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        <article-title>IMAGENS DE UM CONFLITO: A MARCHA DO RETORNO PALESTINA NA COBERTURA FOTOJORNALÍSTICA DA FOLHA DE SÃO PAULO</article-title>
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      <contrib-group><contrib contrib-type="author"><name>
            <givenName>Gabriela</givenName>
            <surname>Getirana</surname>
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        <title>Abstract</title>
        <p>A Grande Marcha do Retorno iniciada em março de 2018 logo se transformou em um evento mais longo, com reflexos até 2019, e gerou um novo ciclo de violências entre israelenses e palestinos. As marchas protagonizadas por palestinos e que obtiveram grande repressão de Israel, receberam ampla cobertura do jornal Folha de São Paulo, adepto do material das agências de notícias internacionais. Investigamos quantitativamente e qualitativamente a narrativa utilizada pela Folha e de que forma as imagens visuais influenciam nas representações dos atores envolvidos na questão. Verificamos que a narrativa adotada tem o viés das agências internacionais que dominam o conteúdo informacional -tanto textual quanto fotográfico -, de forma que os discursos e representações adotados na cobertura deste episódio sejam alinhados aos interesses dos países que as representam.</p>
        <p>The Great March of Return began in March 2018 and soon changed into a cycle of violence between Israelis and Palestinians, with reflexes until 2019. The marches led by Palestinians and strongly repressed by Israel, received wide coverage by the Folha de São Paulo's newspaper, usually adept of international news agency materials. We investigated -quantitatively and qualitatively -the narrative used by Folha and how visual images influence the representations of the actors involved in the event. We found that these agencies dominate the information content, in such a way the discourse and representations adopted reflects the interests of countries where the news agencies have head offices.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <title>Keywords</title>
        <kwd>photography</kwd>
        <kwd>news agencies</kwd>
        <kwd>Israel</kwd>
        <kwd>Palestine</kwd>
        <kwd>International Relations</kwd>
      </kwd-group>
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    <sec>
      <title>INTRODUÇÃO</title>
      <p/>
      <p>Busca-se investigar a narrativa adotada no jornal e a influência que as imagens visuais têm sobre as representações de palestinos e israelenses. O problema envolve se/como as agências internacionais de notícias influenciam nas formas e discursos veiculados pela Folha; e que narrativa as fotografias das reportagens analisadas sugerem sobre a atuação de Israel e dos palestinos. Parte-se, portanto, da admissão de que a cobertura da Grande Marcha do Retorno de 2018 faz parte de um sistema de poder que alguns países possuem sobre a mídia, no qual há manutenção e produção de uma narrativa específica que conta com a colaboração e disseminação de veículos nacionais. Para debater e analisar tais questões, este trabalho foi estruturado em três seções. Na primeira parte, busca-se localizar o histórico do fotojornalismo e apresentar suas funções e representações em conflitos internacionais. Além de explicitar algumas ferramentas e estratégias que os veículos de comunicação utilizam para produção de notícias, trataremos também da construção de narrativa, apresentando mecanismos de análise semântica sobre as mensagens verbo-visuais utilizadas nas mídias.</p>
      <p>Em seguida, vamos inserir sobre a influência das agências de notícias na produção de conteúdo jornalístico internacional e apresentar um panorama do que foi a Grande Marcha do Retorno de 2018. Por fim, debatemos as implicações e motivações das narrativas adotas pelas agências internacionais nas questões entre Israel e Palestina e será feita a análise do conteúdo das publicações, a fim de verificarmos os posicionamentos e orientações presentes na visão veiculada pelo jornal, com base na narrativa textual e visual adotadas nesta cobertura.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>REPRESENTAÇÃO FOTOGRÁFICA NAS NOTÍCIAS INTERNACIONAIS</title>
      <p/>
      <p>Apesar da importância de compreendermos a atuação da mídia como um ator, estudos acadêmicos sobre questões fora das temáticas de segurança e defesa são escassos e ainda recentes na área de Relações Internacionais. Com os debates dos anos 1980 e 1990 surgem novas perspectivas aos conteúdos da área e estudiosos como os pós modernos/pós estruturalistas ganham um espaço maior, com estudos que rejeitam a epistemologia positivista sobre o que é conhecimento e como ele deve ser produzido.</p>
      <p>Com forte influência de autores como Foucault, Derrida e Lacan, os pós modernos/pós estruturalistas possuem um grande foco na linguagem e incluem nos estudos da área temáticas como mídia, imagens visuais, música, cinema, por exemplo. Estes estudiosos baseiam-se no entendimento de que por meio do discurso científico posições de poder são reafirmadas e construídas, de forma que não são neutras ou imparciais. David <italic>Campbell (1992)</italic> é um dos autores centrais desta teoria e nos chama atenção para "as consequências de escolher um modo de representação sobre outro" <italic>(CAMPBELL, 1998, p.35)</italic>, reconhecendo que a linguagem e o que é estético são importantes para que se tenha conhecimento significativo sobre o mundo <xref rid="b6" ref-type="bibr">1</xref>).</p>
      <p>Por sua vez, <italic>Hansen (2011)</italic> admite que ao incluir as imagens nos estudos de Relações Internacionais, é preciso assumir que estas também têm implicações políticas. A autora, assim como Michael C. <italic>Williams (2003)</italic> defende que as imagens sejam incluídas nos estudos de segurança, uma vez que "as próprias imagens podem funcionar como atos comunicativos" <italic>(HANSEN, 2011, p.52)</italic>. Muitas vezes, com a saturação da cobertura de eventos e conflitos internacionais nos últimos anos, temos a impressão que as guerras sempre chegaram até nós por imagens, mas até a Segunda Guerra Mundial estas eram raras e o estabelecimento do fotojornalismo é relativamente recente.  <xref rid="b14" ref-type="bibr">2</xref>.</p>
      <p>Neste sentido, a cobertura da Guerra do <italic>Vietnã (1955</italic><italic>Vietnã ( -1975</italic> é vista como um marco importante no debate do uso de imagens e Relações Internacionais. Imagens que estamparam os jornais da época seguem sendo fundamentais e permanecem até hoje fixas na memória de muitos 2 . As teorias sobre os efeitos dessas imagens na opinião pública e na condução da guerra refletiram-se na postura e assombraram uma geração de líderes políticos e militares que passaram a acreditar que a cobertura crítica da mídia foi um fator primordial na derrota americana no Vietnã. Esta crença fez com que muitos tomadores de decisão passassem a ver a mídia como um adversário às políticas governamentais em assuntos como intervenção humanitária e negociação internacional, além de um importante mediador do poder na política <italic>(GILBOA, 2005</italic> Por mais que agora seja inegável a importância dessas imagens de guerra, não se pode ignorar os interesses em torno dessas fotografias e as intenções de quem as produzem <xref rid="b40" ref-type="bibr">3</xref>. Estas imagens também levam o olhar de quem a fotografou, a escolha de um ângulo, o foco, o enquadramento. E, mais do que isto, a fotografia não é feita apenas pela intenção do fotógrafo. Como apontado por <italic>Campbell (2003)</italic>, fotos não existem de forma isolada, elas são acompanhadas com uma configuração intertextual -seja através de um título, de uma legenda, do corpo do texto. As palavras que acompanham a fotografia dão sentido à imagem, fazendo com que a leitura deste símbolo ganhe um contexto político, histórico e social.</p>
