científica autônoma” (Penteado Jr., 2020, p. 62). Tal aspecto de sua atuação intelectual se  
tornou evidenciado na história das ciências sociais no Brasil. Basta se acessar as dissertações e  
teses que, de um modo ou de outro, tocam nessa relação entre ciências sociais e folclore3 para  
se constatar que são unânimes em apontar Florestan Fernandes como figura central nesse debate  
fronteiriço.  
Contudo, parece ser importante não se pensar essa relação entre ciências sociais e  
folclore apenas em termos de conflitos de interesses e perspectivas, mas também de  
intersecções.  
Os antropólogos Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti e Luís Rodolfo da Paixão  
Vilhena, em um artigo publicado no início da década de 1990, fizeram importante provocação  
ao analisar aspectos da relação fronteiriça que marcou as ciências sociais e os estudos de  
folclore no Brasil: a de se lançar um olhar cuidadoso sobre esse capítulo da história da  
intelectualidade brasileira e sobre os materiais folclóricos. Em seus dizeres, “Uma leitura  
cuidadosa das posições de Florestan Fernandes, sem dúvida o sociólogo que mais se preocupou  
em discutir a posição do folclore no quadro das ciências sociais, nos revela as questões em jogo  
nesse debate” (Cavalcanti; Vilhena, 1990, p. 81). Sobretudo porque a noção de “folclore”, assim  
como a de “cultura popular” e demais categorias correlatas, compondo uma tradição de estudos,  
são construídas historicamente e de acordo com diferentes paradigmas conceituais, cujos  
significados variam ao longo do tempo (Cavalcanti, 2020, p. 1).  
Ao examinar detidamente seus escritos, impressiona a minúcia com que Florestan  
Fernandes discute o folclore como área de estudos, analisando rigorosamente os trabalhos de  
folcloristas antecessores ao seu tempo e contemporâneos a ele. Nesse sentido, sua obra  
permanece importante manancial empírico, capaz de iluminar questões sobre aspectos que  
marcaram o folclore como campo do conhecimento e sobre aspectos da própria constituição do  
campo das ciências sociais no Brasil e do pensamento social brasileiro.  
3 Ver, como alguns exemplos, os trabalhos de Rapchan (2000, p. 128-135); Silva (2008, p. 110-113); Cunha (2011,  
p. 26-37); Ramos (2014, p. 47-60).  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
30  
Além do supramencionado artigo de Cavalcanti e Vilhena (1990), alguns outros,  
publicados anteriormente ou posteriormente a ele, se lançaram a investigar aspectos da obra de  
Florestan Fernandes e a temática do folclore, como José César Gnaccarini (1987), Oswaldo  
Elias Xidieh (1987), Sylvia Garcia (2001), Débora Mazza (2015) e Wilson Penteado Jr. (2020)4.  
Apesar da marcante atuação e significativa produção de Florestan Fernandes no diálogo  
com os estudos de folclore, pode-se considerar ainda diminuta a produção de artigos voltados  
a esse aspecto do conjunto de sua obra, ficando muitas questões a serem refletidas.  
O debate envolvendo os estudos de folclore no Brasil evoca uma gama complexa de  
noções para análise e reflexão. E é nesse ensejo que o presente artigo se anuncia e busca se  
somar às contribuições das autoras e dos autores referidos acima, tendo como objetivo recuperar  
a noção de povo na obra de Florestan Fernandes, na interface com os estudos de folclore no  
Brasil. Mais especificamente, trata-se de refletir sobre como tal noção é forjada pelo autor no  
conjunto de textos que publicou entre 1944 e 1962 e que redundou na antologia “O folclore em  
questão” (1978).  
Curiosamente, em geral, os estudos que buscaram recuperar a trajetória e sinuosidades  
do campo dos estudos de folclore no Brasil e, em particular, sua relação com o campo das  
ciências sociais, incluindo aí o legado da obra de Florestan Fernandes, não devotaram detida  
atenção aos modos como a noção de povo é trabalhada por esse autor, quando em diálogo com  
o folclore5. Nesse sentido, interessa aqui compreender como o sociólogo paulista se insere nesse  
debate e como a ideia inventiva de “povo” foi operada, dinamizada e debatida por ele nesse  
contexto. Isto é, como Florestan Fernandes aciona a noção de povo nesse debate? Veremos que  
a concepção de povo sustentada por ele se contrapunha a certos “juízos de valor” mantidos no  
campo dos estudos de folclore da época que, numa orientação de cunho evolucionista,  
condenavam certos setores da sociedade à inércia cultural e histórica, pretensamente marcados  
por “sobrevivências culturais” e arcaísmos. Nesse debate, povo para Fernandes assume um  
sentido abrangente, não restrito a um único estrato social, e sim equivalendo a uma sociedade  
em sua extensão, onde os elementos tidos como folclóricos circulam pelas camadas dessa  
sociedade de modo dinâmico e inventivo.  
4 No formato de dissertação de mestrado, registra-se o trabalho de Rebeca Carolina da Silva Bandeira (2020).  
5 Uma ressalva deve ser feita ao estudo de Luís Rodolfo Vilhena (1997), conforme veremos ao longo deste artigo.  
Esse autor, ao recuperar o debate entre os campos do folclore e das ciências sociais no Brasil, chega a fazer menção  
ao modo como Florestan Fernandes rechaçava a ideia de povo equivalente a uma “cultura estacionária”, em favor  
de uma concepção “dialética do desenvolvimento histórico”.  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
31  
Sobre o material analisado, cabe observar que os textos que compõem a  
supramencionada antologia correspondem a estudos desenvolvidos por Florestan Fernandes,  
apresentados na forma de ensaios e resenhas, e que foram publicados em diversos periódicos.  
Dentre as revistas, destacam-se a Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, a Revista  
Anhembi e a Revista Brasiliense. Nos jornais, publicou, principalmente, em O Estado de São  
Paulo, além de outros de notável circulação à época, como Jornal de São Paulo, Folha da Manhã  
e Correio Paulistano. No presente artigo, considera-se como referência para efeito de análise e  
citações a primeira edição da antologia “O folclore em questão”, publicada em 19786. A  
antologia conta com mais de vinte artigos publicados pelo autor e que aparecem organizados  
em três partes: A primeira parte é intitulada “O Folclore – antiga e novas perspectivas”, a  
segunda “Tendências dos estudos folclóricos em São Paulo”, e a terceira parte “O Folclore em  
resenha”. Os textos dispostos nessas partes não seguem a ordem cronológica de publicação  
original e foram reunidos em função das temáticas levantadas. Assim, na análise bibliográfica  
empreendida neste artigo, procedeu-se a uma leitura que fosse capaz de apreender tanto o  
sentido da totalidade dos textos reunidos na antologia quanto uma leitura que fosse capaz de  
atentar às especificidades de cada texto, considerando a data de publicação e o contexto dos  
debates no qual estava inserido.  
Além desta introdução, o presente artigo busca contextualizar, para os propósitos aqui  
pretendidos, o lugar de crítico do folclore que Florestan Fernandes exerceu e, em seguida, aludir  
sobre como a noção de povo é acionada por ele na interlocução com os estudos de folclore para,  
enfim, tecer algumas considerações à guisa de conclusão.  
Florestan Fernandes, um crítico do folclore  
Antes de tecermos considerações sobre a disposição central que sustenta este artigo, isto  
é, refletir sobre as concepções assumidas por Florestan Fernandes em torno da categoria  
“povo”, mostra-se oportuno contextualizar, ainda que de modo sumário, seu posicionamento  
crítico7 no diálogo com os estudos de folclore.  
6 Uma segunda edição foi publicada em 1989 pela mesma editora que publicou a primeira, a Hucitec.  
7
Posicionamento crítico aqui entendido como o exercício de análise rigorosa, sistemática e cuidadosa que  
Florestan Fernandes desenvolveu junto aos estudos de folclore.  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
32  
Oswaldo Elias Xidieh (1987), um intelectual contemporâneo de Florestan e que  
transitava entre a sociologia e os estudos de folclore, teceu o seguinte comentário, em tom de  
depoimento:  
Do trabalho de Florestan, o que dizer? Na verdade, corre-se o risco de repetir o que  
está consignado nas capas e contracapas dos seus livros: que ele salienta a natureza  
social do folclore, examina as conexões do folclore com o comportamento social  
humano, põe em relevo as funções sociais das práticas folclóricas e sua contribuição  
para a formação da personalidade e para a continuidade social, considera como,  
perante a mudança social, as práticas folclóricas se modificam e desaparecem,  
balanceia as conexões de sentido e estruturais do folclore, visa a estabilidade e a  
mudança das sociedades humanas... etc. (Xidieh, 1987, p. 93).  
Cavalcanti e Vilhena (1990) observaram com acerto que “(...) Fernandes (...)  
explicitamente não se declarava em polêmica com ‘o folclore’ ou ‘folcloristas’, mas com uma  
certa concepção que tomava a prática do folclore como ‘científica’” (Cavalcanti; Vilhena, 1990,  
p. 82). Isto é, tratava-se de um conjunto de questionamentos levantados pelo autor sobre a  
própria natureza do campo dos estudos de folclore, o que não implicava em um desprezo ou  
negação das potencialidades do folclore como vetor de conhecimento. Muito ao contrário,  
Florestan Fernandes se ocupou nas suas críticas em tecer contribuições para que o campo do  
folclore fosse conduzido com o devido rigor acadêmico, dentro dos parâmetros que entendia  
como os mais adequados.  
O conjunto de textos escritos por ele evidencia que o autor, longe de ser contrário ao  
campo dos estudos do folclore, se incomodava com o que não era feito para sagrar o folclore  
como campo legítimo e bem elaborado de produção de conhecimento. Apontava, por exemplo,  
ainda em meados de 1940, a inadequação dos “cursos de folclore” oferecidos pelas faculdades  
de filosofia “que deviam incluir o folclore no curso de ciências sociais [..., mas] deram atenção  
ao folclore de uma forma pouco adequada [...] pois os irregulares e breves ‘cursos’ de folclore  
[eram ....] ministrados por pessoas interessadas mais diretamente pela sociologia [e] pela  
antropologia” (Fernandes, 1978, p. 219), ambiente do qual, na visão do autor, não partiriam  
“estímulos sérios para o estudo do folclore brasileiro (...), surg[indo] acidentalmente algumas  
contribuições parciais” (ibidem). Por outro lado, observava, em tom ácido, que “As instituições  
que visa[vam] o agrupamento de folcloristas [...] apenas [teriam] existência formal, [servindo],  
em geral, para aumentar o número de títulos de certas pessoas respeitáveis (...)” (Fernandes,  
1978, p. 219).  
Florestan Fernandes não apenas investiu farta atenção aos estudos de folclore, mas  
também alimentou certa expectativa ao desenvolvimento desse campo, ainda que nos moldes  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
33  
por ele idealizados. Desse modo, as críticas que desenvolvia iam muito mais no sentido de  
contribuir para o fortalecimento daquele campo de estudos do que, necessariamente,  
desautorizá-lo. A preocupação do autor expressa em seus textos em relação à necessidade de  
criação de cursos apropriados de folclore, bem como de treinamento àqueles que se colocavam  
à tarefa de estudar o folclore como realidade objetiva, e a importância que conferiu a materiais  
folclóricos coletados por diversos estudiosos, são evidências disso. Por exemplo, ao analisar  
em forma de resenha, em 19628, um livro de” farto material folclórico” – nos dizeres do próprio  
Fernandes , intitulado Brincando de Roda, de autoria de Iris Costa Novaes, nosso autor se  
posicionava favorável ao teor do livro e entendia como importante a coleta de dados folclóricos.  
Ele argumentava que era preciso valorizar coleções mesmo sem intuitos maiores que o do  
registro e a compilação de dados, posto que “o nosso folclore se está empobrecendo e  
desaparecendo, sem deixar rastros” (Fernandes, 1978, p. 203). Nesse sentido, cumpriria a tarefa,  
nos dizia ele, de “multiplicar os esforços do tipo do que foi empreendido [... na referida] obra,  
para criar-se uma base sólida para investigações mais ambiciosas do folclore brasileiro”, sem  
abrir mão, evidentemente de um “trabalho feito com método, seriedade e objetividade”  
(Fernandes, 1978, p. 203).  
A seriedade com que Florestan Fernandes conduziu suas críticas no âmbito dos estudos  
de folclore conferiu-lhe prestigiosa reputação entre os estudiosos inseridos nesse campo.  
Muitos deles, ao publicarem seus estudos em forma de livro, tratavam de encaminhar um  
exemplar para o conhecimento do sociólogo paulista. Renato Almeida, por exemplo, um dos  
intelectuais mais destacados dentre os folcloristas, e que ajudou a fundar a Comissão Nacional  
de Folclore (1947), escreveu a próprio punho os seguintes dizeres, estampados numa das folhas  
iniciais de seu “Inteligência do Folclore”, publicado em 1957: “Ao ilustre Professor Florestan  
Fernandes, homenagem de Renato Almeida / X-IX-57”9. De modo semelhante, alguns anos  
antes, em 1950, o folclorista Veríssimo de Melo (1948) escrevia em um exemplar de seu livro  
“Adivinhas” enviado a Florestan Fernandes: “Para o ilustre professor Florestan Fernandes, com  
a admiração do confrade e amigo, Veríssimo de Melo. Natal, 15.1.50”10. Casos como esses  
8
Notemos que esse ano é aquele entendido pelo próprio autor como o que encerra suas análises voltadas ao  
folclore.  
9 COLESP Acervo Florestan Fernandes 02.06.01/001.  
10 COLESP Acervo Florestan Fernandes 02.06.01/27.  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
34  
abundam nos exemplares existentes na biblioteca particular de Fernandes11 concentrando-se  
em maior volume ao logo da década de 1950 e evidenciam não somente o prestígio do autor,  
como o reconhecimento do respeito que ele nutria pelo folclore (enquanto ponto de vista  
especial), pelos dados folclóricos (enquanto realidade objetiva) e para com os folcloristas, em  
aceno de consideração pelo que produziam sem, contudo, prescindir de críticas cuidadosamente  
construídas e, por isso mesmo, contundentes. No início daquela década de 1950, Fernandes já  
havia se consagrado reconhecido resenhista dos estudos folclóricos. Suas resenhas circulavam  
em importantes periódicos da época, alcançando tanto o público especializado quanto o público  
em geral. Esse conjunto de publicações na forma de resenhas revela a leitura atenta de  
Fernandes e seu domínio de um, digamos, panorama geral dos estudos de folclore vigentes à  
época em que escrevia tais textos. Ele se constituía crítico privilegiado tanto pela densidade do  
conteúdo dos textos que escrevia quanto pelo lugar que ocupava , isto é, um eminente  
sociólogo da USP interessado no folclore e credenciado em prestigiados veículos de  
comunicação escrita.  
Em alguma medida, podemos pensar que o reconhecimento adquirido por Florestan  
Fernandes no campo dos estudos do folclore no Brasil esteve à altura do ambicioso projeto que  
reivindicou para si: o de analisar (em termos críticos) o campo de conhecimento do folclore.  
Sua postura sempre foi a de levar muito a sério os estudos de folclore. Em “Os estudos  
folclóricos em São Paulo”, datado da segunda metade da década de 1950, escrevia:  
(...) é óbvio que os futuros desenvolvimentos das ciências sociais no Brasil terão muito  
que aproveitar das contribuições precursoras dos folcloristas. Isso quer dizer que a  
discussão crítica do assunto, em vez de conduzir a uma apreciação negativista, permite  
avaliar, em espírito positivo, o significado e o alcance da obra pioneira dos nossos  
folcloristas” (Fernandes, 1978, p. 97).  
No conjunto de sua obra, o autor aludiu aos pioneiros do folclore no Brasil e analisou,  
a partir da produção de folcloristas antecessores e contemporâneos a ele, as especificidades do  
folclore: “folclore musical”, “folclore mágico e religioso”, “folclore caipira”, “contos  
populares”, “paremiologia (estudo dos provérbios)”, “poesia popular”, “anedotário popular”,  
“atividades lúdicas folclóricas”, “aspectos ergológicos e tecnológicos do folclore”, dentre outras.  
11  
O acervo da biblioteca particular de Florestan Fernandes, que se encontra atualmente organizado no Fundo  
Florestan Fernandes, da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), foi acessado  
pelo autor deste artigo em duas visitas de trabalho de campo: em maio de 2023 e em fevereiro de 2025. Ambas as  
visitas ocorreram no âmbito do projeto de pesquisa “O artesanato intelectual de Florestan Fernandes: uma  
perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”. Processo CNPq Edital Universal 2021, nº. 420043/2021-7.  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
35  
Sobre os pioneiros dos estudos de folclore no Brasil, situou Celso de Magalhães (1849-  
1879), Silvio Romero (1851-1914), Amadeu Amaral (1875-1929), Mário de Andrade (1893-  
1945) e, dentre esses, dedicou especial atenção a Amadeu Amaral, cujo trabalho classificou  
como “nobre, paciente, isolado e silencioso” (Fernandes, 1978, p. 114), em artigo intitulado  
“Amadeu Amaral e o Folclore brasileiro”, de 1948. Lamentava, neste mesmo artigo, o fim  
logrado pelo pioneiro estudioso do folclore que não teve o prazer de ver reconhecida a sua  
autoridade de folclorista, posto que “Não contou com seguidores, não formou discípulos e  
também não saboreou os estímulos causados pelo entusiasmo permanente de um público”  
(Fernandes, 1978, p. 113), se comparado a Mário de Andrade. Veremos mais adiante que as  
reflexões críticas que Florestan Fernandes empreendeu sobre as obras de tais autores foram  
significativas no sentido de contribuir para o modo como forjou sua concepção de povo.  
Não obstante todo o empenho de Florestan Fernandes em contribuir com o campo dos  
estudos de folclore durante o período em que esteve voltado a essa temática, é bom reforçar que  
foi sempre na condição de sociólogo que o fez. Em seus próprios dizeres, desde 1941 buscava  
“focalizar o folclore de uma perspectiva sociológica” (Fernandes, 1978, p. 33). Em artigos  
publicados naqueles anos iniciais, já assumia a posição de que o folclore não poderia ser uma  
“ciência positiva autônoma”. Esse posicionamento tensionava as pretensões de diversos  
folcloristas, que ambicionavam o reconhecimento do folclore como disciplina científica  
autônoma.  
Os rumos para a institucionalização dos estudos de folclore no Brasil se deram a partir  
da criação da Comissão Nacional de Folclore (CNFL), em 1947. De acordo com Vilhena  
(1997), já em sua primeira reunião, a referida Comissão propunha-se um ambicioso plano de  
trabalho envolvendo diversas iniciativas para dinamizar o folclorismo brasileiro, e a atuação de  
folcloristas ligados a ela pode ser entendida como um “movimento folclórico” no Brasil, que  
esteve em plena atuação pelo menos entre os anos de 1947 e 196412. Ali, os folcloristas se  
empenharam enormemente para a institucionalização de sua disciplina enquanto campo  
legítimo do conhecimento. Acreditava-se que a institucionalização dos estudos de folclore no  
país seria capaz de fornecer, além de recursos de ordem financeira, a introdução dessa área do  
conhecimento nos círculos acadêmico-universitários, o que, de fato, não ocorreu (Vilhena,  
1997). Em relação a tais pretensões, Florestan Fernandes manteve-se contrário, expondo as  
12  
Respectivamente, o período inicial de atuação da CNFL e o ano do Golpe Militar de 1964, que propiciou a  
interrupção dos projetos alentados pelo “movimento” no país.  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
36  
fragilidades e limites de uma proposta dessa monta, cuja argumentação central se assentava na  
ausência de um objeto próprio de estudos, visto que os fatos folclóricos poderiam ser estudados  
por ciências já estabelecidas, como a história, a linguística, a psicologia, a etnologia ou a  
sociologia.  
Na segunda metade da década de 1950, esse debate se expressou de modo mais tenso,  
cujo clímax se deu na, já conhecida, polêmica entre Florestan Fernandes e Edison Carneiro. Em  
um texto publicado em forma de resenha na revista Anhembi, em 1957, sobre um pequeno livro  
de Edison Carneiro publicado em 1955, intitulado Pesquisa de Folclore, Florestan Fernandes  
teceu severas críticas, argumentando tratar-se de um escrito cujas indicações nele reunidas  
poderiam “ser úteis apenas a estudiosos de parcos recursos intelectuais, parecendo fora de  
dúvida que não possuem suficiente consistência para criar hábitos de pesquisa ‘científica’”.  
(Fernandes, 1978, p. 215). Em resposta, Edison Carneiro publicou o texto “A Sociologia e as  
‘ambições’ do folclore” – primeiramente em comunicação à CNFL, em 195913, e, logo em  
seguida, na Revista Brasiliense –, em que acusava abertamente Fernandes de ser o “comandante  
da nova investida contra o folclore” (Carneiro, 1959, p. 133), lamentando o fato de o sociólogo  
paulista negar ao folclore “quaisquer títulos para candidatar-se a ciência” (Carneiro, 1959, p.  
133)14. Na edição subsequente da mesma revista que abrigou esse artigo de Carneiro, Fernandes  
publicou, naquele mesmo ano de 1959, sua resposta, cujo texto trazia o título “Folclore e  
Ciências Sociais”15.  
Se, no entanto, por um lado, Fernandes se posicionou contrário à pretensão do folclore  
de tornar-se campo autônomo de conhecimento científico16, por outro, identificou a  
possibilidade de ser assumido enquanto um campo de “estudo humanístico (... feito por  
folcloristas, que reúnem aptidões para analisar o folclore como e enquanto criação intelectual  
do espírito humano)” (Fernandes, 1978, p. 213).  
No supramencionado artigo publicado em 1959, em resposta a Carneiro, Fernandes  
retomava aspectos de seu próprio percurso junto aos estudos de folclore para reafirmar seus  
13 Documentos da CNFL IBECC, nº. 429, 1959.  
14 Embora Florestan Fernandes fosse o principal alvo a quem Edison Carneiro mirava suas críticas nesse artigo, o  
texto expunha críticas ao francês Roger Bastide e a seus discípulos, os “sociólogos paulistas”, que, além de  
Florestan Fernandes, incluíam Lavínia Costa Vilela Raymond e Maria Isaura Pereira de Queiroz.  
15 Este texto está reproduzido em “O folclore em questão”, ordenado como o primeiro texto, o que abre a antologia  
(Fernandes, 1978).  
16  
Para um aprofundamento das argumentações a respeito da negação do folclore como ciência por Florestan  
Fernandes, ver Cavalcanti & Vilhena (1990), Vilhena (1997) e Garcia (2001).  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
37  
posicionamentos, de negação à possibilidade de o folclore constituir-se como ciência autônoma  
e de proposição para entendê-lo como campo de conhecimento humanístico. Assumia naquele  
momento sua convicção sobre o folclore como disciplina humanística, comparando aos seus  
escritos da década de 1940, mais voltados a conferir ao folclore a condição de método17.  
O amadurecimento de tal elaboração serviu para Fernandes tanto reafirmar sua posição  
de negação a uma pretensa cientificidade aos estudos de folclore quanto empreender o que, na  
sua visão, deveria ser a tônica desses estudos (Penteado Jr., 2020), conferindo ao folclore uma  
singularidade, capaz de oferecer “um campo ideal de investigação”, composto de fenômenos  
que lançam luz sobre o comportamento humano, “como a natureza dos valores culturais de uma  
coletividade, [e] as circunstâncias ou condições em que eles se atualizam” (Fernandes, 1978, p. 13).  
Dito isso, passemos às considerações sobre como, nesse campo complexo de relações e  
de aprofundado debate com os estudos de folclore, Florestan Fernandes lida com a categoria  
povo, pedra angular do empreendimento folclórico.  
Povo, uma categoria com sentido latente nos estudos de folclore  
O termo povo nos estudos de folclore, embora opere como noção primeva que sustenta  
o próprio empreendimento folclorístico, parece ter guardado sentido latente; uma categoria  
acionada de diferentes modos por diversos autores, como se seu sentido já estivesse  
subentendido por todos. Entre os folcloristas no Brasil, o termo não mereceu preocupação de  
definição conceitual. Isto é, não configurou reflexões demoradas ou debates acalorados em seus  
trabalhos. Talvez, isso se deva, em boa medida, ao próprio modo de produção intelectual a que  
se propunham, cuja preocupação essencial consistia em registrar as “coisas do povo” antes que  
desaparecessem, bem como certa preocupação obsessiva com uma pretensa identificação das  
“origens” das manifestações culturais (folclóricas) com que se deparavam.  
Isso não significa afirmar, entretanto, que não houvesse discussões aprofundadas, e por  
vezes acaloradas, sobre determinadas categorias consideradas próprias de seu metiér, a exemplo  
da categoria “fato folclórico”. Seja como for, a categoria povo parece mais ter sido acionada  
pelos folcloristas brasileiros como um a priori necessário à missão a que se propunham:  
registrar “fielmente, sem enfeitar, sem interpolar, sem modificar” (Almeida, 1971, p. 12), bem  
17  
Para considerações mais demoradas sobre esse aspecto que marca a diferença de percepção de Florestan  
Fernandes em relação ao folclore, ver Garcia (2001).  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
38  
ao tom do que preconizava a carta considerada fundante dos estudos de folclore no mundo18. É  
como se, de modo geral, a noção de povo surgisse como algo dado, sem merecer maiores  
reflexões ou definição de parâmetros conceituais. A própria “Carta do Folclore Brasileiro”,  
produzida no âmbito do I Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em 1951, destacava em  
uma de suas alíneas que “Constituem o fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de  
um povo (...)” (Comissão Nacional de Folclore, 1951, p. 1), sem qualquer menção sobre o que  
se compreendia em torno do termo povo.  
Diante disso, um caminho possível para melhor compreender os sentidos empregados a  
tal noção no campo dos estudos de folclore é analisar os diferentes modos como autores em  
diferentes contextos e sob diferentes perspectivas a acionaram em seus estudos. Pois, como bem  
argumentaram Cavalcanti & Vilhena: “(...) uma releitura crítica dos estudos de folclore pode  
ainda ser proveitosa” (Cavalcanti; Vilhena, 1990, p. 89).  
No debate com os estudos de folclore, podemos afirmar que Florestan Fernandes, desde  
os anos iniciais de sua trajetória acadêmica, ainda na década de 1940, revelou atenção à  
categoria povo, que perdurou ao longo dos anos em que esteve envolvido com a temática  
folclorística.  
Cavalcanti & Vilhena (1990) são quem, em uma passagem pontual de artigo, chamam  
atenção para o fato de que “a incompreensão mais séria presente na leitura marxista que  
Fernandes faz dos folcloristas é provocada, justamente, pela polissemia da palavra ‘povo’”  
(Cavalcanti; Vilhena, 1990, p. 83), no sentido de que os folcloristas estariam atrelando o termo  
necessariamente ao “camponês inculto”, enquanto para Marx o termo se aproximaria do  
“moderno proletariado industrial” (Cavalcanti; Vilhena, 1990, p. 83). Anos depois, Vilhena  
(1997), ao se pôr a analisar a constituição do campo dos estudos de folclore no Brasil, reservou  
algumas páginas de seu livro para analisar o posicionamento de Florestan Fernandes frente aos  
estudos de folclore, ressaltando que: “É do ponto de vista da visão de mundo marxista que ele  
[Fernandes] elabora sua primeira crítica inicial à pretensão de cientificidade dos estudos de  
folclore” (Vilhena, 1997, p. 135). Fernandes criticava e rejeitava, pois, uma certa concepção  
dos folcloristas que entendia a cultura como algo estacionário, caracterizada por  
18  
Refiro-me à carta, cuja autoria é atribuída a Ambrose Merton pseudônimo de William John Thoms (1803-  
1885) que teria cunhado o termo folk-lore, aparecido pela primeira vez na imprensa em 1846, em uma carta  
endereçada à revista The Atheneum, de Londres, onde os vocábulos da língua inglesa folk e lore teriam sido unidos,  
criando o neologismo. Na carta, seu autor enfatizava a importância de se empreender estudos sobre o ‘saber  
tradicional de um povo’. Na própria carta o termo já aparece como um a priori e não conta com qualquer definição  
prévia.  
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39  
“sobrevivências” de concepções pré-modernas que estariam no seio das camadas populares das  
sociedades avançadas (Vilhena, 1997, p. 135).  
Essa crítica ganha ares de sistematização em artigos que escreveu em 1944,  
respectivamente, “A Burguesia, o ‘Progresso’ e o Folclore” e “Mentalidades grupais e folclore”.  
É, no entanto, em outro artigo escrito no ano seguinte, intitulado “Sobre o Folclore”, que  
Florestan Fernandes aprofunda suas argumentações críticas, identificando o surgimento dos  
estudos de folclore como “uma das mais audaciosas aventuras do século XIX” (Fernandes,  
1978, p. 38), por aglutinar, a um só tempo, a necessidade da filosofia positiva de Augusto Comte  
ao reivindicar uma cientificidade , a influência do evolucionismo de Darwin e Spencer ao  
pressupor estágios evolutivos de grupos humanos – e “uma necessidade histórica da burguesia”  
(Fernandes, 1978, p. 38.), que fomentava tal empreendimento. Mesmo o romantismo, que  
inspirava os estudos de folclore, foi criticado por Fernandes sob essa ótica, pois, segundo ele:  
“o romantismo era consequência, também, de uma mentalidade que caracterizava as sociedades  
ocidentais européias nos fins do século XVIII [... e] uma forma de ideologia burguesa”  
(Fernandes, 1978, p. 50). A crítica do autor recaía, no entanto, especialmente à concepção  
evolucionista, segundo a qual o progresso em uma dada sociedade não se processaria  
uniformemente, restando, nessa concepção, camadas da população que não participariam desse  
desenvolvimento, ou apenas o acompanhariam com evidente atraso. Tais camadas  
corresponderiam, portanto, aos “meios populares”, identificados como “grupos atrasados”, as  
“classes baixas”, ou a “gente do povo” (Fernandes, 1978, p. 40). A tais “juízos de valor”  
Fernandes se opunha terminantemente. Para ele,  
(...) o folclore nasceu de uma representação do desenvolvimento social e cultural: mas  
surge em oposição a outra concepção de desenvolvimento dialético, tal como aparece  
no marxismo, procurando inverter simplesmente  
a
tese sustentada pelos  
representantes do materialismo histórico. Essa inversão consistiu em admitir que os  
“meios populares” – na terminologia marxista o proletariado eram incapazes de  
“progresso, vivendo imobilizados pelo passado e de valores residuais da burguesia,  
única, aliás, capaz de “progresso”, nessa concepção (Fernandes, 1978, p. 42).  
Tais considerações mostram que a resistência de Florestan Fernandes em reconhecer os  
estudos de folclore como pretenso campo científico autônomo não se referia exclusivamente a  
um problema de método levado, em geral, com pouca rigorosidade por alguns, ao ponto de  
beirar o diletantismo e objeto próprio – visto que o “fato folclórico”, por ser elemento da vida  
cultural, poderia ser estudado por campos disciplinares já consolidados à época, como a  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
40  
sociologia, a etnologia e a etnografia. A crítica perpassava também certa concepção reacionária  
que fundamentava aquele campo de estudos.  
Nesse sentido, tais artigos produzidos naqueles meados da década de 1940 por Florestan  
Fernandes ganham importância de análise à medida que evidenciam que, desde aqueles anos  
iniciais de sua carreira, o autor criticava uma concepção de folclore comprometida, ou melhor,  
limitada a uma noção de povo correspondente a segmentos específicos de uma sociedade,  
caracterizados como atrasados, ou estagnados19. A negação a tal concepção, por sua vez, abria  
caminhos para que o autor pudesse forjar a sua própria concepção de povo.  
Fernandes seguia na direção de compreender o folclore como correspondendo a “todos  
os elementos culturais que constituem soluções usual e costumeiramente admitidas e esperadas  
dos membros de uma sociedade (...) transmitidas por meios informais” (Fernandes, 1978, p.  
16)20. Tal concepção já estava presente na pesquisa pioneira que fizera sobre as trocinhas do  
Bom Retiro, sob a afirmação de que "os mesmos elementos folclóricos ocorrem indistintamente  
em ambos os meios ou classes sociais. Os mesmos provérbios, as mesmas ‘superstições’ e as  
mesmas ‘crendices’, os mesmos contos e as mesmas lendas etc., são igualmente usados por  
indivíduos do ‘povo’ ou das classes ‘altas’ e ‘cultas’ (...)" (Fernandes, 1978, p. 43), onde  
“crianças pobres ou ricas brincam de roda ou disputam os mesmos jogos (...); pessoas adultas,  
sem distinção, empregam formas de explicação geralmente consideradas não racionais (...)”  
(Fernandes, 1978, p. 44).  
Essa experiência de pesquisa, voltada a estudar as brincadeiras de grupos infantis,  
parece ter sido de grande importância para Florestan Fernandes definir seus posicionamentos  
críticos em relação àquela concepção de folclore ancorada numa visão estacionária e segregada  
19 Sobre isso, parece ser importante se fazer a ponderação a respeito de um aspecto do contexto da época. Conforme  
apontam Cavalcanti & Vilhena (1990), vários estudiosos do folclore, contemporâneos de Florestan Fernandes, já  
admitiam que o folclore poderia ser encontrado em diferentes segmentos sociais e “Apenas acredita[va]m eles que,  
no que chama[va]m de ‘povo’, o folclore se encontraria de forma mais autêntica e pura, mesmo influenciado pela  
cultura moderna (Cavalcanti; Vilhena, 1990, p. 83). Isso nos leva a atentar ao fato de que os folcloristas não  
configuravam um bloco monolítico e consensual, todos com os mesmos posicionamentos, mas sim uma rede de  
relações marcada por diferenças internas e dissensos. A esse respeito, cabe a observação de que o próprio  
designativo de quem era (ou poderia ser) considerado folclorista variava naquele contexto, comportando ressalvas  
em um jogo que envolvia atribuições e autoatribuições.  
20  
Tal concepção, frequente nas investigações sociológicas de temas folclóricos, segundo o próprio autor,  
transparece nas contribuições de Roger Bastide e seus discípulos, como Lavínia Costa Vilela Raymond, Oswaldo  
Elias Xidieh e Maria Isaura Pereira de Queiroz. Ver a esse respeito, Fernandes (1978, p. 16). Embora a referida  
concepção apareça já nos primeiros estudos de Fernandes, foi nos artigos que escreveu ao longo da década de  
1950, mais precisamente: “Os estudos folclóricos em São Paulo”, (1956/1957) e “Folclore e Ciências Sociais”  
(1959) que ela surge mais explícita e pontualmente declarada.  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
41  
de cultura. Nesse tocante, a experiência de trabalho de campo parecia se impor como importante  
elemento talvez, basilar capaz de conferir rigor aos estudos de folclore. A leitura do conjunto  
de seus textos voltados à análise do folclore permite constatar que, para Fernandes, um bom  
trabalho folclorístico deveria ser subsidiado por competente trabalho de campo, sobretudo pela  
capacidade de desmistificar preconceitos.  
Em dois de seus artigos, um escrito em 1944 – “Mentalidades grupais e folclore”, e  
outro datado de 1945, “Sobre o Folclore” –, após refutar o “esquema puramente evolucionista”  
de alguns folcloristas, que tomavam como objeto do folclore “o estudo dos elementos culturais  
praticamente ultrapassados”, no qual “a sociedade seria uma grande dicotomia, em que se  
poderia distinguir o povo, vivendo dos valores residuais da civilização, de um grupo de  
indivíduos quase homogêneo e de ‘elite’, com formas de conduta radicalmente diferentes e que  
muito pouco ou nada participava daqueles valores ‘ultrapassados’” (Fernandes, 1978, p. 41,  
grifo do autor), Florestan Fernandes colocava a tarefa do trabalho de campo como uma espécie  
de alento capaz de contribuir com uma visão mais aprimorada sobre o objeto do folclore.  
Escreve:  
Felizmente, o trabalho de campo parece estar abrindo, lentamente, outras  
perspectivas, pondo de lado essa preocupação inicial de situar o folclore como uma  
‘ciência do saber popular’ ou como análise de um novo tipo de pensamento humano,  
pelo menos no sentido restrito e pouco preciso em que o termo folclore foi empregado  
(Fernandes, 1978, p, 42).  
E arrematava sua crítica observando que a distinção entre “povo” e as outras camadas  
da sociedade, considerada fundamental para alguns folcloristas, devia-se, sobretudo, ao fato de  
estes considerarem isoladamente os elementos folclóricos, desligando-os “dos fatores da  
ambiência social e cultural que os explicam” (Fernandes, 1978, p. 42). Essa concepção de  
relacionar, incondicionalmente, os elementos entendidos como “folclóricos” ao contexto social  
que os produz era o que balizava os estudos de sociologia e folclore por sociólogos da USP,  
sob orientação de Roger Bastide, e serviu de crítica basilar acionada por Florestan Fernandes a  
muitos estudos de folclore, cujo enfoque recaía sobre o “elemento folclórico” em si, sem  
considerar o contexto cultural que o produzia.  
Florestan Fernandes compreendia, assim, que somente o rigor metodológico marcado  
por competente e comprometido trabalho de campo poderia dar conta de apreender a  
complexidade do folclore como um aspecto da vida social (nos seus dizeres, o folclore como  
“realidade objetiva”) e, com isso, impedir “juízos de valor” cultivados por certos folcloristas  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
42  
que, numa orientação de cunho evolucionista, condenavam certos setores da sociedade à inércia  
cultural e histórica.  
Interessante observar, em adendo, que se, por um lado, o nosso sociólogo paulista  
valorizava o trabalho de campo in loco (caracterizado pela observação direta de situações  
sociais e acompanhada de diálogos e outras interações interpessoais, como a escuta atenta),  
enquanto necessário recurso a conferir seriedade aos estudos de folclore, por outro, também  
valorizava o aproveitamento de fontes escritas, como relatos e registros de “viajantes, jesuítas,  
colonos, aventureiros etc.” (Fernandes, 1978, p. 188). Desse modo, ao apontar para a  
importância da observação direta e interações a partir de situações concretas e a valorização de  
fontes escritas, o autor apostava no rigor que o pesquisador (fosse ele um estudioso do folclore  
ou não) deveria ter na lida com suas fontes de pesquisa. A demonstração, ou não, desse rigor  
metodológico nos estudos de folclore era a tônica que guiava boa parte das resenhas por ele  
publicadas21.  
Essa preocupação marcante de Florestan Fernandes em relação ao rigor com o trabalho  
de campo nos estudos de folclore se coloca importante para análise aqui, pois, em boa medida,  
na visão do nosso autor, seria ele o trabalho de campo rigoroso e criterioso recurso capaz  
de desmistificar a concepção estanque e preconceituosa de “povo” tão criticável. A análise de  
situações concretas poderia, então, oferecer uma concepção mais apropriada acerca do elemento  
folclórico e, consequentemente, da noção de povo.  
No já citado “Sobre o folclore”, de 1945, Florestan Fernandes, ao se referir às  
potencialidades de se olhar para o folclore, trazia à baila o termo “patrimônio cultural  
folclórico” que, no contexto utilizado no artigo, se refere ao conjunto de elementos culturais  
que um grupo pode comportar, em que coexistem novos e antigos elementos culturais, ao sabor  
das inevitáveis mudanças ocorridas na vida em sociedade. Embora não tenha contado com  
maiores considerações no artigo, podemos compreender que esse termo é evocativo da própria  
concepção adotada pelo autor em relação à categoria povo. Povo, tal como compreendido por  
Florestan Fernandes, assume um sentido abrangente, não restrito a um único estrato social, e  
sim equivalendo a uma sociedade em sua extensão ou população. O termo povo corresponderia,  
nesse sentido, a uma sociedade cujo patrimônio cultural circula por suas várias camadas e que,  
21 Nessa linha está, por exemplo, a crítica que faz à antologia de Herbert Baldus, Lendas dos índios do Brasil. Após  
tecer inúmeros elogios sobre outros aspectos da obra, em resenha publicada no Jornal de São Paulo, em 1946,  
observava que aquele autor não tornara explícitos “os critérios que lhe serviram de guia na seleção das lendas  
[indígenas que compõem o livro]” (Fernandes, 1978, p. 185).  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
43  
por sua vez, pode apresentar diferentes graus de mentalidade, a depender dos processos de  
desigualdades nela existentes. Isto é, ao argumentar que diferentes camadas da sociedade  
podem compartilhar de semelhantes referenciais culturais entendidos como “folclóricos”,  
Florestan Fernandes não negava a diferença de “mentalidades” entre grupos e classes sociais.  
A diferença, no entanto, seria, no seu entender, uma diferença de “grau” e não de “natureza”,  
decorrente, portanto, de modos desiguais de participação na organização social de uma  
sociedade, e não como uma diferença “inata” de grupos ou classes sociais. Escreve:  
A diferença de mentalidade, todavia, não deixa de ser bastante visível quando se  
analisa o comportamento de membros de classes diferentes e traduz-se a todo  
momento nas diversas formas de conduta e na interpretação de coisas e de ações.  
Como uma diferença de grau, resultante das possibilidades desiguais de participar da  
cultura do povo, e não de natureza, é suscetível de modificar-se, acompanhando o  
desenvolvimento da sociedade ou as mudanças de situações dos indivíduos ou grupos  
de indivíduos (Fernandes, 1978, p. 44).  
Isto significa dizer que, por tais argumentações, Florestan Fernandes partia do princípio,  
desde os seus textos iniciais, de que o folclore é dinâmico, assim como a cultura e a sociedade  
o são.  
A argumentação de que qualquer ordem de diferença de mentalidade seria de grau e não  
de natureza também aparece em uma resenha que publicou no ano de 1946 sobre o livro  
“Lendas dos índios do Brasil”, de Herbert Baldes, lançado naquele mesmo ano. Elogiando o  
fato de Baldes não ter reiterado em sua obra “o mais terrível monstro que devora as reservas  
morais do ‘civilizado’ diante do índio: [isto é,] a sua manifestação típica de etnocentrismo,  
resumida [na...] palavra selvagem” (Fernandes, 1978, p. 184, grifo do autor), nosso autor  
argumentava que “se existem diferenças entre os ‘civilizados’, que leem as lendas [indígenas]  
selecionadas [no livro], e os ‘índios brasileiros’, estas devem ser situadas no plano do  
equipamento cultural e do comportamento que ele origina e não no plano de uma diferença de  
natureza (...)” (Fernandes, 1978, p. 184).  
Em artigo publicado em 1958, intitulado “Objeto e campo do Folclore”, Florestan  
Fernandes ao aludir ao “fato folclórico” reiterava sua crítica em relação à visão que considerava  
ainda predominante no campo do folclore naqueles finais da década de 1950: a de que se trataria  
de sobrevivências culturais. Em resposta contrária a isso, defendia que o folclore (enquanto  
realidade objetiva) é dinâmico, está em constante reatualização, porque a cultura também é  
dinâmica. Essa percepção do autor aparece desenvolvida por ele em diversos trabalhos e sob  
muitos exemplos argumentativos, desde os anos iniciais de dedicação ao tema do folclore. Em  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
44  
artigo publicado em 1945, intitulado “Entre o romance e o folclore”, por exemplo, é na reflexão  
sobre a relação entre o gênero literário romance e o folclore que busca endossar a conveniência  
de se trabalhar o folclore enquanto expressão das condições do tempo presente, constituído de  
elementos típicos da vida em sociedade, incluindo-se aí os diversos grupos que a constituem e  
as contradições de classe. Essa concepção abriria, segundo o autor, uma “nova ponte entre a  
literatura e o folclore porque, então, desaparece[ria] aquela imagem do homem do povo vivendo  
imobilizado pela tradição e incapaz de progresso, surgindo em seu lugar o ser humano que ele  
é” (Fernandes, 1978, p. 68), de modo que a centralidade “desloca-se dos fatos folclóricos  
propriamente ditos para as pessoas que eles caracterizam” (Fernandes, 1978, p. 68). Surgiria,  
então, segundo Fernandes, o sujeito que interessa à literatura, com base naquilo no que ele  
pensa, crê, deseja e contra o que se revolta. Com isso, o autor buscava demarcar a relevância  
da literatura para o folclore e vice-versa. E ainda, com tais argumentações, buscava negar o  
pressuposto de um sujeito imóvel no tempo e incapaz de progresso. Em suma, o folclore  
constituiria, para ele, “algo dinâmico e complexo, em constante transformação” (Fernandes,  
1978, p. 119), posto que os elementos folclóricos “não existem em si e para si, mas como formas  
de atuação e como ideais coletivos” (Fernandes, 1978, p. 120), integrados a um contexto  
sociocultural “que lhe[s] dá forma, significado e função” (Fernandes, 1978, p. 120).  
Nos textos escritos por Florestan Fernandes que dialogam com os estudos de folclore, é  
perceptível como a categoria povo se mostrava um elemento digno de atenção e ressalvas. Era  
algo talvez, espinhoso, mas antes de tudo, especial no sentido de merecer reflexão e cuidado,  
algo que não poderia ser mencionado de maneira desatenta. A evidência disso é que, em seus  
textos, em alguns casos específicos, a palavra povo aparece sinalizada entre aspas ou trazida  
em itálico e, em outros casos, isso não ocorre. Em nenhum dos textos reunidos na antologia o  
autor declarou qualquer justificativa para os destaques ou para a ausência deles atribuídos  
ao termo povo, assim como não lhe deu uma definição prévia. Seja como for, pelo conjunto da  
obra analisada, podemos inferir que sua disposição não era a de sumarizar a noção de povo,  
mas, justamente, colocá-la em debate ante os estudos de folclore.  
Podemos observar que os destaques empregados por Florestan Fernandes ao termo povo  
apareceram desde os anos iniciais de seus escritos, a partir da década de 1940, e seguiram até  
os momentos finais do período em que esteve comprometido com o debate sobre os estudos de  
folclore, no início da década de 1960. Nos artigos “A burguesia, o ‘progresso’ e o Folclore” e  
“Mentalidades grupais e folclore” (ambos de 1944), “Sobre o folclore” e “Entre o romance e o  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
45  
Folclore” (de 1945) e mesmo nos que escreveu anos depois, como “Educação e folclore”,  
publicado em 1960, cujo elemento caracterizador é a crítica à concepção evolucionista (e  
romântica) inspiradora dos estudos de folclore, as palavras povo e cultura popular aparecem  
“aspeadas” ou em itálico ao longo de todas as páginas dos artigos, assim como noções correlatas  
a esses termos, como “cultura dos incultos”, “saber popular”, “sobrevivências” e “meios  
populares”. Do mesmo modo, nos artigos publicados entre 1956 e 1957, a exemplo de “Os  
estudos folclóricos em São Paulo”, o termo “cultura popular” aparece aspeado.  
A partir de um exame atento sobre os textos escritos pelo sociólogo paulista, é possível  
constatar que esse uso de recursos tipográficos aplicados ao termo povo e seus correlatos não  
se dava de modo aleatório. O uso de aspas e de grifos itálicos, tal como empregado pelo autor,  
evidencia, na sua obra, uma espécie de crítica latente um indicativo de sinal de atenção ao  
modo como os folcloristas em geral, mantenedores dessa ideia no campo do folclore, utilizavam  
o termo de modo acrítico e a partir de pressupostos evolucionistas. Decorre disso que a  
conotação “povo”, assim aspeada ou grafada em itálico, corresponde, na obra de Florestan  
Fernandes, àquela visão contundentemente criticada por ele. De outro lado, no entanto, o  
mesmo termo povo, apresentado sem aspas ou destaque em itálico, aparece como conotativo de  
coletividade ou sociedade. Nesse caso, podemos inferir que, possivelmente, para o autor o  
termo acionado nessa outra conotação não merecesse ressalvas ou relativização. O termo  
empregado sem insígnias, portanto, corresponderia à própria concepção à qual Florestan  
Fernandes se apegava e entendia como oportuna para se pensar e estudar o folclore.  
Dissemos que a concepção de povo, enquanto negação àquela que apostava nas  
“sobrevivências”, condenando certa parcela da sociedade à inércia, marcou o posicionamento  
de Florestan Fernandes desde os anos iniciais de sua carreira e o acompanhou pelos anos  
seguintes. A gênese dessa concepção do autor se deve, de modo significativo, ao diálogo  
reflexivo que empreendeu com alguns dos considerados expoentes do folclore brasileiro,  
especialmente Silvio Romero (1851-1914), Amadeu Amaral (1875-1929) e Mário de Andrade  
(1893-1945). Entre 1945 e 1948, Florestan Fernandes mergulhou nas obras desses autores,  
destacando delas argumentos com os quais se afinava e buscava sustentar sua visão sobre o  
folclore e, consequentemente, o modo como compreendia a noção de povo e seus correlatos.  
Em dois textos escritos sobre Mário de Andrade, publicados em fevereiro de 1946 em  
periódicos paulistanos, muito claramente em decorrência do aniversário de morte do autor –  
ocorrida em fevereiro de 1945 –, Florestan Fernandes simpatizava com as ideias daquele “poeta,  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
46  
contista, romancista, crítico e ensaísta” (Fernandes, 1978, p. 150) marcado pelo folclore,  
exatamente porque “em Mário de Andrade a distância entre a arte popular e a arte erudita  
diminui consideravelmente, atingindo em algumas produções excepcionais um grau de  
interpenetração e de equilíbrio notáveis” (Fernandes, 1978, p. 151). Em relação a esse autor,  
foi a noção de (caráter) nacional, equivalente à cultura de um povo, que despertou positivamente  
a atenção de Fernandes: “Nacional aqui significa expressividade, existência de um padrão  
característico e próprio de cultura” (Fernandes, 1978, p. 151). Na relação, sempre em  
movimento, entre o erudito e o popular, Mário de Andrade buscava no folclore os sentidos que  
constituem a vida coletiva e isso despertava o interesse de Florestan Fernandes. Escrevia:  
tal como Mário de Andrade situa o problema: a arte erudita deve realizar-se na e  
através da arte popular e a antítese, no caso a arte popular, cede o lugar a uma terceira  
forma de arte que, do ponto de vista da fatura, chama-se ainda arte erudita, mas que é  
uma coisa nova, mais essencial e mais expressiva (Fernandes, 1978, p. 154).  
Por outro lado, o que configurava ponto elogiável na obra de Mário de Andrade, aos  
olhos de Fernandes isto é, a arte erudita e a arte popular defrontando-se “numa relação  
dialética” (Fernandes, 1978, p. 154) –, era ponto de crítica na obra do pioneiro Silvio Romero.  
Em artigo escrito no ano anterior à publicação daqueles textos dedicados a Mário de Andrade,  
isto é, em 1945, não obstante o reconhecimento à importância do trabalho de Romero, admitida  
por Florestan Fernandes (1978) como “a primeira grande contribuição para o estudo do folclore  
brasileiro” (p. 181), o autor se ressentia com o fato de Romero ter se satisfeito “com o estudo  
em separado das duas manifestações culturais do povo brasileiro: de um lado, a cultura escrita  
e erudita; de outro lado, a cultura oral e popular” (p. 179), nos condenando, nos dizeres de  
Fernandes, a “uma imagem dupla da cultura brasileira” (p. 179). Em sua visão, a preocupação  
de Romero “pela ‘cultura brasileira’ e todos os seus esforços para descobrir o processo de sua  
formação e desenvolvimento (...) se não constituem um fracasso, permanece[ram] como um  
trabalho incompleto” (p. 179). Ou seja, na percepção arguta do nosso autor, Silvio Romero não  
havia conseguido transcender a ideia de folclore para além das camadas populares da sociedade,  
reforçando, pois, o pressuposto da incomunicabilidade de grupos sociais e, o que é pior, o  
confinamento de alguns ao atraso ante o progresso. De outro modo, em Mário de Andrade, os  
contatos iniciais com a arte popular, com o folclórico, perdem o caráter do que Fernandes (1978,  
p. 155) denominou de “um compromisso estreito com a tradição”, propiciando, pois, uma  
espécie de “libertação do tradicional”. Como modo de aprofundar a discussão, Florestan  
Fernandes se volta a analisar Macunaíma, entendido por ele como um “romance folclórico”,  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
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correspondente a “uma síntese do folclore brasileiro levada a efeito na forma do romance  
picaresco” (Fernandes, 1978, p. 158). É romance folclórico, aliás, o “mais agradável que se  
poderia imaginar”, na visão do sociólogo paulista, pois nele Mário de Andrade vai compondo  
lentamente o seu herói e, ao mesmo tempo, um compêndio de folclore uma verdadeira  
“introdução ao folclore brasileiro” – a partir do qual “pode-se estudar a contribuição folclórica  
do branco, do negro, do índio, a função modificadora e criadora dos mestiços e dos imigrantes  
(...) num corte horizontal de mestre” (Fernandes, 1978, p. 159). Atentemos às expressões  
“função modificadora e criadora”. Para Florestan Fernandes, parece somente fazer algum  
sentido pensar o folclore e, consequentemente, pensar a categoria povo, se for nesses termos.  
Ou seja, para Fernandes o estudo do folclore somente pode fazer algum sentido enquanto modo  
de caracterizar as experiências socioculturais de uma coletividade; povo, no sentido mais  
amplo, como equivalente à sociedade, onde os elementos tidos como folclóricos circulam pelas  
camadas dessa sociedade de modo dinâmico e inventivo.  
Em 1948, em artigo que escreveu sobre Amadeu Amaral (1875-1929), Florestan  
Fernandes manifestava simpatia por esse autor, não obstante “confusões e incongruências  
lógicas”22 (Fernandes, 1978, p. 119) identificadas em sua obra. Dentre os vários aspectos  
elogiáveis, destacava-se, na leitura de Fernandes, o modo como Amaral se posicionava em  
relação ao folclore nacional, recusando uma visão essencialista de nação, identificada em  
“certos preconceitos de especialistas (...) para os quais o folclore seria ‘a cultura do inculto’, ou  
em outras palavras ‘o saber das camadas populares nos países civilizados’” (Fernandes, 1978,  
p. 121).  
Apoiado nas ideias daquele pioneiro do folclore brasileiro, Florestan Fernandes  
concordava que “as suposições de ordem mais geral, segundo as quais o folclore brasileiro  
constituiria uma entidade auto-suficiente, dotada de fisionomia própria e voltada para os filões  
22 As críticas desenvolvidas por Fernandes à obra de Amadeu Amaral consistem em: discrepância na obra desse  
autor entre a orientação metodológica que ele aceita e defende e a que é aplicada em seus estudos do folclore  
brasileiro, considerada por Fernandes como “bastante incompleta”, além de abstrair em sua investigação folclórica  
os fatores socioculturais, redundando em uma espécie de “limitação” nos ensaios de Amadeu Amaral sobre a  
poesia popular e outros ensaios. “Em geral”, escreve Florestan Fernandes, “[Amadeu Amaral] consegue apenas  
esclarecer as mudanças de forma e as transformações temáticas, sem conseguir ligá-las a causas sociais e culturais”  
(Fernandes, 1978, p. 126). Conservou-se assim, na visão de Fernandes, “preso aos cânones da explicação erudita  
[posto que...] tendo consciência da orientação metodológica adequada, não a seguiu cabalmente no estudo do  
folclore brasileiro” (Fernandes, 1978, p. 126). No entanto, arrematava: “Isso, contudo, não diminui o valor de sua  
contribuição pessoal para a discussão do problema. Deixou uma significativa lição aos especialistas brasileiros,  
insinuando a necessidade e a possibilidade de se considerar sempre os problemas especiais do folclore brasileiro  
de um ponto de vista geral” (Fernandes, 1978, p. 139).  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
48  
mais profundos da nacionalidade, constituiriam mero palavrório” (Fernandes, 1978, p. 132).  
Tratava-se, pois, não de buscar uma “essência nacional”, mas de compreender como as várias  
“correntes étnicas que entraram em contato no Brasil [...] transformaram-no em unidade  
histórica” (Fernandes, 1978, p. 133). Isto é, a nação como uma realidade viva, variada,  
complexa e em constante transformação.  
Esse posicionamento de Amadeu Amaral de criticar a concepção do folclore como a  
“cultura do inculto” – ressoou simpaticamente aos posicionamentos de Florestan Fernandes, no  
exato sentido de que considerando o problema do ângulo da participação da cultura, Amadeu  
Amaral afasta ao mesmo tempo duas limitações consideradas insustentáveis por Fernandes: “a  
que identificava o folclore à cultura de sociedades rurais; e a que o restringia exclusivamente  
às camadas ‘rústicas’ das populações urbanas” (Fernandes, 1978, p. 121). Nesse sentido, o  
folclore não poderia ser, em absoluto, entendido como um conjunto de “produtos culturais  
definitivos” (Fernandes, 1978, p. 122, grifo do autor), tendo em vista que quem o produz, isto  
é, o povo aqui sem aspas, posto que seu sentido assume uma concepção mais abrangente,  
equivalente à sociedade, população, ou nação, e não a um estrato da sociedade fadado ao  
“atraso”, ante o “progresso” – se constitui de modo dinâmico e ao sabor da história.  
Em suma, a concepção de povo, lapidada por Florestan Fernandes no conjunto de textos  
que escreveu, voltados à temática do folclore, deve ser compreendida como equivalente a uma  
“coletividade”, a uma “população”, “sociedade” ou “grupo social”, não limitada à designação  
“popular”, proveniente daqueles pressupostos do romantismo e do evolucionismo que o  
sociólogo paulista tanto criticou.  
Tal concepção de povo em Florestan Fernandes, forjada ao longo dos anos, nos ajuda a  
melhor compreender sua disposição em defender o folclore como uma disciplina humanística,  
tal como proposto em artigos que escreveu nos finais da década de 1950. Isto é, uma concepção  
desprovida do pressuposto voltado a uma estagnação ou “involução” de certos estratos sociais,  
e sim “o folclore como e enquanto criação intelectual do espírito humano” (Fernandes, 1978,  
p. 213); capacidade humana de criação, em seus aspectos estéticos e poéticos.  
Em 1959, no artigo “Folclore e Ciências Sociais”, o autor considerava aquele momento  
o de mais clareza e convicção sobre o folclore como disciplina humanística, por entendê-lo  
como um conjunto de fenômenos que lança  
enorme luz sobre o comportamento humano, como a natureza dos valores culturais de  
uma coletividade, as circunstâncias ou condições em que eles se atualizam, a  
importância deles na formação do horizonte cultural de seus portadores [...], a relação  
PENTEADO JÚNIOR, W. R.  
49  
deles e das situações sociais em que emergem com os sentimentos compartilhados  
coletivamente, [...] (Fernandes, 1978, p. 13-14).  
A conveniência dos estudos de folclore enquanto disciplina humanística estaria para  
Fernandes, portanto, na vantagem de oportunizar compreender aspectos da vida humana,  
investigando as implicações artísticas, segundo padrões estéticos e filosóficos que se  
manifestam nas produções de cunho folclórico (Gnaccarini, 1987). Um empreendimento  
intelectual somente possível a partir de uma concepção de povo mais abrangente, considerando  
os vários setores e segmentos que o constituem. Povo assumido enquanto termo que agrega  
denominações diversas, porém, relacionadas entre si em um mesmo campo semântico –  
“coletividade”, “população”, “sociedade”, “grupo social” etc. Uma polissemia imprescindível  
para dar conta da complexidade do folclore enquanto realidade objetiva, nos termos elaborados  
pelo sociólogo paulista.  
Considerações Finais  
Partindo do pressuposto de que a categoria povo manteve certo sentido latente nos  
estudos de folclore no Brasil, buscou-se, neste artigo, circunstanciar e problematizar como ela  
foi tomada por Florestan Fernandes a partir do conjunto de textos que publicou entre 1944 e  
1962, que redundou na antologia “O folclore em questão” (1978). Buscou-se, a partir dessa  
fonte de análise, percorrer algumas pistas capazes de conduzir a possíveis respostas acerca de  
como o sociólogo paulista em questão lidou com essa categoria no debate que empreendeu no  
âmbito dos estudos de folclore.  
Um exame atento à sua obra nos permitiu considerar que desde os anos iniciais em que  
esteve voltado à temática do folclore recusou certa concepção evolucionista, segundo a qual o  
folclore corresponderia a “sobrevivências” culturais consideradas características dos “meios  
populares”, identificados como “grupos atrasados”, “classes baixas” ou “gente do povo”,  
condenados à inércia social e histórica. Compreendia que somente o rigor metodológico,  
marcado por competente e comprometido trabalho de campo, poderia dar conta de apreender a  
complexidade do folclore como um aspecto da vida social e, com isso, impedir “juízos de valor”  
cultivados por certos folcloristas. A análise de situações concretas poderia, então, na visão do  
autor, oferecer uma concepção mais apropriada acerca do elemento folclórico e,  
consequentemente, da noção de povo.  
Uma categoria com sentido latente: a noção de povo nos estudos de  
folclore no Brasil e a visão (crítica) de Florestan Fernandes  
50  
Nesse sentido, e em contraposição àquela concepção de inspiração evolucionista,  
Fernandes desenvolveu sua concepção de povo como equivalente a uma “coletividade”, a uma  
“população”, “sociedade” ou “grupo social”, em que os elementos tidos como folclóricos  
circulariam de modo dinâmico e inventivo, estando em constante transformação, visto  
corresponderem a experiências provenientes do meio social que os produz. Tal concepção,  
lapidada pelo autor ao longo dos anos, nos permite melhor compreender sua disposição em  
defender o folclore como uma disciplina humanística, isto é, uma concepção desprovida do  
pressuposto voltado a uma estagnação ou “involução” de certos estratos sociais, e sim o folclore  
enquanto capacidade humana de criação, em seus aspectos estéticos e poéticos.  
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Recebido em: 4/8/2025  
Aceito em: 14/10/2025  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 52-74  
ANTECEDENTES DO DILEMA RACIAL BRASILEIRO  
BACKGROUND OF THE BRAZILIAN RACIAL DILEMMA  
____________________________________  
Ana Rodrigues Cavalcanti Alves  
Eliane Veras Soares  
Resumo  
Este artigo visa a discutir a gênese da noção de dilema racial brasileiro no pensamento de Florestan Fernandes,  
elaborada a partir dos anos 1950 e retomada ao longo de sua trajetória intelectual, em seu esforço de desvelar a  
dinâmica das relações raciais no âmbito da sociedade brasileira. Orientado por uma leitura diacrônica, que se  
distancia da concepção de “obra acabada”, este trabalho se concentra na primeira fase de elaboração do dilema  
racial, inscrita ainda no Projeto de estudo “O preconceito racial em São Paulo”, que fundamentou a pesquisa  
Unesco em São Paulo, coordenada por Roger Bastide e Florestan Fernandes e cujos primeiros resultados foram  
apresentados em “Relações raciais entre brancos e negros em São Paulo” (1955). Embora o trabalho se limite a  
uma fase preliminar da pesquisa, acreditamos que uma análise exegética desse material, em perspectiva diacrônica,  
somada aos documentos disponíveis no acervo de Florestan Fernandes, contribua para matizar interpretações  
cristalizadas acerca da questão racial no pensamento do autor e para a reconstrução do diálogo entre sociólogos  
acadêmicos e intelectualidade negra, que constitui uma das mais recentes agendas de pesquisa das ciências sociais  
brasileiras.  
Palavras-chave: Dilema racial. Florestan Fernandes. Relações raciais. Análise diacrônica.  
Abstract  
This article aims to discuss the genesis of the notion of the Brazilian racial dilemma in the thought of Florestan  
Fernandes, developed from the 1950s onward and revisited throughout his intellectual trajectory in his effort to unveil  
the dynamics of racial relations within Brazilian society. Guided by a diachronic reading that moves away from the  
concept of a “finished work,” this study focuses on the initial phase of the formulation of the racial dilemma, which was  
still embedded in the research project Racial Prejudice in São Paulo. This project laid the foundation for the UNESCO  
study in São Paulo, coordinated by Roger Bastide and Florestan Fernandes, with its initial findings presented in Racial  
Relations between Whites and Blacks in São Paulo (1955). Although this work is limited to a preliminary stage of the  
research, we believe that an exegetical analysis of this material considering a diachronic perspective and incorporating  
documents from Florestan Fernandes' archives can help refine established interpretations of racial issues in his thought.  
Additionally, it contributes to reconstructing the dialogue between academic sociologists and Black intellectuals, a topic  
that has become one of the most recent research agendas in Brazilian social sciences.  
Keywords: Racial dilemma. Florestan Fernandes. Race relations. Diachronic analysis.  
Professora adjunta do Departamento de Sociologia e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências  
Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Coordena o projeto de pesquisa “Luta de raças, de classes e  
desenvolvimento: reconstruindo o artesanato intelectual de Florestan Fernandes”, que conta com financiamento  
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), termo de outorga n. 0018/2024. E-mail:  
anarodrigues@ufba.br.  
 Professora titular aposentada no Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).  
Cofundadora da Coordenação de Estudos de África do Centro de Estudos Avançados da UFPE. E-mail:  
elianeveras1@gmail.com.  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
53  
“Em Florestan Fernandes, o pensamento se pensa todo o tempo”.  
Octavio Ianni  
Introdução  
Um dos desafios de se abordar a questão racial no pensamento de Florestan Fernandes  
é o de reconhecer que essa discussão foi desenvolvida e constantemente reformulada em  
diferentes momentos de sua trajetória intelectual, perfazendo um período de quase cinquenta  
anos. Podemos considerar os estudos sobre religião e folclore desenvolvidos na primeira metade  
dos anos 1940 como uma primeira fase, que possibilitou o contato do autor com temas relativos  
à questão racial1, seguida pela participação na pesquisa Unesco sobre relações raciais em São  
Paulo, no início dos anos 1950, até sua produção na segunda metade dos anos 1980 ao longo  
de seus mandatos parlamentares pelo Partido dos Trabalhadores cujos textos selecionados  
pelo autor encontram-se reunidos em “Significado do protesto negro”, publicado em 19892.  
Nesse sentido, é possível afirmar que o esforço de análise e interpretação dos padrões  
de relações raciais vigentes na sociedade brasileira acompanhou o autor ao longo de toda a sua  
trajetória intelectual. No entanto, a sua abordagem da questão racial sempre esteve inscrita em  
um enquadramento mais amplo, voltado à interpretação da formação social do país, de sua  
estrutura social em diferentes momentos históricos que foi e é uma estrutura racializada e  
das condições de emergência e desenvolvimento do capitalismo e do regime de classes sociais  
no Brasil. Por essa razão, Florestan sempre buscou demarcar a sua posição com relação aos  
estudos sobre relações raciais, sobretudo os estadunidenses, seja no que se refere à perspectiva  
teórico-metodológica adotada, seja no que tange ao compromisso ético e político assumido com  
o negro, conforme será discutido mais adiante. É justamente esse enquadramento analítico que  
permitirá o entrelaçamento do dilema racial aos impasses da democracia no Brasil e,  
posteriormente, à noção de capitalismo dependente sentidos a serem analisados em etapa  
posterior da pesquisa.  
1 Tais estudos encontram-se reunidos na quarta parte de “O negro no mundo dos brancos” (2007). Segundo Diogo  
Costa e Eliane Veras Soares (2024), esses estudos correspondem a uma primeira fase da análise de Fernandes  
sobre as relações raciais entre brancos e negros no Brasil, com foco nos sistemas culturais, desenvolvida a partir  
das pesquisas etnográficas realizadas durante o curso de graduação na USP, nos anos 1940.  
2 O livro reúne textos de procedência e finalidade diversas. Em um deles, “Carta à liderança do PT”, encaminhada  
em 14 de dezembro de 1993, Fernandes (2017a) faz um levantamento do conjunto de seus estudos sobre relações  
raciais.  
54  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
Nesse enquadramento analítico, Florestan abordou, em cada momento de sua trajetória  
intelectual, diferentes aspectos das relações raciais, retomando e reformulando suas categorias  
de pensamento à luz de novas leituras e embates teóricos e políticos dos processos histórico-  
sociais vivenciados, bem como de suas experiências práticas junto ao movimento negro e a  
outros grupos sociais comprometidos com a democratização da sociedade brasileira.  
A despeito disso, erigiram-se interpretações cristalizadas no campo das ciências sociais,  
que seguem orientando as leituras sobre o autor e seu papel na análise das relações raciais no  
Brasil. Entre elas, vale destacar a interpretação de que, para Fernandes, o dilema racial seria  
uma categoria residual, uma “sobrevivência do passado”, herdada do antigo regime, que  
despontou na obra de alguns(as) cientistas sociais brasileiros(as) e estrangeiros(as),  
consolidando-se possivelmente como hegemônica (Hasenbalg, 1979; Motta, 2000; Schwarcz,  
2007; Souza, 2006; Wacquant, 2005, entre outros).  
Entretanto, é possível observar, sobretudo a partir das últimas décadas, a emergência de  
novas leituras que permitem problematizar aquela interpretação, destacando, entre outras  
coisas, a tendência estrutural assumida pelo dilema racial no pensamento de Florestan  
Fernandes (Cardoso, 2008; Costa et al., 2021; Costa; Soares, 2024; Gato, 2024; Silva; Brasil  
Jr., 2021; Silva, 2016). Algumas dessas análises destacam um progressivo processo de  
radicalização teórica (Costa et al., 2021), que só pode ser apreendido por meio de uma análise  
do conjunto de sua obra, atenta aos processos de reelaboração conceitual, às continuidades e  
descontinuidades da análise, em seu empenho contínuo de apreensão da natureza complexa e  
mutável do fenômeno3.  
Este trabalho converge com alguns dos procedimentos metodológicos e leituras  
sustentadas por essa segunda vertente interpretativa, focalizando, porém, não tanto a “fase  
madura” de Florestan Fernandes em que tal radicalização teórica se torna mais explícita e  
destacada pela fortuna crítica do autor , mas os momentos iniciais de elaboração conceitual,  
que já permitem antever elementos que parecem extrapolar certo “diagnóstico residualista” do  
dilema racial brasileiro, e cujos sentidos e dimensões serão desdobrados teórica e  
empiricamente ao longo da trajetória intelectual de Florestan Fernandes.  
3
Paralelamente à análise diacrônica da noção de dilema racial no pensamento de Fernandes, está sendo  
desenvolvida uma pesquisa sobre a recepção do autor no campo de estudos sobre relações raciais no Brasil, em  
que já é possível antever as duas vertentes acima referidas, bem como algumas afinidades em seus respectivos  
percursos teórico-metodológicos e interpretativos.  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
55  
Nos limites do presente artigo analisaremos “Brancos e negros em São Paulo” (1959)4,  
notadamente o projeto de estudo “O preconceito racial em São Paulo”, publicado originalmente  
em 1951, no qual são apresentadas as hipóteses diretrizes da pesquisa e a perspectiva teórico-  
metodológica que guiou o estudo sobre relações raciais em São Paulo, realizado em parceria  
com Roger Bastide e com a colaboração de intelectuais e ativistas do meio negro. Acreditamos  
que essa discussão é fundamental tanto para demarcar a posição assumida por Florestan  
Fernandes no debate racial corrente no início dos anos 1950 no Brasil quanto para conhecer  
seus pressupostos no momento inicial da pesquisa5. Além disso, conforme destacado  
anteriormente, a discussão sobre as hipóteses de pesquisa e categorias assumidas nesse período  
permite matizar leituras e interpretações acerca da questão racial no pensamento de Florestan  
Fernandes, como aquela que insere a interpretação do sociólogo paulista dentro de uma  
abordagem histórica do racismo, considerado como algo “residual”, ligado ao passado e,  
portanto, sem uma função específica na ordem social emergente (Hasenbalg, 1979, p. 60).  
Antes de iniciarmos tal discussão, é importante apresentar, em linhas gerais, a  
perspectiva teórico-metodológica que orientou nossa leitura da obra de Florestan Fernandes,  
estruturada a partir do que estamos chamando de análise diacrônica (Costa et al., 2021) e da  
pesquisa documental. Nossa investigação ainda está em fase de desenvolvimento e, neste  
trabalho, analisamos somente um “primeiro momento” do dilema racial brasileiro. A presente  
discussão intenta destacar aspectos importantes da interpretação de Fernandes sobre o referido  
dilema, propondo um convite a novas leituras e interpretações de seu papel no debate sobre  
relações raciais no Brasil e, de modo mais geral, de seu esforço de elaboração teórica acerca  
dos dilemas que marcam as sociedades latino-americanas, especialmente a sociedade brasileira.  
4 Originalmente o relatório da pesquisa foi publicado na Revista Anhembi, v. X-XI, n. 30-34, 1953. Em 1955, foi  
publicado como obra coletiva com o título “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo”. Em 1959,  
Bastide e Fernandes publicaram separadamente os resultados de sua pesquisa com o título “Brancos e negros em  
São Paulo”. Trabalhamos com a edição mais recente de 2008. Ver notas detalhadas em “Bibliografia de Florestan  
Fernandes” (Soares; Costa, 2021, p. 353-354).  
5
O próprio Florestan se abstém de aprofundar seus pressupostos teórico-metodológicos em obras posteriores,  
fazendo referência à extensa discussão apresentada no “projeto de estudo”, como ocorre na Nota Explicativa de  
“A integração do negro na sociedade de classes”. Os capítulos de “Brancos e negros em São Paulo” são retomados  
e desenvolvidos de modo mais detido no argumento desenvolvido em “A Integração do negro na sociedade de  
classes”, o que reforça nossa escolha pela focalização do projeto como ponto de partida da análise.  
56  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
Considerações sobre a análise diacrônica do dilema racial  
A pesquisa desenvolvida no âmbito do projeto “O artesanato intelectual de Florestan  
Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”, coordenada pelo  
professor Diogo Valença de Azevedo Costa, fundamenta-se em uma leitura diacrônica da obra  
de Fernandes, interessada no processo de construção do pensamento do autor ao longo de sua  
trajetória intelectual, nas continuidades e descontinuidades que marcam o seu exercício de  
elaboração teórica e conceitual, bem como nas condições que favoreceram as reformulações de  
suas categorias analíticas e interpretativas fundamentais.  
Tal abordagem se inspira nas sugestões metodológicas da mais recente edição dos  
Quaderni del carcere, de Antônio Gramsci, que busca identificar a data precisa de redação de  
cada parágrafo da obra (Cospito, 2016). Nesse sentido, a disposição dos textos em ordem  
cronológica se mostra fundamental para uma análise que busca focalizar o pensamento de modo  
processual, distanciando-se da compreensão de “obra acabada”. Feitas as devidas adaptações  
às diferenças entre as fontes documentais, a obra de Florestan Fernandes pode constituir terreno  
fértil para a aplicação de uma leitura diacrônica. Como destacou Octavio Ianni (2004, p. 18),  
“em Florestan Fernandes, o pensamento se pensa todo o tempo. As suas contribuições históricas  
e teóricas estão permeadas pela reflexão crítica sobre as relações entre o pensamento e o  
pensado”. Assim, a presente análise parte do pressuposto de que as categorias elaboradas por  
Fernandes estiveram sujeitas a constantes revisões críticas por parte do autor, sendo  
reformuladas a partir de embates intelectuais e políticos, de novas influências teóricas, de  
processos histórico-sociais como é o caso da revolução cubana, em 1959, e do golpe  
empresarial-militar no Brasil, em 1964 , além de experiências práticas junto ao movimento  
negro e a outros movimentos sociais.  
Obviamente, essa disposição para rever seu pensamento não passou despercebida pela  
fortuna crítica de Fernandes, que destaca desde a tese de uma “ruptura epistemológica”, a  
demarcar fases distintas na trajetória intelectual do autor (Freitag, 1987), até uma compreensão  
do caráter “processual” e “artesanal” de sua obra (Bastos, 2015, 2020; Brasil Jr., 2013; Campos,  
2014; Costa et al., 2021; Costa; Soares, 2024; Silva, 2016). Partindo dessa compreensão, a  
abordagem diacrônica se orienta pela 1) organização cronológica dos textos de Fernandes –  
com o objetivo de identificar o uso inicial de um conceito e suas diferentes variações sucessivas,  
que conduzem à incorporação de novos aspectos, reformulações ou até abandono dele e 2)  
mapeamento das principais referências teóricas, métodos e categorias analíticas mobilizadas.  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
57  
A análise diacrônica se interessa também pelos “bastidores” da produção intelectual,  
favorecida pelo recurso à pesquisa documental no Fundo Florestan Fernandes disponível na  
Coordenadoria de Coleções Especiais e Obras Raras da Biblioteca Comunitária da  
Universidade de São Carlos, que reúne o acervo pessoal do autor (correspondências, livros,  
notas de aula, material de pesquisa, objetos pessoais, entre outros materiais), tomando tais  
arquivos como fonte de investigação e teorização. Desse modo, é possível consultar, por  
exemplo, suas referências teóricas, as marginálias dos livros lidos pelo autor, acessando, em  
alguma medida, as “conversações interiores” (Archer, 2011) de Florestan e sua relação com os  
textos; bem como o material empírico construído durante a pesquisa sobre relações raciais em  
São Paulo no início dos anos 1950 e nos anos seguintes. O material coletado por meio da  
pesquisa documental permite, portanto, confrontar e complementar a leitura de sua obra no  
esforço de reconstrução do artesanato intelectual de Fernandes.  
A análise diacrônica se orienta por uma perspectiva de síntese, que se coloca para além  
da dicotomia “texto versus contexto” na análise da produção intelectual. Nesse sentido, tão  
importante quanto a análise internalista dessa produção intelectual, é a consideração das  
condições históricas, socioculturais e políticas que possibilitaram a sua emergência dando  
lugar, em alguns casos, a revisões críticas e construção de novas categorias interpretativas. Na  
trilha desse artesanato, consideramos também o conjunto de entrevistas e textos autobiográficos  
produzidos pelo autor, correspondências trocadas com intelectuais brasileiros e estrangeiros,  
assim como ampla revisão da sua fortuna crítica, os quais ajudam a reconstruir as circunstâncias  
históricas de sua produção teórica6.  
Tal enfoque se mostrou particularmente profícuo na investigação sobre a noção de  
dilema racial, resultante de décadas de pesquisa teórica e empírica e cuja recepção no campo  
dos estudos sobre relações raciais no Brasil tem sido marcada por uma interpretação  
hegemônica que afirma o seu caráter “residual”, de modo que as desigualdades raciais  
tenderiam a ser superadas com o desenvolvimento do capitalismo. Uma breve análise dos textos  
que afirmam essa interpretação permite observar a concentração da crítica em ensaios  
específicos como “A persistência do passado” – ou em uma única obra do autor, mais  
comumente “A integração do negro na sociedade de classes7. Por outro lado, as interpretações  
6 Infelizmente, os limites do artigo não nos permitem inserir aqui o rico material encontrado no acervo.  
7
Ver, por exemplo, a crítica de Carlos Hasenbalg (1977, 1979), considerado possivelmente o precursor dessa  
interpretação (Silva; Brasil Jr., 2021, p. 14-15), de Jessé Souza (2006) e de Loic Wacquant (2005, p. 23-24).  
58  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
que se contrapõem a tal diagnóstico ou que enfatizam a tendência estrutural do dilema racial  
em Fernandes tendem a privilegiar uma análise do conjunto da sua obra, mais atenta às  
nuances inscritas na análise do fenômeno e aos processos de reelaboração conceitual ao longo  
da trajetória intelectual do autor (Bastos, 2015; Campos, 2014; Costa et al., 2021; Costa; Soares,  
2024; Silva; Brasil Jr., 2021; Silva, 2016).  
Alinhada a essa última perspectiva, acreditamos que uma análise diacrônica da obra de  
Fernandes possibilita a identificação da gênese e múltiplos sentidos e dimensões assumidos  
pela noção de dilema racial, bem como a emergência de novas leituras que permitam rever a  
recepção do autor no campo de estudos sobre relações raciais. Para tanto, a presente pesquisa  
partiu de uma organização cronológica das obras de Fernandes referentes à questão racial,  
algumas das quais foram lidas e discutidas coletivamente. Buscou-se identificar as referências  
teóricas, conceitos e categorias mobilizadas pelo autor nessas obras, conforme mencionado  
anteriormente. Paralelamente, foram consultados documentos disponíveis na biblioteca  
Florestan Fernandes, como anotações do autor sobre a noção de demora cultural, mobilizada  
para pensar alguns aspectos do padrão de relações raciais vigente na nova ordem social; livros  
como os de Gunnar Myrdal (An american Dilemma, 1944), Donald Pierson (Brancos e Pretos  
na Bahia, 1945), Carlos Hasenbalg (Discriminação e desigualdades raciais no Brasil, 1979) e  
todas as obras resultantes da pesquisa Unesco, além de cartas enviadas por diversos  
intelectuais8.  
Sobre essas últimas, vale mencionar uma carta de Carlos Hasenbalg endereçada a  
Florestan Fernandes em junho de 1977, em que o autor comunica a publicação de seu artigo  
“Desigualdades Raciais no Brasil”, na revista Dados, informando sua leitura crítica ao trabalho  
do sociólogo paulista acerca da conexão entre escravidão e relações raciais pós-escravistas, ao  
tempo em que reafirma a importância da sua obra como ponto de partida para uma análise das  
relações raciais no Brasil (ver anexo I). Não sabemos se Florestan chegou a respondê-lo, mas,  
ao que tudo indica, o artigo de Hasenbalg assumiu um papel relevante na recepção da obra de  
Florestan Fernandes no campo intelectual brasileiro, contribuindo para consolidação daquela  
interpretação segundo a qual a questão racial seria um “resíduo” do passado, que tenderia a ser  
superado com a expansão e pleno desenvolvimento da ordem social competitiva9.  
8 Agradecemos ao professor Diogo Valença de Azevedo Costa pela coleta, sistematização e envio de parte desse  
material.  
9
Encontramos um número da referida revista no acervo Florestan Fernandes, o qual não conta com nenhuma  
marginália de Florestan Fernandes. Em contrapartida, no exemplar de “Discriminação e desigualdades raciais no  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
59  
A partir da análise desse material, procedemos a uma investigação dos momentos  
iniciais na formulação do dilema racial, realizados conjuntamente por Roger Bastide e Florestan  
Fernandes. Consideramos a análise desse primeiro momento da maior importância, haja vista  
que boa parte da fortuna crítica do autor tende a se concentrar em suas obras posteriores,  
características de uma fase considerada mais “madura” ou “radical”, conferindo menor atenção,  
por exemplo, ao projeto de estudo que fundamenta, teórica e metodologicamente, a pesquisa  
Unesco em São Paulo sobre o qual nos debruçamos na próxima seção10.  
Origens do dilema racial no projeto de estudo “O Preconceito Racial em São Paulo”  
A pesquisa sobre relações raciais em São Paulo, liderada por Bastide e Fernandes no  
início da década de 1950, que dá origem ao relatório de pesquisa “Relações raciais entre  
Brancos e Negros em São Paulo”, pode ser percebida como o produto de uma confluência de  
condições intelectuais e políticas. De um lado, o estudo da mudança social assumia crescente  
interesse por parte dos(as) cientistas sociais brasileiros(as), em um contexto de intensas  
transformações histórico-estruturais no país, nas quais teve lugar o próprio processo de  
institucionalização da área (Fernandes, 1977a; Miceli, 1987). De outro lado, intelectuais e  
ativistas ligados ao movimento negro, oriundos em sua maior parte desse processo de  
reestruturação societária, elaboravam estudos sobre a questão racial e tentavam forçar o diálogo  
com a intelectualidade brasileira, exercendo importante influência sobre a agenda das ciências  
sociais nesse período11.  
Brasil” (Hasenbalg, 1979), disponível no Fundo Florestan Fernandes, há poucas anotações, mas na página 21 se  
pergunta “em suma = que traz de novo?” ou se Hasenbalg seria “parsoniano?”; na página 23, questiona a falta de  
perspectiva histórica: “boa contribuição → mas seria preciso uma perspectiva histórica para explicar o ‘refluxo  
demográfico’ em termos raciais”; por fim, na página 29, questiona se “o escravo poderia constituir uma classe no  
sentido marxista?”. Essas são as únicas anotações significativas contidas na leitura de Florestan Fernandes, não  
havendo qualquer anotação nas passagens em que Hasenbalg o critica diretamente. Para uma discussão mais  
aprofundada sobre as críticas aos trabalhos de Florestan Fernandes sobre a questão racial, ver Costa (2023).  
10  
Entre autores(as) que se aprofundam na análise do “projeto de estudo”, mencionamos o instigante texto  
“Sessenta anos de um relatório de pesquisa exemplar” de Elide Rugai Bastos (2015) e a dissertação de mestrado  
de Antônia Junqueira Malta Campos, intitulada “Interfaces entre sociologia e processo social: A integração do  
negro na sociedade classes e a pesquisa Unesco em São Paulo” (2014).  
11 É conhecido o esforço do movimento negro em envolver intelectuais brasileiros e estrangeiros na sua luta contra  
o racismo. É possível citar como exemplo o jornal Quilombo, dirigido por Abdias Nascimento no final dos anos  
1940, que em sua seção “Democracia racial” convidava intelectuais reconhecidos para discutir o tema, como  
Arthur Ramos, Gilberto Freyre e Estanislau Fischlowitz. Em outras seções, é possível encontrar artigos de Alberto  
Guerreiro Ramos e do próprio Abdias Nascimento. Tal hipótese merece certamente uma análise minuciosa. Mais  
destacadas na literatura têm sido a realização da Conferência Nacional do Negro, em 1949, e do I Congresso do  
Negro Brasileiro, em 1950, que exerceram profunda influência sobre uma geração de cientistas sociais dedicados  
ao estudo das relações raciais no Brasil. Ao ser convidado por Alfred Métraux para coordenar a pesquisa Unesco  
em São Paulo, Roger Bastide declara a sua intenção de envolver a comunidade negra, conferindo à investigação  
60  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
Um dos méritos da investigação de Antônia Campos (2014), realizada por meio de  
pesquisa nos arquivos do Fundo Florestan Fernandes, é o de dar visibilidade ao intenso trabalho  
de colaboração entre Roger Bastide e Florestan Fernandes e intelectuais do meio negro, bem  
como ao impacto exercido pelo I Congresso do Negro Brasileiro sobre os contornos assumidos  
pela pesquisa Unesco em São Paulo. Nas suas palavras,  
[É] significativo o fato de que neste congresso estiveram presentes alguns dos  
colaboradores mais proeminentes da pesquisa e, embora não seja possível afirmar com  
certeza se sociólogos e intelectuais negros encontraram-se pela primeira vez no  
congresso ou mesmo antes, parece plausível afirmar que a proximidade entre os dois  
grupos e a possibilidade de uma colaboração já era uma realidade mesmo antes do  
acordo feito com a UNESCO. Desde o seu início, portanto, a pesquisa já fora  
imaginada tendo em conta esta colaboração (Campos, 2014, p. 7-8).  
