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        <article-title>RESENHA A "PERESTROIKA" DE GORBACHEV: UM INSTRUMENTO DA DIPLOMACIA MIDIÁTICA</article-title>
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            <givenName>Pedro Paulo</givenName>
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        <title>Abstract</title>
        <p>Em uma Europa arrasada pela Segunda Guerra Mundial (1939Mundial ( -1945, após a queda do ignóbil regime nazifascista, testemunhou-se a ascensão de duas grandes potências defensoras de ideologias econômicas distintas: os Estados Unidos da América -EUA, essencialmente capitalistas, e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas -URSS, socialista desde a Revolução Russa (1917)(1918)(1919)(1920)(1921)(1922)(1923)(1924)(1925)(1926)(1927)(1928). A disputa pela hegemonia entre as superpotências americana e soviética -estendida no tempo por mais de quarenta anos -fomentou uma corrida econômico-armamentista e foi permeada por diversas crises políticas e diplomáticas.</p>
        <p>Embora o temor da iminência de um confronto nuclear tenha sido constante, o período foi marcado apenas por confrontos bélicos "indiretos", em países periféricos como a Coreia, o Vietnã e o Afeganistão.</p>
        <p>Conquanto não exista um consenso acadêmico a respeito da motivação, é fato que, a partir de meados dos anos 80 do século XX, o regime socialista capitaneado pela URSS atravessava uma crise intensa e passaria por profundas mudanças que visavam a superação do seu declínio, com a pretensão de estímulo e retomada do progresso econômico e social no país. Dentro desse contexto, Mikhail Gorbachev, presidente da URSS à época, propôs a reestruturação econômica do Estado soviético e escreveu, de próprio punho, o livro "Perestroika: novas ideias para o meu país e o mundo" -título oportuno, uma vez que "perestroika", em russo, significa "reconstrução".</p>
        <p>No documento, Gorbachev propõe-se a conversar sobre o panorama vivenciado pelos países socialistas àquela altura; os termos da reconstrução socialista soviética, bem como as consequências advindas das mudanças para a URSS e seus efeitos para o mundo. No decorrer do escrito, também são abordadas mudanças na filosofia da política externa soviética em relação à Europa, aos países em desenvolvimento e aos EUA. Há, inclusive, ante um cenário 1 Universidade Salvador (pedroplvs@gmail.com)   </p>
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        <title>Keywords</title>
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      <p>e soviética -estendida no tempo por mais de quarenta anos -fomentou uma corrida econômico-armamentista e foi permeada por diversas crises políticas e diplomáticas.</p>
      <p>Embora o temor da iminência de um confronto nuclear tenha sido constante, o período foi marcado apenas por confrontos bélicos "indiretos", em países periféricos como a Coreia, o Vietnã e o Afeganistão.</p>
      <p>Conquanto não exista um consenso acadêmico a respeito da motivação, é fato que, a partir de meados dos anos 80 do século XX, o regime socialista capitaneado pela URSS atravessava uma crise intensa e passaria por profundas mudanças que visavam a superação do seu declínio, com a pretensão de estímulo e retomada do progresso econômico e social no país. Dentro desse contexto, Mikhail Gorbachev, presidente da URSS à época, propôs a reestruturação econômica do Estado soviético e escreveu, de próprio punho, o livro "Perestroika: novas ideias para o meu país e o mundo" -título oportuno, uma vez que "perestroika", em russo, significa "reconstrução".</p>
      <p>No documento, Gorbachev propõe-se a conversar sobre o panorama vivenciado pelos países socialistas àquela altura; os termos da reconstrução socialista soviética, bem como as consequências advindas das mudanças para a URSS e seus efeitos para o mundo. No decorrer do escrito, também são abordadas mudanças na filosofia da política externa soviética em relação à Europa, aos países em desenvolvimento e aos EUA. Há, inclusive, ante um cenário 1 Universidade Salvador (pedroplvs@gmail.com)</p>
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      <title>279</title>
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      <p>de progressiva interdependência entre países e de tensões criadas pelos avanços em tecnologias bélicas, um convite ao diálogo, sem animosidades, e a expectativa de implementação de um programa de desarmamento nuclear em parceria com os EUA.</p>
      <p>A publicação do original em 1987 -pela editora estadunidense "Harper e Row Publishers Inc." -é contemporânea ao trabalho do professor Eytan Gilboa intitulado "American public opinion toward Israel and Arab-Israeli conflict" (1987), que inaugura a conceituação acadêmica e interdisciplinar de diplomacia pública e diplomacia midiática (GilboA, 1987) -ideias que, posteriormente, foram revisitadas e revisadas no artigo "Diplomacy in the media age: three models of uses and effects" <xref rid="b1" ref-type="bibr">1</xref>).</p>
      <p>Gilboa <italic>(2001)</italic> enumerou três modelos distintos para diplomacia na "idade da mídia": "public diplomacy", "media diplomacy" e "media-broker diplomacy". O primeiro modelo compreende a utilização dos canais midiáticos pelo Estado e por agentes não-estatais para influenciar cidadãos e a opinião pública no estrangeiro e, por consequência, os seus respectivos governos; o segundo, o uso da mídia como instrumento para construção de confiança e resolução de conflitos entre atores estatais; e o terceiro, a atuação ativa da imprensa (ou parte dela) em estágio anterior às negociações oficiais, como terceiros mediadores, intermediários, em conflitos internacionais.</p>