      <p>O fato de fotografias despertarem sentimentos em quem as contemplam não é sozinho um instrumento de mudança política. Estas imagens carregam uma função interpretativa, elas são inseridas dentro de um contexto narrativo, utilizadas para reforçar o que o agendamento e o enquadramento buscam narrar. Sabendo disso, muitas vezes os tomadores de decisão antecipam essas imagens, "a era da mídia sugere uma regra simples para os líderes do governo: para justificar uma política, aponte para uma foto" <italic>(PERLUTTER, 2005, p.118)</italic>.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>A NARRATIVA TEXTUAL E VISUAL</title>
      <p/>
      <p>Para compreendermos as formas da mídia atuar no campo internacional é preciso analisar alguns mecanismos e ferramentas de comunicação utilizados na produção de notícias. Uma das funções da mídia é conferir status a determinadas questões públicas, pessoas, organizações ou movimentos sociais <xref rid="b16" ref-type="bibr">4</xref>. Bernard Cohen (1963) foi um dos pioneiros a introduzir que "a imprensa pode não ser sempre bem sucedida em dizer o que as pessoas devem pensar, mas é incrivelmente bem sucedida em dizer aos seus leitores o que pensar sobre" <italic>(COHEN, 1963</italic><italic>apud SOROKA, 2003</italic>, e esta 3 Na Guerra do Golfo (1991) -onde muitos dos tomadores de decisão já haviam lutado no Vietnã -algumas restrições à imprensa foram tomadas e as imagens que o público tinha acesso eram, em sua maioria, fornecidas pelo Departamento de Defesa dos EUA. Anos depois, novas imagens chegaram ao conhecimento do público, mostrando que o que de fato aconteceu não era exatamente o que foi divulgado pelo Departamento de Defesa <italic>(PERLMUTTER, 2005, p.111</italic> Isto posto, podemos perceber que a mídia conta com artifícios importantes para construir notícias, e que estas ferramentas utilizadas pelos profissionais que trabalham com jornalismo reverberam não só na opinião pública, mas também na atuação dos tomadores de decisões. E, para além de compreendermos essas ferramentas, precisamos estar atentos às construções semióticas, de forma que seja possível entendermos melhor as narrativas textuais e visuais das reportagens. Não pretendemos realizar aqui um estudo profundo sobre os signos, mas se faz necessário apontar os três tipos de mensagens que Barthes (1977) apresenta em seu trabalho sobre a retórica da imagem: a mensagem linguística, conotada e denotada.</p>
      <p>Segundo <xref rid="b4" ref-type="bibr">5</xref>, a mensagem linguística tem a função de auxiliar no entendimento das imagens e pode exercer dois modos de relação com elas: o modo de fixação, muito presente na fotografia jornalística, quando a palavra funciona em relação à imagem com objetivo de orientar sua interpretação, exercendo "um controle sobre a imagem, restringindo a liberdade dos significados" <italic>(GOMES, 2008, p.13</italic>); e o modo relais, quando a palavra tem função de complementar e/ou acrescentar sentidos não contidos na imagem, relação mais comum em imagens em movimento, como no cinema <xref rid="b19" ref-type="bibr">6</xref>. As duas mensagens seguintes são características da imagem, sendo denotativo o que é óbvio, "tudo o que se vê na fotografia, tudo que está evidente e perceptível ao primeiro olhar", e conotativo o que é obtuso, "toda informação implícita na fotografia, a ser dissecada em busca de seus segredos" <italic>(SILVAN, 2019, p.16)</italic>.</p>
      <p>O papel dessas mensagens verbo-visuais é de extrema relevância em questões como as que envolvem Israel e Palestina, nas quais, em parte, vive-se uma guerra de informações onde ambos tentam utilizar-se da mídia para justificar suas ações e ganhar a atenção da opinião pública a fim de legitimar sua narrativa <xref rid="b5" ref-type="bibr">7</xref>. Nessa batalha, as agências de notícias são as principais disseminadoras de informações e formuladoras de opinião sobre o que ocorre no território. Entretanto, as narrativas de imprensa sobre essas questões são muitas vezes fragmentadas, sem levar em consideração os contextos históricos e privilegiando um lado da história <xref rid="b38" ref-type="bibr">8</xref>.</p>
      <p>A fim de conferir veracidade ao que é noticiado, os jornais recorrem à fotografia documental como aliada. Contudo, apesar deste gênero fotográfico ter obtido o caráter de dar autoridade e significado e a foto ser usada como evidência do que ocorreu, devemos ler uma fotografia não tanto como um reflexo do mundo real, mas como uma interpretação deste, nos atentando ao "fato de que uma fotografia reflete a maneira como vemos o mundo em termos culturais" (CLARKE, 1997, p.33) e que, como exposto por <xref rid="b4" ref-type="bibr">5</xref>, se antes o texto era visto como um apoio para imagem, agora há uma reversão histórica importante, onde a imagem não ilustra mais as palavras tornando o texto mais claro, e sim onde "o texto carrega a imagem, enxerta-a de uma cultura, de uma moral, de uma imaginação" <italic>(BARTHES,1977, p.26)</italic>.</p>
      <p>Assim sendo, para além da importância de entendermos como as mensagens linguística e visuais se relacionam dentro de uma matéria jornalística, é importante lembrarmos que mesmo que os meios de comunicação aparentem noticiar uma informação neutra e objetiva, essas informações carregam uma perspectiva social e política específica, com percepções e interpretações de quem as relata. Através da disseminação desses textos e imagens, é possível difundir "um conjunto de valores, crenças, comportamentos, pontos de vista que constituem as ideologias" <italic>(GOMES, 2008 p.15)</italic>. <xref rid="b13" ref-type="bibr">9</xref> acredita que os meios de comunicação desempenham um papel importante na construção de fenômenos sociais. O autor explica que todos os jornalistas dependem de outros órgãos noticiosos para perceber o que é notícia. Assim, a medida em que cada jornalista toma consciência de que os outros estão tratando do mesmo assunto no noticiário, este assunto torna-se estabelecido dentro de uma comunidade de organizações de mídia. Os jornalistas que ainda não estão reportando o assunto aprendem a utilizá-lo pela observação dos competidores e, quando aqueles jornalistas que foram os primeiros a reportar o assunto veem os outros começando a usá-lo também, eles acham que seu julgamento sobre a notícia original foi confirmado <xref rid="b13" ref-type="bibr">9</xref>.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>AS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS DE NOTÍCIAS E A CONSTRUÇÃO DE</title>
      <p/>
    </sec>
    <sec>
      <title>NARRATIVAS</title>
      <p/>
      <p>Não importa o quanto o jornalista conta com determinado assunto ir para o noticiário, ele não pode continuar fazendo a cobertura desse tema sem um suprimento constante de novos incidentes para reportar como fatos que ilustram aquela notícia. Em curtos períodos de tempo, um tema pode ficar tão frequente nos noticiários, que até mesmo os jornalistas céticos a respeito do tema começarão a noticiar os incidentes <xref rid="b13" ref-type="bibr">9</xref>. Dessa forma, ainda que os fatos existam, através do método de se noticiar é possível criar percepções sobre o assunto no imaginário dos leitores, justificando determinadas posturas políticas e/ou sociais. Para <xref rid="b13" ref-type="bibr">9</xref> existem dois níveis de produção de notícias: o primeiro nível, e o mais fundamental, é o do jornalismo de rotina, que apresenta os acontecimentos normais de jornalismo que preenchem os jornais, aquelas notícias que a maioria dos jornalistas consideraria como uma reportagem noticiosa boa, sólida, honesta, profissional. O segundo nível de produção de notícias, que poderia ser denominado de jornalismo manipulado, envolve os movimentos e contra movimentos em um jogo político no qual as notícias são tratadas unicamente por seu valor instrumental a serviço de interesses particulares.</p>