Quando Roger Bastide recebeu o convite para coordenar a pesquisa Unesco em São  
Paulo, tanto ele quanto Florestan Fernandes já estavam imersos nessa atmosfera intelectual e  
política, marcada por maior visibilização das tensões raciais, engajados em um estudo sobre o  
tema na metrópole paulista, patrocinada pela Editora Anhembi. No prefácio à segunda edição  
de “Brancos e Negros em São Paulo”, publicado originalmente na edição de 1959, Florestan  
afirma que “quando Métraux travou os primeiros contatos com os primeiros estudiosos do  
assunto, o plano desse trabalho já estava pronto e algumas de suas partes em desenvolvimento”  
(Bastide; Fernandes, 2008b, p. 17).  
Como destaca Campos (2014, p. 8), dada a amplitude da pesquisa e o grande número de  
colaboradores envolvidos, há um intervalo de tempo relativamente curto “entre o fechamento  
dos acordos com Métraux (novembro de 1950), a redação do Projeto de Estudo (publicado em  
abril de 1951), e o início da realização das Mesas Redondas (8 de maio de 1951)” – o que  
permite pensar que os contatos entre sociólogos e a intelectualidade negra vinham sendo  
cultivados desde antes. O projeto Unesco atuaria, portanto, como agente catalisador do estudo  
sistemático das relações raciais no Brasil, convergindo com as condições favoráveis à pesquisa  
em ciências sociais que floresciam no país naquele momento e com o interesse dos(as)  
próprios(as) cientistas sociais em investigar a situação racial brasileira em um contexto de  
mudança, atrelado à crescente industrialização e urbanização do país (Maio, 1999).  
Em “As relações raciais em São Paulo reexaminadas”, Fernandes (2017b) destaca que  
a escrita do projeto de estudo foi motivada pela necessidade de alinhamento teórico entre ele e  
um sentido prático, em conformidade com as reivindicações apresentadas naquele congresso (Campos, 2014;  
Maio, 1999; Nascimento, 1982; Ramos, 2023).  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
61  
Bastide, uma vez que o antropólogo francês era mais moderado na crítica ao padrão de relações  
raciais vigente no Brasil e à própria ideia de uma democracia racial. Já Fernandes contava não  
somente com a experiência de suas pesquisas realizadas nos anos 1940, mas sobretudo com  
uma “origem lumpen” que lhe permitiria “manejar a ‘perspectiva do oprimido’ e por aí,  
desmascarar a hipocrisia reinante sobre o assunto” (Fernandes, 2017b, p. 132). Tendo  
vivenciado a formação de uma sociedade de classes em São Paulo desde uma das posições mais  
desfavoráveis, Florestan sabia que a ordem social competitiva não era tão aberta assim, ainda  
menos no que se refere à população negra (Fernandes, 1977b, 2017b). Segundo ele,  
existiam divergências entre Bastide e eu na forma de encarar a situação concreta do  
negro. (...) O professor Bastide, por suas investigações, compartilhava de muitas das  
minhas convicções; mas rejeitava outras, em particular porque preferia os meios-tons,  
aquilo que se poderia chamar de ‘verdade redentora’, aparente no perdão mútuo, no  
esquecimento, a superação pelo negro das ‘injustiças’. (...) Achei que seria fecundo  
colocar em suspenso as diferenças, através de um projeto de pesquisa que firmasse  
certas hipóteses diretrizes fundamentais12 (Fernandes, 2017b, p. 132-133).  
É com essa motivação que Florestan Fernandes redige o “projeto de estudo”, o qual  
será revisado por Bastide que se encarrega de atenuar as críticas a Donald Pierson. Segundo  
Fernandes (2017b, p. 133), Bastide “só alterou algumas passagens sobre Pierson, atenuadas ou  
omitidas, que eu havia utilizado deliberadamente como espécie de straw man, ressaltando assim  
as ambiguidades e inconsistências que deveríamos evitar (ou controlar) em uma investigação  
comprometida com o próprio negro”. O projeto foi publicado, inicialmente, pelo Instituto de  
Administração da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de  
São Paulo, em abril de 1951. O texto foi publicado, novamente, em 1959 como apêndice de  
“Brancos e Negros em São Paulo” e como capítulo na segunda edição de “Sociologia numa era  
de revolução social”, em 1976.  
No que tange aos objetivos deste artigo, interessa destacar na discussão sobre o “projeto  
de estudo”: 1) o enfoque teórico-metodológico adotado pelos autores; 2) as hipóteses diretrizes  
12  
Sobre o espírito conciliador mencionado por Fernandes, ver o “Prefácio à segunda edição” de “O negro  
revoltado”, em que Abdias Nascimento (1982, p. 9-10) destaca, em tom de autocrítica, o caráter “demasiadamente  
conciliador para com os brancos liberais” e a excessiva “condescendência para com os racistas deste país”  
assumido pelos participantes do I Congresso do Negro Brasileiro. O autor destaca que tal caráter seria uma herança  
do “racismo paternalista brasileiro” e que, naquele momento, uma postura mais radical seria recebida como  
“racismo às avessas” – acusação que chegou a ocorrer, inclusive, nos embates com os intelectuais profissionais.  
As dificuldades enfrentadas pelos movimentos sociais do meio negro com relação ao padrão tradicionalista e  
assimétrico das relações raciais foram registradas nas páginas de “A Integração do Negro na Sociedade de classes”  
ver, em especial, o terceiro capítulo do primeiro volume: “Heteronomia racial na sociedade de classes”.  
62  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
que orientaram a pesquisa e 3) a elucidação das noções de preconceito racial, “preconceito de  
cor” e dilema racial.  
É importante destacar que o ciclo de estudos da Unesco favoreceu a retomada do debate  
sobre o preconceito no campo intelectual brasileiro, que tinha o estudo de Donald Pierson,  
“Brancos e Pretos na Bahia” (1945), como uma de suas principais referências. Como afirma  
Guimarães (1999), muitas das divergências teóricas, metodológicas e interpretativas observadas  
entre os diversos estudos realizados sob os auspícios da Unesco são decorrentes da avaliação  
crítica em torno da obra de Pierson.  
No “projeto de estudo”, Bastide e Fernandes (2008a)13 visam a demarcar sua posição  
com relação ao debate vigente. Para os autores, a falta de precisão conceitual no uso da noção  
de preconceito racial constitui uma das condições insatisfatórias da pesquisa de caráter  
científico. Outra dificuldade se refere ao fato de o conhecimento prévio acumulado sobre o  
tema ter sido construído a partir de investigações sobre uma realidade muito distinta daquela  
predominante em São Paulo, notadamente nos Estados Unidos. Desse modo, Bastide e  
Fernandes (2008a, p. 266-267) assumem como um dos objetivos da pesquisa conhecer a  
natureza e função do preconceito racial no Brasil.  
Considerando o caráter geral e variável da noção de preconceito racial, tratava-se de  
examinar a manifestação do fenômeno particular no contexto da sociedade brasileira, de modo  
que sua definição é proposta como um dos “resultados teóricos da investigação, representando  
uma das contribuições dos autores ao estudo sociológico do preconceito racial” (Bastide;  
Fernandes, 2008a, p. 272) como afirmam em nota de rodapé. Verifica-se, portanto, já no  
“projeto de estudo”, a intenção de “contribuir para o refinamento teórico da Sociologia e, ao  
mesmo tempo, desvelar as tensões estruturais e históricas da sociedade brasileira” –  
considerados “dois aspectos indissociáveis do projeto intelectual de Fernandes” (Costa et al.,  
2021, p. 317-318).  
Nesse esforço, a definição conceitual é encarada como ponto de chegada e não ponto de  
partida da sua análise em contraposição às interpretações que importavam conceitos de outros  
contextos intelectuais no exame das relações raciais no Brasil. Segundo Bastide e Fernandes  
(2008a, p. 272), “a noção de preconceito racial pertence àquela categoria de termos sociológicos  
13 A referência Bastide e Fernandes (2008a) é relativa ao “projeto de estudo” intitulado “O Preconceito Racial em  
São Paulo”, publicado originalmente em 1951. A referência Bastide e Fernandes (2008b) é relativa à íntegra do  
livro “Brancos e negros em São Paulo”, publicado originalmente em 1953 como relatório de pesquisa (ver nota 3).  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
63  
cuja delimitação conceptual depende da plena adequação do vocábulo à realidade ou à situação  
particular investigada”.  
Nesse mister, os autores se ancoram em um método de interpretação baseado na noção  
durkheimiana de “meio social interno”, que permite investigar os fenômenos particulares “em  
seu modo de integração ao contexto social” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 268). Segundo esse  
método, o preconceito racial não seria um componente imediato da estrutura social, nem  
tampouco mero epifenômeno da vida social, sendo concebido, mais precisamente, como  
“conexão do ‘meio social interno’”. Nessa perspectiva, Bastide e Fernandes (2008a, p. 271)  
afirmam que “o preconceito racial não é considerado, em si mesmo, um componente da  
estrutura social”, exprimindo “maneiras de estar ligado no todo e pelo todo social”.  
Com tal método de interpretação, seria possível investigar o preconceito racial à luz de  
uma análise da estrutura social brasileira, focalizando suas funções no sistema de relações  
sociais. Desse modo, seria possível abordar sociologicamente o preconceito racial,  
considerando cinco grupos de problemas: a formação do preconceito, seu modo de  
exteriorização, de integração à cultura, as funções assumidas e sua transformação. Essas últimas  
estariam atreladas à própria transformação da ordem social, que condiciona o significado e a  
função do preconceito racial.  
O método de interpretação adotado também teria implicações para a conceitualização  
do fenômeno, ao possibilitar o aproveitamento teórico de noções centrais estabelecidas tanto  
pelo “uso popular” como pelo emprego científico corrente do termo, ao mesmo tempo que se  
singulariza com relação a esses últimos, ao acentuar o caráter descritivo e neutro do conceito.  
É dentro dessa perspectiva que Bastide e Fernandes (2008a, p. 285) incorporam a noção  
de “preconceito de cor” em sua pesquisa, como uma espécie de “categoria nativa”, dado o seu  
amplo emprego pela população de São Paulo naquele momento – “subentendendo-se que o  
termo ‘cor’ se aplica ao negro e seus descendentes mestiços mais escuros”. Em nota de rodapé,  
os autores afirmam que “talvez seja conveniente utilizá-la no presente estudo. Nesse caso, o  
termo preconceito racial só deveria ser empregado em sentido técnico, nas explanações de  
caráter teórico” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 285). Tratava-se de investigar o significado do  
“preconceito de cor” no contexto nacional e, em especial, para os negros, questão que será  
retomada e analisada posteriormente em “A integração do negro na sociedade de classes”.  
Assim, é possível observar, no texto do “projeto de estudo”, o emprego do conceito de  
64  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
preconceito racial nas explanações de caráter teórico e o uso da noção “preconceito de cor” nas  
discussões de ordem empírica.  
Haveria ainda o desafio de definir o significado social da raça no Brasil. Em nota de  
rodapé, os autores afirmam tomar a noção de raça em seu sentido sociológico, e não biológico,  
à maneira de Gunnar Myrdal em sua análise da sociedade norte-americana, segundo a qual o  
sentido social da raça determinaria o status dos indivíduos e sua posição nas relações inter-  
raciais. Porém, seria necessário considerar a particularidade do fenômeno no âmbito da  
sociedade brasileira, marcada por variações no que diz respeito às classificações raciais dos  
seus membros (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 269).  
É sobretudo no que diz respeito à interpretação do preconceito racial que se colocariam  
os problemas mais delicados. Nesse quesito, os autores partem, mais uma vez, de uma  
contraposição crítica a Donald Pierson, questionando:  
[A] afirmação de que o ‘preconceito de cor’ no Brasil é um preconceito de classe não  
colide com a forma de seleção e de imputação dos atributos, que apanha as diferenças  
ou as marcas raciais? Ao contrário do que afirma [Pierson], parece que o ‘preconceito  
de cor’ existe e penetra, em maior ou menor grau, todas as classes sociais, sem contudo  
associar-se a manifestações ostensivas (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 274).  
Os argumentos críticos e as hipóteses diretrizes sustentadas pelos autores sugerem a  
especificidade do preconceito racial com relação à estratificação em classes e sua concepção  
como processo social vigente no seio da sociedade brasileira. Desse modo, uma primeira  
hipótese afirma que  
as flutuações da conduta dos brancos diante dos negros se explicam pela  
complexidade da situação de contato e em vez de serem um índice da inexistência do  
preconceito racial constituem, ao contrário, um sintoma de que a intensidade com que  
ele se manifesta varia até um extremo limite (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 276, grifo  
dos autores).  
De modo semelhante, a segunda hipótese visa a apreender a vinculação do preconceito  
com a dinâmica social. Nas palavras dos autores,  
o desenvolvimento das classes sociais e do regime econômico capitalista em São  
Paulo, uma sociedade étnica e racialmente heterogênea, estão se processando de modo  
a modificar as condições sociais de ajustamento inter-racial entre brancos e pretos, o  
que se reflete na transformação da antiga ideologia racial e, por consequência, nas  
formas de exteriorização e na função do ‘preconceito de cor’ (Bastide; Fernandes,  
2008a, p. 276-277, grifo dos autores).  
Longe de insinuar a superação do racismo, a desagregação da antiga ideologia racial,  
provocada pelas transformações da estrutura social, estaria se processando de modo a permitir  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
65  
“a reintegração do ‘preconceito de cor’ à cultura urbana” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 276).  
Nesse sentido, mesmo os imigrantes europeus recém-chegados ao Brasil estariam incorporando  
estereótipos raciais e preconceitos na sua relação com os negros. Por outro lado, a incorporação  
de valores urbanos por parte dos negros, somada ao alargamento das suas oportunidades de  
acesso ao mercado de trabalho, estariam favorecendo a alteração das situações de contato. Os  
negros agora passavam a “forçar a situação”, enfrentando e desnaturalizando as expectativas  
sociais com relação ao “lugar” do negro (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 276). Os exemplos  
elencados pelos autores, já no desenvolvimento do projeto, são indicativos da sua proximidade  
com a complexa realidade investigada.  
A terceira e última hipótese estabelece prospecções acerca da correlação entre  
preconceito racial e dinâmica social. Longe de apresentar um processo de mudança social  
uniforme e de tipo irrefreável, Bastide e Fernandes destacam seu caráter aberto, complexo e  
contraditório14, em razão das disputas de interesses entre os diferentes grupos raciais, bem como  
da heterogeneidade inerente a cada um deles. Nesse sentido, os autores destacam a  
desagregação da antiga ideologia racial como algo socialmente inevitável, embora muitos dos  
seus elementos culturais pudessem ser reintegrados à cultura urbana, entre os quais o  
“preconceito de cor” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 277).  
O conhecimento da nova ideologia racial, por sua vez, dependia da análise das atitudes  
expressas por brancos e pretos, levando em consideração os seus interesses diversos, bem como  
variações e contradições inerentes a cada grupo. Já as transformações relacionadas ao processo  
de modernização da sociedade tais como o desenvolvimento das classes sociais, a  
industrialização e a urbanização – são tomadas como “ponto de referência para acompanhar a  
repercussão dos interesses sociais nas atitudes raciais e [como] um elemento prospectivo para  
identificar a provável orientação do processo” (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 278). Dada a  
complexidade da situação investigada, a hipótese prospectiva se apresenta com direções  
distintas:  
Presume-se que essa forma de “preconceito de cor” se modificará, de modo a integrar-  
se às condições sociais de ajustamento inter-racial em uma sociedade de classes: a)  
perdendo lentamente sua força inibidora ou coatora sobre o comportamento dos  
negros; b) assumindo uma expressão provavelmente mais extensiva nos círculos  
sociais ou nos grupos étnicos dos brancos em que se perpetuar como símbolo social  
14 A esse respeito, Silva e Brasil Jr. (2021, p. 14) destacam, no prefácio da mais recente edição de “A integração  
do negro na sociedade de classes”, uma concepção não-linear da mudança social em Fernandes, em contraposição  
a uma visão dualista que despontou na recepção crítica do autor, notadamente no campo de pesquisa sobre relações  
raciais, na qual a ordem estamental e a sociedade de classes seriam “compostas por variáveis sistêmicas  
interligadas e incompatíveis entre si”.  
66  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
de status (real ou compensatório) e como meio de defesa econômica (Bastide;  
Fernandes, 2008a, p. 278, grifo dos autores).  
Nas hipóteses suplementares apresentadas na sequência, Bastide e Fernandes (2008a)  
destacam que, ainda quando mantém a mesma forma, os elementos da antiga ideologia racial  
tendem a mudar de função. Assim, representações coletivas sobre os negros que visavam a  
legitimar a exploração do preto pelo branco na sociedade escravocrata, assumem a função de  
demarcar a distância social entre os grupos raciais na nova ordem social.  
Portanto, já no delineamento das hipóteses diretrizes da pesquisa, os autores expressam  
seu interesse em desvelar a forma e as novas funções assumidas pelo preconceito racial na  
ordem social emergente em nítido contraste com a interpretação ainda presente no campo  
intelectual brasileiro de que, segundo Fernandes, tal fenômeno perderia sua função sob o  
capitalismo ou tenderia a desaparecer com o pleno desenvolvimento da sociedade de classes  
(Hasenbalg, 1979; Motta, 2000; Souza, 2006). Para Roger Bastide e Florestan Fernandes, o  
preconceito racial não somente seria passível de se manifestar em uma ordem capitalista, como  
também poderia ser combinado com outras formas de preconceito como o preconceito  
religioso e o preconceito de classe. A incorporação seletiva de elementos da antiga ideologia  
racial se daria conforme a sua consistência “com as modernas condições de existência social”  
(Bastide; Fernandes, 2008a, p. 280).  
É também no “projeto de estudo” que Bastide e Fernandes (2008a, p. 286) empregam  
possivelmente pela primeira vez a noção de “dilema”, tomada do clássico estudo de Myrdal  
(1944) sobre a sociedade norte-americana, mas que ganhará contornos próprios no estudo da  
estrutura social brasileira e se tornará tão cara às interpretações de Florestan Fernandes sobre o  
Brasil e a América Latina.  
A breve discussão sobre o dilema racial no “projeto de estudo” provoca certa inflexão  
no debate desenvolvido pela fortuna crítica de Fernandes em torno do par conceitual “demora  
cultural x dilema” – sem, de modo algum, diminuir a importância desse debate. Em linhas  
gerais, segundo essa interpretação, Fernandes teria substituído progressivamente o conceito de  
demora cultural pela noção de dilema, a partir do final dos anos 1950 e início dos anos 1960,  
de modo a destacar o caráter estrutural das contradições da sociedade brasileira (Brasil Jr., 2013;  
Costa et al., 2021, Silva, 2021). No entanto, a recuperação da noção de dilema já no início dos  
anos 1950, na análise das relações raciais, sugere que esse processo de elaboração conceitual é  
anterior e talvez mais complexo ainda mais considerando o emprego da hipótese da demora  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
67  
cultural em obras posteriores do autor, como “A integração do negro na sociedade de classes”  
e “A revolução burguesa no Brasil” (Silva, 2021). O conceito de demora cultural não é  
empregado no “projeto de estudo” e aparece somente em nota de rodapé no segundo capítulo  
de “Brancos e Negros em São Paulo” – em referência à explicação de Sérgio Buarque de  
Holanda sobre o descompasso entre a mentalidade dos fazendeiros paulistas que, inicialmente,  
tendiam a atribuir o “antigo status do escravo” ao trabalhador branco e ao imigrante, e o sistema  
de trabalho nas fazendas que se transformava em ritmo mais acelerado (Fernandes, 2008, p. 93).  
Já a noção de dilema será empregada inicialmente para abordar a situação dos negros  
na nova ordem social, entravada pela existência de barreiras culturais e raciais. Nas palavras  
dos autores:  
Em regra, os negros se encontram diante do seguinte dilema: o acesso a determinadas  
posições ou serviços é dificultado pela falta de qualificação técnica; mas a  
qualificação técnica nem sempre garante a seleção racional, isto é, ela pode ser  
relegada a segundo plano, por causa da “cor”. Ou seja, a carreira social do negro  
apresenta aspectos peculiares; aqui se evidenciam tanto os efeitos do equipamento  
cultural tradicional dos pretos (...) quanto os efeitos inibidores do “preconceito de cor”  
propriamente dito (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 286).  
O dilema adquire o sentido de impasse ou contradição que se coloca para o negro, cuja  
posição na estrutura social seria marcada por uma dupla desvantagem nos processos de  
classificação social, tanto em função de seu equipamento cultural tradicional como pelos efeitos  
do “preconceito de cor”15. A nossa hipótese é de que Fernandes elabora tal categoria a partir de  
um diálogo direto ou indireto com intelectuais e ativistas negros atuantes no final dos anos  
1940, que destacavam as dimensões socioculturais, econômicas, psicológicas e propriamente  
“raciais” – referentes às barreiras do “preconceito de cor” – do chamado “problema do negro”  
em seus estudos e encontros16.  
15  
Ao abordar o estado de anomia social prevalecente no meio negro durante os chamados “anos de espera”,  
Fernandes destaca que as tendências assumidas pelo processo de urbanização “impediram a preservação dos mores  
afro-brasileiros, que poderiam garantir a transformação da ‘população negra’ numa minoria racial integrada e  
autônoma” (Fernandes, 2020, p. 130, grifo do autor). Nessa e em outras passagens da obra, o autor sugere que a  
desvantagem cultural da população negra se deve, em parte, ao despojamento de seu repertório cultural, que  
acompanha o processo de colonização, escravização e branqueamento da sociedade brasileira e se deu sem  
qualquer compensação no sentido de dotá-los dos recursos materiais e morais valorizados na nova ordem social.  
Tais condições agravam, portanto, o estado de anomia social transplantado da ordem escravocrata.  
16  
Cumpre destacar a esse respeito os registros de Guerreiro Ramos sobre a atuação do Teatro Experimental do  
Negro (TEN) e, particularmente, o I Congresso do Negro Brasileiro, apresentados na antologia “Negro Sou”,  
organizada por Muryatan Barbosa. No primeiro texto da antologia, que constitui o discurso proferido por Ramos  
por ocasião da instalação do Instituto Nacional do Negro Centro de estudos e pesquisas do TEN, do qual se  
tornou diretor –, em 9 de setembro de 1949, ele afirma que “a condição jurídica de cidadão livre dada ao negro foi  
um avanço, sem dúvida. Mas foi um avanço puramente simbólico, abstrato. Socioculturalmente, aquela situação  
não se configurou; de um lado, porque a estrutura de dominação da sociedade brasileira não se alterou; de outro  
68  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
Como destaca Gabriel Cohn (1986) em seu clássico texto “Padrões e dilemas: o  
pensamento de Florestan Fernandes”, embora se refira a um problema de ordem estrutural, a  
noção de dilema teria também um sentido subjetivo, relacionado às escolhas que se colocam  
para os indivíduos que se encontram diante de um impasse. Assim, o dilema racial impactaria  
tanto a competição dos negros com os brancos, em termos objetivos, quanto a formação dos  
ideais de vida dos negros, em termos subjetivos.  
Já nesse momento é possível observar o interesse dos autores em investigar a formação  
de uma “contra-ideologia racial” e “os sentidos em que estão sendo projetadas a lealdade dos  
pretos”, por meio de um estudo das organizações e dos movimentos sociais do meio negro  
(Bastide; Fernandes, 2008a, p. 284-285). Essa dimensão do dilema subjetiva ou  
microssociológica assume um caráter coletivo e contornos propriamente políticos, que se  
tornam fundamentais para pensar o dilema racial brasileiro e ganham centralidade em  
momentos posteriores da trajetória intelectual de Florestan Fernandes17.  
Considerações Finais  
A análise do projeto de estudo permite ir de encontro a certa leitura “residualista” da  
questão racial no pensamento de Florestan Fernandes, ao menos em seus momentos iniciais de  
elaboração teórica que constituíram objeto da presente discussão , uma vez que se tratava de  
investigar a natureza e funções assumidas pelo preconceito racial em um contexto de mudança  
social. Se o preconceito racial não é encarado no projeto como um fenômeno propriamente  
estrutural, ele estaria diretamente ligado às transformações da estrutura social, mediado pelos  
interesses e atitudes dos grupos raciais e classes sociais específicos.  
A sofisticação teórica manifesta no projeto se faz notar também em sua concepção  
relacional do preconceito racial, que se reflete no interesse dos autores em analisar o grupo  
racial dominante. Nas suas palavras,  
Os brancos, à medida que se incorporam às classes dominantes, do ponto de vista  
racial, não sentem o peso e os efeitos do ‘preconceito de cor’. O mesmo não acontece  
com os negros, que aprendem desde cedo a ‘ficar em seu lugar’ e isso quase sempre  
por meio de humilhações, de ressentimentos e de frustrações, que passam  
despercebidos à maioria dos brancos (Bastide; Fernandes, 2008a, p. 287).  
lado, porque a massa juridicamente liberta estava psicologicamente despreparada para assumir as funções da  
cidadania” (Ramos, 2023, p. 45).  
17 Já abordamos em outro texto a ênfase progressiva de Florestan Fernandes sobre a dimensão política do dilema  
racial brasileiro como parte do movimento de radicalização do seu pensamento (Costa et al., 2021).  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
69  
Os autores afirmam a necessidade de investigar igualmente os efeitos do preconceito  
racial sobre brancos e negros e já apontam alguns desses efeitos no “projeto de estudo” – como  
o de conferir ao branco o sentido de coerência de suas atitudes na interação com os negros com  
relação aos padrões de moralidade e dignidade humana da sociedade em que vive (Bastide;  
Fernandes, 2008b, p. 287-288). Essa proposta é retomada em “A integração do negro na  
sociedade de classes”, ao analisar as decisões políticas que garantiram a reprodução dos  
privilégios da camada dominante do grupo racial branco na passagem para a nova ordem social,  
e ganha relevo sobretudo nos escritos dos anos 1970, ao abordar os sentidos assumidos pelo  
dilema racial sob o capitalismo dependente.  
Essa discussão permite matizar a recepção crítica de Florestan Fernandes pelos mais  
recentes estudos sobre branquitude, nos quais se destaca uma análise unilateral relativa ao autor  
sobre a deformação da escravidão, voltada somente à personalidade dos negros. Isso aparece  
no argumento de Cida Bento como sintoma da branquitude na análise do autor. Segundo a  
autora, “se Florestan Fernandes, tão consciente do racismo no Brasil, não conseguiu enxergar  
o impacto da escravidão no seu próprio grupo branco, era preciso compreender a cegueira  
conveniente e o silêncio cúmplice da branquitude” (Bento, 2022, p. 63). No entanto, a nossa  
hipótese é de que essa preocupação, já presente no “projeto de estudo”, é retomada de modo  
progressivo na trajetória intelectual de Florestan e desemboca em sua análise sobre a  
“resistência sociopática à mudança” das classes dominantes, que dá forma ao processo de  
mudança em curso na sociedade brasileira, orientando-o para a preservação pura e simples de  
seu status quo (Fernandes, 1976). É essa característica que configurará, para Fernandes, o  
âmago do nosso “dilema social”, elaborado em texto do início dos anos 1960.  
Por fim, Bastide e Fernandes (2008a, p. 288-289) destacam o contexto de transição em  
que o estudo sobre relações raciais estava sendo realizado no início dos anos 1950 o que  
explica sua relação direta com o tema da mudança social. Por essa razão, tal estudo tanto poderia  
servir para “caracterizar uma situação que tende a desaparecer” como para contribuir com o  
conhecimento de algo que está em desenvolvimento incipiente a depender da ênfase colocada  
pelo pesquisador. No caso dos autores, interessava investigar os elementos da antiga ideologia  
racial que tendiam a se conservar como parecia ser o caso do preconceito racial , assim como  
o sentido da transformação da situação social dos negros.  
No prefácio à segunda edição de “Brancos e Negros em São Paulo”, Fernandes (2008,  
p. 18) afirma que não foi possível redigir o estudo sociológico final nessa obra, restringindo-se  
70  
Antecedentes do dilema racial brasileiro  
a uma discussão predominantemente descritiva acerca dos resultados da investigação em  
virtude do curto prazo estipulado pela Unesco para a publicação do relatório da pesquisa. Por  
essa razão, Campos (2014) destaca que a discussão apresentada na obra respondeu a dois dos  
objetivos estipulados no projeto o plano informativo e o descritivo , sem desenvolver  
devidamente o plano interpretativo. Bastide e Fernandes não teriam conseguido, nesse primeiro  
momento, explorar toda a riqueza dos dados coletados na pesquisa empírica. A análise desse  
material e sua interpretação serão retomadas por Florestan Fernandes em “A integração do  
negro na sociedade de classes”, defendida como Tese de Cátedra em março de 1964. A despeito  
disso a gênese da noção de dilema, que se tornará sua categoria interpretativa fundamental para  
abordar as relações raciais no Brasil, já se encontra no texto do “projeto”.  
Ademais, vale destacar que os autores apresentam, ainda em “Brancos e Negros”, alguns  
prognósticos que sugerem a possibilidade do “preconceito de cor” se tornar um fenômeno  
estrutural. No capítulo “Cor e estrutura social em mudança”, redigido por Fernandes, o autor  
afirma que “a) é possível que o preconceito de cor encontre na sociedade de classes condições  
estruturais favoráveis à sua perpetuação; b) é provável que se desenvolvam preconceitos de  
classe aplicáveis nas relações dos indivíduos de cor entre si” (Fernandes, 2008, p. 153).  
Portanto, ao abordar as tendências emergentes, Fernandes destaca a possível  
coexistência de dois sistemas de estratificação racial e social na nova ordem social, cuja  
complexa e imbricada relação será fundamental para pensar o dilema racial brasileiro. Apesar  
disso, os autores não retomam o conceito de dilema na análise apresentada em “Brancos e  
Negros em São Paulo”, talvez pelas razões aventadas anteriormente, relacionadas ao tempo  
limitado para o desenvolvimento do plano interpretativo, bem como para explorar o material  
produzido em colaboração com intelectuais e ativistas do meio negro. Como mostra Campos  
(2014), Fernandes só se refere ao conteúdo produzido nas mesas-redondas propostas em  
colaboração com intelectuais negros(as) no último capítulo da referida obra – “A luta contra o  
preconceito de cor” –, em sua discussão sobre as reações à lei Afonso Arinos no meio negro.  
A nossa hipótese é que a interlocução estabelecida com os(as) colaboradores(as)  
negros(as) da pesquisa será fundamental para o delineamento da noção de dilema racial  
brasileiro em suas distintas dimensões, de modo que seu emprego enquanto categoria  
interpretativa das relações raciais no Brasil moderno somente será retomado em “A integração  
do negro na sociedade de classes”. Trata-se de explorar, a partir de agora, os sentidos e  
ALVES, A.R.C; SOARES, E. V.  
71  
desdobramentos teóricos e empíricos assumidos por tal categoria nos momentos subsequentes  
da trajetória intelectual de Florestan Fernandes.  
Para tanto, em uma segunda etapa da pesquisa, seguiremos com a análise diacrônica da  
categoria dilema racial na obra “A integração do negro na sociedade de classes” (1964), que  
constitui não somente a obra capital do autor, mas também o lugar em que o dilema racial é  
elaborado em suas múltiplas dimensões, podendo ser lido como uma etapa relevante da resposta  
sociológica do autor à não integração do negro à sociedade de classe. Serão também retomados  
dois ensaios produzidos nos anos 1970, a saber: “Aspectos políticos do dilema racial brasileiro”  
e “A sociedade escravista”, publicados respectivamente em “O negro do mundo dos brancos”  
(1972) e “Circuito Fechado” (1976). Tais ensaios permitem observar o progressivo processo de  
radicalização do pensamento de Florestan, por meio de uma articulação do dilema racial à noção  
de capitalismo dependente e de maior ênfase analítica nos processos de reprodução das  
desigualdades raciais pelos estratos dominantes da raça branca. Essa radicalização teórica  
ganhará contornos político-programáticos em “Significado do protesto negro” (2017), quando  
o autor atua como deputado constituinte (1987-1988) e deputado federal (1989-1994) pelo  
Partido dos Trabalhadores, somando-se à luta do Movimento Negro Unificado (MNU).  
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Recebido em: 2/4/2025  
Aceito em: 27/8/2025  
ANEXO  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 75-92  
FLORESTAN FERNANDES, ROGER BASTIDE E A PALAVRA DA  
MILITÂNCIA NEGRA  
FLORESTAN FERNANDES, ROGER BASTIDE AND THE WORD OF BLACK  
ACTIVISM  
____________________________________  
Paulo Henrique Fernandes Silveira  
Resumo  
No início dos anos 1950, por encomenda da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura  
(Unesco), Florestan Fernandes e Roger Bastide desenvolveram uma ampla pesquisa sobre as relações raciais em  
São Paulo. Contra as expectativas da Unesco, a pesquisa constatou a existência da discriminação racial no Brasil.  
Entre as estratégias metodológicas adotadas na pesquisa, estavam o emprego de questionários, entrevistas e  
histórias de vida, além da organização de seminários com as lideranças da militância negra. Tratava-se de registrar  
a palavra de pessoas negras que enfrentavam diretamente o racismo. No livro “A integração do negro na sociedade  
de classes”, publicado em 1964, Fernandes retomou seus registros da pesquisa Unesco com as contribuições da  
militância negra. Esses registros estão acessíveis no Fundo Florestan Fernandes, na Biblioteca Comunitária da  
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A partir de uma pesquisa documental, esse artigo visa a apresentar  
e analisar as contribuições escritas e orais da militância negra na formulação das teses desenvolvidas na pesquisa  
Unesco e no livro “A integração do negro na sociedade de classes”.  
Palavras-chave: Roger Bastide. Florestan Fernandes. Militância Negra. Discriminação Racial.  
Abstract  
In the early 1950s, requested by United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO),  
Florestan Fernandes and Roger Bastide developed an extensive research about racial relations in São Paulo. In  
opposition to UNESCO expectative, the research ascertained the existence of racial discrimination in Brazil.  
Among the methodological strategies adopted were the use of questionnaires, interviews and life stories, in  
addition to the organization of seminars with leaders of black activism. It was about recording the words of black  
people who directly faced racism. In the book Integration of Black People into Class Society, published in 1964,  
Fernandes revisited the records his UNESCO research with contributions from black activists. These records are  
available in the Florestan Fernandes Fund, at the Community Library of the Federal University of São Carlos  
(UFSCar). Based on domumentary research, this article aims to present and analyze the written and oral  
contributions of black activists in formulating the theses developed in the UNESCO research and in the book The  
Integration of Black People in Class Society.  
Keywords: Roger Bastide. Florestan Fernandes. Black Activism. Racial Discrimination.  
Docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e pesquisador do Grupo de Direitos  
Humanos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). E-mail:  
SILVEIRA, P. H. F.  
76  
Que a pesquisa possa contar com pessoas que têm realmente experiência, que não são  
estrangeiros que vêm estudar o problema aqui, são pessoas que sofrem o problema na  
própria pele. São pessoas que sentem.  
(Observação em massa, 1951b, p. 542).  
Introdução  
No livro “A integração do negro na sociedade de classes”, publicado em 1964, Florestan  
Fernandes retoma os registros da pesquisa Unesco, realizada nos anos 1950, sobre as relações  
raciais em São Paulo. Utilizando-se de seminários, questionários, entrevistas, histórias de vida  
e relatórios, a pesquisa Unesco enfatizou a centralidade das experiências e dos testemunhos das  
pessoas negras na construção do conhecimento científico sobre discriminação racial.  
No papel de coordenadores da pesquisa, Roger Bastide e Florestan Fernandes  
convidaram docentes, estudantes e lideranças do movimento negro para participarem da  
investigação. Alguns desses estudantes, como Ruth Cardoso, Fernando Henrique Cardoso e  
Renato Moreira, tornaram-se professores da Universidade de São Paulo (USP). Entre as  
lideranças do movimento que participaram da pesquisa Unesco, estavam jornalistas, políticos e  
dirigentes de associações negras, como Jorge Teixeira, diretor da Associação José do  
Patrocínio, e Sofia Campos, presidenta da Federação das Mulheres do Estado de São Paulo e  
umas das coordenadoras da Associação das Empregadas Domésticas.  
Entre os meses de maio e novembro de 1951, a pesquisa Unesco promoveu uma série  
de seminários com as lideranças negras; o primeiro, na Biblioteca Municipal, os demais, na  
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP (Campos, 2014). Nesse mesmo  
período, Fernandes e Teixeira coordenaram encontros na Associação José do Patrocínio com  
mulheres da comunidade negra.  
A professora Maria Isaura Queiroz e o estudante Renato Moreira ficaram responsáveis  
pela elaboração das histórias de vida. Queiroz (1989) redigiu a história de vida de uma  
empregada doméstica negra que trabalhava há muitos anos em sua casa. Moreira (História de  
vida, 1951) elaborou as histórias de vida dos militantes Francisco Lucrécio e José Correia Leite.  
Moreira também escreveu com Leite o texto “Movimentos sociais no meio negro” (2025).  
No documentário “Florestan Fernandes - o mestre”, uma homenagem a Florestan  
Fernandes, realizado em 2004, Antônio Candido de Mello e Souza afirma:  
Ele (Florestan Fernandes) ajudou Roger Bastide a montar um dos mais belos esquemas de  
análise sociológica que eu já vi, eles mobilizaram a comunidade negra. Ao invés de ir lá  
estudar o objeto, eles puxaram a comunidade negra para ser sujeito, ao mesmo tempo. Quer  
77  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
dizer, o negro, a partir dessa pesquisa do Florestan e do Roger Bastide, deixou de ser objeto  
de estudo, para ser sujeito de estudo: ele participar, ele falar, ele orientar, junto com os  
pesquisadores 1 (Florestan Fernandes - o mestre, 2004, 18min 52s).  
Como sustenta Souza (2020), ao convidarem a militância negra para contribuir com a  
pesquisa Unesco, Roger Bastide e Florestan Fernandes rompem com a tradição acadêmica de  
silenciamento dos grupos marginalizados da sociedade.  
Os registros das diversas contribuições da militância negra para a pesquisa Unesco sobre  
as relações raciais em São Paulo encontram-se no acervo do Fundo Florestan Fernandes, da  
Biblioteca Comunitária da UFSCar. A partir de uma pesquisa documental, este artigo visa a  
apresentar e analisar a importância dessas contribuições na formulação das teses desenvolvidas  
na pesquisa Unesco e no livro “A integração do negro na sociedade de classes”.  
Colonialismo, racismo e ciência  
No início da década de 1950, ocorreu um intenso debate na França a respeito do  
colonialismo e do racismo. Esse período foi marcado pelas lutas por independência nos diversos  
países colonizados pela França. Em 1950, foi publicada uma primeira versão do “Discurso  
sobre o colonialismo”, de Aimé Césaire. Dois anos depois, foi publicado na França, com a  
tradução de Roger Bastide, “Casa grande & senzala”, de Gilberto Freyre. Naquele ano, também  
foram publicados “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, e “Raça e história”, de  
Claude Lévi-Strauss. Como analisa a historiadora Cibele Barbosa (2018), grande parte dos  
intelectuais franceses assumiu posições antirracistas sem questionar a manutenção do  
colonialismo, tratava-se de cultivar uma espécie de “colonialismo esclarecido”.  
Foi nesse contexto que Alfred Métraux, como um dos coordenadores do programa da  
Unesco contra o racismo, encomendou, em 1950, a pesquisa sobre as relações raciais no Brasil  
(Prins; Krebs, 2007). Num artigo para Le Courrier de l’UNESCO, Métraux (1952, p. 6) explica  
a motivação dessa pesquisa:  
1
Essa interpretação de Souza não é unanimidade no meio acadêmico. Em 2014, estudantes da Universidade de  
São Paulo organizaram um encontro para comemorar os 50 anos da publicação do livro A integração do negro na  
sociedade de classes. Uma das mesas do encontro ocupou-se, principalmente, em criticar o livro. Em sua  
comunicação, Sidney Chalhoub (2020, 24min 40s) argumenta: “Eu sou muito diferente de Florestan. (...) Eu  
aprendo as coisas pesquisando. (...) Nada disso eu aprendi na militância, aprendi estudando”. Ao que parece, para  
Chalhoub, as pesquisas acadêmicas devem se basear em arquivos oficiais, documentos históricos e livros teóricos,  
mas não nas experiências e nos testemunhos dos militantes do movimento negro.  
SILVEIRA, P. H. F.  
78  
Um dos dogmas essenciais do racismo é o de que homens de raças diferentes não  
podem viver misturados sem condenar-se à decadência moral e física. Os racistas  
proclamam que a única solução para os países em que coexistem duas ou mais raças  
diferentes é a segregação absoluta. (...) O caso do Brasil constitui o argumento mais  
forte que pode opor-se à crença racista. (...) Saúda-se o Brasil como um dos raros  
países do mundo que tem conseguido implantar a ‘democracia racial’. (...) Vários  
estudos realizados anteriormente particularmente os trabalhos históricos de Gilberto  
Freyre e as investigações sociológicas de Donald Pierson, na Bahia confirmaram a  
opinião favorável que o mundo formou sobre a situação racial do Brasil. (...) Com a  
esperança de extrair uma lição do caso brasileiro, a UNESCO delegou às diversas  
equipes de sociólogos, antropólogos e psicólogos a tarefa de completar os trabalhos  
já existentes por meio de estudos levados a cabo em regiões ainda não examinadas e  
com grupos sociais diferentes daqueles que já foram considerados.  
Essa edição do periódico da Unesco, publicada, concomitantemente, em francês, inglês  
e espanhol, apresentou alguns dos resultados da pesquisa sobre as relações raciais no Brasil.  
Além de textos dos coordenadores da pesquisa em cada uma das regiões do país investigadas,  
o periódico publicou um texto de Gilberto Freyre, que não colaborou diretamente na pesquisa  
(Maio, 1999). Em seu texto sobre os resultados da pesquisa em São Paulo, Roger Bastide frustra  
as expectativas de Métraux com relação à ausência de discriminação racial no Brasil:  
A urbanização e a industrialização, em conjunto com as leis trabalhistas, que se  
aplicam a todos os trabalhadores, sem distinção de cor ou de origem, tendem  
atualmente a substituir a ascensão de alguns poucos indivíduos pela ascensão do grupo  
de cor como um todo. Mas é evidente que, por isso mesmo, o branco passa a se sentir  
ameaçado nas posições privilegiadas que ocupava até agora e procura conservar seus  
postos de comando frente à invasão cada vez maior de negros e mulatos. Ele tentará  
criar barreiras, senão para deter, ao menos para retardar esse movimento. (...) Existe,  
assim, toda uma política dirigida para encaminhar os negros unicamente para alguns  
setores, como a construção de edifícios ou os trabalhos duros e sujos que o branco não  
deseja realizar (Bastide, 1952, p. 9).  
Além de ter empenhado poucos recursos para a realização da pesquisa sobre as relações  
raciais em São Paulo, a Unesco não financiou sua publicação (Fernandes, 2017a). Ela tampouco  
contribuiu para que a pesquisa fosse publicada na França ou em outros países onde atuava.  
Numa carta enviada a Fernandes, em março de 1954, Bastide trata da dificuldade financeira  
para publicar a pesquisa na França2.  
Em 1953, todos os textos e relatórios que compõem a pesquisa foram publicados pela  
revista “Anhembi”. Em 1955, a Universidade de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo  
2
Eu deveria ter-lhe escrito há vários dias, já que finalmente pude ver Éric de Dampierre na (editora) Plon. (...)  
Plon estaria determinada a publicar a obra completa em uma coletânea de grande formato, mesmo com os dois  
relatórios de Virginia Bicudo e Ginsberg, mas pede um adiantamento de 700.000 francos, a ser reembolsado aos  
poucos após a venda do 3.000º exemplar ou seja, um subsídio de cerca de 500.000 francos, a fundo perdido. O  
senhor acha que o Governo de São Paulo se comprometeria com tais quantias?” (Bastide, 1954, n.p).  
79  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
financiaram a publicação da pesquisa no livro “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo”  
(Bastide, 1955a).  
Entre 1951 e 1952, também por intermédio da Unesco, Métraux financiou as pesquisas  
e as publicações, em duas ou três línguas, de uma série de brochuras que tratam do racismo:  
“Os mitos raciais”, de Juan Comas; “Raça e biologia”, de Leslie Dunn; “Raça e psicologia”, de  
Otto Klineberg; “Raça e civilização”, de Michel Leiris; “Raça e história”, de Claude Lévi-  
Strauss (Prins; Krebs, 2007). No início do seu trabalho, Lévi-Strauss (1970, p. 231) critica a  
hierarquia das culturas e dos saberes:  
Falar de contribuição das raças humanas à civilização mundial poderia ser  
surpreendente num trabalho destinado a lutar contra o preconceito racista. Seria inútil  
ter consagrado tanto talento e tantos esforços para mostrar que nada, no atual estado  
da ciência, permite afirmar a superioridade ou a inferioridade intelectual de uma raça  
com relação à outra.  
Esse texto sofreu críticas duras de Roger Caillois, um sociólogo francês que trabalhava  
na Unesco e que percorreu a América Latina com Métraux. Assumindo uma postura racista,  
Caillois (1955, p. 65) procura justificar uma hierarquia dos saberes entre as culturas: “Se me  
pedissem para apontar, de minha parte, a principal superioridade e, se possível, a incontestável  
superioridade da civilização ocidental, responderia sem hesitar que é ter produzido etnógrafos”.  
Segundo Caillois, as outras culturas não seriam capazes de produzir ciência.  
Na última versão do “Discurso sobre o colonialismo”, que vem a público em 1955,  
Césaire (2010, p. 63) refere-se a esse texto de Caillois: “Ia esquecendo o ódio, a mentira e a  
arrogância. Ia esquecendo o senhor Roger Caillois”. Césaire compara Caillois com o escritor  
Henri Massis, que, em 1927, escreveu o livro “Defesa do Ocidente” contra a perigosa e nefasta  
influência da cultura oriental. Tanto Massis quanto Caillois se colocariam como heróis  
salvadores do Ocidente.  
Em suas análises, Césaire (2010, p. 65) apresenta uma síntese das posições defendidas  
por Caillois:  
Que o Ocidente inventou a ciência. Que somente o Ocidente sabe pensar; que nos  
limites do mundo ocidental começa o tenebroso reino do pensamento primitivo, o  
qual, dominado pela noção de participação, incapaz de lógica, é o protótipo mesmo  
do falso pensamento.  
A principal crítica de Césaire refere-se à apropriação que Caillois faz da lei da  
participação, criada por Lucien Lévy-Bruhl, segundo a qual as pessoas das culturas indígenas  
compreendem-se como participando, ao mesmo tempo, da essência dos seres humanos e dos  
SILVEIRA, P. H. F.  
80  
animais. Nessa perspectiva, essas culturas não seguiriam o princípio lógico da não-contradição.  
Segundo Césaire (2010), em determinada etapa das suas pesquisas antropológicas, Lévy-Bruhl  
abandonou sua lei da participação e passou a reconhecer que, do ponto de vista lógico, a mente  
das pessoas indígenas não difere em nada da mente das pessoas ocidentais.  
Um parágrafo desse livro de Césaire foi utilizado como epígrafe do “Pele negra,  
máscaras brancas”, de Frantz Fanon. Posto que o livro de Fanon foi publicado em 1952, naquele  
momento, ele só teve acesso à primeira versão do livro do Césaire, onde não estavam suas  
críticas às posições de Caillois. Todavia, acompanhando outros textos de Césaire,  
especialmente, seus poemas, Fanon também denuncia as posições colonialistas da ciência  
ocidental. Os argumentos de Fanon (2008, p. 159) dirigem-se contra o universalismo que  
silencia as experiências das pessoas negras:  
Apenas abri os olhos que tinham vendado e já querem me afogar no universal? E os  
outros? Aqueles que “não têm boca”, aqueles que “não têm voz”. Tenho necessidade  
de me perder na minha negritude, de ver as cinzas, as segregações, as repressões, os  
estupros, as discriminações, os boicotes. Precisamos botar o dedo em todas as chagas  
que zebram a libré negra.  
Seminários, questionários, entrevistas e histórias de vida  
Em seu mestrado sobre o tema, Antônia Campos (2014) analisa as contribuições de  
diversas pessoas do movimento negro na pesquisa Unesco. Além das pessoas citadas nos  
trabalhos de Bastide e Florestan (1955), as transcrições dos seminários, questionários,  
entrevistas, histórias de vida e relatórios nos permitem identificar outras pessoas que também  
colaboraram com a pesquisa.  
Participaram da pesquisa Unesco mais de 40 pessoas negras, entre as quais: Edila  
Nogueira; Nair Pinheiro; Maria de Lourdes Rosário; Maria Aparecida Camargo; Sofia Campos  
Teixeira; Benedita Vaz Costa; Maria Nascimento; Maria José Santos; Maria Helena Barbosa;  
Ruth de Souza; Nilza de Vasconcellos; Jorge Prado Teixeira; José Correia Leite; Nestor Borges;  
Francisco Lucrécio; Luiz Lobato; Geraldo Campos de Oliveira; Jayme Aguiar; Arlindo Veiga  
dos Santos; José Pelegrini; Raul Joviano do Amaral; Carlos de Assumpção. Além dessas  
pessoas negras que militavam no movimento negro, a docente Virgínia Bicudo também  
colaborou com a pesquisa.  
Em 1950, Bastide e Florestan participaram do I Congresso do Negro Brasileiro,  
realizado no Rio de Janeiro. Ali eles estiveram com algumas lideranças negras paulistas que  
participariam, no ano seguinte, da pesquisa Unesco, como Jorge Prado Teixeira (Nascimento, 1982).  
81  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
Nos seminários promovidos pela pesquisa, algumas lideranças negras afirmam ser amigas de  
Bastide. O outro ponto de contato entre os professores da Universidade de São Paulo e a militância  
negra era Antonio Candido de Mello e Souza, que fazia parte da Esquerda Democrática, na qual  
militavam: Sofia Campos Teixeira, Francisco Lucrécio, Luiz Lobato, e Geraldo Campos Teixeira,  
lideranças negras que colaboraram com a pesquisa Unesco (Sotero, 2015).  
No projeto elaborado para a pesquisa Unesco, apresentado em abril de 1951, Bastide e  
Fernandes justificam a importância da palavra das pessoas negras:  
A abolição é relativamente recente. (...) Ainda hoje vivem em São Paulo alguns ex-  
escravos e ex-senhores; uma das possibilidades de conhecimento sociológico desse  
período consiste em explorar sistematicamente tais fontes vivas. Isso poderá ser feito  
de dois modos: através de entrevistas, orientadas por um pequeno formulário; e  
através de coleta de histórias de vida. (Bastide; Fernandes, 1959, p. 346).  
Em “A integração do negro na sociedade de classes”, Fernandes apresenta uma  
justificativa um pouco diferente: “As lacunas da documentação histórica sobre a situação  
econômica e social do negro aconselharam a apelar para os testemunhos dos agentes humanos”  
(2008a, p. 414, n. 95).  
As entrevistas com pessoas brancas, pardas e negras encontram-se nos arquivos:  
“Material de pesquisa” e “Entrevistas”. Os questionários encontram-se no arquivo:  
“Observação em massa”. Os seminários com a militância negra realizados na Biblioteca  
Municipal e na FFCL da USP encontram-se no arquivo: “Observação em massa (situação  
grupal)”. As reuniões com mulheres negras realizadas nessa mesma faculdade encontram-se no  
arquivo: “Reunião com mulheres negras”. Os seminários com mulheres negras realizados na  
Associação José do Patrocínio encontram-se no arquivo: “Seminários (Associação José do  
Patrocínio)”. As histórias de vida de José Correia Leite e de Francisco Lucrécio, coletadas e  
redigidas por Renato Moreira, encontram-se no arquivo: “História de vida”. Não foi localizado  
o arquivo com a história de vida coletada e redigida por Maria Queiroz.  
O arquivo “Material de pesquisa” traz as transcrições de entrevistas e observações da  
colaboradora Marialice Foracchi, em sua pesquisa de campo em fábricas de massas e de café.  
O arquivo “Estudos de caso II” traz as transcrições de entrevistas e observações registradas pela  
mesma colaboradora e por Florestan Fernandes, em pesquisas de campo no Jacareí e em outros  
cortiços do bairro da Bela Vista.  
O intelectual e militante do movimento negro Jorge Teixeira foi convidado por Bastide  
e Florestan para ser secretário da Comissão para o Estudo das Relações Raciais da Pesquisa  
SILVEIRA, P. H. F.  
82  
Unesco. No primeiro seminário, realizado na Biblioteca Municipal, em 8 de maio de 1951,  
Teixeira afirma que foi escolhido para ser secretário pelo fato de estar cursando sociologia. Ao  
apresentar os objetivos da pesquisa, no mesmo seminário, Bastide argumenta:  
Falando deste assunto com meu amigo Jorge Teixeira, ele teve a ideia muito feliz de  
fazer uma mesa redonda para discutir entre nós este preconceito de cor, ou da  
existência de miscigenação racial asiática. Foi por isso que pedi o comparecimento de  
alguns intelectuais negros e dos líderes de cor, assim como de alguns estudantes  
brancos que se interessam pelo problema racial. (Observação em massa, 1951b, p. 1).  
Além de presidir e coordenar alguns encontros dos seminários, Teixeira foi um dos  
responsáveis por convidar as lideranças negras para colaborarem com a pesquisa. Teixeira  
também elaborou os relatórios: “Arregimentação eleitoral e politização no meio negro”  
(Estudos de caso, 1951) e “Casamento de negros qualificados na classe alta da comunidade  
negra” (Fichas, 1951).  
Sempre atraindo um grande público, os seminários e mesas-redondas realizados na  
FFCL da USP transcorreram durante todo o ano de 1951, geralmente, às terças-feiras, a partir  
das 20h30. Cada encontro trouxe um ou mais temas para o debate, aberto para a participação  
de todas as pessoas do auditório. Os militantes do movimento negro foram convidados para  
apresentarem conferências sobre os temas debatidos.  
As conferências apresentadas durante os seminários foram: “O preconceito racial no  
Brasil”, por Vicente de Paula Custódio, representante da Irmandade Nossa Senhora do Rosário  
dos Homens Pretos; “O problema do negro no Brasil”, por Edgard Sant’Anna; “O elemento  
negro na população de São Paulo” e “Reflexões sobre o preconceito”, por Raul Joviano Amaral;  
“Evolução da situação de contato”, por Sofia Campos Teixeira; “Comportamento da polícia e  
do juizado de menores com relação ao elemento negro”, por Adélio Silveira; “Brancos e negros  
numa sociedade de classes”, por Luiz Lobato; “Situação econômica do negro brasileiro”, por  
Nestor Borges (Observação em massa, 1951b).  
O último seminário, excepcionalmente realizado num sábado, dia 17 de novembro de  
1951, às 15 horas, teve a participação de Alfred Métraux e do escritor Oswald de Andrade. Em  
sua intervenção, Métraux sustentou que o objetivo da pesquisa Unesco era mostrar que o Brasil  
era um país livre de preconceitos: “Será uma prova, uma demonstração concreta das  
possibilidades de convivência” (Observação em massa, 1951b, p. 695). No decorrer do  
encontro, sua posição foi criticada por diversos intelectuais e militantes do movimento negro.  
83  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
O questionário para pessoas negras e pardas aplicado na pesquisa tratou das seguintes  
questões e temas: 1- Como vive em São Paulo?; 2- Quem são seus amigos?; 3- Em que  
trabalha?; 4- Quais são as suas diversões?; 5- Como gasta o seu dinheiro?; 6- Ideias religiosas;  
7- Ideias políticas; 8- Ideias raciais; 9- A convivência com os brancos; 10- O que se deveria  
fazer para melhorar a situação do preto em São Paulo?; 11- A sociedade em que gostaria de  
viver (Observação em massa, 1951a).  
O arquivo “Entrevista com pretos” traz quatro modelos de formulários para as  
entrevistas: 1- entrevistas formais com pessoas brancas; 2- entrevistas ocasionais com pessoas  
brancas; 3- entrevistas formais com pessoas negras e pardas; 4- entrevistas ocasionais com  
pessoas negras e pardas. Os arquivos com as transcrições das entrevistas mostram que a maior  
parte delas foi ocasional e anônima (Material de pesquisa, 1951; Entrevistas, 1951). As  
entrevistas realizadas não perpassaram todas as questões dos formulários. Algumas entrevistas  
ocorreram com as pessoas negras que participaram dos seminários. As formas de preconceito  
comuns no Brasil foram um tema presente nos quatro modelos de formulário.  
Os coordenadores e alguns dos colaboradores da pesquisa Unesco escreveram sobre as  
peculiaridades da história de vida como técnica da pesquisa social. Em 1951, Oracy Nogueira  
(1969) ofereceu um curso sobre técnicas da pesquisa social na Escola Livre de Sociologia e  
Política. Suas anotações de aula sobre a história de vida foram publicadas em 1952, na revista  
“Sociologia”. A mesma revista publicou, em 1953, textos de Bastide, Queiroz e Moreira sobre  
o emprego da história de vida na pesquisa Unesco. Em 1956, Fernandes também publicou um  
texto sobre essa técnica.  
No debate entre os coordenadores e os colaboradores da pesquisa Unesco sobre a  
história de vida são apontadas algumas dificuldades no emprego dessa técnica da pesquisa  
social. Segundo Bastide (1989, p. 151), a principal dificuldade no emprego da técnica da  
história de vida está no perigo de as pessoas pesquisadas se preocuparem mais com as questões  
psicológicas, “com o desenvolvimento da personalidade na sua relação com o meio social ou  
cultural do que com os fatos sociais propriamente ditos”. Atentos a essa questão, Queiroz (1989)  
e Moreira (1989) procuraram extrair das pessoas pesquisadas o maior número de fatos sociais  
relevantes.  
Em suas análises, Fernandes indica uma preocupação semelhante no emprego da técnica  
da história de vida nas pesquisas sociológicas. Para enfrentar essa dificuldade, Fernandes  
(1960) defende que se empregue a história de vida associada a outras técnicas de pesquisa, tais  
SILVEIRA, P. H. F.  
84  
como: a entrevista, o questionário e o formulário. Essa foi, justamente, a estratégia utilizada na  
pesquisa Unesco. Apesar dessa dificuldade envolvendo o emprego da história de vida, os textos  
dos coordenadores e colaboradores da pesquisa Unesco não questionaram a legitimidade e a  
importância da palavra das pessoas negras pesquisadas.  
Discriminação racial no mercado de trabalho  
Desde o primeiro seminário promovido pela pesquisa Unesco, os testemunhos da  
militância negra trouxeram exemplos de situações de discriminação racial. Em sua única  
participação nos seminários, o militante Carlos de Assumpção afirma: “Quem melhor sabe dizer  
sobre o preconceito é o negro, porque é ele quem sente” (Observação em massa, 1951b, p. 216).  
3
Os exemplos citados pela militância negra são quase todos de experiências pessoais ou de  
pessoas próximas. As principais situações de discriminação racial narradas relacionam-se às  
barreiras enfrentadas pelas pessoas negras no ensino básico e no mercado de trabalho. Numa  
de suas intervenções, a professora Sofia Campos Teixeira argumenta:  
Meu aparte foi para reforçar o ponto de vista de que existe preconceito de raça,  
conforme os fatos que acabam de citar. Tenho mais um. Aqui mesmo em São Paulo,  
em uma organização religiosa, elas têm a franqueza de negar a matrícula das pessoas  
de cor. Eu digo com conhecimento de causa: foi no colégio normal de uma cidade do  
interior. A diretora negou-se a matricular uma criança, alegando que devido às  
condições melhores das outras alunas, esta negrinha não podia fazer parte do Instituto,  
mas falaram para o pai aguardar mais três ou quatro meses para então fazer a  
matrícula, porque estavam estudando a possibilidade de construir um pavilhão para  
pessoas de cor (Observação em massa, 1951b, p. 93).  
Na sequência do debate, a também professora Maria Aparecida Camargo acrescenta  
outro exemplo de discriminação racial no ensino básico:  
Em Piracicaba, uma colega foi recusada na secretaria da Escola Normal por ser de cor  
e sofreu três anos de atraso na sua vida de estudante, não podendo continuar por ser  
de cor. Ela estava no pré-normal e ali permaneceu uns três anos. Foi chamada à  
diretoria e o diretor lhe disse: ─ acho melhor você sair do nosso colégio, porque nós  
não concedemos diploma para moças de cor. (Observação em massa, 1951b, p. 93).  
Em outro encontro do seminário, o militante Francisco Lucrécio retoma esse tema com  
mais exemplos:  
3 Essa afirmação de Carlos de Assumpção poderia referendar as análises de Djamila Ribeiro (2017, p. 86) sobre o  
conceito lugar de fala: “Numa sociedade como a brasileira, de herança escravocrata, pessoas negras vão  
experenciar racismo do lugar de quem é objeto dessa opressão, do lugar que restringe oportunidades por conta  
desse sistema de opressão. Pessoas brancas vão experenciar do lugar de quem se beneficia dessa mesma opressão”.  
85  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
Nos grupos escolares, nas escolas particulares, bem como nos parques infantis, eu tive  
a oportunidade de observar, as crianças pretas não são tratadas como as crianças  
brancas. (...) Isto prova que o preconceito inicia-se desde o banco escolar, já incutindo  
no espírito da criança a situação de obediência e de inferioridade. Pesquisas nessas  
escolas, mesmo sob a orientação do mestre, seriam de grande valor, porquanto já  
atacaríamos o assunto (Observação em massa, 1951b, p. 205).  
A sugestão de Lucrécio foi acolhida pelos coordenadores da pesquisa Unesco. As  
professoras e pesquisadoras Virgínia Bicudo e Aniele Ginsberg foram contratadas para elaborar  
dois relatórios sobre a discriminação racial em escolas de São Paulo (Fernandes, 2017a). Esses  
relatórios de pesquisa foram publicados pela revista “Anhembi”, em 1953, e republicados no  
livro: “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo”, editado por Bastide e Florestan.  
O próprio Lucrécio ficou encarregado de elaborar com Renato Moreira o relatório: “Relações  
entre crianças brancas e negras em parques infantis da capital” (Estudos de caso, 1951).  
No texto elaborado sobre sua história de vida, Lucrécio narra uma experiência pessoal  
de discriminação racial enfrentada no trabalho:  
Um dia entrei para um banco: ganhava 600.000, um dinheirão para a época. Ia muito  
bem, conhecia todo mundo e arranjava bons negócios para o banco. Certa vez, houve  
um desfalque e mudaram o gerente. (...) Chegou um telegrama comunicando a vinda  
do novo gerente e mandando eu providenciar casa para ele. Fiquei encarregado disso,  
pois conhecia a todos da cidade. Arranjei a casa, mandei limpá-la, e quando os móveis  
chegaram, mandei arrumá-los. (...) Terminado tudo isso, já no banco, me manda o sr.  
R.A.L. limpar os sapatos dele. Disse violentamente que tinha cuidado de suas  
acomodações porque tinha ficado encarregado disso, mas era empregado de escritório  
e não me cabia fazer o que me havia mandado. ‘Negro é para isso mesmo...’,  
respondeu-me. Catei-o pelos colarinhos!... (História de vida, 1951, p. 53).  
Em sua história de vida, o militante José Correia Leite traça um amplo panorama sobre  
as perspectivas profissionais das pessoas negras nos meios populares:  
No começo da minha vida adulta, os negros tinham profissões domésticas, realizavam  
todos os serviços da casa. Os cocheiros eram geralmente brancos, mas os que  
cuidavam dos cavalos eram negros. (...) Nas pensões, os serviçais eram negros. Havia  
mesmo lavadores de casa que faziam ponto num determinado lugar. (...) Os negros  
fortes eram bem vistos para servirem como capangas. (...) Eram raros os negros que  
tinham profissão; pedreiro, carpinteiro, barbeiro, alfaiate e sapateiro eram profissões  
difíceis e os negrinhos aprendizes tinham dificuldade para conseguir essas colocações.  
Nas fábricas, havia poucas oportunidades para os negros, pois sempre foram  
propriedades dos italianos, era só para quem tinha ligações com famílias italianas.  
Assim mesmo, havia serviços de negros nas fábricas os que os italianos não queriam,  
os serviços pesados e arriscados para a saúde. A mulher negra, ao lado das  
dificuldades que encontrava e ainda encontra até hoje para ser aprendiz e chegar a ser  
tecelã, somente conseguindo quando não há nenhuma candidata forte, sempre foi de  
tradição doméstica e, por isso, recebia emprego, quando não proteção das famílias  
tradicionais. Assim, não iam parar nas fábricas (História de vida, 1951, p. 119).  
SILVEIRA, P. H. F.  
86  
O militante Arlindo Veiga dos Santos lembrou que, mesmo sendo proibidos desde a  
CLT de 1943, alguns jornais ainda publicavam anúncios racistas sobre ofertas de emprego para  
empregadas domésticas: “Há anúncios com os seguintes dizeres: ‘Procura-se empregada, não  
se aceita de cor’. Ou este então: ‘Procura-se empregada branca’” (Observação em massa, 1951b,  
p. 65).  
Em seu questionário, Jorge Prado Teixeira afirma que a discriminação racial está  
presente no interior das próprias empresas: “Tenho a dizer, também, que o preconceito de cor  
ou de raça domina a classe proletária no Brasil. Conheço vários casos de impossibilidade dos  
negros se manterem chefes em oficinas e indústrias, por sabotagem dos colegas” (Observação  
em massa, 1951a, p. 255).  
Nesse mesmo sentido, o militante Luiz Lobato denuncia a discriminação racial sofrida  
por pessoas negras no interior das fábricas: “Há certos operários que têm mais preconceito de  
cor do que certos brancos. Eu tenho visto piqueniques, em certas fábricas, onde se passam  
convites dizendo: ‘fulano não pode ir porque é preto’” (Observação em massa, 1951b, p. 69).  
Lobato acrescenta outro exemplo sobre esse tema:  
O dr. Sant’Anna, médico de uma instituição qualquer, foi chamado à casa de um  
operário para ver sua esposa, e lá chegando foi repelido. O próprio operário disse:  
‘Calcula se eu vou deixar um negro examinar minha mulher’. A mulher morreu e o  
médico colocou isto no memorando, isto consta do Sindicato dos trabalhadores de  
Marília, da folha de trabalho desse médico. (Observação em massa (situação grupal),  
1951, p. 657).  
A militância negra que colaborou com a pesquisa Unesco foi unânime na defesa de tese  
de que, comumente, as pessoas negras só conseguem colocação em serviços nos quais as  
brancas não querem atuar. Um testemunho de Arlindo Veiga dos Santos endossa essa tese:  
Um amigo tinha arranjado um emprego para ele na Light. Era serviço de escritório.  
(...) Quando escreveu para obter o lugar, não houve nada. (...) Mas quando apareceu  
para tomar posse e obter o lugar, foi barrado, porque preto só pode ser motorneiro ou  
cobrador. Como era serviço de escritório, não aceitaram. Sei de casos idênticos, e  
outros. Há uma infinidade de casos (Observação em massa, 1951b, p. 93).  
Sobre essa forma de discriminação racial, Carlos de Assumpção oferece um exemplo  
pessoal:  
Chegando em São Paulo, procurando emprego, não foi possível encontrar uma  
colocação onde eu pudesse agir mais à vontade, onde eu pudesse empregar o que eu  
havia adquirido. Procurei então pessoas conhecidas de relevo, que pudessem me dar  
uma carta de apresentação, e me mandaram à redação de um grande jornal da capital.  
(...) Mas o chefe da repartição me disse: ─ Infelizmente, não posso lhe dar o lugar  
87  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
porque já foi preenchido. Como revisor, não temos vaga, mas se o senhor quiser ser  
limpador, o serviço é um pouquinho duro, mas com o tempo o senhor se acostuma. A  
minha situação era precária e acabei aceitando. Eles acham que o único serviço para  
o negro é o serviço braçal, o serviço sujo (Observação em massa, 1951b, p. 216).  
Dados do censo do município de São Paulo, de 1940, reproduzidos por Fernandes  
(1955a) na pesquisa Unesco, confirmam essa distribuição de pessoas brancas, negras e pardas  
entre os setores de serviços. Na indústria de transformação, a soma total de negros e pardos era  
de 12.248 trabalhadores, contra 147.085 trabalhadores brancos. No comércio de mercadorias,  
a desproporção era ainda maior: 2.110 trabalhadores pardos e negros, contra 43.645  
trabalhadores brancos.  
Essa disparidade também ocorria na distribuição das mulheres brancas, negras e pardas  
entre os setores de serviços. Na indústria de transformação, a soma total de pessoas negras e  
pardas era de 3.031 trabalhadoras, contra 47.957 trabalhadoras brancas. No comércio de  
mercadorias, a soma total de pessoas negras e pardas era de 156 trabalhadoras, contra 5.692  
trabalhadoras brancas (Fernandes, 1955a).  
É importante considerar que, segundo o censo demográfico de 1940, a população de  
pessoas negras e pardas correspondia a 8,19% da população total no município de São Paulo.  
A partir desses dados, Fernandes (1955a, p. 56) sustenta que:  
As pessoas de cor não participam, em regra, nem das garantias proporcionadas pelos  
serviços bem remunerados ou de alguma representação social, nem dos benefícios  
colhidos pela livre iniciativa numa economia urbana. Semelhante distribuição das  
ocupações traduz a persistência das barreiras econômicas que sempre distinguiram  
socialmente os representantes das duas raças no Brasil, e de antigos critérios de  
seleção ocupacional associados à cor.  
Acompanhando os testemunhos da militância negra, especialmente, nos debates  
realizados nos seminários, Bastide reconhece que o mercado de trabalho não oferece muitas  
oportunidades às pessoas negras, além dos serviços duros e sujos, todavia, indaga o sociólogo:  
“A questão é saber até que ponto essa situação depende da falta de preparo do preto e em que  
medida é fruto da vontade do branco” (1955b, p. 144).  
Valendo-se, uma vez mais, da palavra da militância negra, Bastide destaca uma série de  
situações em que fica expressa a discriminação racial nos processos de seleção de trabalho.  
Somam-se a isso as barreiras impostas às pessoas negras em todas as etapas da sua formação.  
Ao se referir a essas e outras barreiras num texto autobiográfico, Fernandes (1977) recupera  
uma expressão que Correia Leite (2025) utiliza numa das suas contribuições para a pesquisa: o  
emparedamento do negro.  
SILVEIRA, P. H. F.  
Numa de suas intervenções, Luiz Lobato faz uma análise a respeito dessas barreiras  
impostas às pessoas negras:  
88  
Quanto mais elevada é a categoria social a que o negro quer chegar, maior é a probabilidade  
de resistência oposta pelo elemento branco dessa categoria social. Por exemplo: o negro  
chega mais ou menos a ser dentista, contador, mas, quando quer ser bacharel, quando quer  
atingir umacategoria maiselevadamédico, engenheiro, advogado, maioréabarreira social  
imposta ao negro (Observação em massa, 1951b, p. 653).  
Uma vez refutada a ideologia de que o Brasil seria um país livre de preconceitos, onde  
se colocaria em prática a democracia racial, coube a Fernandes (1955b) desenvolver um estudo  
sobre a luta contra o preconceito de cor. Esse seria o primeiro de vários trabalhos de Fernandes  
a respeito da organização do protesto negro.4  
No primeiro seminário promovido pela pesquisa Unesco, respondendo a Arlindo Veiga  
dos Santos, que pergunta aos demais como criar oportunidades de trabalho para as pessoas  
negras que não seja com a vassoura, Luiz Lobato argumenta: “Como dar essa oportunidade?  
Instruindo o patrão branco, porque é ele precisamente quem não vai dar esse emprego ao negro”  
(Observação em massa (situação grupal), 1951, p. 65).  
Na conferência do militante Nestor Borges, ministrada no último seminário da pesquisa,  
configura-se a ideia de que se deve lutar por uma “Segunda Abolição”:  
De fato, as providências adotadas a fim de prover a lavoura de novos braços,  
providências que nunca terminam, gastando-se com isso quantias fabulosas, deviam  
ter ditado os homens responsáveis pelos destinos do país, providências idênticas no  
sentido de amparar a grossa massa de trabalhadores libertos, proporcionando-lhes  
também os meios necessários para a sua recuperação. Nada disso se fez até hoje,  
decorridos 63 anos, em uma época em que a estabilidade econômica é a base de todo  
o progresso social, só nos resta, como pensava Tobias Barreto, uma segunda abolição.  
Se a primeira nos deu o título de cidadão com os direitos civis e políticos que dele  
decorrem, cabe à segunda promover a nossa emancipação econômica que, bem  
analisado, pertence a quase todo o Brasil (Observação em massa, 1951b, p. 735).  
Em “A integração do negro na sociedade de classes”, Fernandes (2008b) considera a  
“Segunda Abolição” como uma palavra de ordem para o movimento negro. Nos anos 1980,  
acompanhando de perto a nova geração da militância negra que surge com o Movimento Negro  
Unificado (MNU), Fernandes (2017b, p. 87) volta a defender essa mesma palavra de ordem:  
O essencial é que há uma abolição a ser construída e que os negros tomaram em suas mãos,  
há mais de cinquenta anos, a ideia de realizar uma Segunda Abolição”.  
4 Depois da pesquisa Unesco, Florestan analisou o protesto negro nos livros: “A integração do negro na sociedade  
de classes”, publicado originalmente em 1965; “O negro no mundo dos brancos”, de 1972; “Circuito fechado:  
quatro ensaios sobre o ‘poder institucional’”, de 1976; “Significado do protesto negro”, publicado, originalmente,  
em 1989.  
89  
Florestan Fernandes, Roger Bastide e a palavra da militância negra  
Considerações Finais  
Num relato sobre sua história de vida, Fernandes (1977, p. 143) afirma que suas  
experiências pessoais de pobreza na infância o ajudaram a compreender as barreiras econômicas  
e sociais impostas às pessoas negras: “Antes de estudar esse processo na pesquisa sobre o negro,  
vivi-o em todos os matizes e magnitudes”.  
Nesse mesmo texto, Fernandes afirma que, por conta da sua origem humilde, muitas  
vezes, sentiu-se como um “intruso” entre os colegas da FFCL da USP. No período em que a  
pesquisa Unesco foi realizada, a FFCL possuía um único docente negro, Rozendo Sampaio  
Garcia, professor assistente da cadeira de História da Civilização Americana (Observação em  
massa, 1951b). É nesse contexto que, entre os meses de maio e novembro de 1951, o auditório  
da FFCL, na rua Maria Antônia, foi ocupado por dezenas de pessoas negras, de diferentes  
formações e classes sociais, para debaterem sobre as relações raciais em São Paulo, no Brasil e  
no mundo.  
A militância negra contribuiu de diversas formas com a pesquisa Unesco: coordenando  
atividades; participando de seminários, reuniões e entrevistas; preenchendo questionários;  
elaborando conferências e histórias de vida. As transcrições desses materiais foram retomadas  
e reexaminadas por Fernandes em sua tese de cátedra: “A integração do negro na sociedade de  
classes”.  
Algumas hipóteses desenvolvidas nos textos de Bastide e Fernandes que compõem a  
pesquisa Unesco e “A integração do negro na sociedade de classes” partem dos testemunhos,  
lembranças, vivências, frustrações, posicionamentos, informações, ideias e análises da  
militância negra, especialmente, aquelas relacionadas à discriminação racial no mercado de  
trabalho.  
Como sustentou o militante Carlos de Assumpção, é a pessoa negra quem melhor sabe  
dizer sobre o preconceito, pois é ela quem o sente. Numa das suas falas nos seminários,  
Florestan Fernandes corrobora essa tese.  
A pesquisa Unesco em São Paulo foi um trabalho coletivo que conseguiu aproximar a  
universidade e as associações do movimento negro, a investigação acadêmica e a luta militante,  
o discurso científico e a experiência concreta. Foi assim que ela desconstruiu o mito da  
democracia racial no Brasil.  
SILVEIRA, P. H. F.  
90  
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Recebido em: 24/4/2025  
Aceito em: 27/8/2025  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 93-114  
A INTERPRETAÇÃO DE FLORESTAN SOBRE OS MOVIMENTOS NEGROS:  
afinidades com as teorias dos novos movimentos sociais  
FLORESTAN'S INTERPRETATION OF BLACK MOVEMENTS:  
affinities with the theories of new social movements  
___________________________________  
Remo Mutzenberg  
Eliane Veras Soares  
Resumo  
Em 1964, Florestan Fernandes defendeu sua tese de cátedra, “A integração do negro na sociedade de classes”.  
inegável que essa é uma de suas obras mais discutidas, tendo gerado uma literatura extensa, abonando-a ou  
denegando-a. “A integração” demarca um campo antagônico em relação às análises até então vigentes sobre a  
questão racial e o modo de compreender a transformação da sociedade brasileira em uma nova ordem social, a  
ordem social competitiva, conformada com o fim da ordem social escravocrata. Apesar de o livro ter se tornado  
um parâmetro nesse debate, a análise sobre os movimentos negros passou ao largo da exuberante literatura  
produzida sobre os movimentos sociais que marcam as ciências sociais no Brasil a partir dos anos 1970, com a  
eclosão das Teorias dos Novos Movimentos Sociais. No presente artigo, expomos questões fundamentais  
abordadas por Florestan Fernandes que, posteriormente, se apresentam como centrais nas emergentes teorias sobre  
novos movimentos sociais, tanto do ponto de vista conceitual quanto metodológico.  
Palavras-Chave: Integração do negro na sociedade de classes. Movimentos sociais no meio negro. Revolução  
dentro da ordem. Teorias dos novos movimentos sociais.  
Abstract  
In 1964, Florestan Fernandes defended his thesis, A integração do negro na sociedade de classes. [The Integration  
of the Negro in class society] It is undeniable that this is one of his most discussed works, and it has generated an  
extensive literature, both condoning and denying it. His work demarcates an antagonistic field in relation to the  
hitherto prevailing analyses of the racial question and how to understand the transformation of Brazilian society  
into a new social order, a competitive social order, tied to the end of a social order that included slavery. Although  
the book has become a landmark in this debate, an analysis of black movements has been overlooked in the  
exuberant literature produced on social movements that has marked the social sciences in Brazil since the 1970s,  
with the emergence of the New Social Movement Theories. In this article, we discuss the fundamental issues  
addressed by Florestan Fernandes, which later became central to the emerging theories on new social movements,  
both from a conceptual and methodological point of view.  
Keywords: Integration of black people into class society. Social movements in black circles. Revolution within  
order. Theories of the new social movements.  
Doutorado em sociologia (PPGS/UFPE). Áreas de pesquisa: movimentos sociais, metodologia e sociologia em  
África. Professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da UFPE e ex-membro do Programa de Pós-  
Graduação de Sociologia (UFPE). E-mail: remutz@gmail.com.  
 Professora titular aposentada do Departamento de Sociologia da UFPE. Integrou o corpo docente do Programa  
de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE (2002-2022). Fundadora, ao lado de outros colegas, da Coordenação  
de Estudos de África do Centro de Estudos Avançados da UFPE. E-mail: elianeveras1@gmail.com.  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
94  
Introdução  
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem  
sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam  
diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.  
(Karl Marx O 18 de Brumário de Louis Bonaparte).  
Os negros precisavam sair da apatia que envergonha a raça de gigantes.  
(Vicente Ferreira O Clarim da Alvorada).  
O presente artigo tem como objetivo identificar paralelos entre a análise do movimento  
negro, realizada por Florestan Fernandes em sua tese de cátedra defendida em março de 1964  
(2008a, 2008b), com a literatura do campo dos Novos Movimentos Sociais (TNMS), que se  
constituiu a partir do final década de 1960. Referimo-nos, em particular, aos autores que buscaram  
um diálogo entre duas orientações analíticas, aqueles que, por um lado, buscaram inicialmente  
responder o “porquê” (fatores estruturais) e, por outro lado, aqueles que privilegiaram o “como”  
(fatores estratégicos) dos movimentos sociais. A partir da década de 1990, esse diálogo foi objeto  
de teorização de autores como Alberto Melucci, Sidney Tarrow, Charles Tilly, David A Snow,  
Robert D. Benford, Doug McAdam, John McCarthy, D. Mayer N Zald.  
Equiparar as análises de Florestan sobre os movimentos negros na cidade de São Paulo,  
entre 1920 e 1937, com essa literatura pode parecer anacrônico e incongruente. É inequívoco  
que não encontramos uma teoria dos movimentos sociais que tenha sido medular no conjunto  
das preocupações de Florestan Fernandes. O exercício que elaboramos neste artigo limita-se a  
identificar como diversos temas e problemas, caros aos autores das TNMS, têm lugar na análise  
que compõe os dois volumes da “A integração do negro na sociedade de classes”, mais  
especificamente no primeiro capítulo do segundo volume, intitulado “Os movimentos sociais  
no ‘meio negro’”. Entre outros fatores que podem explicar tais antecipações e afinidades,  
destacamos o fato da sofisticada análise do movimento negro na cidade de São Paulo, em  
diferentes dimensões, estar baseada no rico material empírico, resultado do Projeto Unesco e,  
o mais fundamental, a perspectiva original do pesquisador, fruto da sua formação e inquietação  
teórica, política, metodológica e epistemológica.  
Os resultados do Projeto Unesco sobre as relações raciais entre brancos e negro na  
cidade de São Paulo (Bastide; Fernandes, 1959) e a tese de cátedra de Florestan, “A integração  
do negro na sociedade de classes” (Fernandes, 2008a, 2008b), colocaram a questão racial como  
referência primeira para a interpretação da formação e consolidação do regime de classes no  
Brasil. Do ponto de vista analítico, podemos identificar na obra um estilo “lumpen de  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
95  
pensamento”. Como afirmam os autores de Florestan Fernandes ‘Critical Sociology’: A Social  
Theory of Brazil and Latin America:  
As temáticas de pesquisa, os horizontes teóricos-metodológicos e as perspectivas  
prático-políticas de Florestan Fernandes nas ciências sociais estarão inscritos no seu  
estilo lumpen, radical-popular e socialista de pensamento, enraizado nas estruturas  
mais profundas de sentimento de uma criança precocemente lançada ao mundo do  
trabalho (Costa; Soares, 2024, p. 18, tradução nossa).  
Sob o prisma da sociologia produzida no Brasil, no âmbito da questão racial, a pesquisa  
realizada por Bastide, Fernandes e colaboradores, bem como a obra posterior de Florestan,  
significou uma ruptura com a produção sociológica anterior sobre o tema, um contraponto à  
perspectiva freyriana ancorada nas noções de democracia social/racial e do equilíbrio de  
antagonismo entre dominadores e dominados, senhores e escravos, brancos e negros (Bastos,  
2024). “A integração” demarca um campo antagônico em relação às análises da questão racial  
e à compreensão da formação da sociedade brasileira.  
Apesar de o livro ter se tornado um parâmetro nesse debate, a análise dos movimentos  
negros na cidade de São Paulo passou ao largo da exuberante literatura sobre os movimentos  
sociais que marcaram as ciências sociais no Brasil, particularmente a partir dos anos 1970. A  
nosso ver, essa invisibilidade/desconhecimento está relacionada: a) ao impacto provocado pela  
ruptura com a produção sociológica anterior sobre o tema da questão racial e da formação  
nacional, que se constituiu como foco central da leitura da obra; b) à compreensão equivocada  
de  
que  
a
sociologia  
de  
Florestan  
teria  
tão  
somente  
uma  
perspectiva  
macrossociológica/funcionalista, visão essa que ignora as suas análises sofisticadas das  
interações sociais, livres de caráter determinista; c) ao fato do autor acentuar as dimensões  
políticas contingentes na formação daqueles movimentos, que o distancia de um viés teórico  
que privilegia os movimentos progressistas nas perspectivas teóricas inauguradas nos anos de  
1970. Isso implicou, por parte dos estudiosos dos novos movimentos sociais, um olhar  
reducionista em relação ao movimento negro, visto, geralmente, a partir da Frente Negra  
Brasileira e de sua adesão ao integralismo e ao conservadorismo como estratégia de  
enfrentamento ao racismo (1930-1937). Entre outros efeitos, essa perspectiva levou à  
invisibilização de distintas posições políticas que constituíram os movimentos daquele período,  
algumas delas incorporadas na agenda da luta de movimentos negros posteriores, como a do  
Movimento Negro Unificado. Essa ausência reflete-se, por exemplo, no clássico “História dos  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
96  
Movimentos e Lutas Sociais” de Maria da Glória Gohn (1995), que não faz referência ao  
movimento negro, objeto de análise minuciosa de Florestan.  
Não obstante o caráter conservador de uma ala majoritária e do malogro dos  
movimentos negros daquele período, Florestan Fernandes lhes dedica especial atenção, pois  
eles teriam sido “os únicos mecanismos de reação societária consistente aos dilemas sociais  
criados pela situação de contato racial” e porque “eles constituem uma impressionante façanha  
histórica, na luta pela modernização da sociedade brasileira no presente” (Fernandes, 2008b, p.  
10).  
Florestan Fernandes expõe, avant la lettre, muitas das questões centrais ao debate sobre  
novos movimentos sociais, tanto do ponto de vista conceitual quanto metodológico. Sua análise  
busca identificar quais são os fatores que permitem compreender o “porquê” e o “como” do  
surgimento de movimentos e o que os torna viáveis (Fernandes, 2008b, p. 13). Observa, ainda,  
como os movimentos negros lançaram uma agenda de afirmação do negro e de suas lutas  
futuras.  
Diante dessas questões, este artigo está organizado em cinco tópicos, a saber: 1)  
exposição sintética do caminho metodológico percorrido pelo autor; 2) apresentação das  
mudanças estruturais que desencadearam requisitos psicossociais e socioculturais necessários  
ao surgimento do protesto negro na cidade de São Paulo nos anos 1920-1930; 3) abordagem  
dos efeitos do colapso da dominação tradicional e da abertura de oportunidades políticas, que  
propiciaram a emergência daqueles movimentos; 4) referência à função desempenhada pelas  
lideranças dos movimentos negros; 5) conclusões daquilo que conseguimos observar como um  
diálogo possível entre o trabalho realizado por Florestan Fernandes e as teorias dos novos  
movimento sociais. Convém lembrar que em cada tópico procuramos dar vida a esse diálogo  
orientados pelo uso da imaginação sociológica, não sendo nosso objetivo esgotar a complexa  
análise de Florestan Fernandes, menos ainda as teorias dos novos movimentos sociais.  
