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        <article-title>ESTADOS UNIDOS, CHINA E AS ANÁLISES DOS SISTEMAS- MUNDO: UMA PERSPECTIVA DE TRANSFERÊNCIA DO CENTRO ECONÔMICO CAPITALISTA GLOBAL UNITED STATES, CHINA, AND THE WORLD-SYSTEM ANALYSIS: A PERSPECTIVE ON THE TRANSFERRAL OF THE GLOBAL CAPITALIST CENTER</article-title>
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      <contrib-group><contrib contrib-type="author"><name>
            <givenName>Matheus Bino</givenName>
            <surname>Teixeira</surname>
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          <xref rid="aff0" ref-type="aff">1</xref>
        </contrib><aff id="aff0"><institution>, Universidade de Lisboa -ULisboa</institution>
        </aff></contrib-group><permissions/><abstract>
        <title>Abstract</title>
        <p>Este artigo tem por objetivo relacionar a perspectiva de centro econômico capitalista encontrada nas Análises dos Sistemas-mundo, com o possível processo de mudança de liderança econômica global dos Estados Unidos da América para a China. A hipótese deste artigo é que a transição de liderança capitalista global é um caso recorrente ao longo da história econômica, caracterizada por fenômenos econômicos e políticos intrínsecos ao sistema interestatal capitalista, de modo que a atual transição de liderança econômica dos Estados Unidos para a China represente o fim e o início de mais um ciclo histórico de centros econômicos capitalistas. O método utilizado para desenvolver esta pesquisa foi o hipotético-dedutivo, sustentado pela referência de literaturas bibliográficas sobre o tema. Palavras-Chave: Estados Unidos; China; Análises dos Sistemas-Mundo; centro capitalista; transição de liderança.</p>
        <p>This article aims to relate the perspective of a capitalist economic center, found in the World-Systems Analysis, with the probable process of changing global economic leadership from the United States of America to China. The hypothesis of this article is that the transition of global capitalist leadership is a case arising throughout economic history, characterized by economic and political phenomena intrinsic to the interstate capitalist system. Therefore, the current transition of economic leadership from the United States to China represents the end and the beginning of yet another historical cycle of capitalist economic centers. The method used to develop this research was hypothetical-deductive, supported by the reference of bibliographic literature on the subject.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <title>Keywords</title>
        <kwd>Palavras-Chave: Estados Unidos</kwd>
        <kwd>China</kwd>
        <kwd>Análises dos Sistemas-Mundo</kwd>
        <kwd>centro capitalista</kwd>
        <kwd>transição de liderança Keywords: United States</kwd>
        <kwd>China</kwd>
        <kwd>World-Systems Analysis</kwd>
        <kwd>capitalist center</kwd>
        <kwd>leadership transition</kwd>
      </kwd-group>
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    <sec>
      <title/>
      <p/>
      <p>e tornando o país em um polo de inovação e produção manufatureira em escala. Os Estados Unidos por sua vez, presenciou uma perda de competitividade do setor manufatureiro em relação a China, bem como uma fuga de capital produtivo rumo ao leste asiático, de modo que a matriz econômica americana se direcionasse à acumulação de capital financeiro e de serviços. Deste modo, será discutido neste artigo a perspectiva das Análises dos Sistemas-mundo no exame da estrutura histórica da economia capitalista global, relacionando o pensamento teórico com a atual conjuntura econômica internacional, especialmente no que concerne ao processo de transição de liderança econômica mundial dos Estados Unidos para a China. As Análises dos Sistemas-Mundo constituem um conjunto de estudos sobre fenômenos da economia política internacional relacionados a divisão internacional do trabalho, formação de economias-mundo, competições interestatais, criação de estruturas hierárquicas de poder e as idiossincrasias dos ciclos econômicos capitalistas, sendo este último o mais relevante para esta pesquisa. Na primeira parte, o artigo explanará, sem entrar em pormenores, a história dos centros econômicos globais, identificando os principais fenômenos que contribuíram para o início e o fim de seus respectivos ciclos. Na segunda parte, serão apresentados os fatores que caracterizam um centro econômico capitalista, baseado no arcabouço teórico das Análises dos Sistemas-mundo propostos por Fernand Braudel, Immanuel Wallerstein e Giovani Arrighi. Na terceira parte, serão apresentados fenômenos que refletem diretamente na ascensão e queda dos centros econômicos capitalistas, a partir dos conceitos fenômenos sólidos e fenômenos variáveis. Finalmente, os conceitos discutidos durante o trabalho serão associados para fundamentar a hipótese principal: a provável transição do centro econômico capitalista mundial dos Estados Unidos para a China em um futuro breve.</p>
