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        <article-title>A QUESTÃO RELIGIOSA E POLÍTICA NO CONFLITO DA IRLANDA DO NORTE The religious and political issue in the northern Ireland's conflict</article-title>
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      <contrib-group><contrib contrib-type="author"><name>
            <givenName>Mariane</givenName>
            <surname>Monteiro Da Costa</surname>
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        <title>Abstract</title>
        <p>Resumo: Este artigo objetiva pesquisar a respeito do conflito da Irlanda do Norte, história essa de oposições majoritárias pelos anglicanos unionistas, simpatizantes pela continuidade do domínio britânico, e do outro lado a minoria católica separatista que luta pelo fim do domínio em questão. Será visto como este conflito se desenvolveu a partir de uma questão religiosa e se tornou política. Neste contexto iremos estudar a relação identitária entre católicos e anglicanos e entre irlandeses e ingleses. A partir de uma abordagem construtivista estruturalista, será analisado em que ponto o conflito entre estes dois grupos começou como essencialmente religioso e, conforme o desenrolar do mesmo, ganhou novas dimensões tornando-se político. Também serão abordadas as consequências da intervenção inglesa para o acirramento do conflito. Para a realização deste estudo, foram utilizados como base textos bibliográficos, estudos antropológicos e dados históricos.</p>
        <p>Irlanda do Norte; Católicos; Anglicanos; Religião; Conflito; Identidades.</p>
        <p>Abstract: This article has as an objective to research about the Northern Ireland conflict, a story of major oppositions of unionists of the Church of England, sympathizers to the British rule's continuity, and in the opposite side, the separatist catholic minority that fights for the end of this domain. It will be discussed how this conflict has developed as a religious issue and became a political one. In this context, we are going to study the identity relation between Catholics and Anglicans, Irish and British identities. Using a structuralist constructivist approach, we are going to analyze in which point the conflict between this two groups started essentially as religious matter and, as it developed, it gained new dimensions turning into political. The consequences of the British intervention for the worsening of the conflict are also going to be studied. For the realization of this study, we used as basis bibliographic texts, anthropological studies and historical data. Key-words: Northern Ireland; Catholics; Anglicans; Religion; Conflict; Identities.</p>
        <p>A relação entre religião e às Relações Internacionais (RI) é uma área que por muito tempo foi negligenciada dentro do campo das RI. Por isso, para ajudar a levantar debates acerca do assunto, o presente trabalho tem como objetivo estudar o conflito na Irlanda do Norte e o papel que a religião desempenhou nos acontecimentos que ocorreram entre os anos 1969 e 1998. Para tanto, estudaremos a relação entre as identidades presentes na região e o seu desenvolvimento. A partir de uma abordagem construtivista estruturalista, analisaremos se elas começaram como essencialmente religiosas e, conforme o desenrolar do conflito, ganharam novas dimensões tornando-se políticas.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <title>Keywords</title>
        <kwd>Palavras-chave: Irlanda do Norte</kwd>
        <kwd>Católicos</kwd>
        <kwd>Anglicanos</kwd>
        <kwd>Religião</kwd>
        <kwd>Conflito</kwd>
        <kwd>Identidades Key-words: Northern Ireland</kwd>
        <kwd>Catholics</kwd>
        <kwd>Anglicans</kwd>
        <kwd>Religion</kwd>
        <kwd>Conflict</kwd>
        <kwd>Identities 1 INTRODUÇÃO</kwd>
      </kwd-group>
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    <sec>
      <title>INTRODUÇÃO</title>
      <p/>
      <p>A relação entre religião e às Relações Internacionais (RI) é uma área que por muito tempo foi negligenciada dentro do campo das RI. Por isso, para ajudar a levantar debates acerca do assunto, o presente trabalho tem como objetivo estudar o conflito na Irlanda do Norte e o papel que a religião desempenhou nos acontecimentos que ocorreram entre os anos 1969 e 1998. Para tanto, estudaremos a relação entre as identidades presentes na região e o seu desenvolvimento. A partir de uma abordagem construtivista estruturalista, analisaremos se elas começaram como essencialmente religiosas e, conforme o desenrolar do conflito, ganharam novas dimensões tornando-se políticas.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>RICRI Vol. 7, No. 14, pg. 135 -155. 137</title>
      <p/>