Caminho metodológico: “lógicas” e “técnicas empíricas”  
A análise que Florestan Fernandes realiza do movimento negro não se apresenta de  
forma autônoma, nem com a pretensão de elaborar uma teoria dos movimentos sociais. Ela  
integra o exame da sociedade brasileira, na qual a questão racial se coloca como uma  
interrogação sobre a construção da nacionalidade. Em outros termos, o autor problematiza o  
lugar estruturalmente destinado ao negro nessa sociedade em transição e leva a cabo o  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
97  
desmascaramento da ideologia expressa na ideia de que “nós somos o paraíso tropical da  
convivência democrática das raças” (Fernandes, 2017, p. 21).  
Para os fins deste artigo, partimos dos resultados desenvolvidos no primeiro volume de  
“A integração do negro na sociedade de classes” (com o sugestivo subtítulo “O legado da raça  
branca”), cujo objeto são as transformações estruturais e funcionais da sociedade brasileira.  
Transformações essas que não alteraram as estruturas das relações raciais herdadas do regime  
escravista, perpetuando “suas principais características obsoletas, mantendo o negro e o mulato  
numa situação social desalentadora, iníqua e desumana” (Fernandes, 2008b, p. 7).  
Na perspectiva de Florestan, nesse processo se alicerçam dois grandes dilemas sociais.  
O dilema da absorção da “população de cor” à nova ordem social e o dilema do “preconceito  
de cor”. Esse último resultando na manutenção do status quo da população negra, por meio da  
manutenção da “associação entre cor e posição social ínfima, a qual excluía o ‘negro’, de modo  
parcial ou total (conforme os comportamentos e os direitos sociais considerados), da condição  
de gente” (Fernandes, 2008b, p. 7-8, grifo do autor).  
Diante desse pano de fundo, “sob os olhos impassíveis, perplexos ou hostis dos  
‘brancos’, ergueu-se ‘o protesto negro’, como o ‘clarim da alvorada’, inscrevendo-se nos fatos  
históricos da cidade os pródromos da Segunda Abolição” (Fernandes, 2008b, p. 9, grifo do  
autor), marcando a inserção do “negro” e do “mulato” à cena histórica e, ao mesmo tempo, o  
desabrochar de uma nova forma de ser e estar na sociedade.  
Sabemos que na análise de “A integração do negro”, Florestan recorre a uma abordagem  
histórico-estrutural, buscando compreender como as ordens políticas e ideológicas se  
coadunavam com a economia e a sociedade. No entanto, ao se considerar os distintos níveis de  
análise, evidencia-se uma complexidade que requer a mobilização de outros recursos  
metodológicos. Tanto na pesquisa com Bastide como na tese de cátedra, convoca-se, junto a  
uma perspectiva histórico diacrônica, uma abordagem sincrônica estrutural-funcionalista  
(Costa; Soares, 2024, p. 74), acionadas segundo os aspectos dos problemas investigados e  
condicionadas pelos fundamentos lógicos da análise1. Bastide e Florestan, já no projeto de  
estudos, salientam que “as hipóteses diretrizes na interpretação de um fenômeno são  
construídas, em parte, graças ao modo peculiar de encarar o objeto” (Bastide; Fernandes, 1959,  
1 Nos anos 1950, o autor desenvolveu ampla reflexão sobre modelos de explicação sociológica e seus fundamentos  
lógicos e empíricos, que resultaram na publicação de “Fundamentos empíricos da explicação sociológica” (1959)  
e “Ensaios de sociologia geral e aplicada” (1960). Um relato esclarecedor sobre seus interesses teóricos e  
metodológicos pode ser encontrado em Fernandes (1975).  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
98  
p. 325, grifo do autor). Isso revela a necessidade de clareza na escolha do método de  
interpretação, considerando as suas implicações teóricas, definições conceituais, seleção de  
técnicas e métodos, e delimitação do objeto de investigação.  
Um outro aspecto metodológico inovador da pesquisa foi a participação ativa dos  
pesquisados no desenvolvimento da pesquisa (Bastide; Fernandes, 1959; Fernandes, 2017), o  
que possibilitou uma análise sociológica da sociedade paulista a partir da ótica do negro e de  
seus movimentos de protesto. Essa participação ocorreu nos vários encontros, mesas-redondas,  
estudos elaborados por intelectuais do movimento, análise da imprensa negra, entre outros  
recursos. Dessa forma, o chamado Projeto Unesco em São Paulo (1951-1952) resultou em  
análise de vasto material, composto por jornais em especial da imprensa negra documentos  
diversos, entrevistas, depoimentos, seminários, dados estatísticos, observação, produção de  
brochuras, entre outros. Antonia Campos (2014) apresenta uma análise detalhada dos  
procedimentos da investigação e das técnicas de pesquisa empírica mobilizadas, focalizando as  
mesas-redondas que aprofundaram o contato entre pesquisadores acadêmicos e intelectuais  
negros. Destacamos, ainda, o recurso à imprensa negra para o exame das representações, dos  
sentimentos, das atitudes e das necessidades comuns a uma classe de indivíduos, isto é, para  
apreender o processo de organização do protesto negro (Bastide, 1983). Como observa  
Florestan, anos depois, “[as] elaborações perceptivas e cognitivas - das mais elementares às  
mais complexas e literárias ou políticas - do movimento negro serviram como ponto de partida  
e fio condutor” (Fernandes, 2017, p. 136-137).  
Mudanças estruturais e seus efeitos psicossociais  
Sob a denominação “novos movimentos sociais”, grosso modo, desenvolveram-se duas  
perspectivas. Aquelas centradas no “porquê” (fatores estruturais) 2 e aquelas que focalizam “o  
como” (fatores estratégicos) de sua formação. Sob essa designação, as análises voltaram-se para  
atores outrora negligenciados e para atores emergentes no contexto social, político e cultural, a  
partir do final da década de 1960 (Chazel, 1995; Cohen, 1985; Foweraker, 1995; Laraña;  
2 Os autores que recorrem a essa terminologia têm como ponto em comum a sua relação inicial com o marxismo  
e progressivo afastamento daqueles pressupostos, com desenvolvimento de abordagens diferenciadas e até opostas.  
As tentativas de agrupar tais abordagens são também distintas. Maria da Glória Gohn (1997), por exemplo,  
identifica dois grandes grupos, os neomarxistas e os culturalistas-acionalistas. O primeiro subdivide-se entre os  
historiadores Eric Hobsbawn, Georg Rude, E. P. Thompson e o histórico-estruturalistas composto por Manuel  
Castells, Borja e Lojkine. O segundo grupo estaria composto por três orientações: a histórico-política com Claus  
Offe, a psicossocial com Alberto Melucci, Laclau e Mouffe, e a acionalista com Alain Touraine.  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
99  
Gusfield, 1994; Nascimento, 1998; Neveu, 1996; Gohn, 1997; Melucci 1996; Alonso, 2009;  
Scherer-Warren, 1987).  
A primeira tendência, que privilegia os fatores estruturais, desenvolveu-se,  
principalmente, no contexto europeu, em grande medida em decorrência da crise do marxismo  
diante do enfraquecimento do movimento operário (Anderson, 1989; Alonso, 2009). A  
segunda, voltada aos fatores estratégicos das manifestações dos novos movimentos sociais, se  
expressa como crítica ao estrutural-funcionalismo parsoniano e à Teoria da Mobilização de  
Recursos de Olson (1971), que é desenvolvida por autores como McCarthy, Zald, McAdam e  
Tilly, integrando contribuições do interacionismo e das TNMS (Laraña; Gusfield, 1994)3.  
A complexidade e as diferentes dimensões do objeto de estudo revelaram as limitações  
dessas abordagens, levando a se buscar análises que articulassem as dimensões do “porquê” e  
do “como” (Melucci, 1989, 1991, 1996; Arrow, 2009; Nascimento, 1998; Cohen, 1985).  
Sobressaem, nessas sínteses, aspectos estruturais e estratégicos, tais como: estruturas sociais,  
estruturas de oportunidades políticas, recursos, repertórios da ação coletiva, identidade, quadros  
de referência/ideologia, alinhamento, articulação, entre outros. Em particular, realça-se a  
construção de sentidos, colocando em relevo o campo cognitivo e ideológico.  
Como veremos adiante, essas questões estão presentes na análise feita por Florestan  
Fernandes dos movimentos sociais “no meio negro”, antecipando-se à produção teórica no  
campo dos movimentos sociais. Se, por um lado, Florestan parte de uma análise histórico-  
estrutural das transformações da sociedade brasileira, a partir do final do século XIX, com o  
processo de consolidação da ordem social competitiva, destacando determinados “incentivos”  
ao surgimento dos movimentos sociais no meio negro, por outro lado, evidencia as conexões  
com as dimensões psicossociais e socioculturais como requisitos à formação desses  
movimentos. É nessa conexão entre “incentivos históricos sociais” e os “requisitos  
psicossociais ou socioculturais” que Florestan busca o encadeamento dos sentidos das ações  
construídos pelos movimentos negros. Assim, compreendemos que a análise não se limita a  
fatores puramente econômicos, mas articula fatores sociais, culturais e psicossociais, com a  
agência assumindo seu lugar nesse processo.  
3 Nesse quadro, três núcleos teóricos podem ser destacados: a Teoria dos Novos Movimentos Sociais (TNMS), a  
Teoria da Mobilização de Recursos (TMR) e a Teoria do Processo Político (TPP). Para os fins deste artigo, não  
detalharemos as contribuições de cada um desses núcleos. Para uma síntese dessas teorias, remetemos ao texto de  
Angela Alonso (2009) “As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate”.  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
100  
O autor parte, assim, do pressuposto de que as transformações histórico-sociais teriam  
alterado a estrutura e o funcionamento da sociedade sem, no entanto, alterar substancialmente  
a ordenação das relações raciais, herdadas do “antigo regime”. Em outros termos, os dilemas  
se constituíram como anomalias sociais, o que levou à reação de segmentos “espoliados”, isto  
é, os “homens de cor”. Tratava-se, nos termos de Florestan, de uma “revolução dentro da  
ordem” diante da incoerência entre a ordem legal e a ordem social (Fernandes, 2008b, p. 9).  
Utilizando a classificação das ações coletivas de Alberto Melucci (1996), poderíamos  
falar, em termos gerais, “de uma competição em que o conflito e a solidariedade estão  
confinados dentro dos limites do sistema dado” (Melucci, 1996, p. 32). Em outras palavras,  
aqueles movimentos exigiam o cumprimento da ordem legal republicana sob o signo de uma  
revolução moral.  
Isso significava que os protagonistas dos movimentos sociais no meio negro aceitavam  
a ordem legal republicana e a julgavam propícia a satisfazer os seus anseios de segurança, de  
dignidade e de igualdade. Os movimentos negros estabeleceram como meta fazer valer a nova  
ordem legal, promovendo uma “segunda abolição”, convertendo-se em “agentes diretos da  
democratização dos direitos e garantias sociais, estabelecidos pela ordem legal vigente”  
(Fernandes, 2008b, p. 21).  
Fazer valer a ordem legal tornou-se um quadro de referência (frame) para cobrar  
coerência entre o prescrito em lei e a realidade como negação dessa mesma ordem. Nessa  
direção, é possível indicar a familiaridade entre a abordagem de Florestan Fernandes e as  
análises de McAdam (1982) em relação ao movimento negro dos EUA, em que os Direitos  
Civis assumiram a função de um frame (quadro de referência) ou parâmetro para os  
enfrentamentos das desigualdades raciais. A noção de frame proporciona, como desenvolvida  
por Robert Benford e David A. Snow (1996, 2000), o alicerce para a construção de diagnósticos  
(o que está errado; o sentimento de injustiça), de prognósticos (estratégias de enfrentamento) e  
motivação (chamado para a ação conjunta) (McAdam; McCarthy; Zald, 1991; Snow et al.,  
1986; Pan; Kosicki, 1993; Snow; Benford, 1996; Benford; Snow, 2000). Frame é, nessa  
perspectiva, condição para processos de identificação na construção de uma identidade coletiva.  
Na análise de Florestan Fernandes, a ordem legal se apresenta como um quadro de  
referência que orienta a análise do lugar do negro na sociedade, as estratégias de informação e  
formação, e a busca de repertórios de ação (Tilly, 1968). Neste sentido, Florestan afirma que os  
movimentos negros  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
101  
... repontam como uma espécie de vanguarda intransigente e puritana do radicalismo  
liberal, exigindo a plena consolidação da ordem social competitiva e do modelo  
correspondente de organização democrática das relações entre os homens. Insurgem-  
se, literalmente, contra as iniquidades e as impurezas históricas do regime,  
propugnando que a sociedade aberta não fosse fechada para ninguém e muito menos  
para um contingente racial. Por conseguinte, os movimentos que organizam se  
afirmam histórica, política e moralmente como as primeiras grandes tentativas  
coletivas de correção substancial das contradições existentes entre o substrato legal e  
a realidade social implantados através do abolicionismo e da experiência republicana  
(Fernandes, 2008b, p. 9).  
Diante dessa reação dos movimentos negros, Florestan se põe a questão sobre as  
circunstâncias históricas que possibilitaram ao negro sair de seu conformismo e assumir um  
processo de autoafirmação, de solidariedade e uma posição conflitiva no âmbito social e  
político. Para responder a essa questão, desenvolve sua análise em quatro tópicos:  
os incentivos históricos sociais e os requisitos psicossociais ou socioculturais,  
que lograram se concretizar objetivamente, os quais nos permitem compreender como  
e por que tais movimentos se tornaram viáveis;  
as principais ocorrências, historicamente significativas, que marcam e delimitam  
a atualização desses movimentos;  
os obstáculos históricos-sociais, inerentes à organização da sociedade inclusiva  
e à situação do “meio negro”, que explicam a descontinuidade, as inconsistências e a  
frustração final dos movimentos em questão;  
as funções sociais construtivas que eles conseguiram preencher, em termos da  
integração do negro e do mulato à sociedade de classes, como ela se expandiu e tende  
a se expandir na cidade de São Paulo (Fernandes, 2008b, p. 12-13, grifo nosso).  
Enquanto os dois primeiros tópicos analisam o encadeamento da eclosão dos  
movimentos negros, os dois últimos se debruçam sobre o seu malogro e seus ganhos/funções.  
Se considerarmos os dois primeiros tópicos, entre os diferentes modelos de análise dos  
movimentos sociais, podemos estabelecer paralelos com o modelo dos processos políticos que  
“prioriza uma estrutura de incentivos e/ou constrangimentos políticos, que delimita as  
possibilidades de escolha dos agentes entre cursos de ação” e ao mesmo tempo volta suas  
atenções para a cultura e a política (Alonso, 2009, p. 56-58)4.  
4 Doug McAdam (1982) identifica cinco modelos (não menciona a Teoria dos Novos Movimentos Sociais), quais  
sejam: Modelo Clássico; Sociedade de massa; Inconsistência de status; Comportamento Coletivo e o Modelo de  
Processo Político. Esse incorpora dimensões dos modelos anteriores que visam analisar “um processo contínuo de  
interação entre grupos de movimento e o ambiente sociopolítico maior que eles buscam mudar” e considera, ainda,  
ser um modelo compatível com uma interpretação marxista de poder (McAdam, 1982, p. 51).  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
102  
Fonte: McAdam, 1982, p. 51.  
Incentivos históricos sociais e os requisitos psicossociais ou socioculturais  
A mobilização de quadros de referência torna-se possível diante de determinadas  
condições históricas ou oportunidades políticas (Tilly, 1968; Tarrow, 2009). Se, por um lado, a  
abolição da escravatura e a emergência do regime republicano que resultaram em mudanças  
das relações sociais, em particular das relações entre negros e brancos geraram novos desafios  
e expectativas para os “homens de cor”; por outro lado, o processo acelerado de industrialização  
e de urbanização, após a I Guerra Mundial, na cidade de São Paulo, aparecem como incentivos  
que exerceram influências mais ou menos decisivas na formação dos movimentos negros  
(Fernandes, 2008b, p. 15). Nesse sentido, Florestan identificou três incentivos fundamentais  
subjacentes à cimentação das disposições psicossociais/socioculturais:  
1)  
Reação do negro e do mulato ao bloqueamento isolamento degradante da  
elite negra, fonte social das insatisfações, das fricções e das tensões diante dos  
mecanismos imperantes de ordenação societária das relações raciais; anseios  
inconformistas; práticas e ideologias, definindo objetivos comuns de integração social  
(Fernandes, 2008b, p. 15-16).  
2)  
Emulação indireta provocada pelo êxito econômico e social dos “imigrantes”  
- estilo de vida, trabalho árduo, poupança severa e o anseio de “subir na vida”;  
absorção de novas técnicas e instituições sociais; aprendizagem da vida familiar  
integrada, da solidariedade doméstica, do respeito pela mulher, da importância da  
educação dos filhos etc.; desenvolvimento de modelos de personalidade ideal;  
reeducação para o estilo urbano de vida, isto é, dos requisitos psicossociais  
necessários à integração (Fernandes, 2008b, p. 16-18).  
3)  
Colapso final da dominação tradicionalista e patrimonialista - dominação que  
perdurou nas relações dos “brancos” com os “negros”; transformações profundas na  
estrutura de poder da cidade, abrindo um vazio histórico no plano das relações raciais  
(Fernandes, 2008b, p. 18-19).  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
103  
Os incentivos mencionados suscitaram anseios inconformistas comuns, agregando  
elementos para a formulação do quadro de referência (frame), e criaram condições para  
arregimentar líderes aptos a assumirem os encargos práticos e ideológicos daquela rebelião.  
A revolta reprimida trabalhava de forma latente os espíritos, constituindo uma base  
natural para a emergência de solidariedade, de consenso e de comportamento coletivo  
inconformista a qualquer oportunidade de equacionamento histórico-social do “problema do  
negro” (Fernandes, 2008b, p. 21).  
Como afirma Florestan, “[A] passagem dessa revolta – que se apresentava inicialmente  
como desespero, vergonha ou humilhação pessoais, transformando-se em modos socialmente  
integrados e conscientes de rebelião dependia, apenas, da existência de catalisadores  
psicossociais” (Fernandes, 2008b, p. 21). Nessa passagem entre a passividade e a rebelião, há  
uma longa laboração que viabilizou transformar o inconformismo latente numa orientação de  
fins coletivos mais amplos, que requeriam consciência da realidade ambiente e atuação social  
organizada. Florestan explora a evolução da verbalização dessa orientação, desde as conversas  
informais, como canais de livre expressão manifesta, às formulações ordenadas, veiculadas pela  
imprensa negra, pelos meios (in)formativos (seminários, cursos, manifestações) e pelo  
ativismo, constituindo “o nexo efetivo entre a liderança e a massa, bem como entre a  
propaganda, a formação de uma ideologia comum e a transformação dos líderes ou dos  
aderentes” (Fernandes, 2008b, p. 64).  
Forjou-se, assim, um suporte para a mobilização, a organização, os modelos de  
liderança, as ideologias e as formas de comunicação que constituem um ator coletivo, sejam  
como latência ou assumindo visibilidade a partir de suas intervenções no espaço público. Isso  
permite identificar a semelhança com a definição de espaço público feita por Melucci, como  
“espaço da palavra, espaço da nomeação, que permite dar voz, nova ou diferente enquanto na  
sociedade não se permite reduzir ao nome que a racionalidade técnica impõe ao mundo”  
(Melucci, 1991, p. 123-124) ; nesse caso, o discurso das relações raciais hegemonizado pelo  
branco. A dimensão cultural ocupa um lugar de destaque na análise dos movimentos negros.  
Essa dimensão foi enfatizada no modelo teórico desenvolvido por Melucci nos anos 1980 e  
1990, ao considerar que “a solidariedade é de caráter cultural e está localizada no terreno da  
produção simbólica na vida cotidiana” (Melucci, 1996, p. 115).  
Se havia uma coerência e unidade analítica objetiva feita pelos movimentos negros da  
“situação do ‘negro’ e do ‘mulato’” na realidade social paulistana, é também nesse campo que  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
104  
Florestan atenta para as tensões internas em relação às estratégias. Tais tensões são patentes nos  
atritos entre as perspectivas autoritárias e as democráticas, o que leva o analista à percepção de  
que não se tratava de um movimento monolítico. Segundo Florestan,  
as primeiras divergências surgiram em função das técnicas autoritárias de organização  
do poder, adotadas pelos primeiros líderes principais da Frente Negra Brasileira. [...]  
O próprio êxito inicial deixou a direção desorientada e compeliu-a a se apegar às  
técnicas autoritárias de arregimentação. O grupo dirigente se tornou impermeável à  
comunicação com os demais, aparecendo novas fricções desalentadoras (Fernandes,  
2008b, p. 69-70).  
A forma como as lideranças catalisaram o inconformismo demostrou, segundo a análise  
de Florestan, um certo grau de capilaridade por meio das redes “físicas” submersas5 existentes  
no meio negro. Essas redes encerravam grupos de diferentes matizes e distintos objetivos, com  
existência mais ou menos duradoura. Num levantamento não exaustivo, compreendendo o  
período entre 1927 e 1945, são identificadas na cidade de São Paulo dezenove organizações,  
entre agremiações, associações culturais, clubes, legiões, centros cívicos, irmandades, entre  
outras (Fernandes, 2008b, p. 54).  
A industrialização e urbanização da cidade de São Paulo conjugadas à presença dos  
imigrantes, especialmente italianos compeliram o negro ao inconformismo e a absorver novas  
técnicas e instituições sociais, bem como a desenvolver modelos de personalidade ideal a partir  
de valores, tais como a vida familiar integrada, a solidariedade doméstica, o respeito pela  
mulher, a importância da educação dos filhos. Isto é, novos estilos de vida foram absorvidos  
pela população negra na cidade de São Paulo (Fernandes, 2008b, p. 16-18). Esses aspectos  
concentraram a atenção dos líderes dos movimentos no que consideravam essencial,  
convertidos em itinerário da reeducação do “homem de cor”, preparando-os para agir como  
homens livres e lutar construtivamente contra as diversas manifestações do preconceito e da  
discriminação racial. Além de a reeducação do “negro”, também buscaram estender suas  
influências socializadoras aos “brancos”, denotando um processo de caráter social nacional  
(Fernandes, 2008b, p. 41). O âmago desta reeducação voltou-se para a autoestima, a valorização  
histórica do negro na sociedade brasileira, o reconhecimento de sua condição de “gente”, de  
seus direitos sociais e políticos, isto é, o reconhecimento de sua cidadania conforme a ordem  
legal instituída. Essas condições são elementos basilares, consoante a teorização de Alberto  
5 A noção de redes submersas, cunhada por Melucci (1996) e desenvolvida por outros autores sob o conceito de  
redes sociais, tem como referência as redes “físicas” e virtuais (Barnes, 1987; Castells, 2000; Scherer-Warren,  
2005, 2006).  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
105  
Melucci (1996), para criar um sentido de pertencimento (redes afetivas e simbólicas) e atuar na  
construção de identidade (quem somos), no compartilhamento de valores (solidariedade), na  
expressividade (dar voz a subjetividades, estilo de vida e valores) e na resistência cultural (luta  
contra a dominação e controle social).  
Colapso da dominação tradicionalista e patrimonialista como oportunidade política  
Há, atualmente, um consenso de que os movimentos sociais não podem ser derivados,  
de forma direta, das privações padecidas ou da desorganização de suas sociedades. Seriam  
condições necessárias, mas não suficientes para compreender a sua emergência. Segundo  
Sidney Tarrow (2009), essas condições são mais duradouras, o que varia são “os níveis e tipos  
de oportunidades com que as pessoas se deparam, as restrições em sua liberdade de ação e a  
percepção de ameaças a seus interesses e ações” (Tarrow, 2009, p. 99). Ainda na perspectiva  
desse autor, os confrontos estariam mais relacionados a estruturas de oportunidades e restrições  
para a emergência de ações coletivas, vistas junto a repertórios, enquadramento de mensagens  
e acesso ou construção de mobilização unificadoras. Essas estruturas de oportunidades se  
relacionam à obtenção de recursos externos, ao sentimento de ameaças ou de ofensa do senso  
de justiça e, fundamentalmente, quando se abre o acesso institucional, quando surgem divisões  
entre as elites, disponibilidade de aliados e diante do declínio da capacidade de repressão do  
Estado (Tarrow, 2009, p. 99)  
Seguindo a análise de Florestan, no contexto do processo de industrialização, da  
universalização do trabalho assalariado e da consolidação da ordem social competitiva, foi  
colocada em xeque igualmente a dominação tradicionalista e patrimonialista. Mesmo que esse  
domínio tenha se mantido durante mais tempo na relação entre “brancos” e “negros”,  
gradualmente ele deixa de ter vigência plena e indiscutível entre os “brancos” (Fernandes,  
2008b, p. 18). A presença de novas forças sociais, ligadas à indústria e ao comércio levou,  
paulatinamente, à desorganização da oligarquia. Entretanto,  
A secularização de atitudes não chegara a ser suficientemente profunda para  
engendrar uma autêntica compreensão dos movimentos sociais [...] ou para suscitar  
uma colaboração frutífera ‘dos brancos’ em seu desenvolvimento. Ainda assim, deu  
lugar a certas transigências e indiferenças que tiveram enorme importância  
(Fernandes, 2008b, p. 29).  
Esses fatores criaram condições para elevar os patamares de consciência, discussão e  
crítica, bem como abriram um “vazio histórico no plano das relações raciais, que equivalia, na  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
106  
prática, a uma repentina dilatação da autonomia moral do ‘negro’ e do ‘mulato’” (Fernandes,  
2008b, p. 20). Esses incentivos ou oportunidades dependiam do desenvolvimento da percepção  
analítica e da formulação ideológica como fatores de agregação e organização do negro.  
Funções das lideranças  
Na nossa análise, indicamos a perspectiva histórico-estrutural de Florestan Fernandes,  
que situa as transformações e permanências estruturais da sociedade brasileira, entre o final do  
século XIX e meados do século XX. A partir daí, destacamos os incentivos e os requisitos  
psicossociais ou socioculturais que, na interpretação do sociólogo paulistano, criaram as  
condições e oportunidades que suscitaram um novo estado de espírito dos “homens de cor”,  
assim como polarizaram as aspirações integracionistas e assimilacionistas em direções  
reivindicativas  
de  
teor  
igualitário.  
Embora  
esse  
espírito  
tenha  
desabrochado  
“espontaneamente”, as funções políticas de organização e difusão do movimento, assumidas  
pelas lideranças, indicam uma ação consciente por parte delas. Da mesma forma, a  
descontinuidade, as inconsistências e o malogro dos movimentos têm seus fundamentos na  
natureza especificamente social e não devem “ser encarados em termos de atributos  
psicológicos diferenciais do ‘negro’ [...] nem de sua ‘incapacidade’ de construir socialmente  
seu próprio destino” (Fernandes, 2008b, p. 73).  
Ao longo da análise, Florestan Fernandes apresenta também as funções das lideranças,  
quais sejam: promover a definição dos objetivos, desenvolver estratégias e táticas para a ação,  
formular uma ideologia. Os rumos de um movimento, o envolvimento de seus membros e a  
construção de um consenso estão intimamente ligados à ação das lideranças6. No âmbito da  
TNMS, a questão da liderança foi desenvolvida em duas dimensões, seu papel interno e externo.  
Tarrow (2009) focou no papel externo das lideranças, enquanto Melucci (1996) concentrou-se  
nas dinâmicas internas. Em ambos os níveis, a liderança assume o papel de mediador entre o  
interior e o exterior do movimento. Isto é: formular políticas, articular redes, manter a coesão  
identitária e coordenar as práticas, bem como, em nível externo, manter relações com a mídia,  
6 Nos primeiros estudos sobre movimentos sociais no Brasil, na década de 1970, o debate sobre liderança estava  
ausente, em grande parte devido à própria repressão política naquele período (Cardoso, 2004, p. 82). Em termos  
da teorização, na América do Norte, diferentes perspectivas se debruçaram sobre o papel das lideranças. Aldon  
Morris e Suzanne Staggenborg (2002) apresentam uma sinopse e indicam lacunas teóricas sobre liderança. Melucci  
teve particular interesse em teorizar o tema da liderança (Melucci, 1996).  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
107  
instituições e outros grupos. Isso requer a habilidade de “traduzir” a linguagem do movimento  
para um público mais amplo, sem perder a identidade.  
As condições para o exercício de uma liderança pressupõem capacidade de formação  
cognitiva e de formulação de objetivos, estratégias e “ideologia”. Essa capacidade se  
desenvolve à medida que há possibilidade de acesso a diferentes perspectivas e conhecimentos.  
Florestan identifica essas condições que permitiram acesso à instrução, mesmo de forma  
circunscrita, e possibilitaram as próprias inquietações que ganham corpo após a I Guerra  
Mundial, com o delineamento de movimentos sociais, novas perspectivas do movimento  
proletário e movimentos culturais. Apesar das limitações insanáveis, decorrentes da  
desorganização social permanente, da incapacidade de cooperação para fins coletivos próprios  
e da inexperiência política quase total, um pugilo de pioneiros7 conseguiu abalar a inércia8 do  
“meio negro” (Fernandes, 2008b, p. 14).  
É esclarecedora desse processo a citação de Renato Jardim Moreira Leite, em estudo  
de caso denominado “Movimentos sociais no meio negro”, elaborado em parceria com o  
militante José Correia Leite, no âmbito do Projeto Unesco:  
A estas transformações de estrutura social, corresponde uma série de outros sucessos  
que influíram na tomada de consciência, por parte dos negros, de seus problemas  
específicos. [...] A partir da Guerra de 1918, começou a efervescência dos negócios  
de ismos (socialismo, comunismo). Frequentei reuniões da U.T.G., onde se  
embaralhava a revolta do negro com reivindicações do proletariado. Nas nossas rodas  
de conversa apareciam negros e brancos envolvidos nas teorias marxistas. Estes  
diziam que a posição verdadeira do homem negro era lutar contra a ordem social, pois  
a culpada da situação era a exploração do regime capitalista. Falavam de um famoso  
pintor mexicano que tinha feito um mural onde aparecia Lenine no meio de dois  
trabalhadores: um branco e um negro, com as mãos entrelaçadas, tendo Lenine as  
mãos sobre eles (Moreira Leite apud Fernandes, 2008b, p. 23-24).  
O foco da análise não é a Frente Negra Brasileira em si, mas o processo que levou àquele  
movimento9. Neste sentido, são as dinâmicas, a composição de uma unidade, as tensões internas  
e externas que são os eixos da atenção do autor. Nessa análise, torna-se evidente o  
7
Florestan Fernandes está atento às nuances da composição e analisa os fatores da predominância da presença de  
“mulatos”, que se localizam no âmbito sociológico e não em fatores individuais: “parece que o ‘mulato’ teve maiores  
chances em virtude da própria experiência e do prestígio granjeado anteriormente” (Florestan, 2008b, p. 52).  
8 Florestan Fernandes utiliza o termo inércia não como inerente à natureza do negro, mas como um estranhamento  
em relação à sociedade que o repelia, no fundo um repúdio aos valores da sociedade do branco, daí o papel dos  
movimentos negros em proporcionar as motivações e fundamentos das ações.  
9 Como já afirmava Gramsci, as análises, geralmente, levam em conta as correntes já constituídas, sem investigar  
a sua formação, que se trata “de um processo molecular, miudíssimo [...] do qual nasce uma vontade coletiva com  
um determinado grau de homogeneidade, grau que é necessário e suficiente para determinar uma ação coordenada  
e simultaneamente no tempo e no espaço geográfico em que o fato histórico se verifica” (Gramsci, 1978, p. 90).  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
108  
reconhecimento de uma heterogeneidade, tanto em nível das lideranças como entre a população  
negra, que permitiu uma unidade de objetivos e o poder de mobilizar esse grupo social, mas  
também implicou rupturas entre as lideranças, em particular na definição das estratégias.  
Rastreando a “agitação larval”, Florestan constata que, já no início da década de 1920,  
havia uma consciência formada, segundo o estudo de caso elaborado por Renato Jardim  
Moreira. A análise acompanha um longo processo desenvolvido por intelectuais e militantes na  
formulação dos objetivos, mobilização de cursos e seminários necessários para a formação,  
disseminação dos sentidos da luta antirracista, articulação de diferentes grupos e organizações.  
Em outros termos, é dessa ordenação que se estabelece a utopia, “que formava o fundo da  
contraideologia construída, apontava para uma sociedade de classes aberta racialmente”  
(Fernandes, 2008b, p. 123)10, isto é, a construção de uma nova imagem da “raça negra”. Essa  
análise se coaduna à teoria da liderança como processo não estável, em que as funções de  
liderança são partilhadas para manter e articular as identidades coletivas (Melucci, 1996).  
Entre os autores da TNMS encontramos diferentes formulações sobre as funções das  
lideranças. No entanto, há uma concordância em atribuir à liderança a formulação de um  
conjunto doutrinário sistematizado e coerente de ideias, princípios, valores e interpretações da  
realidade. Esses diferentes enfoques podem ser resumidos em três abordagens fundamentais:  
1) Ideologia como núcleo organizador e doutrinário fixo da tradição marxista; 2) Framing  
como narrativas que tornem as reivindicações inteligíveis e legítimas, centrado “no como” é  
usado (McAdam; McCarthy; Zald, 1996; Tarrow, 2009; Tilly, 1968; Pan; Kosicki, 1993;  
Benford; Snow, 2000; Snow; Benford, 1988, 1996); 3) Códigos culturais, em substituição a  
“ideologia”, reconhecendo-se seu caráter não fixo e um maior pluralismo interno,  
particularmente nas perspectivas de Touraine (1996) e Melucci (1996). Apesar dessas  
diferenças, todas as abordagem dão destaque ao papel das lideranças na construção de sentidos  
que orientam a organização das ações coletivas e de movimentos sociais.  
Evidencia-se na análise de Florestan uma perspectiva “em fluxo”, como um campo de  
disputas na construção de sentido e estratégias, designando o conjunto doutrinário como  
contraideologia racial. Recorrendo às noções de funções manifestas e latentes11, segundo  
definição de Robert K. Merton (1968), identifica as funções básicas da contraideologia racial  
10  
Os conceitos de utopia e ideologia, na perspectiva de Florestan, baseiam-se na obra de Karl Mannheim,  
“Ideologia e utopia”.  
11 Identificamos em Melucci (1991) a observância dos processos latentes e manifestos na análise dos movimentos  
sociais, recorrendo a Robert Merton.  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
109  
em dois planos. Das distintas funções cumpridas pelo movimento negro, destacamos duas: 1)  
“desmascarar as racionalizações, opiniões e avaliações consagradas pela ideologia racial  
dominante, evidenciando os fatores e os efeitos reais da desigualdade racial vigente” e 2)  
“unificar a percepção e a explicação da realidade, bem como as manifestações individuais ou  
coletivas de inconformismo e as aspirações de justiça social, objetivadas historicamente como  
reivindicações de uma categoria racial exposta à ‘espoliação secular’” (Fernandes, 2008b, p. 131).  
A análise salienta, ainda, a preparação cívica do “negro” e do “mulato”, um processo de  
aprendizagem condicionado ao tipo de movimento.  
O sentido e o teor dessa aprendizagem específica, subordinada às tarefas práticas  
propriamente ditas e às suas implicações doutrinárias, variavam, naturalmente, com  
os tipos dos movimentos. Onde prevaleciam os modelos autocráticos, a  
arregimentação se fazia formalmente de modo rígido e segundo uma disciplina  
paramilitar; onde vingavam os modelos democráticos, ela aparecia como uma  
educação espontânea, alicerçada no exemplo ou no debate (Fernandes, 2008b, p. 97).  
Não há, portanto, um determinismo na configuração dos movimentos sociais, há  
condicionamentos. Daí a formação heterogênea das lideranças com implicações nos processos  
de mobilização e escolhas políticas.  
Foi assim que a contraideologia racial tornou-se basilar para a mobilização de recursos  
materiais, humanos, sociais e culturais/simbólicos (Tilly, 1968), lançando mão dos repertórios  
de ação (realização de seminários, cursos, difusão da imprensa negra12, promoção de  
manifestações, entre outros), devidamente analisados na obra de Florestan.  
No conjunto da análise de Florestan, identifica-se a relevância dos fatores históricos-  
estruturais como condicionantes, mas se evidencia o envolvimento ativo dos agentes na  
formulação de uma contraideologia, escolhas de estratégias e posicionamentos políticos. A  
relevância dos fatores históricos-estruturais é também a base para o entendimento da derrocada  
do movimento negro daquele período, com o fechamento da Frente Negra Brasileira em 1937,  
mesmo com a sobrevida do jornal “Clarim da Alvorada” até 1948. A questão central do  
empreendimento de Florestan foi compreender “por que” e “como” os movimentos sociais  
reivindicatórios surgiram, questão orientadora do “porquê” desses movimentos não terem  
vingado nem mesmo no “meio negro” (Fernandes, 2008b). Para o autor, a resposta parece  
simples:  
12 A imprensa negra já estava presente desde o século XIX, mas se tornou muito mais presente a partir dos anos  
1920. Sobre imprensa negra em São Paulo ver Ferrara (1985) e Malatian (2018).  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
110  
A
sociedade inclusiva não desaprovava os propósitos integracionistas da  
contraideologia racial elaborada pelos “negros”. Todavia, ela não se propunha de  
modo idêntico os problemas da democratização da riqueza, dos níveis de vida e do  
poder, isto é, fazendo tabula rasa do sistema vigente de dominação racial. A ordem  
social competitiva se abria diante do negro e do mulato; mas de forma individualista  
e ultraseletiva (Fernandes, 2008b, p. 132).  
Para além desses fatores estruturais, podemos nos interrogar, utilizando-nos da noção  
de ciclos de confrontos de Sidney Tarrow (2009), sobre as mudanças das oportunidades e  
restrições políticas que possibilitariam ou não a constituição de movimentos sociais,  
“disponibilizando conhecimentos e repertórios flexíveis de confronto, desenvolvendo quadros  
interpretativos de ações coletivas e identidades coletivas, e construindo estruturas de  
mobilização em torno de redes sociais e de organizações” (Tarrow, 2009, p. 181). Não  
poderíamos falar, assim, de uma abdicação dos sentidos explorados em “A integração do negro  
na sociedade de classes”, mas em sua latência, emergindo em outros momentos ou ciclos de  
confronto, tal como se manifestou no movimento negro da década de 1970 e em momentos  
posteriores, numa atualização daquele legado.  
Considerações Finais  
Em seis décadas que nos separam da publicação de “A integração do negro na sociedade de  
classes”, presenciamos profundas mudanças políticas, econômicas, culturais, ideológicas,  
tecnológicas e comunicacionais. O campo da sociologia foi afetado por novas perspectivas  
epistemológicas e filosóficas, tornando-se cada vez mais heterogêneo e complexo. Nesse contexto,  
uma multiplicidade de novos sujeitos de contestação entraram em cena em diferentes níveis, sejam  
eles locais, regionais, nacionais ou transnacionais. A própria noção de movimento social, para  
alguns autores, tornou-se obsoleta, daí preferirem outra terminologia, como movimentos de  
confronto ou de contestação. Mas esses também foram desafiados com a emergência de  
“contramovimentos” de características conservadoras/autoritárias, particularmente os movimentos  
de extrema direita (McAdam; Tarrow; Tilly, 2009; Bringel, 2012; Silva; Pereira, 2020).  
No Brasil, as lutas pela democratização dos anos 1970 e 1980, que resultaram na  
Constituição Cidadã de 1988, vista como caminho de superação da ordenação das relações sociais  
herdadas do passado, geraram um otimismo, e as interpretações críticas sobre os processos políticos,  
sociais e culturais elaboradas por Florestan Fernandes pareciam estar em vias de superação. Com a  
ocorrência de movimentos políticos com perspectivas conservadoras e autoritárias na década de  
2010, que permaneciam latentes, voltou-se a perguntar sobre continuidades e descontinuidades das  
A interpretação de Florestan sobre os movimentos negros: afinidades  
com as teorias dos novos movimentos sociais  
111  
estruturas da sociedade brasileira13. Dito isso, e diante da análise apresentada no presente artigo,  
cabe perguntar sobre a possível atualidade de Florestan Fernandes no campo da teorização dos  
movimentos sociais/protestos no cenário contemporâneo.  
Diante das novas formas de organização, de motivações, de recursos humanos, ideológicos  
e culturais, da reciclagem e criação de novos repertórios e ação, as perguntas iniciais de Florestan,  
o do “porquê” e do “como”, permanecem desafiando os pesquisadores, bem como a busca de  
sínteses que articulem fatores estruturais e estratégicos. Evidenciou-se que o autor não desenvolveu  
uma teoria dos movimentos sociais e essa não foi objeto de pesquisa. Não obstante, a análise dos  
movimentos negros apresenta uma contribuição relevante no âmbito metodológico. O autor não  
parte de um modelo previamente fixado, mas assume uma perspectiva processual, em que o  
material empírico é examinado de forma acurada e atenta às dinâmicas internas e externas, às  
diferentes dimensões psicossociais, sociais, culturais e políticas. Florestan dedicou-se à reflexão  
teórica e metodológica com vistas a amoldar a análise sociológica à formação histórica particular  
da sociedade brasileira, estendida também às sociedades latino-americanas. Ele mirou de forma não  
dogmática os desafios das diferentes dimensões da realidade, fazendo uso de distintos métodos  
capazes de lhe dar sentido. Ao que Gabriel Cohn (1987) define como “ecletismo bem temperado”,  
preferimos designar como composição coerente de diferentes perspectivas.  
Florestan situa os movimentos negros no contexto da ordem social competitiva e suas  
transformações na nova ordem social, em que o arcaico e o moderno se fundem (Trindade, 2025).  
Na análise, o autor sobreleva a dimensão estrutural, numa perspectiva histórica diacrônica e  
sincrônica, a partir da qual identifica as contradições entre uma ordem legal e a ordem social real  
que estimularam os movimentos. Isto é, as oportunidades políticas (estímulos), quadros de  
referência (frames), a contraideologia, as motivações objetivas e subjetivas, os recursos formativos  
e informativos, a formação de lideranças, as discordâncias quanto às estratégias mais ou menos  
democráticas, as formas de mobilização e articulação interna e externa. Compreende-se que a  
análise não se limita a fatores puramente econômicos, mas adentra em fatores sociais, culturais e  
psicossociais a partir dos quais emergem as ações políticas dos movimentos. Acrescente-se a  
disponibilidade do avultado material construído na pesquisa inserida no Projeto Unesco sobre as  
relações raciais no Brasil. Além disso, destaca-se o papel ativo de lideranças e intelectuais inseridos  
13 Essa volta aos escritos de Florestan Fernandes é visibilizada no crescente número de artigos e dossiês publicados  
na última década.  
MUTZENBERG, R; SOARES, E. V.  
112  
nos movimentos negros, provocando questões epistemológicas relacionadas à não neutralidade do  
fazer da sociologia, bem como sendo suporte dos próprios movimentos.  
Hoje um dos grandes desafios para a análise dos protestos/movimentos sociais e políticos é  
aintepretação das sociedades contemporâneas diante das transformações já sinalizadas, num quadro  
cada vez mais complexo, ao mesmo tempo globalizado e com uma heterogeneidade crescente de  
sujeitos, demandas e perspectivas políticas. Quais são os quadros de referência/códigos  
culturais/ideológicos mobilizados, os repertórios da ação coletiva, os modelos de liderança, as  
formas de organização e articulação que estão em vigência?  
Em Florestan Fernandes, como sugere Gabriel Cohn,  
Interessa mais a ordem dos procedimentos para se dar conta da realidade do que a ordem  
dos conceitos na teoria internamente consistente. Por essa via, em Florestan a construção  
da obra não tem tanto a ver com uma visão tópica, local, de níveis de abstração do texto,  
mas tem mais a ver com uma visão de processo, com uma visão de sequência e  
encadeamento dos procedimentos que buscam dar conta dos fenômenos. As questões  
metodológicas subordinam a si as questões propriamente teóricas da construção dos  
grandes arcabouços conceituais; as questões práticas subordinam as questões teóricas  
(Cohn, 1987, p. 49).  
Esse nos parece um olhar acurado para a contribuição de Florestan Fernandes para as  
ciências sociais, seja na periferia seja no centro do sistema.  
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Recebido em: 11/9/2025  
Aceito em: 27/1/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 115-147  
O ESPÍRITO DO CAPITALISMO REVISTO DESDE A PERIFERIA:  
expressões da racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
THE SPIRIT OF CAPITALISM REVIEWED FROM THE PERIPHERY:  
expressions of bourgeois rationality in Florestan Fernandes  
___________________________________  
Lucas Trindade  
Diogo Valença de Azevedo Costa  
Resumo  
Embora Florestan Fernandes não tenha escrito textos sistemáticos sobre os atributos da conduta tipicamente  
capitalista, defenderemos a possibilidade de rastrear, em alguns dos seus textos escritos entre fins dos anos 1950  
e a década de 1970, um delineamento conceitual sobre as formas singulares de manifestação do espírito do  
capitalismo em formações sociais periféricas e dependentes. Delineamento esse que pode ser tomado como uma  
significativa reelaboração e ampliação, em um diálogo crítico com a obra de Werner Sombart e Max Weber, de  
uma tipologia da racionalidade burguesa, capaz de equipar-nos heurística e criticamente para pensar tanto a  
conduta capitalista em sua diversidade espaço-temporal como o esgarçamento explícito no tempo presente, ao  
Norte e ao Sul, da aliança entre capitalismo e democracia.  
Palavras-chave: Espírito do capitalismo. Werner Sombart. Max Weber. Florestan Fernandes.  
Abstract  
Although Florestan Fernandes did not write systematic texts on the attributes of typically capitalist conduct, we  
will argue for the possibility of tracing, in some of his texts written between the late 1950s and the 1970s, a  
conceptual outline on the singular forms of manifestation of the spirit of capitalism in peripheral and dependent  
social formations. This outline can be taken as a significant re-elaboration and expansion, in a critical dialogue  
with the work of Werner Sombart and Max Weber, of a typology of bourgeois rationality, capable of equipping us  
heuristically and critically to approach capitalist conduct in its spatio-temporal diversity and the explicit fraying  
in the present time, in the North and South, of the alliance between capitalism and democracy.  
Keywords: Spirit of capitalism. Werner Sombart. Max Weber. Florestan Fernandes.  
Professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutor em sociologia pela  
Universidade de Brasília (UnB). Coordena o projeto de pesquisa “Síntese teórica ao Sul: teoria social, teoria  
sociológica e a articulação de modelos explicativos em Florestan Fernandes”, financiado pela Pró-Reitoria de  
Pesquisa da UFRN, edital n. 14/2025 Produtividade em Pesquisa. O presente artigo também recebeu apoio do  
projeto de pesquisa “Luta de raças, de classes e desenvolvimento: reconstruindo o artesanato intelectual de  
Florestan Fernandes”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), termo de  
outorga n. 0018/2024. E-mail: lucas.trindade@ufrn.br.  
  
Professor titular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Doutor em sociologia pela  
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Bolsista de Produtividade do CNPq (PQ-C). Coautor de “Florestan  
Fernandes’ Critical Sociology: a Social Theory of Brazil and Latin America” (Routledge, 2024). E-mail:  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
116  
Introdução  
Embora Florestan Fernandes não tenha escrito textos sistemáticos sobre os atributos da  
conduta tipicamente capitalista1, defenderemos a possibilidade de rastrear, em diferentes  
momentos da obra do sociólogo paulista, um delineamento conceitual sobre as formas  
singulares de manifestação do espírito do capitalismo em formações sociais periféricas e  
dependentes. Delineamento esse que pode ser abordado como uma significativa reelaboração e  
ampliação de uma tipologia da racionalidade burguesa. Para fazer isso, em primeiro lugar,  
revisitaremos a noção de espírito do capitalismo em Werner Sombart (2014), que atrela a sua  
gênese e desenvolvimento sobretudo à conduta judaica na vida econômica. Em seguida,  
abordaremos a formação típico-ideal do espírito do capitalismo moderno em Max Weber  
(2004), cuja gênese é relacionada aos efeitos práticos da doutrina calvinista. Em Weber, esse  
espírito define-se tanto em contraste com o capitalismo tradicionalista que na contenda com  
Sombart, é associado ao judaísmo quanto com o espírito tradicionalista camponês, católico,  
pré e anticapitalista, aspecto em relação ao qual Weber e Sombart estão de acordo.  
Em um segundo momento, buscaremos rastrear o diálogo, implícito ou explícito, de  
Florestan, em textos de fins dos anos 1950 até a década de 1970, com o problema do espírito  
capitalista ou da racionalidade burguesa, repensado nos marcos de formações sociais  
periféricas, subdesenvolvidas e dependentes. Privilegiaremos os seguintes textos: Atitudes e  
Motivações Desfavoráveis ao Desenvolvimento (1959); Economia e Sociedade no Brasil:  
Análise Sociológica do Subdesenvolvimento (projeto do CESIT de 1962); Reflexões sobre a  
mudança social no Brasil (1962); A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964);  
Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil (obra de Fernando H. Cardoso,  
publicada em 1964, e diretamente indicada por Florestan para pensar o problema da  
ação/racionalidade empresarial no Brasil); Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento (1967);  
Classes Sociais na América Latina (1971); os capítulos escritos em 1973 de A Revolução  
Burguesa no Brasil (1975); e As Mudança Sociais no Brasil (1974).  
1
Em entrevista oferecida a Eliane Veras Soares, realizada em 23 de janeiro de 1991, Fernandes afirma que, na  
segunda parte inconclusa de “A Revolução Burguesa no Brasil”, pretendia justamente discutir “os elementos que  
não haviam dentro do horizonte intelectual da burguesia brasileira para caracterizar, como um espírito capitalista  
típico, um espírito capitalista débil e, ao mesmo tempo, uma espécie de amálgama de componentes tradicionais e  
componentes modernos: todos fechavam na ideia de que o risco dos empreendimentos deveriam ser transferidos  
para o Estado e a iniciativa privada poderia auferir lucros e não estar obrigada a reinvestir os lucros, ela ia investir  
os lucros em outros setores, especulativos, imobiliários etc.” (Fernandes, 2021, p. 111). Ao longo deste artigo,  
serão percebidos elementos que tanto corroboram como tensionam a asserção sobre a tipicidade da debilidade  
sugerida nesse trecho de comunicação informal.  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
117  
A proposta se insere na agenda de debates e investigações do campo do pensamento  
social no Brasil, ao realizar uma releitura de Florestan Fernandes que salienta a força heurística  
dos seus conceitos e proposições, não só para pensar a singularidade dos nossos dilemas  
nacionais, mas igualmente a reelaboração e ampliação do instrumental da teoria sociológica,  
tomada de modo abrangente, para pensar os dilemas do tempo presente. Como sempre pensou  
o lugar do Brasil e da América Latina no globo e em um diálogo permanente com a teoria  
sociológica clássica, o pensamento de Fernandes merece ser lido como uma teoria social de  
relevância nacional e internacional, que toma a “periferia como método” – para utilizar a feliz  
formulação de Elide Rugai Bastos (2002, 2018).  
Buscamos atrelar-nos a essa agenda, de modo mais amplo, ao ler Fernandes a partir dos  
problemas teórico-sociais típicos (Joas; Knöbl, 2017) da “ordem social”, da “mudança social”  
e, sobretudo e evidentemente, da “ação social”, na medida em que investigamos, nos meandros  
da sua obra, a reelaboração crítica do conceito de espírito do capitalismo quando visto desde a  
periferia. Como se sabe, tratar do espírito é tratar, conforme a tradição hermenêutica, dos fatores  
e elementos relevantes para pensar a agência e o agir. A nosso ver, como propomos na seção  
conclusiva, os “diagnósticos do presente” formulados por Fernandes podem ser amplamente  
utilizados, com o devido exercício de contextualização histórica e apropriação conceitual, para  
pensar o nosso presente, caracterizado por uma crescente dissociação entre capitalismo e  
democracia ou, em termos espirituais, quando pensamos na centralidade do capital fictício e na  
crise ambiental, por uma ação capitalista plenamente enquadrável naquele “Aprés moi le  
deluge!”, salientado por Marx (2008, p. 312).  
Delineamos os traços de uma reelaboração da tipologia do espírito capitalista ou da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes a partir dos seguintes motivos presentes em sua  
obra: a) a análise das atitudes e motivações favoráveis e desfavoráveis ao desenvolvimento; b)  
o contraste entre Fase Pioneira Liberal e Era do Planejamento ao pensar o capitalismo; c) o  
conceito de resistência sociopática à mudança social; d) a relação entre racionalidade burguesa  
e racismo; e) a mentalidade espoliativa e o espírito especulativo como racionalidade pragmática  
e possível no capitalismo dependente; f) a relação entre racionalidade burguesa, capitalismo  
dependente e autocracia. As reflexões aqui apresentadas devem muito às pesquisas realizadas  
pelos autores na biblioteca e arquivo particulares de Florestan Fernandes, abrigados na  
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Na seção conclusiva, trataremos de alguns  
dados extraídos da leitura e análise da marginália das obras de Sombart e Weber consultadas.  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
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O espírito do capitalismo moderno em Max Weber e Werner Sombart  
Max Weber (1864-1920) e Werner Sombart (1863-1941) compartilharam não só o  
mesmo ambiente e círculo intelectuais, buscaram uma síntese entre a Escola Histórica e a  
Escola Teórica no Methodenstreit e editaram juntos, durante algum tempo, a Archiv für  
Sozialwissenschaft und Sozialpolitik. Os autores também, e talvez sobretudo, compartilharam  
o interesse em compreender o capitalismo ocidental moderno (e sua tendência global) como:  
uma individualidade histórica que deve ser analisada de modo tipológico e genético, por meio  
das conexões causais concretas que delinearam a sua especificidade histórico-sociológica; e em  
seus aspectos tanto formais (ou exteriores) como espirituais (ou interiores), o que os vincula a  
um mesmo interesse hermenêutico ou compreensivo na análise dos fenômenos socioculturais2  
(Villas Bôas, 2001). Interesse levado adiante quando tomam o capitalismo como objeto, por  
meio de uma análise das condições religiosas que permitiram a emergência e autonomização  
da esfera e da ação econômicas modernas.  
A análise dos aspectos formais ou exteriores é levada a cabo por Sombart e Weber,  
respectivamente, em “O Capitalismo Moderno”, publicada em 1902, e em “História Econômica  
Geral”, publicação póstuma, de 1923, dos cursos oferecidos por Weber e organizados pelos  
seus alunos. Embora a noção de espírito do capitalismo tenha sido introduzida por Sombart na  
obra de 1902, o estudo mais sistemático dos fatores internos ou espirituais para a gênese e  
desenvolvimento do capitalismo moderno, o que mais interessa neste artigo, foi desdobrada nos  
clássicos desigualmente reconhecidos “A Ética Protestante e O ‘Espírito’ do Capitalismo”  
(Weber, 2004) e “Os Judeus e A Vida Econômica” (Sombart, 2014)3. É o próprio Sombart  
(2014, p. 1) quem admite em primeira pessoa ao prefaciar “Os Judeus”:  
As investigações de Max Weber sobre a conexão entre puritanismo e capitalismo  
forçosamente me levaram a investigar, melhor do que havia feito até o momento, o  
rastro da influência da religião sobre a vida econômica, e foi ao fazê-lo que me  
acerquei pela primeira vez da questão dos judeus.  
Na definição do espírito do capitalismo moderno, os autores concordam em um terreno  
da negação, na definição do que não é o espírito do capitalismo, a saber, uma mentalidade  
2
“A perspectiva sociológica, inscrita nas pesquisas dos dois sociólogos alemães, é fiel a uma concepção de  
sociedade que privilegia o sentido e o significado da ação e interação humana na construção e manutenção de  
ordens sociais (especificamente como foi construído e ordenado o capitalismo ocidental)” (Villas Bôas, 2001, p. 175).  
3 Em Der Bourgeois, Sombart (1972) aprofunda e expande a sua história espiritual do homo oeconomicus moderno.  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
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econômica pré-capitalista ou tradicionalista fortemente associada à rigidez do feudalismo e das  
ordens corporativas, ao estilo de vida camponês e artesão, e ao catolicismo. Para Sombart (2014,  
p. 187), na mentalidade pré-capitalista, “o ser humano está no centro também dos interesses  
econômicos”. A “ideia do ganha-pão” exprime a “intenção” de que “mediante sua atividade  
bem ou mal conduzida, produtor e comerciante ganhem a subsistência que corresponde ao seu  
estamento...” (Sombart, 2014, p. 188). A “busca irrefreada e irrestrita do lucro” é tomada como  
pecaminosa e “‘não cristã’, pela maioria dos sujeitos econômicos”, “ainda não se cogitava  
desprender o mundo econômico do conjunto da associação moral-religiosa” (Sombart, 2014, p.  
188-189). Detestava-se e considerava-se “imoral” captar clientes e “tirar os compradores do seu  
vizinho” (Sombart, 2014, p. 191). “O ato de ‘oferecer a preço menor’, o ‘underselling’, era tido,  
em todas as suas formas, como indecoroso” (Sombart, 2014, p. 194, grifo do autor).  
Tal como na simples fórmula M-D-M de Marx (2008), “a aquisição de bens de consumo  
continua sendo o fim de toda a atividade econômica, e a pura produção de mercadorias ainda  
não chegou a ser seu conteúdo” (Sombart, 2014, p. 196). Importa sobretudo garantir o sustento,  
“produzir boas mercadorias” e fazer prevalecer “a ideia do preço justo”, qual seja, “determinar  
o preço de acordo com os custos e o trabalho com que o produtor (comerciante) teve de arcar...”  
(Sombart, 2014, p. 196-197, grifo do autor). Esse “mundo bem ordenado” (Sombart, 2014, p.  
199) era circundado por muros que impediam o florescimento do “princípio puramente  
capitalista de que unicamente o valor de troca das mercadorias é decisivo para o empreendedor”  
(Sombart, 2014, p. 196), e a “formação do preço” continuava subordinada a uma “potência ética  
(não como mais tarde uma ‘lei da natureza’)” (Sombart, 2014, p. 198).  
Weber, citando diretamente Der Moderne Kapitalismus, define esse espírito como  
“sistema de economia de satisfação das necessidades” e, desde que aí se entenda necessidade  
como necessidade tradicional, tem-se o que Weber (2004, p. 56) concebe como  
“tradicionalismo econômico”, do levar “a vida da mão para a boca” (Weber, 2004, p. 67),  
imagem que atesta a plena convergência, nesse aspecto, com aquela “mentalidade econômica  
construída sobre o princípio do ganha-pão” (Sombart, 2014, p. 228). Se a relação entre  
catolicismo e tradicionalismo econômico e os atributos dessa relação nos dão um consenso, um  
mesmo quadro pintado por Weber e Sombart, as diferenças começam na avaliação que cada um  
tem sobre a importância dos judeus para a gênese da mentalidade econômica capitalista ou  
simplesmente, para usar um léxico compartilhado por ambos, do “racionalismo econômico”  
como “motivo fundamental da economia moderna” (Weber, 2004, p. 67).  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
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A diferença básica é que, para Sombart, a mentalidade econômica judaica engendra um  
“fundamentalmente novo modo de ver as coisas”, é nela que se encontra a gênese do “espírito  
moderno’ que hoje domina inteiramente os sujeitos econômicos” (Sombart, 2014, p. 232).  
Enquanto para Weber, se os judeus de fato descrevem um espírito capitalista, esse espírito não  
pode ser pensado como moderno, mas como um outro tipo de tradicionalismo econômico.  
Segundo Weber, como se sabe, não foi o judaísmo, mas as “concepções religiosas fundamentais  
do protestantismo ascético” (Weber, 2004, p. 141) ou simplesmente a “concepção puritana de  
vida” que “fez a cama para o ‘homo oeconomicus’ moderno” (Weber, 2004, p. 158). Essa  
demarcação é importante menos do ponto de vista estrito de uma sociologia da religião do que  
para percebermos diferentes definições do que é uma conduta ou racionalidade capitalista  
tipicamente moderna.  
Para Sombart (2014, p. 203, grifo do autor), o judeu se destaca, “primeiramente”, como “o  
homem mais puramente de negócios, como o homem de negócios dedicado exclusivamente aos  
negócios, como aquele que, no espírito da economia autenticamente capitalista, reconhece o  
primado da finalidade aquisitiva sobre toda e qualquer finalidade natural”. O judeu é pintado como:  
o representante da mentalidade econômica voltada exclusivamente para o ganho  
pecuniário. O que o diferenciava dos cristãos não era o fato de ele “praticar a usura”,  
não era o fato de ele almejar o lucro, não era o fato de acumular riquezas, porém o  
fato de não fazer isso de modo dissimulado, mas totalmente aberto e, além disso,  
professar todas essas coisas. E o fato de perseguir o seu interesse comercial de modo  
inescrupuloso e impiedoso (Sombart, 2014, p. 205).  
Povo nômade, os judeus eram indiferentes às “divisórias legais que separavam uns dos  
outros os ofícios individuais” (Sombart, 2014, p. 210) – o que contrasta de modo flagrante com  
o tradicionalismo luterano destacado por Weber (2004). Atravessando barreiras estamentais,  
nacionais, consuetudinárias e legais, a mentalidade econômica judaica, nas tintas de Sombart,  
é afim ao capitalismo em sua tendência antilocalista e globalizante4. Sob o primado da  
finalidade aquisitiva e pecuniária, o espírito capitalista judaico “viola seguidamente” o  
princípio de “não tirar os clientes do vizinho”, sempre “à espreita dos vendedores ou  
compradores” (Sombart, 2014, p. 210), alcunhada por Sombart (2014, p. 216) de métodos de  
“captação exterior de clientes” (216) – ou “negócios de arrancar as mangas da camisa”  
4
“No aspecto exterior, eles [os judeus] contribuíram essencialmente para que as relações econômicas  
internacionais adquirissem o seu cunho atual, mas também para que o Estado moderno esse invólucro do  
capitalismo pudesse erguer-se a seu modo” (Sombart, 2014, p. 40). Esses aspectos exteriores são analisados  
detidamente nos capítulos III, IV, V e VI de “Os Judeus e A Vida Econômica”.  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
121  
(Sombart, 2014, p. 213) –, que antecipam a criação do “anúncio comercial e a “propaganda de  
negócios” moderna (Sombart, 2014, p. 192, grifo do autor).  
Tão importante quanto a “captação exterior” é a “captação interior de clientes”,  
sobretudo através da “oferta por um preço mais baixo” (Sombart, 2014, p. 216, grifo do autor).  
Para além das contingências puramente individuais e na busca sempre de uma “mentalidade  
econômica tipicamente judaica” (Sombart, 2014, p. 225), Sombart pergunta-se quais são as  
razões para os preços mais baixos oferecidos pelos judeus. Uma primeira resposta capta  
uma certa indiferença diante dos meios necessários para atingir a meta do negócio.  
Perdem força tanto a consideração dos valores pessoais dos outros quanto o respeito  
pela ordem legal e social, assim como o ater-se à orientação natural na hora de adquirir  
bens, passando a ser dominados pela concepção exclusivamente orientada no valor de  
troca, puramente crematística da tarefa do negociante (Sombart, 2014, p. 225).  
Em curta frase, Sombart (2014, p. 225, grifo do autor) detecta na ação econômica judaica  
os “primórdios” da “tendência para o ganho inescrupuloso, inerente ao capitalismo”. Tal  
tendência, indiferente aos instrumentos que levam ao lucro comercial, articulam-se a “meios  
capazes de acarretar um barateamento real do objeto”, “métodos de barateamento” que “ajudam  
a reduzir os custos de produção das mercadorias” (Sombart, 2014, p. 226). Dentre esses  
métodos “empregados – e, pelo visto, primeiro – pelos judeus”, estão: menores exigências de  
qualidade em relação ao produto, “redução do salário pago às pessoas (trabalhadores)  
envolvidas na produção, ou então organizando de modo mais produtivo e, portanto, mais barato  
os métodos de produção e vendas” (Sombart, 2014, p. 226). Essas passagens são importantes  
porque revelam que o espírito capitalista moderno ligado geneticamente à mentalidade  
econômica judaica não se limita à esfera comercial, mas adentra a esfera da produção. Para  
Sombart (2014, p. 229), os judeus “foram os primeiros a se servir com consciência, com base  
em ponderações racionais, das novas formas de produção, assim como fizeram com as novas  
formas de comércio”. Logo, trata-se de racionalização da produção e do comércio para redução  
dos custos de produção e preços e, assim, ao monopolizar determinado ramo, poder determinar  
mais livremente a margem de lucro.  
Assim como Weber, Sombart busca as origens do espírito capitalista moderno antes da  
formação de uma ordem social propriamente capitalista, naquilo que chama de “época pré-  
capitalista” (Sombart, 2014, p. 232), sobretudo os séculos XVII e XVIII. E é na “mentalidade  
econômica judaica” que captura um conjunto de atributos fundamentalmente moderno, “nada  
há nele que o moderno homem de negócios não consideraria obviamente correto, nada há nele  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
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que não constitui o pão de cada dia de toda a moderna gestão de negócios” (Sombart, 2014, p.  
232). E continua, se nos permitem uma tão longa quanto importante citação:  
O que o judeu defendeu em todos esses séculos diante das ideias dominantes foi a  
concepção fundamentalmente individualista da economia; que a esfera de atuação do  
sujeito econômico individual não estaria limitada por qualquer norma objetiva nem  
para cima nem para baixo, nem quanto ao volume de vendas, nem quanto à  
estruturação das profissões; que cada sujeito econômico a todo tempo precisaria  
reconquistar sua posição e teria de defendê-la contra ataques; mas que ele também  
teria o direito de, às custas de outros, conquistar um espaço de manobra tão grande  
quanto suas forças possibilitarem; que as armas para isso residiriam essencialmente  
na esfera intelectual: manha, esperteza, astúcia; que, na luta da concorrência  
econômica, nada haveria a levar em consideração além do código penal; que todos os  
processos econômicos devem ser organizados pelo indivíduo à sua maneira do modo  
mais funcional possível. O que se impôs vitoriosamente por esse meio nada mais é  
que as ideias do “livre comércio”, da “livre concorrência”, é o racionalismo  
econômico, é o puro espírito capitalista, é justamente a mentalidade econômica  
moderna, em cuja formação definitiva os judeus desempenharam, portanto, um papel  
importante, se não o papel decisivo (Sombart, 2014, p. 232-233).  
Não é essa a opinião de Weber, que faz um explícito corte histórico e tipológico-  
conceitual para pensar o espírito do capitalismo. A mentalidade econômica judaica, de um  
Jakob Fugger (1459-1525), por exemplo, estaria associada, para Weber, a um espírito  
capitalista tradicionalista e predatório, do capitalista aventureiro ou pária,  
do capitalismo dos usurários, financiadores de guerras, arrendatários dos cargos  
públicos e da coleta de impostos, dos grandes mercadores e dos magnatas das  
finanças, dispersos pelo mundo há três milênios já, na China, na Índia, na Babilônia,  
na Grécia, em Roma, em Florença, até os dias de hoje (Weber, 2004, p. 181, nota 43).  
Tal espírito se destacaria pela “absoluta falta de escrúpulos na afirmação do interesse  
pessoal”, pelo “liberum arbitrium indisciplinado”, pelo “ganho desbragado, sem vínculo  
interno com norma nenhuma” (Weber, 2004, p. 50, grifo do autor). Aqui se estabelece uma  
nítida descontinuidade entre a ética interna (válida para o grupo ou comunidade de  
pertencimento) e uma (não) ética externa (na qual todos os meios são válidos em nome da auri  
sacra fames). De um ponto de vista histórico, esse espírito predatório é associado, por um lado,  
ao período violento da assim chamada acumulação primitiva (Marx, 2008), que envolve tanto  
os enclosures (cercamentos) internos à Europa como a expropriação colonial. Um capitalismo,  
nas palavras de Weber (2004, p. 163), da “constituição social ‘orgânica’ de formato fiscalista-  
monopolista adotada na Inglaterra sob os Stuart”, marcado pela “aliança do Estado e da Igreja  
com os ‘monopolistas’ sobre a base de uma infra-estrutura social-cristã”, “espécie de  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
123  
capitalismo de comerciantes, subcontratadores e mercadores coloniais, um capitalismo  
sustentado pelo Estado”.  
A associação entre a expropriação colonial exclusivamente a esse espírito capitalista  
tradicionalista e predatório, numa oposição direta a Sombart5, é reforçada na “História  
Econômica Geral”, ao afirmar que “a acumulação de riquezas, como produzida pelo comércio  
colonial, possui isso deve ser ressaltado em oposição a W. Sombart uma importância  
pequena para o desenvolvimento do capitalismo moderno”, por ser uma acumulação baseada  
no “princípio predatório” e que não “fomentou a maneira especificamente ocidental da  
organização do trabalho” (Weber, 2006, p. 43).  
Contra tudo isso, o espírito capitalista moderno, para Weber (2004, p. 181, nota 43, grifo  
do autor) é, exclusivamente, o da “empresa racional moderna específica do Ocidente”, que se  
desenvolveu na Europa Ocidental e na América do Norte. E, como se sabe, tem seu terreno de  
gênese não na mentalidade econômica judaica, mas nos efeitos práticos da doutrina calvinista  
sobre os fiéis das diferentes seitas que a assimilaram seletivamente6. Embora a salvação da alma  
seja o fim último, a fonte ética calvinista conforma, como consequência imprevista, um tipo de  
conduta econômica moderna que visa ao “sucesso econômico” desde que de “forma legal”, no  
exercício do dever profissional e “no resguardo de todo gozo imediato do dinheiro ganho”  
(Weber, 2004, p. 46-47). Contra os meios inescrupulosos e predatórios, o “racionalismo  
econômico” – desdobramento de uma “metódica da conduta de vida ética” (Weber, 2004, p.  
113, grifo do autor) protestante baseia-se no “cálculo aritmético rigoroso” e na gerência  
“planejada e sóbria” (Weber, 2004, p. 67, grifo do autor) de todos os fatores envolvidos na  
produção e no comércio. Diferente do que vimos em Sombart, Weber não percebe a  
conformação de um racionalismo econômico na conduta assistemática e predatória da  
mentalidade econômica judaica.  
5 Escreve Sombart (2014, p. 49) em 1911: “Estamos começando a reconhecer claramente que o meio da expansão  
colonial não está entre as razões de menor importância que levou ao florescimento do capitalismo moderno”; Ou:  
“A formação da economia colonialista moderna e o surgimento do Estado moderno são dois fenômenos que se  
condicionam. Um não pode ser concebido sem o outro, e igualmente dependente dos dois, é, por sua vez, a gênese  
do capitalismo moderno” (Sombart, 2014, p. 73).  
6 Sugerimos, inclusive, que o capítulo IV de Os Judeus e a Vida Econômica, cujo título é “A fundação da economia  
colonialista moderna”, pode ser lido inteiramente como um contraponto ao ensaio de Weber (1982a) sobre “As  
seitas protestantes e o espírito do capitalismo”, no qual Weber reflete mais detidamente sobre o nexo entre  
protestantismo e capitalismo nos EUA. Em seu capítulo, Sombart (2014, p. 67) chega a afirmar que “aquilo que  
chamamos de americanismo, em grande parte, nada mais é que o espírito judeu coagulado”.  
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Capitalismo moderno é, para Weber (2004, p. 51, grifo do autor), “valorização racional  
do capital no quadro da empresa e a organização capitalista racional do trabalho [como]  
potências dominantes na orientação da ação econômica”. E o espírito que animou a emergência  
e consolidação dessa ordem não foi portado por “especuladores” nem “ricaços”, mas por  
“homens criados na dura escola da vida, a um só tempo audazes e ponderados, mas sobretudo  
sóbrios e constantes, sagazes e inteiramente devotados à causa, homens com visões e  
‘princípios’ rigorosamente burgueses” (Weber, 2004, p. 62, grifo do autor). Entre “os  
anabatistas, especialmente os quakers”, assim como em Benjamin Franklin, vê-se a  
“comprovação prática daquele importante princípio da ‘ética’ capitalista que se usa formular  
assim: honesty is the best policy...” (Weber, 2004, p. 137).  
Essas passagens são suficientes para perceber a dicotomia, realizada por Weber, e  
acentuada na edição de 1920 de “A Ética”, entre, de um lado, uma “ética econômica do  
judaísmo” atrelada ao “capitalismo ‘aventureiro’ politicamente orientado ou de orientação  
especulativa”, o “ethos” do “capitalismo-pária” e, do outro lado, a ética econômica do  
puritanismo, que é o “ethos da empresa racional burguesa e da organização racional do  
trabalho”, e “que tomou da ética judaica só o que cabia nesses horizontes” (Weber, 2004, p.  
151, grifo do autor). Para Sombart (2014, p. 1), em uma assimetria flagrante, “o resultado de  
um exame preciso da argumentação weberiana foi que todos aqueles componentes do dogma  
puritano, que me parecem ter real importância para a formação do espírito capitalista,  
constituem empréstimos da esfera de ideias da religião judaica”.  
Se Weber e Sombart convergem em suas construções tipológicas do espírito  
tradicionalista católico, estamental, corporativo, camponês, pré e anticapitalista, os autores  
divergem fundamentalmente em seus tipos do espírito capitalista moderno. Em Sombart, não  
há qualquer incompatibilidade entre racionalismo (nas esferas produtiva e comercial),  
predação, espoliação e especulação. Não por acaso, o autor investigou detidamente os nexos  
estreitos e necessários entre capitalismo, colonialismo, luxúria e guerra7. Weber, por sua vez,  
buscou sistematicamente estabelecer uma descontinuidade entre capitalismo pária e capitalismo  
moderno, entre princípio predatório e racionalismo econômico, purificando a conduta  
capitalista tipicamente moderna daquela “tendência para o ganho inescrupuloso” salientada por  
7 Para uma síntese ver Graça (2022) e, principalmente, Adair-Toteff (2024).  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
125  
Sombart (2014, p. 225, grifo do autor), e opondo diretamente a ordem capitalista moderna, de  
um lado, à barbárie colonial e aos violentos processos de cercamentos, do outro8.  
A questão que nos interessa é: Como Florestan Fernandes, nas linhas e entrelinhas das  
suas interpretações do Brasil, dialoga com esses tipos ou expressões da racionalidade capitalista  
moderna?  
O espírito do capitalismo revisto desde a periferia  
Certamente não encontraremos uma abordagem das expressões da racionalidade  
burguesa nos escritos mais exclusivamente teórico-metodológicos de Fernandes, nem em seus  
estudos sobre o folclore e de reconstrução histórico-etnológica da organização social e da  
função da guerra entre os Tupinambá. É quando investiga especificamente o Brasil moderno e  
contemporâneo que Fernandes abre a mesa de chão para de algum modo acessar as formas de  
manifestação do espírito capitalista entre nós.  
Na virada dos anos 1950 para os anos 1960, Florestan está interessado não somente em  
encontrar o espírito capitalista moderno, em seus atributos típicos, no Brasil. Seus horizontes  
intelectuais e políticos tateiam, igualmente, na busca das tendências exteriores (problemas da  
ordem e institucionais) e interiores (problemas da ação e espirituais) que podem tanto  
favorecer como obstruir, em nossa formação socionacional, um projeto de descolonização  
efetiva, de desenvolvimento, de integração sistêmica e social, de revolução dentro da ordem  
(como chamará posteriormente).  
Essa busca pelos dois tipos de tendências é evidente no próprio título do texto  
apresentado em 1959 no “Seminário sobre resistências à mudança: fatores que dificultam ou  
impedem o desenvolvimento”, promovido pelo Centro Latino-Americano de Pesquisas em  
Ciências Sociais (CLAPCS): “Atitudes e Motivações Desfavoráveis ao Desenvolvimento”.  
Cumpre observar, preliminarmente, que não se trata de tarefa fácil extrair da obra de Florestan  
o que a tradição alemã da Verstehen chama de fatores internos ou espirituais da dinâmica socio-  
histórica. Em sua obra, ou melhor, em seus “diagnósticos do presente”, feitos a partir do mirante  
periférico, os problemas típicos da teoria social (Giddens, 2003; Alexander, 1987; Joas; Knöbl,  
8
Esses polos dicotomizados por Weber constituem as duas faces que, unidas, formam o espírito capitalista para  
Sombart: o espírito de empresa e o espírito burguês. Conforme sintetiza em “O Burguês”: “el espíritu de empresa  
es una síntesis de codicia, espíritu aventurero, afán descubridor y algún que otro ingrediente más; el espíritu  
burgués se compone de prudencia reflexiva, circunspección calculadora, ponderación racional y espíritu de orden  
y de economía. (En el tejido polícromo del espíritu capitalista el espíritu burgués representa la trama de algodón y  
el espíritu de empresa la urdimbre de seda.)” (Sombart, 1972, p. 30).  
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2017; Vandenberghe, 2012) são pensados de modo intrincado. Em um mesmo gesto de  
pensamento e escritura, trata-se sempre de capturar, dos níveis mais abstratos aos mais  
concretos, a articulação entre “ordem” e “ação” para pensar, eclodir e planejar a “mudança”  
social em um sentido progressivo. Como já escreve em 1959, Fernandes (2008a, p. 295) encara  
“as atitudes e motivações sociais em termos de suas vinculações com a estrutura, o  
funcionamento e as tendências de diferenciação do sistema social”.  
Dito isto, o nosso propósito neste texto é, na medida do possível, pensar o problema  
espiritual relativo à racionalidade e à ação tipicamente capitalistas na obra de Florestan  
Fernandes, muito embora isso nem sempre seja possível. Essa impossibilidade já se faz notar  
de imediato, pois é a partir do conceito de “mudança social”, formalizado em 1959, que temos  
os primeiros elementos para rastrear o problema do espírito capitalista em seus textos. Para falar  
em atitudes e motivações (des)favoráveis ao desenvolvimento, Fernandes vê como necessário  
estabelecer, a princípio, um mínimo de clareza em relação às premissas conceituais que devem  
ser trabalhadas. Afinal, o que é para uma sociologia que busca desvencilhar-se de influências  
primeiras demasiado organicistas e teleológicas – “mudança”, “desenvolvimento” e “evolução”  
sociais?  
Mudança social aplica-se “a quaisquer espécies de alterações do sistema social, vistas  
independentemente de condições particulares de tempo e de espaço” (Fernandes, 2008a, p.  
290). A mudança “pode ser progressiva ou regressiva” e é “de sua qualidade que depende a  
caracterização do desenvolvimento social”, que se “manifesta sempre que determinado sistema  
social sofra modificações relevantes para a realização do tipo social que lhe seja inerente ou  
para o qual tende de forma irreversível” (Fernandes, 2008a, p. 290, grifo do autor). O conceito  
de evolução social, por sua vez, “apreende os processos de mudança social progressiva no nível  
supra-histórico, no qual se pode abstrair os fenômenos de formação, duração e sucessão dos  
tipos sociais” (Fernandes, 2008a, p. 290).  
Logo, do mais abstrato ao concreto, temos a mudança social (nível supra-histórico,  
passível de progressão ou regressão), a evolução social (nível supra-histórico, mas referente  
exclusivamente a dinâmicas progressivas na sucessão de tipos sociais, por exemplo a passagem  
da ordem estamental para a ordem competitiva) e desenvolvimento social (nível histórico,  
análise do estado e dinâmica de um determinado sistema social a partir dos requisitos de um  
tipo social específico, por exemplo, a ordem social da sociedade de classes). É a partir de Weber  
(principalmente “A Ética” e “História Econômica Geral”) que Fernandes nos fala da “autêntica  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
127  
revolução no horizonte cultural do homem médio” que ocorreu no “‘ponto zero’ da formação e  
emergência” da “ordem social da sociedade de classes” (Fernandes, 2008a, p. 296). Revolução  
cultural operada em dois planos:  
De um lado, surgiram tendências inconformistas na avaliação dos comportamentos  
rotineiros e tradicionais, das instituições e dos valores ‘sagrados’ ou intangíveis, que  
conformavam o presente pelo passado e impediam a renovação econômica, cultural e  
social das condições de vida. De outro, está o surto de uma mentalidade prática, que  
levou o homem a refletir sobre os elementos e as forças do meio social ambiente  
segundo critérios utilitários de teor crescentemente racional (Fernandes, 2008a, p.  
296-297)9.  
Trata-se, como é perceptível, daquele “racionalismo da dominação do mundo”,  
conceituado na sociologia weberiana da religião. Essa revolução cultural, em seu  
desdobramento, permitiu tanto um espraiamento significativo da conduta individualista –  
secularizada, planejada e utilitária – como o desenvolvimento das três principais “modalidades  
de conhecimento” (Fernandes, 2008a, p. 299): de “natureza prática” (esfera do político), de  
“natureza teórica” (desenvolvimento do método científico) e de “natureza técnica” (aplicada às  
mais diversas esferas e âmbitos sociais) para lidar com os problemas complexos da mudança  
social.  
Em uma ordem social que “repousa em um padrão de equilíbrio instável”, por ter a  
mudança como atributo rotineiro e “peça fundamental para o equilíbrio ou a continuidade das  
condições normais de vida” (Fernandes, 2008a, p. 301), não há, entretanto, qualquer  
mecanicismo ou automatismo no processo de generalização, para amplas coletividades, dos  
atributos daquela revolução cultural e dos ativos promovidos pelos desenvolvimentos político-  
institucionais, científicos e técnicos. É só “no plano simbólico” que “os ideais de vida e de  
segurança social da sociedade de classes possuem universalidade e eternidade” (Fernandes,  
2008a, p. 301, grifo do autor). O domínio ou controle das forças sociais, nucleado em torno do  
critério de eficácia, louvado como signo do moderno, desdobra-se em “graus variáveis de  
universalização das garantias sociais, de supressão das fontes sociais de alienação da pessoa  
humana etc.” (Fernandes, 2008a, p. 302). Mais importante, o controle das forças sociais e  
9
Tönnies e Sombart deste principalmente as obras Il Borghese, edição italiana, e El Apogeo del Capitalismo,  
edição mexicana de Der moderne Kapitalismus são mobilizados para afirmar que esses atributos continuaram  
válidos e se ampliaram para além do “ponto zero” ou gênese da ordem social da sociedade de classes. Entretanto,  
Sombart é acusado de erro de “delimitação histórica” em sua análise sobre o apogeu do capitalismo, que deveria,  
segundo Fernandes, ser retificada pela sociologia industrial, do trabalho e da burocratização (Fernandes, 2008a,  
nota 8, p. 298-299).  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
128  
daqueles graus de universalização “pode ser facilmente manipulado por camadas com posições  
estratégicas na estrutura de poder das instituições ou das associações, o que lhes confere a  
possibilidade de graduar ou de reter o fluxo das inovações e seus efeitos diretos sobre a  
reconstrução da ordem social” (Fernandes, 2008a, p. 302).  
Mesmo em texto marcado por significativo otimismo na mudança social progressiva10,  
Fernandes já expressa um motivo que atravessa boa parte dos seus textos posteriores: a  
possibilidade sempre aberta de controle e manipulação da mudança social, sua direção, seu  
ritmo e sua amplitude, por parte das camadas dominantes de uma formação social particular. É  
a partir dessas premissas que o sociólogo paulista pode tratar dos elementos espirituais  
referentes ao desenvolvimento, mais precisamente, do que chama de atributos psicossociais. Se  
a mudança social pode ser progressiva ou regressiva, as atitudes e motivações que orientam os  
agentes individuais e coletivos podem ser tanto favoráveis como desfavoráveis ao  
desenvolvimento quando tomado em um sentido progressivo, ou seja, no sentido da realização  
dos requisitos ideais da ordem social da sociedade de classes (um tipo social). As atitudes e  
motivações “que se incluem entre os fatores psicossociais que exercem uma função construtiva  
na diferenciação e na reintegração” (Fernandes, 2008a, p. 314) dessa ordem social são tomadas  
como “favoráveis”. Isso, claro, em um nível de definição altamente abstrato, afinal, se a ordem  
social da sociedade de classes ganha concretude variável no espaço e no tempo, também o  
critério do que é favorável e desfavorável ao desenvolvimento no nível da agência ganha  
padrões socio-históricos diversos.  
Com efeito, numa dada situação, as mesmas atitudes e motivações podem ser tomadas  
como favoráveis ou desfavoráveis dependendo do ângulo de observação. Fernandes (2008a, p.  
316, grifo nosso) exemplifica com a “estrutura econômica da sociedade brasileira”, na qual as  
“margens demasiado amplas de lucro constituem condições negativas à racionalização do  
comportamento econômico na empresa capitalista”, “concentram a atenção do empresário na  
defesa do status quo, para garantir vantagens que tendem a ser convertidas em ‘privilégios’”,  
“e estimulam a valorização de uma mentalidade e de técnicas de organização econômicas que  
transformam o empresário em símile humano da ave de rapina”. Isso se desdobra na  
10  
“No conjunto, porém, a mudança produzida pela capacidade do agente humano de lidar com as forças  
domesticadas do meio social é posta a serviço de ideais coletivos que valorizam o progresso material, social e  
moral do homem. A mudança converte-se em verdadeira técnica social, inserida no pensamento inventivo como  
um recurso destinado a introduzir aperfeiçoamentos progressivos em todos os campos em que a atividade humana  
se desenrola de forma socialmente organizada” (Fernandes, 2008a, p. 302, grifo do autor).  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
129  
articulação da organização empresarial com “padrões pré ou anticapitalistas de vida  
econômica” e “no agravamento da distribuição desigual da renda com suas consequências  
negativas inevitáveis seja para a expansão interna de uma economia de mercado, seja para a  
formação de condições essenciais à democratização da riqueza, da cultura e do poder”  
(Fernandes, 2008a, p. 316-317). Se esses aspectos atestam claramente os efeitos negativos e  
desfavoráveis ao desenvolvimento, de outra perspectiva, “nas circunstâncias em que emergem e  
se mantêm, as mesmas atitudes e motivações inspiram decisões práticas compatíveis com o  
crescimento econômico em condições extremamente adversas à empresa capitalista”,  
preenchendo “funções construtivas” para o “desenvolvimento econômico”, pois “orientam a ação  
econômica no sentido de transpor os efeitos devastadores da inflação secular sobre a vitalidade  
das empresas e de dar continuidade ao processo de capitalização” (Fernandes, 2008a, p. 317).  