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      <title>No campo teórico, autores como Fernand</title>
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      <title>A HISTÓRIA DOS CENTROS ECONÔMICOS CAPITALISTAS</title>
      <p/>
      <p>No século XIV, observa-se a formação do primeiro centro econômico capitalista na cidade italiana de Veneza. O sustentáculo da economia veneziana neste período eram as cobranças de tributos em rotas de comércio marítimo, somadas a prestação de serviços financeiros para agentes estatais e privados, e a exportação de manufaturas provenientes de vidro e seda. O dinamismo econômico da região setentrional italiana conduziu uma expressiva acumulação de capital centrada na cidade de Veneza a partir de 1380. Ademais, o controle do comércio marítimo da península balcânica e de grande parte do mar Mediterrâneo por parte de mercadores venezianos constituiu também uma rentável atividade econômica, alavancando o poder econômico da cidade, que ainda dispunha de sua privilegiada localização geográfica litorânea entre a Europa Ocidental e Oriental, com acesso próximo ao mar Mediterrâneo.</p>
      <p>A centralidade econômica de Veneza perdurou por pouco mais de um século e seu declínio foi acelerado tanto pelas turbulências políticas entre as elites econômicas e a nobreza, quanto pelo conflito histórico com o Império Otomano, prejudicando diretamente o desenvolvimento econômico citadino e as prestações de atividades financeiras.</p>
      <p>Consequentemente, o enfraquecimento econômico veneziano abriu espaço para a competividade de outra região central da Europa Ocidental, a cidade de Antuérpia <xref rid="b4" ref-type="bibr">1</xref> O protagonismo econômico da cidade, entretanto, foi brevemente ofuscado a partir da segunda metade do século XVI, por conta de saques e ataques de tropas militares espanholas, gerando instabilidade política, econômica e social na cidade. O descaso do Império espanhol com as províncias desencadeou posteriormente a revolta neerlandesa e o início da Guerra dos Oitenta Anos naquele mesmo período. Nesta conjuntura, a centralidade da atividade econômica migrou novamente à região setentrional italiana, desta vez, tomando como polo a cidade de Gênova <xref rid="b4" ref-type="bibr">1</xref> O protagonismo econômico genovês, no entanto, foi tão breve quanto a predominância econômica de Antuérpia. A partir das últimas duas décadas do século XVI, a cidade italiana presenciou o declínio de poder do Império espanhol e consequentemente a ruptura da aliança entre ambos. A independência dos Países Baixos do Império espanhol em 1581 marcou tanto a perda de influência do principal aliado italiano, quanto a formação de uma nova nação competitiva no coração da Europa Ocidental. A conjuntura política e econômica construiu um cenário desvantajoso para Gênova, que aos poucos foi perdendo seu protagonismo econômico. Contudo, a mesma conjuntura se apresentou muito vantajosa para o centro econômico em expansão; os Países Baixos <xref rid="b4" ref-type="bibr">1</xref><xref rid="b1" ref-type="bibr">2</xref>  <xref rid="b4" ref-type="bibr">1</xref><xref rid="b1" ref-type="bibr">2</xref>. O quinto centro econômico mundial foi a Grã-Bretanha, cuja predominância militar e econômica passou a ter efeito aproximadamente entre o fim do século XVII e o início do século XIX (1790-1815). A vitória na Guerra dos Sete Anos e as inovações tecnológicas advindas da Primeira Revolução Industrial (1760) abriram um período de longo desenvolvimento econômico, assentado na comercialização de um imenso leque de mercadorias manufaturadas, provenientes tanto da fabricação do ferro e de ferramentas, quanto da utilização de motores e máquinas a vapor, responsáveis por sustentar toda uma cadeia industrial, desde a indústria têxtil até a indústria bélica com os barcos a vapor. Apesar da perda da maior parte do território americano no âmbito do Tratado de Paris (1783), a Grã-Bretanha detinha poder e influência global através de sua expressiva força naval e da exploração de suas colônias ao redor do mundo, estabelecendo uma rede monopolística de comércio mundial <xref rid="b4" ref-type="bibr">1</xref><xref rid="b1" ref-type="bibr">2</xref>.</p>
      <p>Em 1815, com a derrota de Napoleão na França, o Império Britânico viu-se sem concorrentes no cenário internacional e ampliou ainda mais seu poderio econômico e militar, expandindo na mesma medida a acumulação de capital industrial e posteriormente financeiro. A derrocada do Império Britânico tem início no século XX, com o surgimento de movimentos revolucionários nas colônias e o fortalecimento militar e econômico de nações competidoras como o Império Alemão e os Estados Unidos. Após os eventos da Primeira Guerra Mundial <italic>(1914)</italic><italic>(1915)</italic><italic>(1916)</italic><italic>(1917)</italic><italic>(1918)</italic> a Grã-Bretanha perdeu cada vez mais relevância como superpotência mundial, abrindo espaço para a futura liderança mundial, os Estados Unidos da América. A Grande Depressão em 1929 prejudicou a economia mundial como um todo, mas acabou por encerrar o período de centro econômico capitalista da Grã-Bretanha após mais de um século.</p>
