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        <article-title>SUDÃO DO SUL: A INFLUÊNCIA DA INDEPENDÊNCIA E DAS DINÂMICAS ARMAMENTISTAS NA GUERRA CIVIL DE 2013</article-title>
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      <contrib-group><contrib contrib-type="author"><name>
            <givenName>Silva</givenName>
            <surname>Ludmilla</surname>
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            <surname>Corcino</surname>
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        </contrib><aff id="aff0"><institution>, Universidade Federal de Uberlândia</institution>
        </aff></contrib-group><permissions/><abstract>
        <title>Abstract</title>
        <p>O propósito do artigo é analisar a influência das dinâmicas armamentistas na ocorrência e intensidade dos conflitos armados ocorridos no Sudão do Sul. A hipótese é que as dinâmicas armamentistas detêm um efeito desestabilizador nos conflitos armados em curto-prazo e um efeito estabilizador em longo-prazo. A metodologia é do tipo qualitativa com ênfase na revisão bibliográfica, no levantamento estatístico e no estudo de caso. Mesmo com sua recente independência o conflito armado no Sudão do Sul se intensificou significativamente nos últimos anos resultando em uma intensa crise humanitária, alta mortalidade e instabilidade estatal, o artigo investiga as principais razões para estes fatores entendendo e demonstrando suas principais facetas e consequências. Por fim, conclui-se que há uma relação direta entre as dinâmicas armamentistas e a intensidade do conflito sul sudanês já que o aumento das transferências de armamentos elevou o número de mortes relacionadas com a batalha. Palavras-chaves: Sudão do Sul; conflitos armados, dinâmicas armamentistas, independência.</p>
        <p>The purpose of this article is to analyse the influence of arms dynamics on the occurrence and intensity of armed conflicts in South Sudan. The hypothesis is that arms dynamics has a destabilizing effect on short-term armed conflicts and a stabilizing effect on long-term conflicts. The methodology is of a qualitative type with emphasis on a bibliographic review, statistical survey and case study. The armed conflict in South Sudaneven with its recent independence -has increased significantly in recent years resulting in an intense humanitarian crisis, high mortality and state instability. The main reasons for these factors are investigated and demonstrated here. The final conclusion is that there is a direct link between arms transfers and the South Sudanese conflict as the increase in arms transfers has increased the number of deaths related to the battle.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <title>Keywords</title>
        <kwd>South Sudan</kwd>
        <kwd>armed conflicts</kwd>
        <kwd>arms dynamics</kwd>
        <kwd>independence</kwd>
      </kwd-group>
      </article-meta>
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    <sec>
      <title>INTRODUÇÃO</title>
      <p/>
      <p>O Sudão do Sul, localizado na África Subsaariana, conquistou sua independência em relação ao Sudão em 2011 e, desde então, vem passando por períodos extremos de instabilidade. O país foi palco de uma guerra civil em 2013, considerado o país mais novo do mundo é também um dos países com uma das mais graves crises humanitárias da atualidade.</p>
      <p>Atualmente, quase 70% da população (de cerca de 11 milhões de habitantes), necessita de 1 Universidade Federal de <italic>Uberlândia (ludmilla.lsc@gmail.com)</italic> assistência humanitária urgente, e 7,2 milhões de pessoas vivencia uma realidade de segurança alimentar, que inclui tanto a fome quanto a subnutrição <xref rid="b15" ref-type="bibr">1</xref><italic>CARE, 2021)</italic>.</p>
      <p>A guerra civil teria provocado em torno de 383 mil mortes, segundo um estudo realizado pela London School of Hygiene &amp; Tropical Medicine. Parte das mortes estaria associada diretamente à violência armada e o restante delas às consequências do conflito <italic>(ONU, 2019)</italic>.</p>
      <p>O estudo do Sudão do Sul detém assim uma enorme importância por ser o país mais novo do mundo e por apresentar uma das mais agudas crises humanitárias da contemporaneidade.</p>
      <p>Deste modo, é importante entender a escalada de tensões e conflitos ocorridos no Sudão do Sul e, para isso, torna-se imprescindível a compreensão do conflito armado e das dinâmicas armamentistas.</p>
      <p>A hipótese a ser investigada no artigo é que as dinâmicas armamentistas detêm um efeito desestabilizador nos conflitos armados em curto prazo e um efeito estabilizador a longo prazo, quando os gastos militares e as transferências de armamento do país aumentam abruptamente, a expectativa é de que haja mais mortos nos conflitos, em contraponto quando os gastos militares e as transferências de armamentos diminuem ou se mantêm relativamente constantes, a expectativa é uma menor mortalidade nos conflitos.</p>