Mais à frente no texto, Fernandes (2008a, p. 320, grifo nosso) caracteriza esse aparente  
paradoxo da ação empresarial no Brasil simultaneamente desfavorável e favorável ao  
desenvolvimento – como um “produto híbrido, em que atitudes racionais correspondem a  
motivações irracionais ou vice-versa”. Mais precisamente, emerge um  
padrão híbrido de desenvolvimento social, mantido pela confluência de atitudes e  
motivações contraditórias, que contribui para retardar o ritmo da mudança social  
progressiva e para aumentar o período de desintegração transitória da vida social  
organizada. Isso faz com que o “progresso social” se transforme numa forma de  
devastação de recursos e num sorvedouro de energias (Fernandes, 2008a, p. 321,  
grifo nosso).  
Alongamo-nos na síntese do texto de 1959 por ser ele decisivo em dois principais  
sentidos: primeiramente, por ancorar explicitamente os problemas espirituais ou da agência das  
camadas dominantes, sob o léxico das atitudes e motivações (econômicas e extraeconômicas),  
em uma teoria social mais ampla da ordem social (a ordem social da sociedade de classes) e da  
mudança social (como atributo intrínseco a essa ordem social); em segundo lugar, o texto  
concentra as perspectivas que são bifurcadas nos textos de 1962, analisados a seguir. No  
primeiro, lança-se sobretudo uma agenda de investigação interessada nas atitudes e motivações  
“favoráveis” ao desenvolvimento brasileiro; no segundo, o diagnóstico das atitudes e  
motivações “desfavoráveis” ganha um tom e um conteúdo radicalmente críticos.  
Uma caça aos atributos do espírito capitalista moderno entre nós, aquele do racionalismo  
econômico, mas que também seria capaz de atar as linhas desencontradas do  
“desenvolvimento” e da “nação”, é notável nos projetos de pesquisa do Centro de Sociologia  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
130  
Industrial e do Trabalho (CESIT)11. No projeto de maior envergadura, “Economia e Sociedade  
no Brasil: Análise Sociológica do Subdesenvolvimento” (de 1962), a investigação da  
“mentalidade do empresário industrial” é predicada como “elemento decisivo para a  
compreensão do crescimento econômico e das tendências de consolidação da ordem social  
competitiva na sociedade brasileira” (Fernandes, 1976a, p. 318). Na proposta de pesquisa,  
Florestan faz uma distinção entre a “Fase Pioneira Liberal” e a “Era do Planejamento” para  
pensar a ação do empresário industrial. Na primeira, “a capacidade de improvisação, a audácia  
e até certas disposições predatórias eram essenciais para o êxito do empresário e a consolidação  
da empresa. [...] Como tudo estava por desbravar, o mais brutal individualismo conciliava-se  
com os interesses de inovação econômica da coletividade” (Fernandes, 1976a, p. 323, grifo do  
autor). Na Era do Planejamento, em claro contraste,  
as próprias condições de segurança na expansão da livre-empresa começam a exigir  
uma compreensão menos egoísta, irracional e imediatista dos interesses envolvidos  
nas transações econômicas, forçando os empresários a atentar para os problemas  
relacionados à especialização econômica, à reprodutividade das inversões, aos efeitos  
induzidos pela modernização tecnológica, à diferenciação e à integração do sistema  
econômico nacional, à consolidação da ordem social competitiva e à estabilidade que  
ela poderia assegurar à livre-empresa, etc. (Fernandes, 1976a, p. 324).  
Sem qualquer intenção de apontar para processos inexoráveis, em busca de justificar a  
importância crucial do projeto de pesquisa, Florestan delineia quatro principais tendências  
significativas de aprofundamento da ordem social competitiva e, logo, do racionalismo  
econômico entre nós: 1) a ampliação da “camada dos managers, altos funcionários de direção  
nas indústrias”; 2) a “melhoria gradual das qualificações intelectuais básicas”; 3) a  
“transplantação”, via capital externo, “de modelos” avançados “de organização institucional,  
de técnicas e de especialistas” e, por fim, 4) “a racionalização progressiva dos modos de  
entender e de lidar com os ‘assuntos práticos’ no âmbito da empresa, da economia de mercado  
e da política econômica” (Fernandes, 1976a, p. 324-325).  
A partir dos resultados da seção anterior, vê-se uma convergência entre a chamada “Fase  
Liberal” e os atributos do espírito capitalista sombartiano (tomados por Weber como típicos do  
capitalismo pária), em que o racionalismo econômico se alia ao ímpeto predatório e aventureiro,  
enquanto a “Era do Planejamento” guarda fortes afinidades com o espírito capitalista  
11 Para uma análise mais aprofundada do CESIT e dos seus projetos de pesquisa, ver Romão (2006) e Silva (2021).  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
131  
weberiano, marcado por um tipo de ética da responsabilidade (para remeter ao léxico de Weber,  
1982b) e do planejamento.  
Para quem não conhece o texto de 1959, poderia parecer contraditório e incoerente que  
o projeto “Economia e Sociedade no Brasil” seja do mesmo ano (1962) do texto “Reflexões  
sobre a mudança social no Brasil”. Em um sentido assimétrico ao primeiro, que captura  
sobretudo os índices espirituais do desenvolvimento da ordem social competitiva no Brasil, em  
“Reflexões” fica claro que, antes de 1964, Florestan já havia passado por experiências  
importantes que foram paulatinamente alterando a sua forma de conceber a ação econômica  
capitalista em nossos tristes trópicos. Ao vivenciar a reação virulenta da igreja e dos setores  
empresariais à Campanha em Defesa da Escola Pública, da qual participou entusiasticamente,  
o sociólogo chega, nesse momento, a uma percepção aguda de que as próprias “forças sociais  
inovadoras”, supostamente modernizantes, apresentam uma “resistência residual ultra-intensa  
à mudança social, que assume proporções e consequências sociopáticas” (Fernandes, 1976b,  
p. 211, grifo do autor). Nesse texto, tudo se delineia como se, ao contrário das tendências de  
ampliação do racionalismo econômico da “Era do Planejamento”, prevalecesse aquele tipo de  
ação predatória e de “motivos e interesses egoísticos, que operam segundo os dinamismos da  
velha ordem social patrimonialista” (Fernandes, 1976b, p. 206).  
Sem carregar nas cores, temos aí um retrato da situação brasileira atual. Forças  
empenhadas em conservar não se sabe o quê; um clima de transigências e  
acomodações que favorecem e revigoram essas forças; e o produto conjugado de tudo  
isso: a estagnação ou a inovação pervertida, conquistada a duras penas e a custo de  
um preço tal que arruína pela base a ordem financeira e a ordem moral do regime  
estabelecido (Fernandes, 1976b, p. 207).  
A participação na Campanha em Defesa da Escola pública e a experiência das reações  
violentas contra movimentos de democratização e reforma exigiram “pela primeira vez em  
minha vida”, escreve Fernandes (1980, p. 200, grifo do autor), em esboço autobiográfico:  
definir a consciência burguesa em termos de uma equação concreta, que me ensinava  
que o controle burguês da sociedade civil estava bloqueando e continuaria a bloquear  
de modo crescente, no Brasil, a revolução nacional e a revolução democrática de  
recorte especificamente capitalista.  
Trata-se, assim, de um momento decisivo na trajetória de Fernandes, por evidenciar a  
inexistência, no capitalismo subdesenvolvido, de qualquer vínculo necessário entre  
racionalidade burguesa e efeitos positivos, previstos ou imprevistos, na integração e  
democratização sociais e nacionais; ou, para usar a terminologia de 1959, por evidenciar o  
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132  
divórcio entre ação burguesa e o desenvolvimento social progressivo. Pelo contrário, é  
sobretudo o signo da reação e do “regresso” que aparece nitidamente dois anos antes do golpe  
empresarial-militar de 1964.  
Em “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, por sua vez, é incluído um  
elemento inteiramente original no cotejo com o espírito capitalista moderno em Sombart e  
Weber. Em sua clássica tese de cátedra, defendida em 1964, Florestan já aventa “a possibilidade  
de uma conciliação entre as formas de desigualdade inerentes à sociedade de classes e os  
padrões herdados de desigualdade racial” (Fernandes, 1978, p. 461) e, logo, como ficará ainda  
mais evidente em textos posteriores – a exemplo de “Os aspectos políticos do dilema racial  
brasileiro” (de 1971-1972) vê-se configurando um “tipo de capitalismo” e de espírito do  
capitalismo que “não pode prescindir da concentração racial da renda e do poder (e, em  
consequência, das formas pré ou subcapitalistas de exploração e de expropriação econômicas e  
de dominação política que ela envolve)” (Fernandes, 2007, p. 305).  
Ao contrário de um conjunto de leituras (Hasenbalg, 1979; Motta, 2000; Souza, 2009),  
que percebem na obra de 1964 uma abordagem residualista da questão racial ou o racismo como  
um tipo de sobrevivência da ordem social colonial e estamental que, em um processo deveras  
mecânico, tenderia a desaparecer com o avanço da ordem social competitiva leituras que  
confundem “a aposta normativa do autor com a reconstrução efetiva do universo empírico das  
relações raciais empreendida ao longo do livro” (Silva; Brasil Jr., 2021, p. 13, grifo dos autores)  
, a fortuna crítica mais recente (Soares et al., 2002; Silva, 2016; Silva; Brasil Jr., 2021; Costa  
et al., 2021) enfatiza, de modos diversos, os traços de uma “estruturação racista do capitalismo  
periférico e dependente brasileiro” (Costa et al., 2021, p. 333-334). Dada a já mencionada  
articulação entre os níveis da ordem, da ação e da mudança sociais em Fernandes, adicionar as  
desigualdades étnico-raciais como atributo estrutural de uma configuração específica do  
capitalismo significa, ao nível da agência, pensar o racismo como elemento orientador do  
espírito capitalista, passível de ser pensado como variável fundamental do ímpeto predatório e  
inescrupuloso (Sombart) ou de expropriação da ação capitalista (Marx, 2008 e, para uma  
atualização recente, Fraser e Jaeggi, 2020).  
Em “Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento”, ensaio de 1967, Fernandes propõe  
um modelo de síntese teórica inovador que é passível de ser descrito da seguinte maneira: quais  
são as potencialidades e limites dos clássicos da teoria sociológica (Weber, Marx e Durkheim)  
para explicar e compreender o capitalismo dependente? Em uma formulação particularmente  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
133  
importante para os fins deste artigo, Fernandes (2008b, p. 41, grifo do autor) considera as  
contribuições de Weber do seguinte modo:  
[...] seu esquema interpretativo focaliza os dois planos concomitantes da situação  
heteronômica (como as coisas se passam a partir de fora e a partir de dentro da  
sociedade capitalista subdesenvolvida), evidenciando que os vínculos de dependência  
não são formais (jurídico-políticos) e regulados por uma associação especial. Mas  
através de interesses univocamente econômicos, os vínculos se objetivam  
indiretamente, criando expectativas duplamente polarizadas, que orientam os  
ajustamentos dos indivíduos, dos grupos e das coletividades que eles representam.  
Em curta formulação, a sociologia compreensiva weberiana ofereceria ferramentas para  
analisar o capitalismo subdesenvolvido e dependente não apenas no que diz respeito aos seus  
aspectos estruturais e institucionais (exteriores) do poder e da dominação, mas também para  
pensar a (re)produção da situação heteronômica ao nível do sentido atribuído pelos agentes  
dominantes (aspectos interiores), orientados sobretudo para a manutenção e para os ganhos  
advindos de uma “economia nacional duplamente polarizada”. Em um polo, um setor primário-  
exportador com princípios capitalistas principalmente no nível da comercialização; no outro  
polo, um setor interno dependente de “influxos externos”, mas com claras tendências de  
“consolidação da economia de mercado capitalista existente” (Fernandes, 2008b, p. 35). Logo,  
um tipo de racionalidade burguesa interessada em reproduzir a sua própria condição de classe  
dominante subordinada e dependente quando projetada ao nível do capitalismo global.  
Assim, os tons usados para pintar a agência econômica na situação de dependência não  
poderiam ser nem um pouco rosados, para parafrasear o velho Marx (2008). Nessa situação, “o  
que prevalece não é o ‘interesse lucrativo’ puro e simples”, mas, “conforme a fase localizada,  
o que Sombart chamou, com referência ao passado, de pirataria econômica; e o que poderíamos  
designar, com relação ao presente, como ‘mentalidade espoliativa’ e ‘espírito especulativo’”  
(Fernandes, 2008b, p. 74). Cria-se um “regime de classes” adaptado “a iniquidades econômicas  
insanáveis, a tensões políticas crônicas e a conflitos sociais insolúveis, elevando a opressão  
sistemática, reconhecida ou disfarçada, à categoria de estilo de vida” (Fernandes, 2008b, p. 75).  
Diferente do texto de 1962, “Reflexões”, que indica repetidamente um padrão irracional  
e sociopático de ação, no ensaio de 1967 Fernandes (2008b, p. 78) pergunta: no capitalismo  
dependente brasileiro são, afinal, preenchidos os “requisitos de racionalidade de uma ordem  
econômica capitalista?”. A resposta dada apresenta-nos a noção de “racionalidade possível” da  
ação empresarial no capitalismo dependente, baseada em um conjunto de obras mencionadas  
em nota por Fernandes (2008b, p. 78, nota 47), dentre elas “Empresário Industrial e  
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134  
Desenvolvimento Econômico no Brasil”, publicada em 1964 por Fernando Henrique Cardoso  
e resultado direto do projeto de pesquisa do CESIT, de 1962, “Economia e Sociedade no  
Brasil”. Nessa obra, Cardoso (2020, p. 232) define a racionalidade empresarial no Brasil como  
fundamentalmente contraditória, “[i]lhada entre as motivações e interesses de tipo tradicional  
que a prendem por um lado ao latifúndio e à concepção tradicional de existência e, por outro  
lado, ao capitalismo internacional ao qual se associou para crescer economicamente...”.  
Racionalidade essa que, naquela conjuntura, “optou pela ‘ordem’, isto é, por abdicar de uma  
vez por todas de tentar a hegemonia plena da sociedade, satisfeita já com a condição de sócia  
menor do capitalismo ocidental e de guarda avançada da agricultura que muito lentamente se  
capitaliza” (Cardoso, 2020, p. 232).  
Vê-se como Cardoso verifica aquilo que, em 1959, Fernandes (2008a, 320-1) chamou,  
como vimos, de “padrão híbrido de desenvolvimento social”, caracterizado pela articulação de  
“atitudes racionais” e “motivações irracionais”, “progresso social” e “devastação de recursos”.  
Nessa “racionalidade possível”, escreve Fernandes em 1967, “qualquer espécie de previsão e  
de controle racional é tão grande que ‘negócio’ e ‘aventura espoliativa’ andam sempre mais ou  
menos juntos, mesmo quando e onde existam uma contabilização e alguma previsão das  
relações com o mercado ou da evolução do empreendimento” (Fernandes, 2008b, p. 78-79). O  
homo oeconomicus tupiniquim transfere os “riscos do negócio” para a coletividade e converte  
“o imediatismo e a especulação imoderada em componentes essenciais do êxito econômico”  
(Fernandes, 2008b, p. 81-82). Predação, imediatismo, espírito extorsivo, espoliativo e  
especulativo aparecem, aqui, como a contrapartida espiritual (interna) dos atributos estruturais  
(externos) do capitalismo dependente, e vice-versa.  
O motivo conceitual do “padrão híbrido de desenvolvimento social” e da agência das  
camadas dominantes atinge um outro patamar de elaboração no texto “Classes Sociais na  
América Latina”, originalmente escrito para o “Seminário Sobre Classes Sociais na América  
Latina” (realizado na UNAM, México, entre 11 e 18 de dezembro de 1971). Novamente trata-  
se de apontar uma heterogeneidade de princípios atuando nos níveis da ordem, da mudança e  
da ação sociais. Ao nível da ordem, nosso autor responde positiva e enfaticamente sobre a  
existência de classes sociais12 na América Latina, mas não a partir de um modelo hipostasiado  
que vincula classes sociais a um processo expansivo e intensivo de assalariamento e de  
mercantilização da força de trabalho modelo sem validade empírica inclusive na própria  
12 Para uma análise do conceito de classe social na obra de Florestan Fernandes, ver Alves (2020).  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
135  
Europa, onde também se observaria a articulação entre classe e outras formas de classificação  
social. Embora não utilize o termo, Fernandes aqui se aproxima muito da definição cepalina,  
renovada por Aníbal Quijano (1990), da heterogeneidade histórico-estrutural: na América  
Latina, as “classes sociais se superpõem a outras categorias sociais de agrupamento, de  
solidariedade e de articulação às sociedades nacionais” (Fernandes, 2009, p. 45). Antes da  
CEPAL, a reflexão crítica sobre a articulação de padrões de classificação social heterogêneos  
tem como precursor José Carlos Mariátegui, autor explicitamente incorporado na crítica  
quijaniana da colonialidade, mas igualmente valorizado por Fernandes (2015, p. 92), que  
considera Mariátegui, Sergio Bagú e Caio Prado Júnior “os grandes pioneiros” de uma “linha  
de trabalho intelectual” sobre os dilemas das revoluções (interrompidas) na América Latina.  
No que se refere à mudança e aqui o autor amadurece e formaliza aspectos que vinha  
desenvolvendo desde “A Integração” –, diferente do mito da suposta apologia dos processos de  
gênese e consolidação da ordem social competitiva no Brasil, Fernandes (2009, p. 47) rejeita  
qualquer ideia “de uma gradual autocorreção do regime de classes” e fala em uma  
“institucionalização” das “debilidades” e “deficiências estrutural-funcionais” daquela ordem na  
América Latina. Mais à frente, em formulação sintética, afirma que “o capitalismo dependente  
molda a sua própria ordem social competitiva” (Fernandes, 2009, p. 72). O que efetivamente se  
passa, pois se trata de uma “descrição interpretativa [que] não é dualista” (Fernandes, 2009, p.  
66), é uma mudança que ocorre sob a dialética de “modernização do arcaico” e de “arcaização  
do moderno” (Fernandes, 2009, p. 48):  
o que parece arcaico é de fato atualizado, servindo de suporte ao moderno, e pela qual  
o moderno parece perder esse caráter, revitalizando o seu oposto ou gerando formas  
socioeconômicas que misturam a acumulação pré-capitalista com a acumulação  
especificamente capitalista (Fernandes, 2009, p. 67).  
Essas determinações expressas ao nível da ordem e da mudança formam, ao nível da  
ação, classes dominantes que atuam e representam a si mesmas como “grupos de status”, em  
que se dá uma notável “superposição de orientações de valor exclusivas (de classe e de  
estamentos)” (Fernandes, 2009, p. 46). Isso guarda suas raízes no próprio pathos híbrido que  
caracteriza a emergência e desenvolvimento da ordem social competitiva na América Latina,  
que apesar de a sua heterogeneidade foi atravessada, nos seus marcos de descolonização e  
nacionalização, por uma dinâmica dupla, na qual  
o aristocrata se aburguesa e o burguês se aristocratiza: dois processos convergentes  
que ajudam a dissimular a realidade e a ocultar o que era a burguesia nascente (uma  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
136  
plutocracia, fundada no ‘poder do dinheiro’ e na associação direta com os empresários  
e representantes estrangeiros dos interesses externos) (Fernandes, 2009, p. 67, grifo  
do autor).  
Calcada em tais precedentes formativos, a agência dessas camadas se orienta por uma  
“‘lógica intrínseca’ do capitalismo dependente” descrita com as seguintes cores:  
É o modo de privilegiamento interno das classes ‘altas’ e ‘médias’, cujos setores  
dominantes e elites dirigentes forjam o seu espírito capitalista especial, alicerçado na  
combinação da dependência com o subdesenvolvimento, que determina a ‘lógica do  
capitalismo dependente’ e o caráter ultraegoístico, autocrático e conservador de suas  
estruturas de poder elitista (Fernandes, 2009, p. 100, grifo do autor).  
Para usar os termos de 1959, aqui, as atitudes e motivações orientam-se por uma  
“filosofia exclusivista, que dá fundamento às tendências autoritárias e autocráticas das classes  
privilegiadas ou aos interregnos totalitários, quando se torna impossível salvar o status quo  
mantendo as aparências” (Fernandes, 2009, p. 107). Esse “espírito capitalista especial” “[s]upõe  
e impõe uma ideia-diretriz, segundo a qual os que não têm talento para manter o status atribuído  
ou para vencer por conta própria merecem ser excluídos e condenados à subalternização”  
(Fernandes, 2009, p. 108). Delineia-se um tipo de “racionalidade pragmática”, de matiz  
conservadora e depurada de “‘ilusões liberais’” que efetivamente “é irracional” (Fernandes,  
2009, p. 110), pois conforma uma “autoafirmação negativa: para se realizar socialmente, as  
classes privilegiadas restabeleceram o pacto com um padrão de desenvolvimento capitalista,  
que reproduz a dependência e o subdesenvolvimento sob novas formas” (Fernandes, 2009, p.  
111). Assim, as revoluções burguesas latino-americanas, tardias, não aceleram a história  
aprofundando “processos de integração nacional e de revolução nacional”, mas através “do  
desenvolvimento da empresa, da apropriação repartida do excedente econômico nacional e da  
espoliação do trabalho” (Fernandes, 2009, p. 111), estreitando as margens de ação das classes  
subalternas e autossuprimindo as potencialidades burguesas de radicalização político-  
institucional.  
Como escreve nos capítulos 6 e 7 de “A Revolução Burguesa no Brasil”, escritos em  
1973, diferente de uma “debilidade congênita de uma burguesia que se vê compelida,  
historicamente, a congelar a expansão da ordem social competitiva, reduzindo ao mínimo o seu  
próprio impulso para manobras e barganhas estratégicas (nas relações internas e externas, de  
acomodação ou de conflito)”, o que é fundamental analiticamente são “outras classes (ou  
setores de classes) que tornam (ou podem tornar) a dominação burguesa mais ou menos  
vulnerável” (Fernandes, 2006, p. 249-250). As limitações da agência burguesa repousariam,  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
137  
assim, menos em uma essência espiritual de algum modo inata do que nas disposições e  
tendências para a ação condicionadas pelo capitalismo dependente, que “é, por sua natureza e  
em geral, um capitalismo difícil, o qual deixa apenas poucas alternativas efetivas às burguesias  
que lhe servem, a um tempo, de parteiras e amas-secas” (Fernandes, 2006, p. 251, grifo do  
autor).  
“Ao fechar o espaço político aberto à mudança social construtiva”, continua Fernandes  
(2006, p. 251), “a burguesia garante-se o único caminho que permite conciliar sua existência e  
florescimento com a unidade e expansão do capitalismo dependente”. Os elementos que  
permitiram a aliança entre dominação burguesa, revolução democrática e revolução nacional  
em uma seleção de países europeus – o chamado “modelo democrático-burguês” (Fernandes,  
2006, p. 340) estão ausentes no processo de consolidação da dominação burguesa periférica,  
onde há “uma forte dissociação pragmática entre desenvolvimento capitalista e democracia;  
ou, usando-se uma notação sociológica positiva: uma forte associação racional entre  
desenvolvimento capitalista e autocracia” (Fernandes, 2006, p. 340, grifo do autor).  
No mesmo sentido daquela “racionalidade pragmática” indicada no texto de 1971,  
Fernandes (2006, p. 350, grifo do autor) escreve que, no Brasil,  
as classes burguesas procuraram compatibilizar revolução nacional com capitalismo  
dependente e subdesenvolvimento relativo, tomando diante da dupla articulação uma  
atitude política “realista” e “pragmática”, o que é, em suma, uma demonstração da sua  
racionalidade burguesa.  
Racionalidade essa que identifica “a revolução nacional com seus alvos particularistas”  
(Fernandes, 2006, p. 351). A compreensão da agência burguesa como um tipo de “racionalidade  
possível” é reforçada na caracterização que Fernandes (2006, p. 383) faz do modelo autocrático-  
burguês, em que se vê uma muito pequena “massa dos que se classificam dentro da ordem”, de  
um lado, e um “muito grande” “volume dos que não se classificam ou só se classificam marginal  
e parcialmente”, o que “acirra o temor de classe e torna a inquietação social algo temível”,  
delineando “uma mentalidade política burguesa” como “reação societária”, fundada “em uma  
forma ultravulnerável de temor de classe” e não como “produto de um obscurantismo  
intelectual ou político”.  
Em “As Mudanças Sociais no Brasil”, texto de 1974, Fernandes (2008c, p. 39) volta a  
refletir detidamente sobre a nossa “burguesia autocrática e ultraconservadora”. Dialogando com  
o texto de 1962, “Reflexões”, o autor escreve que, embora a caracterização da “resistência  
sociopática à mudança” seja uma “interpretação... correta”, ela “ignora que, na raiz do  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
138  
comportamento das classes dominantes e de suas elites”, no Brasil, “se acha outro componente  
de maior influência condicionante e determinante. Não é só a cegueira, que conta, mas também  
a certeza (ou quase certeza) de que se pode manipular uma ordem social como a competitiva  
de modo relativamente fácil e impune” (Fernandes, 2008c, p. 53-4, grifo do autor). Ao olhar  
por detrás da sociopatia revela-se uma “vantagem estratégica”, por meio da qual “as classes  
privilegiadas e suas elites agravam, por medo histórico, as propensões porventura atuantes de  
resistência sociopática à mudança, enxergando em qualquer ‘abertura da ordem’ o início de um  
cataclismo social”, pânico frequentemente “manipulado e exagerado” para deslocar “os  
conservadores e os liberais de suas posições, politizando-os no centro ou na direita da reação”  
(Fernandes, 2008c, p. 54, grifo do autor).  
Do diagnóstico da “resistência sociopática à mudança social” à noção de “racionalidade  
pragmática ou possível”, há uma importante inflexão no pensamento de Florestan Fernandes.  
Embora certamente não possua uma “estatura heroica”, encarar a burguesia brasileira como  
uma “‘burguesia impotente’, ou ‘frustrada’, com frequência vista como uma burguesia de  
‘segunda ordem’ ou, mesmo, como ‘lumpen-burguesia’”, “constitui um erro”. Afinal, continua  
Fernandes (2008c, p. 62, grifo do autor) na mesma página, trata-se de uma burguesia que em  
grande medida cumpriu e cumpre sua tarefa: “compatibilizar desenvolvimento capitalista,  
dependência e subdesenvolvimento de tal modo que mesmo o proletariado mais explorado e as  
classes destituídas mais excluídas ou marginalizadas se identifiquem, de alguma maneira, com  
a condição burguesa”.  
Conclusão  
Expressões do espírito do capitalismo: via de mão dupla entre o centro e a periferia  
Talvez seja um tanto apressado falar em uma tipologia da racionalidade burguesa vista  
na e desde a periferia, a não ser que sejamos capazes de considerar tal tipologia como  
fundamentalmente aberta e flexível, interessada menos em uma formalização exaustiva do que  
em tatear expressões da racionalidade burguesa sempre vinculadas a condições históricas e  
sociológicas específicas. Nesse sentido, os tipos aqui mais se aproximam de tipos históricos do  
que de tipos ideais. Formulando com maior rigor: na medida em que propunha investigações  
sociológicas substantivas sobre atitudes e motivações (des)favoráveis ao desenvolvimento e  
sobre a manifestação da racionalidade empresarial no Brasil, Fernandes, ao experienciar  
progressivamente as colisões entre conceito e concretude, formulou tipos históricos de  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
139  
particular acuidade que, a nosso ver, valem não só para pensar a nossa singularidade nacional,  
mas a heterogeneidade e complexidade das formas de expressão da racionalidade burguesa,  
variadas no espaço e no tempo.  
Em “Atitudes e Motivações Desfavoráveis ao Desenvolvimento”, de 1959, temos o  
desenho de uma análise da ação (atitudes e motivações) calcado em um refinamento do conceito  
de desenvolvimento social (assim como de mudança e evolução), que só pode ser pensado em  
relação a um tipo de ordem social particular, no caso em tela, a ordem social da sociedade de  
classes, dentro da qual o Brasil é uma variação socio-histórica. Como a mudança e o  
desenvolvimento sociais podem ser progressivos ou regressivos (o que evidencia a ausência de  
traços teleológicos no raciocínio de Fernandes), trata-se de expediente normal, ao nível da  
agência, tanto o conflito entre atitudes e motivações favoráveis e desfavoráveis ao  
desenvolvimento como o controle da mudança social por parte das camadas ou classes sociais  
em luta. O favorável e o desfavorável, entretanto, não são passíveis de definição definitiva e  
absoluta, pois as mesmas atitudes/motivações podem ser, simultaneamente, a depender do  
ângulo de observação, favoráveis e desfavoráveis ao desenvolvimento.  
Ao pensar especificamente o Brasil, evidencia-se, primeiramente, um controle  
particularmente acentuado das mudanças sociais engendradas pela expansão da ordem social  
competitiva pelas “camadas com posições estratégicas na estrutura de poder das instituições ou  
das associações” (Fernandes, 2008a, p. 302), capazes de graduar ou reter o fluxo, o ritmo e a  
amplitude das mudanças em um sentido particularista (não-universalizante). Em segundo lugar,  
na medida em que a ação do empresário no Brasil, “símile humano da ave de rapina”  
(Fernandes, 2008a, p. 316), é simultaneamente favorável (ao desenvolvimento econômico) e  
desfavorável (em termos da plena modernização da vida econômica e da distribuição e  
democratização da renda, da cultura e do poder), emerge um “padrão híbrido de  
desenvolvimento social” (Fernandes, 2008a, p. 321), que conforma um espírito capitalista,  
articulando atitudes racionais e irracionais, progresso e regresso/devastação, ou, para falarmos  
com Sombart, racionalismo econômico e predação.  
Ao propor um projeto de pesquisa sobre a ação e a racionalidade empresariais, o texto  
de 1962, “Economia e Sociedade no Brasil”, lança as diretrizes para uma investigação  
sobretudo das atitudes e motivações “favoráveis” ao desenvolvimento e, parece-nos que, em  
razão disso, orienta-se por um certo contraste típico-ideal de ordem e ação econômicas: a “Fase  
Pioneira Liberal” e a “Era do Planejamento”; distinção muito próxima não só dos tipos  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
140  
weberianos de ação capitalista tradicional e ação capitalista moderna, mas, inclusive, do que  
muitos anos depois Boltanski e Chiapello (2009) chamaram de primeiro e segundo espíritos do  
capitalismo. Enquanto o espírito capitalista da “Fase Pioneira Liberal” busca o “êxito  
econômico”, mobilizando “improvisação”, “audácia e até certas disposições predatórias”,  
aliando “brutal individualismo” e “interesses de inovação econômica da coletividade”  
(Fernandes, 1976a, p. 323), muito próximo, portanto, daquele padrão híbrido de  
desenvolvimento social e do espírito do capitalismo moderno sombartiano (tradicional, para  
Weber); na “Era do Planejamento”, o espírito do capitalismo é domesticado, atenuando o seu  
egoísmo, irracionalidade, imediatismo e incluindo, em seu telos planificado, os efeitos sociais  
da sua ação e o desenvolvimento social de forma mais ampla, numa forte afinidade com o  
espírito do capitalismo moderno weberiano.  
A aproximação crescente com o tipo sombartiano de espírito do capitalismo para pensar  
a ação e a racionalidade burguesas na periferia dá-se, a nosso ver, em outro texto escrito em  
1962 (reiteramos, mesmíssimo ano do projeto do CESIT), quando Fernandes formula o  
conceito de “resistência sociopática à mudança social” para caracterizar as nossas classes  
dominantes, fortemente impactado pela reação da Igreja Católica e de amplos setores  
empresariais à Campanha em Defesa da Escola Pública. Aí, passamos das tendências de  
consolidação de uma racionalidade burguesa afim à “Era do Planejamento” para um diagnóstico  
do presente que enfatiza a irracionalidade reativa das nossas camadas dominantes e suas elites  
a toda mudança social. Essa entendida em forte sentido normativo: a ampliação sistemática do  
acesso de amplas camadas da população brasileira, os “de baixo” ou povo (incluindo aí tanto a  
classe trabalhadora como os segmentos subalternizados e marginalizados) a recursos  
econômicos, políticos e socioculturais ou, nos termos de Fernandes, renda, poder e prestígio.  
Embora Sombart não seja expressamente citado nesse texto, é exatamente a “tendência para o  
ganho inescrupuloso” (Sombart, 2014, p. 225, grifo do autor) na ação econômica aliada a um  
profundo conservantismo político e cultural, de matiz reacionário e, no limite, autodestrutivo  
(por isso irracional), que Fernandes detecta como elementos espirituais predominantes,  
inclusive nos agentes da inovação e modernização do país.  
Dois anos após formular a ideia de resistência sociopática à mudança, que será utilizada,  
de modos diversos, até o final da sua obra, Florestan lança, em “A Integração”, a hipótese de  
uma conciliação estrutural das desigualdades de classe e de padrões de desigualdade racial no  
Brasil, logo, a possibilidade de pensar a racionalidade burguesa em estreita relação com a  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
141  
problemática do racismo. Ao converter essa hipótese em tese em seus textos posteriores (ver os  
ensaios compilados em “O negro no mundo dos brancos” e “Significado do Protesto Negro”),  
Fernandes, em um mesmo gesto, rechaça uma leitura do racismo como uma sobrevivência ou  
resíduo tradicional (da ordem escravocrata-estamental) e pensa o fenômeno como um atributo  
intrínseco ao modo de conformação da ordem social competitiva e do capitalismo dependente  
no Brasil. Dada a inseparabilidade dos problemas da ordem, da mudança e da ação sociais em  
seu pensamento, podemos deduzir, sem arbítrio, que o espírito do capitalismo atua, entre nós,  
tendo as desigualdades raciais e o racismo como meios privilegiados de êxito econômico13.  
Em 1967, portanto entre o golpe e o golpe dentro do golpe, o AI-5, Florestan recupera  
Werner Sombart para falar da ação burguesa entre nós como pirataria econômica, “‘mentalidade  
espoliativa’ e ‘espírito especulativo” (Fernandes, 2008, p. 74). Logo, é exatamente o espírito  
capitalista predatório e inescrupuloso, sem qualquer contradição com o racionalismo  
econômico, que predominaria como tipo histórico de agência econômica no capitalismo  
dependente. Isso não como sociopatia ou irracionalidade, mas em diálogo com o trabalho de  
Cardoso, como “racionalidade possível” de camadas burguesas que aceitam e atuam nos limites  
da condição de heteronomia a nível do capitalismo global. Essa importante inflexão torna-se  
possível a partir do modo novo de pensar a articulação entre nacional e global e entre arcaico e  
moderno introduzido pelo conceito de capitalismo dependente, inexistente antes de 1966-1967.  
Esse modo novo de pensar permite perceber a racionalidade das formas arcaicas ou tradicionais  
de ação econômica de classes dominantes subordinadas na divisão internacional do trabalho e  
orientadas pela (super) exploração dual dos recursos e da força de trabalho na economia  
nacional. Imediatismo, espoliação, especulação, predação e devastação aparecem como  
atributos racionais de um espírito que luta por sobrevivência em um capitalismo difícil e  
selvagem.  
É a partir deste terreno teórico-conceitual conquistado que Fernandes (2009, p. 100,  
grifo do autor) escreve, em 1971, sobre um “espírito capitalista especial” – e aqui  
explicitamente generalizando para a América Latina como periferia desde a qual se olha –  
caracterizado por uma conduta entre estamental e classista, ultraegoística, autocrática e  
conservadora, orientada por uma “racionalidade pragmática” (Fernandes, 2009, p. 110) e uma  
“filosofia exclusivista” (Fernandes, 2009, p. 107), na qual o êxito, por um lado, atrela-se  
13  
O que permite frutíferas aproximações entre Fernandes e o marxismo negro e, mais recentemente, as  
contribuições de Aníbal Quijano (1990).  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
142  
intimamente à reprodução da dependência e do subdesenvolvimento e, por outro lado,  
desassocia-se de qualquer horizonte de soberania e democratização nacionais14. Aqui, quando  
Fernandes (2009, p. 110) escreve que “essa racionalidade é irracional” ou uma “autoafirmação  
negativa”, atrela o juízo de irracionalidade claramente a um modelo normativo de revolução  
burguesa: aquele que alia desenvolvimento capitalista, soberania nacional e democratização das  
instituições e das relações sociais.  
A ideia da racionalidade possível dos setores burgueses, definida em termos de pirataria  
econômica e espírito especulativo, continua a ser utilizada expressamente nos capítulos 6 e 7  
de “A Revolução Burguesa no Brasil” (escritos em 1973) e no texto “As Mudanças Sociais no  
Brasil” (de 1974), mas enriquecida de outros elementos importantes, para além da subordinação  
à condição de sócia menor do capitalismo global. Sintetizando esses elementos, tal  
racionalidade possível das burguesias dependentes: a) primeiro, deve ser pensada em termos  
relacionais, a saber, junto à debilidade ou debilitação permanente das formas organizativas das  
“outras classes (ou setores de classes)” (Fernandes, 2006, p. 250); b) segundo, ela se articula  
em termos de uma “associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia”  
(Fernandes, 2006, p. 340, grifo do autor), identificando a revolução nacional a interesses  
particularistas; c) terceiro, define-se como uma “forma ultravulnerável de temor de classe”  
(Fernandes, 2006, p. 383), na medida em que toda mudança dentro da ordem é concebida como  
revolução contra a ordem; d) e, quarto, tal tendência a enxergar “em qualquer ‘abertura da  
ordem’ o início de um cataclismo social” (Fernandes, 2008c, p. 54) é mobilizada  
estrategicamente, manipulada e exagerada, em favor da manutenção de padrões autocráticos de  
dominação. Assim, essa “racionalidade possível” pode ser lida não só como uma expressão ou  
adaptação às condições de dependência e heteronomia, mas também como uma racionalidade  
ofensiva e estratégica, claramente direcionada para a manutenção de um padrão autocrático de  
dominação social. O espírito do capitalismo, quando visto desde a periferia, não é apenas o  
epifenômeno espiritual da ordem social do capitalismo dependente, mas é também atuante e  
criador de mecanismos (re)produtores dessa ordem social.  
Na pesquisa realizada na biblioteca de Florestan Fernandes, abrigada na Universidade  
Federal de São Carlos (UFSCar), verificamos que existem amplas anotações de caráter  
metodológico de uma perspectiva comparativa entre Weber e Marx, num exemplar em inglês  
de “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (Weber, 1948), traduzido por Talcott  
14 É possível sugerir que a “filosofia exclusivista” é a fórmula espiritual da “dominação autocrática”.  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
143  
Parsons. Florestan adquiriu o livro em 14 de agosto de 1949, como consta manuscrito na  
contracapa. Na página 22 da referida edição, por exemplo, irá anotar na margem inferior a  
seguinte observação: “É interessante notar: a importância que atribui à organização livre do  
trabalho (estruturalmente), não se acompanha da noção central de valor que permite estabelecer  
o caráter específico do capitalismo (cf. Marx)”. Os elementos conceituais que apreende  
criticamente de Weber, em face da noção de “espírito do capitalismo”, são constantemente  
confrontados com sua leitura de Marx, revelando um esforço prematuro de síntese das tradições  
sociológicas clássicas, um exercício teórico que estará presente na sua construção da categoria  
de capitalismo dependente.  
A leitura de Sombart será posterior, pois a edição italiana de “O Burguês” será adquirida  
em 20 de março de 1956 (Sombart, 1950). Logo no início do quinto capítulo, em que Sombart  
aborda os tipos fundamentais da empresa capitalista, chamando atenção para as origens  
históricas “extraordinariamente diversas” de aliança entre a avidez de aquisição de dinheiro e  
o nascimento do espírito empresarial e, portanto, introduzindo uma perspectiva mais relativista,  
Florestan anota à margem: “avidez de dinheiro + espírito de empreza [sic] → espírito capitalista  
= facilita a compreensão histórico social relativista do problema (no fundo = contra Weber)”.  
Isso atesta o esforço de leitura comparativa de Florestan Fernandes, tornando ainda mais  
pertinente a contraposição entre suas construções conceituais do espírito capitalista em  
contraste com os das suas fontes clássicas diretas, as formulações típico-ideais de Max Weber  
e as especificações históricas de Werner Sombart. Por isso, buscamos nos escritos de Florestan  
Fernandes apontar os nexos genéticos e as variações de suas noções de espírito do capitalismo  
presentes na sua investigação histórico-sociológica da autocracia burguesa e do capitalismo  
dependente.  
De acordo com Bastos (2018), considerar a atualidade das contribuições de Florestan  
Fernandes é um exercício que não pode se desvincular de uma problematização sobre as  
especificidades contextuais que atravessam seus textos, em especial uma reflexão não só sobre  
mudança, mas também sobre ordem e ação sociais, restritas “às fronteiras do estado-nação”  
(Bastos, 2018, p. 29). Nesse exato sentido, a reflexão de Fernandes sobre o espírito do  
capitalismo também se faz, em boa parte da obra, a partir de um contraste entre padrões de  
mudança e desenvolvimento sociais no centro (França, Inglaterra, EUA, como modelos de  
revolução burguesa democrática; Alemanha, Itália e Japão, como variações tardias desses  
modelos) e na periferia (especialmente Brasil e América Latina, como modelos de revolução  
TRINDADE, L.; COSTA, D. V. de A.  
144  
burguesa autocrática). O contraste entre dois grandes modelos de revolução burguesa sugere,  
igualmente, uma cisão do espírito: espírito do capitalismo moderno weberiano ao Norte;  
espírito do capitalismo moderno sombartiano ao Sul, enlarguecido pelos elementos originais  
propostos por Fernandes, a saber, o racismo, a autocracia e a racionalidade pragmática/possível  
das classes dominantes no capitalismo dependente.  
No final dos anos 197015, porém, Fernandes começou a considerar, explicitamente, a  
possibilidade de generalização, para os países centrais, de atributos típicos da dominação  
autocrática, impulsionada pela fragilização perceptível do pacto capital-trabalho do Estado-  
providência e do endurecimento autoritário das democracias ocidentais contra a expansão da  
influência soviética. É um consenso entre vários autores (por exemplo, Duménil; Lévy, 2004;  
Chesnais, 2002; Harvey, 2008) que a virada dos anos 1970 para os 1980 marca uma inflexão  
neoliberal importante e profunda em nível global. Ora, a neoliberalização social (que vai das  
políticas econômicas à reforma do Estado, do domínio da finança à formação das  
subjetividades) é um índice forte de que o espírito típico do capitalismo dependente rompeu as  
cercas periféricas para adentrar intensamente os outrora dourados terrenos do centro ou Norte  
global. Há evidências suficientes, oferecidas pela história do tempo presente, de que a tendência  
inescrupulosa para o êxito econômico volta a ser a característica definidora, que flana  
indiferente às fronteiras do Estado-nação, de uma ação econômica que “não se deixa  
influenciar, em sua ação prática, pela perspectiva da degenerescência futura da humanidade e  
do irresistível despovoamento final” (Marx, 2008, p. 311). O divórcio entre capitalismo, de um  
lado, e democracia, soberania nacional e luta contra desigualdades, do outro (Streeck, 2011), é  
uma marca, na contemporaneidade, daquele “espírito capitalista especial” formulado por  
Fernandes.  
A longa reflexão de Florestan sobre um espírito capitalista especial que atravessa, nos  
termos de uma teoria da ação, tanto o conceito de capitalismo dependente como o conceito de  
autocracia burguesa, oferecem bases sólidas para a sua crítica em textos escritos em fins da  
década de 1980 e início dos anos 1990 – ao uso crescente do termo “neoliberalismo” naquele  
contexto. Qual “neoliberalismo”, provoca Florestan, seria possível num mundo em que padrões  
de “acumulação originária” de capital se reestabelecem e as guerras imperialistas assumem a  
15 Temos em mente o livro “Apontamentos sobre a ‘Teoria do Autoritarismo’” (publicado em 1979, a partir de um  
curso oferecido na PUC-SP, em 1977). Esses aspectos da obra de Fernandes são trabalhados detidamente em Silva  
(2022).  
O Espírito do Capitalismo revisto desde a periferia: expressões da  
racionalidade burguesa em Florestan Fernandes  
145  
função de quebrar a resistência de outros povos localizados no que outrora se costumava chamar  
de Terceiro Mundo? “O apelo ao ‘neoliberalismo’ constitui, assim, uma resposta enviesada”  
(Fernandes, 1995, p. 155).  
Nosso autor considerava a noção de neoliberalismo um engodo ideológico, necessário  
para as elites das burguesias das nações imperialistas e suas superpotências mascararem os  
segredos da exploração e dominação capitalistas mais violentas e exacerbadas: “[...] o que é  
questionável é a existência de um ‘neoliberalismo’. [...] Que ‘neoliberalismo’ poderia ajustar-  
se ao desenvolvimento das multinacionais, à internacionalização do modo de produção  
capitalista em seu modelo oligopolista e ao sistema de poder que resultou dessas metamorfoses  
do capital?” (Fernandes, 1995, p. 201).  
Tais trechos revelam o quanto Florestan, ao longo da sua trajetória e em diferentes  
contextos históricos, continuamente retrabalhava noções e conceitos numa perspectiva crítica  
de apreensão das tendências históricas mundiais. Eis uma agenda de releitura da obra de  
Florestan Fernandes: do presente dramático em que vivemos, reler seus textos como enunciados  
sobre um mundo que exprime crescentemente os atributos do que outrora era pensado como  
uma singularidade periférica.  
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Recebido em: 6/3/2025  
Aceito em: 27/8/2025  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62, 2025, p. 148-174  
POVOS INDÍGENAS E FORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL:  
leituras de Florestan Fernandes e Ailton Krenak na Constituinte  
INDIGENOUS PEOPLES AND THE BRAZILIAN SOCIAL FORMATION: Florestan  
Fernandes and Ailton Krenak in the National Constituent Assembly  
____________________________________  
Aristeu Portela Júnior  
Maria de Fátima Souza da Silveira  
Resumo  
Este artigo propõe um diálogo entre as ideias e atuações políticas de Florestan Fernandes (1920-1995) sociólogo  
e político brasileiro de origem popular, um dos principais representantes do pensamento social latino-americano  
do século XX e Ailton Krenak (1953-) intelectual e líder político indígena do povo Krenak, protagonista da  
articulação do movimento indígena brasileiro e uma das primeiras e mais influentes vozes indígenas a emergir no  
debate intelectual no país. No encontro que ensaiamos aqui, discutimos inicialmente seus discursos em defesa dos  
direitos dos povos indígenas na Assembleia Nacional Constituinte no final dos anos 1980, quando o país debatia  
o que viria a ser a Constituição de 1988, e finalizamos propondo questões sobre as leituras do processo de formação  
social do Brasil que ambos elaboram ao discutirem os dilemas da relação entre os povos indígenas, a “nação” e o  
Estado no país.  
Palavras-chave: Florestan Fernandes. Ailton Krenak. Brasil. Constituinte.  
Abstract  
This article proposes a dialogue between the ideas and political trajectories of Florestan Fernandes (19201995)—  
a Brazilian sociologist and politician of working-class origin, and one of the leading representatives of twentieth-  
century Latin American social thoughtand Ailton Krenak (1953), an Indigenous intellectual and political leader  
of the Krenak people, a key figure in the articulation of the Brazilian Indigenous movement and one of the first  
and most influential Indigenous voices to emerge in the national intellectual debate. In this encounter, we initially  
examine their speeches in defense of Indigenous peoples’ rights during the National Constituent Assembly in the  
late 1980s, when Brazil was debating what would become the 1988 Constitution. We conclude by proposing  
questions concerning their interpretations of Brazil’s process of social formation, particularly as they discuss the  
dilemmas surrounding the relationship between Indigenous peoples, the nation, and the state.  
Keywords: Florestan Fernandes. Ailton Krenak. Brazil. Constituent Assembly.  
Doutor em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professor adjunto do Departamento  
de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Professor do Programa de Pós-Graduação  
em Ciências Sociais (PPGCS) da UFRPE e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da UFPE. E-  
 Doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). E-mail: fatimasilsv@gmail.com.  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
149  
Primeiras palavras1  
Este artigo propõe uma conversa entre as ideias e atuações políticas de Florestan  
Fernandes (1920-1995) sociólogo e político brasileiro de origem popular, um dos principais  
representantes do pensamento social latino-americano do século XX e Ailton Krenak (1953-  
) intelectual e líder político indígena do povo Krenak, protagonista da articulação do  
movimento indígena brasileiro e uma das primeiras e mais influentes vozes indígenas a emergir  
no debate intelectual no país. No encontro que ensaiamos aqui, discutimos inicialmente seus  
discursos em defesa dos direitos dos povos indígenas na Assembleia Nacional Constituinte no  
final dos anos 1980, quando o país debatia e construía o que viria a ser a Constituição de 1988.  
E finalizamos explorando e sugerindo questões sobre as leituras do processo de formação social  
do Brasil que ambos elaboram ao discutirem os dilemas da relação entre os povos indígenas, a  
“nação” e o Estado no país.  
Ambos são autores de interpretações críticas e originais que tensionaram, em diferentes  
momentos históricos, visões consolidadas e hegemônicas acerca da formação da sociedade  
brasileira, possibilitando novas leituras sobre a história do Brasil e seus dilemas  
contemporâneos, nas quais os povos indígenas ocupam um lugar de protagonismo. Foram  
também atuantes e protagonistas no processo constituinte dos anos 1980, um ponto de virada  
na história política brasileira cujas repercussões alcançam os nossos dias, especialmente quando  
consideramos a importância da Constituição de 1988 para a delimitação e salvaguarda dos  
direitos dos povos indígenas. Florestan Fernandes e Ailton Krenak, como veremos, estiveram  
entre as vozes que buscaram discutir e defender esses direitos no processo constituinte.  
Ainda na década de 1940, quando prevalecia no pensamento social brasileiro e/ou nas  
políticas indigenistas promovidas pelo Estado a tese da inferioridade indígena e sua  
invisibilidade e exclusão enquanto atores políticos na história do Brasil, o jovem Florestan  
Fernandes dedicou seus estudos de mestrado e doutorado – as obras clássicas “Organização  
social dos Tupinambá” (1949) e “A função social da guerra na sociedade Tupinambá” (1951) –  
a compreender a sociedade Tupinambá que habitava a maior parte do litoral do atual território  
brasileiro na época da invasão portuguesa, apresentando sua organização social e seu modo de  
1
O presente artigo foi produzido no âmbito do projeto de pesquisa “O artesanato intelectual de Florestan  
Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”, financiado pelo Edital Universal 2021 do  
CNPq (Processo 420043/2021-7). Agradecemos as colaborações sempre presentes de Eliane Veras Soares, Diogo  
Valença de Azevedo Costa, Remo Mutzenberg, Lucas Trindade, Ana Rodrigues Cavalcanti Alves e Wilson  
Rogério Penteado Jr., sem as quais as reflexões tecidas neste artigo não seriam possíveis.  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
150  
existência. Nesses e em outros estudos publicados no período (Fernandes, 2009), e mesmo  
numa proposta de pesquisa planejada e não concretizada2, Florestan se aproxima de uma  
perspectiva crítica sobre os processos de colonização europeia das Américas e sobre as  
resistências indígenas à colonização (Costa; Soares, 2024).  
O próprio Ailton Krenak (2022) já ressaltou em entrevista no canal da Editora  
Contracorrente o pioneirismo dos estudos de Fernandes sobre a sociedade tupinambá,  
situando sua obra como precursora da descolonização da história no Brasil. Segundo o autor,  
em um cenário no qual predominava uma narrativa inteiramente centrada nos  
colonizadores/vencedores, Florestan Fernandes “viu os tupinambá” (Krenak, 2022, 13 min 04s)  
e “decidiu contar a história dos vencidos” – não “vencidos no sentido de combate, mas do ponto  
de vista da narrativa histórica” (Krenak, 2022, 9 min 54 s–11 min 08 s). Ainda em sua análise,  
os estudos de Florestan Fernandes trazem “elementos que vão ser potencializados por outras  
gerações no sentido de reclamar uma outra epistemologia, reclamar uma outra fala, uma outra  
narrativa sobre a colonialidade” (Krenak, 2022, 13 min 49 s–14 min 10 s). O intelectual  
indígena considera que Fernandes “confrontou” a colonialidade ao colocar “em questão a  
superioridade dos brancos” e mostrar “a seu tempo que havia presente aqui, no continente,  
especialmente nesta parte, povos com complexidade, com organização política” (Krenak, 2022,  
16 min 50 s17 min 23 s).  
Os estudos de Florestan Fernandes sobre as questões indígenas têm sido cada vez mais  
reconhecidos por sua contribuição à antropologia contemporânea e por sua atualidade e  
afinidade com o pensamento e lutas indígenas no Brasil (Silveira; Hirano, 2020; Sztutman,  
2022). Ao mesmo tempo, vivenciamos um novo cenário intelectual no país, marcado pela  
inédita emergência do pensamento indígena no debate político e intelectual nacional, fruto das  
conquistas alcançadas pela mobilização do movimento indígena no processo constituinte  
(Silveira, 2023).  
2 Em seu acervo, disponibilizado na Biblioteca Comunitária da UFSCar, o pesquisador Diogo Valença de Azevedo  
Costa localizou o original datilografado do planejamento de um estudo, não concretizado, intitulado “Colonização  
e destribalização: ensaio sociológico sobre os contatos raciais e culturais dos Tupinambá com os brancos”  
(Biblioteca Comunitária UFSCar / Fundo Florestan Fernandes / 02.04.4618). O estudo previa cinco capítulos: “A  
situação de contato e sua transformação”, “O intercâmbio cultural”, “A destribalização” (com dois tópicos: “A  
ideologia colonizadora e a política de destribalização dos portugueses” e “O solapamento e a destruição das  
sociedades tribais”), “As tentativas de defesa e a luta pela sobrevivência” e, por fim, “Organização social,  
colonização e destribalização”. Provavelmente escrito no período entre a realização de seus estudos para o  
mestrado e para o doutorado, entre o fim dos anos 1940 e o início da década de 1950.  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
151  
Nesse movimento, Ailton Krenak tem se destacado como autor de uma produção teórica  
original, uma nova leitura sobre o Brasil (“contra-interpretação do Brasil”) a partir da  
perspectiva indígena, que é fundamental para descolonizar, pluralizar e ampliar o debate  
intelectual (Viveiros de Castro, 2015, p. 14). Suas entrevistas, discursos e palestras estão  
atualmente reunidas em diversos livros3, para não mencionar as variadas participações em lives,  
eventos, documentários. Suas ideias e intervenções expressam a emergência de novas leituras  
acerca da formação da sociedade brasileira a partir de uma perspectiva indígena.  
Se, já em sua obra acadêmica inicial, Florestan contribuía para a construção de novas  
leituras em torno do processo de colonização brasileiro e seus impactos sobre os povos  
indígenas ao presenciar, como deputado constituinte na década de 1980, a emergência de um  
movimento indígena articulado nacionalmente, o autor retomará seus estudos sobre a questão e  
irá sugerir análises acerca do cenário político concernente aos povos indígenas naquele  
contexto. Florestan viu nascer um novo momento histórico no Brasil marcado pelo  
protagonismo dos povos indígenas, quando as lideranças políticas e intelectuais articuladas na  
União das Nações Indígenas (UNI), primeira organização indígena a nível nacional, ocuparam  
o cenário político da Assembleia Nacional Constituinte, rompendo com a invisibilidade e  
lutando por seus direitos históricos de habitantes originários deste território.  
Nesse cenário, Ailton Krenak despontava como liderança indígena de destaque, sendo  
o coordenador da UNI. Naquele contexto, além da mobilização pelo reconhecimento dos seus  
direitos no novo texto constitucional, os indígenas se reivindicavam como autores de suas  
próprias histórias, denunciando, em seus discursos na Assembleia Nacional Constituinte e em  
outras intervenções no debate político e intelectual, a narrativa da “descoberta” contada pelos  
colonizadores e suas continuadas violências.  
É durante o processo constituinte que se dá o encontro entre as trajetórias de Florestan  
Fernandes, então deputado constituinte eleito pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e Ailton  
Krenak, representante da União das Nações Indígenas (UNI). Em 2020, no contexto das  
comemorações do centenário de Florestan Fernandes, Ailton Krenak falou do encontro com o  
sociólogo durante o processo constituinte e de seu compromisso político com a luta dos povos  
3
Depoimentos e entrevistas do autor, realizados entre 1984 e 2013, estão reunidos na coletânea “Encontros”  
(2015). “Ideias para adiar o fim do mundo” (2019) é composto de palestras e entrevistas de 2017 e 2019. Falas  
proferidas por Ailton Krenak em entrevistas e lives realizadas entre 2017 e 2020 estão reunidas em “A vida não é  
útil” (2020). “Futuro ancestral” (2022), por sua vez, é formado a partir de diversas palestras e entrevistas do autor  
em 2020 e 2021.  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
152  
indígenas. Lembra especialmente “do cidadão” (Krenak, 2020, 24 min 44 s) com o qual pôde  
integrar algumas das comissões que discutiram os direitos dos povos indígenas na constituinte.  
E diz que sua produção acadêmica como sociólogo e cientista social nos lega “instrumentos  
que, agora e no futuro, vão servir para conhecer a nossa história, conhecer essa nossa história  
de desigualdade e essa espécie de artifício de construir uma nação” (Krenak, 2020, 26 min 50  
s27 min 14 s).  
A questão da “nação”, como veremos agora, será central para os discursos de ambos os  
autores naquele contexto.  
Florestan Fernandes e Ailton Krenak na Constituinte  
É no cenário do processo constituinte, em Brasília, no ano de 1987, que as trilhas dos  
nossos protagonistas se cruzam. Tratava-se de um momento muito singular na vida política  
brasileira, que precisava lidar com o legado de quase duas décadas de uma ditadura empresarial-  
militar, no que diz respeito às limitações para a participação política e para a garantia dos  
direitos sociais de largas parcelas da população. Representava, nesse sentido, para diversos  
setores e grupos sociais, uma potencial reorientação de rumo na direção de uma sociedade  
democrática. A luta pela construção de uma Constituição que expressasse novas compreensões  
sobre os direitos de parcelas da população brasileira historicamente excluídas do processo  
político institucional e dos benefícios do desenvolvimento econômico encampada por  
diferentes movimentos sociais e por representantes políticos que com que eles dialogam no  
processo constituinte expressa esse ponto de virada na história brasileira.  
De certo modo, as atuações de Florestan Fernandes e Ailton Krenak na Assembleia  
Nacional Constituinte (ANC) expressam diferentes formas pelas quais a “participação popular”  
encontrou vias de intervenção no processo que buscava delinear os rumos do país naquele final  
do século XX.  
Florestan Fernandes era então deputado federal, em seu primeiro mandato. Sua atuação  
na imprensa ao longo da década de 1980, em que publicava periodicamente análises de  
conjuntura embasadas sociologicamente sobre os dilemas do processo de “transição  
democrática”, abriu caminho para seu diálogo com o movimento operário e com os partidos  
políticos que galvanizavam suas reivindicações no período, em particular o Partido dos  
Trabalhadores (PT), pelo qual se candidatou e sagrou-se deputado federal em 1986 (Costa;  
Soares, 2024). Há, portanto, uma certa linha de continuidade entre sua atuação intelectual, como  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
153  
sociólogo que analisava criticamente os modos com que, na chamada “transição democrática”,  
a ditadura se prolongava institucionalmente, operando uma “transição lenta, gradual e segura”  
para uma democracia restrita; e o deputado que, socialista e constituinte, se aproxima dos  
movimentos sociais, em particular do movimento operário e do movimento negro4, e busca lutar  
no parlamento pela construção de uma democracia de base ampliada, que contemple a  
participação, os interesses e os direitos das camadas sociais historicamente excluídas e  
oprimidas no Brasil, os “de baixo”, como ele chamava5.  
Nesse processo turbulento e contraditório, Florestan enxergava a “oportunidade  
histórica” de reconfiguração do país que poderia torná-lo mais alinhado às transformações  
exigidas pelas camadas sociais historicamente exploradas num país subdesenvolvido e  
dependente na periferia do capitalismo (Fernandes, 2014a). Era assim, como “sociólogo” e  
“socialista”, que ele se posicionava no processo constituinte6. Essa dupla filiação expressa sua  
permanente preocupação com a construção de uma “sociologia crítica e militante”, atenta à  
compreensão dos dilemas essenciais da sociedade brasileira, e uma atuação política voltada à  
conformação de uma sociedade democrática, com vistas a uma revolução socialista no país.  
Como bem refletem Diogo Valença Costa e Eliane Veras Soares (2024, p. 183):  
A “sociologia crítica e militante” de Florestan Fernandes ultrapassa, na década de  
1980, os muros da universidade num momento de grande efervescência das lutas  
sindicais e atuação democrática de uma pluralidade de novos movimentos sociais.  
Tais movimentos se associavam a reivindicações feministas, antirracistas, ecológicas  
e várias outras como saúde e educação públicas de qualidade, humanização dos  
espaços urbanos, dignidades dos povos indígenas, das comunidades extrativistas das  
florestas e dos trabalhadores do campo historicamente marginalizados. A sociedade  
brasileira estava em ebulição. As classes trabalhadoras e os movimentos populares se  
mobilizam para lutar por conquistas para as grandes massas. Essas são as  
circunstâncias históricas do lançamento da candidatura de Florestan Fernandes pelo  
Partido dos Trabalhadores a uma cadeira na Assembleia Nacional Constituinte7.  
Para nossos fins no momento, é importante destacar como a “sociologia crítica e  
militante” de Florestan, bem como sua visão de mundo socialista, estão permeadas pelos  
4 Para uma análise da relação de Florestan Fernandes com o movimento negro ver Campos (2016).  
5 As reflexões de Florestan Fernandes sobre o processo constituinte foram reunidas essencialmente em duas obras:  
“O processo constituinte” (1988) e “A constituição inacabada” (1989). Hoje, uma seleção desse material está mais  
facilmente disponível na coletânea “Florestan Fernandes na constituinte: leituras para a reforma política” (2014).  
6 Não poderíamos, nos limites deste artigo, explorar todos os momentos em que essa dupla vinculação se expressou  
na atuação política e intelectual de Florestan Fernandes. Para discussões nesse sentido, ver o trabalho pioneiro de  
Eliane Veras Soares (1997) e o artigo de Diogo Valença Costa (2021).  
7 Do original em inglês.  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
154  
horizontes éticos de sua origem social lumpenproletária. Filho de uma imigrante portuguesa,  
lavadeira e empregada doméstica, Florestan foi jogado precocemente, ainda criança, no mundo  
laboral dos adultos, exercendo trabalhos ligados a ocupações em geral precarizadas e de baixa  
remuneração, como engraxate e garçom. Conforme mostram Costa e Soares (2024), nas redes  
de relações construídas nos vários empregos pelos quais passou, ele começou a estruturar sua  
consciência social lumpenproletária; e na luta posterior para quebrar a barreira de ascensão  
social, precisou adotar uma postura altiva contra os preconceitos de classe e a rejeição à sua  
origem plebeia. É nesse sentido que as “temáticas de pesquisa, os horizontes teórico-  
metodológicos e as perspectivas prático-políticas de Florestan Fernandes nas ciências sociais  
estarão inscritos no seu estilo lumpen, radical-popular e socialista de pensamento” (Costa;  
Soares, 2024, p. 17), marcado por uma compreensão interpretativa e empática às dificuldades  
enfrentadas pelos sujeitos e grupos sociais subalternizados no Brasil.  
Essa perspectiva fica muito evidente em diferentes atuações de Florestan Fernandes ao  
longo do processo constituinte, especialmente em sua defesa persistente para que a ANC  
incorporasse a “iniciativa popular” como fonte de produção das leis. Em artigo para a Folha de  
S. Paulo em 3 de abril de 1987, nosso autor afirma que esse é o “elemento mais avançado” do  
processo constituinte. Ainda que, ao longo do processo, o mecanismo da participação viesse a  
sofrer muitos reveses por parte dos constituintes conservadores e dos “partidos da ordem”,  
como o próprio autor viria a observar naquele momento ele apontava de forma certeira para  
o possível viés transformador que a iniciativa popular poderia provocar na conformação do  
novo Brasil que se buscava forjar:  
[...] é necessário que as massas populares cerquem o Congresso, penetrem dentro dele  
e se revelem através do seu corpo vivo, demonstrando que a nação não pode continuar  
acorrentada ao passado remoto ou recente e a formas de dominação que a reduzem a  
uma colônia disfarçada. [...] O que pressupõe que a massa, por sua presença e de suas  
entidades legais, atue nas comissões e subcomissões, proclame o que quer  
coletivamente do processo constituinte e o torne, assim, um processo popular de  
construção de um Brasil antielite e anti-imperialista, no qual ser não se confunda  
com privilégio, comando e poder! Não se trata, ainda, de “os de baixo ditam as suas  
leis”. Seria utópico sonhar com isto na presente situação histórica e no plano  
parlamentar. Trata-se, bem compreendidas as coisas, de que os de baixo possuem um  
espaço próprio no processo constituinte e, portanto, a nova Constituição deve refletir  
todas as classes, toda a nação, servindo como um novo ponto de partida para o expurgo  
da República e a universalização dos direitos e liberdades civis fundamentais  
(Fernandes, 2014b, p. 66, grifo nosso).  
É por via desses mecanismos institucionais de participação popular nos quais  
Florestan enxergava o potencial da construção “de um Brasil antielite e anti-imperialista” – que  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
155  
Ailton Krenak se insere no processo constituinte. Ele era então coordenador da União das  
Nações Indígenas (UNI), organização que buscava articular, em nível nacional, os interesses de  
diferentes povos indígenas no Brasil. Foi a UNI que assumiu o papel de apresentar, acompanhar  
e defender os direitos indígenas na Assembleia Nacional Constituinte (Silveira, 2023).  
O movimento indígena que emerge naquele contexto é “um esforço conjunto e  
articulado de lideranças, povos e organizações indígenas objetivando uma agenda comum de  
luta, como é a agenda pela terra, pela saúde, pela educação e por outros direitos sociais”  
(Baniwa, 2006, p. 59). As lideranças indígenas, com o apoio de aliados em setores nas  
universidades, na Igreja Católica e em organizações não governamentais, impulsionaram o  
surgimento das primeiras organizações indígenas de caráter regional e nacional, sob a liderança  
da UNI (Baniwa, 2006; Silveira, 2023).  
As lideranças políticas protagonistas desse processo, segundo Daniel Munduruku  
(2012), descobriram, se apropriaram e subverteram os instrumentos legais disponíveis no  
mundo dos brancos, utilizando-os para a defesa dos direitos indígenas. Nessa perspectiva, por  
exemplo, a categoria “índio” é ressignificada pelas lideranças indígenas, que passam a empregar  
o termo “para expressar uma nova categoria de relações políticas” na interlocução com o Estado  
brasileiro (Munduruku, 2012, p. 51). O autor se refere a esse procedimento como a criação de  
um simulacro, uma “representação de si a partir do modelo cultural do dominador”: “...os  
primeiros líderes perceberam que a apropriação de códigos impostos era de fundamental  
importância para afirmar a diferença e lutar pelos interesses, não mais de um único povo, mas  
de todos os povos indígenas brasileiros” (Munduruku, 2012, p. 45).  
O processo de embate com as instituições políticas brasileiras na Constituinte envolveu,  
portanto, a elaboração de discursos que precisavam, em alguma medida, dialogar com o  
“modelo cultural do dominador”. O que significava não só percorrer os caminhos institucionais  
abertos para a participação popular na Constituinte (a elaboração de anteprojetos, a participação  
em audiências públicas, a apresentação de emendas populares…), que acentuavam o fato da  
inexistência de representações indígenas no parlamento naquele momento; mas também a  
formulação de suas reivindicações em termos familiares ao pensamento político ocidental.  
As articulações políticas coletivas e a construção de contradiscursos em torno das  
populações indígenas são, portanto, fundamentais para compreendermos a dimensão da atuação  
desses povos e seus movimentos na construção da Constituição de 1988. Nessa congregação de  
diferentes povos, Ailton Krenak assumiu um papel de “porta-voz”, de construção de diálogo  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
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com as instituições brasileiras em vista da defesa dos direitos dos povos indígenas: “A minha  
atividade hoje poderia ser entendida como a de um embaixador. Eu represento uma embaixada  
indígena junto a instituições e organizações não indígenas” (Krenak, 2015c, p. 82).  
Krenak (2015c) é sobrevivente, assim como seu povo, de uma guerra de colonização e  
ocupação continuada desde o século XIX, marcada por processos de expropriação territorial,  
deslocamento forçado, confinamentos, conflitos com fazendeiros, madeireiros e outros  
usurpadores das terras indígenas. No exílio de seu território, a que se viu forçado na década de  
1970, percorreu diversos contextos regionais e conheceu as realidades de diferentes povos  
indígenas (Silveira, 2023). É desse encontro e diálogo entre diferentes líderes políticos  
indígenas que emerge a ideia de uma organização que buscasse “uma maneira de conversar”  
com o Estado e a sociedade dita nacional, “diferente da que tem existido até agora e que é  
baseada na violência” (Krenak, 2015a, p. 28).  
Ainda que a resistência ao processo de colonização tenha sempre marcado a história dos  
povos indígenas no Brasil, o autor afirma que uma representação em nível nacional só foi  
possível, nos anos 1970, “quando esses povos começaram a se encontrar, começaram a ver que  
tinham problemas comuns e que podiam encaminhar algumas soluções juntos” (Krenak, 2015a,  
p. 25). A UNI seria essa forma institucional de representação, encontrada pelas lideranças  
indígenas para reunir as diferentes nações e defender organizadamente seus interesses e  
necessidades.  
No seio do processo constituinte, os direitos indígenas foram discutidos pela  
“Subcomissão dos Negros, Populações indígenas, Pessoas deficientes e Minorias” (daqui em  
diante, chamaremos apenas de Subcomissão), que fazia parte da Comissão da Ordem Social8.  
Vejamos alguns pontos importantes desse processo e como, neles, se inserem nossos dois  
protagonistas.  
No dia 22 de abril de 1987, o líder político Idjarruri Karajá, com a presença de cerca de  
40 lideranças indígenas, apresentou à Subcomissão a “Proposta Unitária”, assinada por 29  
8
A Assembleia Nacional Constituinte foi estruturada em 8 Comissões Temáticas, com 24 Subcomissões  
Temáticas. A Comissão da Ordem Social estava organizada em três Subcomissões: a - Subcomissão dos Direitos  
dos Trabalhadores e Servidores Públicos; b - Subcomissão de Saúde, Seguridade e do Meio Ambiente e c -  
Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias. As Subcomissões Temáticas  
eram responsáveis pela discussão inicial das propostas para o novo texto constitucional, bem como pela elaboração  
do anteprojeto a ser encaminhado às Comissões. Por fim, o projeto redigido pela Comissão Temática era  
encaminhado à Comissão de Sistematização, responsável pela redação final do projeto a ser votado no Plenário  
Constituinte. O trabalho das Subcomissões contava com mecanismos de participação social, incluindo a presença  
de lideranças e intelectuais ligados aos direitos discutidos.  
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entidades indigenistas, centrais sindicais e associações profissionais e científicas. Proposta que  
foi “resultado de uma ampla discussão nas aldeias, entre as lideranças indígenas e aliados da  
sociedade civil, especialmente juristas, antropólogos e organizações de apoio” (Silveira, 2023,  
p. 91). O documento buscava garantir o reconhecimento e a garantia, às comunidades indígenas,  
de “seus direitos originários sobre as terras que ocupam, sua organização social, seus usos e  
costumes, línguas e tradições”.  
Em 23 de abril de 1987 portanto, no dia seguinte à entrega da Proposta Unitária à  
Subcomissão foi realizada uma audiência pública sobre populações indígenas. Nessa ocasião,  
Florestan Fernandes profere o discurso em que aborda os direitos das populações indígenas na  
sociedade brasileira, sobre o qual nos deteremos mais à frente.  
Representantes das nações indígenas seriam ouvidos pela Subcomissão na audiência  
pública do dia 5 de maio de 1987. Na ata da audiência, além do pronunciamento de Ailton  
Krenak como coordenador da UNI, constam as falas de outros representantes de diferentes  
povos. Nelas, os líderes indígenas “desmascararam o discurso dos brancos acerca do  
‘descobrimento’ desta Terra, os nomearam invasores de uma terra que já estava habitada e  
denunciaram a continuidade dessas invasões no presente” (Silveira, 2023, p. 96, grifo da  
autora).  
A Proposta Unitária foi aprovada na Subcomissão, a partir do trabalho articulado das  
lideranças indígenas e seus apoiadores, e enviada à Comissão de Ordem Social da ANC. Mas  
entre sua aprovação na Subcomissão e a votação em plenário do projeto da Comissão de  
Sistematização, em julho de 1987, avanços e recuos acerca dos direitos indígenas ocorreriam.  
Da retirada do reconhecimento da sociedade brasileira como “pluriétnica”, e do questionamento  
em torno da compreensão dos povos indígenas como “nações”, uma ampla campanha política  
e midiática equacionava a defesa dos direitos indígenas com uma “grande conspiração” contra  
o Brasil e seus interesses econômicos e de soberania (Cunha, 2018; Silveira, 2023). Para  
reverter esses retrocessos, “foi preciso uma ampla mobilização indígena. A UNI realizou  
protestos, promoveu caravanas a Brasília, os indígenas ficaram ali acampados por longos  
períodos e buscaram pressionar os parlamentares” (Silveira, 2023, p. 103).  
Em meio a essas tensões, em 4 de setembro ocorre a defesa das Emendas Populares no  
plenário. Como coordenador da UNI, Ailton Krenak foi responsável por defender a emenda do  
movimento indígena. Num discurso que se tornaria histórico, Krenak, ao tempo que conclama  
os parlamentares para defenderem os direitos indígenas, impregnando a tribuna com a força de  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
158  
uma dramatização ritualística, pinta o rosto com tinta de jenipapo, “em sinal de luto pelos  
encaminhamentos negativos aos direitos indígenas que estavam sendo feitos” (Munduruku,  
2012, p. 79). Esse discurso de ampla repercussão seria muito importante na construção de novas  
tomadas de posição institucionais que garantiriam a aprovação dos direitos dos povos indígenas  
na Constituição de 1988.  
Nesse mesmo mês, em 23 de setembro, Florestan Fernandes profere um discurso na  
ANC em que questiona a relação do “Parlamento com o povo”, apontando que existe “um  
Amazonas entre esse Projeto de Constituição e as aspirações populares” (Fernandes, 2014c, p.  
130). Questionando a metodologia empregada no processo constituinte, pergunta-se por que  
“as reivindicações essenciais que vier[a]m da iniciativa popular não se refletiram no Projeto de  
Constituição” (Fernandes, 2014c, p. 131). E menciona, como exemplo, o “depoimento  
emocionante” do “índio Krenak” nesse sentido.  
É sobre esse conjunto de discursos de Florestan Fernandes e de Ailton Krenak, no  
processo constituinte, que nos deteremos agora9. A partir de tais falas, propomos aqui observar  
as reflexões de ambos sobre duas grandes problemáticas: o reconhecimento dos povos  
indígenas como sujeitos de direito, de um lado, e a crítica à relação do Estado brasileiro com  
esses povos, de outro lado. Evidentemente que se trata de problemáticas extremamente  
relacionadas uma à outra, aqui só distinguidas para fins de exposição. O próprio Ailton Krenak  
o afirma, em depoimento de 1984:  
Meu trabalho junto à União das Nações Indígenas (UNI) é a minha vida. Porque minha  
vida só terá sentido na medida em que eu puder resgatar uma identidade. O que é isso?  
É afirmar a existência e o direito à existência dos índios no Brasil. É construir um  
Brasil onde todos possam ter seus direitos garantidos na prática e não só no papel. [...]  
Essa busca de identidade, que não é só minha, mas de todos os 150 povos indígenas  
diferentes que vivem no Brasil, passa, obrigatoriamente, pela relação entre o Estado e  
os índios. Em toda a história do Brasil, nunca houve um tratado entre o governo  
brasileiro e os povos indígenas. Efetivamente, o governo brasileiro nunca se dirigiu  
aos povos indígenas como nações, que eles são (Krenak, 2015a, p. 22-23).  
9
Os pronunciamentos de Florestan Fernandes e Ailton Krenak na “Subcomissão dos Negros, Populações  
indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias” não foram publicados em livros, mas estão disponíveis nas atas das  
reuniões (Brasil, 1987a; Brasil, 1987b). Por se tratar de falas menos conhecidas e divulgadas, recorremos aqui a  
amplas citações delas. O histórico discurso de Ailton em defesa das emendas populares dos povos indígenas está  
publicado na coletânea “Encontros” (Krenak, 2015b). De extrema importância para nossa reflexão é também a  
entrevista publicada na revista Lua Nova em 1984 (Krenak, 2015a), disponível na mesma coletânea. Os discursos  
e artigos de Florestan sobre a importância da participação popular na constituinte (Fernandes, 2014b, 2014c) estão  
atualmente mais acessíveis na coletânea “Florestan Fernandes na constituinte: leituras para a reforma política”.  
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É pertinente observar como, nessa compreensão, a afirmação do direito à existência o  
“resgate da identidade” – dos povos indígenas passa pela sua autocompreensão como “nações”.  
Trata-se de um termo bastante proeminente nos discursos do movimento indígena naquele  
período e que marcaria sua intervenção no processo constituinte. Tendo sido amplamente  
questionado pelos setores políticos e midiáticos que o associavam a uma suposta perda de  
soberania do território brasileiro ele acabou não sendo incluído na versão final da Constituição  
de 1988.  
Para a nossa discussão, é importante destacar que a expressão dos povos indígenas como  
“nações” sinalizava o modo de autocompreensão desses povos no seu diálogo com as  
instituições políticas brasileiras ao longo do processo constituinte. Ainda que pudesse carregar  
o sentido de “simulacro” de que falava Daniel Munduruku, no sentido de constituir-se a partir  
dos referenciais culturais do dominador, essa autodesignação expressava um posicionamento  
de sujeitos afirmando seu direito a definir sua própria realidade, estabelecer sua própria  
identidade, nomear suas próprias histórias (Kilomba, 2019) no cenário de um diálogo desigual  
com as instituições e os sujeitos produtores dessa mesma dominação. Isso não é pouco  
significativo num contexto nacional em que as populações indígenas foram sempre definidas  
como outros, com suas realidades, identidades e histórias sendo elaboradas a partir do olhar  
colonizador externo, voltado para a criação de mecanismos de dominação e exploração desses  
povos e de seus territórios.  
É a partir desse reconhecimento do sujeito que fala por si, que constrói modos de  
compreensão da sua própria realidade, que Florestan Fernandes questiona as noções  
prevalecentes sobre os povos indígenas no país. O autor destaca como o movimento indígena,  
que havia se constituído nos últimos anos, ainda durante a vigência do regime ditatorial, permite  
observar que os indígenas desenvolveram “várias formas de consciência da realidade” e que,  
portanto, “são os melhores advogados da sua própria causa, conhecem a natureza dos problemas  
que enfrentam e defendem condições que a sociedade brasileira ainda não é suficientemente  
democratizada para aceitar” (Brasil, 1987a, p. 138). É nesse contexto que Florestan compreende  
a defesa, por esses povos, do “conceito de nacionalidade”. Nas palavras do autor:  
Durante esse período ditatorial, os indígenas acabaram desenvolvendo-se com a  
colaboração de organizações, principalmente da Igreja Católica, e também de outras  
formas de organização, assistência prestada, individualmente, por certos advogados.  
Acabaram desenvolvendo várias formas de consciência da realidade, inclusive  
desenvolvendo a idéia de defender o conceito de nacionalidade; de serem tratados não  
como minorias irresponsáveis, mas como nações que vivem dentro do solo brasileiro  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
160  
e devem dispor e desfrutar das regalias e das proteções de uma nação dentro do País.  
[...] Não podemos pensar que os seres humanos são irracionais porque nascem  
indígenas ou porque nascem africanos, ou porque nascem asiáticos. [...] O trabalho  
desses indígenas que hoje se estão ocupando da liderança do movimento indigenista,  
substituindo os antropólogos, pondo de lado qualquer tipo de assistencialismo por  
parte da Igreja Católica ou de outras entidades, o trabalho deles é admirável. Os índios  
são os melhores advogados da sua própria causa, conhecem a natureza dos problemas  
que enfrentam e defendem condições que a sociedade brasileira ainda não é  
suficientemente democratizada para aceitar. Fomos criados na mentalidade de que o  
indígena é uma pessoa in natura (Brasil, 1987a, p. 138).  
No contexto do processo constituinte, a implicação de aceitar a autodesignação dos  
povos indígenas como “nações” era o questionamento da sua compreensão como “minorias”,  
questão discutida na audiência pública em que Florestan proferiu sua fala aqui em exame  
(Brasil, 1987a).  
Para Ailton Krenak, “tratar a questão indígena como problema de minoria é condicioná-  
la a ficar sempre em um beco sem saída”, em que conflitos continuarão existindo enquanto “não  
se reconhecer que este país é uma nação de muitas raças e muitas culturas e que é preciso  
conviver com as diferenças” (Krenak, 2015a, p. 24). Desse modo, argumentava, uma  
“identidade nacional” legítima só poderia surgir do reconhecimento das identidades particulares  
dos grupos que compõem a nação.  
Para Florestan, a noção de “minorias” sugere a perspectiva de um Brasil dividido, como  
numa colcha de retalhos em que as partes não interagem. Pertinente, nesse sentido, é sua  
imagem da coexistência de “duas nações” no Brasil: uma, que se incorporava à ordem civil (a  
rala minoria, que realmente constituía uma “nação de mais iguais”); outra, que estava excluída  
da garantia de direitos, de modo parcial ou total (a maioria, a “nação real”) (Fernandes, 2006).  
Nessa sociedade organizada na divisão entre os “mais iguais”, que se incorporam à ordem  
social, e “a maioria”, excluída da garantia de direitos, tratar os grupos indígenas como  
“minorias” significava legitimar sua exclusão da “nação real”. Para o autor, o emprego do termo  
“minoria”, naquele contexto, revelava uma concepção dividida de cidadania:  
Considerar um grupo humano como uma minoria é, em certo sentido, dizer que  
pertence à Nação, mas que, ao mesmo tempo, ele não tem a plenitude dos direitos  
civis e políticos que são desfrutados por aqueles que formam a maioria desta Nação.  
Quer dizer, existem cidadãos de primeira categoria e cidadãos que são parte das  
minorias, e que estão sujeitos a alguma forma de restrição, inclusive constitucional,  
inclusive de proteção daqueles que se arvoram em consciência do outro (Brasil,  
1987a, p. 138, grifo nosso).  
A referência àqueles “que se arvoram em consciência do outro” soa como uma  
sinalização direta de Florestan à concepção de tutela orfanológica, então prevalecente na  
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161  
política indigenista brasileira. Desde o século XIX, os indígenas eram representados na  
legislação como indivíduos incapazes, sendo a tutela um mecanismo que possibilitaria sua  
“integração” na sociedade nacional. Evidentemente que se partia aqui de uma concepção  
evolucionista em que “os povos indígenas, suas culturas, suas formas de organização social,  
suas crenças, seus modos de educar e de viver eram [considerados] inferiores aos dos  
colonizadores europeus, estando fadados ao desaparecimento” (Munduruku, 2012, p. 30) – o  
que Daniel Munduruku (2012) denomina de “paradigma integracionista” das políticas  
indigenistas no Brasil.  
A insistência de Florestan, em seu discurso na Subcomissão, nas “formas de consciência  
da realidade” dos povos indígenas, pode ser mais bem compreendida no contexto do embate  
com essas concepções hegemônicas. Explícita e diretamente, ele questiona as noções  
prevalecentes nas ciências sociais do século XX que compreendem os indígenas sob o signo do  
“primitivo”, de “pessoas in natura”. Nos seus termos, tais noções expressam “a tendência do  
branco, mesmo do branco que é cientista, a discriminar a capacidade perceptiva, cognitiva de  
explicação do mundo do indígena” (Brasil, 1987a, p. 138). Florestan se mostrava atento aos  
modos como o conhecimento científico nomeava sujeitos e experiências sociais a partir de  
categorias assentadas em perspectivas evolucionistas do humano e da sociedade. O  
reconhecimento do direito à existência dos povos indígenas para retomar a expressão de  
Krenak em 1984 passava, assim, no contexto da Constituinte, pelo próprio reconhecimento  
enquanto sujeitos capazes de construir uma visão sobre si mesmos e seus direitos, bem como  
pelo enfretamento de concepções sobre esses povos arraigadas no conhecimento científico e no  
conjunto das políticas públicas do Estado brasileiro.  
Em seus pronunciamentos na Constituinte, Ailton Krenak vai, assim, destacar a  
importância da presença de diferentes povos, que “tiveram hoje a oportunidade de trazer a sua  
visão dos problemas que estão ocorrendo com a população indígena” (Brasil, 1987b, p. 150).  
Presença, no entanto, que é matizada pela ausência10 de muitos representantes indígenas que se  
encontram em seus territórios sofrendo violências e constrangimentos. Há um reconhecimento  
10 A esse respeito, cabe destacar a ausência de deputados indígenas eleitos no Congresso Constituinte, embora oito  
candidaturas tivessem sido lançadas pelo movimento indígena: Davi Kopenawa Yanomami (PT-RR); Gilberto  
Pedroso Lima Macuxi (PT-RR), Álvaro Tukano (PT-AM); Biraci Brasil Iauanauá (PT-AC); Nicolau Tsererowe  
Xavante (PDT-MT); Idjahúri Karajá (PMDB-GO); Marcos Terena (PDT-DF) e Mario Juruna (PDT-RJ). Apesar  
disso, as lideranças se fizeram presente nos trabalhos da Subcomissão, participando das audiências, como foi o  
caso de Davi Kopenawa Yanomami, Estevão Taukane, Nelson Sarakura, Gilberto Macuxi, Raoni Metuktire, Pedro  
Cornélio Seses, Valdomiro Terena, Hamilton Lopes, Antonio Apurinã, Ailton Krenak, dentre outros (Lopes,  
2011).  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
162  
de uma pluralidade e diversidade de posicionamentos que a noção de uma representação  
nacional não é capaz de abarcar, no caso dos povos indígenas11.  