      <p>O sexto e presente centro econômico mundial é formado pelos Estados Unidos da América.</p>
      <p>Após a Grande Depressão estremecer a economia mundial, os países iniciaram um processo lento de recuperação econômica. A Alemanha, derrotada na Primeira Guerra Mundial e condenada a indenizar os países vencedores através do Tratado de Versalhes, vivenciou um aumento considerável do desemprego e da pobreza com a crise, fator que foi crucial para a ascensão de Hitler ao poder em 1933. <italic>O Terceiro Reich (1933</italic><italic>-1945</italic> tomou medidas drásticas para a recuperação econômica, adotando uma espécie capitalismo de Estado altamente controlado pelo estamento burocrático nazista. Os alemães cessaram o pagamento do Tratado de Versalhes, o déficit público foi financiado pela emissão de moeda e o governo alemão investiu na industrialização por substituição de importações, sobretudo no setor de infraestrutura militar e bélica <xref rid="b8" ref-type="bibr">3</xref>.</p>
      <p>O Reino Unido utilizou a estratégia da austeridade fiscal aliada ao protecionismo econômico através do aumento de tarifas de importação, no intuito de amenizar as perdas do setor de exportação. O Japão, assim como o Brasil, teve grandes perdas no setor exportador, o que influenciou a ascensão do nacionalismo em ambos os países em 1930, de modo que passassem a adotar medidas protecionistas, políticas industriais agressivas e controle estatal sobre certos meios de produção. A União Soviética, com sua economia planificada e isolada do comércio internacional pouco sentiu os efeitos da crise mundial, priorizando o investimento de seus recursos na indústria de base. A Austrália foi duramente atingida pelos efeitos da crise, sobretudo por sua política econômica primário-exportadora, mas apresentou uma leve recuperação econômica com o aumento do preço das commodities ainda em 1932 <italic>(Hobsbawn, 1995)</italic>.</p>
      <p>Os Estados Unidos abandonaram o capitalismo liberal antes praticado e estabeleceram uma série de políticas protecionistas através do New Deal, que consistia sobretudo em princípios econômicos propostos pelo economista inglês John Maynard Keynes. O Estado americano aderiu a um conjunto de medidas para a recuperação econômica, como o subsídio a produção agrícola, aumento dos gastos públicos para a construção de infraestrutura (estradas, rodovias, usinas hidrelétricas), aporte às instituições financeiras para evitar a bancarrota do sistema financeiro e a desvalorização do dólar como mecanismo de barateamento das mercadorias nacionais, tornando-as mais competitivas no mercado internacional. O Welfare State, ou o Estado de bem-estar social se tornou a política econômica mais adequada em grande parte do mundo capitalista <xref rid="b8" ref-type="bibr">3</xref>.</p>
      <p>Este processo de recuperação econômica, no entanto, foi interrompido pelo advento da Segunda Guerra <italic>Mundial (1939</italic><italic>Mundial ( -1945</italic>, que acabou por arrasar grande parte da Europa. Os Estados Unidos, apesar de participarem da guerra e saírem vitoriosos junto aos aliados, não tiveram seu território continental diretamente atacado, a única exceção foi o ataque japonês a Pearl Harbor, uma base naval no insular Estado americano do Havaí, o que não se assimilou em nada com a destruição generalizada ocorrida na Europa. No pós-guerra, os Estados Unidos detinham recursos e condições de financiar um maciço projeto de reestruturação do continente europeu através do Plano Marshall, além da aptidão para abastecer a Europa com suprimentos e produtos industriais, fator que contribuiu significantemente para o fomento da indústria estadunidense. Nas décadas seguintes, os Estados Unidos expandiram cada vez mais seu poder econômico e militar, bem como sua influência cultural e política pelo mundo, tomando frente de diversas redes de comércio antes dominadas pelos europeus. Na esteira em que o capital industrial americano se estabelecia, o capital financeiro também crescia, tornando-se cada vez mais relevante na economia estadunidense. Entre 1960 e 1990, os Estados Unidos aceleraram o processo de financeirização econômica, direcionando a economia nacional rumo ao investimento nos setores de serviços e finanças especulativas. Nas décadas seguintes, o país testemunhou uma fuga de capital industrial-produtivo rumo ao leste asiático, sobretudo para a China, onde fatores como baixo custo de produção, mão de obra barata e eficiente, além de um grande mercado consumidor foram essenciais para atrair empresas de vários países, motivados pela perspectiva de maiores ganhos de dividendos e maior remuneração de seus capitais. Segundo <xref rid="b4" ref-type="bibr">1</xref>, o início do processo de transferência de liderança de uma economia-mundo para outra ocorre na medida em que a remuneração do capital industrial é reduzida no centro econômico vigente, fator que acaba por desencadear em um movimento de fuga de capital produtivo para outro centro econômico em expansão, acelerando a financeirização da economia nacional e desestimulando sua base produtiva. A Economiamundo é considerada um fenômeno estrutural inserido em uma lógica temporal de longa duração <italic>(Aguirre Rojas, 2013</italic> Neste sentido, a história econômica é composta pelos ciclos: i) Gênova; ii) Países Baixos;</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>OS FENÔMENOS QUE CARACTERIZAM UM CENTRO ECONÔMICO</title>