      <p>Assim, antes de nos voltarmos aos acontecimentos mais recentes, precisamos primeiro entender que eles tiveram fortes raízes históricas. O conflito na Irlanda teve início com a criação de uma nova denominação religiosa oficial para o Reino Unido: o anglicanismo. Esta era majoritariamente católica, o que criou uma forte resistência à adoção da nova denominação religiosa -chegou-se até mesmo a torná-la ilegal. Como os irlandeses consideram a religião como parte fundamental da sua identidade, surgiu, então, uma forte oposição à Coroa Britânica. Com o tempo, o país foi dividido: uma parte tornouse independente sob a bandeira da República da Irlanda e a outra, que passou a ser chamada de Irlanda do Norte, continuou sob domínio britânico <xref rid="b6" ref-type="bibr">1</xref>.</p>
      <p>Esta segunda foi criada especialmente para atender aos desejos anglicanos, tendo sido feita essencialmente para eles. Isso desencadeou, consequentemente, um novo problema: os católicos que continuaram a viver nessa região passaram a sofrer uma forte intolerância por parte dos anglicanos <xref rid="b6" ref-type="bibr">1</xref>. Como resultado, os católicos começaram a não se sentir bem-vindos na região devido às discriminações por eles sofridas. Assim, no final da década de 1960, eles começaram uma série de protestos por direitos iguais. Protestos estes que, algumas vezes, se tornaram violentos. Por sua parte, a polícia, composta principalmente por anglicanos-unionistas, reagiu de forma exagerada, agravando a situação <xref rid="b17" ref-type="bibr">2</xref>.</p>
      <p>Entre os anos de 1969 e 1998, cerca de 3.500 pessoas foram mortas, em sua maioria homens jovens que não estavam envolvidos diretamente com o conflito. Apesar de o número não parecer alto, quando consideramos o tamanho da Irlanda do Norte, uma região com aproximadamente 1.68 milhões de habitantes, a quantidade de mortes é significativa.</p>
      <p>Em 1998, as partes envolvidas chegaram a um acordo que levou à diminuição da violência e colocou fim ao conflito. Mesmo assim, a desconfiança entre católicos-separatistas e anglicanos-unionistas ainda é forte na região <xref rid="b17" ref-type="bibr">2</xref> </p>
    </sec>
    <sec>
      <title>Identidades e a religião</title>
      <p/>
      <p>Entende-se como religião:</p>
      <p>1. Um sistema de regras (principalmente de instruções) e práticas relacionadas, que agem para 2.</p>
      <p>Explicar o sentido da existência, incluindo identidade, ideias sobre a sua posição e a de outros no mundo 3.</p>
      <p>Assim Norte já não estar mais em guerra, ela tampouco está em paz <xref rid="b17" ref-type="bibr">2</xref>.</p>
      <p>Além dos murais já mencionados, outro exemplo de como as identidades são extremamente separadas são as comunidades em que vivem. Foi criada uma "infraestrutura cultural": mais de 90% das pessoas vivem em áreas nas quais seu grupo constitui a maioria. Cada um tem escolas próprias, partidos políticos próprios, jornais preferidos, entre outros. Acima de tudo, cada um dos lados conta a história a partir de sua visão, caracterizando o outro grupo como desmerecedor de confiança <xref rid="b17" ref-type="bibr">2</xref>. Existe um muro de 12 metros que separa comunidades católicas e anglicanas, que é conhecido como "Peace Line". John Keery, um muralista anglicana, disse que "se olhar de </p>
    </sec>
    <sec>
      <title>O Papel da Inglaterra</title>
      <p/>
      <p>Um dos grandes motivos de o conflito na Irlanda do Norte ter chegado a este ponto foi porque, por muito tempo, a questão foi praticamente ignorada por parte dos britânicos, Levando em consideração a pressão da população inglesa e parte da população da Assim, a atitude tomada pelo governo inglês foi de tratar a questão como algo que ameaçasse a segurança e a legitimidade do Estado. Neste contexto, podemos entender que tal posição inglesa teve como consequência um agravamento do conflito em questão.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>CARACTERIZAÇÃO POLÍTICA</title>
      <p/>
      <p>Com base nas informações já apresentadas, percebemos que o tema proposto tem um forte caráter identitário. Por isso, usaremos a teoria construtivista estruturalista de</p>
      <p>Wendt relacionada a teoria da estruturação de Giddens para compreender o caso.</p>
      <p>Em sua obra, Wendt afirma que existem três culturas de anarquia: hobbesiana, lockeana e kantiana. Primeiramente, ele define anarquia como a ausência de autoridade centralizada. Em seguida, fala que definir a estrutura em termos sociais admite as possibilidades de construir Estados de maneiras diferentes e gerar lógicas distintas de anarquia em nível macro. Assim, ideias compartilhadas associadas às ideias privadas criam um subconjunto da estrutura social conhecida como "cultura" <italic>(WENDT, 2001</italic>).</p>