Assim Krenak se coloca, em seu pronunciamento na Subcomissão:  
Bom dia, aos parentes que vieram de regiões diferentes do Brasil, ao pessoal que veio  
de Mato Grosso do Sul, Paraná, Roraima, Mato Grosso e de outras regiões onde há  
populações indígenas e que, nesta última audiência pública da Subcomissão, que está  
ouvindo as populações indígenas, tiveram hoje a oportunidade de trazer a sua visão  
dos problemas que estão ocorrendo com a população indígena. [...] mas sabemos que  
muitos dos representantes indígenas que se encontram nas suas regiões lutando, no  
dia-a-dia, sofrendo violências, sofrendo constrangimentos, não poderiam ficar fora  
dessas audiências públicas. Assim como os nobres Constituintes tiveram a  
oportunidade de ouvir uma proposta de certa forma discutida, resultado de uma ampla  
discussão sobre a situação indígena atual, era fundamental que também ouvíssemos  
os índios que pudessem estar aqui para relatarem questões regionais. Acredito que,  
neste sentido, cumprimos o nosso papel, a nossa responsabilidade de vir aqui e dizer  
aos Constituintes da nossa expectativa, expressar o nosso pensamento acerca do que  
deve ser na Constituição os direitos da população indígena. (Brasil, 1987b, p. 150-  
151)  
É digna de nota a ênfase no “nosso pensamento acerca do que deve ser na Constituição  
os direitos da população indígena”. Pois nela se intui não só o sujeito que se reconhece como  
tal e capaz de elaborar um quadro interpretativo próprio do processo constituinte a  
“consciência da realidade” de que Florestan falava –, mas também e talvez sobretudo uma  
assunção das especificidades desses sujeitos que só podem ser efetivamente reconhecidas na  
garantia das condições institucionais necessárias para a fala.  
Essas especificidades dos povos indígenas podem ser mais bem compreendidas quando  
nos detemos no ponto principal de praticamente todos os discursos de Ailton Krenak que  
estamos abordando: a importância da terra e do território para os povos indígenas. “O que dá  
sentido de vida ao povo indígena é o sentido sagrado de ocupar o seu território, o lugar onde  
Deus colocou o povo indígena, o lugar onde a sua memória está vinculada e se alimenta,  
permanentemente”, afirma (Brasil, 1987b, p. 151). Articula-se, já naquele contexto, o discurso  
que buscava delinear o sentido sagrado da terra e do território para os povos indígenas. Frente  
às perspectivas desenvolvimentistas que a reduziram ao estatuto de “um bem material”, a ser  
explorado e instrumentalizado em prol do suposto crescimento econômico, apontava-se a terra como  
“um ente vivo, que tem humor, uma dinâmica própria, um senso próprio” (Krenak, 2015e, p. 225).  
11 A discussão dos limites e das especificidades da participação dos povos indígenas na política institucional, de  
acordo com o pensamento de Ailton Krenak, mereceria mais linhas do que somos capazes de dedicar no presente  
artigo. Há muito o que se investigar e debater nesse sentido: das suas críticas à ideia de “representação” e à prática  
dos partidos políticos; à defesa de um Estado plurinacional; ou ao estranhamento dos povos indígenas frente à  
própria instituição do Estado (Krenak, 2015d, 2015e).  
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Essa concepção da terra, ou da natureza de modo mais amplo, confrontava diretamente  
as concepções dos países ocidentais acerca do desenvolvimento, da civilização e da  
modernidade. Em entrevista de 2018, o autor vai afirmar que os brancos projetaram o Brasil  
para que ele se constituísse em uma “plataforma extrativista” e não uma nação. Como  
“plataforma extrativista”, toda a ideia de desenvolvimento e progresso nacional está baseada na  
exploração da Terra. Segundo Krenak (ISA, 2016), o capitalismo, por essas bandas do mundo,  
se baseia em matar “rios, montanhas, florestas”, “comer” “montanhas”, “empacotar”  
“montanhas” e exportá-las, “registrando um aumento no PIB brasileiro”. Fundamentado na  
“exaustão dos recursos da natureza” e “sobre uma história colonial miserável”, trata-se de um  
“capitalismo que não dá nem pra chamar de selvagem”.12  
Não à toa, em seu discurso na Constituinte, Ailton Krenak dizia que “cortar o vínculo  
do povo indígena com os seus lugares sagrados” é “o maior crime que poderia ser cometido  
contra eles!” (Brasil, 1987b, p. 151). Fátima Silveira (2023, p. 96-97) mostra como a terra é  
descrita como a “nossa vida” pelas lideranças indígenas que se pronunciaram na audiência  
pública na Subcomissão, e como a demarcação das terras indígenas é a principal demanda  
apresentada. Para Ailton Krenak, esse reconhecimento envolvia não permitir que a Constituição  
assumisse o tom de uma “proposta culturalista” (termo utilizado pelo intelectual indígena): “não  
adianta formular uma proposta que venha a contemplar o direito do índio falar a sua língua,  
dançar a sua festa, e usar o seu cocar, porque antes de tudo isso é preciso ter uma terra para  
pisar em cima” (Brasil, 1987b, p. 151). Já naquele momento o principal perigo era a abertura  
dos territórios indígenas para a exploração econômica, processo em que o Estado aparecia não  
só como proponente, mas como garantidor: “A abertura dos territórios indígenas à atividade  
mineradora é a última pá de terra que o Estado Nacional poderia lançar sobre a vida das  
populações indígenas. Não brinquem com essa questão!” (Brasil, 1987b, p. 151).  
O papel do Estado brasileiro como patrocinador ou balizador de processos de  
intervenção econômica nos territórios indígenas ou como garantidor da sua demarcação e  
proteção está, desse modo, intrinsecamente relacionado à discussão sobre o reconhecimento  
da existência desses povos como sujeitos de direitos. Trata-se, afinal, da luta por garantir as  
pré-condições sociais de existência necessárias para a construção da vida que tais povos  
desejam para si. Por isso, como apontamos, para Krenak a discussão da identidade passa  
12 Depoimento de Ailton Krenak, em 2016, à equipe Povos Indígenas no Brasil do Instituto Socioambiental (ISA),  
sobre a tragédia ambiental em Mariana (MG).  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
164  
necessariamente pela revisão da relação com o Estado dado que esse foi sempre o âmbito  
normatizador das relações da sociedade dita nacional com os povos indígenas, balizando  
concepções e políticas de extermínio e/ou integração desses povos ao longo da história.  
Não soa estranho, portanto, que tanto Florestan quanto Ailton reconheçam que o Estado  
brasileiro sempre compreendeu os povos indígenas como “inimigos”. O sociólogo enxerga esse  
processo numa linha de continuidade com a ordem social escravocrata brasileira, que “produziu  
pessoas que foram confinadas em categorias que eram todas como de inimigos da ordem”  
(Brasil, 1987a, p. 137). O sujeito negro escravizado, nesse sentido, teria sido o principal inimigo  
da ordem, “porque era um homem privado de liberdade”. O autor estende essa reflexão para  
incluir outras categorias sociais marginalizadas e excluídas naquele contexto, que “são  
caracteristicamente marginalizadas, excluídas, e que poderiam ter outro destino, outro  
aproveitamento na sociedade brasileira, se outra fosse a relação da sociedade brasileira com  
essas pessoas, se elas fossem concebidas como seres humanos, tratadas como seres humanos e  
incluídas dentro da ordem social existente” (Brasil, 1987a, p. 137).  
Ailton Krenak, por sua vez, reflete como o Estado brasileiro tratou os povos indígenas  
como “inimigos de guerra”. Tratando das guerras de colonização e ocupação que marcaram a  
formação da sociedade brasileira, ele destaca a inexistência de qualquer tipo de “tratado de paz”  
entre o Estado e esses povos ao longo da história. A invasão e exploração dos territórios, a  
escravização e os deslocamentos forçados, as ameaças à vida e às suas culturas seriam todas  
expressões de uma violência institucionalizada sob cuja continuidade seria impossível qualquer  
tipo de diálogo construtivo entre o Estado e os indígenas. O avanço dos grandes projetos  
econômicos da ditadura empresarial-militar desde os anos 1970, com seus diferentes impactos  
sobre as populações originárias, fornecia o contexto imediato para essas reflexões do autor. No  
entanto, era a própria continuidade da violência colonial por outros meios que estava no cerne  
das suas reivindicações aos constituintes:  
O Estado brasileiro não tem uma política para as populações indígenas. O Estado  
brasileiro trata as populações indígenas como inimigos de guerra. Somos  
remanescentes de um processo de guerra de extermínio, ainda não foi assinado um  
tratado de paz entre o Estado brasileiro e as populações indígenas. [...] a  
responsabilidade dos Constituintes de hoje é a de fazer o que o Estado nunca fez, que  
é firmar um tratado de paz com o povo indígena, que será uma pré-condição para a  
nossa vida, uma pré-condição para iniciarmos os entendimentos, para iniciarmos a  
cooperação, porque até agora não houve condição para isso, até agora houve uma  
guerra surda, até agora foi o Executivo agindo às escondidas contra o povo indígena  
(Brasil, 1987a, p. 151-152).  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
165  
Assim como o reconhecimento da existência dos povos indígenas implicava o  
enfrentamento das noções que os desumanizam enquanto sujeitos de direitos, o reconhecimento  
de que são tratados como “inimigos” pelo Estado implicava o enfrentamento das noções  
consolidadas acerca do próprio processo de formação social do Brasil. Se o Estado nunca  
firmou um “tratado de paz com o povo indígena”, nas palavras de Krenak, isso significa que as  
narrativas convencionais sobre a nação brasileira, que ainda naquele momento sinalizavam para  
uma colonização pacífica e um progressivo desaparecimento dos povos indígenas pela sua  
aculturação na sociedade nacional, eram marcadas por traços de exclusão e desumanização  
ainda não totalmente reconhecidos. Não se tratava então de revisar apenas as perspectivas em  
torno dos indígenas enquanto sujeitos, mas da própria nação brasileira como um todo unificado,  
coerente e harmonioso.  
Para Florestan, esse debate é tratado como a “controvérsia que existe entre a nossa  
consciência falsa da nossa História e a realidade histórica viva”:  
Com referência à minha própria experiência humana como pesquisador, uma das  
descobertas que fiz - e não estudei índios vivos, estudei índios desaparecidos, índios  
Tupi que viveram no Brasil no Século XVI e no Século XVII - foi a controvérsia que  
existe entre a nossa consciência falsa na nossa História e a realidade histórica viva.  
Gilberto Freire, um homem de grande valor intelectual, que escreveu obras que são  
fundamentais na história da Sociologia, da Antropologia cultural no Brasil, afirma,  
por exemplo, que no Brasil não houve uma política, como ocorreu na América  
espanhola e em outras áreas coloniais, não houve uma política de exterminação dos  
indígenas, e a reação dos indígenas à colonização foi pacífica, porque os brancos, por  
sua vez, trataram os indígenas de uma forma benigna. Ora, esta é uma mitologia, não  
é ciência (Brasil, 1987a, p. 137).  
Segundo o autor, a “mitologia” em torno de uma colonização pacífica deixa de lado os  
variados processos de resistência indígena a ela. Processos que teriam começado quando a  
invasão começou a ameaçar a sobrevivência dos indígenas enquanto comunidades humanas  
organizadas, sendo expulsos de suas terras, perdendo a liberdade e sendo reduzidos à  
escravização. Igualmente, para Ailton Krenak, o processo de colonização foi sempre marcado  
por processos de resistência. “A existência de um movimento indígena organizado não é  
novidade na história do Brasil” (Krenak, 2015a, p. 25), diz o autor, referindo-se à  
“Confederação dos Tamoios” (também mencionada por Florestan em seu discurso na  
Subcomissão), nome com que se sagrou na historiografia a coalizão entre diferentes grupos  
tupinambás para enfrentar colonos portugueses e seus inimigos tupiniquins no século XVI  
(Milanez; Santos, 2021, p. 115-127).  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
166  
O reconhecimento dessa resistência caminhava junto, assim, com uma outra concepção  
do processo de formação social brasileiro. Nossos autores questionaram, cada qual a seu modo,  
as concepções e políticas construídas em torno dos povos indígenas no Brasil as quais, ao  
partirem de uma concepção desumanizante da condição de sujeito desses povos, legitimaram  
seu extermínio e sua supressão, em termos físicos ou simbólicos, em prol de uma dada  
concepção de “desenvolvimento” ou de “progresso” nacionais. Da concepção da “guerra justa”  
contra os indígenas no século XVI; das políticas voltadas à sua “integração” à sociedade dita  
nacional e ao seu progressivo desaparecimento; da tutela orfanológica presente na legislação  
brasileira até a Constituição de 1988; e das pressões políticas e econômicas visando à  
exploração das terras indígenas que persistem até nossos dias todas elas partiram e partem de  
uma compreensão inferiorizante e subalternizante dos povos indígenas frente ao que se  
considera a “nação”. Na observação e análise de processos como esses, Florestan Fernandes e  
Ailton Krenak destacaram a violência como característica definidora da relação do Estado  
brasileiro com os povos indígenas, e questionaram a constelação de justificativas legitimadoras  
para essas violências, que gravitavam em torno tanto de uma concepção infantilizada dos povos  
indígenas quanto de uma concepção de nação harmoniosa e não-conflituosa. O fato de terem  
realizado esses questionamentos no processo constituinte, pouco menos de quarenta anos atrás,  
é revelador do quão recentes são o reconhecimento, pelo Estado brasileiro, da humanidade dos  
povos indígenas e dos seus direitos.  
Povos indígenas no processo de formação social do Brasil  
Buscamos sugerir aqui que os discursos de Florestan Fernandes e Ailton Krenak na  
Constituinte estão ancorados numa releitura do processo de colonização do país, no papel  
desempenhado pelas populações indígenas nesse processo e no enfrentamento das suas  
consequências ao longo dos séculos. Dentre as narrativas sobre o Brasil elaboradas ao longo do  
tempo, nossos autores enfrentaram a concepção predominante de uma nação formada a partir  
do encontro e mistura harmoniosos entre as três raças indígena, branca e negra da qual  
originaria o “povo brasileiro”. Essa crítica, como vimos, está presente, explicitamente ou de  
forma pressuposta, nas reivindicações na Constituinte para que os povos indígenas sejam  
reconhecidos como “nações”.  
Nessa narrativa convencional, o “encontro” das três raças serve como mito fundador de  
uma nação que se concebe e se apresenta como um amálgama exemplar de culturas e raças em  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
167  
plena sintonia e interpenetração. Embora tenha sido esboçada no século XIX, é no século XX  
que essa imagem do Brasil se difunde e se institucionaliza, constituindo progressivamente uma  
imagem oficial da nação (Portela Jr., 2021b). Nessa imagem, a “descoberta” em 1500 dá início  
à história do Brasil. Contrapondo-se a essa perspectiva, Florestan Fernandes e Ailton Krenak  
partem do reconhecimento de que o atual território brasileiro já estava habitado na época da  
invasão, e de que as sociedades e histórias indígenas são o ponto de partida para pensar a história  
do Brasil, uma história assentada na dominação e na violência coloniais.  
Para Florestan Fernandes, a situação de contato, de conflito, entre as populações  
indígenas e os colonizadores constitui o “ponto zero da história do Brasil” (Fernandes, 2009, p.  
23). Tratava-se, segundo o sociólogo, de civilizações autônomas, com instituições sociais  
plenas, além de ecologicamente adaptadas ao território. No entanto, a invasão do continente  
americano a partir de 1492, no contexto da expansão europeia, coloca os mundos indígenas em  
choque, de forma definitiva, com o mundo europeu.  
É nesse contexto que emerge o Brasil colonial, fruto da invasão europeia. Mas o mundo  
colonial não se constitui de forma imediata. Segundo Florestan, as relações iniciais entre  
europeus e indígenas dessa parte da América foram marcadas por conflitos pontuais. Os  
portugueses dependiam inteiramente dos indígenas, comercializavam com eles e, até certo  
ponto, foram capazes de integrar-se ao seu mundo, que permaneceu autônomo nas primeiras  
décadas pós-invasão (Fernandes, 2009).  
As guerras, segundo o sociólogo, iniciam-se com a implantação do sistema colonial,  
mais precisamente com a colonização territorial e a instauração da plantation. Com a  
plantation, os indígenas passam a ser encarados “como um obstáculo à posse da terra, uma  
fonte desejável e insubstituível de trabalho e a única ameaça real à segurança da colonização.  
Passamos, então, do período de tensões encobertas para a era do conflito social com os índios”  
(Fernandes, 2009, p. 34). Inicia-se, assim, o processo de “expropriação territorial” indígena,  
ainda em curso no presente, assim como a escravização desses povos e a tentativa de destruição  
da autonomia das sociedades indígenas. Em suas palavras, o anseio de “submeter”’ o indígena  
passa “a ser o elemento central da ideologia dominante no mundo colonial lusitano” (Fernandes,  
2009, p. 35).  
Contrapondo-se às leituras vigentes, como já salientamos, Florestan Fernandes mostra  
que os indígenas não assistiram pacificamente à dominação colonial dos brancos, vejamos:  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
168  
Ainda hoje se mantém o ‘mito’ de que os aborígenes, nesta parte da América,  
limitaram-se a assistir à ocupação da terra pelos portugueses e a sofrer, passivamente,  
os efeitos da colonização. A ideia de que estavam em um nível civilizatório muito  
baixo é responsável por essa presunção. Todavia, nada está mais longe da verdade, a  
julgar pelos relatos da época. Nos limites de suas possibilidades, foram inimigos duros  
e terríveis, que lutaram ardorosamente pelas terras, pela segurança, pela liberdade,  
que lhes eram arrebatadas conjuntamente (Fernandes, 2009, p. 22).  
Num grande empreendimento de reconstrução histórica que toma por base os relatos  
dos cronistas e viajantes europeus dos séculos XVI e XVII buscando contornar seus vieses  
eurocêntricos e apreender o olhar dos povos originários sobre suas próprias sociedades no  
momento inicial da conquista (Costa; Soares, 2024) , o sociólogo discute as diversas guerras,  
articulações, alianças e movimentos protagonizados pelos povos indígenas na resistência à  
colonização europeia. Tratava-se, lembra o autor, de sociedades guerreiras.  
Essa perspectiva é retomada por Florestan quando do seu pronunciamento na  
Constituinte. Em debate sobre os direitos indígenas na Subcomissão, o sociólogo afirma:  
O grande obstáculo que os indígenas encontraram para se defender contra a conquista  
portuguesa estava no fato de que a organização tribal impedia a unidade deles, o  
aparecimento de formações sociais que pudessem enfrentar a invasão portuguesa. Na  
medida em que eles não tiveram condição de desenvolver uma formação social capaz  
de resistir ao branco, acabaram ficando expostos a uma política de divisão que os  
brancos manejaram com muita habilidade, lançando grupos indígenas contra outros,  
ajudando os brancos a dizimar as populações nativas, e foram vítimas também de  
incursões montadas pelos brancos para o extermínio sistemático das populações  
nativas. De modo que a política de extermínio do indígena é uma política que vem da  
era colonial [...] (Brasil, 1987a, p. 137-138).  
Em sua análise, os movimentos indígenas foram vencidos e o desfecho do processo foi  
a “destruição do mundo em que viviam” (Fernandes, 2009, p. 22). Para Florestan Fernandes,  
derrotar a colonização exigia aliança, solidariedade e cooperação entre os diversos povos  
indígenas deste território, o que não teria ocorrido em razão da grande pluralidade étnica e das  
rivalidades entre os grupos, o que gerou uma resistência fragmentada e dispersa.  
Como resultado, os mundos indígenas do litoral brasileiro foram desestruturados e  
emergiu o mundo colonial, uma sociedade colonial e escravagista, sustentada e organizada  
“com base na estratificação interétnica (no caso: na dominação dos índios pelos portugueses)”,  
na concentração da terra na mãos dos colonizadores, na plantação colonial voltada para suprir  
as demandas externas e na escravidão, que converteu os indígenas (e depois os negros) em  
“seres sub-humanos” (Fernandes, 2009, p. 22). As “bases de autonomia” das sociedades  
indígenas, especialmente suas instituições sociais e o território, foram destruídas pela imposição  
da “civilização cristã” e pela expropriação territorial. Como resultado, as sociedades indígenas  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
169  
foram colocadas em “posição subordinada e dependente” no mundo colonial, e os indígenas  
submetidos “à dominação do branco” (Fernandes, 2009, p. 22).  
Em sua análise, as estratégias de resistência encontradas pelas sociedades tupi foram a  
guerra, a acomodação à sociedade colonial e o isolamento, a partir das migrações e fugas para  
o “sertão”, as áreas distantes dos centros coloniais. No primeiro caso, o autor cita a  
Confederação dos Tamoios, considerando-a uma demonstração de “que as populações  
aborígines tinham capacidade de opor resistência organizada aos intuitos conquistadores dos  
brancos” (Fernandes, 2009, p. 28). A “acomodaçãoà sociedade colonial, por sua vez, ainda  
que em posição subalterna, teria permitido certa continuidade de elementos culturais indígenas,  
consistindo, portanto, num processo de resistência ativa às imposições coloniais. O isolamento,  
por fim, possibilitou certa autonomia, entretanto, era uma saída limitada diante da expansão  
territorial infindável dos brancos, processo que não apenas não terminou, mas ganhou força  
especialmente no cenário de emergência e consolidação do capitalismo. Um capitalismo que  
Florestan Fernandes caracteriza como selvagem ou dependente, por atualizar formas de  
dominação colonialistas e racistas.  
A esse respeito, Fernandes considera a ditadura empresarial-militar como um marco  
para a consolidação da dominação burguesa autocrática e do modelo dependente e  
subdesenvolvido de capitalismo (Portela Jr., 2021a). O autor observava, durante o processo  
constituinte, que os povos indígenas vivenciavam a invasão e expropriação dos últimos  
territórios ainda autônomos, em razão da política protagonizada pelo Estado brasileiro em  
aliança com as empresas nacionais e estrangeiras interessadas na sua exploração econômica:  
“Chegamos ao extremo, hoje, de o nosso Exército ser um instrumento usado por empresas  
nacionais e estrangeiras para desalojar os indígenas das áreas em que estes ainda podem  
sobreviver” (Brasil, 1987a, p. 138).  
O “ponto zero da história do Brasil” estaria então no processo de colonização e nas  
violências perpetradas contra os povos indígenas. Na perspectiva de Ailton Krenak, a  
abordagem desse processo envolve o questionamento do Brasil como invenção, criação,  
projeto. Questionado, em entrevista de 2018, sobre “Como era a vida no Brasil antes da chegada  
dos europeus?”, pontua: “A vida no Brasil antes da chegada dos europeus não existia. Quando  
essa pergunta é colocada, pressupõe-se que existia o Brasil. O Brasil não existia. O Brasil é uma  
invenção, e essa invenção nasce exatamente da invasão” (Krenak, 2021a, p. 240-241).  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
170  
O intelectual indígena ressalta que as sociedades indígenas não eram o “Brasil”, mas  
um outro mundo, “outros mundos possíveis”. Em sua perspectiva, o território que hoje abarca  
o Brasil (e todo o continente) estava habitado por uma multiplicidade de mundos e  
humanidades, fundamentados em outras ontologias13 e relações com a Terra. Os mundos e as  
humanidades indígenas, entretanto, foram invadidos e deslocados “no tempo e também no  
espaço, para ceder lugar a essa ideia de civilização e essa ideia do Brasil como um projeto”  
(Krenak, 2015d, p. 164).  
Segundo Krenak (2021), a consciência da invasão e do projeto colonialista de Brasil que  
deu origem ao movimento indígena brasileiro não se deu de forma imediata, mas foi resultado  
de um longo processo histórico. Vimos como Florestan afirmou que as guerras iniciaram  
quando da expropriação territorial e da escravização dos povos indígenas. Segundo Ailton  
Krenak, com relação aos povos que habitavam o litoral na época em que se iniciou a invasão  
europeia, “demorou” para que os indígenas “entendessem que os brancos eram invasores e que  
estavam aqui para ficar e tomar a terra e, se possível, escravizar os donos da terra” (Krenak,  
2021, p. 251). Em sua análise, isso ocorre porque os brancos “dissimularam” as suas intenções  
e porque os povos indígenas tinham outras formas de sociabilidade que os fizeram incorporar  
os brancos como “mais um na diferença”. A conscientização da invasão, segundo o autor, só  
aconteceu quando os brancos começaram a tentar escravizar os indígenas de forma sistemática.  
É nesse cenário que se inicia a guerra de mundos que nunca “cessou”.  
Para o autor, a ideia de que somos uma nação mascara os profundos conflitos que  
atravessam a sociedade brasileira desde as suas origens. A essa ideia do Brasil como uma nação  
unificada, já vimos como Ailton e o movimento indígena contrapunham o reconhecimento da  
pluralidade de nações no território nacional. Nessa perspectiva, a ideia de “nação” aqui talvez  
assuma aquele caráter de “simulacro”, de diálogo em termos da linguagem do colonizador, de  
que tratava Daniel Munduruku. Era a linguagem do dominador necessária para se debater e  
negociar direitos num contexto institucional criado para manter essa dominação. Nesse sentido,  
ela se distancia das noções ocidentais de “Estado nacional” ou mesmo de “nacionalismo”, na  
medida em que questiona a própria validade do conceito de “Estado” para se pensar a  
organização política dos povos indígenas14.  
13 Por ontologia entende-se, aqui, as “premissas fundamentais sobre o que são o mundo, o real e a vida” e os seres  
existentes (Escobar, 2014, p. 13).  
14 “Pierre Clastres, depois de conviver um pouco com os nossos parentes Nhandevá e M`biá, concluiu que somos  
sociedades que naturalmente nos organizamos de uma maneira contra o Estado; não tem nenhuma ideologia nisso,  
PORTELA JÚNIOR, A.; SILVEIRA, M. de F. S.  
171  
Frente à ideia de uma “nação” unificada, o intelectual indígena propõe também a  
imagem do Brasil como um “acampamento de portugueses e europeus remanescentes, povos  
indígenas e afrodescendentes” (Krenak, 2018, p. 1). A imagem do acampamento sugere a  
ausência de vínculos sólidos entre os diferentes povos que habitam o território brasileiro,  
apontando para o Brasil como uma “instalação provisória” que reúne sociedades, civilizações,  
valores, perspectivas de futuro, mundos muito diferentes e que não têm sido capazes de se  
reconhecer e encontrar uma perspectiva comum.  
A imagem do acampamento também remete à guerra. O Brasil, em sua perspectiva, é  
palco de uma guerra de mundos e o país reflete um modelo civilizatório ocidental imposto em  
detrimento dos mundos e ontologias indígenas. Um modelo civilizatório sustentado por uma  
ideia de humanidade antropocêntrica, colonial, racista e capitalista imposta como universal  
através da colonização e que oculta a pluralidade de mundos, instituindo uma única forma  
válida de se relacionar com a Terra, a capitalista.  
A partir dos mundos indígenas, Krenak pontua a diversidade de formas de conceber o  
humano. Os povos de diferentes regiões, segundo o autor, “sempre reconheceram na chegada  
do branco o retorno de um irmão que foi embora há muito tempo, e que indo embora se retirou  
também no sentido de humanidade que nós estávamos construindo” (Krenak, 2015d, p. 162). E  
nesse sentido, na crítica da ideia de “nação” está presente também uma crítica à ideia de  
“humanidade” estabelecida pela colonização e permanentemente reafirmada até o presente.  
Como seríamos uma nação se somos humanidades tão diversas, se temos perspectivas sobre o  
mundo tão diferentes, se não há o reconhecimento um do outro?  
É nesse sentido que alcançamos algumas das diferenças fundamentais entre as reflexões  
dos nossos autores. No questionamento da ideia de “humanidade” conforme concebida de modo  
restrito pelo pensamento ocidental, Krenak expande as fronteiras ontológicas e epistemológicas  
para considerar nossas relações num espaço mais amplo, que compreende a percepção de  
diferentes mundo e humanidades com distintas formas de compreensão e relacionamento com  
outros seres vivos não humanos, inclusive e sobretudo a “natureza”. Nesse sentido, é a Terra,  
mais do que o Brasil, que está no cerne das suas inquietações teórico-políticas. Imaginar novos  
horizontes civilizatórios passa, segundo o autor, por repensar a ideia de humanidade e a nossa  
somos contra naturalmente, assim como o vento vai fazendo o caminho dele, assim a água do rio faz o seu caminho,  
nós naturalmente fazemos um caminho que não afirma essas instituições como fundamentais para a nossa saúde,  
educação e felicidade” (Krenak, 2015d, p. 166-167).  
Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
172  
relação com a Terra, situando-nos como parte dela, antes de pertencer a um Estado nacional.  
Talvez essa seja uma das questões defendidas pelos povos indígenas no processo constituinte,  
uma vez que, conforme observou Florestan Fernandes, “a sociedade brasileira ainda não é  
suficientemente democratizada para aceitar” tal reivindicação (Brasil, 1987a, p. 138).  
Cabe-nos lembrar que a imaginação política e sociológica de Florestan Fernandes  
também não se restringia aos limites dados pela sociedade capitalista e pela organização política  
do poder burguês naqueles anos de 1980. Sua defesa das “revoluções dentro da ordem”, que  
seriam necessárias para a universalização dos direitos e da participação no âmbito de uma  
democracia burguesa de base ampliada, visava, no limite, à própria revolução dessa ordem, na  
direção de um processo popular de construção de um Brasil antielite e anti-imperialista”. Se  
nossos autores se distanciam em termos dos pressupostos ontológicos que conformam suas  
reflexões, eles convergem na observação de que a transcendência da ordem posta é um requisito  
necessário para a construção de um Brasil democrático que contemple as perspectivas e os  
direitos dos sujeitos que foram constantemente excluídos da sua formação como “nação”. Os  
desafios que essas perspectivas de futuro lançam à realidade política brasileira constituem,  
ainda, questões fundamentais para a democratização da sociedade brasileira nestas primeiras  
décadas do século XXI.  
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30  
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1
vídeo  
(
1
h
48  
min  
46  
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Disponível  
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Povos indígenas e formação social do Brasil: leituras de Florestan  
Fernandes e Ailton Krenak na constituinte  
174  
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Ailton Krenak. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2015. p. 8-19.  
Recebido em: 31/3/2025  
Aceito em: 13/5/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 176 -196  
O PRESTÍGIO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS HOJE: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
THE PRESTIGE OF SOCIAL SCIENCES TODAY: contradictions in the expansion of the  
market for interpreting the social world in contemporary Brazil  
____________________________________  
Michel Nicolau Netto  
Resumo  
As ciências sociais sempre enfrentaram a desconfiança da sociedade. Nos últimos anos, elas passaram a sofrer ataques  
que colocaram em xeque a própria confiança de seus praticantes em seu prestígio social. Este artigo argumenta que  
as ciências sociais acadêmicas perderam o monopólio que detinham no campo mais amplo das ciências sociais, pois,  
no período recente, houve uma ampliação do mercado de interpretação do mundo social. As implicações disso ainda  
são incertas. Mas defendo, com base em um amplo conjunto de dados empíricos, que é mais provável que as ciências  
sociais acadêmicas tenham ganhado relevância como fonte de legitimidade para os cientistas sociais não-acadêmicos  
ou semiacadêmicos, tendo havido, portanto, um aumento do prestígio das ciências sociais na contemporaneidade, e  
não a redução de sua importância.  
Palavras-chave: Ciências sociais. Universidade. Influenciadores. Campo.  
Abstract  
Social sciences have always faced society's skepticism. In recent years, they have been under attack, calling into  
question the confidence of their practitioners regarding their social prestige. This article argues that academic social  
sciences have lost the monopoly they once held in the broader field of social sciences, as there has been a recent  
expansion in the market for interpreting the social world. The implications of this shift are still uncertain. However,  
based on a wide range of empirical data, I argue that it is more likely that academic social sciences have gained  
relevance as a source of legitimacy for non-academic or semi-academic social scientists. Therefore, there has been  
an increase in the prestige of social sciences in contemporary times rather than a reduction in their importance.  
Keywords: Social sciences. University. Influencers. Field.  
É professor livre docente do Departamento de Sociologia e da Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp. Doutor em  
sociologia pela Unicamp, comestágio de doutorado na Humboldt Universität de Berlim, e pós-doutorado em sociologia pela  
Unicamp. Foi visiting scholar no ILAS/Columbia University (EUA), visiting fellow na London School of Economics and  
Political Science (Inglaterra) e professor visitante na ENS Paris-Saclay (2025), tendo sido também diretor-associado do  
IFCH/Unicamp (2021-2025). É membro do Centro de Sociologia Contemporânea, líder do Grupo de Estudos em Pierre  
Bourdieu (GEBU) e participante do eixo “Transições ambientais na era do Antropoceno”, do International Research  
Laboratory “Mundos em transição” (CNRS/USP). Seus principais interesses de pesquisa são as reconfigurações da nação na  
globalização, classe social, práticas culturais e distinção. Fez pesquisas recentes, a partir desses interesses, sobre práticas  
culturais e classes sociais, megaeventos esportivos, turismo e mercado internacional de música. Seu livro mais recente é  
Distinção e Globalização (com Renato Ortiz e Miqueli Michetti, Fino Traço/FAPESP, 2023). E-mail:  
NICOLAU NETTO, M.  
177  
Introdução  
Em “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, Durkheim afirma que não importa  
quão desenvolvida seja uma ciência, ela só pode ter êxito se tiver “suficiente autoridade”. Se as  
pessoas não tiverem “fé” nela, “nenhuma demonstração científica terá influência sobre os  
espíritos” (Durkheim, 1996, p. 213). Os cientistas sociais parecem sentir uma perda dessa “fé”,  
e tem se tornado comum o diagnóstico de que sua profissão tem perdido prestígio. Alguns  
atribuem isso aos ataques recentes que os cientistas sociais sofreram, em especial durante o  
governo Bolsonaro no Brasil1; outros relacionam a pautas identitárias de grupos de esquerda2;  
há os que atribuem ao liberalismo3. De pontos de vista diferentes, todos compartilham um  
sentimento, que se tornou quase uma identidade profissional. Tudo se passa como se  
estivéssemos vivendo uma nova crise dos intelectuais, mas agora de outro modo. Não traímos  
a sociedade (Benda, 2007), mas a sociedade nos traiu e não crê mais em nós.  
Trata-se de um sentimento disperso e como tal dispensa demonstração para ser crível.  
Com isso, pouco se discutem os termos dessa perda de prestígio e não se questiona se é  
adequado o diagnóstico. Este texto busca contribuir para esse debate propondo analisar as  
ciências sociais de forma mais ampla, para além da universidade, como um campo no sentido  
de Pierre Bourdieu (2021), no qual a universidade está posicionada. Ao fazê-lo, busca  
compreender os termos dessa suposta perda de prestígio. Para tanto, vou analisar a circulação  
do conhecimento em ciências sociais hoje e buscar compreender a relação desse conhecimento  
com o subcampo acadêmico. Minha conclusão é que não há uma perda de prestígio das ciências  
sociais. Ao contrário, o que se notará é o aumento da circulação dos conhecimentos das ciências  
sociais e sua maior relevância na sociedade brasileira contemporânea. Ao mesmo tempo, as  
ciências sociais acadêmicas perdem o monopólio do mercado de interpretação do mundo social,  
e o fenômeno que se observa é uma ampliação desse mercado, que se torna mais competitivo  
com a entrada de novos agentes.  
1 Esse diagnóstico se torna objeto de reflexão nas ciências sociais. Na Anpocs 2023, uma mesa propunha estudar  
o ensino e a formação das ciências sociais no Brasil no período pós-Bolsonaro. Seu ponto de partida é justamente  
a existência de um “desprestígio das humanidades”. Ver:  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
178  
A presença das Ciências Sociais  
Embora um sentimento disperso, a crença no desprestígio das ciências sociais tem base  
em indicadores reais que precisam ser reconhecidos. Em primeiro lugar, o ataque que essas  
ciências sofreram recentemente é marcante. As ciências sociais são em alguns momentos  
tachadas como irrelevantes, incapazes de produzir benefícios para a sociedade e bons postos de  
trabalho para seus egressos4. Em outros momentos, são vistas como reprodutora de ideias de  
esquerda, incapazes de lidar com as contribuições rivais. Nesse sentido, seriam ideológicas,  
cujo objetivo único seria doutrinar mentes inocentes5.  
Irrelevantes e/ou ideológicas: os ataques questionam o prestígio das ciências sociais, o  
que produziria uma perda do interesse pela área. De fato, alguns dados parecem confirmar esse  
diagnóstico. Se compararmos os anos de 2015 e 2019, vemos que houve uma redução de 47%  
no número de ingressantes em cursos de graduação em ciências sociais no Brasil6. Esse número  
parece confirmar uma relação de causa e efeito entre os ataques e a perda do prestígio das  
ciências sociais. Contudo, dados de ingressantes podem significar questões relativas a ofertas  
de curso, não de interesse. O número de candidatos é um indicador melhor para medir o  
prestígio das ciências sociais, uma vez que indica a busca, não o sucesso do candidato ou a  
oferta dos cursos. Se fizermos isso e analisarmos uma série mais ampla do que anos relativos a  
Bolsonaro, podemos ter um diagnóstico mais complexo. Não tenho dados sobre o Brasil como  
um todo e, por isso, restrinjo a amostra a duas universidades de São Paulo: USP e Unicamp.  
Embora seja uma amostra extremamente limitada, é importante destacar que essas são duas  
importantes universidades brasileiras e seus cursos de ciências sociais estão entre os mais  
reconhecidos. Ou seja, em lugares de prestígio em ciências sociais.  
Ampliemos a análise para todo o século, de 2001 e 2023. Vemos no Gráfico 1 que há  
uma tendência de queda na quantidade de candidatos nos vestibulares da Fuvest e da Comvest  
para os cursos de ciências sociais das duas universidades.  
4 Foi neste sentido que A. Weintraub afirmou que o “objetivo de seu governo” “é focar em áreas que gerem retorno  
imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”.  
5
Essa visão é compartilhada pela extrema direita, que resume as ciências sociais ao termo macarrônico de  
marxismo cultural. Mas mesmo quem não é desse campo olha as ciências sociais com a mesma suspeita, afirmando  
que ela exclui ideias que não sejam de esquerda. Ver, por exemplo, a entrevista com Franscisco Bosco  
6
e
3,3%  
3,2%  
2,9%  
2,7%  
1,4%  
2,6%  
1,1%  
2,6%  
1,4%  
2,5%  
1,0%  
2,2%  
1,2%  
1,6%  
1,0%  
1,6%  
1,1%  
1,6%  
1,5%  
1,5%  
1,0%  
1,5%  
1,5%  
1,0%  
1,5%  
0,9%  
1,5%  
0,9%  
1,4%  
0,9%  
1,4%  
0,7%  
1,4%  
0,9%  
1,4%  
0,8%  
1,4%  
0,8%  
1,3%  
0,7%  
1,3%  
0,8%  
1,3%  
0,8%  
1,2%  
0,8%  
20012002200320042005200620072008200920102011201220132014201520162017201820192020202120222023  
UNICAMP USP  
Elaboração própria com base em https://acervo.fuvest.br/?t=vestibular e https://www.comvest.unicamp.br/  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
180  
Se observarmos os dados de perto, notaremos que as tendências das universidades são  
muito parecidas. Em relação ao pico, na Unicamp ele ocorre em 2003, quando 3,3% dos  
candidatos na Comvest concorriam ao curso de ciências sociais. Na USP, ocorre em 2004,  
quando eram 1,6%. Também o nível mais baixo é similar: 2023 é o ano de menor taxa na USP  
e de segunda menor na Unicamp.  
Esses dados colocam o debate anterior sob outra perspectiva. A se fiar nessas duas  
universidades, o que notamos é que a queda de interesse pelo curso de ciências sociais é real,  
mas bastante anterior aos anos Bolsonaro. Entre 2018 e 2023, a variação é pequena, com alguma  
relevância nos anos de 2021 e 2022. Como nesses anos a variação é maior em relação ao número  
absoluto (Gráfico 1) do que ao número relativo (Gráfico 2) dos candidatos de ciências sociais,  
ela deve se explicar mais pelas consequências da pandemia de covid-19 do que pelo interesse  
na área.  
É importante ter precisão no que encontramos: uma perda de interesse em cursar  
ciências sociais. Mas isso permite pensar que há uma perda de prestígio das ciências sociais na  
sociedade contemporânea? As pessoas buscam seus cursos por diversas razões, das mais às  
menos conscientes. O prestígio da área pode ser um, mas certamente não é o único. Mercado  
de trabalho, ampliação de ofertas de curso, origem de classe social, entre tantas outras podem  
também explicar esses dados. É preciso, então, buscar essa resposta em outro lugar. Caso  
houvesse uma perda de prestígio, seria de se esperar que as ciências sociais desaparecessem do  
debate público. O fato, inclusive, de serem atacadas pode ser um indício de sua própria  
legitimidade, uma vez que toda forma de ataque depende do reconhecimento de quem é atacado.  
Testemos isso com base em dois conjuntos de dados. O primeiro se refere aos discursos dos  
detratores, o segundo, a uma análise quantitativa de menções na Folha de São Paulo de termos  
ligados a conceitos centrais das ciências sociais.  
Comecemos por dois detratores. A importância deles se dá por demonstrar que até para  
serem atacadas, as ciências sociais são mobilizadas, evidenciando seu prestígio. O primeiro  
deles é Ernesto Araújo, antigo ministro das relações exteriores sob Bolsonaro. Araújo (2017)  
argumenta que o fim da Guerra Fria não representou o fim do comunismo, que continua a ser  
gestado ideologicamente pelo “marxismo cultural”. Essa ideologia seria pregada nas  
universidades e se espalharia globalmente por agências multilaterais formativas do que ele  
denomina globalismo. O ex-chanceler se dedica, em grande parte de seus textos e discursos, a  
desmontar as bases dessa suposta ideologia. A quantidade de autores com os quais ele discute  
NICOLAU NETTO, M.  
181  
é marcante: de Marx e Hegel, a Nietzsche e Lacan, e seu pensamento é muitas vezes embasado  
nos próprios diagnósticos daqueles que ele quer criticar. Pego, como exemplo, o uso que faz de  
Herbert Marcuse em um discurso proferido em um dos mais importantes think tanks  
conservadores do mundo, o Heritage, em Washington (Cavalcante; Chaguri; Nicolau Netto,  
2021). Ali ele propõe que o ocidente se afastou de Deus e gerou aquilo que Marcuse (2008)  
chamou de o “homem unidimensional”, que se define como aquele desprovido de simbologia,  
meramente um homem racional. Ao contrário de Marcuse, Araújo entende essa simbologia  
enquanto símbolos religiosos. Ou seja, o homem unidimensional seria aquele que teria retirado  
Deus de nossos corações e mentes. Não importa a distorção que faz; o fato é que Marcuse é  
quem lhe dá a chave de análise para defender a volta da centralidade do cristianismo7.  
O segundo detrator, Abraham Weintraub, ex-ministro da educação de Bolsonaro,  
também era afeito a mobilizar cientistas sociais. Em uma conferência em 20188, ele defendeu  
que o capitalismo no Brasil não avançaria devido a uma questão cultural. Para tanto, sua  
principal referência foi Max Weber. Distorcendo o pensamento do alemão, Weintraub afirmou  
que Weber teria demonstrado que apenas os países ocidentais, herdeiros da “cultura”  
protestante, teriam tido a condição de desenvolver uma forma de pensamento que poderia levar  
ao desenvolvimento do capitalismo. Nesse sentido, ele faz referência à tese de Samuel  
Huntigton, outro cientista social, de que vivemos em um choque de civilizações, no qual a  
salvação do mundo se daria pela vitória do Ocidente sobre o Oriente. No caso do Brasil, então,  
seria necessária uma mudança cultural que alie o país aos “princípios” ocidentais – lidos como  
cristãos e conservadores se afastando da influência de outras culturas. É com base nisso que  
há a condenação de políticas da diferença, do multiculturalismo e de formas de diversidade  
sexual e religiosa. Weber, aliás, é o autor frequente entre os detratores, sendo também usado  
para fundamentar os argumentos a favor das propostas do Programa Escola Sem Partido9.  
7 A importância de Marcuse para Araújo é demonstrada pela grande volta que o brasileiro precisa dar para condená-  
lo. Se o diagnóstico do filósofo está certo, ele esconderia um projeto. Marcuse não descrevia um fenômeno ou um  
processo, mas buscava impor na sociedade aquilo que ele fingia condenar, o próprio homem unidimensional. Nas  
palavras do ex-ministro: “ele escreveu aquele livro nos anos 60 denunciando a sociedade de consumo, mas seu  
real problema era estabelecer o homem unidimensional” (Araújo, 2019).  
8
Em minha última busca (13/1/2020), notei que o vídeo dessa conferência foi retirado do Youtube. O endereço  
em que estava é o seguinte: https://www.youtube.com/watch?v=CbJa6B77FdY.  
9
Sobre isso, ver “Programa Escola sem Partido”: uma janela fundamentalista. Disponível em:  
Acesso em: 19 abr. 2021.  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
182  
Passemos ao segundo conjunto de dados, que indica a presença das ciências sociais nos  
debates públicos. Olhemos para a Folha de São Paulo como um indicador de assuntos que  
circulam na esfera pública. Na base de dados do jornal, observei a frequência dos termos “classe  
social”, “racismo”, “ciências sociais”, “sociologia” em cinco quinquênios: 1995-2000, 2000-  
2005, 2005-2010, 2010-2015, 2015-2020. Esses termos foram escolhidos como representantes  
de debates típicos das ciências sociais. Especialmente os dois primeiros termos não são  
exclusividade das ciências sociais, mas nada é, uma vez que as ciências sociais falam sobre o  
mundo. Contudo, racismo e classes sociais são termos centrais às ciências sociais e, se eles  
estiverem circulando mais amplamente no debate público, isso pode indicar a amplitude das  
próprias ciências sociais. O que notamos na tabela 1 é justamente um grande crescimento da  
presença desses termos no jornal, em especial no último quinquênio:  
Tabela 1 - trajetória de menções a termos selecionados no jornal Folha de São Paulo  
Classe Social  
Racismo  
206  
Ciências Sociais  
Sociologia  
140  
26  
46  
18  
37  
1995-2000  
2000-2005  
2005-2010  
2010-2015  
2015-2020  
368  
212  
20  
309  
16  
229  
241  
477  
496  
172  
1300  
296  
2771  
1146  
Elaboração própria com base em https://acervo.folha.com.br/index.do.  
Esses dados indicam a relevância das ciências sociais na contemporaneidade, algo que  
encontra respaldo no recente sucesso editorial de autores e autoras da área. Alguns colegas se  
dedicaram ao estudo de autores conservadores que se tornaram best-sellers, especialmente nos  
anos anteriores ao golpe contra Dilma Rousseff (Silva, 2018; Rodrigues, 2018; Cavalcante,  
2015). Mas podemos notar mais recentemente que autores e autoras progressistas também se  
tornaram sucesso nas gôndolas das livrarias e nos sites de venda de livro. Segundo dados da  
Publishnews, que apenas contabiliza venda de livros em livrarias físicas, em 2018 dois autores  
desse campo apareciam entre os mais vendidos de livros de não-ficção: Jessé Souza e Marcia  
Tiburi (Chimamanda Ngozi Adichie também aparecia na lista, mas em 2017)10. Se olharmos  
para os livros mais vendidos na Amazon em 13/04/2021, na lista geral de não-ficção aparecem  
Djamila Ribeiro e Silvio Almeida.  
10 Disponível em: https://www.publishnews.com.br/ranking. Acesso em: 8 jan. 2020.  
NICOLAU NETTO, M.  
183  
Temos até aqui, portanto, dados contraditórios. O curso universitário de ciências sociais  
perde o interesse ao mesmo tempo em que as ciências sociais se tornam mais presentes e, talvez já  
possa dizer, prestigiadas no debate público. O próximo item busca dar sentido a essa contradição.  
O crescimento do mercado de interpretação do mundo social e seus novos agentes  
Se os dados indicam que as ciências sociais não estão ausentes dos debates públicos,  
precisamos saber quais ciências sociais estão nesses debates. Os dados a seguir nos dão algumas  
pistas. O primeiro conjunto de dados tratará do universo de publicações em livro. A estratégia  
é observar quais são os livros mais vendidos da área. Embora o ideal seria trabalhar com os  
livros mais lidos e mais comentados, os dados que pude levantar são limitados aos mais  
vendidos. De toda forma, serem mais vendidos é um bom indício de sua popularidade. A lista  
que apresento observa os 100 livros, categorizados como política, filosofia e ciência sociais,  
mais vendidos pela Amazon do Brasil11. A pesquisa foi feita no dia 13 de abril de 2021 e ela se  
refere aos mais vendidos na semana anterior 12.  
Em minha amostra, encontrei 22 autores brasileiros, que serão analisados a seguir. São eles:  
Tabela 2 - Autores brasileiros mais vendidos na Amazon.com.br classificados em política,  
filosofia e ciências sociais em 13/04/202113  
Djamila Ribeiro  
Silvio Almeida  
Clóvis de Barros Filho  
Malu Gaspar  
Daniela Arbex  
Henry Bugalho  
Luís Roberto Barroso  
Ciro Gomes  
Lélia Gonzalez  
Luiz Felipe Pondé  
Ailton Krenak  
Patricia Campos Mello  
Sidnei Nogueira  
Sabrina Fernandes  
Jessé Souza  
Alessandra Devulsky  
Monica Baumgarten de Bolle  
Carla Akotirene  
Bruno Paes Manso  
Ana Caroline Campagnolo  
Darcy Ribeiro  
Celso Furtado  
Elaboração própria com base em www.amazon.com.br.  
11 A Amazon representa 50% da venda de livros no Brasil, segundo dados de 2023, o que a torna uma boa fonte  
12  
Embora tenha tentado, não consegui uma lista melhor. Busquei dados na Câmara Brasileira do Livro e no  
Sindicato Nacional de Editores de Livros. Ambos disseram que não possuíam listas de livros mais vendidos, muito  
menos por gênero. O Sindicato me indicou procurar a Nielsen, que produz dados para o setor. Assim o fiz e até 13  
de junho de 2024 não obtive resposta.  
13 As análises que faço sobre esses autores é baseada naquele momento. A situação deles pode ser diferente hoje.  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
184  
Vamos olhar esses autores buscando primeiro compreender o vínculo com a  
universidade. A questão que me ocupa é saber se as ciências sociais que são sucesso editorial  
se relacionam com essa instituição. Em seguida veremos os meios de divulgação de seus  
trabalhos.  
Em relação ao vínculo, começamos por entender o nível educacional do conjunto. Todos  
fizeram graduação, 60% deles possuem doutorado e outros 15% possuem somente o mestrado.  
Dos que possuem doutorado, quase todos adquiriram o título em universidades de prestígio:  
70% nas grandes universidades públicas brasileiras, 20% em universidades estrangeiras e 10%  
em fundações. São também pessoas que, em sua maioria, mantêm vínculo atual e permanente,  
embora não exclusivo, com a universidade: 50% são professores ou pesquisadores em  
universidades, 4,55% são estudantes e 45,45% não possuem vínculo14. Da mesma forma,  
parecem observar as regras do campo acadêmico. Excluindo os autores que já morreram, temos  
que 73,68% de todos os autores possuem currículo Lattes. Até aqui, portanto, podemos pensar  
que estamos tratando de intelectuais acadêmicos.  
Quando, contudo, nos aprofundamos em suas produções isso parece se modificar.  
Enfoquemos o Lattes, pois tê-lo é a carteira de identidade do pesquisador acadêmico. Agora me  
restrinjo aos autores vivos para notar que 26,32% deles não possuem Lattes. Outros 36,84%,  
ainda que possuam, não o atualizam há mais de dois anos (alguns há mais de 10 anos). De todo  
o corpus, apenas 26,32% dos autores atualizaram o Lattes nos últimos 12 meses. Se, então,  
olharmos para suas produções escritas, o afastamento das regras acadêmicas se torna mais  
marcante: 52,63% nunca publicaram um artigo em revista acadêmica; 10,53% publicaram o  
último artigo há mais de 10 anos. Apenas 15,79% publicaram artigos em revistas acadêmicas  
nos últimos dois anos. Ou seja, quase 85% dos autores excluindo os que não estão vivos –  
organizam suas carreiras distantes das regras acadêmicas15. Isso nos permite classificar os  
intelectuais em três grupos. Chamo de acadêmicos os autores que possuem doutorado, vínculo  
permanente (mesmo que não exclusivo) com a universidade e que publicaram ao menos um  
artigo acadêmico nos últimos 5 anos. Chamo de semiacadêmicos aqueles que mantêm vínculo  
com a universidade, mas não de forma permanente. Ou seja, circulam frequentemente em  
palestras, dão cursos, muitas vezes estão nos programas de disciplinas, mas não possuem  
14 Quando o autor já havia morrido, considerei a maior parte de sua carreira.  
15  
A importância que damos ao Lattes nas universidades o torna um bom índice para se compreender o vínculo  
intelectual dos autores com as regras acadêmicas.  
NICOLAU NETTO, M.  
185  
contratos estáveis. Também não publicaram artigos acadêmicos nos últimos 5 anos. Chamo de  
não-acadêmicos os que não publicaram artigos acadêmicos nos últimos 5 anos e não possuem  
vínculos com a universidade. Nesses termos, apenas 15% de minha amostra pode ser  
classificada como acadêmica.  
Se a relação com a universidade distingue os autores, eles são muito semelhantes em  
suas atuações na mídia. Naquele mesmo 13 de abril de 2021, 81,82% da amostra possuía uma  
página na Wikipedia, sendo que 63,64% em mais de uma língua. Também estavam presentes  
na TV e no jornal (quase 95% entre os vivos estão constante ou frequentemente na TV e  
escrevem em jornais). Em relação à internet, o mais raro é terem canais no Youtube (26,32%),  
mas em relação às mídias sociais é quase uma unanimidade: 89,47% possuem conta no  
Facebook, o mesmo número de contas no X; 100% possuem Instagram.  
Ao menos com base nessa amostra, temos um cenário no qual os intelectuais que mais  
vendem livros em ciências sociais, política e filosofia na Amazon.com.br se vinculam com  
intensidades diferentes com a universidade, mas estão totalmente integrados às formas  
contemporâneas de circulação de ideias. Pode-se dizer que são todos nossos egressos, alguns  
poucos nossos colegas e todos capazes de falar com um público que ultrapassa o público  
acadêmico.  
Isso pode estar de acordo com algumas tendências contemporâneas. Em uma pesquisa  
feita por Isolda Santiago dos Santos (2024) com alunos ingressantes do curso de ciências sociais  
na Unicamp em 2023, ela perguntou o “meio pelo qual os respondentes tiveram maior contato  
com as temáticas das ciências sociais” e, em seguida, o segundo meio. Entre 110 estudantes, 51  
responderam ao questionário. O primeiro meio mais mencionado foi “disciplinas escolares”  
(47,1%) e, em seguida, “redes sociais” (19,6%). O segundo meio foi “redes sociais” (29,4%) e,  
em seguida, “disciplinas escolares” (25,5%) (Santos, 2024, p. 71). Esses dados demonstram a  
importância da escola, como já se esperava. Contudo, o destaque é a importância das redes  
sociais. Elas são a primeira ou segunda principal fonte de conhecimento sobre as ciências  
sociais para 49% da amostra. Bem à frente dos livros, por exemplo (27,4%).  
Isso está em linha com a expansão do mercado de intelectuais em redes sociais. Como  
vimos, todos os best-sellers mencionados acima possuem uma presença relevante nas redes  
sociais. A pesquisa de Santos (2024, p. 76) tentou encontrar dados para isso medindo  
conhecimento e interesse dessa amostra pelos canais de Sabrina Fernandes, Jones Manuel,  
Chavoso e Café com Sociologia. Para cada um, ela apresentava as alternativas: “conhecia”,  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
186  
“conhecia e acompanhava” e “não conhecia”. Apenas 3,9% da amostra dizia não conhecer  
nenhum desses canais, enquanto 11,7% diziam conhecer e acompanhar todos eles. 78,4%  
disseram acompanhar ao menos um dos quatro canais. Chavoso era o mais conhecido e o mais  
acompanhado, enquanto Sabrina Fernandes (a única que está na nossa lista de best-sellers) é a  
menos conhecida, embora quase 40% ainda a conheçam.  
Esses dados podem ser contrapostos a outros. Santos (2024) também investigou o grau  
de conhecimento de seus respondentes sobre um conjunto de autores. No gráfico 3 apresento  
uma seleção desses autores. É importante notar que sua pesquisa lidou com ingressantes, ou  
seja, pessoas que ainda não foram ambientadas no meio acadêmico.  
Gráfico 3 - Conhecimento sobre autores entre os ingressantes no curso de graduação em  
Ciências Sociais da Unicamp em 2023  
Já tinha lido  
74,5  
Não conhecia  
Não tinha lido, mas já tinha ouvido falar  
90  
80  
70  
60  
50  
40  
30  
20  
10  
0
76,5  
62,7  
56,9  
56,9  
52,9  
51  
49  
43,1  
37,3  
41,2  
33,3  
29,4  
29,4  
21,6  
17,6  
17,6  
13,7  
9,8  
9,8  
5,9  
5,9  
3,9  
0
Lévi-Strauss Malinowski  
Marx  
Weber  
Mbembe  
Angela Davis Silvio Almeida  
Djamila  
Ribeiro  
Elaboração própria com base em gráfico de Santos (2024, p. 73).  
Lévi-Strauss, Malinowski, Marx e Weber são autores clássicos das ciências sociais e  
foram escolhidos por Santos justamente porque são obrigatoriamente ensinados nos cursos  
introdutórios da Unicamp. Mbembe e Angela Davis também são autores acadêmicos,  
frequentemente ensinados nas universidades, mas que têm adquirido maior presença nos  
programas curriculares recentemente. Já Silvio Almeida e Djamila Ribeiro são, como vimos,  
sucessos editoriais e, em minha classificação, autores semiacadêmicos, cuja presença social  
ultrapassa bastante o mundo acadêmico. Marx é o autor mais lido, seguido de Weber, o que  
pode ser consequência da presença da sociologia no ensino médio. Marx, inclusive, é o único  
NICOLAU NETTO, M.  
187  
autor que todos conheciam. Contudo, Weber é seguido de perto por Djamila Ribeiro. Em  
seguida está Angela Davis e, em quarto lugar, o autor mais lido é Silvio Almeida. Os autores  
da antropologia clássica (Lévi-Strauss e Malinowski) só tinham sido mais lidos do que  
Mbembe, o autor menos conhecido da amostra. Esses dados mostram que, antes de ingressar  
em ciências sociais, esse público conhece uma ampla gama de autores, misturando autores  
clássicos (especialmente da sociologia), emergentes e semiacadêmicos.  
A ampliação do mercado de interpretação do mundo social  
O conjunto de dados nos revela até aqui que não há perda de prestígio ou de relevância  
nas ciências sociais, mas que as ciências sociais acadêmicas não reinam mais sozinhas no  
mercado de interpretação do mundo social. Em outras palavras, o campo das ciências sociais se  
adensou e a competição aumentou. Se esse é o diagnóstico, podemos agora pensar em suas  
implicações. Farei isso a partir do tema da autonomia relativa do campo. Diversos textos se  
ocuparam de questionar se as transformações recentes nas condições de trabalho intelectual  
estariam levando a sua perda. É isso que Pierre Bourdieu (1997) faz no fim da década de 1990.  
Naquele momento, Bourdieu estava preocupado com o avanço do neoliberalismo e com novas  
práticas que afetavam os campos da produção cultural. Se, em suas obras anteriores, o autor  
nos proporcionou instrumentos para questionar a ilusão existente nos campos, no fim da vida,  
ele se preocupava com o campo intelectual. Nas conferências publicadas em 1996, o autor  
reflete sobre “a influência crescente da televisão na produção da informação jornalística e na  
produção de outros bens culturais” (Setton, 2001, p. 29). Para o autor, a televisão representa  
“um grande perigo às diferentes esferas da produção cultural, arte, literatura, ciência, filosofia,  
direito” (Bourdieu, 1996, p. 9). Isso levava a uma mudança nas regras de produção cultural. O  
acesso dos produtores culturais à televisão tinha como “contrapartida uma formidável censura,  
uma perda de autonomia ligada, entre outras coisas, ao fato de que o assunto é imposto, de que  
as condições da comunicação são impostas (...)” (Bourdieu, 1996, p. 19). Para tanto, os agentes,  
tais quais os cientistas sociais acadêmicos, precisavam se adaptar às “ideias feitas” e ao “fast  
thinking” (Bourdieu, 1996). Dessa forma, ele via como uma norma externa de produção cultural  
afetava as formas internas do campo, colocando em xeque sua autonomia.  
Essa ideia está presente em um conjunto de textos que consideram o neoliberalismo uma  
ameaça ao pensamento autônomo. As implicações são várias: modificam-se as formas como  
nos relacionamos uns com os outros, agora pautados pela competitividade; mudam-se as formas  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
188  
pelas quais nos relacionamos com as instituições, em busca de maior eficiência; transforma-se  
nossa relação com nossa produção, agora mais acelerada e medida por indicadores quantitativos  
(Maia, 2019). Dessa forma, as lógicas econômicas do neoliberalismo se espraiam por toda a  
sociedade e se inserem nos campos do trabalho intelectual.  
Embora essas discussões sejam fundamentais, elas pouco se ocupam em compreender a  
transformação mais ampla do campo das ciências sociais e a posição que ocupam as ciências  
sociais acadêmicas frente a essas transformações. Para que possamos compreender isso,  
considerarei a questão da autonomia do próprio campo. Usarei como foco a sociologia para  
poder me aprofundar em alguns casos, mas a análise pode ser estendida, com outros exemplos,  
para as outras áreas das ciências sociais. Comecemos por historicizar o campo, o que nos leva  
de imediato a relativizar sua autonomia. Isso porque, se entendermos a autonomia do campo  
como a capacidade de seus praticantes de agirem apenas em relação a seus pares (Bourdieu,  
2021), temos um problema no processo da própria autonomização das ciências sociais. Em  
verdade, o processo de institucionalização das ciências sociais, ou seja, o “desenvolvimento  
institucional das disciplinas dentro do sistema acadêmico, com a criação de currículos, de  
postos de trabalho com ensino e diplomas” (Sapiro, 2018, p. 351), só pode ocorrer por um  
processo de permissividade do campo ao conhecimento produzido fora dele. Heilbron (2022)  
nos lembra que não foi o campo das ciências sociais que criou as teorias sociais; ao contrário,  
elas o antecedem. Dessa forma, quando vão para as universidades, as ciências sociais o fazem  
levando uma plêiade de autores que produziram suas teorias fora delas. Evidentemente, isso  
pode ser uma marca do nascimento dessas ciências. Contudo, essa marca se estende na história.  
Marx, Weber e Durkheim são tidos como fundadores da sociologia. Isso, contudo, já denota  
uma história das ciências sociais. Ainda em 1937, Parsons (1967) considerava autores centrais  
da área Weber, Pareto, Marshall e Durkheim. No Brasil, os fundamentos sociológicos antes da  
segunda metade do século XX são dominados por Durkheim e pela escola francesa (Merkel,  
2024). A apresentação da sociologia feita por Fernando de Azevedo em 1935, Princípios de  
Sociologia (1954), demonstra isso. Ela traz uma imensa gama de pensadores europeus e norte-  
americanos. Durkheim ocupa o centro da obra, é o sociólogo por excelência. Weber aparece  
apenas em um verbete de poucas linhas ao lado de vários outros intelectuais alemães como  
representantes da moderna sociologia naquele país. Embora esteja no livro, Marx não está nessa  
lista, uma vez que não é considerado como alguém que tenha desenvolvido “métodos  
NICOLAU NETTO, M.  
189  
genuinamente sociológicos” (Azevedo, 1954, p. 427). Pareto e Simmel têm mais destaque no  
livro do que os dois clássicos atuais.  
Já na década de 1960 isso muda de figura. Em 1967, Florestan Fernandes (1967), propõe  
um método de investigação em ciências sociais que parte de três matrizes retiradas de Marx,  
Weber e Durkheim (Ianni, 1996, p. 28). Alguns anos depois, Bourdieu (1972) e Anthony  
Giddens (1971) também produziriam suas teorias e seus métodos a partir da síntese desses três  
autores. Houve, portanto, um processo de seleção de autores que moldaram a imagem das  
ciências sociais acadêmicas. Essa história, contudo, não se faz apenas em referência ao campo  
acadêmico. Ao contrário, ela é feita pela inclusão e a exclusão tanto de acadêmicos quanto de  
não-acadêmicos. Sabemos que a razão do insucesso de Tarde e Worms na história das ciências  
sociais (Ortiz, 1989; Consolim, 2008), na disputa com Durkheim, se relaciona com a distância  
deles da institucionalização acadêmica. Contudo, quando olhamos o estabelecimento da tríade  
Marx, Weber e Durkheim, vemos que essa institucionalização também se deu pelo ingresso de  
cientistas sociais não-acadêmicos ou semiacadêmicos no campo acadêmico. Marx é o exemplo  
mais óbvio, uma vez que sua obra foi produzida antes da institucionalização das ciências sociais  
na universidade. De fato, Marx não manteve relações permanentes com a universidade após  
seus estudos e sua obra originalmente foi muito mais ligada ao campo político, ao mercado  
editorial e ao jornalismo (Stedman-Jones, 2017; Heinrich, 2018). Mas também Weber não pode  
ser considerado um intelectual tipicamente acadêmico. Especialmente após seu adoecimento  
em 1898, ele se afasta dos afazeres acadêmicos, só os retomando nos dois últimos anos de vida  
(Radkau, 2013). Dessa forma, suas obras mais lidas pelos cientistas sociais foram produzidas  
fora da universidade: a primeira parte de A Ética Protestante (2004) é de 1904. Sua conferência,  
Ciência como Vocação (2016), muitas vezes tida como um modelo de atuação para o cientista  
acadêmico, foi ministrada justamente no ano em que ele voltou a dar aula e um ano antes de  
sua morte. Portanto, embora estivesse de volta às atividades acadêmicas, Weber analisa aquilo  
que por anos observou de fora. Se ele produziu sua obra em instituições mais especializadas do  
que Marx, como o Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, e ajudou a fundar a  
Sociedade Alemã de Sociologia, sua atuação pode ser considerada para-acadêmica, com intensa  
circulação nos ciclos intelectuais não acadêmicos de artistas e políticos.  
Entre os considerados fundadores da sociologia, Durkheim é a exceção, não a regra.  
Mais do que um entre três, é em relação a sua imagem que se produz um ideal de cientista social  
acadêmico. Por isso, como diz Renato Ortiz (1989), ele não é apenas o “herói fundador”, mas  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
190  
também o arquiteto das ciências sociais acadêmicas. É aquele que busca estabelecer as  
fronteiras da sociologia com outras áreas: diferente da psicologia (não estudamos as  
consciências individuais, mas as coletivas), da filosofia (não lidamos com raciocínios genéricos  
e metafísicos, mas com objetos construídos), da biologia (não lidamos com fatos biológicos,  
mas sociais) (Lukes, 1973). Mas também busca afastar a sociologia daquilo que Bourdieu,  
Passeron e Chamboredon (2007) chamaram de sociologia espontânea, ou seja, as interpretações  
do mundo social feitas pelo senso comum. Por fim, é dele a imagem do intelectual que precisa  
“renunciar aos sucessos mundanos, por assim dizer, e (...) assumir o caráter esotérico que  
convém a toda ciência. Ele ganhará assim em dignidade e em autoridade o que talvez perderá  
em popularidade” (Durkheim, 2019, p. 151). Durkheim venceu seus competidores e sua vitória  
representa um movimento que leva as ciências sociais a se tornarem, anos mais tarde, o métier  
típico de acadêmicos.  
Isso não é dizer que as ciências sociais acadêmicas realizaram plenamente o projeto de  
Durkheim (Ortiz, 1989, p. 27), ou seja, se impuseram plenamente sobre as outras formas de  
interpretar o mundo social. A sociologia acadêmica pode negar a sociologia espontânea, mas  
não a anula. Afinal, no seu dia a dia, as pessoas mobilizam seus conhecimentos práticos ou os  
ensinamentos que estão mais à mão para viverem suas vidas, sem precisarem recorrer aos  
acadêmicos. Contudo, se olharmos para os especialistas, é fato que a partir da segunda metade  
do século XX a história das ciências sociais se confunde com a história de sua  
institucionalização acadêmica pelo mundo. O surgimento de periódicos e sociedades de  
sociologia, que se aceleram e se globalizam após a Segunda Guerra Mundial, se dão em um  
contexto acadêmico. Seus autores e seus membros são acadêmicos e, quando circulamos em  
congressos da área, supomos estar entre colegas da universidade. Isso se dá, em especial, a  
partir das décadas de 1950 e 1970, período que Sapiro (2018) denomina de ouro das ciências  
sociais. Desde então e até recentemente , temos a sensação, bem fundamentada, de que as  
ciências sociais acadêmicas adquiriram o monopólio do campo das ciências sociais. Embora  
outras vozes se aventurassem a atuar como cientistas sociais fora das universidades, elas eram  
pouco ouvidas ou talvez ouvidas apenas em setores específicos. Assessores políticos, membros  
de movimentos sociais, professores do ensino básico continuaram atuando como cientistas  
NICOLAU NETTO, M.  
191  
sociais, mas suas vozes pouco desafiavam as dos cientistas sociais acadêmicos, que mantinham  
para si o controle das regras e da doxa do campo das ciências sociais16.  
É isso que parece ter mudado. Aqui vimos autores de livros e agentes em redes sociais  
que ostentam a alcunha de cientistas sociais, sem necessariamente atuarem na universidade.  
Outras pesquisas mostram diferentes formas de atuação dos cientistas sociais. Os think tanks,  
por exemplo, têm sido estudados por vários autores como um desses espaços17. Lidiane  
Rodrigues (2018) amplia a análise para os intelectuais que atuam na mídia, os que ela chama  
de intelectuais-jornalistas e jornalistas-intelectuais.  
Esses textos em conjunto com os dados que trago aqui, demonstram, portanto, que as  
ciências sociais acadêmicas perderam o monopólio do campo. Gostaria de fazer duas reflexões  
a partir disso. A primeira se refere a perguntar se tudo o que vimos significa uma perda da  
autonomia do subcampo, ou seja, se as ciências sociais acadêmicas estão perdendo sua  
capacidade de refração. De fato, em sala de aula ou nos momentos em que atuam fora do espaço  
acadêmico (como nas redes sociais ou nas mídias), os cientistas sociais são impelidos a debater  
com autores ou a reagir a temas de fora do subcampo acadêmico. Poucos escrevem sobre isso,  
mas há uma noção compartilhada de que os estudantes, em especial, nos exigem um  
conhecimento que não dialoga diretamente com o campo acadêmico. Para termos dados  
precisos, e não apenas sentimentos, precisaríamos medir quais autores são estudados ou  
mobilizados nas ciências sociais acadêmicas, algo que não fiz. Contudo, me parece improvável  
que essa noção revele uma perda da autonomia. É possível, de fato, observar que alguns autores  
não-acadêmicos ou semiacadêmicos têm sido incluídos na bibliografia dos acadêmicos ou em  
suas aulas, como é o caso de Krenak, Ana Maria Gonçalves ou Djamila Ribeiro. Outros,  
contudo, continuam do lado de fora, como Olavo de Carvalho, que, a não ser como objeto,  
nunca se tornou referência bibliográfica na universidade. Ao estudar a relação entre o trabalho  
e a autonomia intelectual de professores universitários, João Marcelo Maia (2019) notou que  
seus entrevistados negociam a autonomia, ou seja, conseguem manter, em certas dimensões de  
seus trabalhos, um alto grau de autonomia, enquanto em outras não. Algo parecido pode ser  
16 Talvez os jornalistas pudessem ser vistos como concorrentes dos cientistas sociais acadêmicos. Mas eles já eram  
de uma especialidade à parte, não se chamavam, nem eram vistos como cientistas sociais. Esses eram, de fato,  
praticamente reservados aos acadêmicos.  
17  
Ver Rocha (2015), Moraes (2015), Stedman-Jones (2012), Chaloub & Perlatto (2019). No livro de Thomas  
Medvetz (2012), Think Tanks in America, ele demonstra como os agentes dos think tanks legitimam sua posição  
mobilizando ambiguamente capitais acadêmicos e do mercado. Alguns estudos se dedicam justamente a  
compreender a atuação desses think tanks na universidade. Ver por exemplo Cristofoletti (2021).  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
192  
pensado em relação ao campo. O que se passa é que seus praticantes recebem influências  
externas; algumas são repelidas, outras são integradas, tal como ocorreu na formação da tríade  
fundadora da sociologia. Isso significa que ao negociarem com essas influências externas, eles  
parecem manter a condição de formar a doxa do subcampo das ciências sociais. Ao me referir  
à doxa, penso nas hierarquias simbólicas entre as teorias sociais. Pelo que foi afirmado, nada  
parece indicar que o subcampo tenha perdido a capacidade de produzir tais hierarquias.  
A segunda reflexão refere-se a pensar se o subcampo das ciências sociais é capaz de  
impor sua doxa ao campo mais amplo das ciências sociais. Trabalhemos com os indícios que  
temos. Em primeiro lugar, devemos lembrar que, embora os autores best-sellers que analisei  
não sejam acadêmicos, na forma como a defini, todos possuem ensino superior e a maior parte  
possui pós-graduação. Na pesquisa aqui citada de Lidiane Rodrigues, ela nota que a alcunha  
“professor” é mobilizada pelos intelectuais, acadêmicos ou não, que ela estuda. Isso é o mesmo  
que encontrei ao analisar os intelectuais ligados a dois think tanks no Brasil: o Instituto Liberal  
(IL)18, fundado em 1983 e sediado no Rio de Janeiro, e o Instituto Mises Brasil19 (IMB),  
fundado em 2007 e sediado em São Paulo. Em 2021, registrei aqueles que aparecem como  
“autores” no site do IL e “especialistas” no site do (IMB). No total estamos falando de 53  
intelectuais. São eles:  
Tabela 3 - Intelectuais ligados ao Instituto Liberal e ao IMB  
Autores IL  
Especialistas IMB  
Adriano Gianturco  
Adriano Paranaiba  
Adrualdo Catão  
Alex Pipkin  
Antônio Claret Jr.  
Carlos Junior  
Catarina Rochamonte  
Gabriel Wilhelms  
Hiago Rebello  
Alberto Oliva  
Antony Mueller  
Bruno Garschagen  
Dennys Garcia Xavier  
Fabio Barbieri  
Ianker Zimmer  
João Luiz Mauad  
Juliano Oliveira  
Leonardo Corrêa  
Lucas Berlanza  
Lucas Sampaio  
Marcel Balassiano  
Felipe Rosa  
Fernando D'Andrea  
Ives Braghittoni  
José Manuel Moreira  
José Maria Rodriguez Ramos  
Pedro Henrique Alves  
Marco Poli  
Ricardo Vélez-Rodríguez  
Rodrigo Saraiva Marinho  
18 https://www.institutoliberal.org.br/  
19 https://www.mises.org.br/  
NICOLAU NETTO, M.  
Roberto Ellery  
193  
Ubiratan Jorge Iorio  
Yago Martins  
Roberto Rachewsky  
Rodrigo Constantino  
Vinícius Montgomery  
Christian Vonbun  
Fernando Ulrich  
Geanluca Lorenzon  
Guilherme Benezra  
Gustavo Maultasch  
Helio Beltrão  
João Daniel Ruettimann  
Leandro Roque  
Lucas Fiuza  
Marco Palhares de Barros  
Mariana Diniz Lion  
Mariana Piaia Abreu  
Mariangela Ghizellini  
Martim Vasques da Cunha  
Rafael Gonçalves  
Renata Barreto  
Thiago Guterres  
Elaboração própria com base nos sites dos institutos.  
Em termos de suas ligações acadêmicas, eles se parecem com os vendedores de livro.  
Segundo o Lattes, 60,38% estavam na plataforma, mas apenas 32,08% desses havia atualizado  
sua página no último ano. Mas neles também observei a forma como querem ser reconhecidos  
publicamente, observando seus textos de apresentação nas páginas dos think tanks, em que  
esbanjam, de maneira recorrente, o nome de universidades onde estudaram e a alcunha de  
professores (utilizada pela metade do corpus).  
De fato, mesmo entre aqueles que chamamos de cientistas sociais não-acadêmicos ou  
semiacadêmicos, a universidade é parte importante de suas vidas, tanto para suas formações  
quanto para a legitimidade que podem articular. Assim, os intelectuais que atuam em canais de  
internet aqui mencionados são todos eles formados na universidade. Além disso, eles  
mobilizam frequentemente as universidades de prestígio que visitaram. Não à toa, o canal de  
maior sucesso na amostra de Santos (2024) carrega em seu nome mediático a USP.  
O prestígio das Ciências Sociais hoje: contradições da ampliação do  
mercado de interpretação do mundo social no Brasil contemporâneo  
194  
Conclusão  
A expansão do mercado de interpretação do mundo social leva à perda do monopólio  
das ciências sociais acadêmicas dentro do campo mais amplo das ciências sociais. O aumento  
da relevância das ciências sociais, e não sua perda, produz uma demanda maior por especialistas  
que não são absorvidos pela universidade. Dessa forma, esses especialistas se dirigem para o  
mercado editorial, a mídia, os think tanks, etc. Em outros termos, podemos dizer que há hoje  
uma múltipla institucionalização das ciências sociais. Essas instituições não acadêmicas e os  
cientistas sociais não-acadêmicos ou semiacadêmicos se encontram em condições de competir  
com os cientistas sociais acadêmicos no oferecimento de interpretações do mundo social para  
a sociedade mais ampla. Contudo, eles parecem menos capazes, neste momento, de produzir  
suas próprias fontes de consagração. Suas instituições são recentes ou excessivamente marcadas  
por grupos de interesse e pouco científicas. Dessa forma, é nas ciências sociais acadêmicas que  
mesmo esses agentes buscam sua legitimidade. Não apenas se graduam, mas buscam manter  
ligações com a universidade, de forma não constante, embora perene. E, sempre que o fazem,  
destacam o fato mobilizando títulos ou valorizando seus trabalhos na academia. O que se nota,  
portanto, é que as ciências sociais acadêmicas estão perdendo o monopólio do campo das  
ciências sociais. Ao mesmo tempo, contudo, elas ampliam sua centralidade como fonte de  
legitimidade.  
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Recebido em: 28/6/2024  
Aceito em: 22/1/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 197- 224  
REGULANDO O UBERISMO:  
Impasses na regulamentação do trabalho por aplicativo no Brasil  
REGULATING UBERISM:  
Deadlocks in the regulation of app-based work in Brazil  
______________________________  
Ruy Braga  
Davi Camargo  
Resumo  
O presente artigo analisa os impasses na regulamentação do trabalho por aplicativo no Brasil, a partir de uma  
investigação do Grupo de Trabalho (GT) de Regulamentação do Trabalho por Aplicativo, com foco específico no  
subgrupo dedicado à entrega de mercadorias, inserido nesse fórum consultivo tripartite organizado pelo Ministério  
do Trabalho e Emprego em 2023. A pesquisa baseia-se em entrevistas semiestruturadas com representantes dos  
trabalhadores que participaram das discussões e na análise documental de notícias, decretos, portarias e  
documentos apresentados no GT. Diante da ausência de atas e de um relatório final oficial, buscou-se reconstituir  
a trajetória do subgrupo responsável por debater a regulamentação do trabalho dos entregadores de aplicativo. A  
partir dessa reconstrução, o artigo examina a atuação das três bancadas que compuseram o fórum trabalhadores,  
empresas e governo , os interesses em disputa e os obstáculos que impediram a elaboração de um projeto de lei  
no âmbito do subgrupo de entrega de mercadorias, ao contrário do que ocorreu com o subgrupo de transporte de  
pessoas, que culminou na proposição do PLP 12/2024.  
Palavras-chave: Uberização. Precarização. Plataformização. Direitos trabalhistas.  
Abstract  
This article analyzes the deadlocks in the regulation of app-based work in Brazil, based on an investigation into  
the Working Group (WG) on the Regulation of App-Based Work, with a specific focus on the sub-group dedicated  
to delivery services. This sub-group was part of the tripartite consultative forum organized by the Ministry of  
Labor and Employment in 2023. The research draws on semi-structured interviews with worker representatives  
who took part in the discussions and document analysis of news, decrees, administrative orders and documents  
presented within the WG. Given the lack of publicly available meeting minutes and an official final report, the  
study seeks to reconstruct the trajectory of the sub-group that debated the regulation of delivery app workers.  
Based on this reconstruction, the article examines the role of the three constituencies that composed the forum —  
labor, business, and government , the interests at stake, and the obstacles that prevented the delivery sub-group  
from producing a draft bill, unlike the passenger transport sub-group, which led to the proposal of PLP 12/2024.  
Keywords: Uberization. Precarization. Platformization. Labor rights.  
Professor titular do Departamento de Sociologia da USP. E-mail: ruy.braga@usp.br.  
 Mestrando em Ciência Política na USP. E-mail: davicamargo11drc@usp.br.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
198  
Apresentação: o que é o Uberismo”?  
A chamada plataformização do trabalho é resultado de um longo processo de  
transformação das formas de gestão e controle do trabalho cujas raízes se encontram, em  
primeiro lugar, na crise do modelo de desenvolvimento fordista. No contexto de reestruturação  
produtiva, o fordismo perdeu sua predominância em favor de um conjunto de práticas que  
caracterizam aquilo que David Harvey (2012) denominou “regime de acumulação flexível”,  
marcado por formas flexíveis de contratação e gestão do trabalho como contratos de curta  
duração e trabalho em tempo parcial e a incorporação de elementos do Toyotismo como a  
produção just-in-time, a subcontratação e a terceirização (Ribeiro, 2015).  
O aparecimento das plataformas digitais de trabalho, viabilizado pelo avanço das  
Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), constitui um dos capítulos mais recentes  
desse processo. As plataformas são infraestruturas digitais organizadas por meio de algoritmos  
que intermedeiam a interação entre dois ou mais grupos (Grohmann, 2020). Seu funcionamento  
depende de um vasto volume de dados, operado por algoritmos que não atuam de forma neutra,  
mas orientados pela lógica de capitalização do mais-valor que vertebra sua arquitetura.  
Nessa perspectiva, entendemos por “uberismo” um regime de acumulação fundado na  
combinação entre a exploração econômica e a expropriação política do trabalho mediado por  
plataformas digitais. Trata-se de um modelo caracterizado pela informalidade, pela ausência de  
direitos sociais e trabalhistas e pela sistemática transferência de riscos aos trabalhadores. O  
uberismo não representa apenas uma inovação tecnológica ou um novo modelo de negócios,  
mas configura uma forma específica de organização do trabalho e da produção, que emerge no  
contexto da crise da globalização neoliberal deflagrada em 2008.  
De modo esquemático, o uberismo articula três características centrais: a) Subordinação  
algorítmica o trabalho é coordenado por sistemas digitais e algoritmos que determinam o  
ritmo, a produtividade e as formas de remuneração, eliminando a mediação direta com os  
gerentes; b) Autonomia simulada os trabalhadores são juridicamente classificados como  
“autônomos”, mas, na prática, estão submetidos às diretrizes unilaterais impostas pelas  
plataformas, que, dessa forma, se eximem de quaisquer responsabilidades trabalhistas; e c)  
Precarização e informalização das relações de trabalho esse processo contribui para o  
desmonte da cidadania salarial e se articula à financeirização do modo de vida dos  
trabalhadores, que passam a ser sistematicamente incentivados a financiar seus próprios meios  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
199  
de produção (como veículos ou smartphones) por meio do endividamento, aprofundando sua  
dependência do crédito e aumentando sua vulnerabilidade econômica.  
Em síntese, o uberismo representa uma forma contemporânea da precarização neoliberal  
do trabalho, que se vale das tecnologias digitais para intensificar a exploração do trabalhador,  
aprofundar desigualdades e reconfigurar o regime de acumulação capitalista em favor do capital  
financeiro e das grandes empresas de tecnologia digital.  
Considerando as “relações sociais na produção”, Grohmann (2020) classificou as  
plataformas de trabalho em três categorias principais: plataformas de microtrabalho ou  
crowdwork, voltadas à execução de tarefas simples e repetitivas realizadas online, como o  
treinamento de dados para sistemas de inteligência artificial; plataformas de macrotrabalho,  
freelance ou cloudwork, que abrangem uma gama variada de tarefas, desde passeios com  
animais até serviços especializados, como programação; e plataformas baseadas em  
localização, que exigem a presença física do trabalhador em determinado local, como nos  
serviços oferecidos por empresas como Uber, iFood e Rappi sendo essa última a categoria à  
qual o termo “uberização do trabalho” se aplica com maior precisão.  
No trabalho uberizado, a remuneração se dá por meio do assalariamento por peça com  
configuração atípica, uma vez que o trabalho é realizado sob demanda, gerando uma indistinção  
entre tempo de trabalho e tempo livre (Abílio, 2020). Com a transformação do trabalhador em  
um trabalhador just-in-time (Abílio, 2020), consolida-se uma nova resposta ao impulso  
capitalista de redução dos poros da jornada de trabalho (Braverman, 1978), isto é, das pausas e  
tempos mortos no processo produtivo. Desse modo, a aplicação de algoritmos capazes de  
“roteirizar” o trabalho, otimizar as rotas, prever demandas, analisar o comportamento do  
usuário, etc., em um contexto de crescente flexibilização e deterioração das relações laborais,  
deu origem a uma nova modalidade de emprego cujos principais efeitos são a individualização,  
a invisibilização e a precarização das relações de trabalho (Filgueiras; Antunes, 2020).  
A individualização e invisibilização das relações de trabalho tornam-se evidentes na  
forma como as plataformas se apresentam: empresas de tecnologia que apenas intermedeiam a  
oferta e a demanda de serviços. Com isso, o trabalhador aparece como “autônomo” ou mesmo  
“empreendedor”, apagando-se as características típicas de uma relação assalariada  
hipossuficiente (Antunes, 2020). Essa narrativa promove a internalização da racionalidade  
empreendedora e de outras formas de subjetividade alinhadas à lógica neoliberal, na qual o  
indivíduo é concebido como uma empresa de si mesmo (Grohmann, 2020; Abílio, 2019).  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
200  
Contudo, uma análise crítica dessa modalidade laboral revela que o que se apresenta  
como trabalho autônomo constitui, na prática, uma relação de trabalho precária, intermitente e  
desprovida de contrato formal, facilitando uma exploração mais intensa da força de trabalho  
em conformidade com o regime de acumulação flexível. Vitor Filgueiras e Ricardo Antunes  
(2020) evidenciam de forma sistemática a natureza laboral da relação entre trabalhadores e  
plataformas apontando onze mecanismos de controle exercidos por essas empresas. Destacam-  
se, entre eles, a definição de quem pode trabalhar, que tipo de atividade será realizada, quem a  
executará, os prazos para sua conclusão, os valores pagos e o uso da possibilidade de  
desligamento como instrumento de coerção e disciplinamento da força de trabalho.  