      <p>McCombs <italic>(2005)</italic>  O modelo de produção e distribuição dessas informações das agências de notícias apresentam algumas problemáticas. Grande parte desses conteúdos são produzidos de forma linear, onde um correspondente de uma mídia local entrega o material para redação central, que por sua vez circula para os centros regionais até que cheguem aos clientes.</p>
      <p>Com a necessidade de ter velocidade na distribuição de informações, estas notícias não passam por muitas revisões, edições e pedidos de mais informações e/ou apurações, gerando uma grande centralidade na produção. Para <xref rid="b1" ref-type="bibr">10</xref>, este caminho feito pela informação internacional é, por exemplo, "responsável pelo fato de a imagem dos países "do Sul" em outros países também "do Sul" ser editada, tratada e definida, em última análise, pelos valores, vieses e etnocentrismos predominantes no "Norte" (AGUIAR, 2009, p.10). Esperidião (2011) ilustra a problemática desse modo de produção e distribuição linear, centralizado e ágil, dizendo:</p>
      <p>Imaginemos, agora, as circunstâncias operacionais do Oriente Médio, onde nenhum jornalista está autorizado a entrar na Faixa de Gaza sem a permissão de Israel. Boa parte do que circula fora do território palestino é captada por repórteres-cinegrafistas ligados indiretamente a diferentes facções políticas, submetidos ao escrutínio diário de partidos que moldam a complexa e frágil liderança na região <italic>(ESPERIDIÃO, 2011, p.118)</italic>.</p>
      <p>Outro problema que merece atenção é a estrutura de propriedade dessas empresas, que podem ser agências estatais 4 , onde seu financiamento e gestão são majoritariamente 4 AFP, Xinhua e a maioria das agências nacionais. feitos pelo Estado; agências privadas com objetivos capitalistas, como a Reuters 5 ; agências privadas cooperativas 6 , "cuja propriedade é compartilhada em regime de condomínio pelos próprios veículos-clientes" <italic>(AGUIAR, 2009, p.13)</italic>; agências privadas pertencentes a conglomerados 7 como acontece com a maioria das empresas brasileiras; e, por fim, agências alternativas ou do terceiro setor, constituídas sob forma de organizações não governamentais. Portanto, além das problemáticas do modelo de produção e distribuição, também é importante se atentar que as informações são produzidas e distribuídas de acordo com os interesses de quem financia essas agências.</p>
      <p>Segundo Boyd-Barrett <italic>(2015)</italic>, nos anos 2000 persistiu a concentração de propriedade e controle das empresas de mídia, tornando as empresas varejistas cada vez mais dependentes da coleta e distribuição global de notícias pelas empresas atacadistas. O autor aponta que este mercado é fortemente dominado por três agências globais: pela AP, com sede em Nova York, pela Thomson Reuters, com sede em Londres e pela AFP, com sede em Paris. Para <xref rid="b32" ref-type="bibr">11</xref>, a informação internacional é produzida majoritariamente sob um olhar estrangeiro e "a partir de uma perspectiva particular, muitas vezes determinada pela própria cultura ou por políticas governamentais adotadas nos países de origem das agências" <italic>(MOREIRA, 1996, p.23</italic> Israel é intimamente aliado dos Estados Unidos e existem lobbies pró-Israel muito fortes nos EUA e, em certa medida, no Reino Unido. Para um jornalista, mergulhar profundamente em áreas controversas é simplesmente convidar problemas (...). É muito mais seguro ficar com cenas de 'ação' e simplesmente recontar os eventos do dia. Israel tem vozes muito poderosas para falar a seu favor e isso combinado com um aparato de relações públicas bem organizado, que fornece histórias e declarações 'favoráveis' para mídia e critica aqueles os quais desaprova (PHILO, GILMOUR, RUST, GASKELL, M. GILMOUR E WEST, 2003, p.136).</p>
      <p>Portanto, o problema de uma cobertura que neutraliza o caráter militar e o contexto histórico da ocupação e não esclarece a origem da raiva do povo palestino nem explica sobre a tentativa de um apagamento sistemático destes, é que torna-se difícil ao leitor compreender as motivações pelas quais as questões entre Israel e Palestina são tão duradouras e de solução aparentemente intratável (PHILO, GILMOUR, RUST, GASKELL, M. GILMOUR E WEST, 2003). Para Taqil-Souri (2011), o cenário global continua relegando os palestinos dentro de questões mais amplas que eles próprios, nas quais estes têm pouco controle sobre sua própria imagem e sua história é continuamente contada por outros, sejam estes "sionistas, Israel, governos árabes, Hezbollah, mídia estrangeira, ativistas pela paz estrangeiros, islamitas, notícias, etc." <italic>(TAWIL-SOURI, 2011, p.143)</italic>. Por fim, <xref rid="b38" ref-type="bibr">8</xref> reitera que a existência da Palestina se dá não só pela resistência dos próprios palestinos, mas também através das narrativas que mantem esta história viva. Dessa forma, entender o papel que a mídia exerce e a narrativa que adota nas questões que envolvem Israel e Palestina é de suma importância.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>A GRANDE MARCHA DO RETORNO</title>
      <p/>
      <p>A questão palestino-israelense tem origens antigas e perdura até os dias de hoje, de forma que não se pretende nesta seção produzir uma análise completa e profunda destas questões. Mais de um século depois, com muitas disputas de território, milhares de vidas perdidas e custos humanos e emocionais drásticos para ambos os lados, a situação entre os dois tornou-se "essencialmente uma disputa entre um poder esmagadoramente dominante e uma comunidade desapropriada, dispersa e subjugada" <italic>(KAMRAVA, 2005, p.233</italic>). E, para entendermos a Grande Marcha do Retorno de 2018 e a cobertura que a mídia deu a este evento, é preciso compreender que ao longo desses anos de controvérsias estes atores travam não só uma disputa territorial, mas, sobretudo, uma disputa de narrativas.</p>
      <p>Sem dúvidas, Al-Nakba (A Catástrofe) é um marco na definição da identidade e do futuro do povo palestino. Este episódio, que possibilitou a criação do Estado de Israel, também foi responsável por expulsar milhões de palestinos de seus territórios e por transformar a vida cotidiana daqueles que permaneceram nos territórios ocupados.</p>
      <p>Segundo o Global Trend de 2019 da ONU, o número de refugiados palestinos já alcança a marca de mais de 5.6 milhões de pessoas e o direito dessas pessoas voltarem aos seus territórios é um debate constante entre a sociedade internacional.</p>
      <p>Para <italic>Khalid (1993)</italic>, apenas entendendo esta catástrofe "é possível entender o senso dos palestinos sobre o direito de retorno" <italic>(KHALID, 1993, p.30)</italic>. Masalha (2012) aponta que até os anos 1980, a narrativa do retorno era sobretudo oral, passada através das histórias de pais para filhos. Até que, a partir dos anos 1990, uma geração mais nova de palestinos articula uma nova narrativa sobre o direito ao retorno, fazendo acampamentos, marchas e dialogando com os refugiados internos para manterem suas memórias vivas e criarem cada vez mais um senso de pertencimento e identidade. Em 1998, após judeus declararem uma comemoração pelos 50 anos de independência de Israel, algumas lideranças palestinas começam a organizar a "Marcha do Retorno" como protesto e, desde então, este evento acontece anualmente, no dia 15 de maio, data que marca al-Nakba, ou no Dia da Terra (30 de março). A partir de então, a ideia de protestos pacíficos em massa começou a ganhar força entre os palestinos. Em fevereiro, um novo vídeo viralizou nas redes sociais, desta vez filmado pelo jornalista e ativista Muthana al Najjar, onde ele mostrava tendas em Gaza,  <italic>10</italic> Resolução adotada pela ONU em 11 de dezembro de 1948, com propósito de pôr fim à Guerra Árabe-Israelense e resolver a questão dos refugiados palestinos. Dentre seus principais pontos estão: acesso livre