      <p>Na cultura hobbesiana, não há a lógica da convivência. Os agentes constantemente reveem o direito do outro de existir e, quando concluem que o outro não o tem, usam da violência para aniquilá-lo. Nesse contexto, não há restrição quanto ao uso da violência -e nem como usá-la -para conquistar seus interesses. Já a cultura lockeana substitui a lógica hobbesiana do estado de natureza por uma de "viva e deixe viver". A rivalidade é vista como uma representação coletiva, menos ameaçadora que a de inimigo, em que os rivais esperam a atitude entre si de reconhecer sua soberania (e a propriedade), sua "vida e liberdade" como um direito não se tente conquistá-los ou dominá-los. No caso estudado, podemos identificar que tanto os separatistas e os unionistas são, em certo grau, interdependentes e é justamente por isso que há a escalada do conflito.</p>
      <p>Mesmo sendo rivais, as decisões tomadas por um lado afetam diretamente as relações com o outro. Além disso, o sentimento de destino comum entre as partes é extremamente baixo.</p>
      <p>De fato, a partir do momento que recorrem ao uso da violência, podemos perceber que ambos desejam destruir ao outro. A mudança mais importante é que, com o desenvolvimento do conflito, separatistas e unionistas deixam de acreditar nas premissas lockeanas de "viva e deixe viver", da não-violência e passam a viver em um estado de constante desconfiança de ataques pelo outro grupo. Essas alterações nas variáveis, fizeram que a relação entre as duas identidades se caracterizasse, então, pela cultura hobbesiana. É assim que o comportamento dos separatistas e dos unionistas se dá a partir desse momento.</p>
      <p>Uma situação de violência generalizada se instala na Irlanda do Norte, com os dois lados tentando impor sua vontade à força, gerando medo e insegurança. Quando há essa mudança da cultura lockeana para a hobbesiana é que o conflito ganha seu caráter político.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
      <p/>
      <p>Neste trabalho, dedicamo-nos a estudar o conflito da Irlanda do Norte e como este se desenvolveu a partir de uma questão religiosa e se tornou política. Para tal, partimos da ideia de que existem duas identidades na região de Ulster: a separatista e a unionista. </p>
    </sec>
    <sec>
      <fig id="fig_0" orientation="portrait" fig-type="graphic" position="anchor">
        <caption>
          <title>as "questões relacionadas à Irlanda do Norte não podiam ser levantadas na Câmara dos Comuns"(TAYLOR, 2001, p.18, tradução própria).Quando a questão foi finalmente abordada, os ingleses tomaram o lado dos unionistas, vendo os separatistas como um grupo de ingratos à coroa. Esse pensamento fica bem claro em várias falas da então Primeira Ministra, Margaret Thatcher, como quando ela diz que, apesar de os separatistas dizerem não dever aliança a Londres, eles ainda assim usam o dinheiro do governo(Press Association, 2014). A líder tão pouco expressava simpatia pelos direitos das minorias, e acreditava que a estas não deveriam ser dadas prerrogativas particulares(BOWMAN, 2014).Dessa forma, quando Londres finalmente enviou tropas para intervir no conflito, elas não foram como uma terceira parte neutra. Os ingleses, invés de tentarem acalmar a situação para acabar com a violência direta, tomaram o lado dos separatistas. Os católicos se viram, assim, encurralados: de um lado eram atacados pelos unionistas e por outro pelos ingleses(GOMIDE, 2010).</title>
        </caption>
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        <caption>
          <title>Nossa hipótese é que o conflito na Irlanda do Norte teve início com um caráter religioso. Este teria surgido de uma intolerância religiosa entre anglicanos e católicos que viviam na região. Tentaremos mostrar que com o tempo essa intolerância passou a abranger outras áreas, como a social, política e a econômica. Nesse contexto, os católicos desenvolveram um sentimento de que não deveriam haver "duas Irlandas", mas sim uma única, unida sob a bandeira da República da Irlanda. Ou seja, eles desejavam se separar doA QUESTÃO RELIGIOSA E POLÍTICA NO CONFLITO DA IRLANDA DO NORTE RICRI Vol. 8, No. 14, pg. 135 -155. 138 Reino Unido e unir-se a Irlanda. Já os anglicanos continuavam a se identificar como integrantes do Reino Unido e almejavam continuar como parte deste. Acreditamos que nesse momento as duas identidades -separatista e unionista - deixaram de se ver somente como rivais e se tornaram inimigas. Começaram a agir por uma lógica de que o outro deve ser combatido para que a própria existência pudesse ser garantida e recorreram à violência. Deixaram de conviver e se isolaram uma da outra. Surge, assim, a lógica do amigo/inimigo no conflito da Irlanda do Norte, caracterizando-o, consequentemente, como político. Estudaremos, também o papel desempenhado pela Inglaterra para que essa nova caracterização se tornasse possível. Buscaremos mostrar que os ingleses ignoraram a questão dos irlandeses o máximo possível e que, quando não mais o puderam fazer, trataram os separatistas como um grupo de ingratos que devia lealdade à Coroa. Dessa forma, ao invés de o exército britânico tentar manter a paz na região de Ulster, tomou o lado dos unionistas e atacou os separatistas, deixando a situação ainda mais delicada e contribuindo para o caráter político do conflito. 