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        <article-title>MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: ROHINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS FORCED MIGRATION AND HUMANITARIAN CRISIS IN BURMA: ROHINGYA -WITHOUT TERRITORY, NATION AND RIGHTS</article-title>
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      <contrib-group><contrib contrib-type="author"><name>
            <givenName>Erick</givenName>
            <surname>Da</surname>
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            <givenName>Rodrigo Milindre</givenName>
            <surname>Gonzalez</surname>
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          <email>gonzalez@univali.br</email>
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        </contrib><aff id="aff0"><institution>, Universidade do Vale do Itajaí -Campus Itajaí -SC</institution>
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        <title>Abstract</title>
        <p>Resumo: O grupo étnico rohingya, uma minoria muçulmana que viveu por séculos entre a maioria budista no Mianmar, país do sudeste da Ásia, sofre atualmente de uma perseguição étnica e religiosa que resultou em uma crise humanitária que escalou-se rápida e brutalmente, principalmente na fronteira com o Bangladesh, no noroeste do Estado do Mianmar, ocasionando o deslocamento forçado de centena de milhares de pessoas. Assim sendo, esta pesquisa tem por objetivos identificar os motivos que ocasionaram a migração forçada da população rohingya do Mianmar, que acabou por gerar uma crise humanitária sem precedentes na região e também o porquê da inércia da sociedade internacional frente a tais fenômenos. O método utilizado foi o descritivo-explicativo, utilizando como instrumento a pesquisa bibliográfica e documental e a Teoria Crítica das Relações Internacionais como base teórica. As principais respostas encontradas neste estudo foram as de que a perseguição da população rohingya é resultado, dentre outras coisas, da herança colonial britânica e das diversas migrações e repatriações forçadas dessa minoria, assim como o fato de haver uma relativa inércia da sociedade internacional, que se se dá principalmente pela incorporação das concepções políticas modernas de Estado e soberania às práticas dos atores das relações internacionais.</p>
        <p>Palavras-chave: Mianmar. Rohingya. Migração Forçada. Crise Humanitária.</p>
        <p>Abstract: The Rohingya ethnic group, a Muslim minority who has lived for centuries among the Buddhist majority in Myanmar, a country in Southern Asia, is now suffering from ethnic and religious persecution, leading to a humanitarian crisis that has escalated rapidly and brutally, at the border with Bangladesh in Northwestern Myanmar, causing the forced displacement of hundreds of thousands of people. The purpose of this research is to identify the reasons that led to the forced migration of the Rohingya population in Myanmar, and to the unprecedented humanitarian crisis in the region, and also to question the idleness of the international society concerning such phenomena. The method used was the descriptive-explanatory, using as instrument the bibliographic and documentary research and the Critical Theory of International Relations as theoretical 1</p>
      </abstract>
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        <title>Keywords</title>
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      <title/>
      <p/>
      <p>Theory and related empirical work on refugee livelihoods is characterized by a notable lack of quantitative data from nationally representative probability samples that have refugees as the target population <italic>[…]</italic> Population-based studies focusing on the livelihoods of forced migrants in developing countries are almost completely absent, and there is a notable shortage of economic analysis of displaced livelihoods 4 .</p>
      <p>Não obstante, em paralelo ao aumento nas migrações forçadas globalmente, é possível identificar que tal fenômeno tem sido um paradigma enfrentado também pelos países do Sudeste (onde encontra-se o Mianmar) e Leste da Ásia. Assim como afirma McConnachie (2016), a população sob alerta do ACNUR nessa região era de 2,75 milhões de pessoas, sendo 1,4 milhões destes apátridas, 750 mil refugiados e 500 mil pessoas internamente deslocadas, considerando que os países que mais "produzem" refugiados na região são o Mianmar seguido do Vietnã, mostrando a importância de entender os fluxos migratórios forçados que ali ocorrem.</p>
      <p>Assim sendo, reconhecendo o aumento significativo no número de migrações forçadas nos últimos anos, assim como a quase completa ausência de pesquisas focadas nas condições de vida dos migrantes forçados, principalmente em países em desenvolvimento, esta pesquisa tem por objetivos identificar os motivos que ocasionaram a migração forçada da população 3 Idem.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>4</title>
      <p/>
      <p>A teoria e o trabalho empírico relacionado aos meios de subsistência dos refugiados caracterizam-se por uma notável falta de dados quantitativos de amostras de probabilidade representativas ao nível nacional que têm refugiados como população alvo <italic>[...]</italic> Estudos populacionais focados nos meios de subsistência de migrantes forçados nos países em desenvolvimento estão quase completamente ausentes, e há uma notável falta de análise econômica dos meios de subsistência dos deslocados. (Tradução nossa). TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS <italic>RICRI Vol. 5,</italic><italic>No. 10,</italic> rohingya do Mianmar, que acabou por gerar uma crise humanitária sem precedentes na região; e também o porquê da inércia da sociedade internacional frente a tais fenômenos. O método utilizado foi o descritivo-explicativo, utilizando como instrumento a pesquisa bibliográfica e documental e a Teoria Crítica das Relações Internacionais como base teórica.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>TEORIA CRÍTICA E FLUXOS MIGRATÓRIOS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS:</title>
      <p/>
      <p>Esta seção objetiva explicar o motivo pelo qual a Teoria Crítica das Relações Internacionais foi utilizada enquanto base teórica para responder às problemáticas desta pesquisa e, para tanto, foram levantados os expoentes dessa linha de pensamento com a finalidade de identificar a posição da Teoria Crítica no debate acadêmico das relações internacionais.</p>
      <p>Consequentemente, tenta-se identificar onde se posicionam atualmente os estudos acerca dos fluxos migratórios transnacionais, reforçando que, foi devido ao levantamento de questões anteriormente consideradas como sendo "secundárias" (como o terrorismo, as migrações transnacionais, as massivas violações dos direitos humanos, a mudança climática etc.) pela Escola do pensamento crítico nas Relações Internacionais que se pôde pensar no desenvolvimento de novos paradigmas teóricos para tentar entender os novos desafios da ordem internacional vigente.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>O lugar da teoria crítica no campo acadêmico das relações internacionais:</title>
      <p/>
      <p>Como bem pontuou <xref rid="b42" ref-type="bibr">1</xref>, o estudo das relações internacionais fora entendido por muito tempo enquanto uma competição entre a visão realista, a liberal e as tradições radicais <italic>5</italic> . O realismo enfatizando a existência de uma propensão permanente ao conflito entre Estados, o liberalismo identificando maneiras de mitigar essas tendências conflituosas (como por meio da cooperação e dos regimes internacionais), e a tradição radical Enfatiza-se que o escopo deste artigo não é aprofundar-se nos debates teóricos que compõem a pluralidade do pensamento acerca das questões internacionais, e, por isso, algumas generalizações aqui podem ser feitas, contanto, sem ignorar que vertentes como o Realismo, Liberalismo e as teorias Radicais não necessariamente representam um estudo unidirecional, sem divergências, dentro de cada uma dessas abordagens.</p>