e gratuito a locais religiosos na Palestina, incluindo Nazaré; permanência de um regime internacional no território de Jerusalém; direito ao retorno dos refugiados palestinos que desejarem retornar a suas casas e viver em paz com seus vizinhos e estabelecimento do pagamento de uma compensação pelos bens pedidos ou danos à propriedade dos que optarem por não retornar, pagos pelos governos ou autoridades responsáveis <italic>(A/RES/194</italic> Abu Artena admite que a participação do Hamas, que possuía boa parte do poder no território, foi um movimento político do partido para se aproximar da população, mas que, pelo menos nos primeiros dias, a interferência política na marcha não foi uma realidade e o caráter popular do protesto prevaleceu, possibilitando que gerações mais jovens de palestinos pudessem expressar seus desejos de forma pacífica, artística e autentica, sem ser com um caráter institucional <xref rid="b3" ref-type="bibr">12</xref>. Para Artena, a resposta israelense foi fator primordial para fazer com que muitos palestinos deixassem de acreditar em uma resistência não violenta, criticando também a narrativa midiática que desconsiderava a raiz do problema em suas coberturas e focava nos pequenos atos de violência feitos por pequenos grupos palestinos ao invés de atuar reprimindo a desproporcionalidade da força israelense.</p>
      <p>Por fim, ele ressalta que as críticas israelenses e da comunidade internacional ao protesto são infundadas, uma vez que "no final do dia, civis foram baleados e um povo A notícia que narra o primeiro dia da marcha é assinada pela jornalista da Folha Já na aplicação de violência, observa-se que as representações de uma única pessoa/grupo palestino aparece em maior número e o uso de violência é feito com estilingue, pedras ou pneus queimados. Por sua vez, membros do Hamas aparecem armados em apenas uma foto. Já quando se trata de violência aplicada por um ator israelense, a imagem é ilustrada por paisagens com fumaça e explosões ou através da ação das Forças de Israel, com bombas de gás lacrimogênio, armas de fogo e tanques de guerra, sem focalizar no rosto dos combatentes.  ao Hamas e responsabilizando o grupo pelo desemprego, blackouts e falta de abastecimento de água e luz na região palestina. Há um reforço na mensagem de que o dia escolhido pela marcha é uma data simbólica e importante para Israel, uma vez que marca sua independência.</p>
      <p>Além disso, a reportagem também adota uma linguagem tendenciosa, incutindo um juízo de valor à única figura palestina que ganha autoridade de fala na reportagem. O lado palestino é apresentado junto ao temor israelense de que o Hamas se aproveite das "manifestações públicas para enviar terroristas para solo israelense" (grifo nosso). Por sua vez, as imagens que ilustram esta mensagem são expostas em um carrossel de fotos de eventos ocorridos em 2017 e uma foto sem data que abre a notícia (ver abaixo), acompanhada de legenda onde traduz a imagem como um "manifestante palestino grita durante protesto contra Israel em acampamento de refugiados no sul da Faixa de Gaza".</p>
      <p>FOTO 9 (ABU-MUSTAFA, Ibraheem) 17</p>
      <p>A cobertura do primeiro dia da Grande Marcha do Retorno relata que apesar da promessa de ser uma marcha não violenta, houve um movimento de "violência" dos "manifestantes palestinos" e acusa que estes usaram coquetéis molotov, pneus incendiados, pedras e bombas. A atuação de Israel é relatada como uma resposta a essas "violências" e suaviza o uso de munição letal e atiradores de elite contando que estes foram usados "contra os que chegaram mais perto". Nesta ocasião, apenas uma das fotos utilizadas retrata o dia da Marcha em si e a legenda traduz a imagem como um palestino aplicando violência com pedras (ver abaixo).</p>
      <p>Foto 10 -ABU-MUSTAFA, Ibraheem, 30 de março de 2018 18</p>
      <p>Outro exemplo que demonstra a escolha narrativa da Folha de São Paulo pode ser observado de forma mais clara na reportagem -sem assinatura -que foi publicada online e no jornal impresso no dia 25 de outubro de 2018. Nesta notícia narra-se (ainda no que tange os protestos ocorridos toda semana desde que se iniciou a Grande Marcha do bandeira palestina em sua mão direita e balançando um estilingue com a esquerda", já na reportagem da Folha de São Paulo, a leitura no título auxiliar diz sobre "foto de um palestino arremessando pedras contra soldados israelenses em Gaza" e na legenda da foto a imagem é lida como "homem empunha bandeira palestina enquanto arremessa pedra com uma funda, em cidade ao norte de Gaza".</p>
      <p>Foto 11 -HASSONA, Mustafa, 22 de outubro de 2018 20</p>
      <p>A fotografia tornou-se viral pela sua semelhança com a alegoria à Revolução </p>
    </sec>
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          <title>Quando falamos de questões internacionais como as entre Israel e Palestina, onde há uma forte disputa de narrativas, o uso da mídia para disseminar notícias e imagens torna-se essencial para aumentar o poder e dominar o discurso. Em 2018, diversas reportagens ganharam os noticiários após o anual evento palestino da Marcha do Retorno e o que começou com uma proposta de protestos pacíficos, logo acabou se tornando o início de mais um ciclo de violências entre israelenses e palestinos, tendo reflexos até o ano de 2019. Desde 1998, após judeus organizarem uma comemoração pela Independência de Israel, os palestinos realizam uma Marcha do Retorno para marcar sua tragédia (Al-Nakba) vivida desde a criação do Estado de Israel. Assim, A Grande Marcha do Retorno de 2018 ganhou um caráter ainda mais simbólico, por completarem 70 anos desde al-Nakba e pelas declarações do presidente estadunidense Donald Trump reconhecendo Jerusalém como capital de Israel. A marcha foi organizada de forma espontânea por ativistas através de postagens nas redes sociais e logo ganhou adesão popular. A cobertura deste evento publicada pelo jornal Folha de São Paulo demonstra a forte influência que as agências de notícias internacionais possuem na formação de opiniões públicas nacionais sobre o que acontece no Oriente Médio. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é realizar um estudo exploratório sobre o papel do fotojornalismo nas coberturas midiáticas nas questões entre Israel e Palestina, através do episódio da Grande Marcha do Retorno de 2018, em um dos maiores veículos de notícia online do Brasil, a Folha de São Paulo.</title>
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          <title>aponta que as normas e tradições jornalísticas e as interações diárias entre as próprias organizações de notícias fazem com que os noticiários se influenciem entre si, resultando em agendas de notícias "altamente homogêneas em todos os meios de comunicação"(MCCOMBS, 2005, p.549). Isso é ainda mais claro quando falamos de informação internacional, onde as agências de notícias são as principaisGabriela Getirana 132 distribuidoras de informação. Aguiar (2009) caracteriza estas agências como "empresas especializadas em coletar informações de interesse jornalístico dispersas, formatá-las como notícia e redistribuí-las para assinantes" (AGUIAR, 2008, p.22), podendo essa distribuição ser feita para outros veículos de comunicação, instituições ou indivíduos. Na prática, muitas vezes as agências de notícias funcionam como "mídia da mídia" (NEVEU, 2006 apud ESPERIDIÃO, 2011, p.106) e exercem o papel do que Aguiar (2009) chama de atacadistas de informação. Nessa dinâmica, os varejistas (jornais, revistas, websites, emissoras de TV e rádio) transmitem as mensagens das agências para o público, "revisando-as, reeditando-as, e finalizando-as com (ou sem) seus próprios correspondentes" (ESPERIDIÃO, 2001, p.107) e as agências atuam como atacadistas, pautando esses varejistas, produzindo, distribuindo e revendendo em massa a "mercadoria- informação" (AGUIAR, 2009, p.5).</title>