2. IDENTIDADES Uma questão chave para este trabalho são as identidades. No conflito estudado, as duas denominações religiosas, católica e anglicana, têm uma função importante na formação das identidades. Essas denominações religiosas não constituem identidades em si mesmas, mas desempenham um papel fundamental na formação destas na medida em que auxiliam na identificação dos integrantes com um grupo ou na oposição deste a outro grupo. É importante discutir como as ideias influenciam as identidades e os interesses. Para Wendt, uma pequena amostra da importância das ideias na política internacional está no debate entre materialismo e idealismo. Ambos concordam no que diz respeito ao papel das ideias, mas tendem a divergir ao entender o impacto destas. Ele diz que "materialistas privilegiam relações causais, efeitos e questões; idealistas privilegiam relações constitutivas, efeitos e questões" (WENDT, 2001, p.25). Na visão materialista, o fato mais fundamental sobre a sociedade é a natureza e organização das forças materiais. As ideias, MARIANE MONTEIRO DA COSTA RICRI Vol. 7, No. 14, pg. 135 -155. 139 portanto, possuem efeitos, mas estes são postos em segundo plano quando não são frutos de forças materiais. Por outro lado, os idealistas acreditam que o fato mais fundamental sobre a sociedade é a natureza e estrutura da consciência social (distribuição de ideias ou conhecimento). Assim, para os idealistas, o sentido e os efeitos do poder e dos interesses dos atores somente são importantes quando as ideias destes são consideradas. O autor diz também que identidades e interesses de atores são construídos por ideias compartilhadas. (WENDT, 2001). Para o entendimento da forma como são constituídos os interesses é fundamental entender também a identidade, já que ela provê uma base para estes e funciona como uma liga entre os interesses e as estruturas (TOLOSSA, 2004). Wendt afirma que as identidades são socialmente construídas a partir de comportamentos, ideias e significados compartilhados por atores que justificam as ações. "As identidades e os interesses dependem conceitual ou logicamente da cultura, no sentido de que é apenas em virtude de significados compartilhados que é possível pensar em quem alguém é e o que quer de determinadas maneiras" (WENDT, 2014, p.331-332). Além disso, as identidades são um contraponto entre si que, assim, as fazem importantes nas interações sociais. "Ao assumir uma identidade, o Ego está ao mesmo tempo moldando o Alter em um contra papel correspondente que torna a identidade do Ego significativa" (WENDT, 2014, p. 398).O autor diz que existem quatro tipos de identidades. A primeira é a pessoal -ou corporativa -que é derivada da consciência e da memória que o self tem em relação a si."Elas são constituídas por estruturas homeostáticas auto organizadas que fazem dos atores entidades distintas"(WENDT, 2001, p. 273). A segunda, é a identidade de tipo, que é referente a categorias sociais que têm conteúdo ou significado social. A terceira, é a de papéis que diz respeito ao compartilhamento de expectativas sobre o comportamento do Outro, ou seja, só existe em relação ao Outro. A quarta, denominada coletiva, é a identificação do self com o outro na qual a distinção entre ambos se torna turva(WENDT,   2001).Reforçando essa noção, Kathryn Woodward admite que a identidade é relacional e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades(WOODWARD, 2000, p.14). As identidades estão enraizadas no auto entendimento dosA QUESTÃO RELIGIOSA E POLÍTICA NO CONFLITO DA IRLANDA DO NORTE RICRI Vol. 8, No. 14, pg. 135 -155. 