      <p>descrevendo como o sistema inteiro de relações estatais poderia ser transformado <xref rid="b42" ref-type="bibr">1</xref> Em um primeiro momento (antes da incorporação dessa teoria para o desenvolvimento dos estudos relativos ao cenário internacional), a crítica desses pensadores se direciona para a produção do conhecimento na área das ciências sociais e humanas que tentava se aproximar dos métodos e técnicas empregados pelas ciências naturais, atacando diretamente o positivismo e tendo como preocupação central a emancipação <xref rid="b38" ref-type="bibr">2</xref>  <italic>(2000)</italic> caracteriza enquanto internacionalização e universalização dos direitos que têm por objetivo assegurar o "mínimo ético irredutível" referente à dignidade da pessoa humana a todo e qualquer indivíduo ao redor do globo.</p>
      <p>Porém, a primeira crítica que emerge na obra central de Linklater é que a distinção entre "homens" e "cidadãos" criou um problema importante para a teoria política internacional: o problema de como conciliar a diversidade e a divisão das comunidades políticas com a crença recentemente descoberta na universalidade da natureza humana <xref rid="b24" ref-type="bibr">3</xref>. Como seria possível então conceber a ideia de que toda e qualquer pessoa é sujeito de direitos inalienáveis, se para ser titular de tais deveria obrigatoriamente exercer a cidadania em algum nível? Como afirma o autor:</p>
      <p>The conflict between citizenship and humanity is fundamental to the experience of the modern states-system. This is so because the emergence of moral and religious individualism or universalism divided the Western experience of morality between two dominant perspectives (see <italic>Walsh 1972)</italic>. According to one conception of moral life, the individual understands morality as 'an affair internal to a particular community <italic>' (Walsh 1972: 19)</italic>; the separate community is the source of concrete ethical life and the main object of political loyalty; the states-system is the inevitable product of the species' division into a variety of particularistic social moralities; the idea of humanity, lacking expression in the roles and responsibilities of a form of life, exerts little or no constraint upon the relations between states <italic>(LINKLATER, 2007, p.16)</italic>  Since the onset of the Syrian crisis in March 2011, an estimated 20,000 Syrians have entered Greece, many through the land border with neighboring Turkey. However, after the construction last year of a fence to monitor the Greek-Turkish border, growing numbers have attempted to reach the eastern Aegean islands of Lesvos, Samos, and Chios in dinghies and ill-equipped boats (Smith 2013). The Greek coastguard and police have been accused of severe and systematic human rights violations in "push-back" operations, in which they turn groups of refugees and migrants back at the border, without giving them the opportunity to have their asylum cases heard or to challenge their expulsion (Amnesty International Press Release 2013) 8 .</p>
      <p>Assim sendo, mesmo reconhecendo que a Convenção da ONU de 1951 considera como refugiado todo aquele ou aquela que teme ser perseguido ou perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, e se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país, -ou que, se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em consequência de tais acontecimentos, não pode ou, devido ao referido temor, não quer voltar a ele 9 -além de estabelecer o princípio de non-refoulement, este instrumento convencional tem sido altamente contestado, por não ser capaz de lidar com as atuais necessidades relativas à garantia do refúgio e pela definição de refugiado em si ser arbitrária e exígua.</p>
      <p>Intelectuais como Andrew Shacknove têm condenado a tipificação de refugiados previamente estabelecida pela Convenção acerca do Estatuto dos <italic>Refugiados de 1951, e, 8</italic> Desde o início da crise síria em março de 2011, cerca de 20 mil sírios entraram na Grécia, muitos na fronteira terrestre com a vizinha Turquia. No entanto, após a construção do ano passado de uma cerca para monitorar a fronteira grego-turca, números crescentes tentaram chegar às ilhas do leste do Egeu de Lesbos, Samos e Chios em barcos mal equipados <italic>(Smith, 2013)</italic>. A guarda costeira e a polícia gregas foram acusadas de violações graves e sistemáticas dos direitos humanos em operações "push-back", nas quais eles empurram os grupos de refugiados e migrantes de volta à fronteira, sem lhes dar a oportunidade de terem seus pedidos de asilo ouvidos ou de contestar a sua expulsão (Comunicado de imprensa da Anistia Internacional de 2013) (Tradução nossa).</p>
      <p>propuseram então uma concepção mais ampla do conceito de refugiado abarcado pelo tratado, afirmando que não se pode alcançar uma definição exata do termo, e, além disso, deve-se pensar no refúgio enquanto saída para questões mais amplas do que apenas a perseguição, seja de qual natureza for:</p>
      <p>My contention is that neither persecution nor alienage captures what is essential about refugeehood. Persecution is a sufficient, but not a necessary, condition for the severing of the normal social bond. It accounts for the absence of state protection under tyrannical conditions where a government is predatory but says nothing about the opposite, chaotic, extreme where a government (or society) has, for all practical purposes, ceased to exist. Persecution is but one manifestation of a broader phenomenon: the absence of state protection of the citizen's basic needs. It is this absence of state protection which constitutes the full and complete negation of society and the basis of refugeehood. The same reasoning which justifies the persecutee's claim to refugeehood justifies the claims of persons deprived of all other basic needs as well <italic>(SHACKNOVE, 1985, p.277)</italic>  <italic>10</italic> .</p>
      <p>Assim sendo, para <xref rid="b36" ref-type="bibr">4</xref>, o refúgio deve ser concedido por razões mais extensivas, como para aquelas pessoas que tiveram suas necessidades básicas desprotegidas pelo seu país de origem, nas quais não possuem nenhuma saída senão procurar a restituição A minha afirmação é que nem a perseguição nem a alienação captam o que é essencial para o refúgio. A perseguição é uma condição suficiente, mas não necessária, para a separação do vínculo social normal. A perseguição explica a ausência de proteção do Estado sob condições tirânicas onde um governo é predatório, mas não diz nada sobre o oposto, caótico, extremo, onde um governo (ou sociedade), para todos os efeitos práticos, deixou de existir. A perseguição é apenas uma manifestação de um fenômeno mais amplo: a ausência de proteção estatal das necessidades básicas do cidadão. É essa ausência de proteção estatal que constitui a total e completa negação da sociedade e das bases do refúgio. O mesmo raciocínio que justifica a reivindicação perseguida do refugiado justifica as reivindicações de pessoas privadas de todas as outras necessidades básicas (Tradução nossa). <italic>TERRITÓRIO</italic> "a ênfase em garantir as fronteiras externas da Europa através do reforço da vigilância e do aumento da capacidade de detenção nos Estados membros do Sul tem tirado vidas e levou a graves preocupações em matéria de direitos humanos" (Tradução nossa).</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>12</title>
      <p/>