Nesse cenário de desregulação, as plataformas se beneficiam da ampla oferta de força  
de trabalho proporcionada pela crise de 2008 sem respeitar direitos fundamentais, isentando-se  
de responsabilidades relacionadas à saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores, ao mesmo  
tempo em que transferem os custos da atividade (como equipamentos, manutenção e seguros)  
para os próprios trabalhadores. Como resultado, amplia-se a margem de lucro das empresas ao  
passo que se aprofundam os riscos econômicos e sociais enfrentados pelos trabalhadores  
(Filgueiras; Antunes, 2020).  
Uma das principais inovações do trabalho por plataforma é a gestão algorítmica (Abílio,  
2019; Filgueiras; Antunes, 2020; Grohmann, 2020), que controla a força de trabalho por meio  
de interações entre três agentes: as empresas, que utilizam algoritmos para definir metas,  
distribuir tarefas e incentivar jornadas mais longas; os consumidores, cujas avaliações  
alimentam os sistemas de controle; e os próprios trabalhadores, que praticam um  
autogerenciamento subordinado, guiado pelas exigências da plataforma. A esse propósito,  
Woodcock (2020) utilizou a metáfora do “panóptico algorítmico” para descrever a vigilância  
sistemática exercida pelas plataformas, que leva os trabalhadores a internalizar mecanismos de  
supervisão e gestão, reproduzindo, voluntariamente, comportamentos de autocontrole e  
autoexploração.  
Em razão da individualização e invisibilização das relações de trabalho, da  
disseminação da racionalidade empreendedora e da internalização dos dispositivos de  
gerenciamento algorítmico, o trabalho por aplicativo dificulta a mobilização coletiva dos  
trabalhadores precarizados. Apesar disso, trabalhadores em diversas partes do mundo têm  
buscado estratégias para enfrentar os desafios impostos por esse modelo. Exemplo disso são:  
as greves dos entregadores da Deliveroo, em 2016 (Woodcock, 2020); o movimento global de  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
201  
paralisação dos motoristas de aplicativos, em 2019 (Moda; Gonzales, 2019); e o “Breque dos  
Apps”, no Brasil, em 2020 (Sampaio; Stropasolas, 2020).  
Os pesquisadores sul-africanos Webster e Masikane (2023) destacam ainda os vínculos  
estabelecidos entre motoristas e entregadores por meio das redes sociais como formas de ajuda  
mútua e compartilhamento de experiências que funcionam como mecanismos alternativos de  
solidariedade. Os autores também observam o surgimento de novas formas de organização  
coletiva que, embora compartilhem semelhanças com os sindicatos tradicionais, apresentam  
particularidades que as distinguem das estruturas convencionais de representação da classe  
trabalhadora:  
Os resultados da nossa investigação apontam para o surgimento de organizações  
sindicais que existem lado a lado com os sindicatos tradicionais para defender as  
necessidades e interesses dos trabalhadores na economia digital [...], o que vemos  
emergir na economia digital são formas híbridas de organização, incluindo diferentes  
tipos de associações que confundem a distinção entre o sindicalismo tradicional e as  
associações ou cooperativas de trabalhadores informais (Webster; Masikane, 2023, p.  
117-118, tradução nossa).  
Uma das principais categorias de trabalhadores uberizados, que tem se destacado tanto  
pelo seu crescimento quanto pelas formas de mobilização, é a dos entregadores de aplicativo.  
No Brasil, há aproximadamente 380 mil entregadores de aplicativo, dos quais 97% são homens,  
68% se declaram pretos ou pardos, e a média de idade é de 33 anos (Centro Brasileiro de Análise  
e Planejamento, 2023). O módulo “Teletrabalho e trabalho por meio de plataformas digitais  
2022” da PNAD Contínua (IBGE, 2023) revela que o rendimento habitual dos motociclistas  
plataformizados é de R$ 1.784, inferior ao rendimento habitual de R$ 2.210 dos trabalhadores  
não plataformizados. Além disso, a jornada média dos entregadores de aplicativo é de 47,6  
horas semanais, superior às 42,8 horas dos entregadores não plataformizados.  
Esses trabalhadores estão submetidos a uma forma de organização e controle do trabalho  
relativamente nova, ainda não contemplada pela legislação trabalhista da maior parte do mundo.  
Entretanto, em diversos países há discussões em curso sobre a regulamentação do trabalho por  
aplicativo e, em alguns deles, alguma forma de regulação já está sendo implementada.  
Nos Estados Unidos, a disputa judicial no estado da Califórnia foi um dos primeiros e  
mais influentes casos na discussão internacional sobre a regulação do trabalho uberizado. Em  
2018, a Suprema Corte californiana tornou mais rigorosa a verificação do vínculo empregatício  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
202  
por meio do chamado “teste ABC”1. Em 2019, o Legislativo aprovou a Assembly Bill 5 (AB5),  
que conferia aos trabalhadores plataformizados os mesmos direitos dos trabalhadores  
tradicionais na Califórnia. Contudo, em 2020, as principais empresas da gig economy  
investiram milhões de dólares na promoção de um referendo que aprovou a Proposta 22,  
substituindo a AB5 e limitando os direitos dos trabalhadores a uma remuneração mínima, sem  
reconhecimento do vínculo empregatício e, portanto, sem garantias de direitos trabalhistas mais  
amplos (Gonsales; Roncato; Van Der Laan, 2024).  
Outro caso relevante de regulamentação nos Estados Unidos é o da cidade de Nova  
Iorque, cuja inovação principal foi a determinação do pagamento de salário mínimo com base  
no tempo em que o trabalhador permanece logado no aplicativo (Barros, 2024).  
Na América Latina, prevaleceram regulamentações híbridas em termos de classificação  
do status dos trabalhadores por aplicativo. O Chile foi pioneiro na aprovação de um marco  
normativo sobre o trabalho conectado a plataformas digitais: a norma de março de 2022 prevê  
que o trabalhador pode ser considerado como dependente ou autônomo em relação às  
plataformas, conforme o cumprimento de condições estabelecidas pelo Código de Trabalho  
Chileno. Diferenças à parte, a norma estabelece para ambos os casos a necessidade de contrato  
de prestação de serviços, proteção social dos trabalhadores, obrigações tributárias, valores  
mínimos de remuneração, período mínimo de desconexão, regras de proteção e transparência  
relativas ao uso de dados pessoais e direito de organização sindical (Rangel, 2024).  
Meses após a aprovação da norma chilena, em setembro de 2022, o Poder Executivo do  
Uruguai apresentou sua proposta de regulamentação (Rangel, 2022). Aprovada em 2025, a  
regulação uruguaia também garante direitos básicos e estabelece regras diferenciadas para casos  
de trabalho considerados autônomos ou dependentes das plataformas, mas deixa à cargo das  
plataformas a determinação da natureza do vínculo (Rangel, 2024; Suarez, 2025b). Também  
passaram a valer em 2025 a Reforma Trabalhista da Colômbia, que inclui um capítulo sobre o  
trabalho de entrega de mercadorias por plataformas digitais e segue um modelo híbrido similar  
(Rangel, 2024; Suarez, 2025a), e a Reforma Trabalhista para plataformas digitais do México,  
que estabelece que motoristas e entregadores por aplicativo cujo rendimento mensal nas  
1
O chamado “teste ABC” é um teste aplicado para determinar se um trabalhador é autônomo ou empregado,  
“observando se: (a) o trabalhador não está sob direção ou controle do contratante, tanto do ponto de vista formal  
como material; (b) o trabalhador não desempenha atividade inserida no negócio principal da empresa; (c) o  
trabalhador realiza, de forma habitual e independente, atividades para as quais é contratado. Na falta desses três  
requisitos, o trabalhador é classificado como empregado” (Almeida; Kalil, 2021, p. 2).  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
203  
plataformas for superior a um salário mínimo serão considerados trabalhadores dependentes  
das plataformas, enquanto aqueles que não atingirem rendimento equivalente a um salário  
mínimo mensal serão considerados autônomos (Hernández, 2024).  
Na Europa, foram adotados diferentes modelos de regulação. Na França, os  
trabalhadores por aplicativo são considerados autônomos e as leis relativas ao trabalho em  
plataformas digitais aprovadas no país Lei n. 1.088/2016 e Lei n. 1.428/2019 se limitam a  
impor maior responsabilidade social às empresas, exigindo o oferecimento privado de seguros  
contra acidente e doença, e garantia do direito dos trabalhadores de negar serviços sem receber  
punições (Rangel, 2024).  
No Reino Unido, foi adotada uma classificação intermediária: após uma decisão da  
Suprema Corte do Reino Unido em fevereiro de 2021, motoristas da Uber passaram a ser  
classificados como workers (trabalhadores), categoria intermediária entre o employee  
(empregado) e contractor (autônomo). 2 A essa categoria são garantidos alguns direitos como  
salário mínimo, proteção contra discriminação e férias remuneradas , mas não são garantidos  
outros como licenças médicas e maternidade/paternidade remuneradas (Rangel, 2024).  
Já a Espanha foi um dos primeiros países a aprovar uma legislação que reconhece o  
trabalho por plataforma como emprego: a Ley Riders, fruto de uma “Mesa de diálogo social”  
entre empresas, trabalhadores e governo, aprovada em 2021. A lei se baseou em uma decisão  
do Supremo Tribunal espanhol que reconheceu a relação trabalhista entre um entregador e a  
empresa Glovo. Essa legislação promoveu duas mudanças fundamentais no Estatuto dos  
Trabalhadores do país: a criação de regras para transparência algorítmica e o reconhecimento  
do vínculo empregatício entre plataformas e entregadores, estendendo a esses trabalhadores a  
proteção trabalhista do país (Gonsales; Roncato; Van Der Laan, 2024).  
Para além das decisões nacionais, destaca-se a diretiva da União Europeia sobre o  
trabalho por plataformas, um novo marco regulatório, aprovado em março de 2024, para os  
países membros do bloco:  
Obrigatória para os 27 Estados-membros, a mais forte regulamentação do trabalho em  
plataformas no âmbito internacional estabelece, como na Espanha, uma presunção do  
vínculo de emprego, a partir do modo como as legislações nacionais avaliam o  
controle e a direção do trabalho realizado nas plataformas. (Gonsales; Roncato; Van  
Der Laan, 2024).  
2 Decisão se limitou aos motoristas vinculados a esse aplicativo e, portanto, não tem efeito para entregadores e  
trabalhadores conectados a outros aplicativos.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
204  
A legislação aprovada prevê ampla transparência algorítmica, regula quais tipos de  
dados podem ser coletados pelas plataformas e estabelece instrumentos de fiscalização que  
devem ser garantidos pelas plataformas tanto aos trabalhadores quanto aos governos. Por essas  
razões, essa regulação configura-se como a iniciativa mais abrangente até o momento para a  
proteção dos trabalhadores plataformizados (Gonsales; Roncato; Van Der Laan, 2024).  
A diretiva da União Europeia se baseou na jurisprudência dos Estados-membros,  
detalhada de forma exaustiva por Christina Hiessl em “Jurisprudência sobre a classificação de  
trabalhadores de plataforma: análise comparativa entre países europeus e conclusões  
provisórias” (2024). No estudo, Hiessl (2024), especialista em direito do trabalho, analisa mais  
de 800 decisões judiciais de 18 países europeus, nas quais prevalece o entendimento de que  
trabalhadores de aplicativos são empregados das plataformas. Entre as decisões de tribunais de  
instância final, 25 reconhecem o vínculo empregatício, 4 consideram os trabalhadores  
autônomos, 3 os classificam em categorias intermediárias e 3 como empregados de  
subcontratadas. Mais especificamente, nas decisões relativas a plataformas de entrega de  
alimentos, apenas em 3 dos 14 países analisados (Luxemburgo, Reino Unido e Hungria)  
prevalece o status de trabalhador autônomo. As decisões relativas a empresas de entrega de  
encomendas e mantimentos seguem as mesmas conclusões.  
Por fim, vale destacar a discussão mundial sobre regulamentação do trabalho por  
aplicativo na Organização Internacional do Trabalho (OIT). O assunto foi tema da 113ª  
Conferência Internacional do Trabalho (CIT), ocorrida em junho de 2025, na qual foi aprovada  
uma resolução que sugere que os Estados-membros da OIT  
devem tomar medidas para garantir a classificação correta dos trabalhadores de  
plataformas digitais a respeito da existência de uma relação de trabalho, orientando-  
se principalmente pelos fatos relacionados ao exercício do trabalho e à remuneração  
do trabalhador de plataforma digital, levando em conta a Recomendação sobre a  
Relação de Trabalho, de 2006 (nº 198), e considerando as especificidades do trabalho  
por meio de plataformas digitais (OIT, 2025, p. 5, tradução nossa).  
O Brasil não está alheio a esse debate. Nos últimos anos, tanto sindicatos quanto  
associações empresariais, como a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia  
(Amobitec), manifestaram-se a favor da regulamentação do trabalho por aplicativo (Amobitec,  
2022). Após a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o tema foi oficialmente  
promovido pelo governo federal no Grupo de Trabalho (GT) de Regulamentação do Trabalho  
por Aplicativo, um fórum tripartite organizado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).  
Em 2024, após as reuniões do GT, “foi parida uma criança nova no mundo do trabalho”, como  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
205  
afirmou o presidente Lula ao se referir ao PLP 12/2024, apresentado pelo governo, que legisla  
sobre o trabalho dos motoristas de aplicativo. Esse projeto cria a figura jurídica do “trabalhador  
autônomo”, que, segundo o sociólogo Ricardo Antunes, legaliza a desregulamentação ao não  
reconhecer “a condição de subordinação e assalariamento, com o consequente e inescapável  
reconhecimento dos direitos trabalhistas existentes em nossa legislação protetora” (Antunes,  
2024, p. 15).  
Caso aprovado, o projeto não apenas legitima um retrocesso na regulação do trabalho –  
podendo criar precedente jurídico para a expansão dessa modalidade de precarização como  
também coloca o Brasil em rota contrária aos avanços recentes no cenário internacional.  
Síntese da Trajetória do Subgrupo de Entrega de Mercadorias  
Esta pesquisa investigou o Grupo de Trabalho (GT) de Regulamentação do Trabalho  
por Aplicativo, criado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 2023, com foco no subgrupo  
de entrega de mercadorias. O estudo teve dois objetivos principais: reconstituir a trajetória do  
subgrupo e analisar a atuação das bancadas, especialmente a Bancada dos Trabalhadores. O  
primeiro objetivo, de caráter descritivo, era fundamental para compreender as discussões do  
subgrupo, cujas gravações e atas não foram disponibilizadas. Com essa descrição, foi possível  
analisar se houve consenso entre representantes das centrais sindicais, como as posições da  
bancada foram definidas, os interesses dos trabalhadores e a avaliação deles a respeito da  
atuação das outras bancadas.  
Para isso, utilizou-se análise de documentos incluindo decretos, portarias, documentos  
das reuniões e notícias oficiais e entrevistas semiestruturadas, que revelaram informações  
complementares e as perspectivas dos agentes envolvidos. Entre 12 de abril e 26 de junho de  
2024, foram entrevistados sete integrantes da Bancada dos Trabalhadores do subgrupo de  
entrega de mercadorias do GT de Regulamentação do Trabalho por aplicativo: um representante  
de cada uma das seis centrais sindicais com assento no fórum consultivo e uma liderança  
autônoma da categoria que participou do GT como “convidada”. Os entrevistados foram:  
Nicolas Souza Santos (Central dos Sindicatos Brasileiros - CSB);3 Gilberto Almeida dos Santos  
(União Geral dos Trabalhadores - UGT);4 Valter Ferreira da Silva (Central dos Trabalhadores  
3 Entrevistado em 12 de abril de 2024.  
4 Entrevistado em 28 de maio de 2024.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
206  
e Trabalhadoras do Brasil - CTB);5 Luiz Carlos Garcia Galvão (Nova Central Sindical de  
Trabalhadores - NCST);6 Alexandre Silva dos Santos (Força Sindical - FS);7 Rodrigo Lopes  
(Central Única dos Trabalhadores - CUT)8; e Edgar Francisco da Silva, o “Gringo” (participante  
“convidado” do GT).9  
Em 1º de maio de 2023, foi publicado no Diário Oficial da União o Decreto n. 11.513  
(BRASIL, 2023a), que instituiu o Grupo de Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego  
para regulamentar as atividades “executadas por intermédio de plataformas tecnológicas”, com  
prazo de duração de 150 dias. O decreto estabeleceu uma composição tripartite de 45 membros:  
15 representantes do governo federal, 15 dos trabalhadores e 15 das empresas. Os  
representantes do governo foram indicados por seis ministérios Ministério do  
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; Ministério da Fazenda; Ministério da Justiça  
e Segurança Pública; Ministério da Previdência Social; Ministério do Trabalho e Emprego;  
Ministério dos Transportes , além da Casa Civil, Advocacia-Geral da União e Secretaria-Geral  
da Presidência da República. Já os representantes das empresas foram indicados pelas entidades  
Amobitec, ALAI (Associação Latino-Americana de Internet), CBED (Câmara Brasileira da  
Economia Digital), MID (Movimento Inovação Digital) e OCB (Organização das Cooperativas  
Brasileiras). A Bancada dos Trabalhadores foi composta pelas centrais sindicais CSB, CTB,  
CUT, FS, NCST e UGT.10  
5 Entrevistado em 5 de junho de 2024.  
6 Entrevistado em 7 de junho de 2024.  
7 Entrevistado em 10 de junho de 2024.  
8 Entrevistado em 26 de junho de 2024.  
9 Entrevistado em 18 de junho de 2024.  
10 Na Portaria SE/MTE n. 1.745, de 19 de maio de 2023, foram indicados quinze titulares e quinze suplentes para  
comporem a Bancada dos Trabalhadores: Antônio Fernandes dos Santos Neto (Titular CSB), Pedro da Silva  
Mourão (Suplente CSB), Nicolas Souza Santos (Titular CSB), Saulo Benicio da Silva Pereira (Suplente –  
CSB), Edvaldo Lopes de Queiroz (Titular CTB), Carlos Rogério de Carvalho Nunes (Suplente CTB), Valter  
Ferreira da Silva (Titular CTB), Laura Rodrigues Fialho dos Santos (Suplente CTB), Carine Mineia dos Santos  
Trindade (Titular CUT), Luiz Carlos Corrêa de Albuquerque (Suplente CUT), Marcelo Chaves (Titular –  
CUT), Eduardo França (Suplente CUT), Zilmar da Silva Gomes (Titular CUT), Eduardo Silva (Suplente –  
CUT), Raimundo Nonato Alves da Silva (Titular FS), Alexandro Martins Costa (Suplente FS), Alexandre Silva  
dos Santos (Titular FS), Esail Antônio de Lima (Suplente FS), Euclides José Magno das Dores Junior (Titular  
FS), Rogério Tude (Suplente FS), Agilberto Seródio (Titular NCST), Wilson Pereira dos Santos (Suplente –  
NCST), Luiz Carlos Garcia Galvão (Titular NCST), Epitácio Antônio dos Santos (Suplente NCST), Gilberto  
Almeida dos Santos (Titular UGT), Rodrigo Carlos Ferreira da Silva (Suplente UGT), Leandro da Cruz  
Medeiros (Titular UGT), Rogério Isaias da Silva (Suplente UGT), Francisco Canindé Pegado do Nascimento  
(Titular UGT) e Ernani Bandeira César (Suplente – UGT). Os participantes “convidados” não constam nessa e  
nenhuma outra portaria.  
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do trabalho por aplicativo no Brasil  
207  
Com a publicação do decreto, trabalhadores de aplicativo manifestaram insatisfação  
com a composição da Bancada dos Trabalhadores, exclusivamente formada por indicações  
sindicais. A categoria, majoritariamente não sindicalizada, não se sentiu representada por esses  
sindicatos. Entregadores organizados em movimentos independentes, como a ANEA (Aliança  
Nacional dos Entregadores de Aplicativo), já haviam manifestado esse descontentamento ao  
Ministério do Trabalho e Emprego em reunião realizada em 19 de janeiro de 2023, pouco depois  
da nomeação de Luiz Marinho como ministro, quando a criação do grupo tripartite começou a  
ser discutida publicamente. Nessa reunião, Gilberto Carvalho, Secretário de Economia  
Solidária do MTE, comprometeu-se a garantir que quatro lideranças da ANEA acompanhassem  
o GT como “convidados”, categoria prevista no decreto.11  
Além das vagas para “convidados” prometidas pelo MTE, entregadores da ANEA se  
mobilizaram e pressionaram as centrais sindicais para tentar conquistar também vagas de  
indicação sindical, conforme explicou Nicolas Souza Santos, liderança da aliança:  
Se eles falaram assim, “vão ser as centrais que vão ser chamadas”, a gente começou a  
procurar as centrais e falou “aqui, vocês vão mandar quem? Quem vocês conhecem?  
Quem é o representante que vocês vão enviar? Por quê? Quais são as credenciais desse  
sujeito? Por que não nós?” E aí, as centrais, elas foram uma a uma indicando a gente  
também. A CUT indicou dois nossos, a CSB me indicou, no caso do subgrupo indicou  
dois nossos também, e a Força Sindical indicou um nosso também. De forma que a  
gente chegou lá com nove representações.12  
Nas semanas que antecederam as reuniões tripartites do GT, os representantes da  
Bancada dos Trabalhadores discutiram diversas vezes, presencialmente e remotamente, em  
reuniões mediadas pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos  
Socioeconômicos), para elaborar uma proposta unificada. Dessa articulação resultou um  
documento com doze diretrizes para regulamentar o trabalho por aplicativo (Oliveira, 2023),  
entregue ao Ministério do Trabalho e Emprego em 1º de junho de 2023. Entre as principais  
reivindicações estavam o reconhecimento do vínculo empregatício conforme a CLT  
(Consolidação das Leis do Trabalho), o enquadramento das plataformas como empresas de  
transporte, a contabilização da jornada pelo tempo logado no aplicativo, remuneração mínima,  
transparência, seguridade social e representação sindical.  
11  
Edgar Francisco da Silva, o “Gringo”, ocupou uma dessas quatro vagas de “convidado” prometida à ANEA.  
Não foi encontrada divulgação oficial dos convidados do GT.  
12 Em outras palavras, para além dos quatro convidados da ANEA no GT, 5 lideranças da aliança foram indicadas  
oficialmente. Dentre os entrevistados, Nicolas Souza Santos (CSB), Alexandre Silva dos Santos (FS) e Rodrigo  
Lopes (CUT) estavam entre as lideranças da ANEA indicadas por centrais sindicais.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
208  
Em 5 de junho, foi instalada a Mesa do Grupo de Trabalho que, atendendo a pedidos  
dos motoristas, dividiu-se em dois subgrupos: transporte de pessoas (motoristas) e transporte  
de mercadorias (entregadores). Novas indicações foram feitas para completar os subgrupos.13  
Focaremos daqui em diante na descrição e análise do subgrupo dos entregadores.  
Diferentemente do subgrupo dos motoristas, que chegou a um consenso e deu origem ao PLP  
12/2024, o subgrupo de transporte de mercadorias não resultou em acordo entre as partes para  
uma proposta de regulamentação do setor.  
O subgrupo de entregadores realizou seis reuniões oficiais. Na primeira, em 21 de junho  
de 2023, a Amobitec apresentou seu documento “Princípios para a regulação do trabalho em  
plataforma” (Amobitec, 2023d). Para a Bancada dos Trabalhadores, essa reunião foi uma  
“sessão de desabafo”, com relatos da precariedade e apresentação das reivindicações do  
documento conjunto. Ao final, foram definidos tópicos prioritários: remuneração mínima e  
saúde do trabalhador.  
A segunda reunião, em 3 de julho de 2023, foi a única fora de Brasília. Realizada em  
São Paulo, na Fundacentro, essa reunião teve como foco o debate sobre saúde e segurança.  
Trabalhadores defenderam a aplicação das Normas Regulamentadoras (NRs) e da Lei n. 12.009,  
enquanto as empresas argumentaram que a legislação atual não contempla o trabalho por  
aplicativo e pleitearam novas regras (Ministério do Trabalho e Emprego, 2023a).  
Na terceira reunião, em 18 de julho de 2023, houve consenso sobre a necessidade de  
determinação de uma remuneração mínima (Ministério do Trabalho e Emprego, 2023b). A  
Bancada dos Trabalhadores exigiu das empresas um cálculo para ressarcimento dos custos. A  
Amobitec (2023a) apresentou o documento “Proposta de ganhos mínimos”, com diretrizes  
como: pagamento por hora efetivamente trabalhada,14 consideração dos custos médios, cálculo  
proporcional e verificação mensal dos ganhos mínimos. Daí em diante, todas as reuniões  
focaram em remuneração.  
A partir da quarta reunião, em 14 de agosto de 2023, começaram as discussões sobre  
propostas concretas de remuneração mínima. A Bancada das Empresas apresentou uma oferta  
da Amobitec (2023e), com valores por hora efetivamente trabalhada, considerando o salário  
13 Rodrigo Lopes foi indicado nesse momento pela CUT para preencher uma das vagas remanescentes da Bancada  
dos Trabalhadores no subgrupo dos entregadores de aplicativo. Não foi encontrada divulgação oficial das  
indicações adicionais das centrais sindicais.  
14 Pagamento conforme o tempo despendido pelo trabalhador do recebimento do produto até sua entrega.  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
209  
mínimo e custos operacionais: R$ 10,20 para motos, R$ 10,86 para carros e R$ 6,54 para  
bicicletas. A proposta não foi aceita, mas gerou otimismo por apresentar números concretos.  
Entre as reuniões, houve negociações bilaterais fragmentadas entre trabalhadores e  
empresas. A Bancada dos Trabalhadores apresentou contraproposta de R$ 35,76 por hora  
logada,15 incluindo no cálculo benefícios como descanso remunerado, cesta básica e plano de  
saúde (CSB et al., 2023). O MID (2023b) fez uma proposta diferenciada por modalidade R$  
11,00 para trabalhadores de moto e R$ 7,00 para trabalhadores de bicicleta nos serviços de  
intermediação de três pontas (modelo dos aplicativos de delivery); R$ 12,00 para trabalhadores  
de moto nos serviços de comércio eletrônico , além de seguro para acidentes ocorridos durante  
entregas e regras de transparência sobre bloqueios.  
Na quinta reunião (29 de agosto de 2023), as empresas apresentaram um documento  
rejeitando quase todos os pontos da contraproposta dos trabalhadores (Amobitec, 2023b) e  
outro elevando a oferta para R$ 12,00 por hora para motos, mantendo a defesa do pagamento  
por “hora efetivamente trabalhada” e de um regime previdenciário específico (Amobitec,  
2023f). A Bancada dos Trabalhadores rejeitou novamente. Na sexta reunião (12 de setembro  
de 2023), a Amobitec (2023c) anunciou que não faria novas propostas, enquanto o MID (2023a)  
apresentou uma proposta final de remuneração R$ 12,00 para moto, R$ 7,00 para bicicleta e  
R$ 25,00 para carro nos serviços de intermediação de três pontas; R$ 13,00 para moto nos  
serviços de comércio eletrônico e uma lista de tópicos considerados essenciais para  
regulamentação segurança jurídica, segurança e saúde dos trabalhadores; regras de  
transparência e bloqueio; e cobertura previdenciária. A bancada laboral se manteve contrária às  
ofertas empresariais.  
No dia seguinte, em conversa informal, representantes da empresa iFood ofereceram R$  
17,00 por hora trabalhada, proposta recusada pelos trabalhadores que insistiam no pagamento  
por hora logada. Assim, mesmo tendo focado o debate em um tema, o subgrupo se encerrou  
sem atingir consenso mínimo. Em resposta, os trabalhadores anunciaram uma paralisação  
nacional, que ocorreu entre 29 de setembro e 1º de outubro de 2023 em várias cidades.  
Após meses sem novidades, em 4 de março de 2024, o presidente Lula apresentou o  
PLP 12/2024, regulamentando o transporte de pessoas por aplicativo, alinhado às propostas  
empresariais e criticado por especialistas por ser menos avançado que as recentes normas  
15 Pagamento conforme o tempo que o trabalhador permanece conectado à plataforma.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
210  
internacionais. A repercussão também foi negativa na Câmara dos Deputados e o projeto não  
foi colocado em votação no plenário da casa legislativa.  
Já a discussão sobre a regulamentação do trabalho dos entregadores de mercadorias por  
aplicativo seguiu indefinida até dezembro de 2025, quando foi anunciada a instalação de um  
novo Grupo de Trabalho dos entregadores por aplicativo, dessa vez encabeçado pelo Secretário-  
Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência da  
República, 2025). As discussões do novo GT foram encerradas em março de 2026 e,  
diferentemente do ocorrido no grupo de trabalho anterior, houve a divulgação de um relatório  
final com propostas e encaminhamentos (BRASIL, 2026). A trajetória desse recém-encerrado  
GT e suas repercussões para a regulamentação do trabalho dos entregadores de aplicativo,  
contudo, ainda devem ser investigadas.  
A Bancada dos Trabalhadores  
Ao analisar a Bancada dos Trabalhadores, o primeiro ponto que chama atenção é a  
composição heterogênea, contemplando sindicatos tradicionais e organizações de entregadores  
de caráter híbrido, que unem elementos do sindicalismo e das cooperativas de trabalhadores  
informais forma de organização que surge justamente no seio das lutas travadas pelos  
trabalhadores plataformizados, tal como mostram Webster e Masikane (2023) e tal como  
podemos observar em outros contextos de luta política dos entregadores de aplicativos (Moda;  
Gonsales, 2019; Sampaio; Stropasolas, 2020; Woodcock, 2020).  
Existem notórias diferenças no modo de atuação de lideranças sindicais e lideranças  
independentes dos entregadores por aplicativo. De um lado, os representantes sindicais  
demonstram amplo conhecimento da legislação, das normas regulamentadoras da profissão de  
motofretista e advogam enfaticamente pela resolução dos conflitos por meio da legislação  
vigente, recusando a criação de um novo marco legal. A fala de Valter Ferreira da Silva,  
presidente do SindimotoRS, ilustra bem a postura das lideranças sindicais:  
Eu concordo em discutir qualquer item que esteja dentro do artigo 7 da Constituição,  
que esteja dentro da CLT, que esteja dentro da Lei nº 12.009, que esteja dentro da Lei  
nº 12.436, que esteja tudo ali. Eu discuto, porque eu sou legalista. Agora, eu fui ali  
para discutir a hipótese de se criar um marco regulatório e uma nova categoria. Mas  
como? Como? O governo quer mandar uma nova lei para o Congresso, para quê? Se  
nós já temos a Lei nº 12.009? O governo deveria dar regra.  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
211  
Do outro lado, as lideranças de associações de entregadores de aplicativos demonstram  
maior diálogo com a base da categoria e maior interesse nos tópicos mais caros aos  
trabalhadores de plataforma, notoriamente as questões de remuneração, jornada de trabalho,  
proteção social e gerenciamento algorítmico. Apesar da postura dos representantes de  
associações de entregadores de aplicativo não ser tão legalista quanto a dos sindicalistas, essas  
lideranças também defendem a vigência das leis trabalhistas já existentes.  
Percebe-se, assim, que, embora haja entre sindicatos e associações diferenças na postura  
política e na ênfase conferida às pautas defendidas, não há grandes divergências. O único tema  
que foi objeto de debate, segundo todos os entrevistados, foi a questão da representação da  
categoria. Conforme sintetiza Alexandre Silva dos Santos:  
A grande divergência é a questão da representação. Tem a questão da representação,  
quem representa de fato e quem representa de direito, porque a gente sabe que a  
realidade atual da nossa categoria, ela realmente é dividida. Nós temos de um lado  
representantes que de fato possuem as suas cartas sindicais e possuem o direito legal  
e legítimo de representar a categoria, porém eles não têm a base, não têm os  
trabalhadores engajados com essas entidades. E do outro lado nós temos um grande  
número mesmo de trabalhadores que está engajado em algumas organizações, mas  
infelizmente essas organizações ainda não possuem a legitimidade para poder  
representar esses trabalhadores.  
Esse tema instaurava um obstáculo que precisava ser superado para a união dos  
representantes da bancada, trabalho que foi feito especialmente por Alexandre e Nicolas,  
lideranças da ANEA que possuíam boa relação com os representantes sindicais. Assim, nas  
reuniões mediadas pelo DIEESE que antecederam as reuniões tripartite do GT, as divergências  
foram superadas e a bancada chegou aos 12 pontos elencados no documento conjunto.  
Esses tópicos, versando sobre temas como reconhecimento de vínculo trabalhista,  
remuneração por tempo à disposição do aplicativo e reconhecimento das plataformas como  
empresas do setor de transportes, mostram que os trabalhadores tinham como objetivo minar as  
bases da individualização e invisibilização do trabalho de aplicativo que obliteram as relações  
de subordinação e assalariamento (Antunes, 2020; Filgueiras; Antunes, 2020) e transformam  
os entregadores em trabalhadores just-in-time (Abílio, 2019), numa relação de trabalho  
precarizada em que as empresas se eximem das responsabilidades patronais por se apresentarem  
como meras mediadoras da relação entre clientes e “empreendedores” (Abílio, 2019; Antunes,  
2020; Grohmann, 2020).  
Quanto à questão do reconhecimento do vínculo entre trabalhadores e plataformas e,  
consequentemente, a defesa da aplicação da CLT para os entregadores de aplicativos, todos os  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
212  
entrevistados concordam que, no atual modelo de trabalho de entrega por aplicativo, os  
trabalhadores são subordinados às plataformas e, portanto, o vínculo empregatício deveria ser  
reconhecido e uma série de direitos deveria ser garantida aos entregadores, conforme a CLT.  
No entanto, enquanto a maioria dos representantes sindicais se restringiram à defesa dessa  
posição, as lideranças da ANEA possuíam uma posição mais abrangente: de acordo com eles,  
mantida a situação atual, os trabalhadores não são autônomos e, portanto, deve haver  
reconhecimento do vínculo empregatício; contudo, caso as plataformas alterem seu modelo de  
funcionamento e permitam uma atividade verdadeiramente autônoma, os trabalhadores  
poderiam ser assim classificados. “Gringo” aponta a estratégia por trás do argumento:  
Colocar o aplicativo na parede, né? Tipo, falar: “olha, CLT vocês não querem, vocês  
falam que nós é autônomo, e autônomo é isso aqui, autônomo tem que ser assim. E  
aí, vai ser ou não vai?” Porque se ele falar que não vai autônomo também, então pera  
aí, aí está escancarado na cara de todo mundo que ele não quer fazer nada por  
ninguém, entendeu?  
A garantia de transparência também é essencial para os trabalhadores na medida em que  
revela mecanismos de controle aos quais eles estão submetidos na gestão algorítmica (Abílio,  
2019; Filgueiras; Antunes, 2020; Grohmann, 2020) e permitiria a regulação do uso de técnicas  
coercitivas que controlam as condutas dos trabalhadores (Woodcock, 2020), como é o caso das  
punições, bloqueios e das formas de “gamificação” do trabalho plataformizado (Abílio, 2019;  
Grohmann, 2020).  
Os temas de remuneração e jornada de trabalho são provavelmente os principais tópicos  
de interesse dos entregadores e foram os principais pontos de disputa entre as classes na  
discussão sobre regulamentação. Desde o “Breque dos Apps”, realizado em 2020 durante a  
pandemia, os entregadores têm sempre pautado o aumento do valor das taxas de entrega em  
suas ações políticas (Sampaio; Stropasolas, 2020). Entretanto, a partir das discussões no GT em  
2023, percebe-se uma mudança importante na reivindicação: se antes as demandas econômicas  
da categoria se restringiam ao aumento do valor pago por entrega, o ganho de protagonismo da  
demanda de pagamento por “hora logada” promove uma mudança qualitativa na reivindicação  
à medida que engloba não só a luta por melhores condições econômicas, mas também pelo  
reconhecimento de que, no tempo durante o qual o trabalhador espera que lhe seja designada  
uma atividade pelo aplicativo, ele se encontra à disposição da plataforma e, portanto, está em  
uma relação de subordinação com a empresa. Assim, a pauta econômica passa a ser defendida  
de tal forma que coloca em xeque o modo de funcionamento dos aplicativos, baseado na  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
213  
invisibilização do trabalho e das relações de subordinação por meio do uso das TICs (Antunes,  
2020; Filgueiras; Antunes, 2020). Como bem sintetizou Nicolas Souza Santos, em Audiência  
Pública da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados (2023), a disputa principal no GT:  
Não foi uma questão de valores, né? Porque normalmente nos jornais sai como se  
fosse uma coisa de 35 versus 17, como se fosse uma negociação de valores pura e  
simplesmente, e não é. Na verdade, a gente está fazendo uma defesa de conceito, a  
defesa de que se a gente sai pra trabalhar, nós estamos trabalhando. Não existe, por  
exemplo [...] se uma lanchonete resolve contratar um chapeiro, vira pro chapeiro e  
fala ‘Ok, mas você só vai receber no momento em que você estiver fritando o bife, tá?  
Porque no momento em que você estiver ali parado e não tiver nenhum cliente, aí  
você não vai receber não’. Qual chapeiro vai aceitar esse trabalho, não é mesmo?  
Aliás, se ele aceitar, em qual condição social ele já está? Porque no final das contas é  
mais ou menos essa discussão que a gente está fazendo aqui, porque a gente aceita  
[...]. Só que isso tá errado, né?  
Em entrevista, Nicolas revelou que o conceito de “pagamento por hora logada” foi  
criado em resposta à posição das empresas:  
Isso aconteceu porque quando a gente começou a falar sobre remuneração, lá dentro  
do GT, as empresas, cinicamente, elas ficavam falando de “hora efetivamente  
trabalhada”, que é a criação de uma figura jurídica que não existe. Não tem. Então,  
quando elas falavam sobre “hora efetivamente trabalhada”, a gente tinha a obrigação  
de desmentir. “Mas então na outra hora que eu não estou fazendo pedido eu não estou  
trabalhando, então? Quer dizer que se eu quiser abrir uma cerveja e começar a tomar,  
está tudo bem?” Então assim, quando você paga pelo tempo à disposição, você  
reconhece que o cara, na verdade, está subordinado, que ele está ali parado esperando.  
Então, razão pela qual elas simplesmente não aceitavam o pagamento pelo tempo à  
disposição, pela brecha jurídica que isso abria na tese delas. Então, a gente resolveu  
forçar. Só que a gente não pode entrar nesse debate jurídico com a galera da rua [...].  
E a gente inventou lá, na hora, um negócio que é “hora logada”. Que também não está  
na lei. Mas assim, não estar na lei por não estar na lei, dane-se, então, a gente faz igual.  
Pelo menos a categoria compreende [...]. Então isso encontrou bastante eco. E foi por  
conta dessa situação que a gente conseguiu tanto criar um movimento na categoria  
quanto criar um muro insuperável. Até hoje as empresas não aceitam o pagamento da  
“hora logada”.  
Quanto ao “breque” que foi organizado, todos os entrevistados concordaram, mas  
muitos deles expressaram descontentamento com a decisão de promover uma paralisação.  
Conforme mostram Webster e Masikane (2023), os entregadores de aplicativos são uma  
categoria nova que, em razão de suas condições de trabalho, marcadas pelo isolamento e  
invisibilização, enfrentam uma série de dificuldades de mobilização. O “Breque”, isto é, a greve  
de entregadores, é uma das formas de ação política que vem sendo adotada pela categoria ao  
redor do mundo para superar tais dificuldades, mas boa parte dos entrevistados avaliou que  
naquele momento a categoria não havia sido devidamente conscientizada e mobilizada: “A  
gente fez porque tinha que fazer, entendeu? A gente fez para marcar posição. Mas não foi uma  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
214  
coisa assim, não foi uma adesão total, as lideranças também não estavam certas de que era o  
momento para fazer isso”.16  
Não há, dentre os representantes da Bancada dos Trabalhadores, indicação de que esses  
aceitariam ceder nas reivindicações fundamentais em troca da regulamentação da profissão.  
Pelo contrário, a avaliação é de que, se for para aprovar um projeto de lei nos termos que foram  
ofertados pelas empresas, similar ao que foi apresentado para os motoristas, os representantes  
dos entregadores preferem que não haja regulamentação e que o embate continue a ser travado  
no âmbito da justiça do trabalho, onde são julgados processos de reconhecimento de vínculo  
entre trabalhador e plataforma. Conforme explica Gilberto, presidente do SindimotoSP:  
Eu, na realidade, assim, eu acho que projeto é “B.O.”, nós temos que deixar voltar lá  
pro Supremo, pro Judiciário, fica melhor. Vamos voltar a discussão lá pro judiciário,  
vamos tirar do legislativo. É mais fácil a gente convencer, apertar doze ministros, do  
que querer cair na mão do Congresso, entendeu?  
A Bancada do Governo  
A avaliação dos entrevistados a respeito da atuação do governo na regulamentação  
ressalta principalmente o interesse na inclusão previdenciária dos trabalhadores de aplicativo.  
A formalização desses trabalhadores, que são aproximadamente 1,7 milhão de pessoas no Brasil  
(Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, 2023), teria impacto significativo na redução da  
informalidade e do déficit fiscal no país. Conforme “Gringo”:  
A previdência... O que que acontece? A gente já sabia que tanto o governo queria  
previdência, como o aplicativo queria dar a previdência. E o aplicativo quer dar  
previdência pra falar pra todos os clientes deles que eles deram previdência, que eles  
pagam maior parte, que 70% desse valor é deles, não sei o que... A gente falou: “Bom.  
Nós precisamos de previdência. O governo quer. O aplicativo também quer. Esse  
assunto nós deixamos por último”. Porque se você faz a previdência, acabou. O GT  
acabava ali.  
Os membros mais atuantes da Bancada do Governo no subgrupo de entregadores do GT  
de Regulamentação do Trabalho por Aplicativo eram, segundo a unanimidade dos  
entrevistados: Gilberto Carvalho, Secretário de Economia Solidária do MTE; Francisco  
Macena, Secretário Executivo do MTE; e Carlos Grana, quadro histórico do Partido dos  
Trabalhadores, ex-prefeito de Santo André, que, apesar de não possuir cargo no atual governo  
e não constar na Portaria SE/MTE n. 1.745 (Brasil, 2023b), que contém as indicações para a  
16 Fala de Alexandre Silva dos Santos.  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
215  
mesa tripartite, foi presença constante no GT. Gilberto Carvalho conduziu a maior parte das  
reuniões, enquanto Francisco Macena e Carlos Grana eram responsáveis pela interlocução com  
a Bancada dos Trabalhadores. Alexandre Silva dos Santos sintetiza bem a avaliação feita pelos  
entrevistados a respeito desses três representantes do governo:  
Então, por exemplo, a gente sabe que o Carlos Grana tem uma história dentro desse  
grupo sindical que compõe o governo atual, e o Chico Macena, ele é ligado ao Haddad,  
que é o homem dos números, é o cara da economia. Então, a gente sabe que existia  
uma defesa ali pelos números também, e não só pelos trabalhadores. Então, tudo que  
estava sendo feito ali, estava cuidado para que isso não criasse outro problema. Então,  
não existia assim explícito uma divisão, mas a gente sabia ali quem era quem,  
entendeu? E também vale ressaltar positivamente que o nome que nunca nos deixou  
desamparados foi o próprio secretário Gilberto Carvalho. Ele já é o cara que é  
acostumado a lidar com o trabalhador, ele é envolvido em outros projetos que ajudam  
os trabalhadores, e ele sempre tentou se posicionar a favor dos trabalhadores, mas  
Francisco Macena e o Carlos Grana, infelizmente, não.  
Outro alvo de crítica foi o Ministro Luiz Marinho, que participou apenas das primeiras  
reuniões do GT. A esse respeito, Alexandre Silva dos Santos opina:  
O Ministro do Trabalho, na minha opinião, deveria estar presente em todas as  
reuniões, porque é um assunto de extrema importância hoje nós somos seguramente  
a maior categoria de trabalhadores do Brasil, se nós fôssemos organizados e  
reconhecidos. O Ministro só esteve presente em duas oportunidades, de todas as  
reuniões que a gente fez.  
A avaliação dos representantes dos trabalhadores quanto à condução da mesa de  
negociação pelo governo foi crítica tanto em aspectos práticos quanto em aspectos políticos.  
Sobre os aspectos práticos de organização do grupo de trabalho, chama a atenção a falta de  
transparência e de divulgação de informações a respeito do que se passou nas conversas  
tripartites: apesar das discussões terem sido gravadas, não foram divulgadas atas das reuniões  
e nem foi produzido um relatório final do GT. Quanto ao aspecto político, as atitudes dos  
representantes do governo foram avaliadas como dúbias pelos trabalhadores: publicamente, os  
integrantes do Ministério do Trabalho e Emprego mostraram-se mais próximos dos interesses  
dos trabalhadores, mas esses posicionamentos não apareciam nas reuniões do GT, e vários  
entrevistados relataram pressão de representantes do governo para que os trabalhadores  
aceitassem o formato da proposta de remuneração feita por representantes das empresas.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
216  
A Bancada das Empresas  
Durante as reuniões tripartites do subgrupo de entrega de mercadorias do GT de  
Regulamentação do Trabalho por Aplicativo, das cinco entidades empresariais com direito a  
indicação, duas se destacaram pela atuação de seus representantes: a Associação Brasileira de  
Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) e o Movimento Inovação Digital (MID). Os  
representantes mais ativos da Bancada das Empresas eram: André Porto, Diretor Executivo da  
Amobitec; João Sabino, Diretor de Políticas Públicas do iFood e Diretor Presidente da  
Amobitec; e Vitor Magnani, Presidente da MID. Em relação aos documentos apresentados pela  
bancada, a maior parte o foi pela Amobitec, mas a MID também apresentou uma proposta de  
remuneração e um comunicado ao fim do GT. Houve, por fim, um representante patronal que  
se destacou por se revelar um aliado dos trabalhadores no GT: Fernando Souza, liderança  
patronal da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo  
(FETCESP) e do Sindicato das Empresas de Distribuição das Entregas Rápidas do Estado de  
São Paulo, que acompanhou o GT como “convidado”.17  
O primeiro documento apresentado pela Amobitec no GT de Regulamentação do  
Trabalho por Aplicativo, intitulado “Princípios para a regulação do trabalho em plataforma”,  
apresenta como primeiro princípio aquele que é provavelmente o principal objetivo da  
regulamentação para as empresas:  
1. Segurança jurídica. É fundamental a aprovação de uma legislação nova que seja  
condizente com a realidade e as particularidades do trabalho intermediado por  
plataformas tecnológicas e que afaste - definitivamente - as supostas controvérsias em  
torno da existência de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas. É  
preciso inovar e enfrentar os reais desafios do novo modelo, visando reduzir os litígios  
e efetivamente assegurar direitos aos trabalhadores. (Amobitec, 2023d, p. 1, grifo do  
autor).  
A avaliação de que esse tópico é o principal interesse das empresas na regulamentação  
é apoiada também pela avaliação dos representantes da Bancada dos Trabalhadores do GT:  
Cara, em resumo assim, é segurança jurídica, tá? Eles têm um desespero terrível por  
isso. A gente teve oportunidade de conversar, principalmente, mas não somente, com,  
na época, que era o representante, o Vitor Magnani, da MID, e o João Sabino, do  
iFood, que eram os linhas de frente das principais empresas, associações, e eles  
deixaram muito claro isso, entendeu? Que eles tinham medo de que acontecesse o que  
aconteceu com os motoristas, que fosse uma proposta para o Congresso, e que essa  
17  
Como liderança patronal do setor de transportes, Fernando representa empresas do setor que contratam  
trabalhadores no regime celetista e se sentem prejudicadas pela concorrência desleal das plataformas, que não  
arcam com os mesmos encargos trabalhistas e tributários.  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
217  
proposta pudesse ser, de alguma forma, flexibilizada demais e que não definisse, de  
uma vez só, o nosso trabalho, e que coubesse algum tipo de interpretação posterior, e  
que isso abrisse alguma margem para uma insegurança jurídica, levasse processos  
para judicialização, semelhante ao que aconteceu em alguns lugares fora do Brasil.18  
As disputas judiciais travadas em torno da existência ou não de vínculo empregatício  
entre plataformas e trabalhadores apresentam riscos ao modelo de negócios das empresas, como  
bem evidencia o caso da Espanha, em que uma decisão do Supremo Tribunal do país  
reconhecendo a existência de relação trabalhista entre um entregador e a empresa Glovo  
forneceu os fundamentos da legislação que regulamentou o trabalho por aplicativo (Gonsales;  
Roncato; Van Der Laan, 2024). A partir do momento em que a atividade estiver detalhadamente  
tipificada em lei, conforme os interesses das empresas, “sedimentando a jurisprudência  
consolidada sobre a atividade de intermediação realizada pelas plataformas e sua natureza  
cível” (Amobitec, 2022, p. 2), se encerram as incertezas acerca da aplicabilidade das leis  
existentes para esse modelo de negócios, reduz-se o passivo jurídico das empresas com as  
disputas judiciais e acaba-se com a perspectiva de um desfecho negativo para as plataformas.  
Entretanto, a regulamentação do trabalho por aplicativo dificilmente contemplará  
somente a segurança jurídica. Seguridade social, transparência e remuneração são temas com  
os quais a regulamentação deverá lidar, tal como fica evidente ao observarmos as  
regulamentações de outros países (Gonsales; Roncato; Van Der Laan, 2024).  
Consequentemente, as propostas realizadas pelas empresas contemplaram esses aspectos e  
mostraram até que ponto elas estavam dispostas a ceder nesses temas.  
Na Carta de Princípios da Amobitec para a regulamentação do trabalho por aplicativo,  
anterior ao GT (abril de 2022), as empresas já defendem proteção social aos trabalhadores em  
plataformas:  
A Amobitec busca, a partir do diálogo com os trabalhadores e autoridades, maneiras  
de incluí-los no sistema de proteção proporcionado pelos benefícios previdenciários,  
como aposentadoria, licença parental e auxílio-doença, entre outros. Defendemos que  
essa inclusão seja eficiente, desburocratizada e não represente aumento de custos  
para nossos parceiros ou para nossos consumidores. (Amobitec, 2022, p. 1, grifo  
do autor).  
Para as plataformas, a proteção social fornecida pela regulamentação no Brasil deve ser  
similar à prevista nas legislações mais favoráveis às empresas já em vigência em outros locais,  
tal qual a Proposta 22 da Califórnia (Gonsales; Roncato; Van Der Laan, 2024). Em outras  
18 Fala de Alexandre Silva dos Santos.  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
218  
palavras, a proteção deve focar em aposentadoria, saúde e segurança. A Bancada dos  
Trabalhadores estava ciente disso. Conforme destaca “Gringo”:  
Na verdade, já está tudo amarradinho isso aí, aparentemente, né? De que o governo  
tem um rombo gigantesco na Previdência, esses trabalhadores não têm contribuição  
com a Previdência, e o aplicativo viu uma oportunidade ali de se firmar do jeito que  
está. Ele falou: “Governo, você está com o rombo da Previdência, você precisa do  
meu dinheiro e eu posso te mandar direto da fonte. Sem o trabalhador pôr a mão e sem  
ele dizer sim ou não. Eu só te repasso de 1 milhão e 600 mil trabalhadores. Mas você  
tem que garantir que a gente vai ficar do jeito que a gente está para a gente não correr  
o risco de ser pego na CLT e nem a gente ter que valorizar essa galera aí”.  
Quanto à forma com que tais benefícios serão garantidos, em todos os documentos, a  
Amobitec faz questão de ressaltar que “a ampliação da proteção social não deve acontecer com  
base em regras antigas que não se adequam à realidade do trabalho em plataformas” (Amobitec,  
2022, p. 2), isto é, deve haver uma legislação específica para o trabalho em plataformas.  
Sobre a questão da remuneração, a posição da Amobitec desde o início do grupo de  
trabalho é a de garantir o pagamento do salário mínimo nacional proporcional ao “tempo  
efetivamente e comprovadamente trabalhado”. Aqui reside o principal tema de disputa entre as  
classes no grupo de trabalho: enquanto empresas defendem a contabilização do tempo de  
trabalho pelo tempo despendido em entregas, entregadores defendem o pagamento pelo tempo  
logado nos aplicativos. As empresas recusam a remuneração por “hora logada”, pois ela coloca  
em xeque o modo de funcionamento das plataformas, baseado na exploração do trabalho just-  
in-time e na obliteração das relações de assalariamento (Abílio, 2020; Antunes, 2020).  
Para tentar driblar a recusa por parte da Bancada dos Trabalhadores em aceitar uma  
remuneração por hora “efetivamente trabalhada”, Nicolas Souza Santos avalia que as empresas  
tentavam explorar as divisões existentes entre os representantes dos trabalhadores, isto é, entre  
representantes de associações e de sindicatos, mas sem sucesso:  
As empresas gostavam muito de fazer isso. Marcou uma reunião com a gente e marcou  
outra com o sindicato. Eles não sabiam que eu estava no telefone com o presidente do  
Sindimoto o tempo todo, eu falando com ele e ele falando comigo [...] as empresas  
estavam apostando muito nesse racha que poderia existir e explorar isso. Elas  
acabaram não conseguindo porque aconteceu um “quebra onda” ali, onde todas as  
opiniões conseguiram de certa forma convergir né, fora os problemas pessoais que  
existiam e que tudo bem, acontece na vida. Mas a gente conseguia de certa forma  
alinhar as nossas posições. As empresas seguem tentando fazer isso de conversar com  
uma aqui, outra ali, um aqui, outra ali, entendeu? Pra descobrir onde está a rachadura,  
no caso.  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
219  
Sobre os outros temas, as declarações da Bancada das Empresas em documentos foram  
demasiado genéricas e não permitem maiores comentários, com exceção do tema da  
transparência. A Amobitec pareceu estar disposta a oferecer transparência somente para  
possibilitar que seja verificado que a remuneração dos trabalhadores se deu corretamente, mas  
nada disse sobre tornar públicos os critérios de punição, expulsão, promoção e outros recursos.  
Já o documento apresentado pela MID (2023b) em 26 de agosto foi o único que tratou  
explicitamente de transparência referente a critérios de bloqueio e suspensão.  
Considerações Finais  
Os antecedentes do GT revelam que a regulamentação do trabalho por aplicativo é de  
interesse dos representantes das três partes envolvidas na discussão. Para as organizações dos  
entregadores de aplicativos e sindicatos, trata-se, em suma, da possibilidade de conquistar  
formas de proteção social e direitos trabalhistas ausentes nessa modalidade de trabalho  
precarizado (Abílio, 2020; Grohmann, 2020; Filgueiras; Antunes, 2020). Para o governo Lula,  
além de ser uma pauta que contempla um setor expressivo da classe trabalhadora e das  
organizações que o apoiam, principalmente centrais sindicais e sindicatos, a regulação dessa  
forma de atividade resultaria na adição de aproximadamente 1,7 milhão de trabalhadores  
(Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, 2023) ao sistema previdenciário, contribuindo  
para a almejada redução do déficit fiscal. Para as empresas, por fim, a regulamentação é  
essencial pela garantia jurídica que ela poderia fornecer ao seu modo de funcionamento. É  
diante desse cenário que se iniciam as discussões no GT de Regulamentação do Trabalho por  
Aplicativo em 2023.  
A estratégia adotada pela Bancada dos Trabalhadores foi pautar primeiramente a  
questão da remuneração com enfoque na modalidade de pagamento, isto é, o pagamento por  
“hora logada”. Esse ponto é fundamental para a regulamentação do trabalho por aplicativo na  
medida em que não se trata somente de uma demanda econômica, mas de uma demanda por  
reconhecimento do vínculo de trabalho entre entregador e empresa, uma vez que se exige o  
pagamento pelo tempo que a força de trabalho se encontra disponível para a plataforma,  
indicando que mesmo no tempo de espera há uma relação de subordinação entre entregador e  
empresa. Assim, o modo com que a Bancada dos Trabalhadores pautou a questão da  
remuneração, além de responder ao anseio mais imediato da base da categoria, trazia consigo  
as reivindicações fundamentais do movimento: a remuneração por hora logada implica o  
reconhecimento do vínculo, o enquadramento das empresas como empregadoras do setor de  
transportes e, consequentemente, sua aprovação resultaria na obrigação da garantia de direitos  
BRAGA, R.; CAMARGO, D.  
220  
aos trabalhadores das empresas, tais como representação sindical, proteção social e  
aposentadoria, minando o caráter invisibilizado e precarizado dessa modalidade de trabalho  
just-in-time (Abílio, 2020; Filgueiras; Antunes, 2020).  
A estratégia adotada pela Bancada dos Trabalhadores revelou-se coerente e bem  
articulada em relação aos seus objetivos fundamentais: o reconhecimento jurídico dos  
entregadores enquanto sujeitos de direitos trabalhistas e a efetivação de condições laborais  
dignas por meio do vínculo empregatício formal. Todavia, tal estratégia foi recusada pelas  
empresas que, plenamente conscientes das implicações dessa proposta, priorizaram a  
manutenção e consolidação do atual modelo de negócios das plataformas digitais. Esse modelo  
assenta-se na ausência do vínculo empregatício entre as plataformas e os trabalhadores,  
condição estrutural para a redução dos custos fixos empresariais, a externalização dos riscos e  
responsabilidades, e a preservação da flexibilidade operacional, ao preço da precarização das  
relações laborais (De Stefano, 2016; Wood et al., 2019).  
Assim, a partir do momento em que o objeto da negociação passou a ser a remuneração,  
as empresas adotaram uma postura de defesa de uma proposta pautada no pagamento por “hora  
efetivamente trabalhada”, estabelecendo um valor baseado no salário mínimo acrescido dos  
custos operacionais diretamente relacionados à atividade. Tal posicionamento revela o esforço  
das empresas em deslegitimar o conceito de “hora logada” que, ao contabilizar o tempo em que  
o trabalhador permanece conectado e à disposição da plataforma, expõe a subordinação  
estrutural e a precariedade do trabalho (Berg et al., 2018; Cant, 2019).  
O debate central no subgrupo de entregadores pode ser sintetizado na polarização entre  
as categorias conceituais “hora logada” versus “hora efetivamente trabalhada”. Essa  
controvérsia reflete uma disputa estrutural que ultrapassa o mero aspecto salarial e concentra  
as tensões em torno do reconhecimento ou não dos entregadores como empregados das  
plataformas, o enquadramento das plataformas enquanto empresas de transporte e a aplicação  
da legislação trabalhista vigente. Por um lado, o reconhecimento implicaria o estabelecimento  
de direitos sociais e trabalhistas fundamentais (como férias, seguro-desemprego, contribuições  
previdenciárias), enquanto, por outro, as plataformas buscam preservar a sua classificação  
como intermediárias tecnológicas, evitando a incidência da legislação trabalhista tradicional  
(Cherry; Aloisi, 2017; Deakin; Wilkinson, 2020).  
Essa disputa também expressa o conflito entre a aplicação das normas jurídicas  
existentes, concebidas para garantir a proteção dos trabalhadores, e a tentativa de se instituir  
um novo marco regulatório que legitime e consolide um modelo laboral marcado pela  
flexibilização extrema e precarização. Os trabalhadores reivindicam proteção social,  
transparência, remuneração adequada e segurança jurídica; as empresas, em contrapartida,  
Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
do trabalho por aplicativo no Brasil  
221  
esforçam-se para manter um modelo que externaliza os riscos, reduz custos e flexibiliza direitos  
(Wood et al., 2019; Prassl, 2018).  
Portanto, a oposição entre “hora logada” e “hora efetivamente trabalhada” representa  
não apenas um impasse técnico ou econômico, mas uma disputa epistemológica e política sobre  
a natureza das relações de trabalho na economia digital contemporânea. Revela as assimetrias  
de poder e controle na relação laboral e evidencia os desafios colocados ao direito do trabalho  
diante das transformações tecnológicas (Schor, 2020; Aloisi, 2016). A ausência de consenso no  
grupo de trabalho evidencia o confronto entre um projeto regulatório progressista, orientado  
pela justiça social, e um projeto empresarial que busca preservar o status quo da exploração  
estrutural dos trabalhadores em plataformas digitais.  
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Regulando o uberismo: impasses na regulamentação  
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Recebido em: 16/6/2025  
Aceito em: 25/5/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 225-249  
EMPREENDEDORISMO COMO ESTRATÉGIADE COMBATE ÀS DESIGUALDADES?  
dissonâncias entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
ENTREPRENEURSHIP AS A STRATEGY TO COMBAT INEQUALITIES?  
dissonances between the Empreender-PB Program and social protection of labor  
____________________________________  
Raynnara Laurentino Rodrigues  
Maurício Rombaldi  
Resumo  
Nas últimas décadas, políticas de orientação neoliberal têm sido implementadas por meio do enfraquecimento do papel  
do Estado na promoção da proteção social e na redução das desigualdades. Esse processo se articula à formulação de  
políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo, que transferem aos indivíduos a responsabilidade por sua inserção  
produtiva e pela superação de situações de vulnerabilidade social. Nesse contexto, o presente estudo analisa o Programa  
Empreender-PB com o objetivo de examinar em que medida suas diretrizes e formas de implementação reproduzem  
lógicas associadas à precarização e à informalidade do trabalho, bem como avaliar seu potencial como estratégia de  
inserção produtiva e de promoção da mobilidade social ascendente entre as trabalhadoras beneficiadas. A análise  
fundamenta-se emrevisão bibliográfica, exame da documentação institucional do programa e entrevistas semiestruturadas  
realizadas com gestores e beneficiárias da política. Conclui-se que o Empreender-PB contribui para o desenvolvimento  
dos empreendimentos apoiados. Contudo, ao enfatizar a responsabilização individual pela inserção produtiva, o programa  
tambémtende a naturalizarcondições precáriasdetrabalho eaobscurecer condicionantes estruturais que produzemefeitos  
objetivos e subjetivos sobre as trajetórias das beneficiárias.Ademais, a recorrente dependência deredes informais de apoio  
e de outras políticas de proteção social sugere que o empreendedorismo raramente se constitui como uma estratégia capaz  
de assegurar, por si só, mobilidade social ascendente e autonomia econômica duradoura.  
Palavras-chave: Empreendedorismo. Políticas Públicas. Trabalho. Gênero.  
Abstract  
Over the past decades, neoliberal-oriented policies have been implemented through the weakening of the State's role in  
promotingsocialprotectionandreducinginequalities.Thisprocesshasbeenaccompaniedbytheformulationofpublicpolicies  
thatencourageentrepreneurship, transferringto individualstheresponsibilityfortheirproductiveinclusionand forovercoming  
situations of social vulnerability. In this context, the present study analyzes the Empreender-PB Program in order to examine  
the extent to which its guidelines and modes of implementation reproduce logics associated with labor precarization and  
informality, as well as to assess its potential as a strategy for productive inclusion and the promotion of upward social mobility  
among beneficiary women workers. The analysis is based on a literature review, an examination of the program's institutional  
documentation, and semi-structured interviewsconducted withprogrammanagersand beneficiaries.Thefindingsindicatethat  
Empreender-PB contributes to the development of the supported enterprises. However, by emphasizing individual  
responsibility for productive inclusion, the program also tends to naturalize precarious working conditions and to obscure  
structuralconstraints thatproducebothobjectiveand subjectiveeffectsonbeneficiaries'trajectories. Furthermore, therecurrent  
dependenceoninformal supportnetworks and othersocialprotection policies suggests thatentrepreneurship rarelyconstitutes,  
in itself, a strategy capable of ensuring upward social mobility and lasting economic autonomy.  
Keywords: Entrepreneurship. Public Policies. Work. Gender.  
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGS/UFPB). E-mail:  
  
Doutor em sociologia, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba  
(PPGS/UFPB). Bolsista Produtividade PQ/CNPq. E-mail: mauricio.rombaldi@gmail.com  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
226  
Introdução  
A disseminação de políticas públicas orientadas por premissas neoliberais tem  
produzido transformações significativas na forma como o Estado se posiciona diante das  
questões sociais, especialmente aquelas relacionadas ao enfrentamento das desigualdades e à  
promoção da proteção social no trabalho. Nas últimas décadas, à medida que se reduz a  
capacidade do Estado de garantir direitos sociais amplos, observa-se o deslocamento de suas  
estratégias para políticas que priorizam o empreendedorismo como mecanismo de inclusão  
produtiva e de mobilidade social em contextos marcados por desemprego, informalidade e  
desigualdade de oportunidade. No entanto, tais iniciativas frequentemente transferem para  
trabalhadoras e trabalhadores a responsabilidade por sua inserção no mercado laboral e pela  
superação de situações de vulnerabilidade social que, muitas vezes, permanecem inalteradas.  
Partindo dessa problemática, o presente estudo1 analisa em que medida o Programa de Apoio  
ao Empreendedorismo na Paraíba (Empreender-PB) pode ser compreendido como política  
pública efetiva de inserção produtiva e mobilidade social ou se, na prática, opera como um  
instrumento de reprodução de desigualdades no mundo do trabalho, ao reforçar a lógica  
neoliberal de responsabilização individual e padrões de precarização e informalidade laboral.  
O fenômeno do neoliberalismo tem sido interpretado a partir de múltiplas perspectivas,  
que variam de leituras que o apresentam como uma doutrina econômica centrada na  
desregulamentação dos mercados e retração do papel do Estado, até abordagens que o  
concebem como uma racionalidade política e um projeto de reorganização das formas de  
governo e de regulação social. Entre essas interpretações, Wacquant (2012) argumenta que o  
neoliberalismo não consiste simplesmente em uma doutrina econômica que defende a  
supremacia do mercado e a redução do Estado, mas em um projeto político de reengenharia  
estatal que subordina a ação pública às normas e aos imperativos mercadológicos difundidos  
pela retórica neoliberal. Nessa perspectiva, o Estado sob influência do neoliberalismo não  
desaparece ou torna-se mínimo: ao contrário, atua ativamente na construção de mercados, na  
produção de subjetividades e na imposição de normas mercantis sobre os cidadãos. Nesse  
contexto, a agenda social se transforma em um conjunto de políticas voltadas à disciplina, à  
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O presente artigo reúne parte dos resultados da pesquisa de mestrado intitulada “Empreendedorismo feminino  
nas políticas públicas: as ambivalências do programa Empreender Paraíba junto às trabalhadoras de João  
Pessoa/PB”, desenvolvida por Raynnara Laurentino Rodrigues, sob orientação do Prof. Dr. Maurício Rombaldi,  
no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGS-UFPB) com  
financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
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moralização e à responsabilização do indivíduo por sua própria sobrevivência, especialmente  
aqueles das camadas mais pobres (Wacquant, 2012).  
Nesse cenário, o campo do trabalho tem perdido seu caráter protetivo baseado em  
direitos, convertendo-se em um conjunto de instrumentos que induzem os indivíduos a se  
comportarem como “empreendedores de si”, frequentemente na condição de autônomos ou  
trabalhadores por conta própria. Inseridas nesse quadro, as políticas públicas de  
empreendedorismo não se configuram apenas como estratégias econômicas, mas como  
instrumentos que operam como racionalidade disciplinadora do Estado neoliberal, ao converter  
a inserção produtiva em obrigação moral de autogestão e de aceitação individualizada dos  
riscos, da instabilidade e das incertezas do mercado de trabalho.  
No campo das políticas públicas que estimulam o empreendedorismo, observa-se a  
dissonância na relação dos trabalhadores contemplados com a proteção social no trabalho,  
evidenciada pela ausência de demandas ou de iniciativas voltadas à formalização como  
mecanismo de garantia de acesso a direitos. Argumenta-se, assim, que programas como o  
Empreender-PB não apenas deixam de promover a inserção laboral protegida, como também  
contribuem para a constituição de percepções particulares sobre direitos, produzindo  
ambiguidades em torno das promessas de autonomia econômica.  
Para este estudo2, além do exame da documentação institucional do programa, foram  
realizadas entrevistas semiestruturadas com gestores do Empreender-PB e entrevistas em  
profundidade com trabalhadoras contempladas pela política, com o objetivo de apreender o  
programa em duas dimensões complementares, embora frequentemente contraditórias: a  
perspectiva institucional e a experiência vivida. A articulação dessas entrevistas mostrou-se  
analiticamente relevante ao evidenciar dissonâncias entre intenções e efeitos, bem como tensões  
entre objetivos declarados de combate às desigualdades e suas consequências práticas.  
Destacam-se, ainda, os contrastes entre as narrativas institucionais de valorização do trabalho  
e a experiência cotidiana das beneficiárias, marcada por incertezas e instabilidades econômicas  
de origem estrutural que, no âmbito de políticas públicas de orientação neoliberal, tendem a ser  
deslocadas para os próprios contemplados.  
2
Durante a finalização deste trabalho, os autores utilizaram de ferramentas de inteligência artificial GPT-5.3,  
exclusivamente para revisão linguística e correção gramatical. Todo o conteúdo científico, metodológico e  
analítico foi elaborado pelos autores, que assumem total responsabilidade pela publicação, conforme os princípios  
do método científico.  
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Influenciado por políticas públicas de fornecimento de crédito e microcrédito que foram  
implementadas no país ao longo da década de 1990 e 2000 pelo governo federal3, bem como  
por iniciativas desenvolvidas em munícipios paraibanos4, o Empreender-PB se consolidou  
como principal política pública a acolher e conduzir a ideia do empreendedorismo e do  
microempreendedorismo como mecanismos de inserção produtiva no estado da Paraíba  
(Paraíba, 2013, 2024a). Criado em 2011 e formalizado em 2013, o programa possui status de  
secretaria estadual, sendo financiado por recursos do Fundo Estadual de Apoio ao  
Empreendedorismo – criado pela Lei Estadual nº 9.335, de 25 de janeiro de 2011.  
O principal objetivo do Empreender-PB é estimular, por meio da concessão de crédito  
produtivo orientado, a geração de ocupação e renda entre empreendedores paraibanos, bem  
como apoiar e fortalecer associações e cooperativas de produção, iniciativas de economia  
solidária, microempreendedores individuais, microempresários e empresários de pequeno porte  
que atuam no estado (Paraíba, 2013)5. Além disso, o Programa enfatiza, entre suas diretrizes, o  
enfrentamento das desigualdades sociais no âmbito do trabalho (Paraíba, 2020, 2024a). Para  
apoiar diferentes atividades econômicas, o Empreender-PB oferece condições diferenciadas de  
juros e prazos de pagamento conforme as linhas de crédito e inclui, como etapa obrigatória,  
cursos de capacitação em gestão empresarial. De forma complementar, promove feiras e  
eventos destinados a ampliar a visibilidade e a inserção mercadológica dos produtos e serviços  
ofertados pelos beneficiários (Paraíba, 2024a). Entre as particularidades, destaca-se o  
atendimento a um público que, em geral, não obtém crédito no setor bancário privado em razão  
das exigências contratuais e das elevadas taxas de juros praticadas pelos bancos comerciais.  
No Brasil, desde a década de 1990 políticas públicas com desenho e agenda semelhantes  
aos do Empreender-PB foram concebidas como respostas aos problemas estruturais dos  
3 Como o Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger) e o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo  
Orientado (PNMPO).  
4 No estado da Paraíba, as primeiras políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo surgiram no munícipio  
de João Pessoa, sob a gestão de Ricardo Coutinho (2005-2010). As principais ações foram criadas ainda no  
primeiro ano de mandato como prefeito, a saber: o Programa Municipal de Apoio aos Pequenos Negócios  
(Empreender-JP) e o Projeto Cinturão Verde, voltado ao apoio da agricultura familiar e urbana.  
5 Embora o Empreender-PB incorpore, em suas diretrizes formais, iniciativas de economia solidária, tal inclusão  
evidencia uma tensão ideológica nas políticas de inserção produtiva. Enquanto o empreendedorismo se orienta por  
princípios individualizantes e mercadológicos, a economia solidária se fundamenta em valores coletivos e  
cooperativos, expressando uma racionalidade distinta da lógica neoliberal. Na prática, porém, essas fronteiras se  
diluem, sobretudo quando ambas as perspectivas são tratadas como equivalentes, sem o reconhecimento de suas  
especificidades. Desse modo, o desenho institucional do programa revela uma zona de ambiguidade, na qual a  
economia solidária é contemplada sem suporte diferenciado, o que reforça a predominância da lógica  
empreendedora e subordina formas coletivas aos imperativos de mercado (Rodrigues, 2025).  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
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mercados de trabalho locais e às crises econômicas, sendo apresentadas como instrumentos de  
promoção do desenvolvimento socioeconômico sustentável e de inserção laboral de grupos  
específicos, como mulheres, jovens e população negra. Contudo, o destaque conferido a essas  
iniciativas não ocorreu de forma repentina. A literatura indica que o fomento ao  
microempreendedorismo resultou de reconfigurações nas estruturas dominantes do capitalismo,  
impulsionadas por atores e ideias hegemônicas que buscaram adequar as sociedades ao modelo  
de acumulação flexível e aos pressupostos do neoliberalismo (Dardot; Laval, 2016; Farias,  
2012; Wacquant, 2012; Lima; Véras de Oliveira, 2021).  
Com o propósito de mitigar os conflitos sociais oriundos da reestruturação produtiva  
iniciada na década de 1970, instituições financeiras multilaterais, especialmente o Banco  
Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), passaram a difundir, a partir dos anos 1980,  
um novo conjunto de políticas sociais. Os diagnósticos a respeito dos problemas estruturais,  
com o desemprego, a pobreza e a desigualdade de gênero no mercado de trabalho, apontavam  
para soluções amparadas na expansão das capacidades individuais, na adaptação da força de  
trabalho ao capitalismo flexível, a individualização, ao viés da concorrência e a racionalidade  
do mercado (Lima; Véras de Oliveira, 2021). Nesse quadro, políticas de proteção social e  
trabalhista foram relegadas a segundo plano ou reformuladas6, enquanto medidas como  
reformas previdenciárias, políticas de microcrédito e qualificação, programas de transferência  
de renda condicionada e outras políticas voltadas à flexibilização do trabalho ganharam  
centralidade (Farias, 2012).  
Ao incorporar a dimensão de gênero, esse movimento se associa à difusão da ideia do  
“empreendedorismo feminino” como a principal alternativa de inserção produtiva para  
mulheres. No Brasil, essa formulação se apoia em um mercado de trabalho marcado por  
desigualdades persistentes, no qual grande parte das mulheres permanece concentrada em  
ocupações de baixa remuneração, com reduzidas oportunidades de mobilidade profissional e  
forte incidência da divisão sexual do trabalho (Hirata, 2017). Foi diante desse contexto, nos  
anos 1990, que se consolidou, no campo das políticas de trabalho, um ambiente favorável ao  
estímulo do empreendedorismo feminino individual7. Desde então, essa perspectiva passou a  
6 A nível mundial, o principal exemplo foi o desmonte do Welfare State nos países centrais. No caso brasileiro, o  
exemplo mais recente foi a Reforma Trabalhista de 2017 e a Lei da Terceirização.  
7
Isso ocorreu mediante uma denúncia encaminhada pelo movimento social à Organização Internacional do  
Trabalho (OIT) acerca do descumprimento, pelo Brasil, da Convenção 111 sobre discriminação no emprego e  
ocupação, assinada pelo país em 1965, mas nunca efetivada. Em resposta à denúncia, diferentes pastas ministeriais  
passaram a promover ações voltadas à implementação dos princípios da referida Convenção, desde ações para  
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ser amplamente mobilizada por instituições e diferentes níveis de governo como estratégia para  
promover a inserção das mulheres no mercado de trabalho e a redução das discriminações de  
gênero. Contudo, essa abordagem tem sido objeto de críticas por produzir efeitos ambivalentes  
para as mulheres, sobretudo por se desvincular de políticas de proteção social.  
Em um contexto no qual a responsabilização individual tende a obscurecer  
condicionantes estruturais, tornam-se menos visíveis as barreiras sistêmicas que incidem sobre  
a vida produtiva e reprodutiva feminina. Assim, a perspectiva do empreendedorismo feminino  
contribui para consolidar e naturalizar a figura da “mulher moderna multifuncional”,  
apresentada como capaz de conciliar e sustentar múltiplas jornadas em nome da independência  
financeira, da complementação da renda ou da garantia do bem-estar familiar, mesmo quando  
inseridas em atividades marcadas por limitado acesso à proteção social e reduzidas  
oportunidades de mobilidade profissional. Nesses termos, compreender como as contempladas  
pelo Empreender-PB experienciam as ambiguidades das promessas do empreendedorismo  
torna-se fundamental para avaliar os alcances e limites desse tipo de programa.  
O advento do neoliberalismo e o panorama das políticas públicas de empreendedorismo  
voltadas ao trabalho no Brasil  
A nova ordem mundial configurada a partir dos anos 1970 consolidou um modelo de  
organização social alinhado às premissas neoliberais, especialmente na orientação política e na  
condução do Estado. Medidas como privatizações, abertura comercial, defesa do livre mercado  
e flexibilização de direitos trabalhistas passaram a orientar reformas adotadas por diversas  
economias para enfrentar a crise fiscal e o baixo crescimento econômico8. O Estado passou a  
orientar-se para o alcance da eficiência das ações públicas, sob o argumento de que a  
produtividade deveria ser alcançada ao menor custo possível, especialmente no campo social.  
Nesse quadro, a intervenção estatal passou a priorizar incentivos ao crescimento econômico e  
à estabilidade dos mercados, enquanto a eliminação de direitos trabalhistas e a flexibilização da  
legislação do trabalho e das normas contratuais se consolidaram como traços marcantes do  
mundo do trabalho na segunda metade do século XX.  
estabelecer as mulheres como público prioritário nos principais programas nacionais de qualificação até estratégias  
de incorporar a problemática de gênero em todos os âmbitos institucionais (Leite; Souza, 2010).  
8
Dentre os principais exemplos, estão o governo de Ronald Reagan (1981-1990) nos Estados Unidos e de  
Margareth Thatcher (1979-1990) no Reino Unido.  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
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No Brasil, a adequação às políticas neoliberais intensificou-se ao longo dos anos 1990.  
No plano econômico, o país aderiu ao ajuste fiscal e à estabilização monetária com o Plano Real  
(1994), promoveu a abertura comercial e a internacionalização do capital, expôs o mercado  
interno à concorrência internacional e privatizou empresas estatais sob o argumento de reduzir  
o déficit público. Em consonância, implementou medidas que consolidaram a austeridade  
fiscal, a desregulamentação econômica e a incorporação dos princípios de mercado ao aparelho  
estatal. Contudo, ao longo da década, o mercado de trabalho tornou-se mais restritivo. O  
emprego assalariado com registro expandiu-se de forma limitada, enquanto os postos sem  
carteira assinada e as ocupações por conta própria ou autônomas cresceram em ritmo mais  
intenso. Entre 1993 e 1999, por exemplo, as ocupações informais cresceram a uma taxa de 8%,  
superior à observada no setor formal (7,2%) e ao crescimento total das ocupações no país  
(7,7%) (Vasconcelos; Targino, 2015). Diante do aumento do desemprego, da pobreza, da  
informalidade e das desigualdades, intensificou-se a necessidade de o Estado formular  
estratégias por meio de políticas de emprego, trabalho e renda.  
Nesse contexto, na década de 1990 amplia-se os instrumentos institucionais voltados às  
políticas públicas de trabalho no país. Em janeiro de 1990, foi criado o Fundo de Amparo ao  
Trabalhador (FAT), que se tornou a principal fonte de financiamento do seguro-desemprego, do  
abono salarial e de outras políticas públicas de trabalho. Trata-se de um fundo especial de  
natureza contábil-financeira, vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego e composto pela  
arrecadação do PIS/PASEP. Conforme explica Oliveira (2012), diante dos problemas da fome  
e da miséria, a partir de 1993 as demandas políticas relacionadas ao combate à exclusão  
passaram a convergir para medidas que ultrapassassem ações emergenciais e compensatórias.  
Por essa razão, o FAT deixou de ser concebido apenas como um fundo de auxílio ao  
desempregado e passou a ser entendido como uma fonte de recursos destinada a beneficiar os  
trabalhadores, especialmente os de baixa renda.  
Entre 1994 e 1995, o Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda (SPETR) se  
consolidou no país, com a ampliação de políticas distribuídas em três áreas: i) compensatórias,  
como o abono salarial e o seguro-desemprego; ii) ativas, como qualificação profissional e  
intermediação de mão de obra; iii) crédito e microcrédito, voltadas a setores produtivos capazes  
de gerar trabalho e renda (Serra, 2009). No plano social, também cresceu a preocupação com  
grupos que enfrentavam maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho, como  
mulheres, pessoas com deficiência, jovens e negros. Com o objetivo de dar visibilidade às  
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desigualdades de gênero e à discriminação, observou-se, na segunda metade da década de 1990,  
uma inflexão no aparelho estatal voltada à promoção da diversidade e da igualdade, expressa  
na incorporação dessas pautas em diferentes ministérios e órgãos governamentais (Leite; Souza,  
2010).  
Entre empresários e agentes governamentais, o desemprego passou a ser diagnosticado  
não como um problema social, mas como um obstáculo cuja causa seria atribuída aos próprios  
trabalhadores (Lima; Véras de Oliveira, 2021). Sob esse pretexto, programas de geração de  
emprego e renda voltados à reinserção e a inserção produtiva dos trabalhadores, ao estímulo da  
capacidade empreendedora, à autossustentação de pequenos empreendimentos e à criação de  
oportunidades individualizadas de trabalho ganham centralidade. Em outras palavras, as  
políticas de trabalho passam a ser desenhadas como programas voltados à empregabilidade9,  
deslocando para os trabalhadores a centralidade da responsabilidade pela inserção laboral.  
Uma das primeiras iniciativas nesse sentido foi o Programa de Geração de Emprego e  
Renda (Proger), instituído pela Resolução Codefat nº 59, de 1994. Articulado ao Programa de  
Combate à Fome e à Miséria, o Proger passou a atuar por meio da concessão de crédito a micro  
e pequenas empresas, formais e informais, cooperativas e outras formas associativas de  
produção com baixa capacidade técnico-gerencial e sem acesso ao sistema formal de crédito,  
sobretudo no espaço urbano, onde os níveis de desemprego eram mais elevados. Além da oferta  
de crédito, o programa também previa ações de capacitação gerencial e acompanhamento das  
iniciativas. A criação e a implementação do Proger ocorreram em um contexto de agravamento  
do desemprego no país, que, em 1995, alcançou cerca de 17% da população economicamente  
ativa (Oliveira, 2012).  
O ano de 1995, que marca o início do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-  
2002), caracterizou-se pela ampliação de políticas sociais voltadas à transferência de renda  
condicionada, à qualificação profissional e à oferta de crédito e microcrédito direcionados aos  
segmentos de menor renda. Estabelecido em 1995 por meio de convênios entre governos  
estaduais e entidades públicas e sociais, e coordenado pelo Ministério do Trabalho e Emprego,  
o Plano Nacional de Formação Profissional (Planfor) tornou-se o principal programa de  
qualificação profissional do governo federal no período. Financiado com recursos do FAT, o  
9
O termo empregabilidade refere-se à capacidade de um indivíduo de se manter inserido ou de ingressar no  
mercado de trabalho. É geralmente associado a um conjunto de competências, habilidades e atributos individuais  
que os trabalhadores precisam dispor para tornarem-se “adequados” às exigências do mercado de trabalho (Leite,  
1997).  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
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programa tinha como objetivo o aumento da produtividade e da capacitação de trabalhadores  
com baixa qualificação. Embora tenha sido alvo de críticas quanto à sua efetividade, o Planfor  
destacou-se por assumir, pela primeira vez, o compromisso explícito de incorporar a igualdade  
de gênero e raça em sua agenda (Kon, 2016).  
No mesmo quadro, em 1996, o BNDES lançou o Programa de Crédito Produtivo  
Popular (PCPP), iniciativa voltada à difusão do microcrédito e à criação de uma rede  
institucional capaz de ampliar o acesso ao crédito para trabalhadores de baixa renda excluídos  
do sistema financeiro convencional. O PCPP foi precursor das políticas de microcrédito no  
Brasil. Em 2003, foi substituído pelo Programa de Microcrédito (PM), vigente por dois anos, e  
posteriormente substituído pelo Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado  
(PNMPO), instituído em abril de 2005 e ainda em vigor (BNDES, 2025). Além do suporte  
financeiro, o PNMPO oferece capacitação empreendedora aos beneficiários. Sua metodologia  
tornou-se referência para políticas de empreendedorismo em diferentes níveis de governo,  
como o programa Empreender Paraíba, que adota o mesmo modelo de crédito associado à  
capacitação10.  
Em meio a esse conjunto de políticas, em razão da influência do discurso neoliberal  
sobre a agenda governamental brasileira, o incentivo ao empreendedorismo e ao autoemprego  
ganhou centralidade. Com a virada do século, contudo, observa-se uma inflexão relativa na  
atuação do Estado, que passou a enfatizar a valorização do trabalho formal como vetor de  
inclusão e desenvolvimento. Essa orientação se expressou na política de valorização do salário-  
mínimo, na expansão do emprego formal, na ampliação do acesso ao crédito e nos incentivos à  
formalização de atividades econômicas. Ainda assim, embora representem mudanças em  
relação à lógica neoliberal predominante nos anos 1990, essas iniciativas preservaram  
elementos de continuidade, especialmente na valorização do empreendedorismo como  
alternativa ao emprego assalariado. Desse modo, conformou-se um arranjo híbrido entre  
dimensões sociais e produtivistas que caracterizou o cenário brasileiro da década de 2000.  
Um dos exemplos expressivos dessa orientação foi a instituição do Estatuto Nacional  
da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, por meio da Lei Complementar nº 123, de  
10  
O FAT Empreendedor Popular também foi outra política que possuía as mesmas características. Criada em  
2002, em face da baixa cobertura da demanda potencial e da necessidade de ampliação do acesso ao microcrédito  
no Brasil, o FAT Empreendedor Popular objetivava, para além de ampliar o alcance do microcrédito, atuar de  
forma focalizada. O programa permitiu a atuação dos agentes financeiros em diferentes formas (primeira e segunda  
linha), com (ou sem) exigências de contrapartida de instituições de microfinanças, além de também possibilitar a  
participação de cooperativas de crédito (Passos; Costanzi, 2002).  