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          <title>próximas à cerca que delimita a fronteira com Israel. No mês seguinte, diversos ativistas começaram a organizar a Grande Marcha do Retorno e criou-se um Comitê Organizador, com participação de diversos setores da sociedade palestina 9 . Com a pluralidade política dos participantes, ficou acordado a proibição do uso de símbolos partidários e reforçado o caráter pacífico, tendo como objetivo principal a implementação da Resolução 194 da ONU 10 , por entenderem, neste momento, que a questão do retorno é primordial para resolver todas as outras questões entre palestinos e israelenses. (ABUSALIM, 2018) A Grande Marcha do Retorno foi realizada em 30 de março de 2018 e, segundo relatório da ONU (2019), cerca de 45 mil palestinos -homens, mulheres, crianças, idosos, sociedade civil, ativistas políticos e figuras públicas -participaram. O documento também aponta para o caráter majoritariamente não violento do movimento, que contou com 9 A saber: civis, organizações da sociedade civil, coalizões de partidos e forças institucionais da palestina e islâmicas -Frente Democrática para Libertação da Palestina, Fatah, Hamas, Frente Popular Para Libertação da Palestina e o Movimento da Jihad Islâmica (A/HRC/43/21).</title>
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          <title>inteiro vive cercado, buscando sua liberdade" (ARTENA, 2018 apud ABUSSALIM, 2018, p.97) e que essas deveriam ser as questões que demandam atenção e solidariedade internacional (ABUSSALIM, 2018). RICRI, Volume 8, Número 15, 2020. Dossiê Mídia e Relações Internacionais 139 A COBERTURA DA GRANDE MARCHA DO RETORNO NA FOLHA DE SÃO PAULO A fim de compreendermos o papel exercido pela mídia na cobertura dos eventos internacionais relativos as questões entre Israel e Palestina, realizamos um estudo sobre as narrativas das notícias veiculadas na Folha de São Paulo a respeito da Grande Marcha do Retorno de 2018. Como exposto, o primeiro dia da Marcha ocorreu em 30 de março de 2018 e teve reflexos até o fim de 2019, entretanto, como também já apontado, inicialmente a marcha tem um caráter pacífico que vai sendo modificado de acordo com a forte repressão israelense, a atuação de outros atores e também com os cenários políticos internacionais que vão se moldando ao redor das questões palestinas e israelenses. Isto posto, o período observado neste estudo leva em consideração apenas as marchas realizadas durante 2018, uma vez que no ano seguinte o caráter e questões envolvidas nos protestos vão se modificando e precisam de uma análise contextual diferente e específica. Como explicitado anteriormente, através de algumas ferramentas utilizadas na estrutura de produção da notícia a mídia incute percepções e valores na população e dita o conteúdo que se tornará público e debatido. Ao observar o agendamento dado a Israel e Palestina no Editorial Mundo da Folha de São Paulo, percebe-se que no início do ano de 2018 não há um número significativo de notícias a respeito de questões relacionadas aos dois atores, mas a partir do primeiro dia da Grande Marcha do Retorno podemos notar o aumento na cobertura sobre questões que os envolvem. Durante o período de 30 de março de 2018 até 31 de dezembro do mesmo ano, 48 notícias foram publicadas a respeito das marchas. Destas, 23 notícias também foram para ojornal impresso e outras 25 foram disponibilizadas apenas online. Quanto ao local das redações 11 , observa-se que a maioria (23) é creditada a Gaza. E que grande parte das notícias não são assinadas por um(a) jornalista -em apenas 11 delas é possível saber a pessoa responsável 12 pela reportagem.</title>
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          <title>Grupo Palestino Aplicando Violência (ABU-MUSTAFA, Ibraheem) / Foto 4 -Palestino Aplicando Violência (MOMANI, Abbas) 1413 Retirado de: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/04/protesto-em-gaza-tem-um-palestino-morto-e- mais-de-200-feridos.shtml / https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/08/gravida-e-bebe-sao-mortos-por- bombardeios-israelenses-em-gaza.shtml 14 Retirado de: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/05/protesto-na-faixa-de-gaza-termina-em- confronto-e-deixa-palestinos-mortos.shtml /https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/03/marcha-dos-cem- mil-leva-tensao-a-fronteira-entre-israel-e-faixa-de-gaza.shtmlGabriela Getirana 144 Foto 5 -Israel Aplicando Violência (HAMS, Mahmud) /Foto 6 -Forças Israelenses (MOHAMMED, Abed) 15 No que diz respeito a sofrer violência, também só são encontradas imagens de uma pessoa/grupo palestino. Ao retratar aglomerações que não estão sofrendo nem aplicando violência, as legendas costumam usar o termo "protesto" ao se referir aos Palestinos enquanto a única aglomeração de israelenses é descrita como uma "comemoração". O número de fotos representando destruição de símbolos ou arquitetura não tem grande variação entre os dois atores, já nas imagens que representam figuras governamentais, observamos apenas figuras políticas de Israel (Dori Goren) ou Estados Unidos (Donald Trump). Por fim, há algumas imagens que ilustram as reportagens selecionadas, mas não se encaixam em nenhuma das categorias acima e não dizem respeito à Israel e Palestina diretamente e foram sinalizadas como "outras".</title>
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          <title>Palestino Sofrendo Violência (MOHAMMED, Torokman) / Foto 8 -Forças Israelenses (MOHAMMED, Abed) 1615 Retirado de: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/08/gravida-e-bebe-sao-mortos-por-bombardeios- israelenses-em-gaza.shtml / https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/03/confrontos-apos-protestos-na- faixa-de-gaza-deixa-mortos.shtml 16 Retirado de: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/03/marcha-dos-cem-mil-leva-tensao-a-fronteira- entre-israel-e-faixa-de-gaza.shtml / https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/05/protesto-na-faixa-de- gaza-termina-em-confronto-e-deixa-palestinos-mortos.shtmlRICRI, Volume 8, Número 15, 2020. Dossiê Mídia e Relações Internacionais 145 Tabela 4 -Representações fotográficas de Palestinos e Israelenses nas matérias a respeito da Grande Marcha do Retorno e seus desdobramentos, publicadas na Folha de São Paulo no ano de 2018. Representação Fotográfica Número de fotos Morto ou Ferido Palestino 20 Palestino Aplicando Violência 16 Grupo Palestino Sofrendo Violência 14 Protesto Palestino 13 Luto Palestino 10 Grupo Palestino Aplicando Violência 9 Outras 9 Israel Aplicando Violência 8 UNRWA 8 Arquitetura/Símbolos Israelenses 7 Forças Israelenses 6 Arquitetura/Símbolos Palestinos 5 Palestino Sofrendo Violência 4 Governo 3 Passeata Israelense 1 Hamas 1Total 134Fonte: elaboração da autora A narrativa fotográfica adotada nas matérias analisadas foca na presença de atores palestinos, que representam quase 70% das imagens que ilustraram as notícias do período analisado. Já a presença de atores Israelense é encoberta, representando apenas 16% das fotografias usadas para ilustrar estas matérias.Gabriela Getirana 146 A NARRATIVA ADOTADA PELA FOLHA DE SÃO PAULO Na reportagem da Folha de São Paulo publicada no dia anterior à Grande Marcha do Retorno de 2018, o título da notícia aponta para uma "tensão" na fronteira "entre Israel e Faixa de Gaza", no título auxiliar diz sobre "protesto do grupo palestino Hamas é o primeiro a lembrar os 70 anos da criação do Estado judaico". A matéria não cita os acontecimentos da Marcha em si e apenas anuncia o que está por vir, focando em dar voz</title>