      <p>Reece Jones corrobora tal argumentação em seu recente livro chamado "Violent borders: refugees and the right to move". A tese geral de Jones é ambiciosa: ele condena não só o surgimento de novas e cada vez mais letais práticas de segurança e monitoramento fronteiriço, mas das fronteiras propriamente ditas. O assunto dele é o assunto dos migrantes de forma mais geral (sem atenção especial aos refugiados), mas suas ambições também se estendem a analisar a violência que os regimes de fronteira infligem a esses assuntos. Em vez disso, ele deseja condenar os controles nas fronteiras que impedem que os trabalhadores se movam, criticar o papel das fronteiras nacionais em obstruir os esforços para mitigar as mudanças climáticas e demonstrar como o recinto dos recursos oceânicos através da Convenção sobre o Direito do Mar de 1982 dá aos Estados poder para esgotar seus recursos naturais. Para ele, o simples existir das fronteiras instituem violações em si. No entanto, a crítica de Nurain <italic>(2017)</italic>, ressalta que, alienar os rohingyas de sua história e retratá-los como alienígenas, como se eles houvessem entrado em Arakan apenas durante o governo britânico, foram os objetivos principais de historiadores e políticos de Rakhine.</p>
      <p>Conforme reitera Nurain <italic>(2017, p. 6</italic>):</p>
      <p>The most complex point here is that Rohingyas are today Muslims but not Muslims from Arab, Iran or India. They are native converts. From the time they turned Muslim, they discarded Buddhistic civilization. This Buddhistic civilization goes into the hands of Buddhist Burman since 10th century, who also has been the ruling people of the land ever since then. It is a historical and logical point. When present day Rohingya are trying to unearth this hidden point, it indeed falls against interest of some rested interest group. This group wants to neglect the ethnic root of Rohingya and try to portray them simply as Muslim. Muslims from India and Bengal who immigrated into the land of Rakhine people. This is the root of the problem. This is the point Rakhine people hold tight to degrade Muslims (or) Rohingya. This is the point they until today use to deprive Rohingya of all rights in Myanmar 16 .</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>16</title>
      <p/>
      <p>O ponto mais complexo aqui é que Rohingyas são hoje muçulmanos, mas não muçulmanos árabes, do Irã ou da Índia. Eles são convertidos nativos. Desde o momento em que se tornaram muçulmanos, eles descartaram a civilização budista. Esta civilização budista entra nas mãos dos budistas birmaneses desde o século 10, que Assim sendo, a narrativa histórica construída, a partir da imposição de um discurso dominante, ao negar a história verdadeira dos rohingyas, colabora para a constante supressão de seus direitos. Na linguística Bengali, o gentílico daquele vindo de Rohang (Arakan) é rohingya, e caracterizá-los apenas como "muçulmanos de Rakhine" nega a sua história e seu direito a ter direitos. Essas pessoas querem ser reconhecidas e chamadas de rohingyas enquanto o governo e a história se recusam a fazê-lo.</p>
      <p>Tal perseguição e violência contra a minoria rohingya no estado de Rakhine está longe de ser um fato recente na história do país. o Doutor Aye Chan <italic>(2005)</italic> também tem sido o povo dominante da terra desde então. É um ponto histórico e lógico. Quando os rohingyas atuais estão tentando descobrir este ponto escondido, eles realmente caem contra o interesse de algum grupo de interesse. Este grupo quer negligenciar a raiz étnica dos rohingyas e tentar retratá-los simplesmente como muçulmanos. Muçulmanos da Índia e da Bengala que imigraram para a terra do povo Rakhine. Esta é a raiz do problema. Este é o ponto em que os povos de Rakhine se apertam para degradar os muçulmanos (ou) rohingyas. Este é o ponto que eles até hoje usam para privar os rohingyas de todos os seus direitos no Mianmar.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>17</title>
      <p/>
      <p>População que habitava a região de Arakan, que representa o atual estado de Rakhine. Não são chamados ainda de rohingyas pois o termo só começou a ser utilizado a partir da década de 1950.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>18</title>
      <p/>
      <p>Atual Bangladesh.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>19</title>
      <p/>
      <p>Chittagong é uma cidade de Bangladesh situada na baía de Bengala, e Akyab (atualmente Sittwe), é a capital do estado de Rakhine.</p>
      <p>MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS <italic>Vol. 5,</italic><italic>No. 10,</italic> Durante o colonialismo, conforme o relatório elaborado pela organização Equal Rights Trust (2015), os britânicos incentivaram a imigração de indianos e outros sul-asiáticos para a Birmânia. Os indianos, em particular, ocuparam um "nível médio" de influência em assuntos políticos e econômicos, enquanto os birmaneses ocuparam o nível mais baixo. Isso provocou suspeitas e ressentimentos em relação a estrangeiros, britânicos e não britânicos. Após a era colonial, a legislação anti-imigração foi aprovada, o que formalizou essas desconfianças no plano do direito. Esses sentimentos anti-estrangeiros contribuem para a discriminação dos rohingyas, especialmente devido à falsa crença de que eles são imigrantes relativamente recentes na região e hoje são vistos como remanescentes e lembretes do colonialismo.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>RICRI</title>
      <p/>
      <p>(EQUAL RIGHTS TRUST, 2015).</p>
      <p>A Segunda Guerra Mundial fora outro marco histórico importante na história da população rohingya, assim como o processo de independência do país. Segundo Ullah <italic>(2017)</italic>  Mediante o que pode ser considerado uma das piores crises humanitárias do início deste século (XXI), uma questão simples, mas de grande importância se revela: qual o motivo da relativa inércia ou não-resposta da comunidade internacional frente a tais fenômenos, levando em conta o paradigma de dignidade humana inerente a todos os indivíduos que se estabeleceu universalmente no pós-Segunda Guerra? A resposta não é simples e pode até não ser integralmente alcançada nesta pesquisa, mas o que importa verdadeiramente é questionar os valores morais que são considerados em teoria, universais, mas que por si só são incapazes de delinear medidas a fim de cessar as diversas ondas de violações dos direitos humanos presenciadas hoje, em todo o mundo.  Sua ideia de comunidade política adota a forma de uma comunidade dialógica: todos estão convidados a participar e qualquer posição moral está propensa ao questionamento. Já que todos têm voz, e as regras dizem respeito somente ao procedimento e não ao conteúdo do diálogo, essa seria a forma mais adequada de determinar os melhores arranjos para a ordem social e de evitar a exclusão enquanto se celebra a diferença. O diálogo, dessa forma, expressa um valor por si só, e seu objetivo é estabelecer o consenso. Está claro que estamos diante de uma noção habermasiana de diálogo ou de ética do discurso.</p>
      <p>Desta maneira, as teorias tradicionais, ao impossibilitarem o exercício de um debate acerca da possibilidade de implementação de certos valores morais na esfera internacional, acabam por gerar diversas exclusões. O problema parece estar na barreira instituída pelas concepções de soberania e cidadania, que impedem a resolução de conflitos e a promoção da MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS <italic>Vol. 5,</italic><italic>No. 10,</italic> solidariedade entre membros de comunidades políticas diferentes, ou para com aqueles que não são membros de tais. Isso se reflete também na prática atual dos Estados e dos demais atores das relações internacionais, que, ao se pautarem nas dicotomias soberania/anarquia e cidadão/estrangeiro, se eximem de obrigações morais para com os indivíduos que não são membros e que não "assinaram" o contrato social de suas comunidades políticas, e a eles então é negada sua própria condição de ser humano e o seu direito a ter direitos.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>RICRI</title>
      <p/>
    </sec>
    <sec>
      <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
      <p/>