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14 de dezembro de 200611, que criou a figura do Microempreendedor Individual (MEI). A  
medida busca promover a formalização de atividades informais, ampliar a inclusão  
previdenciária de trabalhadores autônomos e por conta própria e possibilitar a emissão de notas  
fiscais pelos serviços prestados. Na prática, contudo, o instrumento também contribuiu para  
institucionalizar formas de trabalho com menor proteção social e abriu espaço para práticas de  
fraude nas relações de trabalho, notadamente por meio da chamada pejotização, na qual  
empregadores substituem vínculos assalariados formais pela contratação de pessoas jurídicas.  
A partir do governo Temer (2016-2018), as medidas de desregulamentação do trabalho  
voltaram a ganhar força no Brasil. Destacam-se a Lei da Terceirização, que autorizou a  
terceirização em todas as atividades econômicas, inclusive no setor público, e a Reforma  
Trabalhista de 2017, considerada um dos mais profundos processos de reconfiguração do  
sistema de proteção social e trabalhista brasileiro, ao alterar dispositivos centrais da CLT e  
relativizar garantias consolidadas pela Constituição de 1988.  
O Empreender-PB: dissonâncias entre seus objetivos e a proteção social do trabalho  
Conforme observado, a expansão das políticas neoliberais de desregulamentação do  
trabalho no Brasil foi acompanhada pela difusão de políticas públicas voltadas ao  
empreendedorismo. O programa Empreender-PB insere-se nesse contexto ao propor a  
concessão de crédito orientado, a capacitação de pequenos empreendedores e o acesso a feiras  
e eventos como mecanismos de promoção da inclusão produtiva. Além disso, busca dialogar  
com objetivos de combate à pobreza, redução das desigualdades e promoção do crescimento  
econômico com inclusão social (Paraíba, 2016, 2020, 2024c).  
O Empreender possui características específicas que o difere de algumas outras políticas  
de crédito orientado, as quais foram criadas ao longo dos anos da sua vigência. Uma das  
principais é o fato de que os empréstimos fornecidos pela referida política são divididos em 15  
linhas de crédito, organizadas nas seguintes naturezas: os direcionados às Pessoas Físicas e os  
direcionados às Pessoas Jurídicas12. Além do financiamento por meio do crédito e da oferta de  
capacitação em gestão empresarial, o programa também promove ações como a Feira de  
Negócios e Empreendedorismo da Paraíba (FENEMP), que busca promover, divulgar,  
mobilizar e estimular a interação participativa e a partilha de experiências entre os  
11 Posteriormente substituída pela Lei Complementar nº 128, de 19 de dezembro de 2008.  
12 Para saber mais, ver: <https://www.empreenderpb.pb.gov.br/paginas/linhas-de-credito>. Acesso em: mar. 2026.  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
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contemplados do Programa (Paraíba, 2024a), e o Projeto Circuito Empreender, que objetiva  
inserir os contemplados dos municípios de menor porte no cenário empreendedor do estado em  
feiras ou outros eventos com parceiros do Programa13.  
O Empreender-PB também possui ações alternativas para os beneficiários que, em  
algum momento após a tomada de crédito, tornaram-se inadimplentes, como o projeto “Resgate  
Empreender”. Essa ação disponibiliza descontos de 95% sobre juros e multas, oferece entrada  
mínima de R$100,00 e um prazo máximo de reparcelamento em até 60 meses para contratos  
com no mínimo 1 (um) ano de inadimplência (Paraíba, 2024a). Ademais, o Empreender oferta  
minicursos, workshops, palestras para o público contemplado e para os participantes dos  
eventos que realiza.  
Até o ano de 2024 o Programa já conseguiu alcançar todos os 223 municípios paraibanos  
(Paraíba, 2024a). A respeito dos montantes de recursos liberados para o estado da Paraíba, de  
acordo com o site do Governo Estadual, estima-se que foram liberados cerca de R$  
257.291.445,13 entre 2011 e 2023, em um total de 41.581 processos pagos14 (Paraíba, 2024b).  
Sob o recorte do gênero, a participação de mulheres é mais expressiva que a dos homens em  
todos os anos de vigência da referida política. Entre 2011 e 2023, as mulheres captaram, em  
média, 55,30% do total de recursos ofertados, enquanto a participação masculina girou em torno  
dos 44,70% dos empréstimos oferecidos pela referida política (Paraíba, 2024b). Na cidade de  
João Pessoa, a participação das mulheres no público-alvo é ainda mais expressiva, chegando a  
57,57% do total de empréstimos fornecidos pelo programa em 202315.  
Embora relevantes, esses dados não indicam necessariamente que o trabalho feminino  
esteja sendo priorizado pela política pública no enfrentamento de desigualdades e  
vulnerabilidade social. Antes, sugerem que, no âmbito local, as mulheres constituem o grupo  
mais engajado na captação dos recursos oferecidos por esse tipo de política pública. Diante  
desse cenário, torna-se fundamental analisar não somente o panorama de disponibilização de  
crédito, mas, sobretudo, as experiências e percepções das contempladas. Por essa razão,  
analisam-se as perspectivas de trabalhadoras contempladas pelo Empreender-PB, com o  
13  
O Empreender-PB destaca a presença e o incentivo de alguns parceiros institucionais, como alguns órgãos do  
Governo do Estado da Paraíba, a Receita Federal, a Receita Estadual, o Procon, o SENAI, o Sebrae, Universidades,  
Secretarias de Estado, Sescoop, Banco do Nordeste, dentre outros (Paraíba, 2024a).  
14 Nesta contagem, também se considera os valores e os processos pagos via renovação de crédito.  
15  
Essa porcentagem deriva do montante total disponibilizado para primeiro empréstimo, desconsiderando os  
valores ofertados para renovação de crédito (Paraíba, 2024b).  
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objetivo de compreender de que modo políticas de fomento ao empreendedorismo atuam na  
inserção e permanência das mulheres em atividades laborais e em processos de mobilidade  
social, bem como de que forma iniciativas como essa podem mitigar ou reforçar dinâmicas de  
precarização, endividamento e reprodução das desigualdades.  
Histórias Cruzadas: a perspectiva dos gestores e das trabalhadoras contempladas  
Quando o programa Empreender-PB é analisado à luz das trajetórias sociais das  
mulheres contempladas e do discurso institucional de seus gestores, emergem dissonâncias  
entre os objetivos declarados, centrados na inclusão, autonomia e fortalecimento econômico, e  
os efeitos concretos de inclusão e superação das desigualdades. Essa dissonância manifesta-se  
tanto na incorporação, pelas beneficiárias, de discursos meritocráticos socialmente difundidos  
por instituições públicas e ambientes de socialização, quanto no efetivo movimento de  
substituição da promoção do trabalho formal pela valorização de formas precárias de geração  
de renda. Nesse sentido, a lógica que orienta o Empreender-PB exemplifica o processo descrito  
por Wacquant (2012), segundo o qual o Estado neoliberal se reorganiza para adaptar os  
indivíduos às dinâmicas do mercado, convertendo direitos em obrigações econômicas e  
condicionando a cidadania ao desempenho produtivo de trabalhadoras e trabalhadores.  
Para os gestores do Empreender-PB, o principal mecanismo de promoção da geração de  
renda com inclusão social consiste na “injeção de recursos financeiros nos municípios”, por  
meio da concessão de crédito, associada à oferta de cursos de capacitação em gestão  
empresarial, especialmente voltados a grupos socialmente marginalizados sem acesso ao  
sistema financeiro tradicional. A disponibilização de recursos é apresentada como mecanismo  
multiplicador, capaz de dinamizar o comércio, estimular novos empreendimentos e ampliar a  
circulação de renda. Paralelamente, reforçam a ideia de que os resultados dependem do  
engajamento individual, isto é, “através do potencial dessas pessoas de gerar emprego e renda”  
(Gestor 2). No mesmo sentido, observam que “[...] a questão é desenvolver os municípios, agora  
se vai conseguir ou não aí vai depender das pessoas” (Gestor 4) e “A gente faz o nosso papel,  
de dar incentivo” (Gestor 3), mostrando que o efeito catalisador depende da capacidade dos  
beneficiários de aplicar os recursos e das condições do mercado local.  
No mesmo sentido, os depoimentos indicam a incorporação de termos como autonomia  
e esforço individual, categorias que dialogam diretamente com as premissas neoliberais  
aplicadas às políticas de trabalho e empreendedorismo, conforme evidenciam as declarações:  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
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“Então eu acho que ele é essencial pra dar autonomia para as pessoas” (Gestor 1) e “O problema  
é a coragem, a atitude, certo? Porque [...] você empreende até vendendo dindinho na frente de  
colégio de meio-dia, você vende tudo, agora a questão é ter coragem” (Gestor 4). Expressões  
como “coragem” e “atitude” são mobilizadas para justificar trajetórias distintas, o que contribui  
para diluir o peso das desigualdades educacionais, territoriais e socioeconômicas. Embora  
reconheçam dificuldades estruturais enfrentadas pelos beneficiários, observa-se recorrente  
ênfase no mérito individual e na responsabilização dos sujeitos por seus resultados.  
A reprodução de premissas neoliberais também aparece na forma como os gestores  
descrevem o funcionamento do programa, marcada pela ênfase na “disciplina” necessária ao  
pagamento do crédito e na ideia de que o Empreender oferece “a oportunidade da  
necessidade”16 (Gestor 3) a grupos socialmente desfavorecidos, em situação de endividamento,  
vulnerabilidade, marginalização, violência ou desemprego. Segundo o Gestor 2: “ninguém  
escolhe ser empreendedor porque tem o sonho de ser empreendedor [...] a maioria das pessoas  
aqui na Paraíba não são desse perfil, eles empreendem porque precisam”, o que evidencia a  
convivência contraditória entre um discurso meritocrático e a percepção da precarização que  
marca o mercado de trabalho na Paraíba.  
Com essa abordagem, parte-se do pressuposto de que esses grupos não conseguiriam  
acessar recursos por outros meios, ao mesmo tempo em que lhes é atribuída a responsabilidade  
de converter essa oportunidade em sucesso. Desse modo, a política apresenta forte componente  
moralizante, centrado na gestão financeira pessoal, na busca por capacitação e na adoção de  
uma postura “empreendedora”. O discurso também tende a valorizar práticas econômicas  
cotidianas como expressão de uma suposta “vocação empreendedora natural”, como indicam  
as declarações: “boa parte dos proponentes do Empreender não tem... não sabe nem ler e nem  
escrever” (Gestor 4) e “eles não entendem de dinheiro, mas entendem em reinvestir [...] podem  
até não saber escrever, mas sabem o que fazer com dinheiro” (Gestor 4). Ainda que reconheçam  
limitações dos contemplados, prevalece a noção de que o desenvolvimento depende de escolhas  
individuais, o que naturaliza a precarização e a responsabilização dos sujeitos por fracassos  
associados a fatores estruturais.  
Em contradição com a ênfase atribuída à iniciativa individual como fator de sucesso do  
programa, os gestores reconhecem a existência de barreiras estruturais, como baixa  
16 Segundo GEM (2023, p. 95), o empreendedorismo por necessidade “ocorre quando o indivíduo se envolve com  
a atividade empreendedora por não possuir melhores opções de trabalho, visando, em linhas gerais, a sua  
subsistência e a de seus familiares, e é usualmente vinculada a atividades informais”.  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
238  
escolaridade, mercados saturados, ausência de preparo administrativo, vulnerabilidade  
socioeconômica e dificuldades de ordem “cultural”, sobretudo entre mulheres pobres residentes  
no interior ou em regiões periféricas de João Pessoa. Embora consideradas mais disciplinadas  
e engajadas, essas mulheres enfrentam obstáculos simbólicos e estruturais significativos, como  
violência, dependência financeira, estigmatização e internalização de discursos de  
desvalorização. Diante desse público, os gestores apontam a necessidade de uma atuação “mais  
psicológica”, voltada ao estímulo da autoestima e ao “empoderamento”, ainda que tais ações  
não estejam formalizadas nos instrumentos normativos da política.  
Em relação aos estímulos à proteção social pelo trabalho, os instrumentos normativos e  
as declarações dos gestores indicam que o Empreender-PB ainda não dispõe de uma estratégia  
abrangente. O gestor responsável pelo curso de capacitação afirmou que o tempo destinado ao  
tema é reduzido e que o incentivo à formalização e ao acesso a direitos depende, muitas vezes,  
do tamanho e do engajamento das turmas. Diante da existência de um roteiro previamente  
estabelecido, os cursos priorizam conteúdos voltados ao gerenciamento dos empreendimentos,  
à administração financeira e às orientações para a entrevista e a elaboração do plano de  
negócios. Nas falas dos demais gestores, o acesso a direitos sociais e trabalhistas aparece  
associado sobretudo à formalização por meio do MEI ou do CNPJ, em consonância com a  
parceria estabelecida com o Sebrae. Nesse sentido, a Secretaria do Empreender-PB indica forte  
ênfase na pedagogização como estratégia de inserção, ao realizar eventos conjuntos com essa  
instituição, como oficinas, atendimentos nos municípios e palestras voltadas à formalização.  
Desse modo, a política contribui para que se naturalize microempreendedores em uma dinâmica  
de responsabilização moral dos sujeitos, que passam a internalizar a ideia de que o sucesso ou  
fracasso no mercado de trabalho depende exclusivamente de seu desempenho e esforço, com  
condições marcadas por longas jornadas, baixos rendimentos e ausência de proteção social, o  
que limita o potencial do programa de promover sustentabilidade econômica para os  
contemplados. Apesar de seu caráter social, o programa preserva, em vários aspectos, uma  
lógica individualizante.  
A dissonância entre o discurso institucional do Empreender-PB e seus efeitos  
concretos torna-se mais evidente quando se observam as trajetórias sociais das  
contempladas pelo programa e seus efeitos sobre a constituição de disposições17 para  
17 A análise das disposições sociais neste estudo baseia-se no conceito de habitus (Bourdieu, 2007), que permite  
compreender práticas sociais a partir das categorias de percepção e apreciação incorporadas pelos agentes. O  
habitus corresponde à matriz geradora de condutas que orienta os indivíduos diante de diferentes experiências.  
Como define Bourdieu, trata-se do “produto da história” que produz práticas individuais e coletivas conforme  
esquemas engendrados pela própria história, assegurando a presença ativa de experiências passadas incorporadas  
sob a forma de esquemas de percepção, pensamento e ação (Bourdieu, 2009, p. 90). Desse modo, o habitus  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
239  
interpretar o trabalho desprotegido, bem como o programa. A análise das experiências de  
Capitu, Iracema, Rosinha e Macabéa permite compreender como as promessas de  
autonomia econômica, inclusão produtiva e fortalecimento individual se articulam, na  
prática, com condições marcadas por instabilidade, precariedade e responsabilização  
individual. Ao examinar os efeitos de suas trajetórias de vida – em que as experiências de  
trabalho têm peso significativo – e percepções sobre empreendedorismo, é possível  
identificar as tensões entre autonomia e vulnerabilidade, bem como limites para as políticas  
de fomento ao empreendedorismo no enfrentamento de desigualdades.  
A trajetória de Capitu, por exemplo, revela a formação de disposições moldadas pela  
convivência com atividades informais e precárias desde a infância. Filha de um comerciante  
itinerante e de uma costureira autônoma, cresceu em um ambiente no qual o trabalho por conta  
própria ocupava lugar central na vida familiar. Frequentava o ateliê de costura de uma tia e  
ouvia relatos do pai que, segundo ela, “fazia de tudo um pouco na vida” para garantir a renda  
doméstica. Ainda criança, aprendeu a costurar, pintar panos de prato e realizar pequenos  
trabalhos manuais, internalizando disposições associadas à improvisação, criatividade e  
autonomia. Esse processo naturalizou o trabalho precoce e contribuiu para a incorporação de  
práticas voltadas à produção criativa e artística. Conforme relata, o pai a colocava “em todos os  
cursos possíveis de artes”, como teatro, dança, música, pintura e desenho. Assim, sua  
socialização primária articulou o estímulo à expressão artística à vivência cotidiana da  
informalidade.  
Ao longo da juventude, essas disposições foram reforçadas pela inserção precoce no  
mercado de trabalho e pela frustração decorrente da falta de apoio familiar ao investimento  
educacional18. Diante disso, realizou um curso técnico na área de moda e passou a trabalhar em  
empregos formais de baixa remuneração até a pandemia de 2020, quando foi demitida e  
encerrou seu ciclo como trabalhadora formalizada pelo regime da CLT. Após esse período, a  
combinação entre desemprego, necessidade financeira e o incentivo do então companheiro  
impulsionou o trabalho como ambulante. Com o tempo, conseguiu adquirir um ponto de vendas  
constitui uma ferramenta analítica fundamental para o estudo das trajetórias, ao permitir compreender como  
práticas e disposições se formam na relação entre histórias individuais ou coletivas e distintos espaços de  
socialização, como família, escola, religião e política.  
18 Embora tenha sido aprovada em cursos como antropologia, ciências sociais e design em instituições públicas de  
ensino superior, sem o apoio dos familiares, se viu obrigada a priorizar a obtenção de renda imediata através de  
empregos de baixa remuneração.  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
240  
próprio, dedicado ao funcionamento de um brechó e à produção autoral de bijuterias e  
acessórios.  
A relação de Capitu com a ideia do empreendedorismo está profundamente vinculada a  
disposições particulares, enraizadas em sua origem social. Tendo crescido em uma família de  
trabalhadores informais e autônomos, Capitu desenvolveu uma percepção do trabalho que  
associa criatividade, flexibilidade e reinvenção ao cotidiano laboral. Como afirma, trabalhar  
por conta própria e “fazer as minhas coisas é a coisa que eu mais acho massa”. Essa valorização  
da autonomia convive com a internalização da autorresponsabilização, pois ela organiza  
sozinha seu tempo, seus investimentos e sua proteção econômica, assumindo os riscos do  
empreendimento. Embora reconheça no empreendedorismo a possibilidade de gerir horários e  
evitar rotinas impostas, suas condições atuais de trabalho são marcadas pela intensificação das  
jornadas, multiplicidade de ocupações19 e pela desproteção social. Sua jornada, segundo relata,  
é “fulltime”, estendendo-se por grande parte do dia e da noite. Ainda assim, a renda gerada por  
seu empreendimento não garante sua subsistência. Sua renda mensal, entre R$ 1.600 e R$  
1.800, provém principalmente de trabalhos informais realizados para outras empresas que,  
segundo ela, “pagam minhas contas, é o que me dá comida, hoje”.  
Capitu reconhece que a liberdade associada ao empreendedorismo vem acompanhada  
da ausência de garantias sociais e da necessidade de disponibilidade constante. Ao afirmar que,  
quando adoece, “quebra as pernas”, evidencia que, sem direitos trabalhistas, “você não pode  
nem adoecer”, pois “se você não fizer o seu, não tem quem lhe assegure”. O discurso da  
autonomia convive, portanto, com a experiência concreta da vulnerabilidade, revelando a  
tensão entre idealização e realidade no trabalho por conta própria. Ainda assim, sua percepção  
sobre proteção social e trabalho formal é ambivalente.  
Capitu rejeita retornar ao regime da CLT porque não pretende “abandonar suas coisas”  
e considera que o emprego formal restringiria a gestão do próprio tempo. Por outro, admite  
sentir-se “totalmente desamparada” e reconhece que, ao envelhecer ou perder a capacidade de  
trabalhar, talvez precise de “um CLTzinho [...] pra poder ter uma segurança”. Tal reflexão é  
influenciada, por um lado, pela trajetória precária de seu pai que, apesar de ter atuado como  
MEI ao longo da vida, hoje enfrenta problemas de saúde sem proteção social efetiva. Por outro,  
decorre de sua própria experiência durante a pandemia. Segundo relata, conseguiu se manter  
19  
No momento da entrevista, ela conciliava quatro atividades diferentes, sendo elas: o brechó, a produção de  
acessórios, um trabalho como designer e a atuação em uma loja de personalizados.  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
241  
em 2020 graças ao seguro-desemprego e às verbas rescisórias do seu último emprego formal,  
bem como do auxílio emergencial concedido pelo governo federal, o que lhe permitiu evitar  
situações de vulnerabilidade extrema. Sua fala revela, assim, a consciência dos limites do  
empreendedorismo individual como estratégia de longo prazo, indicando a coexistência de  
expectativas e receios em relação ao futuro.  
No que diz respeito à sua relação com o Empreender-PB, Capitu tomou conhecimento  
do programa por meio de sua rede de contatos e decidiu solicitar o crédito após participar do  
Salão de Artesanato Paraibano (SAP)20. Anecessidade de investimento, o desejo de refinar mais  
suas produções e investir na preparação para o próximo SAP impulsionaram a busca pelo  
empréstimo. Capitu avalia que o curso de capacitação ofertado pelo programa ofereceu  
insights” sobre investimentos e capitalização. Também foi o único momento em que ouviu  
falar da importância do MEI como recurso burocrático para uma possível renovação de crédito  
e forma de proteção social. Em relação ao período posterior à concessão do crédito, destaca a  
ausência de acompanhamento, pois nenhum representante do programa entrou em contato para  
verificar a situação de seu empreendimento, o que evidencia limitações no monitoramento da  
aplicação dos recursos.  
Iracema, por sua vez, possui uma trajetória social marcada por experiências precoces de  
responsabilidade, trabalho e escolhas afetivas que moldaram disposições que perduram em sua  
vida adulta. Criada pelos avós maternos no distrito de Jacumã, ela vivenciou, ainda criança,  
situações que combinavam instabilidade econômica, ruptura familiar e necessidade de  
contribuir para a renda doméstica21. Ainda criança, começou a vender dindinhos, salgados e  
bombons na escola, prática inicialmente percebida por ela com vergonha, e mais tarde  
ressignificada como um marco fundamental, porque “foi o que me fez ser empreendedora”.  
Essa socialização primária, somada à centralidade da figura da avó como referência  
moral e laboral, consolidou em Iracema disposições orientadas ao esforço individual, à  
resiliência e ao senso de responsabilidade que remontam à infância. Atrelado a isso, desde  
jovem ela trabalhou em bicos informais, ocupações temporárias e empregos assalariados  
20 O Salão de Artesanato Paraibano é um evento bienal, realizado duas vezes por ano uma no município de João  
Pessoa, entre os meses de janeiro e fevereiro; outra no município de Campina Grande, entre junho e julho –  
promovido pelo Programa do Artesanato Paraibano (PAP). O objetivo do Salão é expor, valorizar e comercializar  
a rica produção artesanal do estado, como peças de bordado, renda renascença, madeira, cerâmica, algodão  
colorido, gastronomia regional e empreendimentos que se relacionam ao empreendedorismo criativo.  
21  
O divórcio dos seus avós, evento estruturante de sua infância, gerou aquilo que Iracema descreve como uma  
instabilidade financeira”, levando sua avó a desenvolver atividades informais e a inseri-la cedo no mundo do  
trabalho.  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
242  
instáveis, alternando entre funções como garçonete, cozinheira, vendedora e secretária. Essas  
experiências condicionaram a forma como Iracema naturalizou a experiência da precariedade e  
das múltiplas inserções laborais.  
O padrão de instabilidade estrutural, agravado por uma maternidade precoce, levou  
Iracema a conciliar trabalho, escola e cuidados parentais. Como relata, “eu trabalhava e  
estudava grávida [...] nunca fiquei sem trabalhar, a não ser por opção própria”. A naturalização  
dessas múltiplas atividades decorre não apenas da necessidade econômica, mas também da  
incorporação de uma ética familiar baseada no esforço contínuo e na ideia de que “é preciso  
correr atrás do seu”, recorrente em suas narrativas. A maternidade constitui elemento central  
nesse processo. Segundo ela, “uma das coisas maiores que me fez empreender foi estar o tempo  
todo do lado da minha filha”. A experiência de ter sido mãe, associada aos sentimentos de  
abandono na relação com a própria mãe, reforçou sua disposição de priorizar a presença na  
criação da filha. Nesse contexto, o empreendedorismo surge como estratégia para conciliar  
trabalho e maternidade, ainda que sob jornadas intensas e instabilidade de renda. Assim, a  
autonomia alcançada configura menos uma escolha voluntária e mais uma estratégia de cuidado  
ajustada às condições materiais e afetivas de sua trajetória.  
De modo simultâneo, a precariedade é reelaborada como estilo de vida e não como  
imposição estrutural, indicando um efeito profundo da trajetória social sobre sua percepção do  
trabalho. Ao afirmar que prefere “não ficar presa” e que “é isso que eu gosto, dessa liberdade!”,  
Iracema expressa uma visão do trabalho como espaço de mobilidade e autodeterminação, ainda  
que esse “ideal” esteja imerso em condições de instabilidade e ausência de direitos plenos, pois  
a formalização de Iracema se dá exclusivamente através do formato MEI. A renda oriunda da  
sua única atividade (uma doceria), diferentemente de Capitu, chega ao patamar médio de R$  
5.000, oscilando para R$ 3.000 em momentos de baixa demanda.  
A relação de Iracema com o Empreender-PB insere-se nesse contexto de busca por  
estabilidade relativa, expansão econômica e reconhecimento. Ela relata ter grande apreço pelo  
programa, afirmando que “O Empreender foi o maior incentivo que eu tive. Eu tinha o sonho,  
a coragem e a vontade, e o Empreender chegou com recurso e fez acontecer”. O crédito obtido  
foi fundamental para a aquisição de insumos, equipamentos e capital de giro, permitindo  
ampliar sua produção e estruturar melhor sua doceria. Para além do financiamento, o curso de  
capacitação a fez ter organização financeira e disciplina, pois “quem me deu norte foi o  
Empreender”. As feiras promovidas pelo programa, como a FENEMP e o Circuito Empreender,  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
243  
funcionaram como plataformas de divulgação, proporcionando visibilidade e clientela. Assim,  
o Empreender-PB atua, em sua experiência, como mecanismo de fortalecimento do negócio,  
ampliando sua capacidade produtiva e sua posição no circuito de comercialização.  
O acesso ao Empreender-PB e às ações a ele associadas produziu efeitos de mobilidade  
social ascendente para Iracema. Após a obtenção e aplicação dos recursos, ocorreram melhorias  
significativas em suas condições de vida, como a aquisição de carro e motocicleta, a  
possibilidade de matricular a filha em escola particular e o acesso a atividades de lazer, como  
viagens em família e cinema. Todavia, outras políticas sociais também desempenharam papel  
relevante nesse processo, especialmente a participação em um movimento de habitação, por  
meio do qual conquistou a casa própria. Essa conquista, associada ao apoio familiar, ao  
programa e ao acesso a feiras públicas, conformou uma rede de suporte que impactou  
positivamente sua autonomia econômica. Sua trajetória evidencia que políticas de inclusão  
produtiva e de moradia, combinadas a redes de apoio, são fundamentais para alcançar certo  
grau de estabilidade, dificilmente obtido apenas por meio do empreendedorismo de si.  
Rosinha apresenta uma incorporação ainda mais explícita das premissas neoliberais  
relacionadas ao empreendedorismo, como a liberdade pessoal, a autonomia e a flexibilidade.  
Sua socialização inicial ocorreu em um ambiente permeado pelo trabalho informal e pela  
rigidez da avó, com quem passou a maior parte da infância. Como narra: “eu tipo, pequenininha  
com uns cinco anos de idade, seis anos de idade, eu no meio da feira, vendendo as coisas junto  
com minha avó”. Atravessada por valores como disciplina, resiliência e responsabilidade  
precoce, desde cedo ela sentia a necessidade de autonomia econômica: “eu queria ter a liberdade  
financeira [...] de ter o meu próprio dinheiro”.  
Sua primeira e única experiência de trabalho formal durou 6 anos e foi como auxiliar de  
professora numa creche. Embora Rosinha se sentisse realizada, sobretudo pelo fato de “poder  
adquirir uma renda e bens materiais”, algumas questões de saúde, como crises de labirintite e  
síndrome do pânico, inviabilizaram a permanência no emprego. Essa ruptura forçada pelo corpo  
conduziu-a ao empreendedorismo, não por escolha plena, mas por necessidade de sobrevivência  
física e emocional. Com isso, passou a investir em um hobby iniciado aos 15 anos – a produção  
de lembrancinhas de aniversário – que, posteriormente, voltou-se à produção de souvenirs  
relacionados quase exclusivamente à cultura paraibana e nordestina, em colaboração com seu  
esposo. Ela própria reconhece o caráter pouco planejado da transição: “foi escolha dos outros e  
que a gente abraçou [...] o povo foi pedindo as coisas e a gente foi fazendo”. Sua relação com  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
244  
o empreendedorismo está profundamente articulada às disposições herdadas, sobretudo à ética  
do trabalho transmitida pela avó. Assim, ser empreendedora não emerge apenas como escolha  
profissional, mas como prática social coerente com sua trajetória.  
Sua entrada no programa Empreender-PB foi um marco decisivo no desenvolvimento  
do empreendimento. O crédito obtido viabilizou a compra de uma máquina térmica,  
impressoras e insumos, investimentos fundamentais para fortalecer a produção e atender às  
demandas de grandes eventos, como o SAP e a FENEMP. Quando questionada sobre os  
incentivos à proteção social pelo trabalho, afirmou que o programa só incentivava a  
formalização via MEI. Outras políticas sociais também desempenharam papel importante no  
curso de sua vida, como a educação pública, que lhe deu acesso a um curso técnico na área de  
gestão, e iniciativas governamentais de fomento à economia criativa, como o SAP,  
determinantes para sua visibilidade no mercado.  
A vinculação entre identidade e trabalho fortalece sua permanência no campo do  
empreendedorismo criativo, junto à “liberdade empreendedora” que, segundo ela, é central em  
sua vida: “eu acho que é o que eu não tive a minha vida inteira”. Entretanto, esse mesmo  
discurso de liberdade convive com a carga de responsabilização individual pela própria  
estabilidade financeira, evidenciando contradições entre a busca por autonomia e a  
precarização. Durante períodos de alta demanda, sua jornada de trabalho pode alcançar 12  
(doze) horas diárias. Assim como Iracema, o rendimento mensal de Rosinha também é variável  
e depende da sazonalidade do mercado. Em meses comuns, a renda familiar fica em torno de  
R$ 2.000 por mês, enquanto nos meses de alta demanda pode alcançar a cifra média de R$  
6.500. Desse modo, a história de Rosinha também exemplifica como a conformação de  
itinerários ocupacionais ao mesmo tempo que produz autonomia, reproduz desigualdades.  
No caso de Macabéa, sua trajetória social foi marcada por uma origem familiar simples,  
porém relativamente estável. Ela cresceu em um lar no qual o pai, militar da Marinha, e a mãe,  
dona de casa que, segundo ela, transmitiram valores como disciplina, honestidade e  
solidariedade. Ainda assim, a ausência de apoio material e de orientação profissional contribuiu  
para o desenvolvimento de uma autossuficiência precoce, levando-a a aprender a “se virar  
sozinha” em questões acadêmicas e laborais. Sua formação escolar foi marcada pela rigidez e  
pela obrigação de estudar, culminando na graduação em ciências contábeis. A trajetória laboral  
inicial foi composta por empregos formais, primeiro como datilógrafa e, posteriormente, como  
contadora em um escritório. Essa atividade lhe proporcionou estabilidade financeira, acesso a  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
245  
casa e carro próprios e boa qualidade de vida, mas também elevados níveis de estresse e  
insatisfação, o que a levou a buscar alternativas profissionais.  
Atualmente, Macabéa dedica-se exclusivamente ao empreendimento de bolsas  
sustentáveis, confeccionadas sobretudo com jeans reciclado. Sua rotina de trabalho pode  
ultrapassar 12 horas diárias em períodos de alta demanda, sem dias fixos de descanso. Essa  
sobrecarga tende a ser naturalizada, em razão da dificuldade de estabelecer uma separação clara  
entre vida pessoal e trabalho. Tal dinâmica relaciona-se à internalização precoce da  
responsabilidade individual, construída desde a infância, que contribuiu para que a intensa  
dedicação ao trabalho fosse incorporada como algo “normal”.  
Sua relação com o empreendedorismo e com a costura sustentável não se configurou  
apenas como estratégia econômica, mas também como forma de afirmação identitária e de  
crítica ao consumo descartável. No que se refere à proteção social, Macabéa demonstra  
consciência das fragilidades do empreendedorismo no longo prazo. Seu faturamento médio gira  
em torno de R$ 2.000 mensais, valor que não assegura independência financeira, pois grande  
parte é reinvestida no próprio negócio, enquanto a manutenção do domicílio permanece sob  
responsabilidade do marido. Além disso, sua condição física, marcada por dores nos ombros e  
no quadril, decorrentes das longas jornadas na máquina de costura, evidencia os impactos do  
trabalho manual sobre a saúde, sem garantias adequadas de proteção social. Sua trajetória de  
autossuficiência precoce favorece uma interpretação individualizada das dificuldades, levando-  
a a assumir como responsabilidade pessoal desafios estruturais, como a desvalorização de sua  
produção, a oscilação das vendas e a instabilidade da renda. Nesse contexto, a autonomia  
aparece mais como obrigação do que como escolha efetiva.  
A relação de Macabéa com o programa Empreender-PB também foi decisiva para o  
desenvolvimento do seu negócio. Assim como Capitu e Rosinha, ela também obteve os recursos  
ao participar do SAP. Investiu o crédito na compra de uma nova máquina de costura de  
qualidade, responsável pelo salto qualitativo e produtivo de sua atividade. Além do  
financiamento, o programa proporcionou acesso à feira do Circuito Empreender, ampliando sua  
visibilidade e oportunidades de comercialização. Macabéa aponta a necessidade de  
acompanhamento contínuo dos empreendimentos beneficiados, sobretudo para auxiliar na  
gestão financeira, aspecto em que ela relatou pouco apoio e que ainda enfrenta dificuldades, tal  
como falta de indicação de formas mais amplas de proteção além do MEI. Outras políticas  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
246  
também contribuíram para sua trajetória, como a participação em associações e outras feiras  
que lhe permitiram acesso a mercados e visibilidade.  
Sua rede de apoio é composta principalmente pelo marido, responsável pela subsistência  
familiar e pela manutenção da estrutura doméstica, além de contatos institucionais e pessoais  
que facilitam sua participação em eventos. Trata-se, contudo, de uma rede limitada, e a  
dependência financeira do cônjuge reforça uma condição de gênero que atravessa sua trajetória.  
Nesse contexto, o empreendedorismo, em vez de proporcionar autonomia econômica, mantém  
um arranjo tradicional de dependência conjugal. Os limites dessa trajetória tornaram-se  
evidentes durante a pandemia. Sem o apoio do marido, segundo relata, “tinha avançado na  
fome”, pois, embora tenha buscado adaptar-se às redes sociais como espaço de divulgação e  
comercialização, a renda obtida foi ínfima e, em alguns meses, inexistente. Sua visão de futuro  
é cautelosa e marcada pela incerteza: expressa expectativa de melhorar o negócio, mas  
reconhece que, sem estabilidade e sem direitos trabalhistas, sua permanência na atividade  
depende tanto de sua capacidade física quanto da renda do marido. De modo geral, o  
empreendedorismo não lhe proporcionou mobilidade ascendente; ao contrário, resultou em uma  
trajetória descendente, marcada pelo abandono de uma carreira estável e pela dependência  
financeira do cônjuge, o que relativiza a noção de autonomia difundida pela lógica  
empreendedora.  
Considerações Finais  
O programa Empreender-PB situa-se em um ponto de tensão característico das políticas  
públicas de trabalho influenciadas por premissas neoliberais. Ao mesmo tempo em que amplia  
o acesso ao crédito e oferece suporte mínimo a microempreendedores, opera sob uma lógica  
que desloca para as trabalhadoras a responsabilidade por sua inserção produtiva e naturaliza  
formas flexibilizadas e precárias de trabalho. Desse modo, evidencia-se uma tensão entre  
estratégias de inclusão e superação das desigualdades e o reforço de dinâmicas de precarização  
e responsabilização individual.  
Do ponto de vista institucional, observa-se que os gestores enfatizam atributos como  
autonomia, disciplina e capacidade individual para o desenvolvimento das atividades e para a  
obtenção de proteção por meio do trabalho. Essa orientação tende a ocultar e administrar as  
desigualdades estruturais que moldam as trajetórias do público contemplado, ao mesmo tempo  
em que minimiza o papel do Estado na promoção efetiva de garantias sociais. Nessa  
Empreendedorismo como estratégia de combate às desigualdades? dissonâncias  
entre o Programa Empreender-PB e a proteção social do trabalho  
247  
perspectiva, o estímulo à formalização exclusivamente por meio do MEI cria a aparência de  
inclusão produtiva segura, embora não assegure direitos trabalhistas equivalentes aos do  
emprego formal nem proteção plena diante de choques ou crises. Por outro lado, funciona como  
instrumento burocrático para o acesso a feiras e eventos, além de condicionante para a  
renovação do crédito. Em consonância com essa lógica, embora reconheçam as  
vulnerabilidades do público atendido, os gestores tendem a reforçar uma pedagogização do  
sujeito empreendedor, responsabilizando moralmente as contempladas por seus resultados e  
deslocando para elas os riscos inerentes ao mercado, ao relativizar o impacto de fatores como  
escolaridade, gênero, renda, redes de apoio, sazonalidade e mercados saturados.  
A análise das trajetórias de Capitu, Iracema, Rosinha e Macabéa reforça esse  
diagnóstico. Embora cada uma vivencie o empreendedorismo a partir de disposições e  
experiências distintas, suas histórias convergem ao revelar que o ingresso no autoemprego  
decorre, em grande medida, de processos de exclusão do trabalho formal de qualidade, de  
necessidades imediatas de renda, da maternidade e de expectativas de autonomia econômica  
tensionadas pela realidade de jornadas extensas, incerteza financeira e ausência de direitos  
trabalhistas e de proteção social no longo prazo. Em quase todos os casos, a formalização via  
MEI opera mais como requisito burocrático do que como mecanismo efetivo de proteção social.  
Ademais, a dependência de redes de apoio e de outras políticas, como a família, o Salão de  
Artesanato e feiras, indica que o empreendedorismo individual raramente se sustenta como  
estratégia capaz de garantir autonomia plena.  
Diante disso, observa-se que o Empreender-PB não se configura, em seu formato atual,  
como estratégia de inserção produtiva protegida, nem como instrumento robusto para a  
promoção da mobilidade social ascendente entre seus contemplados. Pelo contrário, apesar dos  
efeitos positivos no acesso ao crédito, a política tende a contribuir para a naturalização da  
precarização laboral e para a internalização, por parte das trabalhadoras, de valores que  
atribuem suas trajetórias e seu sucesso, ou eventual fracasso, a critérios meritocráticos e aos  
condicionantes do mercado. Desse modo, a análise indica que a compreensão dessas políticas  
exige problematizar as premissas neoliberais que orientam sua formulação e reconhecer que a  
inclusão produtiva baseada no ideário empreendedor não substitui o papel da proteção social  
na garantia de condições dignas de trabalho.  
RODRIGUES, R. L.; ROMBALDI, M.  
248  
Referências  
BNDES. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Histórico de atuação do BNDES no  
microcrédito. 2025. Disponível em: <https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/onde-  
atuamos/social/bndes-microcredito/historico-atuacao-bndes-microcredito?utm_source=chatgpt.com>.  
em: 5 dez. 2025.  
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BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007.  
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Recebido em: 18/3/2026  
Aceito em: 13/5/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 251 - 283  
ENTREVISTA COM ADALBERTO CARDOSO  
INTERVIEW WITH ADALBERTO CARDOSO  
____________________________________  
Cecilia Soares  
Alexander Englander  
Bruna da Penha  
Thiago Brandão  
Esta entrevista com Adalberto Cardoso, professor titular do Programa de Pós-Graduação  
em Sociologia do IESP/UERJ, é um dos resultados do projeto Trajetórias. Pensado e  
desenvolvido desde o início de 2024, o projeto tem como intuito um diálogo com percursos e  
obras do mundo do trabalho. Com o objetivo de debater a trajetória acadêmico-pessoal do  
professor, bem como os principais eixos de sua obra, foram realizadas entrevistas  
semiestruturadas em três ocasiões: 20 de fevereiro de 2024, 3 de maio de 2024 e 29 de janeiro  
de 2025. O material completo dessas entrevistas será publicado posteriormente em um livro,  
que também apresentará um balanço dos principais temas da obra de Cardoso: sindicatos,  
justiça do trabalho, mercado de trabalho, informalidade, classes médias, entre outros.  
Neste artigo, foram reunidas perguntas sobre a formação do professor como profissional  
e pesquisador da área de Ciências Sociais, desde a sua escolha pelo curso, até o período atual,  
Pós-doutoranda no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF).  
Pesquisadora no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET), do Programa de Pós-graduação em  
Sociologia do IESP/UERJ. E-mail: ceciliaebsoares@gmail.com.  
 Pós-doutorando em sociologia no INCT Trabalho, Inclusão e Equidade (IESP/UERJ). Pesquisador no Núcleo  
de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET) do Programa de Pós-graduação em Sociologia do IESP/UERJ, no  
Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria (GPDET/UFRJ) e no Núcleo de Estudos Regionais (NERE) da  
Universidade Regional do Cariri (URCA). E-mail: alexcoueng@gmail.com.  
 Professora adjunta da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professora  
do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana e do Programa de Pós-Graduação em  
Direito, ambos da UERJ. Pesquisadora no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET), do Programa de  
Pós-graduação em Sociologia do IESP/UERJ. Jovem Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). E-mail:  
  
Pesquisador no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (NUPET), do Programa de Pós-graduação em  
Sociologia do IESP/UERJ. E-mail: thiagobrandaoperes@gmail.com.  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
252  
passando pelos anos no Cebrap, a relação com temáticas-chave de suas pesquisas, e a atuação  
como professor de pós-graduação, no antigo IUPERJ e, atualmente, no IESP/UERJ. Além  
disso, discutiram-se as mudanças nas condições de trabalho dos cientistas sociais, ao longo das  
últimas décadas, e aspectos da internacionalização da carreira do entrevistado.  
Pergunta: Gostaríamos de começar com uma reflexão sobre o entrecruzamento da sua  
trajetória familiar e profissional. Você foi de Uberlândia para São Paulo; da USP para o Cebrap;  
da sociologia para as artes plásticas, passando e, inclusive, quase ficando no teatro; e de volta  
para a sociologia. Enfim, você foi também de São Paulo para o Rio de Janeiro. Gostaríamos de  
explorar alguns pontos desse seu percurso. Qual foi o papel de professoras e professores na sua  
formação e nas suas escolhas acadêmico-profissionais? Você poderia citar algumas das suas  
principais referências intelectuais nessa jornada, além das contribuições que você extraiu do  
contato com essas pessoas?  
Adalberto Cardoso: Queria, antes, começar por agradecer essa iniciativa que vocês tiveram,  
que me deixou muito tocado. Foi muito generoso da parte de vocês. Eu vou começar por  
Uberlândia. Não pela minha família, meu nascimento, essas coisas; eu vou direto falar da pessoa  
que eu considero um ponto de inflexão na minha adolescência. Foi uma professora de português  
que eu tive no Colégio Polivalente. A dona Maura de Freitas Rocha, que, hoje, é professora  
titular de linguística na Universidade Federal de Uberlândia, teve um papel fundamental na  
minha formação, e de uma turma de colegas que ela meio que adotou. Tentamos fazer trabalho  
de base em escolas da periferia de Uberlândia e coisas desse tipo. Por meio dela, cheguei à  
imprensa alternativa e nanica, lá no período da ditadura. Eu devo à Maura, sem dúvida, a eleição  
das ciências sociais. Foi uma escolha muito consciente. A Maura dizia: “Você vai sair de  
Uberlândia? Você tem que ir para São Paulo. Se você puder, vai para Nova Iorque. Você tem  
que ir para o melhor lugar. A melhor universidade e a cidade mais difícil, mais importante do  
país”. E eu fui para São Paulo em 1978, para fazer três meses de cursinho Equipe. Foi um lugar  
de grande ebulição para mim.  
Entrei na USP em 1979. Tirei nove na redação. Entrei lá nas cabeças. Fiquei muito  
contente com isso e fui muito bem acolhido pela USP, por um lado, e por São Paulo, por outro.  
O primeiro curso que eu fiz foi Antropologia I. A professora era a Aracy Lopes da Silva, e ela  
estava convocando estudantes que quisessem colaborar com ela na Comissão Pró-Índio, que  
ela, a Manuela Carneiro da Cunha e outros/as antropólogos/as estavam criando. Eu entrei nessa  
turma e me vi fazendo um monte de atividades. Achei que ia ser antropólogo, porque eu gostava  
253  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
muitíssimo do que se fazia ali. Já se falava no genocídio Ianomâmi pelos militares. Havia muitas  
denúncias. Em 1979, saiu o filme Mato eles? E houve também o filme do Zelito Viana. A  
Comissão Pró-Índio foi decisiva em publicizar esses filmes lá na PUC-SP. Enfim: muitas  
atividades e denúncia pesada, ainda em um momento em que a ditadura era a ditadura, né?  
Então essa foi um pouco a minha entrada, já de cara, sobretudo pela mão da Aracy. Mas a  
universidade é um lugar que abre portas, né? É um lugar de oportunidade, em que você tem que  
estar aberto. E eu estava buscando as coisas.  
Entrei na universidade com dezessete anos, fui fazer dezoito no primeiro ano da  
faculdade, e eu estava aberto a tudo. No primeiro semestre do segundo ano, eu fui fazer um  
curso de metodologia, com o Reginaldo Prandi. Quantitativista. Um grande professor. E ele  
logo foi convocando a gente para trabalhar com ele e para ele, fazendo pesquisas. Então, no  
terceiro semestre, eu estava fazendo pesquisa de campo, entrevistando médico, para a pesquisa  
dele sobre classes médias. Saiu um livrinho depois, que se chamou Os favoritos degradados.  
Uma parte das entrevistas com os médicos fui eu que escrevi. Ele aceitou a redação e incluiu  
no livro. Ele era esse tipo de pessoa, dava esse tipo de oportunidade. Fizemos, nesse mesmo  
curso de metodologia, umas entrevistas com estudantes de ciências sociais. Foi o primeiro  
survey, na vida, que a gente fez do começo ao fim: “Vamos desenhar o questionário”, “Vocês  
aplicam o questionário”, “Vamos para casa e tem que tabular o questionário”, “E vamos ler o  
questionário usando o Fortran. Vou ensinar vocês a usar o Fortran”. Em um único semestre. Foi  
incrível.  
O Reginaldo me ganhou por essa coisa da pesquisa empírica em um mundo urbano. Ele  
foi fundamental. Trabalhei com ele durante muitos anos. Ele conseguiu uma bolsa de iniciação  
científica para mim. Eu tinha intenção de trabalhar com sociologia da família. Tinha saído um  
livro da Elisabete Dória Bilac, Famílias operárias, estratégias de sobrevivência, assim,  
extraordinário. O Reginaldo tinha acabado de publicar um livro sobre o trabalhador por conta  
própria. Então, ele tinha essa preocupação também. Ali foi o primeiro contato meu com os  
estudos do trabalho, mas no âmbito da família. Famílias operárias. Eu propunha entrevistas.  
Fazer pesquisa de campo em fábrica. Não consegui fazer nada disso, porque eu me meti em um  
monte de atividades. Estudava o tempo todo.  
Aí eu fiz um estudo com base no livro do Luís Flávio Rainho, que deu muito o que falar,  
porque ele transcreveu pura e simplesmente, literalmente, uma centena de entrevistas que ele  
fez com operários, sem fazer nenhuma intervenção. Sem fazer análise, nem nada. Eu peguei  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
254  
aquilo e falei: “Bem. Eu não fiz entrevista, mas ele fez cem”. Então, trabalhei em cima dessas  
entrevistas, né [risos]? O meu trabalho final de IC foi isso. Foi super bem aceito. O Reginaldo  
gostou. Falou: “Você tem que publicar essa coisa”. Enfim, não publiquei.  
Uma pessoa que eu não mencionei no memorial, nem em nenhuma conversa, é a  
Suzanna Sochaczewski. Era técnica do DIEESE. Entrou no mesmo ano que eu, nas ciências  
sociais. Ela devia ter... talvez, quarenta anos? A Suzanna abriu muita porta para mim em São  
Paulo. Ela foi minha madrinha na entrada na cidade, aquela metrópole exuberante. Sempre dava  
dicas de coisas para fazer, coisas para ler, lugares para ir. Teatro, cinema, enfim: foi super  
mãezona, me adotou mesmo [risos]. Foi muito legal.  
Outra figura importantíssima, embora sem uma relação pessoal, foi o José de Souza  
Martins. Fiz dois cursos optativos com ele. Um de sociologia rural, que ele deu esse nome para  
mostrar que era crítico à noção de “sociologia rural”. Porque principalmente, para ele, o que  
existia era uma sociologia agrária. A gente leu todo o marxismo sobre o mundo agrário, do  
próprio Marx até o Kautsky, o Lenin. E depois um curso sobre sociologia da vida cotidiana, em  
que ele juntava também uma herança marxista, mas com muita filosofia. Lefebvre. Agnes  
Heller. Então, dialogava com a filosofia marxista, mas também com o marxismo muito estrito  
da sociologia agrária, e que foi muito importante na minha formação. O melhor Marx que eu li,  
eu li com o Martins, porque ele conhecia tudo, tudo do Marx. Depois ele renegou, como vários  
marxistas renegaram. Mas ele era um professor muito exigente. Muito rigoroso na correção dos  
textos, nos conceitos. Ele foi muito importante nesse sentido. Tentava tirar o máximo dos seus  
alunos, e de quem se dispunha a entrar no jogo dele, ele de fato tirava.  
Outro professor muito importante foi o José Carlos Bruni, que estava ali na fronteira  
entre a sociologia e a filosofia. E, de fato, ele foi para a filosofia depois. Eu fiz Sociologia III  
com ele, que era Marx. E o Marx dele era muito mais amplo, porque era Marx e as suas  
influências. Quem Marx leu, né? Como Marx leu a economia, a economia política. Como Marx  
leu Hegel. E depois, como alguns marxistas trabalharam as ideias do Marx. Ele adorava o  
Lukács. Foi muito importante e revelador para mim, porque foi uma forma de ver o Marx muito  
diferente da do Martins.  
Por fim, o Brasilio, que seria o meu orientador no mestrado e depois no doutorado. Eu  
o conheci fazendo curso sobre transição do trabalho livre e construção da sociedade do café em  
São Paulo. Ele tinha uma coisa mais ensaística, e a gente leu vários autores, viajantes, cronistas  
do século XIX em São Paulo. Lendo os cronistas, eu me apaixonei pela formação da cidade de  
255  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
São Paulo, e não necessariamente do mercado de trabalho. O meu projeto de mestrado era, a  
partir das crônicas e dos viajantes, estudar o início, a formação do núcleo urbano, e, depois, da  
cidade de São Paulo. Era um projeto de sociologia urbana, né? Que não foi para frente...  
Reginaldo não gostou: “Você não ia estudar família? Vai estudar São Paulo?”. É. É a vida, essa  
coisa de estar aberto para as coisas, né?  
Eu me apaixonei pelo tema. Entrei no mestrado. Prestei o concurso. Passei. Ganhei a  
bolsa. Na USP, você não tinha obrigação de fazer curso nenhum, na verdade, no mestrado. O  
mestrado, como o doutorado, era pesquisa. Você tinha que atender às demandas do seu  
orientador. O Brasilio nunca me forçou a assistir a curso nenhum. E eu tinha feito uma boa  
base. Então, fui fazer curso de arte na ECA, de desenho, com o Carlos Fajardo [risos]. Comecei  
a fazer um de cinema, mas não foi adiante. Era caro. Mas esse curso de desenho de observação,  
do Fajardo, me levou ao Sergio Fingermann, um artista que estava começando, e precisava de  
alunos para poder manter o seu ateliê.  
Entrei no mestrado com o projeto sobre São Paulo, e fui fazer arte. Fui para o ateliê do  
Fingermann, aprender a fazer gravura. Eu não podia pagar. Propus para ele: “Vou ser seu  
assistente. Preparo as suas chapas. Limpo o ateliê depois das aulas. Fico aqui e te ajudo nas  
coisas que você precisar”. Então, troquei trabalho braçal para assistir às aulas dele. E assim foi.  
Fiquei no Sergio até o final de 1984, fazendo gravura em metal, que era a grande coisa dele,  
desenhando, pintando. O Brasilio, coitado, deu essa oportunidade de me aceitar no mestrado  
[risos], e, paralelamente a isso, o Reginaldo me chamou para trabalhar no Cebrap. Então, eu  
estava de assistente de pesquisa no Cebrap, fazendo os cursos de arte, entrei no ateliê do  
Fingermann, não fiz nenhum curso nas ciências sociais, e sumi. Desapareci.  
Mas, enquanto isso, eu estava no Cebrap. Puxado pelo Reginaldo. A gente fez um  
trabalho sobre educação e produtividade no meio rural. Eu viajei muito pelo Brasil. Ficamos  
cinco semanas em Irecê, na Bahia. Tinha cinco anos que não chovia. Era um ambiente  
calcinado. Como eu ficava a maior parte do tempo sem fazer nada, comecei a pintar. Levei  
aquarela. Enquanto fazia as entrevistas, tinha essa atividade paralela. E depois, em cima dos  
desenhos, eu fiz uma série imensa: foi a primeira exposição que fiz, em 1987, lá em São Paulo.  
A primeira individual. Tudo com origem em Irecê, nessa experiência. Então, as coisas andaram  
juntas, muitas vezes.  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
256  
Figure 1 - Catálogo da exposição. São Paulo, agosto de 1987. Acervo de Adalberto Cardoso.  
Mas o Reginaldo, em 1985, saiu do Cebrap. Aí o Vinícius Caldeira Brant estava  
precisando de um assistente para uma pesquisa que estava começando. Ele tinha participado do  
projeto de educação e produtividade no meio rural, mas estava indo para uma pesquisa sobre a  
greve dos petroleiros de Paulínia de 1983. Ele já trabalhava com o Álvaro Comin, que seria  
meu parceiro por muitos anos no Cebrap. Eles tinham trabalhado com metalúrgicos em São  
Paulo, com o pessoal da CUT. Aí eu falei: “Bem, claro que eu vou, né?”. O mundo do trabalho  
tinha sumido do meu horizonte, e fui puxado de volta para ele pelo Vinícius. E essa experiência  
foi formadora, foi uma pesquisa muito, muito interessante.  
Foi uma intervenção sociológica com método do Touraine, junto a um sindicato, que,  
normalmente, no método, não é pensado como um movimento social. E, de fato, aconteceu uma  
coisa impressionante. Ninguém tinha lido Marx, mas eram todos marxistas, todos  
revolucionários. “A gente tem que agir, porque é na ação que você… cria consciência de  
classe”, “você tem que ter um inimigo”. Toda a coisa do enjeu, do que está em disputa, quem é  
o seu inimigo, como é que vocês constroem essas identidades em disputa. E o inimigo era a  
direção da Petrobras. Na época da greve, o Shigeaki Ueki, essa figura lendária, que quis vender  
a Petrobras de tudo quanto é jeito. Dessa pesquisa, saiu a minha dissertação de mestrado. Já não  
era mais a intervenção sociológica, porque eu usei as entrevistas de uma forma mais tradicional.  
Sem referência ao Touraine.  
257  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
No meio do caminho, o Guillermo O’Donnell tinha voltado para o Cebrap. A partir da  
minha experiência com o Vinícius, ele me chamou para fazer um dos estudos que tinha na  
cabeça, sobre o então assim chamado “sindicalismo de resultados”, que tinha surgido lá em  
1986, 1987, com muito estardalhaço, na cena brasileira. Todo mundo queria estudar CUT, o  
novo sindicalismo. “Ninguém olha para a direita? Tem que olhar para a direita!” – o O’Donnell  
falava. E aí fui estudar o sindicalismo de resultados. Foi formador de outro jeito. O’Donnell  
não era um marxista. Era um cara super erudito. Naquele momento, a grande moda era a teoria  
da escolha racional. O O’Donnell lia, e era muito crítico daquilo, sobretudo o Olson.  
O carona era um problema teórico e prático. E se torna um problema político em  
muitas situações. E ele insistia nisso, dizia: “Essa ideia de que o indivíduo é um ser interessado,  
maximizador de utilidade, exclusivamente no ponto de vista individual, não tem sustentação na  
vida”. A vida tem muitos momentos de solidariedade. Em muitas situações, você leva em  
consideração os outros, os coletivos, nem que seja só a família. Esse individualismo  
metodológico não é sociologicamente sustentável, e nem politicamente sustentável. Então, ele  
tinha uma crítica profunda a isso, para mostrar que o individualismo metodológico, em si,  
embora pudesse servir de instrumento heurístico para fazer perguntas sobre o mundo, não podia  
ser instrumento de explicação do mundo. E eu usei muito isso na minha dissertação de  
mestrado: Petroleiros de Paulínia: participação, consciência e identidade. O título da  
dissertação saiu de um discurso deles; eles tinham uma clareza muito grande de que se moviam  
não por qualquer racionalidade de tipo individual, mas por um sentimento de pertença a um  
coletivo, pelo qual valia a pena até morrer. E esse coletivo não era só o grupo próximo aos  
trabalhadores, mas a própria Petrobras.  
A dissertação serviu para criticar tanto o Touraine quanto a escolha racional tal como  
lida pelo O’Donnell. E o meu doutorado, sobre o estudo do sindicalismo pragmático, acabou  
fugindo dessas duas grandes forças da minha formação no Cebrap embora a construção do  
projeto, do problema, tenha sido proposta pelo O’Donnell. Ele colocava: “Quais são as  
virtualidades democráticas de uma ação sindical como essa, num momento em que você está  
construindo a democracia? Como é que o pragmatismo sindical, desse tipo corrupto,  
individualista, moderno, contribui ou não para consolidar a democracia? Que tipo de instituição  
sai daí?”. Ele fez esses questionamentos, cuja resposta eu fui buscar. Na verdade, a tese procura  
fazer isso, mas não nesses termos, e sim nos termos da construção virtuosa de instituições. O  
discurso da “modernidade”, do “mercado”, tudo entre aspas… “Modernidade”. “Mercado”.  
“Individualismo”. Essa ideia da construção pragmática do interesse dos trabalhadores. Nada de  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
258  
identidade. Nada desse negócio de consciência de classe, “é uma bobagem”. Até que ponto isso  
é capaz de furar o cerco da construção oligárquica ainda muito presente, muito consolidada na  
dinâmica do poder no Brasil? Como um discurso como esse era capaz de romper a indiferença  
moral das elites brasileiras em relação aos interesses da maioria? Das maiorias?  
Embora talvez também estivesse respondendo às perguntas do O’Donnell, eu estava  
olhando para isso. E é a isso que eu vou responder no meu doutorado. Estava, ainda, na chave  
que ele estava propondo, mas dando um passo além. Porque isso foi o que eu fui perseguir  
depois: até que ponto o trabalho organizado, o movimento sindical, na sua intervenção, na sua  
interferência e na sua ação coletiva, pública, era ou não capaz de permeabilizar o sistema  
político, e mudar as estruturas do Estado brasileiro, para incorporar, de maneira não  
subordinada, os interesses dos trabalhadores. Isso foi o mais importante.  
Depois veio a Nadya Guimarães (que então era Castro), a convite do Chico de Oliveira.  
Ela era professora da Federal da Bahia, ficou seis meses no Cebrap como visitante em 1993, se  
aposentou na Bahia e voltou definitivamente para São Paulo, em 1995, para assumir a equipe  
do Cebrap. Com Nadya, começamos outros projetos, outras ideias. Reestruturação produtiva.  
Reestruturação industrial. A Nadya era uma pesquisadora de processo de trabalho. Tinha feito  
estudos na petroquímica da Bahia. O interesse dela estava voltado muito para isso. Muitos temas  
novos apareceram. Eu entrei em um projeto internacional sobre reestruturação industrial na  
América Latina, para estudar indústria têxtil, automobilística, petroquímica e outras, a partir do  
contato que eu tive no Primeiro Congresso Latino-Americano de Sociologia do Trabalho, no  
México. E dois alemães estavam procurando pesquisadores no Brasil, na Colômbia e no  
México, para tocar esse projeto comparativo… estudos empíricos nas empresas, para ver o  
impacto da globalização na reestruturação industrial. Esses segmentos estavam sendo mais  
afetados por causa da China, de um lado, e do Japão, do outro. A China na indústria têxtil e o  
Japão na indústria automobilística, e a coisa toda da indústria petroquímica. A partir daí, eu abri  
as portas da América Latina.  
Ali começou o processo real de internacionalização da minha trajetória. Eu fiquei muito  
amigo do pessoal do México, da Colômbia, da Venezuela, da Argentina. E a gente começou a  
se frequentar muitas vezes, em muitos congressos internacionais. Na ALAST, na ALAS, na  
ISA. Acabamos consolidando um grupo que produziu muita coisa junto a partir desse primeiro  
passo, e com o beneplácito dessa dupla de alemães: o Rainer Dombois, que já morreu, e o  
Ludger Pries, que morava no México. Esse processo de aprendizado também foi muito  
importante, porque o Ludger era extremamente rigoroso em termos teórico-metodológicos. Ele  
259  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
tinha uma preferência muito clara pelos teóricos alemães. Ulrich Beck. Em parte, o Habermas.  
Detestava o Bourdieu. Tinha uma crítica muito, muito séria à sociologia latino-americana de  
modo geral. Acho que tem a ver com uma certa postura de uma parte imensa da comunidade  
científica europeia em relação a nós. Ao terceiro mundo, à América Latina.  
O projeto levou três anos. Demorou muito até que a coisa ficasse aceitável. Ficamos  
amigos. A gente passou a se encontrar em outras ocasiões, a gente se entendeu, mas de início  
foi bastante complicado. Essa pesquisa foi muito importante, porque, de novo, eu estava  
voltando, mas para entrevistar níveis hierárquicos distintos na fábrica. Coisa que eu nunca tinha  
feito. Só tinha falado com trabalhadores e lideranças sindicais. Me vi falando com gerência,  
com o presidente da Volkswagen no Brasil.  
Essa pesquisa abriu as portas da América Latina para mim, e depois do mundo, porque  
eu fui para a Alemanha. Viajei bastante em função dela, e foi essa pesquisa que me abriu os  
olhos para o problema do desemprego, e para o problema das trajetórias ocupacionais, que me  
ocuparia por seis, sete anos daí para frente. Devo isso à Nadya também. Nós trabalhamos juntos,  
no início, sobre esse tema. Depois eu saí do Cebrap para vir para cá, para a UFRJ, e continuei  
com esse tema aqui no IESP (então IUPERJ). Então, isso encerra a minha trajetória no Cebrap,  
que foi formadora. Eu trabalhei quinze anos no Cebrap; foi um período de formação.  
Figure 2 - Correspondência pessoal. Acervo de Adalberto  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
260  
Pergunta: Como você avalia e compara os desafios do processo de formação de um  
pesquisador no início da sua trajetória acadêmica e nos dias de hoje?  
Adalberto Cardoso: Eu vejo algumas diferenças. Por isso que eu acabei de narrar, nunca tive  
contato de fato com graduação, exceto a minha própria. Então, eu posso falar da formação da  
pós-graduação, que é onde eu sempre atuei. Nesse âmbito, acho que as diferenças são imensas.  
A primeira delas é o acesso à literatura. Quando eu estava fazendo a pós-graduação, se eu  
quisesse ler artigos de revistas estrangeiras, a USP tinha uma coleção bastante ampla, mas nada  
comparável às universidades de fora, sobretudo nos Estados Unidos. As francesas não tinham  
acervo semelhante. As alemãs não tinham acervo semelhante. Se você queria pesquisar sério,  
você tinha que sair do Brasil por um período. Hoje, você acha tudo na internet. Todo o Weber.  
Todo o Weber. Tem em alemão, em francês, em italiano, em inglês, etc. O Schluchter está todo  
na internet. Inclusive em português. As revistas estão todas. Você entra no JSTOR, dá uma  
busca. Qualquer artigo. Isso é uma diferença brutal. Hoje em dia, não há a possibilidade de  
você dizer “Não achei”. “Não achei tal coisa”. Tal livro. Tal artigo. Não tem isso. É porque não  
procurou direito. Ou não procurou de jeito nenhum. Antigamente, a gente tinha essa desculpa:  
“Não tive acesso”. “É que não tem na biblioteca da USP”. “Ah, mas você foi na biblioteca da  
Unicamp?”. “Não fui”. “Tenta lá. Quem sabe tem lá”. Mas tinha desculpa.  
Outra coisa: hoje, você pode definir temas de pesquisa, objetos de pesquisa, problemas  
de pesquisa, pode falar coisas relevantes sobre o que está acontecendo no mundo só com as  
fontes às quais você tem acesso via internet. Não é porque a internet é uma boa fonte. Não; é  
porque tudo está na internet. Você entra na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, tem os jornais  
de meados do século XIX até hoje. Todos lá, digitalizados. Você entra no arquivo da Folha de  
São Paulo, do Estadão, d’O Globo. Está tudo lá. Desde o início. O CPDOC digitalizou a maioria  
dos seus grandes arquivos. Você tinha que passar o dia inteiro no CPDOC abrindo aquela  
papelada. Os fungos afetavam, né? Isso acabou. Não para todos. Certos arquivos continuam  
fechados. Por exemplo, para falar do Brasil colonial, você tem que ir a Portugal, ainda. Tem  
parte das coisas lá. Mas todas as instituições, as organizações, os sindicatos, os partidos  
políticos, uns mais, outros menos, têm lá os seus arquivos também disponíveis na internet.  
Então, é uma mudança importante, que tem a ver com a tecnologia.  
Outra mudança fundamental, e que eu já mencionei, é referente à coisa do tempo. Você  
não ter a injunção do tempo, a restrição do tempo para você construir o seu problema de  
pesquisa, para você se dedicar à sua pesquisa, foi, para o bem e para o mal, muito importante.  
261  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
Isso, hoje, é impossível. Os historiadores têm que definir temas cada vez mais miudinhos, para  
poderem se dedicar bem a um período muito curtinho, e no prazo de quatro anos que você tem.  
Porque, se você não publica... Publish or perish, né? A restrição do tempo fez um mal imenso  
para a ciência. Para a ciência social em particular. Nem todo mundo tem essa capacidade de  
produzir coisas de qualidade, bem pensadas, bem articuladas com literatura existente, em pouco  
espaço de tempo, então as pessoas são mais angustiadas hoje do que eram. Eu pude fazer arte.  
Eu pude tentar o teatro. Pude ser artista profissional. Vivi de artes plásticas por cinco anos. Era  
outra coisa, essa possibilidade de multiplicidades de experiências enquanto você está fazendo  
o mestrado, o seu doutorado.  
Outra coisa que eu acho que distingue é o acesso a recursos. As ciências humanas e  
sociais sofrem, no mundo inteiro, um bombardeio neoliberal, que restringiu os recursos de  
pesquisa em todas as agências. No Brasil não é diferente. A gente passou muito a pão e água,  
nos últimos tempos, e não era assim nos anos 1980. Não era assim nos anos 1970. Os militares  
deram muito dinheiro para as ciências sociais via a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).  
A FINEP sustentou o IUPERJ e o Cebrap, junto com a Fundação Ford, durante toda a década  
de 1970. Deu milhões de dólares nos anos 1970 e 1980. Dinheiro dos militares. Essas  
ambiguidades: os caras cassaram todo mundo nas universidades e ajudaram a financiar os  
centros de pesquisa que acolheram as pessoas que foram cassadas. O Fernando Henrique foi  
cassado na USP e fundou o Cebrap, e o Cebrap ganhou dinheiro da FINEP por dez, doze anos.  
Dinheiro dos militares para ciência e tecnologia.  
Já tem muita coisa escrita sobre isso, e não vou entrar nessa seara, mas nós tínhamos  
muito recurso de pesquisa nas ciências humanas, porque havia, no poder público, de modo  
geral, na administração pública, entre as elites políticas brasileiras, e também econômicas,  
embora menos, a ideia de que era possível buscar respostas para os problemas da nação por  
meio de uma ciência social empiricamente bem-feita, embasada e teoricamente sustentada.  
Muita gente acreditava nisso piamente. Celso Furtado era luminar para uma elite que achava  
que sim, era possível intervir a partir do conhecimento racional, científico sobre a sociedade. E  
financiava. Como você enfrenta a desigualdade? Tem que fazer estudo sobre desigualdade.  
Como você enfrenta a pobreza? Tem que fazer estudo sobre pobreza. E não são os economistas  
que dão a resposta para isso, são os cientistas sociais.  
Havia núcleos de estudo: essa é uma outra coisa que distingue, né? A universidade em  
si mesma, com exceção de algumas grandes, USP, Unicamp, não era o lugar da pesquisa em  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
262  
ciências humanas. O lugar eram os centros de pesquisa, que abrigavam boa parte das pessoas  
que tinham sido expulsas da universidade pela ditadura, mas também gente que tinha  
sobrevivido na universidade, que era pesquisador desses centros. Então, a pesquisa era feita  
fora, em uma dinâmica de grupos de pesquisa. Uma coisa que só foi se consolidar muito depois  
na universidade, muito por exigência do CNPq. Isso não era comum nas ciências humanas,  
exceto nos laboratórios. Hoje, todo mundo que entra aqui no IESP/UERJ, entra em um núcleo,  
dois, três. É assim que as coisas se organizam. Esse era um diferencial da formação. E, só para  
terminar, há muitas outras diferenças, mas a bolsa, hoje, é tão pequena que obriga as pessoas a  
trabalhar. A gente tinha mais tempo para se dedicar aos estudos e à pesquisa. A bolsa era  
suficiente para me manter em São Paulo. Eu trabalhava no Cebrap, mas o salário era simbólico.  
Essas são as principais distinções.  
Pergunta: Em vários momentos da sua trajetória profissional e acadêmica, você fez convergir  
variados interesses de pesquisa, passando por etnologia indígena, métodos quantitativos e por  
aí vai. Como essa convergência de interesses muito plurais e muito diversos influenciou, e  
influencia, ainda hoje, a sua produção, a sua formulação teórica? Como você considera e  
visualiza esse papel da contingência na sua trajetória profissional?  
Adalberto Cardoso: Eu me considero afortunado por ter tido acesso a essas oportunidades de  
aprender novas metodologias, e ser obrigado a enfrentar certos temas, que eu não enfrentaria se  
fosse por motu proprio. Não cheguei a fazer etnologia, mas eu considero a forma como eu  
trabalhei o discurso do Luís Flávio Rainho, no relatório final da pesquisa de iniciação científica,  
uma análise de discurso à la antropologia. O estruturalismo lévi-straussiano, que eu li com  
bastante cuidado e interesse. Isso foi uma busca minha. É fundamental você dominar o método.  
Mas o método não pode ser um fetiche. Se você não domina os métodos disponíveis,  
qualitativos, quantitativos, você não sabe que pergunta você pode fazer. Você tem que estar  
aberto à possibilidade de fazer perguntas que você não vai ser capaz de responder com os  
métodos que você domina. Para você ser, justamente, obrigado, e a gente é obrigado o tempo  
inteiro, a buscar métodos novos, para responder àquelas perguntas.  
Aquela história do Marx, de que nenhuma época faz perguntas que não pode responder,  
não vale para a ciência. A ciência tem que fazer perguntas que não pode ainda responder, senão  
não avança. Então, o domínio dos métodos é necessário para você dar respostas rigorosas às  
suas perguntas, mas é preciso que isso tenha flexibilidade para abertura ao novo. Um dos  
problemas da diferença em relação à prática formadora de antes é que, hoje, a frouxidão em  
263  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
relação ao rigor científico está na fronteira do inaceitável. Isso não só no Brasil, mas no Brasil,  
em particular, fez com que a ciência social tenha perdido, em parte, a sua significância ou a sua  
importância no debate público. Não é só por causa do neoliberalismo, do combate às ciências  
humanas no mundo inteiro. Teve esse desleixo metodológico na construção dos problemas. Na  
escolha de métodos. Na escolha de evidência empírica.  
Acho essa uma mazela crescente e inevitável por várias razões, e uma delas, embora não  
a principal, tem a ver com os prazos. Você tem que produzir muito rápido o tempo todo, né? O  
desleixo tem a ver um pouco com isso. Dominar o máximo possível, porque ninguém domina  
tudo, mas o máximo possível de possibilidades de análises quantitativas sobre um fenômeno  
social qualquer, e das possibilidades abertas de análise qualitativa do mesmo fenômeno, e você  
olhá-lo de várias formas e maneiras possíveis, dentro daquilo que você domina, te permite mais  
do que quando não se usa essa multiplicidade. Te permite dizer coisas mais plausíveis sobre  
aquilo que está ali. Essa é a diferença. Tem que convencer o leitor. Você pode achar diferente.  
Mas, então, me mostra diferente; eu estou aberto às várias possíveis interpretações disso, mas  
essa que eu estou te oferecendo, no momento, é que a mim parece ser a mais, ou, pelo menos,  
muito plausível. Não é a verdade, mas… Quer disputar? Traga uma coisa diferente e vamos  
conversar. É assim que se avança nas ciências sociais. O método é para você fazer perguntas  
direito. Mas insisto na coisa do fetiche, porque grande parte das ciências sociais que se faz,  
achando que está se fazendo ciência dura, tem a ver com esse fetichismo do método. Esse é o  
outro lado.  
Pergunta: Você tem, de cabeça, o valor do salário do Cebrap?  
Adalberto Cardoso: É impossível. Eu entrei no Cebrap em 1983 e saí em 1996. Em 1989, o  
Brasil teve mil e duzentos por cento de inflação. O dinheiro que eu recebia entrava em uma  
conta do Banco do Brasil, que tinha remuneração diária. Overnight. A remuneração  
acompanhava a inflação. E alimentava a inflação. Então, a gente não tinha noção de preço. Não  
tinha parâmetro. A única coisa que eu sei é que eu vivia uma vida muito espartana. Meu amigo  
Edu (Eduardo Furia César) também era artista plástico e fazia ciências sociais… A gente  
decidiu parar de fumar. E eu fumava um maço de cigarro por dia. Hollywood. “Vamos parar de  
fumar?”. “Vamos. A gente faz junto. A gente consegue”. Parei de fumar. No final do mês, eu  
fui ao Bexiga comer um macarrão com vinho, de tanto dinheiro que sobrou do cigarro que eu  
não fumei.  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
264  
Morei em república, sempre dividindo, mesmo trabalhando no Cebrap. Eu me lembro  
da bolsa ser duas vezes o salário do Cebrap. Eu sei que era muito pouco dinheiro [risos]. Às  
vezes eu saía para comer uma massa no Bexiga, mas eu fazia comida em casa. As grandes  
coisas que eu fazia em São Paulo, que aí eu fazia mesmo, juntava dinheiro para fazer: às vezes  
ficava sem comer para comprar disco. Por um disco do Bartók, o primeiro grande importado  
que eu comprei, fiquei dois dias sem almoçar. Tinha o Festival de Jazz do MASP. Eu não perdia.  
Era caríssimo. Mas eu juntava dinheiro, ficava sem fazer coisa para ir. E o Festival de Cinema  
do MASP, que ocorria em vários lugares e era a semana inteira. Eu ficava de nove da manhã a  
nove da noite dentro do cinema [risos]. Assistia a tudo. Comprava o passe para a semana toda.  
Isso também eu não perdia. Depois de 1987, eu comecei a ganhar dinheiro com arte e pintura.  
Aí a vida mudou. Mas até ali, meu amigo, era duro.  
Pergunta: Pegando um gancho, essa mesma arte tem um papel muito significativo na sua  
trajetória inclusive, você trabalhou como artista plástico por um período considerável. E, além  
disso, em uma rede social, você ainda teve como foto de perfil, por um bom tempo, a litografia  
Desenhando mãos, do Escher. Essa obra remete a dois sujeitos compondo um ao outro e, no  
final, formando um mesmo quadro que está, simultaneamente, inconcluso e concluído. A gente  
escolheu essa imagem para direcionar algumas perguntas sobre essa faceta. Seu trabalho navega  
entre várias categorias bem clássicas: pintura, literatura, música e por aí vai. Como você se  
identifica em relação a essas nomenclaturas e categorias? E, se você puder, fale um pouco  
também sobre o seu processo criativo.  
Adalberto Cardoso: A foto do perfil na rede social era a capa do meu romance As mãos de  
Escher, justamente. São duas histórias que correm paralelas, que podem ter sido escritas tanto  
por um quanto pelo outro personagem. Essa é um pouco a ideia. O processo criativo: eu comecei  
a pintar lá em 1983, quando fui fazer esse curso de desenho com o Fajardo. Fui para o ateliê do  
Fingermann; lá, conheci o Jacques Jesion, e a gente ficou amigo. E o Jacques falou: “Cara,  
vamos abrir um ateliê. Tem um espaço ali na Frei Caneca. Eu fui lá olhar, mas eu não tenho  
dinheiro. Sozinho eu não consigo fazer”. Eu fui lá ver com ele, e era um espaço incrível. Perfeito  
para um ateliê de gravura. Ali eu comecei a pintar de verdade. Pinturas grandes.  
Em 1986, eu ganhei um prêmio no Salão Paulista de Arte: o Prêmio Aquisição. O meu  
primeiro prêmio. E, nesse ano, o Paulo Prado, que era um marchand lá de São Paulo, foi no  
meu ateliê. Aí comecei a trabalhar com ele. Em 1987, eu fiz a primeira exposição. Trinta e seis  
pinturas. Eu vendi trinta e cinco. A que sobrou está lá em casa, até hoje. Eu vivi de arte entre  
265  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
1987 e 1990. Ganhava dez vezes com arte o que eu ganhava no Cebrap. O ateliê se sustentava,  
me sustentava e ainda mandei dinheiro para a minha mãe. Foi um período bacana.  
Processo criativo: eu trabalhava no Cebrap até às seis e ia para o ateliê, e ficava no ateliê  
até às quatro, cinco da manhã. Muitas vezes cheguei depois do almoço no Cebrap, mas o pessoal  
não achava ruim, porque eu fazia as coisas que tinha que fazer. Entregava o que tinha que  
entregar. Fazia os relatórios que tinha de fazer. Então, não havia incompatibilidade. Nessa  
primeira exposição individual, o Cebrap foi lá ver. O Giannotti estava curioso; o filho dele  
também pintava. Ele foi à exposição. Ficou lá uma hora. Aí, no Cebrap, no outro dia, ele falou:  
“Você vai ter que escolher, né?”. Eu: “Como assim?”. “Você não vai conseguir levar as duas  
coisas, né? Você vai ter que escolher”. Aí eu falei: “Bem, ele gostou do que viu, né?”. Vi isso  
como um elogio. Então, falei: “Enquanto eu puder levar as duas coisas, eu vou levar”.  
Hoje, eu não me considero um artista mais. Mas eu me considero um romancista. Um  
dia, eu estava falando com o Wanderley Guilherme dos Santos. Ele também estava escrevendo  
um romance, e falou: “Mas a que horas que você trabalha? Você publica esse monte de coisa.  
Que horas você escreve?”. Eu: “Wanderley, eu acordo às sete e meia da manhã. Tomo meu café  
da manhã e, antes de ler jornal, eu sento, escrevo três horas. Todo santo dia. Aí eu vou ler jornal.  
Vou fazer as outras coisas. Pronto. Passou”. Com isso, eu escrevi quatro romances em um  
período de oito anos. Metodicamente. Sistematicamente. Claro que tem inspiração. Mas você  
tem que trabalhar. E trabalhar com o olhar da arte.  
A poesia é diferente. Eu sempre escrevi poesia na juventude, né? Meu interesse pela  
poesia voltou há quatro anos, quando, por acaso, fuçando livros lá em casa, eu achei um livrinho  
da Hilda Hilst, uma espécie de pot-pourri, nem uma antologia, vários fragmentos de poesia,  
prosa. Eu li aquilo e terminei arrepiado. Eu li em uma sentada. Voltei e li de novo. Arrepiado  
com aquilo fiquei. Falei: “Vou retomar”. Nunca deixei de ler poesia. E retomei com uma  
facilidade que me assustou, como os temas vinham. Como a métrica vinha. Comecei a ler os  
meus poemas em voz alta. Vi que aquilo fazia sentido. Quando eu vi, tinha quarenta poemas  
escritos. Cento e vinte haicais. Adoro escrever haicais. Reaprendi que eu gosto de fazer isso.  
Um prazer imenso. A poesia eu escrevo todo dia. Eu me impus como obrigação escrever um  
poema por dia, mesmo que seja uma porcaria. Aí, jogo fora. Deleto. Mas faço isso todo dia.  
Então, o meu processo criativo, hoje, que tem a ver com literatura e poesia, está muito ligado  
ao fato de que eu sou um leitor voraz. Faz parte do processo criativo você se deixar submeter  
pela literatura do outro. Eu acho que isso tudo é parte do processo criativo.  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
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Figure 3 - O artista pinta o sociólogo. Ilustração de Adalberto Cardoso. Acervo pessoal de Adalberto Cardoso.  
Pergunta: Ainda no contexto dos anos 1980, da redemocratização, qual a sua relação com o  
futebol? E com a Democracia Corintiana?  
Adalberto Cardoso: Olha, eu nasci atleticano, evidente. Meu pai era cruzeirense, meu irmão  
mais velho era cruzeirense. Meu primo mais velho, que foi morar conosco, era cruzeirense,  
então eu tinha que ser atleticano [risos]. Foi simples assim. Mas nunca fui fanático por futebol.  
Fui ver o Atlético em campo uma vez, quando eu morava em São Paulo, e quando o Atlético ia  
jogar contra o Santos, porque o meu grande amigo na época, Antônio Manuel Teixeira Mendes,  
era um santista fanático, e ele me disse: “Vamos ver o Santos. Você vai, vamos lá pra você ver  
o Atlético perder”. Foi a única vez que eu fui ao campo ver o Galo.  
Nunca vi o Corinthians em campo ao vivo. Por outro lado, eu era aficionado pela  
Democracia Corintiana. Por incrível que pareça, vários dos meus colegas mais próximos do  
Cebrap eram todos palmeirenses. Rapaz… Eu cercado de cruzeirenses lá em Uberlândia, e de  
palmeirenses lá no Cebrap. Mas mesmo os palmeirenses achavam bacana essa história da  
Democracia Corintiana, porque era uma diferença imensa, como eles construíram uma ação  
267  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
coletiva para mudar o modo de se gerir o futebol e até de escalar o time. Isso extravasou, porque  
entrou junto no debate da redemocratização: o Corinthians como um exemplo de como  
deveriam ser as instituições no Brasil. A participação, a horizontalidade, todos os jogadores  
tinham voz junto ao técnico, junto às direções. Você tinha conflitos, evidentemente, mas tinha  
o Sócrates como grande liderança. A Democracia Corintiana foi uma coisa extraordinária.  
Durou pouco e, enquanto durou, deu resultados. O Corinthians ganhou um monte de coisa no  
período. As pessoas iam para ver o Corinthians democrático, mas eu nunca fui. Eu não tinha  
dinheiro também.  
Pergunta: E como foi a sua transição para o Rio de Janeiro? Você poderia nos falar sobre a sua  
experiência e a sua agenda de pesquisas no antigo IUPERJ e no atual IESP/UERJ?  
Adalberto Cardoso: Eu estava no Cebrap, em um projeto com a Nadya, sobre os  
metalúrgicos… eu tinha, na verdade, conseguido um financiamento na FAPESP, para fazer um  
estudo sobre as centrais sindicais, e isso implicava aplicar um questionário em algumas  
categorias de trabalhadores da CUT e da Força Sindical, para comparar as suas atitudes. Isso  
resultou em um artigo com o Alvaro Comin, chamado Centrais Sindicais e Atitudes  
Democráticas. Depois disso, a Nadya estava interessada na reestruturação produtiva. A partir  
desse estudo com os metalúrgicos, ela me forçou a participar do congresso de fundação da  
ALAST, no México, em 1993. Ela disse: “Você tem que ir! Esse trabalho que você está fazendo  
é muito bacana. Vai ser muito bom, você tem que começar a sua carreira internacional”.  
Arrumei um dinheiro lá no Cebrap para ir, e fui. Fomos. De fato, foi muito bom, porque  
foi um congresso concorrido. Todos os latino-americanos importantes, da área da sociologia do  
trabalho… A ALAST nasceu como “Associação Latino-Americana de Sociologia do  
Trabalho”, depois virou “de Estudos do Trabalho”. Nesse congresso, a Nadya me disse que dois  
alemães estavam atrás de um pesquisador brasileiro, para tocar parte de uma pesquisa  
comparativa que eles estavam organizando. Era o estudo de setores automobilístico e têxtil, no  
Brasil, no México e na Colômbia, para testar algumas hipóteses sobre o impacto da globalização  
nas relações de trabalho e nas relações industriais. Porque tinha a hipótese de que a globalização  
ia fazer convergir os regimes de trabalho, os regimes de relações industriais, nos países latino-  
americanos. Então, foram escolhidos esses dois setores, e mais alguns estudos de caso, como a  
petroquímica, aqui do Brasil; na Colômbia, foi um outro setor de que não me lembro. Enfim,  
não importa. Eu fiquei responsável por quatro estudos de caso. Dois estudos de automobilística,  
e dois na indústria têxtil. Foi por esses alemães, o Rainer Dombois e o Ludger Pries, que eu me  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
268  
meti nesse projeto, que… levou a várias coisas. Várias viagens ao México, à Colômbia… eles  
vieram ao Brasil algumas vezes. Foi um projeto bem intenso, que terminou em 1996.  
Figure 4 Gabriela Arango, Marcia Leite, Consuelo Iranzo, e Juan José Cortillo. Congresso de fundação da  
ALAST, México, 1993. Acervo de Adalberto Cardoso.  
Eu terminei a minha parte da indústria têxtil já no Rio, quando o projeto já tinha acabado.  
Mas eu tinha o compromisso de terminar. Eu já não estava ganhando nada, mas fiz, mesmo  
assim, o estudo de caso, aqui na Fábrica de Tecidos Bangu. Esse projeto teve um resultado não  
antecipado: fizemos a última reunião na Alemanha. Inicialmente, o Ludger morava no México.  
Nesse momento, o Rainer tinha uma relação muito sólida na Colômbia. E eles precisavam de  
alguém no Brasil. E o Ludger voltou para a Alemanha, então a última reunião de trabalho do  
projeto foi lá. Eu fiquei hospedado na casa dele e, fuçando a biblioteca dele, a gente  
conversando, eu disse que a gente estava pensando em fazer um projeto sobre destinos  
profissionais dos demitidos da indústria automobilística, né?  