      <p>A metodologia é do tipo qualitativa com ênfase na revisão bibliográfica, no levantamento estatístico e no estudo de caso, os dados referentes a conflitos armados e dinâmicas armamentistas foram coletados de dois bancos de dados: Uppsala Conflict Data Program (UCDP) e Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). O artigo é dividido em cinco sessões distintas contendo: a linha do tempo do Sudão do Sul; o modelo de análise utilizado; o referencial teórico com a contextualização do tema; a discussão conceitual de conflitos armados e dinâmicas armamentistas; e o mapeamento dos conflitos e dinâmicas armamentistas no Sudão do Sul. A finalidade é verificar a consistência desse modelo teórico assim como seu valor explicativo para compreender a influência das dinâmicas armamentistas. As relações entre ambos os países permaneceram hostis mesmo após a independência, e o principal motivo para isto advêm das fronteiras não delimitadas entre às duas regiões. Em março de 2012, o conflito armado se intensificou em virtude da disputa por Heglig, uma região rica em petróleo, o conflito foi marcado por inúmeros bombardeamentos em campos de petróleo e em cidades, e apenas terminou no final de 2012 após um acordo de paz parcial assinado entre os dois países, tal acordo não finalizou as hostilidades entre eles e o Sudão continuou a bombardear áreas do Sudão do Sul. A situação apenas se acalmou em 2013 e não chegou a alcançar o seu limite máximo <italic>(UCDP, 2018</italic>  <xref rid="b2" ref-type="bibr">2</xref><xref rid="b0" ref-type="bibr">3</xref><italic>CFR, 2020)</italic>.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>SUDÃO DO SUL: DA INDEPENDÊNCIA À DECLARAÇÃO DE KHARTOUM</title>
      <p/>
      <p>A Declaração de Khartoum estabelecia três pontos principais, primeiro, um cessar-fogo permanente no prazo de 72 horas; segundo a realização de arranjos de segurança voltado para a construção das forças armadas nacionais, das forças policiais e de outros órgãos de segurança que deveriam ser livres de associações tribais e étnicas, assim como o desarmamento de civis ao longo do país; e por fim, a realização de um período de pré-transição de 120 dias, seguido de um período de transição de 36 meses, o qual incluiria o compartilhamento de poder e a preparação para as próximas eleições nacionais. <italic>(Ocha, 2018)</italic>.</p>
      <p>Em 2019 a situação tornou-se mais branda e o cessar-fogo permaneceu na maior parte do país, a insegurança na região se relacionava com o frágil processo de paz e a falta de transparência do governo, todavia, foi possível perceber progresso naquele ano. Em fevereiro de 2020, Kiir e Machar estabeleceram um "governo de unidade" com objetivo de trazer fim ao conflito e estabelecer paz ao país, tal governo estava previsto na assinatura da Declaração de Khartoum <italic>(ONU, 2020;</italic><italic>Bearak, 2020)</italic>.</p>
      <p>O governo de unidade foi possível devido a concessões feitas por ambas as partes, Kiir concordou em restabelecer os dez estados originais do país, revertendo a expansão de trinta e dois estados antes estabelecidos para beneficiar seu grupo étnico, os Dinka, e garantir o controle das terras e recursos naturais e Machar concordou em voltar para o Sudão do Sul sem sua força de segurança privada e depender da previsão de Kiir para a sua segurança <italic>(Carnegie Endowment, 2020)</italic>.</p>
      <p>Muitos desafios ainda existem para que a paz seja consolidada no Sudão do Sul, como, por exemplo, a corrupção que se encontra espalhada pela região, a tentativa de unificar as forças militares para a formação de um exército nacional, e a crise humanitária do país. Sendo assim, apesar do "governo de unidade" significar uma evolução para a região, há diversas questões, como o nacionalismo, o compartilhamento de poder, a criação de instituições e questão étnica que precisam ser definidas antes que resultem em eventuais tensões no futuro.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>METODOLOGIA</title>
      <p/>
      <p>O artigo realiza uma revisão metodológica para entender a elaboração e a composição de um estudo de caso. Andrew <xref rid="b4" ref-type="bibr">4</xref> explica o que é um estudo de caso e quais são os principais passos que o pesquisador deve seguir para o elaborar com exatidão, segundo ele um estudo de caso é um aspecto bem definido, de um acontecimento histórico que o pesquisador seleciona para a análise. Ele cita cinco etapas essenciais para uma boa elaboração deste estudo:</p>
      <p>Primeiro, o pesquisador deve definir o objetivo da pesquisa, incluindo a categoria de eventos a ser explicados, as hipóteses sob consideração, e o tipo de teoria a ser utilizada. Segundo o pesquisador deve especificar as variáveis independentes, dependentes e intervenientes, e decidir qual delas devem ser controladas e qual destas irão variar ao longo dos casos. Terceiro, o pesquisador seleciona os casos a serem estudados. Quarto, o pesquisador deve considerar como descrever a variação nas variáveis dependentes e independentes, considerando não apenas as variáveis individuais como também os tipos de caso. Finalmente, o pesquisador especifica as questões estruturais que devem ser feitas em cada caso" <italic>(Bennett, 2002, p. 34, tradução nossa</italic> Metodologicamente se torna importante ressaltar que o estudo do âmbito de conflitos vem acompanhado de alguns dilemas comuns, o primeiro dilema diz respeito a obtenção e autenticidade das informações, ou seja, o conflito traz consigo incentivos para controlar e deturpar várias destas informações, fatores como medo, traumas e outros processos psicológicos possuem grande influência nas lembranças das pessoas. Em contraponto, a capacidade de terceiros de observar e relatar tais conflitos também é reduzida e, às vezes, severamente restringida durante e após conflitos armados, outro ponto de destaque, é que a guerra também tende a danificar a infraestrutura e interromper a manutenção de registros a respeito de conflitos .</p>