      <p>Esta pesquisa teve por objetivos identificar os motivos que ocasionaram a migração forçada da população rohingya no Mianmar, que acabou por gerar uma crise humanitária sem precedentes na região, e também o porquê da inércia da sociedade internacional frente a tais fenômenos.</p>
      <p>Foi possível constatar que vários fatores influenciaram na instituição e agravamento da perseguição política que sofre hoje a população rohingya no Estado do Mianmar, dentre eles pode-se elencar a reminiscência no pensamento da maioria birmanesa de um mito de invasão por parte dos rohingyas, que é reproduzido pelos historiadores e políticos locais, que insistem em negar o pertencimento dessa população àquelas terras, pensamento que fortaleceu-se principalmente no período colonial, devido às diversas migrações forçadas e posteriores repatriações que os rohingyas foram submetidos, sabendo-se então que a religião por mais que seja um fator influenciador, não é a raiz pivotante do problema.</p>
      <p>A falta de esforços por parte dos atores da sociedade internacional se dá principalmente pela impossibilidade, a partir da concepção moderna do Estado, de incluir princípios morais no debate acerca dos problemas que desafiam a ordem internacional contemporânea, e, dessa maneira, reproduz-se a lógica do "nós aqui, eles lá", que impede um diálogo conjunto de soluções possíveis para enfrentar os dilemas que permeiam a sociedade internacional, que enquanto vistos através de lentes cartesianas, dificilmente serão solucionados.</p>
      <p>No escopo de pesquisas futuras, sugere-se trabalhar a partir da teoria crítica em geral, e do pensamento de Andrew Linklater em específico, para pensar na possibilidade de estabelecimento de mecanismos concretos que possibilitem a instituição de certos valores morais, dialogados conjuntamente a nível global, que venham a substituir ou pelo menos alargar certos conceitos tradicionais como soberania e cidadania para que a prática dos atores das relações internacionais seja mais inclusiva, e consequentemente abra espaço para a resolução conjunta dos diversos dilemas que permeiam a sociedade internacional no tempo presente, como a questão da proteção dos direitos dos refugiados e apátridas.</p>
    </sec>
    <sec>
      <fig id="fig_1" orientation="portrait" fig-type="graphic" position="anchor">
        <caption>
          <title>, professor de história da Kanda University of International Studies, identifica em um de seus trabalhos o desenvolvimento de ondas de migração forçada em massa, datadas do período pré-colonial e colonial. Segundo ele, durante as quatro décadas do governo birmanês (1784-1824), por causa da opressão implacável, muitos arakaneses 17 fugiram para a Bengala britânica 18 . De acordo com um registro da Companhia Britânica das Índias Orientais (CBIO), havia cerca de trinta e cinco mil arakaneses que haviam fugido para o distrito Chittagong na Índia britânica para buscar proteção em 1799 (CHAN, 2005).Porém, quando a CBIO estendeu a administração da Bengala à região de Arakan, não havia fronteira internacional entre os dois países e nenhuma restrição foi imposta à emigração. O fluxo de trabalho vindo de Chittagong proporcionou o principal impulso ao desenvolvimento econômico em Arakan durante algumas décadas, juntamente com a abertura de linhas de transporte comercial regulares entre Chittagong e Akyab 19 . A terra arável expandiu-se em quatros vezes e meia, entre 1830 e 1852, e Akyab tornou-se uma das principais cidades exportadoras de arroz do mundo(CHAN, 2005).</title>
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    </sec>
    <sec>
      <fig id="fig_2" orientation="portrait" fig-type="graphic" position="anchor">
        <caption>
          <title>invadiu a Birmânia e a Grã-Bretanha recuou, forçando muitos rohingyas a fugirem para a Bengala Oriental, e as tensões entre o governo e a população rohingya aumentaram depois que a Birmânia se tornou independente (oficialmente em 1948) e o Partido Socialista da Birmânia assumiu o poder e desmantelou as organizações sociais e políticas dos rohingyas em 1962. Em 1977, os militares provocaram o êxodo de cerca de 200 mil rohingyas, que tiveram que partir para Bangladesh em 1978. Os esforços para privar os rohingyas da cidadania começaram logo após a independência do Mianmar. A Lei de Cidadania da União de 1948 definiu os padrões para obtenção da cidadania no país e identificou etnias específicas -as "raças indígenas da Birmânia" -que seriam autorizadas a obter a cidadania (LOWENSTEIN at al, 2015). A lista não inclui os rohingyas. a Lei permitiu que pessoas cujas famílias tivessem vivido por duas gerações no Estado do Mianmar pudessem solicitar cédulas de identidade e, inicialmente, o governo forneceu a muitos rohingyas documentos de identificação de acordo com esta disposição.No entanto, após o golpe militar em 1962, o governo começou a dar documentação a cada vez menos crianças rohingyas, recusando-se a reconhecer as novas gerações desta parte da população(LOWENSTEIN at al, 2015).</title>
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      <fig id="fig_3" orientation="portrait" fig-type="graphic" position="anchor">
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          <title>, o autor defende a ideia de que, no princípio da soberania estatal e na dicotomia interno/externo (ambas concepções que triunfaram no pensamento político moderno) encontram-se os principais problemas relativos à "impossibilidade" de extensão de valores morais (como o de proteção aos refugiados) à esfera internacional. Ou seja, as teorias tradicionais das relações internacionais, como afirmam Nogueira e Messari (2005, p. 152), "[...] nos ensina[m] que as fronteiras que separam a comunidade doméstica da esfera internacional estão ali para proteger cidadãos, governo e território das ameaças sempre presentes no mundo anárquico". Consequentemente, as dicotomias soberania/anarquia e cidadania/humanidade, ao serem constantemente reforçadas, reproduzem as estruturas políticas que dividem a humanidade em agrupamentos políticos nacionais. Para Linklater (2007), a teoria crítica das relações internacionais argumenta que o Estado não esgota as nossas obrigações morais e políticas, os deveres que sobrevivem à fragmentação política da raça humana não são simplesmente as obrigações que os Estados adquiriram como membros iguais de uma sociedade de Estados. Os deveres universais que existem ao lado das obrigações que os indivíduos possuem como membros de comunidades particulares exigem que seus representantes políticos promovam níveis mais elevados de solidariedade e comunidade humanas. No entanto, de maneira alguma Linklater defende uma ideia de universalismo autoritário, como bem postulou Silva (2005, p.272):</title>
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          <title>). A chamada Teoria Crítica surge por volta dos anos 1980 para contrapor o que seriam as duas novas faces que o realismo e o liberalismo tomavam no pós-Segunda Guerra Mundial (neorrealismo e neoliberalismo), sendo uma das mais importantes contribuições alternativas ao debate 'neo-neo' que dominaria o estudo das relações internacionais no período da Guerra Fria e (ainda) nos dias de hoje (NOGUEIRA; MESSARI, 2005). Objetivando a ampliação dos temas abordados pelas teorias tradicionais, abrindo diálogo para questões como: [...] o problema da mudança nas relações internacionais; os temas da hegemonia, da emancipação e da desigualdade; a centralidade do Estado como ator; o meio ambiente; as questões culturais; a integração das estruturas econômicas na reflexão sobre a política mundial; a ausência de uma dimensão ética na reflexão da área; o conceito de sociedade civil global, entre outras (NOGUEIRA; MESSARI, 2005, p. 133). É importante ressaltar que, a Teoria Crítica não tem origem direta de pensadores das relações internacionais, mas sim dos críticos das ciências sociais em geral, particularmente aqueles vinculados à Escola de Frankfurt, sendo Max Horkheimer o primeiro a utilizar o termo</title>