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    </sec>
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      <title>CAPITALISTA</title>
      <p/>
      <p>iii) Grã-Bretanha; iv) Estados Unidos; consequentemente. O fenômeno econômico observado em todos estes ciclos é baseado na fórmula marxiana de ciclos de expansão material:</p>
      <p>O aspecto central deste padrão é a alternância de épocas de expansão material (fases DM de acumulação de capital) com fases de renascimento e expansão financeiros (fases MD'). Nas fases de expansão material, o capital monetário "coloca em movimento" uma massa crescente de produtos (que inclui a força de trabalho e dádivas da natureza, tudo transformado em mercadoria); nas fases de expansão financeira, uma massa crescente de capital monetário "liberta-se" de sua forma mercadoria, e a acumulação prossegue através de acordos financeiros (como na fórmula abreviada de Marx, DD'). Juntas, essas duas épocas, ou fases, constituem um completo ciclo sistêmico de acumulação. <italic>(Arrighi, 1996, p. 6)</italic>.</p>
      <p>A ideia central neste conceito é a percepção do esgotamento da dinâmica capitalista em forma de ciclos, já trazida pioneiramente por Karl Marx. Todavia, <xref rid="b1" ref-type="bibr">2</xref> complementa esta definição com o conceito de hegemonias mundiais, as quais tem por idiossincrasia, tanto a acumulação de capital que lhe garante o poder econômico, quanto o protagonismo na estrutura interestatal de poder, garantindo àquela nação hegemônica o poder dissuasório, seja pela via política ou pela deterrência. Isto significa que a competição pelo poder (econômico, político e militar), somado à lógica dos ciclos sistêmicos de acumulação formam o sistema internacional contemporâneo e, consequentemente, a divisão internacional do trabalho, subdivida entre centro, periferia e semiperiferia. A disputa pelo poder na arena internacional e a inevitável repetição cíclica do capital produtivo ao capital financeiro justifica as transferências de lideranças internacionais e determinam o início e o fim de um ciclo sistêmico de acumulação.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>A ASCENSÃO E QUEDA DE UM CENTRO ECONÔMICO CAPITALISTA</title>
      <p/>
      <p>Na esteira do pensamento das Análises dos Sistemas-mundo, podemos observar fenômenos que determinam a ascensão e a queda de um centro econômico capitalista ao decorrer da história econômica. Estes fenômenos podem ser divididos entre sólidos e variáveis. O primeiro traz consigo a característica de estrutura de longa duração abordada por Braudel (2009) para definir as Economias-mundo, assim como verifica a sólida tendência de expansão material dos ciclos sistêmicos de acumulação e de hegemonia mundial <italic>de Arrighi (1996)</italic>, que compreende a busca não só pelo domínio global da estrutura econômica, mas também da esfera política e se possível, militar. O segundo compreende aos acontecimentos históricos efêmeros, que variam no sentido de beneficiar ou prejudicar os centros econômicos antes, durante ou após o ciclo, relacionando-se com os movimentos temporais de curta e média duração, conforme a definição de Aguirre Rojas (2013).</p>
      <p>A simbiose destes fenômenos foi verificada nos centros econômicos capitalistas ao decorrer da história, com exceção da antiga Antuérpia, cujo poderio militar não se elevou a ponto de constituir uma força dissuasória relevante. Contemporaneamente, a disputa de forças entre os Estados Unidos e a China representa, nesta perspectiva, a perda de força política e econômica americana e o provável fim de sua liderança como centro econômico global e, por conseguinte, o início do ciclo econômico de liderança chinesa. A financeirização econômica intrínseca ao ciclo econômico capitalista, todavia, gerou necessariamente um aumento do capital especulativo em contrapartida do capital produtivo nos Estados Unidos, promovendo a perda de competitividade do setor manufatureiro americano e uma inevitável fuga de capitais dos Estados Unidos rumo ao sudeste asiático, onde a simbiose entre o custo de produção e a qualificação técnica da mão de obra garantiam uma maior remuneração de dividendos aos capitalistas estrangeiros. Em contorno a isto, a crise financeira de 2008 aprofundou ainda mais as perdas econômicas americanas, levando ao aumento do investimento e do endividamento público como forma de política econômica anticíclica (United States, 2012).</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>DOS ESTADOS UNIDOS</title>
      <p/>