      <p>O segundo dilema faz referência as descrições da realidade e dos eventos, que quase sempre são contestadas e possibilitam margem para a existência de tendências e erros, do mesmo modo, artigos de notícias, relatórios e memórias são escritos com um público-alvo em mente, assim é importante entender que toda fonte pode ser alvo de crítica, assim como de potenciais vieses. Por fim, outro dilema que se torna importante evidenciar refere-se aos países assolados por conflitos, sendo geralmente aqueles com a cobertura mais falha nas estatísticas oficiais, esse é exatamente o caso do Sudão do Sul, desta maneira torna-se muito difícil ou quase impossível obter, diretamente desses países, bons registros públicos e informações de maneira sistemática .</p>
      <p>A principal base de dados utilizada nesse trabalho é o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), e a respeito dessa, e de outras bases de dados conflitivas, é importante realizar algumas considerações: As bases de dados funcionam para a geração de dados e estas permitem a criação de análises e cenários a respeito de algumas questões importantes, a base de dados do UCDP, por exemplo, se direcionam para o tema dos conflitos violentos, tendo como especialidade os conflitos armados interestatais e intraestatais <xref rid="b16" ref-type="bibr">5</xref><xref rid="b16" ref-type="bibr">5</xref>.</p>
      <p>É valido definir que a teoria do conflito se pauta em três componentes para considerar a existência de conflito entre as partes, eles são contradição, decorrente de objetivos; suposições e atitudes, quanto ao sistema em que esses atores se inserem e interagem; e por fim comportamento entre as partes. Estes componentes do conflito são importantes, pois refletem os principais elementos presentes nessas bases de dados conflitivas as causas específicas das condições conflituosas; os motivos estruturais ou sistêmicos para o início dos conflitos e os conflitos em si caracterizados pelos comportamentos de violência direta <xref rid="b16" ref-type="bibr">5</xref><xref rid="b16" ref-type="bibr">5</xref>.</p>
      <p>Localizada no Departamento de Pesquisa sobre Paz e Conflitos da Universidade de Uppsala, na Suécia, o UCDP é líder mundial no fornecimento de dados sobre violência organizada e esforços para a paz, o programa possui um banco de dados online e este além de incluir informações sobre conflitos armados e violência, inclui também dados sobre diversas variáveis, como negociações, ações de terceiros, acordos de paz, e também características a respeito dos atores envolvidos no conflito. Trabalhando a partir dos componentes do conflito, já especificados acima, a UCDP direcionou sua base de dados para incompatibilidades e comportamento, pois estes correspondem simultaneamente ao conflito (incompatibilidade) e ao armado (comportamento), logo o foco dessa base de dados se baseia em atores, incompatibilidade e comportamento dos elementos envolvidos no conflito armado <xref rid="b36" ref-type="bibr">6</xref><xref rid="b36" ref-type="bibr">6</xref>.</p>
      <p>Para obter seus dados, a UCDP utiliza fontes tanto com cobertura global quanto com cobertura regional, de modo a produzir os melhores dados possíveis sob as informações conflitivas existentes, posto isso apesar do grande renome e confiabilidade que a base de dados do UCDP possui ela ainda está sujeita a alguns problemas e erros, algo comum a toda e qualquer base de dados relativos a conflitos. A coleta de dados globais sobre conflitos armados talvez seja mais problemática do que a coleta sobre diversos outros fenômenos, simplesmente devido à natureza do tópico, as informações que emanam de ambientes de conflito tendem a ser desiguais e imprecisas, assim, reunir informações exatas e confiáveis sobre conflitos violentos e suas consequências é um grande desafio, mas, ao mesmo tempo, uma tarefa de extrema importância <xref rid="b36" ref-type="bibr">6</xref><xref rid="b36" ref-type="bibr">6</xref>.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>REFERENCIAL TEÓRICO</title>
      <p/>