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          <title>Por volta dos anos 1940 o fotojornalismo ganha reconhecimento ligado à fotografia de guerra, onde a foto passa a ter papel importante nas notícias. Em 1947 temos um marco, quando cinco grandes fotógrafos (Robert Capa, David (Chim) Seymour, Henri Cartier- Bresson, George Rodger e Bill Vandivert), de diferentes nacionalidades, se juntam e criam a Agência Magnum, com objetivo de ser uma agência de fotografias documentais e artísticas. Deste ponto em diante, as fotos passariam a ganhar cada vez mais um papel relevante nas notícias. Nos anos 1990, a Kodak, a agência de notícias The Associated Press (AP), a Nikon e a Canon 1 formam um consórcio com objetivo de facilitar o acesso e qualidade dos equipamentos utilizados pelos fotojornalistas profissionais e, no ano 2000, os repórteres fotográficos da AP, da Reuters e da Agence France Presse (AFP) passam a utilizar câmeras digitais na cobertura de suas matérias</title>
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          <title>Na Guerra do Vietnã, as atenções e estudos sobre o uso das imagens e coberturas jornalísticas tomaram força, mas é o 11 de Setembro de 2001 que reforça o papel do fotojornalismo na cobertura de acontecimentos internacionais(CAMPBELL, 2003). Após este evento e com o aprimoramento das tecnologias, as fotografias tornaram-se cada vez mais comuns nos noticiários e jornais. Porém, vale se atentar ao fato de que fotos não são um simples relato exato dos acontecimentos, em muitos conflitos a entrada de 1 A Nikon e a Canon são as duas maiores fabricantes de equipamentos fotográficos profissionais da época. 2 Ver foto da jovem Phan Thi Kim Phúc, fotografada por Nick Ut, pela AP. E da execução sumária do vietcongue Nguyễn Văn Lém, fotografada por Eddie Adams, também da AP.Gabriela Getirana128correspondentes é restrita e as imagens que chegam até o público passam por diversos processos de seleção 3 .</title>
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          <title>capacidade da mídia de ditar as prioridades do que deve ser debatido é chamada de agendamento ou agenda setting.Hohfeldt (1997) explica que o princípio do agendamento parte dos pressupostos de que há um fluxo contínuo de informação e de que os meios de comunicação exercem influência no receptor a médio e longo prazo, o influenciando sobre o que pensar e falar.Ou seja, os assuntos que a mídia aborda, tornam-se assuntos que o público inclui em suas preocupações, fazendo com que a mídia se constitua em uma agenda individual e até mesmo social. Os estudos mais recentes sobre o assunto, costumam incluir o conceito de enquadramento junto desta visão de agendamento.A mídia também é capaz de construir realidades através do que chamamos de enquadramento/framing. Esses enquadramentos revelam, às vezes de forma sutil, escolhas narrativas específicas que fazem com que ao ler a notícia o leitor passe a perceber o assunto retratado por este enquadro, desapropriando-se de entendimentos particulares. Para Entman, "enquadramentos são construídos e incorporados a partir de palavras-chave, metáforas, conceitos, símbolos, e imagens visuais, enfatizadas na narrativa da mídia" (ENTMAN, 1991, p.7). Hohfelt (1997) explica que isto trata-se não só da mídia moldar o assunto que a opinião pública se preocupa, mas também como os fenômenos sociais são interpretados pelo público.</title>
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          <title>Apesar da crença de que as organizações privadas de notícias são isentas e independentes, os Estados que possuem uma boa relação com essas organizações, são capazes de estabelecer suas narrativas como uma agenda. No caso específico do jornalismo brasileiro, as coberturas internacionais dificilmente possuem correspondentes próprios dos veículos de comunicação nacionais, de modo que as notícias internacionais difundidas por estes jornais são compradas dessas grandes agências de notícias que dominam o mercado.Quando falamos de questões como as entre Israel e Palestina, onde há uma forte guerra de narrativas entre os envolvidos, a disputa pela verdade nas notícias se transforma em poder e dominação do discurso, o que importa é a disseminação de discursos políticos em todo o mundo que permitam que uma dessas narrativas ganhe a simpatia da opinião pública, e estes discursos podem ser ainda mais reforçados através de imagens que comprovem esta narrativa dominante. Dessa maneira, as agências de notícias, que dominam o mercado informacional internacional são atores relevantes, que ditam o entendimento do que ocorre neste território.5 Vendida para Thomson Corporation em 2008. 6 Associated Press. 7 Folha Press, O Globo, Agência Estado. Gabriela Getirana 134 Por conseguinte, quando falamos sobre notícias internacionais, temos um mercado de informação fortemente dominado pelas grandes agências, onde o objetivo principal é menos o esclarecimento das questões noticiadas e mais uma preocupação com que as notícias sejam vendáveis e atraentes para o público. Por conta disso, quando falamos de noticiar os acontecimentos de Israel e Palestina vemos que as narrativas deixam de lado os contextos históricos, origens e desdobramentos das questões, sob uma enganosa noção de objetividade.</title>
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          <title>Em 2018, completaram-se 70 anos desde al-Nakba e os movimentos da Marcha do Retorno foram marcados por alguns eventos anteriores. Em dezembro de 2017 o presidente dos EUA, Donald Trump, reconheceu a cidade de Jerusalém como capital do Estado de Israel e declarou a mudança da embaixada norte americana de Tel Aviv para Jerusalém, além de anunciar um corte de verbas à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) 8 , decisões que levaram a protestos de grupos palestinos em Gaza no final do ano. Em janeiro, Ahmed Abu Artena, famoso jornalista e ativista palestino, publicou uma postagem em seu Facebook que acabou viralizando, 8 O corte foi efetivamente feito em agosto de 2018. Gabriela Getirana 136 instigando manifestantes e a mídia internacional a marcharem pacificamente, carregando bandeiras palestinas e chaves de retorno, e violarem a cerca de arame farpado a leste de Gaza, além de estender tendas nas regiões ocupadas para ali permanecerem pacificamente. O que poderia a ocupação [Israel] repleta de armas fazer com uma massa de seres humanos avançando pacificamente? Matar 10,20 ou 50 deles? E depois o que? O que poderia fazer diante de uma inabalável massa marchando pacificamente?[Somos]  um povo que quer viver e nada mais. Nada pode atrasar essa ideia, a não ser as amarras de nossas próprias ilusões. Estamos morrendo nesse pequeno local cercado, então por que não fugir antes que a faca atinja nossas gargantas? Desde que eles estão conspirando nos chutar para o sul[Egito]   depois de nos exterminar indiscriminadamente, por que nós não os impedimos e começamos a correr para o norte? Se houver um preço a se pagar, que seja na direção do que é certo, na direção para o retorno à Palestina, onde podemos obter novas terras e intensificar o impasse existencial do inimigo (...). Você não tem nada a perder além de suas correntes. #Grande_Marcha_do_Retorno(ARTENA,  2018 apud ABUSALIM, 2018.</title>