140 atores, mas também dependem se tal identidade é reconhecida por outros atores, o que dá a eles uma característica intersubjetiva. Ademais, elas são constituídas pela interação das ideias internas e externas (FINNEMORE, SIKKINK, 2001). Podemos identificar duas identidades relevantes para o presente artigo. Uma delas é composta por aqueles indivíduos que acreditam dever lealdade ao Reino Unido e que desejam continuar como parte deste. A característica predominante deste grupo é a religião anglicana que é comumente conhecido como unionista. Em contraposto a esta identidade, uma outra foi desenvolvida: os integrantes desta compartilham a crença de que a Irlanda do Norte deve se separar da Coroa Britânica e se tornar parte da República da Irlanda. Sua característica mais marcante é o catolicismo e estas pessoas são conhecidas como separatistas. Cada identidade só pode existir em oposição à outra, ou seja, sem os separatistas, os unionistas não existiriam. Tal oposição se dá na medida em que cada grupo se distancia em questões ideológicas, religiosas e políticas -sendo estes elementos fundamentais de suas formações. Uma outra questão relevante para o construtivismo, que é uma teoria das Relações Internacionais, é a dos interesses e preferências. Como já vimos, as identidades servem como base para moldá-los. Isso é comprovado uma vez que "não se pode saber o que o ator</title>
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          <title>estudado. Acredita-se que os seres humanos são uma espécie que tem a necessidade de encontrar um sistema de crenças, essencial para a auto definição daquele que acredita, o que se chama de identidade. Todas as religiões são organizadas tendo como base as crenças que são fundamentais não apenas para a realidade, mas mais ainda para a identidade humana. Esta, juntamente com a perspectiva interna de cada religião, é central para o pensamento e a prática religiosas(KUBÁLKOVÁ, 2003).Nesse contexto, torna-se importante considerar o papel que atores religiosos podem ter na condução das políticas do Estado, sejam elas internas ou externas. Um ponto importante é que muitos atores religiosos não estão somente preocupados com questões religiosas ou metafísicas per se, como também com assuntos relativos à situação política, econômica e social. A partir dessa lógica, buscam adquirir influência tanto nacional quanto internacionalmente, utilizando como instrumento de autopromoção os seus valores morais, éticos, econômicos, sociais e políticos. Ademais, de modo simples, o poder dos atores religiosos é, por via de regra, aquele que chamamos de soft power. Isso quer dizer que os atores religiosos baseiam seu poder na capacidade de fazer com que outros atores também desejem seus mesmos objetivos, sem utilizar de ameaças ou recompensas(HAYNES,   2016).Sendo assim, fica clara a importância do estudo das identidades no conflito religioso da Irlanda do Norte. As identidades católica e anglicana carregam consigo todo um peso religioso que instrui o modo de agir de cada um. São valores tradicionais, normalmente passados de geração em geração, que moldam a forma pela qual as pessoas se relacionam. Possuir tais identidades é algo essencial para os seres humanos, visto que isto é algo que une as pessoas em grupos de afinidade, sendo eu mais simpático e disposto a interagir com aqueles que possuem e defendem os mesmos valores que eu. identidades é algo essencial para os seres humanos, visto que isto é algo que une as pessoas em gruposMARIANE MONTEIRO DA COSTA RICRI Vol. 7, No. 14, pg. 135 -155. 143 de afinidade, sendo eu mais simpático e disposto a interagir com aqueles que possuem e defendem os mesmos valores que eu. A maior parte das pessoas acredita que "ter identidade" é uma parte importante da vida saudável, e "perder identidade" é um sinal do aparecimento de sérios problemas de saúde, psicológicos e gerais. A crença religiosa e a identidade que ela fornece vinculam a pessoa que crê à ação, à realização de sacrifícios e, até mesmo, ao sacrifício da vida por causa daquilo em que se acredita (ERICKSON apud KUBÁLKOVÁ, 2003). 3. CONTEXTO HISTÓRICO Para que possamos entender como o conflito da Irlanda do Norte se desenvolveu passando a abranger mais áreas além da puramente religiosa, precisamos primeiramente entender como ele teve início. Além disso, é necessário compreender como as identidades participantes mudaram ao longo do tempo. Até o século V, aproximadamente, a Irlanda seguia majoritariamente religiões tradicionais. Por volta da metade deste século São Patrício levou a religião católica a ilha. Aproximadamente no ano de 600 dC, o catolicismo já havia tomada o lugar das religiões tradicionais (LIVING..., sd). A partir dessa época, a Igreja Católica se tornou parte essencial da cultura irlandesa, caracterizando-se como um dos traços mais marcantes da identidade dos irlandeses. As tensões entre a Irlanda e a Inglaterra tiveram início quando esta última fez da primeira uma de suas colônias. A situação, contudo, agravou-se quando o então rei britânico Henrique VIII, para poder se separar de sua esposa e casar-se novamente, rompeu com Roma e fundou a Igreja Anglicana. Para que sua nova religião se consolidasse, o monarca tornou o catolicismo ilegal, e levou a religião à política irlandesa pela primeira vez. Essa medida desencadeou uma resistência por parte dos irlandeses à Coroa Britânica, visto que eles não queriam abandonar uma parte tão importante de sua identidade (HISTORY, sd). Surgiram, então, dois grupos rivais na Irlanda. De um lado, havia os católicos, que desejavam continuar com suas tradições e manter sua identidade. De outro, os anglicanos, que mantiveram sua fidelidade ao rei e abraçaram a nova crença. Essa divisão religiosa se A QUESTÃO RELIGIOSA E POLÍTICA NO CONFLITO DA IRLANDA DO NORTE RICRI Vol. 8, No. 14, pg. 135 -155. 