      <p>Há muitos conflitos em cursos na contemporaneidade, entretanto, apesar do aumento da violência organizada em regiões específicas, houve um declínio geral da violência nos últimos anos. Steven Pinker, em seu livro The Better Angels of Our Nature (2011), oferece algumas razões para o declínio desta violência, segundo ele, o declínio acentuado na mortalidade violenta originou-se da ascensão do estado-Leviatã cerca de 5.000 anos atrás, em consonância com Pinker (2011), Joshua Goldstein, em seu livro Winning the War on War (2011), enfatiza que a guerra diminuiu em estágios ao longo da história, assim como a violência, porém uma violência que declinou de maneira não uniforme ao longo do globo <xref rid="b18" ref-type="bibr">7</xref>.</p>
      <p>Considerando as perspectivas de Pinker e Goldstein, Azar Gat (2012) reflete a respeito das principais razões pela contínua eclosão da guerra durante os últimos dois séculos, segundo ele, um dos principais motivos para a continuidade incluir destes conflitos incluiria as tensões étnicas e nacionalistas que frequentemente anulam a lógica das novas realidades econômicas. A ascensão ao poder de ideologias políticas e de regimes antiliberais e antidemocráticos também exerce uma enorme influência perante a estes conflitos já que incorporam muitas vezes um ideal de violência. refere-se à substituição de um governo central ou a mudança em seu arranjo político; já a incompatibilidade territorial diz respeito a exigência de secessão ou a luta por autonomia em um conflito interno.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>A IMPREVISIBILIDADE DOS CONFLITOS ARMADOS</title>
      <p/>
      <p>O conjunto de dados do UCDP também inclui três subconjuntos pelo qual o conceito é dividido, isto é: "conflito armado menor" que inclui pelo menos 25 mortes relacionadas com a batalha por ano e menos de 1.000 mortes relacionadas a batalha durante o curso do conflito;</p>
      <p>"conflito armado intermediário", que engloba pelo menos 25 mortes relacionadas com a batalha por ano e no mínimo 1.000 mortes relacionadas com a batalha durante o curso do conflito, no entanto, menos de 1000 em um ano; e por fim "guerra", que compreende ao menos 1000 mortes relacionadas a batalha por ano.</p>
      <p>No âmbito da concepção de conflitos armados há a distinção de quatro categorias existentes:</p>
      <p>"conflito armado interestatal" que ocorre entre dois ou mais estados; "conflito armado extraestatal", que ocorre entre um estado e um grupo não-estatal fora do território do primeiro; "conflito armado interno internacionalizado", que ocorre entre um governo de um estado e grupos internos de oposição com intervenção de outros estados; e "conflito armado interno", que ocorre entre um governo de um estado e grupos internos de oposição sem a intervenção de outros estados <italic>(Pettersson, Therese, 2019)</italic>.</p>
      <p>O tipo de violência que ocorre dentro dos conflitos armados também ganha enorme destaque, a violência organizada do UCDP, segundo Pettersson e Therese (2019) inclui três categorias de violência especifica: "violência estatal", refere-se a luta entre dois estados, ou entre um estado e um grupo rebelde; "violência não-estatal", conflitos nos quais nenhuma das partes da guerra é um estado; e "violência unilateral", o uso de força armada contra civis realizada por um governo de um estado ou por um grupo organizado.  <xref rid="b28" ref-type="bibr">8</xref>.</p>
      <p>Uma categoria relevante em conflitos armados é a guerra civil, definida como um conflito armado que envolve: ação militar interna à capital do estado; participação ativa do governo nacional; resistência efetiva de ambos os lados do conflito e um total de pelo menos 1000 mortes de batalha durante cada ano da guerra. Duas distinções importantes ressaltam que: a ação militar tem que ocorrer entre entidades políticas nas fronteiras da capital e o governo nacional em poder deve ser um participante ativo da guerra no momento que as hostilidades começarem <xref rid="b32" ref-type="bibr">9</xref>.</p>
      <p>Em consonância com Sarkees e a guerra civil, Kristian Gleditsch (2014) enfatiza que essas guerras podem ser inevitáveis em estados fracos, a fraqueza do estado, os recursos saqueadores, motivações e queixas políticas de atores não-estatais podem ser considerados fatores de riscos para o surgimento desta categoria de conflito armado. Muitas destas guerras civis são travadas segundo linhas étnicas ou por reivindicações específicas de autonomia, ou secessão.</p>
      <p>Nem sempre uma tensão em uma região será marcada, restritamente, ao âmbito político ou geográfico, muitas vezes a etnia estabelece um enorme espaço na escalada de tensões de um conflito, em algumas ocasiões, a questão geográfica ou política pode ser responsável pelo início do conflito, enquanto a questão étnica incumbe-se de acentuar e fortalecer a questão armada estabelecida a priori. É o que ressalta Kristine <italic>Eck (2009, p.384</italic>, tradução nossa):</p>
      <p>"os resultados estatísticos fornecem um claro apoio para à reivindicação de que conflitos mobilizados etnicamente são mais prováveis de se intensificar para a guerra." O termo "conflito armado" possui inúmeras definições e diversas abordagens, essas variam entre si conforme as fontes e autores-bases utilizados, neste artigo, uma atenção especial é dada para as definições apresentadas pelo UCDP, pois essa base de dados é utilizada para construir o mapeamento dos conflitos e das variáveis no cenário do Sudão do Sul. Contudo, outras definições aqui apresentadas, como os conceitos de guerra civil e motivações étnicas, são de grande importância, pois auxiliam a compreender toda a conjuntura conflituosa do Sudão do Sul e, portanto, auxiliam na construção do argumento presente neste artigo.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>AS DINÂMICAS ARMAMENTISTAS E SUAS PRINCIPAIS PARTICULARIDADES</title>