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          <title>diversas atividades culturais, com tendas de poesias, danças, culinária, esportes e apenas bandeiras da Palestina foram levantadas. O relatório salienta que em determinado momento, após um pequeno grupo de manifestantes chegar perto das cercas fronteiriças e atirar pedras, queimar pneus e agitar bandeiras palestinas, as forças de Israel responderam de forma desproporcional e agressiva, com uso de munição real, matando 18 pessoas e deixando 703 pessoas feridas. (A/HRC/40/74).Abusalim (2018) reforça que esta marcha foi a primeira vez em que muitos jovens palestinos, na faixa etária de vinte anos ou menos, puderam participar de uma ação política e que, para esta geração, "a cerca não define limites entre Estados, é simplesmente um lembrete diário de sua própria Nakba e da catástrofe que fez seus pais e avós serem expulsos de cidades, vilas e aldeias para as quais não podem voltar"(ABUSALIM, 2018,   p.96). Dessa forma, com o resultado positivo da Grande Marcha do Retorno e após novas declarações de Trump dizendo que a transferência da embaixada americana para Jerusalém aconteceria no dia 14 de maio, os participantes do movimento resolveram estender a Marcha até o dia 15 de maio de 2018. Nas semanas que se seguiram, diversas pessoas passaram a protestar em diferentes partes do território palestino toda sexta feira (ALMUSADDAR, 2018). O relatório A/HRC/40/74 da ONU aponta que nessas semanas alguns manifestantes atiraram pedras, queimaram pneus e removeram o arame farpado no lado de Gaza da cerca de separação. Em abril, passaram a empinar pipas ou balões incendiários, danificando propriedades israelenses. O relatório ressalta o fato dessas atividades serem "organizadas por 'unidades' autodeclaradas, algumas delas através de suas próprias páginas no Facebook" (A/HRC/40/74, p.9), e que não foram encontradas "evidências que sugerissem que elas eram dirigidas ou coordenadas por grupos armados" (A/HRC/40/74, p.9). Em contrapartida, a resposta de Israel continuou agressiva, utilizando munição real e matando e ferindo civis durante toda semana. No dia 13 de maio, as Forças de Defesa de Israel afirmaram em um vídeo que o Hamas planejava enviar milhões de terroristas armados para manifestarem de forma violenta e romperem com a fronteira de Israel com Gaza. Entretanto, o que se observou na Marcha do dia 14 de maio, foi a participação de aproximadamente 40 mil pessoas, em diferentes pontos do território e, mais uma vez, o protesto aconteceu de forma majoritariamente pacífica, com apenas alguns casos isolados de manifestantes tacando Gabriela Getirana 138 pedras, queimando pneus e destruindo o arame farpado. Por sua vez, Israel respondeu agressivamente, matando 60 pessoas e atirando em mais de mil (A/HRC/40/74). Em relatório do Médicos Sem Fronteiras (2018), é apontada a situação caótica dos hospitais da organização, com grande quantidade de pessoas feridas em poucas horas, sobrecarregando a equipe médica. Este relatório também aponta para o grande número de cirurgias que precisaram ser realizadas em um único dia (30) e para o fato de que diversos feridos palestinos ficarão com sequelas pelo resto da vida. O documento denuncia que o "banho de sangue é a continuação da política do exército israelense durante as últimas sete semanas: atirar com munição real em manifestantes, supondo que alguém que se aproxima da cerca de separação seja um alvo legítimo" (MsF, 2018). A repressão intensa do dia 14 de maio fez com que houvessem divisões sobre o andamento dos eventos futuros entre os organizadores e os diversos grupos que atuavam nesse movimento, além de ter gerado uma insegurança na população que vinha participando em massa das marchas. Dessa maneira, os protestos seguintes foram menores e o uso de pedras, pipas incendiárias e pneus queimados foram intensificados, assim como a violência israelense. Estes protestos duraram por todo o ano de 2018 e outros episódios do tipo também aconteceram ao longo de 2019.</title>
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          <title>de S.P., Daniela Kresch, direto de Tel Aviv, assim como a notícia publicada no dia11  Outras redações localizadas em: Jerusalém, São Paulo, Tel Aviv, Israel, Haia, Ramalah, Cisjordânia, Washington e Madri.12  A saber: Daniela Kresch (3 matérias), Diego Bercito e Daniela assinam 1 matéria juntos, Yan Boechat (2 matérias), Clóvis Rossi (1 matéria) -todos correspondentes da Folha de S.P.; Adel Zaanoun (1 matéria), correspondente da AFP; David M. Halbfinger e Declan Walsh do New York Times (1 matéria cada), Loveday Morris e Ruth Eglash, do Washington Post (1 matéria). Gabriela Getirana 140 seguinte a este evento, sendo que esta segunda tem como fonte as Agências de Notícias AP e Reuters. Como exposto anteriormente, os organizadores do evento optaram por manter os protestos todas as sextas feiras até o Dia de Nakba e, por sua vez, estes eventos tiveram seus acontecimentos cobertos por agências de notícias, assim como o protesto do dia 14/05 e do Dia de Nakba (15/05). Cerca de 80% das notícias que abordam sobre as marchas foram produzidas através de agências internacionais de notícias e nota-se que uma mesma notícia pode ser creditada a mais de uma agência. Tabela 2 -Número de vezes que cada fonte foi utilizada nas notícias replicadas na seção "Mundo" do jornal Folha de São Paulo nas matérias a respeito da Grande Marcha do Retorno e seus desdobramentos no ano de 2018. Fonte Número de Notícias Reuters 11 Associated Press + Reuters 9 Folha de São Paulo 5 Não disponível 5 Agence France-Presse 4 Agence France-Presse + Reuters 4 Associated Press 3 Agence France-Presse + Associated Press + Reuters 3 The New York Times 2 Associated Press +The New York Times 1 The Washington Post 1 Total 48 Fonte: elaboração da autora No mês de abril, quando as marchas eram realizadas todas as sextas feiras, houve 6 matérias publicadas sobre o assunto, todas tendo como fonte as agências de notícias e sem creditar um jornalista responsável pela matéria. Maio, mês de al-Nakba, tem 18 notícias RICRI, Volume 8, Número 15, 2020. Dossiê Mídia e Relações Internacionais 141 sobre a Grande Marcha do Retorno e é o mês com mais reportagens sobre esta temática. Nos demais meses, há uma cobertura pontual sobre os protestos e seus desdobramentos. Gráfico 1 -Quantidade de notícias sobre a Grande Marcha do Retorno e seus desdobramentos,publicadas no jornal Folha de São Paulo e quantas delas foram também publicadas na versão impressa do jornal durante o ano de 2018.Fonte: elaboração da autoraNo que diz respeito à cobertura fotográfica, nota-se que as fotos não traduzem os textos e são apenas ilustrativas, muitas das fotografias são de períodos anteriores aos fatos narrados e outras notícias tem edições para incluir fotos com data posterior ao evento</title>
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          <title>são as maiores responsáveis pela cobertura jornalística do evento. O jornal brasileiro tem essas agências como sua fonte principal, demostrando a relação de atacadistas-varejistas a que as notícias internacionais são submetidas. Observa-se também que a Folha carece de um banco de imagens que ilustrem o conflito, utilizando-se de diversas fotografias que não traduzem os eventos mencionados nos textos e apenas ilustram as notícias, repetindo as mesmas fotos em diversas matérias, mesmo que estas sejam de anos anteriores ao evento noticiado.Dessa forma, a narrativa adotada é àquela difundida, predominantemente, pelas três agências que dominam o mercado informacional: a britânica Reuters, a estadunidense Associated Press e a francesa Agence France Presse. Estas agências são originais de países que historicamente sempre tiveram envolvimento e interesses próprios dentro das questões entre Israel e Palestina -e vale se atentar que as notícias creditadas à Reuters e Associated Press tem maior volume e que estadunidenses e britânicos são dois atores com grande protagonismo pró Israel durante todos esses anos de conflitos entre israelenses e palestinos.Ademais, como já exposto ao longo deste trabalho, apesar da crença de que organizações privadas de notícias são isentas e independentes, os Estados que possuem uma boa relação com essas organizações são capazes de estabelecer suas narrativas como uma agenda e a estrutura de propriedade dessas agências mostram que quem as financia também tem influência, direta ou indireta, nessas agendas e enquadros adotados. A AFP, por exemplo, é financiada pelo Estado, já a AP é uma agencia privada cooperativa, onde oRICRI, Volume 8, Número 15, 2020. Dossiê Mídia e Relações Internacionais 151 financiamento é feito por meios de comunicação estadunidenses e outros contribuintes que assinam seus serviços, e a Reuters, pertencente à multinacional Thomson Reuters, tem financiamento privado, com ações nas bolsas de valores de Toronto e Nova York. Dessa forma, para além do fato de Inglaterra, Estados Unidos e França terem posicionamentos, majoritariamente, que