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          <title>). É apenas com as contribuições realizadas por Robert W. Cox, com a publicação de vários artigos que são hoje considerados clássicos da literatura crítica em Relações Internacionais é que se traz a Teoria Crítica para perto das questões transnacionais. Cox resgata o neomarxismo e principalmente os conceitos de hegemonia presentes no pensamento do MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 42 italiano Antonio Gramsci 6 , dentre outras perspectivas responsáveis por auxiliar a despir as teorias tradicionais de suas pretensões de se fazerem "neutras" e "científicas", mostrando seu caráter puramente normativo de manutenção do status quo no que concerne ao estudo da política mundial (NOGUEIRA; MESSARI, 2005). O autor (Robert W. Cox) afirma que a preocupação das Relações Internacionais tem sido, desde sua fundação até o desenvolvimento posterior da disciplina, o estudo das relações entre Estados, sendo estes comumente Estados-nacionais. No entanto, várias contradições têm sido geradas, de maneira que os atores envolvidos nessas relações mudaram (diferentes tipos de Estado, de entidades não-estatais, elites transnacionais etc.), introduzindo uma diversidade de novos objetivos que poderiam então ser perseguidos no estudo dos modos e das instituições que estes novos atores atuam (COX, 2009). No entanto, a crítica à centralidade do Estado enquanto finalidade da análise das chamadas teorias tradicionais é apenas uma dentre as várias que Cox desenvolve. Para o pensador, toda teoria serve para alguém e para algo, assim sendo, toda teoria tem uma perspectiva e um propósito. A perspectiva seria a posição, no tempo e no espaço, em que o conhecimento teórico é desenvolvido. E, relativo aos propósitos, estes podem ser dois: garantir a manutenção do status quo, ou, sugerir ferramentas que auxiliem na busca por uma ordem social diferente daquela vigente. As que servem ao primeiro propósito são denominadas por ele como "problem-solving theories", ou teorias tradicionais, e as que servem ao segundo são eminentemente críticas (COX, 2009). Diferentemente das teorias tradicionais que tentam (sem sucesso) esconder seu caráter normativo (de reprodução da ordem social existente), a teoria crítica é clara em seu propósito, mantém seu interesse exposto a todo aquele que pretender estudá-la, que nada mais é que a transformação da ordem internacional, no que cerne à realidade política, social e econômica vigente. Ela condena o caráter anistórico do neorrealismo, que concebe o Estado como um ator unívoco e permanente no cenário internacional, sem considerar as diversas transformações pelas quais as diferentes comunidades políticas têm passado no 6 Antes das contribuições de Gramsci, a concepção de hegemonia nas Relações Internacionais pautava-se apenas nos aspectos tangíveis (poderio militar, econômico, nuclear etc.), no entanto, o autor acrescenta a estes o aspecto intangível: a capacidade de convencimento, ou seja, a capacidade que o Estado tem em suas relações de convencer os outros de que seus valores morais, políticos, religiosos e entre outros são os melhores e que, consequentemente, devem ser adotados sem proscrições. ERICK DA LUZ SCHERF, RODRIGO MILINDRE GONZALEZ RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 43 desenrolar da história, considerando então que assim como os Estados, a ordem internacional está longe de ser estática, sendo marcada pela mudança e pela instabilidade (SILVA, 2005). É a partir do pensamento de Cox que se abrem novos horizontes para o estudo dos novos paradigmas e incertezas que rodeiam a realidade social e que a academia se nega a enxergar, tratando de questões que antes eram consideradas supérfluas na hierarquia dos debates das Relações Internacionais, que até a década de 1980 considerava o Estado como único ator possível e as questões de segurança como sendo a única preocupação dos policymakers e, consequentemente, da comunidade intelectual que se debruça sobre as questões internacionais. Não obstante, seguindo a linha de pensamento de Robert W. Cox, o pensador Andrew Linklater traz um refinamento e robustez à Teoria Crítica, com o intuito de reformular a teoria de Relações Internacionais, incorporando a capacidade crítica do marxismo para posteriormente pensar na emancipação dos seres humanos para com as estruturas de dominação. A principal contribuição de Linklater é a tentativa de realocar uma antiga vocação no centro de reflexão das questões internacionais: a necessidade de reafirmação de princípios éticos comuns a toda à humanidade, criando mecanismos que possibilitem a superação das divisões criadas pelas teorias tradicionais (NOGUEIRA; MESSARI, 2005). É imprescindível entender a ética de exclusão (denunciada por Linklater) presente nas teorias tradicionais de Relações Internacionais, que leva à propagação de estruturas políticas que dividem a humanidade, principalmente no que tange à divisão entre o nacional e o internacional, entre cidadão e estrangeiro (NOGUEIRA; MESSARI, 2005), pois é tal ética que leva à justificação de diversas violações de direitos humanos e ao tratamento desumano de populações inteiras, principalmente aquelas submetidas a processos de deslocamento forçado. Em seu livro intitulado "Critical Theory and World Politics: Citizenship, sovereignty and humanity", Linklater desenvolverá suas principais críticas relativas ao conceito de comunidade no cenário internacional (neste caso, a ausência dele), e a hipervalorização de preceitos como cidadania e nacionalidade como condições sine qua non para a obtenção do chamado direito a ter direitos. MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 44 O pós-Segunda Guerra Mundial caracteriza-se pela afirmação, universal, do princípio da dignidade humana e a partir daí, a produção normativa de tratados e documentos jurídicos -que nascem principalmente no berço das Organizações Internacionais Intergovernamentais, sendo a Organização das Nações Unidas (ONU) a principal delas- que aumentam significativamente, afirmando o processo que Norberto Bobbio</title>
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          <title>surgiu como resultado das experiências europeias da guerra. Os redatores da Convenção, que representam 35 países do bloco, principalmente ocidentais, definiram os refugiados, não como grupos, mas como indivíduos, que tinham um 'medo bem fundamentado' de</title>
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          <title>internacional de suas necessidades. A análise de Shacknove tem sido muito influente também por considerar a necessidade de quebrar o "laço", ou em termos liberais tradicionais, o contrato social, entre indivíduo e Estado (GIBNEY, 2016), o que acaba convergindo com o pensamento de Linklater (2007), que clama pelo desmantelamento da hipervalorização moral das fronteiras. Além disso, Shacknove também considera que se deveria considerar como refugiado vítimas de violência generalizada, da fome, das catástrofes ambientais e da pobreza, mesmo aqueles que nunca tenham cruzado uma fronteira, com o objetivo de lhes proporcionar uma saída ao cenário caótico em que se encontram (GIBNEY, 2016).Entretanto, sabe-se que há pouco ou nenhum interesse dos líderes políticos ao redor do mundo em alargar o conceito de refugiado. Como demonstraBauman (2017), os refugiados</title>