      <p/>
      <p>Há duas grandes categorias que englobam o conceito de armas e exercem enorme importância no estudo das dinâmicas armamentistas, elas são: as "armas pequenas e armamentos leves" e as "armas convencionais". A ONU define armas pequenas como "aquelas armas designadas para uso pessoal" e armamentos leves como "aquelas designadas para uso por várias pessoas pertencentes a uma equipe", já o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) define as armas convencionais como grandes armas com propósitos militares <xref rid="b13" ref-type="bibr">10</xref>.</p>
      <p>Barry <xref rid="b5" ref-type="bibr">11</xref> explica dinâmicas armamentistas como um termo utilizado para se referir a todo um conjunto de pressões que faz com que os estados adquiram produtos militares e transformem a qualidade e quantidade das forças armadas que já possuem, o termo é utilizado para se referir não apenas a um processo geral global, como também à investigação das circunstâncias de estados particulares ou de um conjunto de países. Ele faz a distinção entre dois conceitos importantes que se encontram associados às dinâmicas armamentistas: a corrida armamentista e a manutenção do status-quo militar.</p>
      <p>A "corrida armamentista" é utilizada para extremas manifestações de dinâmicas armamentistas, isto é, quando as pressões são tantas que os países se envolvem em grandes expansões, competitivas, de sua capacidade militar, em contraste a "manutenção do statusquo militar" expressa as operações normais das dinâmicas armamentistas. A ideia de uma "corrida" sugere dois ou mais estados envolvidos em uma competição para fortalecer e acumular força militar um contra o outro, esta característica propõe que a corrida armamentista é uma condição anormal nas relações entre os estados, pois reflete as rivalidades políticas e o medo mútuo do potencial militar do outro <xref rid="b5" ref-type="bibr">11</xref>.</p>
      <p>Em consonância com Mohammeb <xref rid="b1" ref-type="bibr">12</xref>, um dos principais fatores responsáveis por aumentar a propensão dos países terceiro mundistas a se envolverem em um conflito interestatal é a transferência de armamentos modernos e tecnológicos dos países mais industrializados para os menos industrializados, tal fato pode resultar em transformações consideráveis principalmente no que tange ao poder e a continuidade dos conflitos armados.</p>
      <p>O autor ressalta que as armas possuem um valor instrumental e não são necessariamente a causa primária da guerra, porém, sistemas de armamentos sofisticados, que fornecem ao Terceiro Mundo uma superioridade tecnológica sobre um rival, é um fator crucial na decisão de intensificar as disputas a ponto de se tornar uma guerra:</p>
      <p>De qualquer forma, o efeito sobre a segurança geral do Terceiro Mundo pode se tornar negativa. Se a transferência de armamentos aumenta a dependência dos países de terceiro mundo em relação a outros poderes, então o sentimento de vulnerabilidade e insegurança dentro dos Estados é intensificado <italic>(Ayoob, 1991, p.</italic> </p>
    </sec>
    <sec>
      <title>276, tradução nossa).</title>
      <p/>
      <p>Há alguns fatores que podem ser responsáveis por influenciar a aquisição de armamentos No cenário de gastos militares Tian, Wezeman, Yun (2018, p,07, tradução nossa) fazem uma pequena análise quantitativa referente ao Sudão do Sul, onde demonstram as principais alocações militares do país nos anos relativos à guerra civil e a queda destes gastos quando calculados em dólares e comparados com outros países da África Subsaariana.</p>
      <p>O Sudão do Sul, que vem sendo afetado por uma guerra civil desde 2013, aumentou substancialmente seus gastos militares nominais entre 2015 e 2017. Em 2017, os gastos militares foram a maior alocação orçamentária do governo, representando 22 por cento dos orçamentos do estado. Embora o orçamento militar do Sudão do Sul tenha aumentado em termos nominais desde 2014, vários fatores, como conflito violento, queda da produção e dos preços do petróleo e aumento dos preços dos alimentos, alimentaram a depreciação da moeda e a hiperinflação. Isso, por sua vez, levou a grandes reduções nos gastos militares em termos reais, quando calculados em dólares americanos constantes. A queda de 90 por cento ($ 509 milhões) do Sudão do Sul nos gastos militares entre 2014 e 2017 foi a maior redução percentual da África Subsaariana nesse período.</p>