beneficiaram Israel ao longo do conflito e dos sionistas serem um produto intelectual e político europeu, a relação de proximidade de Israel com os países do ocidente -principalmente com lobbies norte-americanos -permite que a narrativa israelense ganhe a mídia internacional.Isto posto, quando observamos as notícias analisadas, vemos que a mídia age de forma submissa à esta influência, sendo porta voz de interesses nacionais específicos, não exercendo um papel de ator independente no sistema internacional. Dessa maneira, a Folha, através das agências anteriormente citadas, atua sob a influência dos Estados que dominam o conteúdo informacional internacional e adota narrativas textuais e visuais influenciadas pelos interesses desses, criando binarismos e estereótipos sobre os envolvidos no conflito, reforçando o discurso pró Israel.Estas narrativas pró Israel ficam claras quando observamos as escolhas textuais onde os palestinos, por exemplo, não costumam ser descritos como "civis", mas como "manifestantes", "militantes", "protestantes", dando a eles sempre o lugar de revoltados, excluindo os contextos históricos destas reinvindicações e manifestações. Questões sobre o direito ao retorno são, comumente, creditadas a vozes do Hamas, que, por sua vez, são desacreditados ao terem seu nome sempre associado a palavras como "terroristas", "extremistas", reforçando a ideia de que até mesmo aqueles que dizem representar a causa palestina não são passíveis de terem seu discurso validado. Ainda que as fotos demonstrem os mortos, os feridos e o luto palestino, a violência de Israel é constantemente justificada como uma reação à violência iniciada por palestinos, como um ato de legitima defesa desse Estado israelense, que precisa se proteger desses ditos revoltosos, extremistas, representados por grupos terroristas.No que tange as imagens das notícias, notamos uma escolha semântica onde a mensagem linguística exerce uma função de fixação às imagens, carregando estas de significados, ideologias, cultura, juízos de valor. E, mais do que isto, as imagens são usadas com um modo conotativo, onde não estão ali apenas para despertar compaixão, mas para reforçar a mensagem textual dos estereótipos palestinos como um Outro, diferente do ocidente, que está constantemente em sofrimento, com raiva, atirando pedras e queimando Gabriela Getirana 152 pneus, precisando ser ajudado. Já Israel, como vimos, raramente é ilustrado, nas poucas imagens em que sua atuação no conflito aparece, este é caracterizado de forma impessoal, com fotos distantes, que não mostram rostos e utilizam-se de formas abstratas como fumaças e explosões, sendo necessário a leitura das legendas para identificar a autoria dessas violências, excluindo a dimensão da desproporcionalidade da violência que Israel emprega diariamente sobre o povo palestino.Fishman (1990) já apontava para um nível de produção de notícias manipuladas, com seu valor instrumental a serviço de determinados interesses e, para isso, os meios de comunicação utilizam-se de mecanismos e ferramentas como, por exemplo, o agendamento e enquadramento. Ao analisar o agendamento da Folha de São Paulo sobre Israel e Palestina, fica claro que o jornal opta por um agendamento pontual, com influência de médio e longo prazo. Antes da Marcha do Retorno não há uma cobertura significativa sobre as questões entre esses dois atores e a primeira notícia a respeito do evento ocorre um dia antes da Marcha ser iniciada, já incluindo este assunto como algo a ser debatido nos próximos dias.Por sua vez, o enquadramento tem o objetivo de incutir no imaginário do leitor uma forma de perceber o que está sendo noticiado, sendo as imagens visuais uma estratégia bastante útil na construção dessas percepções. Neste ponto, o enquadramento utilizado mostra uma escolha por determinados estereótipos reforçados nas fotografias ou na ausência delas, o uso de palavras que carregam um juízo de valor, uma narrativa que conta os eventos sem aprofundamento contextual ou histórico e que deixa implícito diversos fatos que já se passaram entre os dois atores. A problemática desse frame temporal é que, ao diminuir os acontecimentos em fatos isolados, o que prevalece é a guerra de narrativas, onde impera um aspecto binário das questões.Esta estratégia de estereotipar o Outro, de criar binarismos, reforçar estigmas e narrativas de vítima/agressor, torna-se um discurso fundamental para dominação física e cultural do Ocidente sobre o Oriente (Médio)-e, historicamente, Israel se posiciona como um grande aliado dos países ocidentais. Com isso, o uso constante de cenas de violência, ainda que chocantes, trazem uma mensagem dupla, onde apesar da compaixão por todo esse sofrimento palestino que deveria ser remediado, prevalece a narrativa de uma tragédia inevitável. E, nesta tragédia, o Ocidente e seu aliado Israel são representados como fundamentais para dar fim a este sofrimento, de forma que o emprego de violência por parte destes é constantemente relativizado ou ignorado e, nesta narrativa, a presençaRICRI, Volume 8, Número 15, 2020. Dossiê Mídia e Relações Internacionais 153israelense no território faz se necessária para que este Outro também se torne um de "nós" e o sofrimento palestino enfim se encerre.Em contrapartida, palestinos, que não possuem laços poderosos com o Ocidente, não tem sua narrativa representada na mídia, suas lutas históricas de resistência e de denúncias pelos sofrimentos diários que seu povo enfrenta nos territórios ocupados são ignoradas pelos grandes meios de comunicação. Sua Grande Marcha do Retorno, onde tentam estabelecer um discurso de direito ao retorno às suas terras tomadas pelos sionistas, é eclipsado e contado por uma ótica que beneficia e justifica a criação e ocupação do Estado de Israel.Por fim, concluímos que esta guerra de narrativa protagonizada por palestinos e israelenses são questões internacionais que não são apenas visíveis graças ao trabalho jornalístico, mas que também são, em grande parte, escolhidas, delimitadas e produzidas dentro desse espaço comunicacional. A cobertura da Marcha do Retorno de 2018 no jornal Folha de São Paulo é sobretudo produto linguístico e visual das grandes agências internacionais de notícias, de maneira que o jornal assume as narrativas dos países que tem o domínio do conteúdo midiático e as representações de israelenses e palestinos também são construídas de acordo com interesses desses atores. Portanto, o leitor interpreta estas questões a partir das formas culturais, instâncias políticas e econômicas daqueles que foram bem sucedidos em exercer seu poder através da mídia. Israel, com seus históricos laços com o ocidente, notadamente os EUA, e sua imagem de "ilha democrática" em uma região instável e marcada por autocracias e teocracias, conseguiu estabelecer poderosos aliados, de maneira que, nesta guerra de narrativas, possui o domínio do discurso. E, com isso, suas ações de violência visando ampliar e/ou consolidar seu território são justificadas pela mídia ocidental.Gabriela Getirana 154 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABUSALIM, Jehad. The Great March of Return: An Organizer's Perspective. In: Journal of Palestine Studies vol. XLVII, nº. 4, 2018. AGUIAR, Pedro. Marx explica a Reuters: anotações para leituras da economia política sobre agências de notícias. Anales del VII Congreso Internacional de la ULEPICC7, 2009. AL JAZEERA. 'Iconic' image of Palestinian protester in Gaza goes viral. Disponível em: &lt;https://www.aljazeera.com/news/2018/10/image-palestinian-protester-gaza-viral- 181024113924724.html&gt;. Acesso em Julho de 2020 ALMUSADDAR, Duha. The Great March of Return and the Palestinian Nakba. In: Rosa Luxemburg Stiftung Regional Office Palestine &amp; Jordan, maio 2018. BARTHES, Roland. Rhetoric of the Image. In: Image Music Text. Fontana Press, 1977. BERRY, Mike. Reporting the Israel-Palestine Conflict. 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