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          <title>, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 50 têm batido noutras portas desde o início da modernidade, porém, para aqueles atrás dessas portas, os batedores são considerados 'estranhos', 'diferentes' e, consequentemente, imprevisíveis. Para o autor, a maioria das pessoas é incapaz de interpretar suas condutas, e a ignorância em relação a como proceder frente a esses 'estranhos', produz uma situação de ansiedade e de medo, principalmente por pensarem que esse influxo largo de refugiados tem por objetivo modificar, descaracterizar e até mesmo extinguir o modo de vida convencional dos que estão atrás da porta. As raízes desse pensamento parecem ter origem principalmente no fato do fluxo de refugiados ter aumentado nas décadas seguintes ao final da Guerra Fria, criando ondas migratórias inesperadas, devido ao grande clima de positividade que pairava não apenas na Europa, mas no mundo todo. A vitória do liberalismo e da democracia pareciam ter extinto qualquer possibilidade de novos conflitos e a prosperidade parecia reinar longe de qualquer sinal de instabilidade. No entanto, desde o final da Guerra Fria, mais de 50 estados sofreram grandes transformações, cerca de 100 conflitos armados foram travados, mais de 4 milhões de pessoas morreram como resultado desses conflitos ou da violência política e o ACNUR viu o número de pessoas sob seus cuidados aumentar de 15 milhões em 1990 para 27,4 milhões em 1995 (TROELLER, 2003). Desta maneira, mesmo alguns autores argumentando a existência de um regime internacional de proteção aos refugiados, como Erika Feller (2001), a partir da criação da Convenção da ONU relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 1951, e o posterior Protocolo de 1967 relativo ao Estatuto dos Refugiados, não é exagero afirmar que tais convenções representam mais uma inclinação ao fortalecimento de um direito internacional dos refugiados do que um regime internacional em si, pois como acertadamente postulou Krasner (2012), "[...] os regimes internacionais são definidos como princípios, normas, regras e procedimentos de tomada de decisões de determinada área das relações internacionais em torno dos quais convergem as expectativas dos atores". Assim, pode-se confirmar que a dimensão principiológica e normativa necessária para a caracterização da proteção internacional dos refugiados enquanto regime internacional foi cumprida. No entanto, não se pode dizer o mesmo dos procedimentos de tomada de decisões, que não têm convergido de maneira alguma às expectativas dos atores, nem dos Estados e ERICK DA LUZ SCHERF, RODRIGO MILINDRE GONZALEZ RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 51 muito menos às dos refugiados. Se esta afirmação não fosse verídica, a Europa não reagiria à crise de refugiados da maneira como reage. Assim como afirmou Archer (2014, p.19), "the emphasis on securing Europe's external borders by enhancing surveillance and increasing detention capacity in southern member states has taken lives and led to grave human rights</title>
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          <title>Mapa administrativo do Mianmar e suas respectivas fronteiras.13Destaca-se que existem poucas fontes científicas acerca da história do Mianmar disponíveis no Brasil, limitando assim a análise aqui pretendida. Além do mais, a contextualização inicia apenas no período pós- independência, pois, enquanto Estado milenar, com o início de sua povoação datada do século IX, o Mianmar possui uma história tão extensa que não caberia em apenas uma sessão deste artigo. 14 A atual configuração geográfica do Estado do Mianmar encontra-se representada na Imagem 1.ERICK DA LUZ SCHERF,RODRIGO MILINDRE GONZALEZ   RICRI Vol. 5, No. 10, Fonte: Nations Online.Em 1824, os britânicos iniciaram uma campanha militar para assumir o controle sobre a Birmânia, que era governada pela Dinastia Konbaung na época.Através de uma série de três guerras, os britânicos iniciaram a colonização do país em 1885. Os britânicos anexaram a Birmânia à Índia britânica, mas fizeram da Birmânia uma colônia de coroa separada em 1937, e na população multiétnica da Birmânia, os britânicos foram acusados de favorecer certos grupos étnicos dentro do país (STEVENSON at al, 2009). Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão assumiu o controle da Birmânia com a ajuda do exército de independência da Birmânia treinado pelos japoneses, liderado pelo general Aung San, o herói da independência do país. No entanto, à medida que a guerra continuava, muitos líderes desse grupo permaneceram focados no estabelecimento de um Estado independente. Eles criaram a Liga da Liberdade do Povo Antifascista (LLPA) e começaram a resistir aos japoneses com a ajuda dos britânicos. Os britânicos e a LLPA, sob o comando MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 54 do general Aung San, finalmente libertaram a Birmânia do Japão em 1945 (STEVENSON at al, 2009). O frágil estado colonial entrou em colapso rapidamente nos primeiros meses de 1942 e no período do governo japonês a Birmânia tornou-se 'uma série de pequenas repúblicas'. Com o retorno britânico, faltavam 'ferramentas básicas de domínio colonial'. Os salários para os funcionários eram tão baixos que o arroz por muitas vezes não podia por eles ser adquirido. Em agosto de 1946, a polícia realizou uma greve geral em todo o país. Com o medo britânico de que não poderiam conter uma revolta do exército de Aung San, o primeiro-ministro concordou com uma transferência pacífica de poder para Aung (FEARON; LAITIN, 2006). Após a guerra, os nacionalistas birmaneses exigiram a independência face à Grã-Bretanha. Os britânicos inicialmente resistiram, mas concordaram depois que grandes manifestações se seguiram e o general Aung San procurou a cooperação das nacionalidades étnicas da Birmânia na formação de uma união federal da Birmânia. Em 19 de julho de 1947, o general Aung San e vários outros líderes-chave do movimento de independência da Birmânia foram assassinados. Uma nova Constituição entrou em vigor em 2 de setembro de 1947, e a independência total foi realizada em 1948 com a criação de uma democracia parlamentar. Os estados eram considerados autônomos, e certas nacionalidades étnicas tinham o direito constitucional de se separar da união após o período de dez anos (STEVENSON at al, 2009). Durante a década de 1950, líderes militares começaram a criticar o governo parlamentar e os constrangimentos que impôs aos seus poderes e, em 1962, o general Ne Win encenou um golpe que deu início à era do domínio militar. Ne Win dominou a política do país como ditador até o final da década de 1980. Ele criou o "Caminho Birmanês para o Socialismo", um programa que formou um sistema de partido único controlado por seu Partido do Programa Socialista Birmanês (PPSB). A partir da década de 1960, o regime do ditador também instituiu a política "Four Cuts", destinada a cortar grupos de nacionalidades étnicas armadas de alimentos, dinheiro, inteligência e recrutas (STEVENSON at al, 2009). A Birmânia possui vastos recursos naturais -madeira, pedras preciosas e terras agrícolas -, mas a má gestão econômica também caracterizou o governo de Ne Win. Na década de 1950, a Birmânia exportava três milhões de toneladas de arroz por ano, mas em 1988, as exportações de arroz caíram a praticamente zero. Sob o governo militar, as vantagens ERICK DA LUZ SCHERF, RODRIGO MILINDRE GONZALEZ RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 55 naturais não foram desenvolvidas, e a economia do país estagnou e regrediu, o que favoreceu a queda do governo de Win (STEVENSON at al, 2009). Desde março de 1988, após as manifestações estudantis, a situação política em Myanmar começou a deteriorar-se. A morte de um estudante de engenharia (em 12 de março) e a prisão de 154 alunos (em 16 de março) desencadearam manifestações nos meses posteriores. O PPSB dominante foi desacreditado pela manipulação dos protestos estudantis. A questão mais séria foi a morte, resultante da sufocação (em 18 de março), de 41 detidos em uma van de polícia, que viajou com 71 pessoas por duas horas. A notícia foi completamente censurada e apagada, quando foi finalmente liberada apenas em 19 de julho, quase quatro meses depois do ocorrido (MYOE, 2007). Em resposta à situação econômica e à supressão dos direitos civis e políticos desde 1962, surgiram grandes manifestações dirigidas por estudantes, que culminaram em grandes protestos pacíficos que pediam por democracia, em