      <p>As dinâmicas armamentistas, que incluem tanto a transferência de armamentos quanto os gastos militares, é um conceito bastante relevante ao tema dos conflitos armados, pois são geralmente associados à intensificação do conflito. A principal dificuldade ao analisar este tópico refere-se a enorme falta de clareza e a transparência, o que dificulta obter dados claros e precisos, contudo, mesmo com alguns empecilhos é necessário entender seu conceito geral e como esta influencia os conflitos armados em várias regiões do mundo, como é o caso do Sudão do Sul.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>AS VÁRIAS FACETAS DO CONFLITO ARMADO NO SUDÃO DO SUL</title>
      <p/>
      <p>O caráter do conflito de 2013 no Sudão do Sul possui uma forte natureza política, relacionada a mudança de governo e a questão sucessória, no entanto, possui também um lado étnico devido à disputa exasperada entre dois grupos étnicos de enorme influência na região, os Dinka e os Nuer, uma etnia representada por Salva Kiir e a outra por Riek Machar. As motivações étnicas assim como as motivações políticas possuem grande espaço e, como já citado anteriormente, podem ser responsáveis pela escalada de tensões e pelo fortalecimento da questão armada.</p>
      <p>Os conflitos armados geralmente acontecem, segundo Bethany Lacina <italic>(2006)</italic> conflitantes em que pelo menos uma das partes principais deve ser o governo de um estado, e um conflito pode incluir mais de uma díade; 6) tipo de incompatibilidade -relativo as duas incompatibilidades existentes; 7) intensidade -relacionado com o número de mortes relacionado ao conflito, sendo -"minor" entre 25 e 999 mortes relacionadas a batalha em um determinado ano, e "war" pelo menos 1000 mortes relacionadas a batalha em um ano; e 8) número de mortes -referente ao número de fatalidades diretas recorrentes do conflito armado <italic>(UCDP, 2019</italic> Fonte: elaborado pela autora a partir dos dados apresentados em UCDP/GED <italic>(2019)</italic>  </p>
    </sec>
    <sec>
      <title>AS DINÂMICAS ARMAMENTISTAS NO CENÁRIO DO SUDÃO DO SUL</title>
      <p/>
      <p>Para uma melhor compreensão das dinâmicas armamentistas no cenário do Sudão do Sul serão analisadas algumas variáveis, já explicitadas antes, na conjuntura do país africano, aqui serão analisados os gastos militares do Sudão do Sul (incluindo a porcentagem referente ao PIB) ao longo dos anos; importação de "armas pequenas e armamento leve"; principais fornecedores de "armamentos convencionais" para o Sudão do Sul (incluindo a quantidade vendida em milhões e as armas compradas) e também os possíveis motivos desses fornecedores terem interesse na região.  </p>
    </sec>
    <sec>
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        <caption>
          <title>Sudão do Sul se tornou independente do Sudão em 9 de julho de 2011 e desde a sua independência a nova nação enfrentou inúmeros problemas relativos a conflitos e instabilidade. Após sua criação o país se tornou palco de conflito interno, quando dois grupos rebeldes: o Movimento Democrático do Sudão do Sul -SSDM/A, na sigla em inglês -e o Movimento de Libertação do Sudão do Sul -SSLM/A, na sigla em inglês -desafiaram o governo vigente (BBC News Brasil, 2011; UCDP, 2018). Ambos os grupos eram financiados pelo Sudão e a luta começou um mês após a independência do país e continuou pelos próximos anos, o conflito com o SSDM/A terminou em fevereiro de 2012 após negociações entre o grupo e o governo do Sudão do Sul, em seguida, o exército do SSDM/A integrou-se ao Exército Nacional do Sudão do Sul. Já o conflito com o SSLM/A só terminou em 2013 após o presidente, Salva Kiir, anunciar um perdão presidencial a todos os rebeldes ativos na região, durante este biênio inicial do país, de 2011 a 2012, a região, além do conflito interno, enfrentou também um conflito interestatal com o Sudão (UCDP, 2018).</title>
        </caption>
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    </sec>
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        <caption>
          <title>Holtom e Bromley (2010), eles são: recursos financeiros, possíveis ameaças à segurança nacional, necessidade de substituir ou melhorar o inventário militar, demonstração de status internacional, desejo de fortalecer relações com fornecedores e a influência que as forças armadas possuem no processo de aquisição de armas. Tais fatores podem ser associados com a grande influência que o comércio internacional de armamentos possui na atualidade: "Ressalta-se que [o] comércio internacional de armas é um grande negócio, com valor de 60 bilhões de dólares em novos acordos de venda e 31 bilhões de dólares em entregas de armas somente em 2007" (Grillot; Stohl, 2009, p.41, tradução nossa). Suzette Grillot e Rachel Stohl (2009) enfatizam, assim como Ayoob (1991), que o acúmulo de armas não leva necessariamente à guerra, no entanto, quase todas as guerras foram precedidas por um acúmulo de armas por uma ou mais partes envolvidas, a a exportação de armas ajuda a economia por meio da competitividade das indústrias de defesa, redução do custo unitário dos equipamentos e por meio da balança comercial externa. RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 114 Uma maior transferência de armamentos implica consequentemente em um maior gasto militar pelos países, os gastos militares globais totais aumentaram para US$ 1917 bilhões em 2019, de acordo com dados do SIPRI. O total para 2019 representa um aumento de 3,6% em relação a 2018 e o maior crescimento anual nos gastos desde 2010. Os gastos em 2019 representaram 2,2% do produto interno bruto (PIB) global, o que equivale a cerca de US$ 249 por pessoa mostrando uma tendência de crescimento dos gastos militares dos últimos anos (SIPRI, 2020).</title>