144 encontra no centro da identidade corporativa dos dois grupos, ou seja, é a essência da diferença entre ambos. Mesmo com suas distinções, foram obrigadas a compartilhar o território irlandês por séculos. Ademais, durante a dinastia Tudor, houve um forte incentivo para que os ingleses ocupassem a região nordeste da ilha, Ulster. Esse evento ficou conhecido como "As plantações de Ulster". Os ingleses, que eram anglicanos, fizeram com que os católicos saíssem a força de sua região e fossem levados às margens geográficas da mesma. Houve, consequentemente, um acirramento do conflito, visto que os católicos achavam que suas terras haviam sido roubadas (GOMIDE, 2010). Podemos, assim, perceber que as plantações de Ulster deram uma nova roupagem ao conflito acrescentando à questão religiosa a territorial. Inspirando-se na independência americana no ano de 1776, os irlandeses deram fôlego ao seu próprio movimento separatista. No entanto, este foi rapidamente suprimido pelos ingleses. Se a Irlanda se tornasse independente também, as portas para a independência das outras colônias britânicas estariam abertas. E esse era um custo com o qual o Reino Unido não podia arcar (History of England, sd). Por isso, a Irlanda só conseguiu conquistar a sua independência no ano de 1921, com o "Anglo-Irish Treaty". Ficou acordado, no entanto, que nove condados irlandeses continuariam sobre o domínio britânico -estes integrariam a Irlanda do Norte. Todavia, em uma manobra para garantir que a maioria integrante da Irlanda do Norte fosse anglicana, os ingleses abriram mão de três condados. Se assim não fosse feito, o catolicismo seria a denominação religiosa predominante no novo país (GOMIDE, 2010). É interessante ressaltar que a escolha da região também foi estratégica, já que ela foi o palco das plantações de Ulster. O Reino Unido esperava que, assim, teria apoio da maioria na região de Ulster. A Coroa Britânica construiu o Estado da Irlanda do Norte para que esse fosse especialmente dos anglicanos. A discriminação contra os católicos se tornou, de certo modo, institucionalizada. Os anglicanos detinham os meios de produção e formavam a elite financeira do país; os católicos tiveram que se contentar com empregos subalternos que MARIANE MONTEIRO DA COSTA RICRI Vol. 7, No. 14, pg. 135 -155. 145 não eram tão bem remunerados. A participação política era dada somente a quem tinha condições econômicas (TAYLOR, 2001). Essa discriminação que permeava todo nível da vida política, social e econômica não era um acidente, mas fora desenhada para que o Estado e suas instituições fossem governados para e pela maioria anglicana para quem a entidade política da Irlanda do Norte fora desenvolvida. (TAYLOR, 2001, p17, tradução própria). Nessa constituição do Estado da Irlanda do Norte há um certo grau de intolerância religiosa. Apesar de os católicos poderem professar sua crença, eles sofriam discriminações em outras esferas por conta de sua religião: a tensão se espalhou ainda mais para outras áreas, como a social e a econômica. Essas outras esferas da vida nas quais foram refletidas as consequências da intolerância religiosa contribuíram para a formação das identidades participantes no conflito. Elas alteraram as categoriais sociais às quais os dois grupos se encaixavam, alterando sua identidade de tipo. Devido às discriminações por eles sofridas, os católicos começaram a não se sentir bem-vindos dentro do território da Irlanda do Norte. Inspirados pelo movimento de direitos civis que ocorreu nos Estados Unidos na década de 1960, os católicos começaram a lutar dentro da região por maior igualdade entre os grupos lá presentes. Alguns dos protestos se tornaram violentos e a reação da polícia local agravou ainda mais a situação. Assim, surgiram grupos militantes em ambas as comunidades. Com o tempo, o movimento católico que havia começado para lutar por igualdade, assumiu um caráter separatista. (MAC GINTY et al., 2007). Deste modo, os dois grupos presentes na Irlanda do Norte se desenvolvem, deixando de ser somente o católico e o anglicana. Identidades são formadas, passando elas a serem separatista e unionista, respectivamente, com a religião sendo apenas uma de suas características. A primeira deseja se separar do Reino Unido e se unir a República da Irlanda, a segunda, deseja continuar como território britânico. Elas deixam de ser rivais e passam a se ver como inimigas. Assim, é possível perceber que as identidades de papéis dos envolvidos mudam, já que o grau de "intimidade" entre ambos é alterado drasticamente. O conflito que teve início ficou conhecido então como "The Troubles". Durante os anos de 1969 e 1998, católicos, também chamados de separatistas, e anglicanos, chamados A QUESTÃO RELIGIOSA E POLÍTICA NO CONFLITO DA IRLANDA DO NORTE RICRI Vol. 8, No. 14, pg. 135 -155. 