      <p>Por outro lado, a China passou a desempenhar um papel cada mais relevante no cenário político e econômico mundial a partir da segunda metade do século XX. As reformas promovidas por Deng Xiaoping no final da década de 1970 promoveram uma transformação da economia chinesa, antes organizada por uma estrutura rigidamente planificada. A nova matriz econômica foi assentada no que ficou conhecido como o "socialismo com características chinesas" <xref rid="b14" ref-type="bibr">4</xref>, cujo programa previa modernizações socialistas, especialmente no que concerne a criação de zonas econômicas especiais para o desenvolvimento de quatro áreas (agricultura, indústria, tecnologia e infraestrutura militar).</p>
      <p>A tarefa fundamental da nação será, segundo a teoria sobre a construção do socialismo de características chinesas, concentrar os esforços na modernização socialista. Sob a égide do Partido Comunista da China e a inspiração do marxismoleninismo e do pensamento Mao Zedong, o povo chinês de todas as nacionalidades continuará a aderir a ditadura democrático-popular e a seguir a via socialista, a persistir na reforma e abertura, a melhorar constantemente as instituições socialistas, a desenvolver a democracia socialista, a fortalecer a legalidade socialista e a trabalhar, arduamente e com toda a independência, para a modernização da indústria, da agricultura, da defesa nacional e da ciência e da tecnologia, a fim de transformar a China num país socialista rico e poderoso, democrático e civilizado <xref rid="b6" ref-type="bibr">5</xref>.</p>
      <p>No início da década 1990, com a dissolução da União Soviética, a China buscou expandir cada vez mais a sua influência internacional na região da Eurásia através de acordos Na área de tecnologia, a China construiu todo um ecossistema de inovação em todos os campos da indústria, seja de base, bens de consumo, bens de capital, indo até a indústria de ponta, levando o país à liderança mundial da mais recente indústria da "internet das coisas".</p>
      <p>O setor de mercado de pagamentos hoje na China é o mais avançado do mundo e recentemente o país criou a primeira versão de sua moeda totalmente digital, o E-yuan, desafiando a posição do dólar americano no comércio internacional através das novas possibilidades de uma nova reserva de valor internacional baseada em uma moeda digital e lastreada por uma economia desenvolvida em expansão <italic>(Cunha, Ferrari e Peruffo, 2020)</italic>.</p>
      <p>Em comparação aos Estados Unidos -com PIB estimado em aproximadamente US$ 21,4 tri -a China é hoje a segunda maior economia do mundo, com PIB de aproximadamente US$ 14,7 tri, segundo dados do Banco Mundial <xref rid="b18" ref-type="bibr">6</xref>. Em PIB por paridade de compra a China já ocupa o posto de primeiro lugar, com uma cifra de aproximadamente US$ 23,5 tri. Ainda nesta esteira, a China contemporânea compartilha do status de maior economia industrial, maior país exportador e maior representante comercial do mundo Em segundo lugar, a crise financeira de 2008, impulsionada pela expansão vertiginosa do mercado de crédito americano desde a década de 1990 e pela falência do banco de investimentos Lehman Brothers -cuja principal atividade estava associada a serviços financeiros de alavancagem de hipotecas no setor imobiliário -abalou a estrutura da economia global, provocando uma depressão econômica não só no centro econômico mundial, mas também nas economias em desenvolvimento. A decorrência do prejuízo econômico mundial causado pela instituição financeira americana gerou uma insatisfação coletiva por parte dos países em desenvolvimento, o que levantou desconfiança e questionamento a respeito da liderança econômica global dos Estados Unidos, abrindo espaço para novos competidores aptos a desafiar o poder constituído, como é o caso da China.</p>
      <p>Em terceiro lugar, a disputa econômica entre China e Estados Unidos, impulsionada pelo presidente Donald J. Trump e chamada pela grande mídia de "guerra comercial" afetou diretamente a economia global e provocou uma considerável fuga de capitais da China. A taxação de produtos importados da China por parte do governo dos Estados Unidos prejudicou o setor exportador chinês, que respondeu na mesma moeda as retaliações, taxando a importação de produtos americanos, acreditando no princípio da interdependência econômica entre os dois países.</p>
      <p>A resposta na mesma medida por parte do governo chinês serviu também como demonstração de força, sinalizando que a China está de fato desafiando a liderança econômica global. Com a saída turbulenta de Donald J. Trump da presidência dos Estados Unidos em 2021, marcada por convulsões políticas e sociais que abalaram a democracia americana, a China acabou por preservar sua força econômica e o pragmatismo político de sua política internacional, passando a almejar uma relação mais diplomática e cordial entre os dois países com a administração Biden em seu primeiro mandato, muito embora a competição entre os dois países nas mais variadas searas provavelmente se manterão intensas.</p>