      <p>Corroborando a premência e a inevitabilidade de um discurso abertamente voltado ao público externo capaz de influenciar governos a partir dos seus cidadãos, o professor e exsecretário de comércio internacional do governo Bill Clinton, David J. <xref rid="b4" ref-type="bibr">2</xref> advogou que -após a emergência dos modernos meios de comunicação -a capacidade de obter e difundir informações surgia como uma das peças mais importantes no contemporâneo ambiente das disputas e negociações internacionais.</p>
      <p>No mesmo sentido, Nye e Owens (1996) captaram que, além do poderio econômico e militar, a percepção da imagem de um Estado no estrangeiro havia passado a ser um dos determinantes do seu status na comunidade internacional.</p>
      <p>A partir da análise dos estudiosos acima, parece-nos clara e evidente a intenção de Gorbachev em divulgar ao mundo uma versão soviética dos fatos, e justificar o insucesso RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 280 econômico-social da superpotência de outrora e do regime socialista -em um claro movimento de utilização da nova diplomacia "aberta", da diplomacia midiática disponível aos atores internacionais da época, numa tentativa de influenciar governos estrangeiros a partir do influxo favorável na percepção dos seus cidadãos.</p>
      <p>Aliás, embora afirmasse logo nas primeiras páginas que sua obra não seria um tratado científico ou uma peça de propaganda (o que por si já inspiraria desconfianças), Gorbachev externa, reiteradamente, sua insatisfação com as "ondas de malevolência" transmitidas pelos jornais e televisões do Ocidente; a imagem de "Império do Mal" propagandeada pelos EUA; as inverdades, demonstrações de desconfiança e hostilidades com seu povo e seu país; enfim, com as percepções negativas de questões relacionadas ao seu Estado, e justifica a elaboração do livro pela real necessidade de mudar este cenário de "miopia inadmissível", por intermédio de um "diálogo construtivo e abrangente", sem intermediários, com cidadãos do mundo inteiro <italic>(Gorbachev, 2000, p. 7-12)</italic>.</p>
      <p>Nota-se a todo momento a invocação de perfil colaborativo e pacificador, que seria traduzido na disposição para prática urgente (e sincera) de acordos e tratados que buscassem a solução para todos os problemas que afligiam o mundo -mesmo os mais difíceis e iminentes.</p>
      <p>Contudo, não nos parece que as concepções de Gorbachev resultaram em melhoria da percepção da imagem soviética na comunidade internacional. Tal insucesso, em nosso sentir, deve-se a dois fatores determinantes: o fracasso empírico das propostas de reconstrução econômica e de progresso do regime socialista; e a ausência de uma rede midiática proeminente para proliferação da mudança paradigmática dos ideais soviéticos.</p>
      <p>A URSS mergulhada em uma intensa crise política e social não foi capaz de executar na prática as proposições para a "perestroika". Descompassos entre o partido comunista e o liberal aumentaram as pressões políticas internas e a ineficiência do governo na realização de políticas públicas de incentivo à retomada econômica. Em razão da falta de estímulos governamentais, a até então inerte iniciativa privada foi incapaz de fazer "a roda da economia" girar, impossibilitando, por consequência, a saída da crise e o desenvolvimento econômico sustentável.</p>
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      <title>Santos</title>
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      <title>281</title>
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      <p>Além disso, a elaboração da publicação literária não atingiu a repercussão necessária e a influência esperada para um instrumento persuasivo de massas estrangeiras e, consequentemente, de pressão em governos externos. Hoje, pelos estudos publicados na área, é possível inferir que, um livro não seria o instrumento mais adequado para o convencimento em massa de um determinado público-alvo; serviria apenas para um séquito elitizado da população que tem acesso e o hábito da leitura.</p>
      <p>Um canal mais eficiente à época seria a utilização de grandes meios televisivos de transmissão em massa. Contudo, por razões diversas, o Estado soviético não havia desenvolvido tecnologias que permitissem uma comunicação em maior escala, e era "combatido" ideologicamente pelo país detentor das maiores redes privadas de mídia existentes até aquele momento, o que concedia aos americanos uma vantagem desproporcional para incutir e insuflar seus ideais por todo o mundo, e para enfraquecer as eventuais comoções causadas por uma obra literária.</p>
      <p>Embora seja um escrito singular e uma iniciativa ousada, pela observação dos aspectos analisados, o livro não cumpriu fidedignamente o seu papel enquanto peça midiática para intervenção em governos estrangeiros, por intermédio da influência em opiniões públicas internas -o que culminou, posteriormente, na renúncia de Gorbachev à presidência e a dissolução da União Soviética.</p>
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          <source>American public opinion toward Israel and Arab-Israeli conflict</source>
          <year>1987</year>
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          <publisher-name>Lexington Books</publisher-name>
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          <source>Perestroika: novas ideias para o meu país e o mundo. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda</source>
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          <article-title>America's information edge</article-title>
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