146 de unionistas, se enfrentaram pelo status da região da Irlanda do Norte. Neste, as duas partes se armaram para defender aquilo que acreditavam. As principais formas de violência empregadas pelos grupos eram as bombas e tiroteios (MAC GINTY et al, 2007). A divisão entre os unionistas e os separatistas tornou-se extremamente acirrada. Um exemplo de como as identidades são bem demarcadas e separadas no conflito, são os murais que lá existem. O documentário Art of Conflict (2012) aborda, justamente, tais murais na Irlanda do Norte como forma de expressão da população, pela ótica dos pintores e das pessoas que lá vivem, explorando os seus impactos e os propósitos. Neste contexto, as pessoas usam da arte para mostrar seu ponto de vista. Seria uma forma de mostrar ao mundo o que está acontecendo na Irlanda. Começou apenas como algo que as pessoas pintavam e mandavam mensagens ameaçadoras para o outro lado. Era uma expressão artística muito politizada (ART..., 2012). Uma infeliz associação religiosa aos partidos políticos é a história deste país. Se você é católico, está associado ao nacionalismo e o republicanismo. Se você é anglicana está associado ao lealismo e unionismo. Os murais republicanos querem se associar com a Irlanda toda como uma ilha, e os murais lealistas querem se associar com o Reino Unido. (MCCRORY, 2012). Tal fato pode ser relacionado a teoria da estruturação de Anthony Giddens. Em tal teoria, o autor afirma que a estrutura não é estática, ou seja, está em constante transformação. Isso seria possível através da mudança de comportamento que, caso seja repetida por grande parte dos agentes pode se tornar uma instituição (GIDDENS, 1989). Assim aconteceu com os murais norte-irlandeses. Estes não eram parte do conflito, e não eram comuns, mas a partir do momento que um indivíduo passou a pintar muros com mensagens políticas e o comportamento foi se repetindo, tanto para o lado anglicana, quanto para o lado católico, ele institucionalizou-se. Dessa forma, uma mudança na estrutura ocorreu a partir da mudança de comportamento dos agentes. A Irlanda do Norte se dividiu. Nesse contexto, um grupo atacava a área do outro sem a menor misericórdia. Essa situação de violência generalizada, que durou cerca de 30 anos, teve dois eventos marcantes, que ficaram conhecidos como "Bloody Sunday" e "Bloody Friday". No primeiro, no dia 30 de janeiro de 1972, o exército britânico matou 13 manifestantes separatistas que marchavam em protesto contra o aprisionamento de MARIANE MONTEIRO DA COSTA RICRI Vol. 7, No. 14, pg. 135 -155. 147 irlandeses nacionalistas suspeitos (History, sd). O caráter horrendo dado ao evento vem do fato de os nacionalistas defenderem que não haviam feito coisa alguma para provocar tal reação do exército britânico. Já de acordo com este, a reação foi provocada porque os manifestantes haviam atirado contra o exército (TAYLOR, 2001). No segundo, a vertente armada do movimento nacionalista conhecida como Irish Republican Army -IRA -, plantou 24 bombas na cidade de Belfast. Estas explodiram por uma hora e vinte minutos, deixando a cidade em um caos sem precedentes (BBC HISTORY, sd). Lutz e Lutz em seu livro Contemporary Security Studies, dizem que o terrorismo possui várias definições, mas todas elas são criticadas em alguns pontos. Por este motivo, os autores consideram como definição de terrorismo características que são comuns a todos aqueles considerados terroristas. São elas: uso, ou ameaça de uso, da força; organização em grupos; objetivos políticos; alvos vão além das vítimas diretas; um dos atores não pode ser governo; e o fato de ser uma arma do fraco (LUTZ, LUTZ, 2016, p.313). Dessa forma, o IRA pode, então, ser considerado um grupo terrorista, uma vez que, se encaixa perfeitamente nas características expostas pelos autores. O ataque na cidade de Belfast pode, assim, ser considerado um ato terrorista por parte dos separatistas.</title>