Nos estudos sobre reestruturação, o que a gente estava vendo era um número imenso de  
demissões, que estavam acontecendo na automobilística e na indústria têxtil também. A fábrica  
que eu estudei, em São Paulo, tinha perdido 30% dos seus operários, só no período em que eu  
estava fazendo a pesquisa. É uma coisa avassaladora, então isso chamou a nossa atenção, minha  
e de Nadya, e nós decidimos estudar esse tema através de trajetórias ocupacionais. Para onde  
269  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
essas pessoas estavam indo? O Ludger abriu um sorriso, meteu a mão lá nos livros dele, e tirou  
dois trabalhos que ele tinha feito no México, sobre isso. Duas brochurinhas, em que ele  
analisava exatamente isso: o que acontecia com as pessoas que estavam perdendo o seu  
emprego. Ele estava interessado nas trajetórias do informal para o formal, e do formal para o  
informal. Em que período da vida das pessoas isso acontecia. Ele fez um trabalho muito…  
artesanal. Com alguns poucos estudos de caso, mas uns gráficos muito elegantes de como as  
pessoas entravam na informalidade, saíam, voltavam, em que momento ficavam para sempre  
fora do mundo do emprego formal.  
Ele me deu, além disso, três outros livros de metodologia de análise de dados  
longitudinais. Em inglês. O cara mais importante disso, na época, era um alemão. O Hans-Peter  
Blossfeld. E tinha ali, no que ele me deu, alguns artigos desse Blossfeld, que eu usei muito no  
meu livro sobre transição ocupacional a partir da indústria automobilística. Eu voltei para o  
Brasil com esses livros debaixo do braço. Na verdade, um desses de metodologia eu li em  
Frankfurt. Eu esperei, sei lá, dez horas [risos] a baldeação do voo enfim, li um deles lá. E o  
outro, quase todo, na viagem de volta. Quando eu cheguei em São Paulo, fui ao Cebrap, com  
os livros debaixo do braço, e falei: “Nadya, a gente mirou no que viu e acertou no que não viu,  
porque o Ludger me abriu muitos caminhos, olha só isso aqui”. Ela ficou super entusiasmada.  
A partir daí, a gente começou a trabalhar trajetórias.  
Fato é que, por causa desses estudos, a Alice Rangel de Paiva Abreu me convidou para  
participar de um seminário aqui no Rio de Janeiro, no final de 1994. Eu vim para esse seminário,  
e fiquei responsável por fazer um comentário sobre uma das sessões. Recebi os textos antes, li  
e no hotel preparei um comentário elaborado sobre os textos. Ao final da sessão [risos], o cara  
que eu estava comentando me chamou: “Escuta, você já publicou isso que você escreveu?”. Eu  
falei: “Não, isso é uma reação ao trabalho de vocês. Eu fiz aqui”. Aí ele ficou super  
entusiasmado. Era o Gary Gereffi, um cara que estudava cadeias de valor. Cadeias produtivas  
mundiais. Ele estava interessado, por exemplo, na cadeia de valor do Walmart, e também das  
indústrias, né? Indústria têxtil, indústria automobilística e várias outras.  
A Alice ficou muito impressionada com esse meu desempenho lá, e me convidou:  
“Escuta, a gente tá pensando em pedir uma bolsa de pós-doc. lá no IFCS, você não quer vir para  
cá?”. Eu falei: “Uai, mas eu ainda não tenho doutorado”. “Mas então você tem que defender o  
seu doutorado. Rápido”. Eu fui para cima do meu orientador, e falei: “Brasilio, eu tenho essa  
oportunidade. Vamos correr com esse meu doutorado? Ele já está pronto. É só uma questão de  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
270  
a gente correr com ele”. E, de fato, o Brasilio foi super solidário, e trabalhou intensamente,  
comigo, sobre um relatório que eu tinha feito… sobre o sindicalismo de resultados, e que virou  
a minha tese. Eu defendi em agosto de 1995. A gente entrou imediatamente com o pedido de  
bolsa. E eu tinha pedido, com essa bolsa, um dinheiro para o projeto que a gente estava fazendo  
no Cebrap, de trajetórias; mandei para o CNPq como projeto para pedir dinheiro, para fazer  
pesquisa. Ele foi aprovado, mas o dinheiro nunca saiu, porque o CNPq estava sem recursos.  
Mas a bolsa saiu. Então, eu vim para o Rio. Essa foi a razão da minha vinda para cá: o convite  
da Alice, a partir da minha inserção nas redes da Nadya Guimarães, né?  
Aqui no Rio, eu vim, portanto, para o IFCS. Eu cheguei aqui, a bolsa foi aprovada em  
março, abril, para ser implantada em agosto. Então, a partir de agosto, eu passaria a dar aula de  
metodologia no IFCS. Foi para isso que eu vim. Era uma vaga para métodos quantitativos. Daí  
eu dei a minha primeira aula no IFCS. Logo depois, as federais entraram em greve, e ficaram  
quatro meses em greve. Então, eu pude usar esse tempo [risos] para terminar um monte de coisa  
que eu tinha feito no Cebrap, que tinha forma de relatório de pesquisa. Comecei a produzir  
loucamente os artigos e coisas que tinham ficado represadas. Foi assim que eu publiquei um  
mundo de coisa, em 1997, 1998, 1999… dois livros em 1999, outro livro em 2000, tudo por  
causa daquela coisa represada pelo Cebrap, muito projeto, relatório tinha pouco tempo para  
dar tratos à bola, transformar em trabalhos acadêmicos mais elaborados.  
Ainda durante a greve, pintou um concurso no IFCS. E a Alice falou: “Você tem que  
prestar esse concurso. Você não terá competidores, porque a pessoa que possivelmente  
competiria com você, e que está aqui conosco há dois anos, como pós-doc., disse que não vai  
prestar”. Naquela época, não tinha tanto doutor na praça. [Risos] Doutor era uma coisa mais  
rara. Então, falei: “Tá bom, eu vou prestar”. Embora fosse uma coisa que não tivesse nada a ver  
comigo. Era uma cadeira de métodos histórico-comparados. Sociologia histórico-comparada.  
Quem idealizou o concurso foi a Elisa Reis. Essa era a área de trabalho dela. Então, eu fui  
aprender, né?  
Passei dois meses na biblioteca do IFCS, lendo as coisas sobre isso. Revoluções  
comparadas, Barrington Moore e toda essa coisa. Charles Tilly. Foi ótimo, porque eu aprendi  
muito. Fui surpreendido pela Alice, em um dia em que eu estava lá estudando. Ela falou: “Olha,  
infelizmente, a pessoa que não ia prestar vai, então você vai ter competidor. Mas não se  
preocupe, porque isso é assim mesmo, se não der agora, sempre tem outra vaga”. E aí  
prestamos, e eu fiquei em segundo lugar.  
271  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
Quem estava na banca era a Maria Regina Soares de Lima. Uma das pessoas externas  
ao IFCS. A Neuma Aguiar tinha ido para Belo Horizonte. Tinha prestado concurso para a  
UFMG e tinha saído do IUPERJ, então estavam atrás de um professor de sociologia. A Maria  
Regina chegou e falou: “Ó, tem essa pessoa que prestou o concurso lá no IFCS, ficou em  
segundo lugar, mas ele tem tal perfil, o memorial dele é tal coisa. Acho que ele tem o perfil  
aqui da casa; melhor falar com ele”. O Luiz Werneck Vianna me conhecia, porque eu tinha  
publicado um artigo na Novos Estudos, que ele leu. E eu soube que ele tinha gostado muito  
dele. Foi o meu primeiro artigo sobre a Força Sindical sobre o Medeiros, na verdade, e o  
sindicalismo de resultados. O artigo tinha saído em 1992. E o Werneck falou: “Não! Claro,  
agora! Fala com ele, vê se dá”.  
A coordenadora de área, na época, era a Maria Alice Rezende de Carvalho. O diretor da  
casa era o Renato Lessa. Então, eu fui convocado pelo Renato Lessa. Ele falou: “Ó, nós temos  
essa vaga, queremos que você venha para cá. Com dedicação exclusiva, porque estamos  
transformando todos os contratos aqui em DE. A gente quer que as pessoas fiquem aqui”. Eu  
falei: “Bem, o sonho de consumo de qualquer um, né?”. Ir para o IUPERJ [risos]. Um centro  
de excelência, e não tinha graduação. Três horas por semana em sala de aula. Tempo à beça  
para trabalhar, estudar, fazer pesquisa. E com aquele corpo docente maravilhoso. Um negócio  
do balacobaco. Eu falei: “Claro. Tô nessa”. Aceitei.  
Enquanto estava nos trâmites de contratação, documentos, exame médico, eu recebo  
uma carta da reitoria da UFRJ, dizendo que eu tinha um mês para tomar posse na vaga para a  
qual eu tinha prestado concurso. A banca tinha errado. Eles tiraram uma média das cinco notas,  
mas, na verdade, o que eles deveriam ter feito era o número de maiores notas. E, como eu tinha  
tido três maiores notas, contra duas maiores notas da outra candidata, quem tinha passado em  
primeiro lugar era eu. E eu tinha um mês para tomar posse [risos]. Aí… eu fui conversar com  
as pessoas… eu conhecia a turma do IUPERJ há muito tempo, por frequentar as reuniões da  
ANPOCS e o Capelinha, um bar ali no Hotel Glória, em Caxambu, onde a gente ficava bebendo  
até às 4, 5 horas da manhã, tocando violão, cantando. A turma do IUPERJ era muito festeira.  
Eu conheci as pessoas assim.  
Então, fui falar com o Marcus Figueiredo, com quem eu tinha uma relação mais  
próxima, lá em São Paulo, porque ele estava dando aula na USP, na época. E eu fui falar com  
ele: “Olha, Marcus, eu estou nessa situação: a UFRJ me chamou, mas eu já estou nos trâmites  
para assinar o contrato com o IUPERJ. Quero um conselho”. Aí ele falou: “Olha, o Fernando  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
272  
Henrique está com um projeto de destruição da universidade pública. O projeto do Paulo  
Renato, que é um projeto do Banco Mundial, é privatizar o ensino público superior no Brasil.  
Já começou, já está havendo um processo de desfinanciamento, as federais em greve há quatro,  
cinco meses, não tem aumento de salário há oito anos”. E, na verdade, o salário do IUPERJ,  
naquela época, era três vezes maior do que o salário da UFRJ. E, “por outro lado, a Cândido  
Mendes é uma instituição muito sólida. O IUPERJ é o melhor lugar para se trabalhar no Brasil.  
Eu não pensaria nem uma vez. Nem duas, nem uma vez. Aceitaria. Ficaria no IUPERJ”. E foi  
assim que eu fiquei no IUPERJ.  
Os primeiros projetos meus, no IUPERJ, foram aqueles que eu estava trazendo do  
Cebrap. Tinha uma análise dos bancos de dados, sobre trajetórias ocupacionais, com base na  
RAIS, que eu e Nadya tínhamos construído. Comecei a trabalhar muito próximo do pessoal da  
Datamec, aqui no Rio, que depois virou UNISYS. A Datamec era responsável por rodar os  
dados da RAIS, e eu comecei a trabalhar muito próximo deles e do Ministério do Trabalho. Fui  
consultor de lá por uns quatro, cinco anos, para a construção da RAIS Migra, uma base de dados  
montada a partir da RAIS, que permite a gente acompanhar as pessoas no mercado de trabalho,  
ao longo da sua vida produtiva formal, e também validar a própria RAIS e o CAGED.  
Ajudei a criar o CAGED estatístico, que é o CAGED limpo, digamos, das impurezas, e  
que ficou mais preciso na produção de estatísticas sobre evolução do mercado de trabalho  
formal. Montamos uma metodologia para validação da RAIS, que a tornou independente da  
PNAD. Até ali, o Ministério esperava sair a PNAD de um ano para validar a RAIS do mesmo  
ano, e ver se ela não estava muito distante do emprego formal existente na PNAD. Eu disse que  
isso era um absurdo, porque a PNAD não tem absolutamente nada a ver com a RAIS, né? A  
PNAD é uma pesquisa domiciliar; portanto, de entrevistas com indivíduos. É uma pesquisa do  
lado da oferta. Do lado dos trabalhadores. A RAIS é uma pesquisa do lado da demanda. Do  
lado das empresas. São as empresas que dão a informação. Então, você não pode buscar essa  
outra fonte, que é totalmente distinta… é amostral – enfim, dei várias razões para que isso  
deixasse de ser assim.  
E a RAIS Migra permitiria, esse foi o meu argumento, a gente validar a RAIS olhando  
para trás. Isto é: a menos que tivesse uma hecatombe no mercado de trabalho, você não deveria  
esperar grandes mudanças de um ano para outro. O passado te permitiria validar a informação  
que você estava olhando. O que aconteceu no ano passado e no anterior? Essa empresa estava  
lá no ano anterior? Dois anos atrás, três anos atrás? Com isso, a gente criou esse mecanismo  
273  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
interno, algorítmico, muito simples, de automaticamente validar a RAIS, a partir da RAIS  
Migra. Eu fiquei nisso bastante tempo, porque a consultoria com o Ministério do Trabalho  
durou até 2011, 2012. Publiquei bastante coisa sobre isso, um livro, vários artigos.  
Para vocês terem uma ideia, nessa minha circulação internacional na América Latina,  
fui convidado pelo pessoal da ALAST da Argentina. Eles estavam trabalhando como  
consultores do Ministério do Trabalho argentino, na gestão do Carlos Tomada, Ministro do  
Trabalho na gestão de Néstor Kirchner, para fazer uma base de dados, a partir da versão da  
RAIS deles, de acompanhamento de trajetórias no mercado formal argentino, que é muito maior  
do que o nosso. 80% da força de trabalho assalariada na Argentina era formal. Então, era até  
mais fidedigno, no caso deles, o retrato do mercado de trabalho, a partir dos registros  
administrativos. Ajudei os caras a montar isso. Infelizmente, quando a gente começou a  
trabalhar para ter um projeto comparativo, da gente fazer pesquisa comparada Brasil x  
Argentina, teve aquela crise horrorosa lá… os Kirchner perderam o poder, o pessoal foi  
mandado embora, então a coisa não teve continuidade. Esses projetos foram todos suspensos.  
A minha transição, portanto, do Cebrap para o IUPERJ, foi facilitada pelo tanto que eu  
trouxe de lá. Em parceria sempre com Nadya, com Alvaro Comin, com a equipe… com o Chico  
de Oliveira. Isso facilitou muito a minha entrada, e essa enorme produtividade que eu tive, na  
minha chegada aqui [risos]. Foi realmente… assustador, do ponto de vista até do pessoal do  
IUPERJ, que era muito produtivo. Eu publiquei a minha tese em 1999, e um livro: Sindicato,  
Trabalhadores e a Coqueluche Neoliberal. Foi uma obra resultante de uma consultoria que  
eu dei para o Ministério do Trabalho. Quem estava como assessor lá era o Juarez Brandão, que  
tinha sido meu professor na USP, e me conhecia, e que foi perguntar para o Leôncio Martins  
Rodrigues quem devia fazer um trabalho de avaliação da estrutura sindical brasileira. O Leôncio  
falou: “Eu não tenho dúvida, é o Adalberto”. O Juarez se lembrou. Fui [risos], fiz essa  
consultoria para eles. Que virou Sindicato, Trabalhadores e a Coqueluche Neoliberal.  
Em 2000, saiu o livro sobre trajetórias na indústria automobilística. Então, foram três  
livros em dois anos, e uns… sei lá, dez artigos em dois anos. Uma loucura. Tudo, tudo, tudo  
represado do Cebrap. Porque até a consultoria que eu fiz para o Ministério do Trabalho, o  
contrato foi feito quando eu ainda estava no Cebrap. Eu terminei o estudo no final de 1997, já  
aqui no Rio, para publicar o livro em 1999. Nessa transição, foi muito importante, para mim, a  
acolhida do Wanderley Guilherme dos Santos. Porque foi ele quem abriu as portas, por  
exemplo, da editora FGV. A editora, na época, era a Alzira Abreu. No dia em que ele me viu  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
274  
pela primeira vez, ele perguntou: “Adalberto, o que você está fazendo?”. Eu tinha acabado de  
terminar o Coqueluche Neoliberal. E falei: “Isso aqui, ó!”. Pum. Dei na mão dele. Ele leu  
aquilo do jeito que ele lia: assim, dinamicamente, né? Leu lá em dez minutos, o livro, e falou:  
“Vamos publicar. Você quer publicar isso na FGV?”. Falei: “Mas é claro”. “Então peraí, vou  
pegar o telefone”.  
Daí pegou o telefone, ligou para a Alzira: “Ó, estou aqui com um livro que você não  
pode não publicar. Eu vou até fazer a orelha”. Pronto [risos]. Então foi isso, né? E ele fez a  
orelha, muito simpática, dizendo: “esse é um livro contra a maré”. Porque, na verdade, era uma  
crítica ao que já era a hegemonia neoliberal, ali no final do primeiro mandato do Fernando  
Henrique Cardoso. E “contra a maré”, porque é um livro que vai contra todos os argumentos  
dos economistas de então, sobre a rigidez do mercado de trabalho no Brasil, a rigidez da  
legislação trabalhista, enfim: todo o debate sobre empregabilidade. Um dos capítulos é uma  
crítica  
teórica  
muito  
sólida  
sobre  
a
ideia  
de  
“empregabilidade”.  
Ainda  
não  
“empreendedorismo”, que não estava na moda. Então, essa foi a minha chegada no IUPERJ.  
Pergunta: Por fim, você poderia falar sobre a internacionalização da sua carreira, que começou  
através do contato e da parceria com o grupo de pesquisadores alemães? Tanto na Europa  
quanto na América Latina…  
Adalberto Cardoso: Aqui no Rio, logo que eu cheguei, eu criei um grupo de discussão para  
montar um projeto de pesquisa. A FAPERJ, na época, estava com bastante dinheiro. Não havia  
dinheiro nos outros lugares de financiamento de pesquisa no Brasil, exceto na FAPESP. E  
também na FAPERJ. E havia a possibilidade de tentar arrumar um dinheiro para um projeto  
maior, de tipo temático, que envolvesse mais gente. E aí eu convoquei algumas das pessoas  
mais ou menos na minha estatura, digamos, mesmo momento de carreira, e alguns doutorandos  
e doutorandas, para montar um grupo de pesquisa de estudos do trabalho. Ler e debater textos  
relevantes, para dar uma nivelada em todo mundo, discutir os trabalhos de doutorado das  
pessoas que estavam no grupo. Eu ainda não tinha orientando no IUPERJ, então eram  
doutorandos do IFCS e de outros lugares, da UFF e tal. Além de alguns colegas: Marco Aurélio  
Santana, por exemplo.  
Esse grupo foi muito importante, porque a gente conseguiu fazer um grande projeto de  
pesquisa, que se chamou Trabalhar no Rio de Janeiro. Era um projeto multidimensional, que  
tentava olhar para trajetórias ocupacionais, sindicalismo e ação coletiva, participação política:  
atitudes em relação à democracia. Então, aplicava-se tanto um survey retrospectivo sobre  
275  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
trajetórias quanto um sobre atitudes em relação à democracia. Sindicalismo, como eu falei: a  
gente ia estudar sindicatos de telecomunicações, o sindicato de metalúrgicos do Rio de Janeiro.  
Havia propostas de estudos de caso na nascente indústria automobilística do Sul Fluminense.  
Foi um projeto imenso. Cento e trinta páginas. Nós submetemos à FAPERJ uma vez, outra vez,  
e ele nunca foi aprovado. Minto: na segunda vez, ele foi aprovado, mas não foi implantado,  
porque não tinha recurso. Prioridades da FAPERJ na época.  
Mas isso permitiu a consolidação de laços na comunidade de estudos do trabalho no Rio  
de Janeiro. A gente organizou um grande seminário no IUPERJ sobre isso. Dois dias, com todas  
as pessoas que estudavam trabalho aqui no Rio. Todas as universidades envolvidas. Tinha gente  
da PUC, da UFF, do IFCS, eu do IUPERJ, além do Werneck, que também abriu uma das mesas.  
Foi um evento bastante concorrido… sala cheia, o dia todo. Enfim, foi superbacana. E o  
primeiro do gênero do IUPERJ voltado estritamente para os estudos do trabalho, para a  
comunidade dos estudos do trabalho. Não tinha historiadores esse foi um erro que eu cometi,  
que só fui resolver muito mais tarde. Incluir os historiadores nessa rede, né? Isso veio bem  
depois.  
Então, aqui no IUPERJ, eu desenvolvi um número bastante grande de pesquisas,  
financiadas ou não, boa parte delas tendo a ver com os projetos de produtividade em pesquisa  
do CNPq. Eu entrei no sistema do CNPq em 1997, com, justamente, o projeto de trajetórias.  
Esse foi o projeto que eu mandei para produtividade. Essa bolsa de produtividade em pesquisa  
sempre foi o estímulo mais forte para eu renovar os horizontes de investigação. Sempre fazendo  
projetos novos, ou dando continuidade a projetos já em andamento, e tal.  
Consegui financiamento na FAPERJ algumas vezes. O mais importante deles foi um  
PRONEX, em 2010, por demanda do IUPERJ. Eu estava em Paris; na época, eu tinha mais  
tempo. Alguém tinha que fazer um projeto. Um dos temas era juventude; eu estava interessado  
em juventude. Recebi um telefonema da Argelina, que era diretora de pesquisa: “Olha só, nós  
temos que mandar, estamos precisando de dinheiro aqui no IUPERJ”. Isso em 2009. Montei o  
projeto em 2010. Foi aprovado. Lá em Paris. A coisa da internacionalização: já entro nisso,  
porque a trajetória no IUPERJ está muito ligada a isso, né? É… Ainda Nadya, né? [risos]  
Quando eu ainda estava no Cebrap, houve um seminário internacional, que a Nadya  
coordenou, trazendo pesquisadores da França, da Colômbia e da Inglaterra, para tratar de  
trajetórias. Nós trouxemos Alain Degenne, Marie Odile Lebeaux, de um laboratório de estudos  
longitudinais, na França. O Olivier Barbary, francês, trabalhava na Colômbia, na época,  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
276  
também estudando trajetórias. E trouxemos o Peter Elias, um economista inglês do Institute for  
Employment Research, com quem eu teria uma longuíssima relação. Faríamos coisas juntos,  
publicações e tudo o mais. A Kate Purcell veio na segunda reunião. Nessa primeira, veio a  
Margaret Birch, também do IER.  
Esse seminário foi decisivo, deu um salto imenso nos nossos estudos sobre trajetórias.  
O primeiro artigo que eu publiquei na Dados, sobre trajetórias, eu usei a metodologia que o  
Alain Degenne apresentou nesse seminário, de criação de classes de trajetórias com análise  
fatorial de correspondência. Que era uma forma bastante inovadora de análises temporais. Dois  
anos depois, nós fizemos outro seminário. Aí eu já estava no IUPERJ. O seminário foi em parte  
aqui no Rio, e em parte no Cebrap. A gente trouxe, dessa vez, além do Peter Elias, e da Kate  
Purcell e outros lá de Warwick, o Claude Dubar. Um estudioso de socialização, construção de  
identidades profissionais. Era um pesquisador muito criativo e foi ótima a vinda dele para cá.  
Sempre via essa rede da Nadya.  
O Peter entrou na rede a partir desse convite. A gente não o conhecia; ele recebeu com  
surpresa o convite, lá na Inglaterra, evidentemente: “Quem são esses brasileiros loucos, que  
saem do nada?” [risos]. Eu não sabia, nós não sabíamos, mas ele já tinha tido uma relação  
bastante sólida com o Brasil via IBGE, porque ele tentou, no começo dos anos 1990, convencer  
o instituto a fazer uma pesquisa longitudinal. Ele deu uma longínqua consultoria para o IBGE,  
para convencê-lo a mudar o seu código de ocupação e passar a usar a ISCO (International  
Standard Code of Occupations) mais recente. O IBGE ainda usava a ISCO 67, 68, nas suas  
pesquisas. Ele falou: “Mas tem uma ISCO melhor aí, 88”. Ele foi um dos responsáveis por isso.  
A gente não sabia disso. Soubemos quando ele chegou e contou essas histórias, né? Ele já tinha  
vindo ao Rio, conhecia o Brasil e, quando ele foi convidado, achou ótimo: “Opa, vou voltar ao  
Rio”. Ele adorava o Rio de Janeiro.  
Com isso, nós montamos esse seminário financiado pela Fundação Ford com um  
projeto, uma chamada via ANPOCS. Levantamos esse seminário, e esse projeto também  
financiou idas nossas para a Inglaterra. Eu fui por um período de 15 dias; Nadya foi por um  
período de uma semana. A Valéria Pero, que também era do projeto, e, na época, trabalhava no  
CIET, que era o Centro de Investigação e Estudos do Trabalho ligado ao SENAI… Ela, hoje, é  
professora de economia na UFRJ, mas, na época, ela participou conosco no esforço de  
construção da RAIS Migra. Ela e o Luiz Antonio Cruz Caruso foram pioneiros, na verdade. A  
Nadya foi participar de um congresso não sei onde, e quem estava lá apresentando o trabalho,  
277  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
a partir dos resultados da RAIS, era o Caruso. E a Nadya chegou no Cebrap: “Opa, olha só! A  
gente está aqui pensando como fazer essa coisa das trajetórias, tem esse cara lá do SENAI que  
está fazendo. Temos que entrar em contato”.  
Bom, aí entramos nessa rede do SENAI, para construir uma base de dados para  
demitidos da indústria. Assim nasceu a RAIS Migra. O nosso interesse, inicialmente, era  
também a indústria, porque… era isso que estávamos estudando no Cebrap. Mas logo ficou  
claro que não era suficiente, porque o pessoal demitido não voltava mais para a indústria. Ia  
para o comércio, para os serviços, ou ia para a informalidade. Então, a gente tinha que olhar a  
economia como um todo, né? Foi assim que saiu a iniciativa de procurar o Ministério do  
Trabalho, para além do SENAI, para tentar construir uma base de dados mais geral, que pegasse  
a economia como um todo, e foi isso que aconteceu. Quando a RAIS Migra nasceu com esse  
nome, já era uma base de todo o mercado formal de trabalho.  
Essas idas de curta estadia na Inglaterra, no meu caso, foram sobretudo para  
levantamento de bibliografia. A gente não tinha portal de periódicos, não tinha acesso às  
grandes revistas acadêmicas europeias… Então, eu passei esses períodos de curta duração, na  
Inglaterra, fazendo levantamento bibliográfico, copiando capítulos de livros, copiando artigos  
de revistas, etc., enchendo a mala [risos]... e comprando livros, evidentemente. Isso foi da  
primeira vez que eu fui, em 2001, ou 2002. Já não me lembro.  
Quando eu fui em 2004, aí já para ficar seis meses, na Universidade de Warwick, as  
coisas já estavam bastante mais avançadas nessa área da digitalização das revistas. A Inglaterra  
tinha uma rede pública, para todas as universidades públicas, como é o portal de periódicos da  
Capes, para acesso às revistas que existiam em linha. Não só as inglesas, mas as revistas em  
linha no mundo. Ali, eu pude levantar bibliografia sem precisar imprimir, botando em disquete  
textos franceses, italianos, britânicos, espanhóis, portugueses, norte-americanos, etc., sobre os  
temas que me interessavam na época. Trajetórias ocupacionais, ação coletiva, sindicalismo,  
mercado de trabalho, mobilidade ocupacional de modo geral, estrutura social, desigualdade.  
Vocês não fazem ideia da quantidade de material que eu levantei; nem tudo eu li. Essa  
coisa, você monta uma biblioteca: “um dia eu vou precisar disso”. Várias coisas eu não precisei,  
nunca; mas uma boa parte… não sei nem se a maioria, foi compor a minha cesta de pesquisas  
a partir daí. Foi um período muito produtivo, também. Eu escrevi muito. Escrevi três artigos  
enquanto eu estava lá. Eu tinha uma vida monástica. Lia todo dia. Eu morava em um  
apartamento dentro da universidade. Ia a pé para o escritório, todo santo dia. Almoçava por lá,  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
278  
ou levava um sanduíche para comer com o Peter Elias. Essa vida monástica me permitiu ler  
muito, escrever muito, e foi assim… Eu estava num monastério [risos], e foi um período de  
total reciclagem.  
Eu voltaria à Inglaterra não mais para ficar longos tempos, mas continuei indo e vindo,  
nessa relação com eles, por mais três ou quatro anos. Nesse meio do caminho, encontrei, um  
pouco casualmente, em termos acadêmicos, com o Edmond Préteceille, que era casado com a  
Licia Valladares, com quem eu convivia no IUPERJ. Ela era do IUPERJ quando eu cheguei,  
mas, logo em seguida, passou a ficar mais tempo na França do que no Brasil, até que ela prestou  
um concurso em Lille e ficou definitivamente por lá.  
Nessas idas e vindas, a Licia me convidou para o casamento dela com Edmond. Já tinha  
o Eurostar, e fui. Foi uma coisa curiosa, porque o Edmond estava atrás de um parceiro no Brasil.  
E mencionou isso no casamento dele, rapidamente: “Ah, pois é, inclusive, depois a gente  
conversa sobre isso”. Depois disso, eu me tornei mais assíduo na França. Um pouco pelas  
relações do pessoal da rede de trabalho, mas também porque o Edmond me propôs escrever um  
artigo comparando Rio de Janeiro e Paris, na temática das desigualdades urbanas. Em especial  
a segregação espacial urbana, levando, se possível, em consideração a questão de raça, mas  
também de classe social. Eu achei o convite assim: “Bom, lá vou eu, né? Abrir uma outra janela.  
Sociologia urbana. Vamos estudar segregação urbana, desigualdades urbanas? Vambora”. E  
pronto.  
Então, eu trouxe, para o Rio de Janeiro, bastante coisa sobre essa questão. Fui aprender  
metodologias de análise de segregação. Fui ler estudos urbanos de maneira mais sistemática.  
Sempre li isso, porque são áreas muito afins, em vários sentidos. Só que a sociologia urbana é  
mais multidisciplinar. O urbano é tudo, né? É escola, é transporte, é habitação, é pobreza, é  
desigualdade. É violência. Então, fui trabalhar com o Edmond, e a gente conseguiu… deu uma  
trabalheira louca, a gente tinha que tornar compatíveis a nossa classificação de ocupações com  
a classificação francesa de ocupações. Para trabalhar com classe social a partir de ocupação,  
comparando os dois países, a métrica tinha que ser a mesma. Ficamos dois anos nessa  
transcrição de uma classificação na outra. A gente teve que mexer dos dois lados. Tanto a  
classificação francesa precisou ser mudada quanto a classificação brasileira precisou ser  
mudada. E a gente conseguiu essa compatibilização e escreveu um artigo sobre isso. Que saiu  
em 2008.  
279  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
A partir daí, a minha cooperação virou-se da Inglaterra para a França. A partir desse  
artigo, eu pedi uma bolsa do CNPq para passar seis meses em Paris, em um pós-doc. Essa bolsa  
saiu para o segundo semestre de 2009. Voltei ao Brasil em março de 2010. Pude escrever o  
projeto sobre juventudes, um PRONEX que resultou em três livros, no final de três anos. O  
livrão sobre A Construção da Sociedade de Trabalho no Brasil, eu terminei em Paris. Levei  
todo o material de que eu precisava, de pensamento social brasileiro, tudo o que compôs os  
primeiros capítulos da primeira parte, num CD-ROM. Copiei a Brasiliana que tinha no IUPERJ,  
na época… paguei uma assistente para xerocar, escanear os livros. Levei um mundo velho de  
coisa para lá e terminei o livro lá. A parte empírica da pesquisa já tinha sido feita aqui, né?  
Então, essas saídas são importantes por isso, entendeu? Ali em 2009, nos doze anos de  
IUPERJ, eu tinha passado oito, nove anos na diretoria. E nunca parei de publicar [risos], de  
produzir muito, mesmo assim, mas… essa parada, várias coisas ficam represadas. Aí você para  
seis meses, desova um monte de coisa. E foi isso, aconteceu de novo, como tinha acontecido  
quando eu vim do Cebrap para cá. Lá, eu terminei A Construção da Sociedade de Trabalho  
no Brasil, cuja origem também remonta a 2003. Eu conto isso na introdução do livro. Tudo o  
que eu escrevia, eu botava na mão do Wanderley, né? Ele começou a fazer isso também. Em  
2002, ele tinha escrito um textinho para aquele Fórum Brasil… O fórum do João Paulo Reis  
Velloso. Era uma reunião anual, em que ele juntava intelectuais, os mais variados expoentes,  
etc., para discutir o Brasil. Ele lançava um tema, e sempre saía um livro.  
E o Wanderley tinha produzido esse textinho, de dezesseis páginas, que se chamava  
Hobbes exausto. Nele, ele discutia a centralidade, ou não, da desigualdade para o  
funcionamento da democracia. Olhando o mundo inteiro, ele mostrou que a desigualdade era  
presente em, praticamente, todas as democracias. Você não tinha grandes desigualdades, como  
o Brasil, mas você tinha, em alguns casos, desigualdades muito grandes, como nos Estados  
Unidos, na Espanha, e outros lugares em que a desigualdade era importante, mas isso não  
colocava em risco o princípio da democracia.  
Você tinha países com desigualdade até importante, índice de Gini acima de 40, por  
exemplo, estáveis democraticamente. Então, ele achava que a questão mais importante não era  
tanto a desigualdade, mas a relação entre desigualdade e pobreza. Isto é, ao longo da  
modernização, os países se mantêm desiguais, mas as pessoas vão deixando a condição de  
pobreza. Deixam de ser escravas da necessidade, alguma coisa assim… Essa sociedade pode se  
estabilizar, mesmo que os ricos tenham lá os seus navios, os seus iates, e não sei o quê, desde  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
280  
que os mais pobres tenham o seu carro, possam sair de férias, possam usufruir da liberdade que  
o capitalismo permite. Nesse sentido de liberdade de acesso a bens de consumo e qualidade de  
vida. Então… isso seria uma condição para a sustentabilidade da democracia, mais do que a  
questão propriamente dita da desigualdade.  
Estou falando desse texto nesses termos porque nisso está, também, o recheio do que eu  
mesmo coloquei nele. Isso é o que eu vi nele, está certo? Esse texto teve um grande impacto na  
minha agenda de pesquisa, porque… nesse mesmo momento, a Celi Scalon estava no IUPERJ,  
na época, coordenando o programa do International Social Survey Program (ISSP) que tinha  
acabado de fazer uma pesquisa sobre percepção da desigualdade no Brasil. Era uma pesquisa  
internacional, feita em onze, ou doze, ou dezenove países, já não me lembro, mas muitos países,  
e o Brasil conseguiu ser incluído nela. Ela me convidou para escrever um capítulo do livro que  
ela estava organizando a partir desse survey.  
E eu fui explorar essa ideia do Wanderley. O meu capítulo trata disso, nesses termos  
que eu falei aqui, só que, enfim, vou mais adiante. Tento levar mais a fundo essa ideia do  
Wanderley. E isso fermentou, e, a partir desse texto, publicado em 2004, foi o que eu fiz da  
vida, né? Investigar… me pus a ler sobre essa questão de por que a desigualdade no Brasil é tão  
persistente, e talvez seja uma das razões de por que a nossa democracia é tão instável.  
Figure 5 - No IESP, com Wanderley Guilherme dos Santos. Sem data. Acervo de Adalberto Cardoso.  
281  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
O tema da instabilidade da democracia não entrou no meu livro de 2010. Eu me ative à  
questão de por que a nossa desigualdade é tão persistente. Fui buscar os mecanismos mais  
profundos de reprodução das desigualdades. As engrenagens mais profundas. Desde sempre que  
o Brasil se conhece, ou que se tem estatística sobre a desigualdade de renda no Brasil, ela é sempre  
muito alta. O nosso processo de modernização foi diferente do processo europeu. A desigualdade  
se manteve, em muitos casos aumentou muito, sem que a maioria da população deixasse a  
condição de pobreza. O que impedia, por exemplo, que as pessoas legitimassem não só o regime  
político, mas a própria ordem social.  
Esse livro foi, até então, com certeza o mais importante que eu tinha publicado. O  
argumento permaneceu no meu horizonte por muito tempo, ainda. A minha intenção era escrever  
um segundo volume. Não consegui. Eu consegui escrever um capítulo para um livro, que resumia  
o que seria o segundo volume. Esse capítulo eu introduzi na segunda edição do livro, né? Que  
virou o capítulo 5. Mas, felizmente, como eu falo até na introdução da segunda edição, vieram as  
teses do Alexander Englander e do Tomás Garcia Coelho. Ainda que com perspectivas distintas,  
obviamente… a do Tomás, menos. A do Alexander, mais claramente distinta. Mas que, do meu  
ponto de vista, cumpriram essa função de tapar os buracos que ficaram ali. Além desse capítulo  
que eu escrevi. Então, a coisa do IUPERJ é um pouco isso. Eu continuei indo e vindo, né? Passei  
outro ano, dessa vez, um ano inteiro, na França. Em 2018-2019. Um pouquinho antes da pandemia.  
Foi outro período altamente produtivo. Lá eu fiz… de novo, na França, a segunda edição d’A  
Construção da Sociedade de Trabalho no Brasil, escrevi o livro sobre bolsonarismo, e publiquei  
dois romances. Que [risos] que já estavam prontos há muito tempo, mas eu publiquei na Amazon.  
Então, foi um ano superprodutivo de novo. Essas saídas são importantes.  
Pergunta: Uma última pergunta, para amarrar esse conjunto. A gente conversou muito sobre,  
primeiro, você estar aberto. Você já entrou na graduação aberto. E, segundo, sobre os contrastes.  
Sobre como era o preparo na pós-graduação, e para pesquisa, quando você estava nessa fase, e  
depois as atualizações, principalmente com a internet. E você viveu esse período da sua  
internacionalização exatamente com essa mudança da tecnologia. Como foi, para você, ter essas  
oportunidades? Era uma coisa que você imaginava que ia acontecer na sua carreira, ou você foi  
percebendo que também fazia parte de uma ampliação da sua visão de pesquisa?  
Adalberto Cardoso: No Cebrap, eu trabalhei alguns anos com o Guillermo O’Donnell. E o  
O’Donnell foi importante, também, nessa coisa de abrir portas. Ele tinha lá o grupo de estudos  
políticos, e apareceu a oportunidade de eu ir fazer o curso de metodologia quantitativa em  
SOARES, C.; ENGLANDER, A.; PENHA, B. da.; BRANDÃO, T.  
282  
Michigan. O Vilmar Faria, que, na época, trabalhava com o O’Donnell no grupo de estudos  
políticos, além de ter, ele mesmo, o seu núcleo de pesquisa sobre desigualdade e pobreza no Brasil,  
conseguiu uma bolsa da Fulbright, para eu fazer esse curso. E eu apliquei, via os trâmites do  
próprio programa, para ter uma bolsa deles. Porque eles estavam abrindo, naquele ano,  
especificamente, em 1992, um programa de Métodos quantitativos para a América Latina. E  
estavam dando dez ou quinze bolsas para latino-americanos fazerem esse curso, passarem dois  
meses em Michigan. Eu consegui dinheiro da Fulbright e ganhei a bolsa deles, né?  
Então, eu cheguei em Ann Arbor, que é uma cidadezinha desse tamanhozinho assim, com  
cinco mil dólares no bolso. O salário do O’Donnell não era cinco mil dólares, para vocês terem  
uma ideia. E ele era pesquisador top, sênior, de carreira. Era muito dinheiro, naquela época.  
Quarenta anos atrás. Muito dinheiro! [risos] Fiquei dois meses lá, com esse dinheiro. Fiquei  
morando em uma república, onde tinha mais um brasileiro, um croata e uma norte-americana. Um  
pessoal da área de Geologia. Então, imagina: pagando 400 dólares de aluguel. Eu pude viajar. Fui  
a Chicago. Fui a Detroit. Sempre com os colegas de curso, né?  
Me lembro do O’Donnell falando: “Quando a gente pega o primeiro avião, não para mais.  
Então, você se prepara”. E, de fato, essas coisas servem para você fazer rede, você abrir o seu  
espaço. Eu conheci um monte de gente. Um mundo velho de latino-americanos. Com alguns, tenho  
relação até hoje. E gente não latino-americana, mas que eram norte-americanos latino-  
americanistas. Gente com quem mantive relações longas, por muito tempo. Então, essa foi a  
primeira experiência, de fato, internacional, certo?  
Ali, foi a primeira vez que eu entrei em uma grande biblioteca, na minha vida. A biblioteca  
da Universidade de Michigan. Um prédio de oito andares, mais três andares para baixo. Era assim:  
você entrava, você fazia a pesquisa, já no computador, e você ia lá na estante, pegar o livro. E  
aquela coisa labiríntica… eu levei alguns dias para me achar. Mas a hora em que você se acha, é  
um negócio… foi uma experiência incrível. Você chega, você quer um livro tal. Como os livros  
estão organizados por assuntos próximos, você chega naquela estante do livro tal… aqui, na  
biblioteca do IESP, você tem dez, quinze, vinte livros relacionados. Lá, você tinha mil. Mil e  
quinhentos. Né? [risos] Aquele assunto ocupava quatro, cinco, seis estantes. O tamanho da sua  
ignorância fica muito evidente. [risos] E a absurdidade que é a produção acadêmica, né? Em  
qualquer tema que vocês puderem imaginar. Isso ficou evidente para mim ali. Hoje em dia, todo  
mundo tem essa experiência. Você faz uma pesquisa na internet, essa coisa cai na sua cabeça.  
Antes, você tinha que ir em uma biblioteca para isso. E é uma experiência fascinante, e muito  
283  
Entrevista com Adalberto Cardoso  
distinta de fazer uma pesquisa na internet. A pesquisa na internet raramente te permite um encontro  
acidental com um texto. A possibilidade disso é em uma biblioteca ou boa livraria. Onde as coisas  
também estão, às vezes, organizadas por assunto ou por disciplina. Na internet, você não tem isso.  
Pergunta: Em que ano foi essa ida a Michigan?  
Adalberto Cardoso: 1992. Passei dois meses lá. Com o dinheiro que sobrou, comprei uma  
passagem, fui para Amsterdã. Minha irmã estava morando lá. Passei um mês em Amsterdã, com  
ela. Olha só [risos]. Levei duas malas grandes e uma mala pequena. As duas malas grandes ficaram  
na casa de um amigo da minha irmã, em Nova Iorque. E eu fui com a mala pequena para Amsterdã.  
Quando eu voltei, não queriam me deixar entrar de volta nos Estados Unidos. Fui barrado na  
imigração. “O que você está fazendo aqui?”. “As minhas malas estão na casa de fulano de tal”.  
Eles queriam que mostrasse a passagem de volta. “Cadê a sua passagem?”. “A passagem está  
dentro da mala. O senhor pode ligar lá, ele abre a mala. Disse para o senhor que a passagem está  
lá”. Foi uma novela. Fiquei umas três horas no chiqueirinho em que eles deixam a gente lá.  
Porque eu volto de Amsterdã barbudo, né, com um violão. Então, eu era um jovem  
imigrante ilegal, evidentemente. Que tinha lá trinta e um anos de idade. Mas o cara falou: “Não, tá  
bom. Você originalmente era um J-1”, J-1 é um visto de estudante, “então vou deixar você entrar.  
Mas o senhor me garante que vai sair”. “Não, não. Eu só voltei para cá porque vai ter uma  
exposição do Matisse no MoMa, que eu vou ver, e eu já estou com os ingressos comprados”. E,  
por sorte, os ingressos estavam no meu casaco. Porque eu comprei antecipadamente os ingressos.  
Aí pude entrar. Senão, imaginem, eu teria sido deportado dali para o Brasil, sem ver o Matisse!  
Foi a primeira grande retrospectiva do Matisse no MoMa, depois de décadas! Foi uma  
experiência…  
Pergunta: Mas viu…  
Adalberto Cardoso: Vi! Opa! Eu dei uma de desentendido para cima dos caras. Tinha hora para  
entrar. Você só podia ficar duas horas, e passei o dia inteiro na exposição. Nem comi. Entrei às 10  
horas, saí de lá às 8 horas da noite, quando fechava [risos].  
Recebido em: 31/3/2025  
Aceito em: 17/5/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 285 - 291  
O DISPOSITIVO DA SOCIOLOGIA:  
Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
THE DEVICE OF SOCIOLOGY:  
Elide Rugai Bastos interprets Florestan Fernandes  
_____________________________________  
Rodrigo Estramanho de Almeida*  
BASTOS, Elide Rugai. A máquina das desigualdades: Florestan Fernandes interpreta o  
Brasil. Petrópolis: Vozes, 2025.  
Desde fins dos anos 1980, a socióloga, professora e pesquisadora Elide Rugai Bastos,  
vem se dedicando ao desafiador empreendimento intelectual de compreender a fundo a obra de  
um dos mais importantes expoentes das ciências sociais: Florestan Fernandes (1920-1995).  
Fizemos questão de não adendar que se tratou, Florestan, de um dos mais importantes cientistas  
sociais do Brasil e/ou da América Latina, pois que pensamos que ele foi um dos mais  
proeminentes sociólogos da história dessa ciência para seu desenvolvimento, quer seja  
epistêmico, quer seja metodológico, em todos os tempos e lugares.  
Essa proposição parece se confirmar à leitura de A máquina das desigualdades:  
Florestan Fernandes interpreta o Brasil, no qual Elide Rugai Bastos reúne mais de uma  
dezena de artigos – boa parte deles anteriormente publicados em periódicos ou coletâneas e que  
foram modificados para a composição do livro – que juntos articulam uma leitura aprofundada  
e simultaneamente desafiadora do legado temático, teórico e metodológico de Fernandes. Faz  
isso, tecendo fios entre as diferentes fases de produção intelectual de Florestan, as quais  
aparentemente não guardariam relação alguma não fosse pela leitura atenta que capta a linha  
comum da carreira de um intelectual que se consagrou em um país de capitalismo  
subdesenvolvido justamente porque interpelou, talvez como nenhum outro, o processo da  
desigualdade como objeto a ser levado a sério, de forma inovadora e implicada.  
* Doutor em Ciências Sociais, professor do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica  
de São Paulo (PUC-SP). E-mail: estramanho@gmail.com.  
ALMEIDA, R. E.  
286  
No livro, entretanto, Elide não trata da trajetória de vida de Florestan. Ela nos faz ver o  
que até aqui afirmamos sobre “quem foi Florestan” pela retrospectiva em perspectiva da  
produção intelectual desse sociólogo paulista revelando como o dispositivo de sua sociologia,  
após e entre outras sociologias que desaguavam no e do Brasil que se modernizava desde os  
anos 1930, iniciou, a partir de 1950, a modificar indefectivelmente a operação científica para a  
investigação da realidade social brasileira, sobretudo no tema do preconceito racial e da  
mudança social e na relação entre ambos. Essa alteração na forma de se fazer ciências sociais,  
demonstra Elide no livro, criou uma geração e construiu, a partir dos estudos realizados por  
Fernandes e seus alunos na Escola Paulista de Sociologia, não uma sociologia brasileira, mas  
uma sociologia no Brasil. Isto é, uma ciência social interessada e implicada nos problemas de  
sua localidade, mas jamais mimada pelo seu ser e estar, posto que se colocou desde o princípio  
conectada, não com o centro, mas com o próprio cosmopolitismo, pois é assim que toda ciência  
deve ser: local, pois que comprometida com o objeto que analisa, e cosmopolita, pois que deve  
ser compreendida em seus propósitos e resultados por quem quer que seja em qualquer lugar.  
Esse o êxito epistêmico e, evidentemente, político da sociologia de Florestan Fernandes.  
Elide nos mostra que Fernandes logrou essa sociologia com uma trajetória de pesquisa  
que se consolidou desde seus estudos sobre manifestações culturais no interior de São Paulo,  
quando era estudante na Escola de Sociologia e Política, até o livro que o inscreveu entre os  
intérpretes do país, A Revolução Burguesa no Brasil de 1975 e outros. Como a própria autora  
ressalta em diversos momentos, a expressão “circuito fechado”, que intitula o livro de Florestan  
de 1976, é que nos fornece bom ensejo para pensar a inovação do autor na interpretação das  
desigualdades brasileiras. Superando as visões dualistas que tendiam a problematizar a  
realidade brasileira a partir do enclave meridional desenvolvido e setentrional atrasado,  
Fernandes propõe um dispositivo de investigação processualista cujas facetas arcaicas e  
modernas coexistem e coabitam nos mais diversos níveis, o social, o cultural, o psicológico, o  
econômico e o político. Chegou a isto através de um longo trajeto de pesquisa no qual a força  
centrífuga, no mais das vezes, era o estudo das mudanças sociais e, por isso, a investigação das  
práticas institucionais e, também, os comportamentos grupais e individuais.  
Nesse percurso, Fernandes se antagonizou a toda tradição do pensamento social anterior,  
sobretudo a conservadora, pois demonstrou empírica, bem como elaborou teoricamente, que  
“no quadro do capitalismo dependente, ao estudar o regime de classes, é necessário lembrar dos  
dois polos de dominação: o interno e o externo. Portanto, é preciso agregar as conexões causais  
287  
O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
e funcionais das sociedades hegemônicas àquelas internas” (Bastos, 2025, p. 106). Nessa trilha,  
as teorias dualistas, seja a do par Casa Grande & Senzala da qual os resultados políticos  
culturalistas da democracia étnica são bem conhecidos, ou os Dois Brasis de Lambert, que  
inspiraram debates sobre os enclaves internos obnubilando as relações com as forças da  
dominação externa do capital, se não foram de todo superadas, ganharam, a partir das  
proposições de Fernandes, um contraponto de peso. Ainda, a teoria de Floresta Fernandes, nos  
mostra Elide, foi construída de pesquisa a pesquisa, de relatório a relatório, de livro a livro, de  
modo contínuo e sistemático, sem nunca abandonar o objetivo último que era o de compreender  
os enlaces, razões e motivos da coexistência ambivalente da riqueza e da pobreza e não só no  
plano objetivo econômico, como no subjetivo, nas atitudes e comportamentos do brasileiro.  
Mais do que uma interpretação compreensiva sobre o Estado, a obra de Florestan Fernandes  
mirou sempre a cidadania.  
Nesse quesito é que, segundo Elide Rugai Bastos, o foco de Florestan Fernandes na  
desigualdade racial foi de suma importância. Ora, ainda atualmente – como quaisquer dados de  
fácil acesso podem revelar – há uma grande desigualdade de acesso a direitos entre brancos e  
negros no Brasil, bem como a linha competitiva entre esses é absolutamente díspar e, portanto,  
é inegável que nas mudanças sociais do país, algo, do ponto de vista sociológico, ocorreu para  
que uma parcela, a mais significativa da população, não apareça completamente integrada à  
cidadania. Esse é o ângulo da pergunta dos estudos sobre a desigualdade racial proposto por  
Florestan. Não há democracia social ou étnica. De saída, em quaisquer transformações políticas  
operadas ao longo da trajetória brasileira, parte significativa da população permaneceu às  
margens das mudanças sociais, e a maior parte dessa parte marginal é de pessoas pretas. Estudar  
os óbices à integração do negro na sociedade de classes no Brasil é, pois, estudar, por  
metonímia, as razões do subdesenvolvimento do país. Não se trata de raça e cultura apenas. Se  
trata de raça, cultura, subjetividade, sociedade e política. O entrelaçamento de forças históricas,  
mas que também circulam no presente e se fazem concretas no plano do acesso aos direitos e  
ao mundo do trabalho. As mentalidades que subalternizam e que são subalternizadas devem ser  
compreendidas nas suas contradições e enlaces como forças que contrapõem, mas também se  
arrolam na construção da modernidade capitalista que carrega consigo, no seu sistema  
circulatório, atitudes e comportamentos arcaicos.  
Ainda sobre as pesquisas relacionadas à desigualdade racial, a autora coloca em relevo  
um aspecto metodológico empreendido por Florestan Fernandes que foi muito inovador nos  
ALMEIDA, R. E.  
288  
anos 1950 e 1951. No contexto da realização da pesquisa sobre relações raciais em São Paulo,  
promovida no âmbito do Projeto Unesco, o professor Roger Bastide encarregou Fernandes da  
tarefa de feitura do projeto de estudo no qual o autor desenvolveu importante argumentação  
teórica sobre a pergunta “o tema do preconceito pode ser tratado sociologicamente?”, bem como  
fez discussão para diferenciar “preconceito” de “discriminação”. Elide Rugai Bastos revisa com  
profundidade o passo a passo dessa construção e, portanto, não a refaremos aqui, mas vale dizer  
do seu resultado, qual seja, que “a fusão dos conceitos permite uma alteração semântica  
importante. As associações e os agrupamentos sociais questionam a denominação “populações  
de cor” [era esta que vigorava naquele momento] e passam a identificar-se como negros”  
(Bastos, 2025, p. 156). E ainda no projeto de pesquisa, Fernandes considerou entre a realização  
de entrevistas, estudos de caso e aplicação de questionários um procedimento específico muito  
arrojado que foi o de reunir intelectuais negros colaboradores da pesquisa “indicando-os como  
jornalistas, funcionários públicos, escritores, médicos, professores. Essas pessoas participaram  
de seminários e mesas-redondas organizados por Roger Bastide e Florestan Fernandes,  
patrocinados pela Unesco, realizados na Biblioteca Municipal, com associações como José do  
Patrocínio ou reuniões de mulheres de cor, na USP” (Bastos, 2025, p. 162).  
Segundo Elide Rugai Bastos, no capítulo sete, intitulado “Dois livros: dez anos de  
intervalo”, foi este manancial empírico e teórico, colhido e elaborado em inícios da década de  
1950 no contexto do Projeto Unesco, que garantiu as condições e possibilidades para Florestan  
Fernandes escrever, entre 1963 e 1964, aquele que é “sem dúvida, um dos mais importantes  
livros direcionado à compreensão do Brasil” (Bastos, 2025, p. 163), A integração do negro na  
sociedade de classes, pois que é nesse livro, segundo Elide, que Fernandes derruba de uma vez  
por todas quaisquer interpretações sobre a realidade brasileira baseadas na democracia racial.  
Ao tratar do negro como “o elo mais fraco da corrente social” (Bastos, 2025, p. 170), Florestan  
procura compreendê-lo como cidadão que vive à margem da sociedade de classes e busca  
demonstrar, metodologicamente, como “um grupo que carrega desvantagens maiores do que  
outros para integrar-se socialmente” pode ser tomado como metonímia de um processo maior,  
pois “a partir da periferia percebe-se melhor o movimento da sociedade, possibilitando, assim,  
a percepção dos princípios que a articulam”. (Bastos, 2025, p. 170) O estudo do negro e as  
dificuldades de sua integração na sociedade de classes sugere, pois, em nível microcósmico o  
que se pode estudar em nível macrocósmico sobre os problemas de integração nas relações  
entre centro e periferia do capitalismo.  
289  
O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
O leitor que procurar nesse livro de Elide Rugai Bastos aquele “lugar comum” que  
afirma haver um Florestan Fernandes cientista social funcionalista até idos de 1964 e um outro  
Florestan Fernandes marxista combativo após sua aposentadoria compulsória pela Ditadura  
Militar, por óbvio, se desencantará. Em A máquina da desigualdade, a professora Elide  
apresenta uma hipótese sofisticada que vai muito além de querelas desnecessárias: em  
realidade, a partir dos trabalhos de Florestan Fernandes e de suas orientações teóricas e  
metodológicas, seus alunos, entre eles, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, José de  
Souza Martins, inovaram a agenda de pesquisa sociológica em temas que Elide sistematizou na  
chave “pensamento social da Escola Paulista de Sociologia”, quais sejam: i) o atraso como eixo,  
que permitiu formulação de questões importantes sobre o dinamismo da produção, as  
disparidades regionais, a comparação com outras realidades latino-americanas e a coexistência  
do arcaico e do moderno na estrutura da sociedade brasileira; ii) um padrão teórico-  
metodológico que é o de se debruçar sobre a periferia para a partir dela perceber, por metonímia,  
o movimento da sociedade e assim buscar a compreensão de seu funcionamento; iii) a tensão  
como constitutiva da sociedade, afastando-se, pois, da ideia de que as tensões sociais são  
sempre disruptivas e anômicas e que, pelo contrário, ela pode em si ter validade heurística uma  
vez que ela faz parte da natureza da sociedade, sobretudo em contextos de subordinação externa  
e dependência; iv) sujeitos políticos/sujeitos sociais, tensão que aparece sobretudo nos estudos  
de Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni sobre o mundo agrícola e escravista, nos quais  
“a natureza da sociedade condiciona a própria emergência dos sujeitos políticos” (Bastos, 2025,  
p. 244); v) a crise, como conceito que Florestan concebe como “móvel do pensamento  
sociológico nas condições latino-americanas” e José de Souza Martins utilizará como elemento  
explicativo em análises de conjunturas; vi) passado e presente, a dinâmica entre o velho e o  
novo no estudo do sistema político ou no estudo das cidades como fez Maria Arminda do  
Nascimento Arruda no seu livro Metrópole e cultura: São Paulo no meio do século XX; vii)  
ambivalência, sobretudo a dos intelectuais, suas ideias e suas práticas já que leem o que é  
moderno, mas vivem em realidade escravista como analisou Walquiria Leão Rego ao tratar de  
Tavares Bastos e; viii) a crise da modernidade, ou “por que as expressões da modernidade  
emergente não cumpriram todas as virtualidades contidas em suas promessas” (Bastos, 2025,  
p. 262).  
A economia do livro é um convite à leitura: traz texto na orelha interna do sociólogo,  
professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Antonio Brasil Junior, e texto na quarta  
ALMEIDA, R. E.  
290  
capa do sociólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas, Mário Augusto Medeiros  
da Silva. A introdução é indispensável: situa o leitor, de fato, para o que virá a seguir e o mais  
importante, justifica a atualidade do livro, pois “a questão da desigualdade abordada por  
Florestan Fernandes e autores que compõem a tradição por ele inaugurada é o grande tema do  
mundo contemporâneo” (Bastos, 2025, p. 31).  
O volume segue divido em três partes e onze temas: Parte 1 Teoria e Metodologia:  
Questão social e sociologia, onde é discutido o conceito de questão social, os temas da  
diversidade e da desigualdade, da consciência social e da democracia; A construção das ciências  
sociais, na qual Elide disserta sobre a ambiência cultural de São Paulo, a cidade como campo  
de pesquisa e as questões da implicação política do fazer sociológico nos anos 1950; Uma  
sociologia local e cosmopolita, tópico no qual está discutida a tese de que a sociologia de  
Florestan é feita na periferia, mas não por isso deixa de ser central para a sociologia; O controle  
das mudanças sociais, por que Florestan adotou mudanças no plural e qual a atualidade do tema  
para a sociologia; A história nunca se fecha, na qual a autora aborda a centralidade da expressão  
“circuito fechado” elaborada por Florestan Fernandes e suas implicações teórico-  
metodológicas, bem como sua importância para a atualidade na pesquisa social. Parte 2 –  
Questão Racial e Modernização: Raça e revolução burguesa, no qual a autora reconstrói o  
itinerário do tema da desigualdade racial nos estudos e pesquisas de Florestan e como ele se  
solda da perspectiva micro à macrossocial; Dois livros: dez anos de intervalo, em que Elide  
trata da relação entre dois livros “muito importantes para o desenvolvimento das ciências  
sociais no Brasil” (Bastos, 2025, p. 149), quais sejam, Relações raciais entre negros e brancos  
em São Paulo, de Roger Bastide e Florestan Fernandes de 1955 e A integração do negro na  
sociedade de classes, de Florestan Fernandes de 1965; Um entre outros debates sobre  
preconceito racial, no qual a autora escreve sobre um polêmico artigo de Paulo Duarte de 1947  
e, a partir dele, o debate sobre o preconceito racial na Revista Anhembi, a questão da  
democracia racial e o problema do negro na realidade brasileira. Parte 3 Uma Tradição  
Sociológica: Raça e Nação, em que são revistados os estudos e pesquisas da Universidade de  
São Paulo sobre a questão racial, a partir dos estudos em Florianópolis e Curitiba, bem como a  
relação entre raça e organização nacional; Pensamento Social da Escola Paulista de Sociologia,  
ao qual já fizemos referência acima e; Atualidade do pensamento social brasileiro, no qual os  
temas do subdesenvolvimento, da marginalidade e da mudança social são repostos à  
compreensão da agenda vigente de pesquisa nas ciências sociais brasileiras.  
291  
O dispositivo da Sociologia: Elide Rugai Bastos interpreta Florestan Fernandes  
Ademais, cabe perguntar, em um livro que trata tanto da metodologia de um dos mais  
importantes sociólogos, qual foi o método da autora? Diremos que ela não se deixou enganar  
pelos discursos acessórios, pelos críticos e comentadores e por revisões bibliográficas insólitas  
e maçantes, pois foi procurar na fonte primária as respostas às suas questões. Isto é, o manancial  
empírico de seu trabalho são os textos de Florestan Fernandes e dos sociólogos da Escola  
Paulista de Sociologia. São eles que falam, mais uma vez, pelas palavras de Elide Rugai Bastos  
em um livro que organiza e faz compreender o lugar e a importância de um sociólogo que viveu  
e trabalhou na e sobre a periferia do capitalismo e nos legou uma escola para o aprendizado do  
Brasil e, simultaneamente, nos ensinou como fazer sociologia em qualquer lugar.  
Recebido em: 27/5/2026  
Aceito em: 29/5/2026  
ISSN 1517-5901(online)  
POLÍTICA & TRABALHO  
Revista de Ciências Sociais, nº 62 - 2025, p. 292 - 301  
SOCIOLOGIA DO TRABALHO E MODERNIZAÇÃO:  
os caminhos compartilhados entre Brasil e França  
SOCIOLOGY OF WORK AND MODERNIZATION:  
the Shared Paths Between Brazil and France  
____________________________________  
Tarik Dias Hamdan  
FESTI, Ricardo. As origens da sociologia do trabalho: Percursos cruzados entre Brasil e  
França. São Paulo: Boitempo Editorial, 2023.  
“As origens da sociologia do trabalho: percursos cruzados entre Brasil e França” é um  
livro lançado no ano de 2023 por Ricardo Festi, doutor em sociologia pela Universidade  
Estadual de Campinas. Essa obra é resultado de sua tese de doutorado, defendida em 2018, sob  
a orientação do professor Ricardo Antunes, e de um doutorado-sanduíche realizado na França,  
sob a tutela do professor Michel Löwy. Nele, o autor se dedica a analisar os fundamentos sociais  
das ideias dominantes no processo de criação da sociologia do trabalho, concentrando-se nas  
trajetórias da disciplina na França e no Brasil durante as décadas de 1950 e 1960. A escolha  
desse recorte empírico não é acidental, mas sim resultado do objetivo de compreender  
criticamente as motivações dos fundadores da sociologia do trabalho no Brasil, especialmente  
a chamada “sociologia uspiana do trabalho”. Para isso, foi fundamental compreender as  
relações que esses autores mantinham com os sociólogos franceses e a constituição de redes  
transnacionais acadêmicas. Dessa forma, podemos classificar o livro como uma pesquisa  
É doutorando em sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA). Foi  
professor substituto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente é professor substituto na  
Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem interesse nas áreas de sociologia do trabalho e sociologia  
econômica. É integrante do Núcleo de Pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA). E-mail:  
HAMDAN, T. D.  
293  
genética que, embora reconheça a autonomia relativa das ideias, busca entender as razões  
materiais para o seu surgimento1.  
A primeira parte, intitulada “As ciências sociais na era de ouro do capitalismo”, examina  
o surgimento da sociologia do trabalho após a Segunda Guerra Mundial durante os chamados  
“trinta anos gloriosos” que se seguiram a esse evento. Para o autor, tal período deixou duas  
marcas significativas: a consolidação do modelo taylorista-fordista como um ideal de  
modernização e a constituição de uma comunidade internacional no campo das ciências sociais.  
No que diz respeito ao primeiro ponto, é importante ter em mente que o taylorismo-  
fordismo, chamado por Gramsci de americanismo, passou a ser exportado dos Estados Unidos  
para outros países como sinônimo de modernidade. Na perspectiva dos autores da época, a  
implementação desse modelo de produção visava a superar as relações tradicionais  
provenientes do período pré-capitalista, assim como as relações produtivas desenvolvidas no  
regime capitalista não monopolista do século XIX. A adaptação ao capitalismo monopolista,  
que marcou grande parte do século XX, exigia que o taylorismo-fordismo vencesse a resistência  
tanto dos industriais, que impediam a modernização dos seus empreendimentos ao não aderir a  
formas modernas de gestão desenvolvidas no pós-guerra nos EUA, quanto dos trabalhadores,  
que não aderiam ao padrão taylorista de organização nas fábricas.  
No Brasil, a utopia da modernização foi vivida nas décadas de 1950 e 1960, ou seja, da  
redemocratização, com o fim do Estado Novo, até o golpe de 1964. Ela era sustentada por uma  
economia em expansão, pelo crescimento do proletariado industrial, o êxodo rural e o início de  
uma classe média consumista. De forma semelhante à França, era necessário superar os  
resquícios dos antigos modos de produção e levar as classes sociais a se ajustarem ao  
capitalismo monopolista. No caso brasileiro, embora a Revolução de 1930 tenha iniciado um  
processo de modernização, o país ainda convivia com uma estrutura agrária e de classes,  
herdada da sociedade escravocrata, fundamentada no latifúndio. Nesse sentido, tanto os  
trabalhadores quanto os empresários não contavam com disposições ajustadas à ordem  
competitiva. No caso dos primeiros, isso era fruto de sua socialização em regimes de trabalho  
diferentes do trabalho livre e assalariado (Fernandes, 2008). Já os últimos, de modo similar ao  
1
Embora a pesquisa tenha uma clara inspiração marxista e em especial lukácsiana, os fundamentos sociais não  
devem ser entendidos apenas como relacionados às relações de produção, contemplando também os interesses de  
grupos específicos e redes sociais que se constituíram ao longo do tempo.  
Sociologia do Trabalho e modernização:  
294  
os caminhos compartilhados entre Brasil e França  
ambiente francês, resistiam a passar de formas patrimoniais de gestão em favor de modelos  
mais modernos (Cardoso, 2020).  
A consequência das transformações do capitalismo durante esse período tornou o mundo  
do trabalho e da indústria um dos objetos fundamentais para entender a totalidade da sociedade.  
Por essa razão, era necessário o desenvolvimento de estudos sociológicos que, para além de  
entender o processo de modernização das sociedades, pudessem intervir e influenciar os  
desdobramentos, controlando os efeitos das mudanças.  
Ainda na parte 1, o autor analisa que a institucionalização da sociologia do trabalho nas  
décadas de 1950 e 1960 esteve associada a uma série de políticas promovidas por diversos  
agentes com o objetivo de constituir uma comunidade acadêmica internacional. Entre os atores,  
destacam-se ações de organizações como a Unesco, que auxiliou na criação da Associação  
Internacional de Sociologia (ISA), bem como entidades filantrópicas como a Fundação  
Rockefeller, que apoiou o Centre de Documentation Sociale (CDS), e a criação de novos  
periódicos, como a Annales Sociologiques.  
Na segunda parte da sua obra, intitulada “A sociologia do trabalho na França (1950-  
1960)”, Festi analisa o surgimento da sociologia do trabalho francesa após a Segunda Guerra.  
Para isso, destaca o sociólogo Georges Friedmann como principal responsável pelo surgimento  
da disciplina, sendo chamado por muitos de “pai da sociologia”. Além disso, aborda  
personagens que foram influenciados por ele, como Jean-Daniel Reynaud, Michel Crozier e,  
principalmente, Alain Touraine.  
Para Festi, há um momento de inflexão entre o período anterior e posterior à guerra.  
Além da interrupção de pesquisas e o fechamento de centros, ocorreu o exílio e a morte de  
intelectuais importantes. Na França, importantes nomes, como March Bloc e Maurice  
Halbawchs, não sobreviveram à guerra, e outros autores, como Marcel Mauss, foram  
perseguidos e tiveram que interromper suas atividades acadêmicas. Além disso, as  
consequências da ocupação nazista resultaram no exílio de intelectuais em outros países, como  
foi o caso de Georges Gurvitch, Claude Lévi-Strauss, Raymond Aron e, o mais importante para  
o livro, Georges Friedmann.  
O efeito da guerra no campo acadêmico na França foi a perda da hegemonia acadêmica  
e a passagem dela para os norte-americanos. Além de terem sido menos afetados, o exílio de  
parte da intelectualidade francesa permitiu que os pesquisadores desse grupo fossem  
profundamente influenciados pelos desenvolvimentos científicos que ocorreram no país.  
HAMDAN, T. D.  
295  
Gurvitch sintetizou os objetivos da sociologia francesa nas décadas seguintes ao afirmar que a  
missão da sociologia é incorporar os avanços descritivos das ciências sociais norte-americanas  
e enquadrá-los sob esquemas conceituais teoricamente mais ricos, algo que seria uma  
especialidade das ciências humanas na França. Segundo Festi, foi nos estudos sobre o mundo  
do trabalho que essa combinação obteve mais avanços na época. Dessa forma, a característica  
da sociologia do trabalho que se desenvolveu foi ser uma sociologia empírica e aplicada,  
influenciada pelo ideal de modernização do taylorismo-fordismo e com o objetivo de controlar  
os processos de transformação.  
Friedmann foi um dos pioneiros nos estudos sobre trabalho e teve a ambição de realizar  
uma sociologia aplicada, tendo dirigido suas pesquisas no Centre d’Études Sociologiques  
(CES). Para Festi, sua influência no ambiente francês e internacional deve-se não apenas à sua  
competência como pesquisador, mas também ao intercâmbio estabelecido com autores de  
diversos países e suas relações com instituições internacionais como a Unesco e a ISA. É  
especialmente relevante destacar as relações de Friedmann com os estudos do trabalho norte-  
americanos, em especial a sociologia industrial representada pela Escola de Relações Humanas,  
sob a direção de Elton Mayo.  
Ao se inspirarem no estrutural-funcionalismo de Pareto, os norte-americanos percebiam  
a empresa como um sistema social cujas partes são interdependentes. Dessa forma, qualquer  
mudança em um elemento pode gerar alterações em outros, alterações essas que podem ser  
patológicas ou levar ao equilíbrio. A tese fundamental de Mayo era a de que a produtividade  
não depende apenas de fatores técnicos e organizacionais, mas também engloba aspectos das  
relações humanas e sociais, chamadas pela Escola de fatores humanos.  
Embora sustentassem a indispensabilidade de considerar as relações humanas, na visão  
de Friedmann e seu grupo era necessário compreender a vida social dos trabalhadores para além  
do ambiente fabril, reconhecendo-os como componentes de uma classe social que demanda  
uma análise holística. Nesse contexto, criticavam a compreensão limitada de Mayo e sua Escola  
em relação às complexidades envolvidas na formação de uma classe social e no  
desenvolvimento de sua consciência.  
Dessa maneira, tornou-se imprescindível desvencilhar-se da tradição da sociologia  
industrial norte-americana e estabelecer uma nova disciplina acadêmica: a sociologia do  
trabalho. Portanto, era necessário realizar estudos interdisciplinares sobre o mundo do trabalho,  
dialogando com a psicologia social, a economia, a demografia e a história do movimento  
Sociologia do Trabalho e modernização:  
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os caminhos compartilhados entre Brasil e França  
operário. O objetivo central era construir, por meio dos estudos sobre o trabalho, explicações  
sociológicas que levassem em conta a totalidade da sociedade e sua historicidade. Esse novo  
paradigma deu início a uma grande heterogeneidade de temas pesquisados ao longo das décadas  
de 1950 e 1960, como as atitudes operárias e suas consciências, a mobilidade social e  
profissional dos trabalhadores, o impacto das transformações tecnológicas na sociedade, formas  
de organização das empresas, sindicalismo, entre outros.  
Entre os diversos trabalhos desenvolvidos ao longo dessas décadas, há uma visão geral  
que unifica os empreendimentos investigativos realizados pelos sociólogos franceses do  
trabalho, definida a partir do dualismo entre tradicional e moderno. Essa abordagem se justifica  
pelo fato de que o objetivo desses estudiosos era analisar o processo de modernização da  
sociedade francesa e os obstáculos que dificultavam essa transformação. Desse modo, os vários  
fenômenos estudados pelos autores, como os tipos de indústria, a consciência operária e a  
postura dos empresários, poderiam ser compreendidos como manifestações de formas de  
conduta e organização tradicionais ou modernas a primeira representando expressões dos  
modos de produção pré-capitalistas ou relacionadas ao capitalismo concorrencial do século  
XIX, enquanto a segunda refere-se aos comportamentos ajustados ao capitalismo monopolista  
do taylorismo-fordismo.  
Um dos principais estudos exemplificadores da visão dos pesquisadores franceses foi  
conduzido por Alain Touraine e dirigido por Friedmann durante os anos de 1948 até 1954 nas  
fábricas da Renault2. No complexo de fábricas, o autor encontrou evidências que considerou  
como a expressão das “sucessivas etapas da evolução técnica da indústria francesa desde a  
Primeira Guerra Mundial” (Festi, 2023, p. 152). Touraine identificou dois departamentos  
completamente diferentes em termos de técnica e de organização do trabalho O primeiro,  
chamado de usinagem de peças motores, era responsável por fabricar peças para diversos  
motores e nele foram observadas máquinas ultrapassadas e oficinas com chaminés e estoques  
abarrotados. Já o segundo, por sua vez, denominado usinagem e montagem do 4CV, era um  
galpão consagrado para a fabricação do modelo do carro 4CV, com máquinas modernas e um  
estoque reduzido. Esses dois departamentos representavam a diferença entre a velha indústria  
francesa de antes da Primeira Guerra Mundial (arcaica) e as fábricas modernas que passaram a  
dominar o cenário francês depois de 1945.  
2
Esse trabalho resultou na obtenção do diploma de Estudos Superiores em História (mestrado) em 1949 e a  
produção do livro L’ Evolution du travail ouvrier aux usines Renault, publicado em 1955 (Touraine, 1955).  
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Do ponto de vista do processo de trabalho, o primeiro departamento representava um  
sistema de trabalho qualificado, enquanto o segundo era caracterizado pelo trabalho  
especializado. Esperava-se que o desenvolvimento da vida econômica resultasse na transição  
da primeira forma de organização para a segunda. No sistema de trabalho qualificado, o  
operário desfrutava de autonomia profissional e a qualidade profissional era determinada por  
suas habilidades como, por exemplo, rapidez e reflexos. Ademais, as habilidade eram  
adquiridas por meio da experiência no trabalho, e as máquinas que utilizavam eram universais,  
o que exigia do operário qualificação e habilidade para realizar múltiplas operações e para  
fabricar peças diferentes. Em contraste, no trabalho especializado, há o parcelamento do  
processo de trabalho através da especialização das máquinas, substituindo o operário  
qualificado pelo operário especializado. Nessa fase, os trabalhadores não eram mais  
polivalentes e não detinham mais o controle do processo de trabalho3.  
Para Touraine, a transição do operário qualificado para o especializado teria resultado  
em mudanças na consciência operária. No século XIX, o trabalhador, semelhante ao artesão,  
constituía-se em uma classe social que estabelecia uma barreira entre sua cultura e o resto da  
sociedade, tornando evidente o antagonismo de classe. Com o desenvolvimento de máquinas  
específicas fenômeno chamado por Friedmann de maquinismo , as barreiras entre os  
operários e a sociedade passaram a ficar ofuscadas devido à alienação do trabalho4, resultante  
da perda do controle sobre o processo de trabalho e o desenvolvimento de fenômenos como o  
consumo e a cultura de massas.  
A visão de Friedmann sobre a passagem do operário qualificado para o especializado  
era marcada por ambiguidades. Segundo ele, o parcelamento da força de trabalho, embora  
traumático para os trabalhadores, era uma etapa necessária para o processo de automação,  
orientado pelo objetivo de reunir novamente concepção e execução em novos termos. Assim,  
seguir-se-ia o desenvolvimento de máquinas polivalentes, exigindo trabalhadores qualificados  
3 Como é possível perceber, as reflexões do grupo de Friedmann e do estudo feito por Touraine se assemelham às  
descrições de Marx em O capital sobre a passagem do artesão para a manufatura e, em seguida, para a fábrica no  
século XIX. Segundo Marx (2015), para além de questões ligadas à produtividade, o que estava em questão era a  
expropriação do saber do processo de trabalho por parte da burguesia, tendo em vista dificultar as reivindicações  
dos trabalhadores.  
4 Para Festi, a interpretação da categoria de alienação em Friedmann era fruto de uma leitura particular de Marx.  
Para ele, ela significava a perda do controle do processo de trabalho, acompanhado da parcelização do trabalho e,  
portanto, a desqualificação dele, tornando a vida na fábrica cada vez mais monótona e repetitiva. Festi ressalta  
que, para Friedmann, bastaria a superação dessas características do trabalho para pôr fim a alienação. Para o autor  
do livro, essa visão seria uma leitura simplista da obra de Marx, que compreendia que a superação do trabalho  
alienado estava relacionada com o fim da sociedade capitalista baseada na extração de mais-valor.  
Sociologia do Trabalho e modernização:  
298  
os caminhos compartilhados entre Brasil e França  
para operar as novas máquinas. A esse grupo de trabalhadores, Friedmann chamou de “novos  
artesãos”.  
Outros estudos do mesmo grupo destacam a importância do dualismo tradicional e  
moderno. Touraine, por exemplo, estudou a consciência dos trabalhadores na França e na  
América Latina em especial no Chile5 , investigando como diferentes trajetórias produzem  
consciências operárias diferentes. Tanto na França como no Chile, operários de lugares mais  
tradicionais vindos do meio agrário, por exemplo tinham tendências à ruptura com a ordem  
moderna, sendo sua percepção moldada pela comunidade de maneira geral, sem formar um  
grupo autônomo. Em contraste, os operários de origem urbana ou que não pertencem à primeira  
geração de trabalhadores industriais representavam exemplos de consciência de classe mais  
explícita. Esses trabalhadores constituíam um grupo autônomo e, em vez de almejarem uma  
ruptura com a ordem moderna, demonstravam uma consciência de progresso econômico e  
social. Festi destaca a influência desse tipo de estudo na sociologia do trabalho brasileira,  
impactando autores como Leôncio Martins Rodrigues, que reproduziu essa tese no livro  
“Industrialização e atitudes operárias” (Rodrigues, 2009).  
Na terceira parte, intitulada “A sociologia Uspiana do trabalho”, Festi situa o início da  
sociologia do trabalho no Brasil na Universidade de São Paulo (USP) com os estudos de Mario  
Wagner Vieira da Cunha, no Instituto de Administração, nos anos 1950. Esse campo de estudo  
foi consolidado com o grupo de pesquisa vinculado à Cadeira de Sociologia 1, o Centro de  
Sociologia Industrial e do Trabalho, liderado por Fernando Henrique Cardoso.  
Para Festi, a sociologia do trabalho no país foi influenciada pela vinda dos sociólogos  
franceses para a América Latina nas décadas de 1950 e 1960. Ao mesmo tempo, outro fator  
influenciador foi o patrocínio de pesquisas envolvendo a temática do trabalho por organizações  
internacionais, como a Unesco, a Organização dos Estados Americanos (OEA), fundações  
filantrópicas, entre outras. Sobre o intercâmbio com os acadêmicos franceses, uma das  
principais visitas foi feita por Friedmann, em 1958, na USP. Ela foi possível devido à  
consolidação da comunidade acadêmica internacional, em especial, dos vínculos feitos desde a  
criação da ISA, em que a participação dos brasileiros nas diretorias foi relevante. Já sobre a  
participação de outras entidades internacionais, cabe destacar os incentivos da Unesco, como a  
5 Touraine participou no Chile da criação de uma linha de pesquisa de sociologia industrial. Um dos autores que  
ajudou o autor francês na época foi o jovem Enzo Faletto. Eles estudaram uma mina de Carvão em Lota e uma  
siderúrgica em Huachipato. A primeira representava o mundo tradicional, enquanto a segunda, o moderno.  
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criação da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e o Centro Latino-  
Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (Clapcs), que começaram a funcionar em 1958.  
Após a primeira fase de desenvolvimento da disciplina com a vinda de Friedmann, a  
principal figura que desembarcou em 1960 foi Alain Touraine. Ele ministrou um seminário de  
sociologia do trabalho e ajudou professores e assistentes a planejarem a criação do Cesit, que  
começou a funcionar oficialmente em fevereiro de 1962.  
De forma semelhante à sociologia do trabalho francesa, o paradigma que estruturou os  
trabalhos produzidos por esse grupo foi o dualismo tradicional e moderno. Com o processo de  
industrialização e o crescimento significativo da classe operária, a questão central passou a ser  
a superação do atraso por meio da introdução de efeitos modernizadores na parte arcaica.  
Assim, um conjunto de trabalhos foram feitos sobre a organização das empresas, a mentalidade  
dos empresários e a consciência dos operários tendo em vista diagnosticar os motivos pelos  
quais formas não adequadas ao capitalismo monopolista continuavam a sobreviver na sociedade  
brasileira6.  
Um exemplo claro do dualismo tradicional/moderno e da influência francesa no  
pensamento da sociologia do trabalho brasileiro pode ser observado no trabalho de Leôncio  
Martins Rodrigues. Similar à tese de Touraine, Rodrigues apontava que a natureza do processo  
de industrialização, em interação com as características da sociedade, teria colaborado para que  
características arcaicas perdurassem na consciência e atitude dos operários. A especificidade  
do Brasil residiria no fato de que os trabalhadores vindos do campo estariam orientados por  
aspirações de integração à sociedade urbana e moderna, tendo em vista uma racionalidade  
individualista que não permitiu a constituição de uma classe operária com consciência de classe.  
Além disso, a participação política dessas classes se deu sob a égide do populismo, orientadas  
por lideranças paternalistas de classes superiores, o que demonstrava a permanência, na vida  
política, de valores ligados ao mundo tradicional (Rodrigues, 2009).  
Outra análise parecida foi feita por Fernando Henrique Cardoso em “Empresário  
Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil” (2020). Para Cardoso, os empresários  
estariam influenciados pelas formas de gestão tradicional das empresas, baseadas no  
6
Pesquisas semelhantes já haviam sido feitas por Juarez Brandão Lopes na década de 1950 e 1960, no Centro  
Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE). Ao analisar o processo de industrialização de duas cidades-piloto  
(Leopoldina e Cataguases), Lopes (2009) tinha como problemática a adaptação da sociedade tradicional,  
representada pelos trabalhadores rurais, à nova sociedade industrial marcada pelo contexto fabril.  
Sociologia do Trabalho e modernização:  
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os caminhos compartilhados entre Brasil e França  
paternalismo e na transmissão familiar. Nesse sentido, faltaria a eles a racionalidade  
instrumental weberiana para desenvolver a economia brasileira.  
Para Festi, os golpes militares ocorridos nos países da América Latina, como Brasil,  
Argentina e Chile, colocaram fim ao projeto de modernização da sociologia do trabalho desse  
período, pautado na pesquisa empírica para a transformação social. Isso se relaciona com dois  
motivos. O primeiro é a perseguição e aposentadoria compulsória dos intelectuais brasileiros  
partidários da transformação social por caminhos progressistas. Centros como o Cesit deixaram  
de realizar suas pesquisas em andamento para se dedicar à formação de quadros para a Cadeira  
de Sociologia I, buscando substituir os professores perseguidos. O segundo motivo tem a ver  
com o fim do ideal de modernização encampado pelos intelectuais da USP, ou seja, o ideário  
nacional-desenvolvimentista que, por meio do planejamento, controlaria a mudança social e  
econômica. Influenciadas pelo contexto latino-americano, mas também após o seminário  
“Resistências à mudança” organizado pelo Clapcs e a Flacso em 1959, as reflexões de  
personagens como Fernandes e Cardoso se deslocam para os debates sobre os conflitos sociais  
e para a imprevisibilidade das suas consequências. Os resultados serão livros lançados pós-  
golpe, como foi o caso de “A Revolução Burguesa no Brasil” (Fernandes, 2020) e  
“Dependência e Desenvolvimento na América Latina” (Cardoso; Faletto, 2004).  
O livro termina com uma reflexão proposta por Festi sobre a importância de se estudar  
as origens da sociologia do trabalho no Brasil e na França nas décadas de 1950 e 1960. Para  
ele, em uma época em que as ciências sociais estão dominadas pela crença na  
incognoscibilidade da totalidade e pela crescente especialização e fragmentação da sociologia  
em múltiplos campos, o projeto defendido pela sociologia do período estudado se mostra ainda  
de grande relevância, uma vez que se direciona na contramão desse processo. Para os teóricos  
da época, os estudos sobre o mundo do trabalho e da indústria eram pontos de entrada para  
refletir sobre a formação das sociedades de maneira geral, convidando a sociologia a se dedicar  
ao estudo da totalidade concreta novamente.  
Para além disso, revisitar as reflexões feitas ao longo dessas décadas sobre o mundo do  
trabalho nos permite refletir criticamente sobre o dualismo tradicional/moderno que fundou a  
sociologia do trabalho e, em certa medida, está na origem das ciências sociais. Para Festi, uma  
alternativa para esse paradigma é pensar como o binômio atraso/moderno são lados da mesma  
moeda e como o desenvolvimento do capitalismo ocorre de forma desigual e combinada.  
HAMDAN, T. D.  
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Referências  
CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio  
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.  
CARDOSO, Fernando Henrique. Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil. Rio de  
Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.  
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Globo, 2008.  
FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica. São Paulo:  
Editora Contracorrente, 2020.  
FESTI, Ricardo. As origens da sociologia do trabalho: Percursos cruzados entre Brasil e França. São Paulo:  
Boitempo Editorial, 2023.  
LOPES, Juarez Rubens Brandão. Crise do Brasil arcaico. Rio de Janeiro: Centro Edelstein, 2009.  
MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo:  
Boitempo Editorial, 2015.  
RODRIGUES, Leôncio Martins. Industrialização e atitudes operárias: estudo de um grupo de trabalhadores.  
Rio de Janeiro: Centro Edelstein, 2009.  
TOURAINE, Alain. L'évolution du travail ouvrier aux usines Renault. Paris: Centre National de Recherche  
Scientifique, 1955.  
Recebido em: 16/6/2023  
Aceito em: 1/9/2023