      <p>Em quarto lugar, a pandemia do COVID-19 iniciada na China no final de 2019 foi responsável por deteriorar a economia mundial a níveis significativos. O FMI projeta que em 2020, a economia mundial apresentará o pior desempenho desde a Grande Depressão em 1929. Segundo a Confederação Nacional de Serviços (2020), a estimativa é que o PIB global encolha cerca de 5,9% em comparação com 2019. Mesmo diante deste cenário de recessão, a China foi a única economia desenvolvida que apresentou crescimento econômico do PIB em 2020, com cerca 2,3% em comparação ao ano anterior <xref rid="b17" ref-type="bibr">7</xref>. Na outra mão, economias desenvolvidas da Europa e da Ásia como Alemanha e Japão entraram em recessão após dois trimestres de retração <italic>(G1, 2020a)</italic>, enquanto a projeção do PIB americano para 2020 é de retração de 4,3% <italic>(G1, 2020b)</italic>.</p>
      <p>O ano de 2021 será provavelmente um ano de recuperação da economia global ante pandemia do COVID-19, o que provavelmente refletirá diretamente nas decisões políticas dos países, sobretudo dos policymakers nos Estados Unidos (centro econômico em decadência) e na China (centro econômico em ascensão). De todo modo, tanto as Análises dos Sistemas-mundo, quanto a conceituação dos fenômenos sólidos e variáveis presumem o fim do ciclo americano como centro econômico mundial. A expansão econômica, política e militar da China no século XXI indica que o país provavelmente se tornará o novo centro econômico mundial, fator que poderá servir como mola propulsora para uma reorganização da ordem internacional, bem como da estrutura macroeconômica global, dando início ao ciclo de acumulação chinês.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>CONCLUSÃO</title>
      <p/>
      <p>Diante do exposto ao longo deste artigo, pode-se afirmar que a possibilidade de uma mudança estrutural do sistema internacional nos próximos anos, cujo o evento central seria a transferência de liderança econômica dos Estados Unidos da América para a China, é muito provável. Baseando-se em dados econômicos recentes e no arcabouço teórico de autores que desenvolveram suas respectivas análises de sistemas-mundo, foi possível apresentar o histórico e as características dos ciclos de acumulação capitalista, estabelecendo um certo padrão entre eles. Ao decorrer do trabalho, os conceitos fenômenos sólidos e fenômenos variáveis definiram as principais determinantes de ascensão e queda dos centros econômicos, corroborando com a hipótese proposta.</p>
      <p>Conclui-se, portanto, que o atual cenário da economia política internacional indica a decadência do ciclo de acumulação dos Estados Unidos e a inevitável transferência de liderança econômica para a China. A tendência para os próximos anos é de que a competição entre os dois países se intensifique em todas as esferas de poder. Todavia, as evidências aqui apresentadas sustentam um cenário bastante favorável para os chineses. Finalmente, não</p>
    </sec>
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          <title>Braudel, Immanuel Wallerstein e Giovani Arrighi atentavam para este fenômeno em seus estudos relacionados às Análises dos Sistemas- mundo, considerando a sobreposição do capital financeiro sobre o capital produtivo em um centro econômico global, o reflexo natural da consumação de mais um ciclo de acumulação capitalista, suscitando, consequentemente, na transferência gradual de liderança econômica da potência em queda para o postulante em ascensão. Relatórios econômicos de instituições internacionais como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e CEBR (Centre for Economics and Business Research) apontaram que até a próxima década, a China se tornará a maior economia do mundo, ultrapassando os Estados Unidos em relação ao seu PIB (Produto Interno Bruto).</title>
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          <title>Os teóricos das Análises dos Sistemas-mundo compartilham conceitos complementares sobre os fenômenos que caracterizam um centro econômico.Braudel (2009) define o centro econômico como Economia-mundo, cuja definição se dá por um conjunto de regras tendenciais compostas por: i) um espaço geográfico com fronteiras limítrofes; ii) uma cidade central capitalista e dominante; iii) o controle de um sistema hierárquico de poder político e econômico. A partir destas premissas, a Economia-mundo configura a ordem internacional a sua maneira, no sentido de acumular os excedentes de capital globalmente, controlar os preços internacionais, capturar os mercados emergentes e conduzir o capitalismo mundial em uma lógica de divisão internacional do trabalho, composta por centro, periferia e semiperiferia.</title>