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          <title>, em estados empobrecidos com problemas relacionados à capacidade do estado, instituições, regimes políticos e normas democráticas. O Sudão do Sul possui inúmeras dessas características explicitadas pela autora, o que talvez explicaria o início e a continuidade do conflito armado na região, logo a melhor forma de exemplificar os problemas enfrentados por esse país é por meio do Fragile Index States. O "Índice de Fragilidade dos Estados", produzido pelo Fundo para a Paz (FFP), é uma ferramenta crítica para destacar não apenas as pressões normais que todos os estados experimentam, mas também para identificar quando essas pressões estão superando a capacidade dos estados de gerenciá-las, é um índice que apresenta a fragilidade do Estado por meio do acompanhamento de suas inúmeras vulnerabilidades, seus indicadores são divididos em 4 categorias diferentes 2 : coesão, economia, política e sociedade. De 178 países, o Sudão do Sul se encontra na terceira posição com uma pontuação de 110,8, quanto mais próximo da primeira posição e do total máximo da pontuação (120) mais frágil um país é, tal posicionamento indica que o Sudão do Sul é um dos países mais frágeis do mundo -no que tange aos indicadores acima -, o que contribui para a ambientação de seus conflitos armados. Tendo a tabela como base 3 é possível depreender algumas informações importantes: Com exceção do ano de 2012, o número de conflitos no Sudão do Sul sempre foi um, o que 2 Mais informações a respeito dos indicadores e categorias utilizados pelo Fragile Index States podem ser encontradas no site a seguir: https://fragilestatesindex.org/indicators/.3 As principais variáveis do conflito armado do Sudão do Sul são enquadradas em oito divisões principais: 1) número de conflitos por partes -referente aos principais conflitos na região; 2) tipo de violência -podendo ser de três tipos; 3) tipo de conflito -relativo a quatro possíveis tipos de conflito; 4) partes envolvidas-pertencente ao "lado a", sendo a parte primária do conflito (geralmente o país), e o "lado b", sendo a parte secundária do conflito (a oposição ao país ou ator); 5) número de díades -uma díade consiste em duas partes principais RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 116 significa que o conflito armado na região é intensificado apenas por uma díade principal e não por várias; os atores deste conflito sempre são o Governo do Sudão em oposição aos grupos rebeldes como o SSDM/A, SSLM/A, SPLM/A e as variações destes grupos, são grupos rebeldes que se alteram ao longo dos anos, mas que acabam tendo os mesmos objetivos em comum que os grupos rebeldes anteriores; o tipo de violência é caracterizado ao longo dos anos sempre como 1,2 e 3, o que significa que a violência do conflito armado na região é, explicitamente de três tipos: estatal, não-estatal e unilateral.</title>
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    <sec>
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          <title>, que envolve sempre o governo do Sudão do Sul contra grupos rebeldes, como é o caso do SSDM, SSLM e SPLM, é possível perceber uma distinção nos anos de 2014 e 2015, os dois anos posteriores ao começo da guerra civil, os anos mais violentos do conflito. Durante esse biênio, o conflito mudou de característica e se tornou um 4, isto é, conflito interno internacionalizado, não mais restrito ao governo e aos grupos rebeldes, contando também com a interferência de governos estrangeiros, como é o caso da Uganda e da ONU, já nos anos de 2016 a 2018, percebe-se que conflito voltou a ser um conflito interno, sem a presença de interferência estrangeira.A partir de 2013 o conflito armado no Sudão do Sul foi considerado guerra civil, e há alguns motivos principais para esta caracterização como o fato dos conflitos armados terem começado primeiro na capital do país, Juba, e depois terem se espalhado para as cidades vizinhas; houve a participação ativa do governo nacional, principalmente por meio do SSDM/A -Cobra Faction leal ao presidente Salva Kiir; houve a resistência efetiva de ambos os lados do conflito, e é possível perceber isso pela quantidade de anos que a guerra durou e pelos vários cessar-fogo que ocorreram sem sucesso; e por fim houve pelo menos 1.000 mortes de batalha durante cada ano da guerra, em 2013 o número de mortes foi de1.802, em 2014, de 2.041 mortes, e em todos os anos seguintes registraram mais de 1000 mortes anuais. O número de díades faz alusão a duas partes principais conflitantes, nos anos de 2011 (independência do país) e 2013 (início da guerra civil), é possível perceber duas díades, pois há mais do que duas partes principais conflitantes. Nestes dois anos há três partes