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          <title>Os anglicanos chegam à conclusão que é mais fácil aceitar a presença dos católicos do que se engajar num conflito para tirá-los do local. Convivem, então, porque têm de conviver em maior ou menor grau.Esse reconhecimento, contudo, não se dá de maneira total. Para os anglicanos, os católicos não precisavam de mais direitos do que o de moradia. Nesse contexto, estes últimos praticamente não tinham participação política, econômica e social. As identidades evoluíram e passaram a englobar também essas outras esferas da vida. Os católicos passaram a desejar se juntar à República da Irlanda -tornaram-se os separatistas -, e os anglicanos desejavam continuar como parte do Reino Unido -tornaram-se os unionistas.As ideias compartilhadas entre eles mudaram. A convivência tornou-se inviável.Para cada um dos lados, o outro era um impedimento de alcançar seus objetivos plenamente. Para os separatistas, os unionistas impediam-nos de ter direitos plenos e estavam no caminho para a união com a Irlanda. Para os unionistas, os primeiros queriam mudar a ordem vigente e separá-los da Coroa à qual sentiam que deviam lealdade.A Teoria da Estruturação de Giddens diz que quando há uma mudança no comportamento dos agentes, a estrutura também é transformada. Assim, agentes e estruturas se encontram num estado de constante co-constituição(GIDDENS, 1989).Podemos, então, ver como esta explica a constituição das identidades do conflito estudado.Enquanto os agentes em questão, separatistas e unionistas, se viam apenas como rivais obrigados a conviver, a estrutura se articulava de modo a garantir que esses papéis continuassem. Contudo, o comportamento dos agentes foi mudando -o ódio e a nãoMARIANE MONTEIRO DA COSTA RICRI Vol. 7, No. 14, pg. 135 -155. 151convivência pacífica entre eles passou a ser a nova realidade -e institucionalizando-se.Assim, a estrutura vigente não conseguiu mais se manter, transformando-se e tornando-se conflituosa: separatistas e unionistas passaram a lutar para ter seus interesses garantidos.Nesse processo de co-constituição, existem quatro variáveis importantes para que ocorram mudanças estruturais. A primeira é a interdependência. Wendt diz que "atores são interdependentes quando o resultado de uma interação para cada um depende das escolhas dos outros"(WENDT, 2001, p. 414). A segunda é o destino comum, que é enfrentado quando a sobrevivência de um depende da sobrevivência do grupo como um todo. A terceira, a homogeneidade, é consequência da identidade coletiva. A quarta, o autocontrole, é referente à crença de self que não será engolido pelo outro. Esta última é a variável permissiva, ou seja, é a que cria a possibilidade da mudança. Para que haja essa alteração, o autocontrole deve ser combinado com qualquer uma das outras três(WENDT, 2001).</title>
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          <title>RICRIVol. 8, No. 14, pg. 135 -155. 152 Para entendermos a constituição dessas duas identidades, voltamos na história e estudamos as relações entre a Irlanda e o Reino Unido. Vimos como a política mesclou-se com a religião na região pela primeira vez e como desde então a linha que separa as duas é tênue. Mostramos, em primeiro lugar, que ambas viviam sob uma cultura lockeana: conseguiam conviver entre si. Com o desenrolar dos acontecimentos, contudo, os integrantes da parte unionista -em sua maioria anglicanos -obtiveram mais direitos que os da parte separatista -em sua maioria, católica. Isto fez com que estes últimos se sentissem como uma classe inferior aos primeiros. Todos deveriam ter seus direitos assegurados, independente da religião professada, fato este garantido pela Declaração Universal do Direitos Humanos. E em segundo lugar, passaram a viver sob uma cultura hobbesiana, recorrendo a todos os meios possível para alcançarem seus objetivos: os separatistas desejavam se unir a Irlanda do Norte, os unionistas, continuar como parte do Reino Unido. A convivência, neste contexto, já não era mais possível. As duas identidades se viam agora como concorrentes, inimigas. É assim que surge a dualidade amigo / inimigo no conflito, caracterizando-o como político de acordo com os escritos de Carl Schmitt. Para exemplificar a inimizade entre as duas partes, recorremos ao documentário Art of Conflict. Neste, separatistas e unionistas dizem que não pensam em sequer conversar com o outro lado. O longa também nos mostra que a própria região de Ulster se dividiu geograficamente, com áreas estritamente separatistas e outras estritamente unionistas. Comprovamos, portanto, que houve realmente uma alteração na lógica de comportamento dos envolvidos, contribuindo para a escalada do conflito e, consequentemente, para sua caracterização política, já que o documentário reforça a ideia defendida de que as partes se viam como inimigas. Além disso, constatamos que uma das consequências da intervenção inglesa foi o acirramento do conflito. Isso se deu porque os ingleses acreditavam que os separatistas deviam lealdade à Coroa já que, apesar de tudo, ainda usavam o dinheiro do governo.</title>
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