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          <title>À CHINA, O ATUAL PROCESSO DE TRANSIÇÃO DE LIDERANÇA Com o início do processo de financeirização da economia americana entre as décadas de 1960 e 1970, o paradigma de expansão material estadunidense migrou paulatinamente de um modelo keynesiano e produtivo para um modelo neoliberal e financeiro. O encerramento dos Acordos originais de Bretton Woods promulgados em 1971 pelo até então Presidente Richard Nixon representou o fim do padrão dólar-ouro, utilizado como mecanismo de lastro monetário internacional e conversibilidade. A partir desta medida, o dólar americano se tornou uma moeda fiduciária, isto é, um título independente de qualquer lastro ou conversibilidade e referência de câmbio do comércio e das transações internacionais. Deste modo, o câmbio de praticamente todos os países passou a ser flutuante, baseado na valorização ou desvalorização do dólar americano, garantindo uma vantagem econômica que outros centros econômicos não tiveram durante seus ciclos acumulação. O controle econômico mundial dos Estados Unidos acompanhou também o crescimento de seu poder político e militar no pós-guerra. No campo político, os americanos garantiram sua influência dentro das instituições internacionais e macroeconômicas como ONU (Organização das Nações Unidas), OMC (Organização Mundial do Comércio), FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial. Na seara militar, os Estados Unidos se tornaram de longe a maior potência militar do mundo, com investimento previsto de mais de US$ 700 bilhões em 2020. Ademais, os americanos lideram também a maior aliança militar da história, formada pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A construção desta estrutura de poder tripartido (político, militar e econômico) atribuiu aos Estados Unidos a condição de hegemonia mundial no sistema internacional do século XXI.</title>
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          <title>comerciais e alianças políticas. A integração econômica da China com o resto do mundo ampliou com a liberalização do comércio exterior do país, se juntando à Organização Mundial do Comércio em 2001. Somado a isso, a China expandiu o investimento militar na medida em que crescia economicamente, construindo as bases de seu poder de deterrência. RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 240 A presença da China como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas assegurou sua influência internacional sob decisões político-militares relevantes, bem como a posse de armas de destruição em massa construídas com auxílio dos soviéticos ainda nos anos 1960 garantiram a respeitabilidade da soberania chinesa no campo da segurança internacional. Estes fatores somados consolidaram a posição da China como potência em desenvolvimento ao início do século XX. Entre 2000 e 2019, o crescimento econômico chinês foi de aproximadamente 6,1% ao ano (Trading Economics, 2021). Os efeitos da liberalização econômica do país permitiram o crescimento do dinamismo econômico interno, fomentado pelo gigantesco mercado consumidor de aproximadamente 1,4 bilhões de pessoas, bem como direcionou o setor manufatureiro chinês no sentido de produzir em escala global, reduzindo a competividade de outras nações nas diversas cadeias globais de valor.</title>
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          <title>World Trade Organization, 2019). A importância econômica da China na atual economia global é significativa, se não indispensável. O desenvolvimento constante e expressivo do país asiático nas últimas décadas em comparação à outras nações desenvolvidas suscitou a Matheus Bino Teixeira 241 elaboração de relatórios de instituições macroeconômicas internacionais, cujas previsões afirmam que a China em breve se tornará o centro econômico do mundo. Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e especialistas da HSBC Holdings Plc preveem em seus relatórios que a China poderá ser a maior economia do mundo em 2030, ultrapassando os Estados Unidos em PIB total e PIB per capita (World Bank, 2013; O Globo, 2018a; O Globo, 2018b). Outras fontes de dados variam entre a cautela e alta expectativa. O Centro de Investigação Econômica e Empresarial de Londres (CEBR em inglês) presume que a China será a maior economia do mundo em 2028 (BBC, 2021), enquanto o jornal Financial Times prevê este movimento em 2023 (BBC, 2019). No que concerne a abordagem do conceito dos fenômenos sólidos, a transferência de liderança econômica global dos Estados Unidos para China se apresenta como um evento factível de ocorrer entre as próximas duas décadas, na medida em que ambos, centro econômico em decadência e centro econômico em ascensão se adaptam àqueles preceitos citados anteriormente. Em complemento a isto, podemos destacar os fenômenos variáveis mais relevantes, que refletiram e refletem diretamente no processo de transição de liderança econômica neste período entre ciclos. Em primeiro lugar, o regime político chinês -desenvolvimentista e autoritário, conforme Visentini (2011) -tomou decisões pragmáticas tanto no campo econômico, adaptando a realidade nacional chinesa às diretrizes do capitalismo global, quanto no cenário internacional, mantendo-se neutro em decisões políticas que poderiam comprometer a imagem internacional do país, contudo, a China não deixou de ampliar sua rede de influência nos organismos internacionais e na política externa. Concomitante a isto, o regime teve êxito em controlar as convulsões sociais e políticas que poderiam ameaçar a estabilidade política do país e o projeto desenvolvimentista do Partido Comunista Chinês, sobretudo nas regiões administrativas que não fazem parte da China continental.</title>