agosto de 1988. Centenas de milhares marcharam nas ruas. O regime respondeu violentamente, com o exército matando milhares de civis, incluindo mulheres e crianças. As estimativas indicam que pelo menos 3.000 pessoas foram mortas apenas em agosto de 1988 (STEVENSON at al, 2009). Logo após a formação do Conselho Estatal de Restauração da Lei e da Ordem (CERLO), ainda em 1988, foram realizadas quatro tarefas imediatas. Uma delas fora realizar uma eleição geral democrática e multipartidária. Como prometido, uma eleição geral livre e justa foi realizada em 27 de maio de 1990. Um total de 2209 candidatos de 93 partidos políticos diferentes e 87 candidatos independentes participaram das eleições. Com a confiança em sua vitória eleitoral, a Liga Nacional para a Democracia (que obteve a maioria dos votos válidos, ao todo 7.934.622) começou a questionar a transferência de poder com o CERLO (MYOE, 2007). Quando a LND ganhou uma esmagadora maioria dos assentos no novo parlamento, os líderes militares interromperam a transição de poder imediatamente. O CERLO começou a criticar os líderes da oposição e decidiu que eles precisariam de uma preparação muito melhor antes de iniciar uma transição política. Então, o Conselho passou os vinte anos seguintes desenvolvendo uma nova Constituição, controlando o 'movimento democrático' com severas medidas repressivas, isolando-se de represálias e punições dos governos MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 56 ocidentais, abraçando seus vizinhos asiáticos e construindo uma força militar forte que pudesse prevalecer contra inimigos internos (CLAPP, 2015). Em 2007 e 2008, o regime foi confrontado com dois grandes eventos, aos quais não conseguiu responder positivamente. Uma decisão súbita e mal considerada em setembro de 2007 para remover os subsídios do governo aos preços dos combustíveis aumentou exponencialmente os custos de transporte, lançando o transporte público em uma crise e causando uma onda de inflação e escassez de commodities para a grande população urbana. Como em 1988, isso desencadeou um protesto público ao qual muitos monges e freiras budistas se juntaram rapidamente, demonstrando sua solidariedade para com o povo. Sendo o governo incapaz de convencer os monges a desistirem de seus protestos, as forças de segurança foram acionadas para interromper as manifestações pela força. Essas forças acabaram disparando contra monges e demolindo mosteiros (CLAPP, 2015). Como presidente, desde 1997, da junta militar governante, todo o poder do Estado gradualmente se concentrou de fato nas mãos do Superior Geral Than Shwe. Ele era um proponente implacável de um governo central autocrático e forte, que exerceu controle direto e completo sobre todos os aspectos da vida dos cidadãos em Mianmar. Apesar de seu governo ter durado mais de duas décadas, em 30 de março de 2011, ele voluntariamente dissolveu a junta militar, renunciou a todas as posições no exército e no governo e se separou completamente do domínio público, literalmente da noite para o dia. Mianmar agora tem uma Constituição, que oferece a possibilidade de votação de emendas, um parlamento robusto (apesar de 25 por cento dos assentos serem reservados para os militares), um sistema de governo constituído pelo parlamento e uma oposição liderada por uma figura de renome, Aung San Su Kyi (AMB, 2014). O processo de paz começou em 2011. Em 2010, o exército de Mianmar declarou sua intenção de identificar um processo de reforma. Em 2011, Thein Sein (um general aposentado do exército de Mianmar e ex-chefe do Partido da Solidariedade e Desenvolvimento da União) tornou-se o presidente (quase) democrático de Mianmar e começou a implementar políticas de reforma. Assim que o processo de paz foi anunciado, uma onda de lutas foi testemunhada principalmente nas periferias. Junto com este aumento nas lutas, houve um aumento drástico no número de importações de armas para o Mianmar (ROUTRAY, 2017). ERICK DA LUZ SCHERF, RODRIGO MILINDRE GONZALEZ RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 57 Um grande atraso no processo de paz se deu por meio da escalada na guerra com os kachins (outra minoria étnica inserida no Mianmar) em dezembro de 2012, quando ataques aéreos usando jatos e helicópteros foram realizados nas áreas dominadas por rebeldes kachins. A sede dos rebeldes, Laiza, fora destruída por tropas governamentais e nos ataques aéreos, algumas bombas chegaram a aterrissar em território chinês (KUPPUSWAMY, 2013). O processo de paz começou com um roteiro do governo de Thein Sein -para assinar acordos de paz individuais, seguido da elaboração e aprovação de um acordo nacional. Antes que Sein deixasse o cargo, ele conseguiu fazer algum progresso ao conseguir que alguns partidos étnicos assinassem o Acordo de cessar-fogo nacional (ACN) em 2015. O ACN foi assinado por três grupos proeminentes: Conselho de Restauração do Estado de Shan, o Karen National Union / Karen National Liberation Army e o exército democrático Karen Budista. No entanto, a quantidade dos grupos que assinaram o ACN é baixíssima em relação à quantidade de subdivisões paramilitares existentes naquele momento no país (ROUTRAY, 2017). Em resumo, reconhece-se que a história do Mianmar é marcada desde seus primórdios por autoritarismos e disputas entre grupos étnicos e religiosos. Nenhum governo, seja da natureza que for, conseguiu (ou ao menos tentou) até o momento, conciliar as diferentes vontades, anseios, e expectativas dos diferentes segmentos populacionais que compõem um tecido multiétnico e multicultural nesse local, abrindo espaço para que tais grupos buscassem, de forma autônoma reconhecimento e atendimento de suas demandas individuais e coletivas 15 . Resta agora entender o motivo pelo qual os esforços dos grupos que exercem liderança maioritária no país têm sido direcionados para a perseguição e violação dos direitos humanos da população rohingya, tópico que será explorado na seção seguinte. 2.2. Contextualização histórica da estabilização da população rohingya no território birmanês e as raízes e desdobramentos da perseguição: 15 Além disso, o Mianmar também enfrenta múltiplas restrições e riscos que limitam seu desenvolvimento social, econômico e ambiental. Conforme estabeleceu o Banco de Desenvolvimento daÁsia (2012), as principais restrições incluem um quadro de gestão macroeconômica fraco, desprovido de mecanismos de mercado, recursos fiscais insuficientes e mobilização ineficiente de fundos domésticos, acesso limitado a finanças, infraestrutura deficiente, serviços sociais inadequados que dificultam o desenvolvimento do capital humano e uma diversificação industrial limitada. Os riscos incluem a degradação ambiental decorrente da industrialização e das mudanças climáticas. O setor de agricultura e recursos naturais é particularmente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, devido a crescente frequência e severidade de eventos climáticos extremos e outros desastres naturais.MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOSRICRIVol. 5, No. 10, Os rohingyas são uma comunidade de minoria muçulmana em Mianmar e está instalada principalmente no estado de Rakhine. Alguns afirmam que os rohingyas vivem no Mianmar</title>
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          <title>de várias covas improvisadas na Tailândia e na Malásia, resultado da repressão sobre o tráfico e as rotas de contrabando de pessoas que deixaram encalhados inúmeros barcos que carregavam pelo menos 5.000 indivíduos, muitos dos quais foram muçulmanos rohingyas, fugindo do Mianmar. Milhares, eventualmente, chegaram na Malásia e na Indonésia, embora muitos morreram durante a viagem, e o paradeiro de muitos outros nunca fora determinado, um conjunto de 31.000 Rohingyas fugiram do Bangladesh e do ERICK DA LUZ SCHERF, RODRIGO MILINDRE GONZALEZ RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 63 Assim sendo, apenas quando os rohingyas deixaram de ser um "problema" nacional para se tornarem uma preocupação regional, é que a mídia resolveu despender esforços para registrar o sofrimento dessa população que está longe de ser algo recente, mas que acompanha toda a história do desenvolvimento do país ao longo dos anos, desde o século IX, até os dias de hoje. Em suma, o que se pôde perceber após a construção desta seção é que o Mianmar, antes da colonização britânica, fora um país dividido em vários centros de poder que se diferenciavam e ainda se diferenciam pelas suas variedades étnicas e religiosas. No entanto, após a presença externa da Grã-Bretanha e das invasões nipônicas na Segunda Grande Guerra, várias revoltas de cunho nacionalista resultaram na "unificação" do país, que traduziram a vontade desses povos em se verem livres uma vez por todas da ingerência externa em seus territórios, o que resultou em governos autoritários e a negação dos direitos de minorias étnicas e religiosas como os rohingyas, que são vistos como invasores dentro de seu próprio país, tendo sua história e cidadania negadas, o que reforça a concepção exclusiva dos direitos humanos e da soberania, que negam o direito a ter direitos daqueles não considerados nacionais de país algum. 3. CRISE HUMANITÁRIA, MIGRAÇÃO FORÇADA E ESQUECIMENTO: OS ROHINGYAS E A INÉRCIA DA SOCIEDADE INTERNACIONAL Esta seção objetiva descrever os eventos mais recentes que envolvem a violação dos direitos humanos da população rohingya nos anos de 2016 e no decorrer do ano de 2017, mas principalmente tenta entender o porquê de a comunidade internacional, incluindo os Estados, as Organizações Internacionais Intergovernamentais, dentre outros atores, terem falhado em responder efetivamente à crise humanitária que nasceu no Mianmar e gerou consequências regionais e mundiais, sendo uma crise atual, mas que, como anteriormente defendido, está longe de ser recente. Mianmar por barco durante o primeiro semestre de 2015, um aumento de 34 por cento relativo aos dados de 2014 (Tradução nossa). MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOS RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 64 O novo governo do Mianmar, liderado pela LND, tomou posse em março de 2016 depois de varrer as eleições de novembro de 2015. A transição política começou de forma promissora, com a libertação de mais de 200 presos políticos e detentos comuns. Porém, a luta entre as forças armadas nacionais e os grupos armados étnicos se intensificou em várias regiões durante o ano, resultando em abusos contra civis e deslocamentos maciços, .Em setembro de 2016, os combates entre grupos armados étnicos e forças governamentais no estado de Karen deslocaram cerca de 5.900 civis (HUMAN RIGHTS WATCH, 2017). Além das repetidas violações contra a população rohingya no estado de Rakhine, imagens de satélite, em novembro de 2016, revelaram destruição generalizada causada por incêndios propositais nas aldeias rohingyas, com um total de 430 construções destruídas em três aldeias do distrito de Maungdaw. Além disso, as restrições do governo à entrada das agências humanitárias levaram à insegurança alimentar e à desnutrição crítica, e cerca de 30 mil habitantes, muçulmanos rohingyas, permanecem deslocados (HUMAN RIGHTS WATCH, 2017). Não está claro quantos permanecem deslocados internamente em Mianmar ou quantos já fugiram para Bangladesh, já que as autoridades do país não permitem que os trabalhadores humanitários acessem a área para realizar uma avaliação completa das necessidades dessas pessoas. Consoante ao relatório da Organização Internacional para a Migração (2017), múltiplos surtos de prisões extrajudiciais em outubro de 2016 e agosto de 2017 no estado de Rakhine provocaram um grande fluxo de rohingyas cruzando o mar até as fronteiras com o Bangladesh. Estima-se que 436.000 rohingyas atravessaram para o Bangladesh desde 25 de agosto de 2017, aumentando a população rohingya total residente nas cidades de Cox's Bazar, Ramu, Teknaf e Ukhia para mais de 600 mil. A situação em que essas pessoas se encontram é devastadora. De acordo com o relatório da Organização Mundial da Saúde, de 2017, a violência no estado de Rakhine, que começou em 25 de agosto de 2017, deixou um número estimado de 486 000 pessoas vulneráveis em toda a fronteira em Cox's Bazar, Bangladesh. A velocidade e a escala do influxo resultaram em uma emergência humanitária crítica. Essas pessoas entraram em Bangladesh com poucas posses, usando a maioria de suas economias em transporte e construção de um abrigo. A sua dependência da ajuda humanitária para alimentação, medicamentos, abrigo e outras ERICK DA LUZ SCHERF, RODRIGO MILINDRE GONZALEZ RICRI Vol. 5, No. 10, pp. 37-73 65 necessidades é imensa e é provável que somente cresça. Os serviços básicos que estavam disponíveis antes do influxo também estão sob forte ameaça devido ao aumento maciço da população na área. Em alguns dos acampamentos que emergiram espontaneamente, praticamente não há acesso a instalações de água e saneamento, aumentando os riscos de um surto de doenças. Na imagem 2, pode ser verificada a situação de um dos campos de refugiados ocupados pela população rohingya, no qual, pela foto, não é possível enxergar o fim.Imagem 2: Campo de refugiados na região de Kutupalong, no Bangladesh.Fonte: Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, 2017.</title>
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          <title>MIGRAÇÃO FORÇADA E CRISE HUMANITÁRIA NO MIANMAR: RONINGYA -SEM TERRITÓRIO, SEM NAÇÃO E SEM DIREITOSRICRIVol. 5, No. 10, De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários(2017)  21 , o fundo separado para ajuda à população rohingya, até outubro de 2017, alcançava a casa de 106 milhões de dólares, enquanto para alcançar as metas humanitárias de forma eficaz, a ONU necessitava de 434 milhões de dólares destinados à causa, ou seja, ainda faltam 328 milhões. Conforme o relatório financeiro do ACNUR 22 , sabe-se que pouco mais de 14 milhões de dólares, de todo o orçamento da organização, fora destinado para a Ásia e o Pacífico em 2017, representando um valor muito baixo, que ao ser distribuído em toda a Ásia e Pacífico, não representa quase nada efetivamente para o atendimento das necessidades humanitárias da população rohingya. Mas o que leva então, os Estados, assim como as Organizações Internacionais (por eles patrocinadas), dentre outros atores das relações internacionais a fecharem os olhos (ou tomarem esforços individuais ineficazes) frente a esses desafios, ao invés de agirem conjuntamente para atingir a resolução destes problemas com a finalidade de garantir a dignidade da pessoa humana nessas populações? Pois bem, para alcançar esta resposta, duas problemáticas já levantadas por Andrew Linklater e agora aplicadas ao caso rohingya, devem ser novamente levantadas: a ausência e "impossibilidade" de uma concepção de comunidade no âmbito das relações internacionais e a dicotomia cidadão/estrangeiro. Linklater (2007) argumenta que a dicotomia entre cidadania e humanidade aparece já nas primeiras teorias do sistema-estatal moderno. Para ele, esses escritos refletiram um movimento mais amplo na cultura europeia, a ascensão do individualismo. Neste contexto, uma sociedade de indivíduos era mais necessária do que uma sociedade de Estados, e uma vez que uma associação política universal não poderia ser obtida de qualquer maneira, os contratos eram concluídos não por toda a humanidade coletivamente, mas separadamente dentro de grupos políticos emergentes (LINKLATER, 2007). Como os indivíduos não eram partes em contratos com estrangeiros, eles estavam livres de responsabilidades morais internacionais específicas. Os Estados, além disso, tinham obrigações vinculativas apenas para com aqueles que haviam consentido em seu estabelecimento, mas não para com outras pessoas. Por tais acordos, os indivíduos 21 https://www.unocha.org/sites/unocha/files/Rohingya%20Refugee%20Crisis%20Funding%20Overview- %2016%20Oct%202017.pdf</title>
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