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          <title>). O segundo centro econômico é formado a partir do século XVI, aproximadamente entre 1500-1560, com o deslocamento da atividade econômica -sobretudo portuária -para a cidade de Antuérpia, na região do Flandres. A cidade tornou-se o centro cultural, intelectual e financeiro do mundo, sendo responsável pela criação da primeira bolsa de valores da história. O porto de Antuérpia ganhou proeminência pela sua capacidade de recebimento e armazenamento de embarcações e mercadorias, especialmente a partir de 1499 com a Matheus Bino Teixeira 231 descoberta portuguesa da Rota do Cabo, reduzindo a competitividade e a importância de Veneza.</title>
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          <title>). O terceiro centro econômico caracteriza o retorno da atividade econômica para o norte italiano por volta de 1550-1560, mais especificamente para a cidade de Gênova, recebendo grande importância devido a sua localização privilegiada e pela sua condição de comando do comércio marítimo entre a Europa Ocidental, a África setentrional e o mar Mediterrâneo.O aumento do fluxo econômico na região de Gênova foi sustentado pelo controle marítimo dos genoveses em mares estratégicos para redistribuição de mercadorias para a Europa, como especiarias, metais, madeiras e seda. A cobrança de tributos sobre navegações, atracagem, armazenamento e distribuição de mercadorias nos mares controlados pelos genoveses representou uma fonte de renda lucrativa e praticamente inesgotável. Além disso, os genoveses passaram atuar também no setor de prestação de serviços bancários e financeiros.</title>
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          <title>O quarto centro econômico foi representado pelos Países Baixos, tornando-se o centro econômico mundial entre o fim do século XVI e o início do século XVII, aproximadamente entre 1600-1610. Após a declaração da independência neerlandesa do Reino da Espanha em 1581, firmada pelas Províncias Unidas na União de Utrecht e liderada pela família Orange- Nassau, o país recém independente logo gozaria de um pujante desenvolvimento econômico sustentado pelo comércio marítimo e pelas atividades financeiras. As guerras europeias e as perseguições religiosas promovidas pela Inquisição portuguesa e espanhola daquele período contribuíram para o aumento do fluxo migratório de comerciantes e financistas ibéricos rumo às Províncias Unidas, especialmente para a capital Amsterdam, fator que dinamizou eficientemente a economia do país. Na esteira da independência, o fortalecimento do poder marinho neerlandês foi utilizado tanto como mecanismo de defesa militar, quanto de dominação do comércio marítimo, o que fez com que o país monopolizasse o transporte e o armazenamento de mercadorias advindas da Ásia, sob julgo da primeira multinacional da história, a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais. Após quase dois séculos como centro econômico mundial, por volta de 1790, os Países Baixos observaram o movimento paulatino de esgotamento do capital financeiro na região e sentiram as dificuldades causadas pela Guerra dos Trinta Anos, reduzindo sua competitividade econômica e militar, de modo que a transferência de liderança econômica se direcionasse gradualmente para a Grã-Bretanha</title>
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          <title>Wallerstein (1974) define o centro econômico mundial como uma Economia-mundo capitalista, determinada pela própria expansão do sistema capitalista global. Nesta perspectiva, o sistema mundial moderno (pós-Vestfália) é composto por uma ordem internacional capitalista, anárquica, competitiva e conflituosa, onde os interesses nacionais RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 236 pelo controle do poder econômico e político naturalmente moldaram uma divisão internacional do trabalho subdividida em centro, periferia e semiperiferia. O autor destaca também que as Economias-mundo capitalistas podem perder sua relevância não apenas pelo esgotamento do ciclo de acumulação capitalista, mas também devido as disputas promovidas no sistema internacional, bem como pelas decisões políticas dos policymakers no sistema interestatal. Já Arrighi (1996) recorre a alguns dos conceitos trazidos por Fernand Braudel e Immanuel Wallerstein. O centro econômico nesta perspectiva é analisado sobre o conceito de ciclos sistêmicos de acumulação. O autor aponta que estes ciclos possuem um padrão na história econômica capitalista, caracterizados por fenômenos políticos e econômicos semelhantes.</title>
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