principais conflitantes, o Governo do Sudão do Sul e dois grupos rebeldes simultaneamente, já nos anos de 2012 e de 2014 a 2018 o número de díades é apenas uma, pois há duas partes principais conflitantes, já que o governo sofre oposição apenas de um grupo rebelde por vez. O tipo de incompatibilidade correspondente aos oito anos analisados é sempre 2, que diz respeito a incompatibilidade governamental, isto é, os conflitos armados são fruto do descontentamento com o governo do Sudão do Sul e não com o território. Ludmilla Silva Corcino 119 A intensidade do conflito é caracterizada como 1, isto é, conflito armado de menor intensidade, entre 25 e 999 mortes relacionadas a batalha por ano, a exceção é o ano de 2014 que é caracterizado como intensidade 2, qualificado como guerra, pelo menos 1000 mortes de batalha ao longo do ano. Se analisada a última variável, o número de mortes, e compará- la a intensidade do conflito é possível encontrar contradições, pois em alguns anos, como o ano de 2014, o conflito é caracterizado como de menor intensidade, no entanto, teve mais de 1000 mortes ao longo do ano. Entre as variáveis analisadas o número de mortes foi considerado como a mais sensível do artigo, pois não condiz totalmente com a intensidade do conflito fornecida pelo UCDP, porém, como já ressaltado anteriormente essas incompatibilidades e erros podem ocorrer em função da natureza do tema escolhido, no entanto nada que prejudique o cerne do trabalho.</title>
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          <title>base de dados de gastos militares do SIPRI é atualizada anualmente e os dados aqui presentes foram coletados em dólares segundo os preços constantes de um ano base. A figura 1 mostra os gastos militares absolutos do Sudão do Sul de 2010 a 2019, as colunas fazem referência ao gasto militar em dólar -em milhões -enquanto as linhas fazem alusão ao gasto militar como porcentagem do PIB nacional (os valores aqui presentes são estimados e não exatos), por meio dela é possível inferir que os gastos militares têm uma enorme correlação com o conflito armado e a transferência de armamentos. Em 2010, por exemplo, o total de gastos foi de 892 milhões, representando 4,1% do PIB (do Sudão).</title>
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          <title>Em 2013 a situação no Sudão do Sul alcançou níveis extremos de violência com o início de uma guerra civil, dois novos grupos rebeldes surgiram o Movimento Democrático do Sudão do Sul, Facção da Cobra -SSDM/A. Cobra Faction, na sigla em inglês -, leal ao presidente Salva Kiir, e o Movimento Popular de Libertação do Sudão na Oposição - SPLM-IO, na sigla em inglês-, leal ao antigo ex-vice-presidente Riek Machar. O conflito Ludmilla Silva Corcino 105 começou em dezembro de 2013, na capital Juba, após Salva Kiir acusar Riek Machar de tentar dar um golpe de estado, mais de 800 pessoas morreram em dezembro daquele ano. É importante ressaltar que há uma dimensão étnica ao conflito, pois Salva Kiir pertence ao maior grupo étnico do Sudão do Sul, os Dinka, enquanto Riek Machar pertence ao segundo maior grupo étnico, os Nuer (UCDP, 2018). Em agosto de 2015, ambas as partes concordaram em assinar um tratado de cessar-fogo, uma das recomendações do acordo garantia o retorno de Machar à vice-presidência do país, em abril de 2016, este retornou à capital, Juba, e à vice-presidência. No entanto, este tratado não foi efetivo e em julho de 2016 houve a retomada de fortes conflitos armados, mais de 300 pessoas morreram e mais de 40 ficaram feridas. Em 21 de junho de 2018 o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, com apoio do presidente da Uganda, Yoweri Museveni, intermediou um acordo entre os dois líderes. Kiir e Machar assinaram a "Declaração de Khartoum" que instituía um cessar-fogo e também um acordo de paz</title>
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          <title>É importante que estes passos sejam considerados para trazer coesão e veracidade ao estudo de caso, em relação ao artigo as cinco etapas foram seguidas, como se vê a seguir: 1) o objetivo da pesquisa é analisar o efeito que as dinâmicas armamentistas possuem nos Ludmilla Silva Corcino 107 conflitos armados do Sudão do Sul; 2) a variável dependente são os conflitos armados, a variável independente são as dinâmicas armamentistas e a variável antecedente é a independência do Sudão do Sul; 3) o caso a ser estudado é o conflito armado no Sudão do Sul de 2011 a 2019; 4) as variáveis do conflito armado e das dinâmicas foram definidas combase nos dados apresentados pelo UCDP, SIPRI e UNROCA e 5) a questão principal a ser investigada neste artigo é que as dinâmicas armamentistas detêm um efeito desestabilizador em curto prazo e um efeito estabilizador a longo-prazo.</title>
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          <title>Previamente, adota-se a definição do Uppsala Conflict Data Program (UCDP) para um conflito armado: uma incompatibilidade contestada que afeta tanto o governo quanto o território, ou ambos, em que há o uso da força por duas partes e o número de mortes decorrente do enfrentamento delas chega a 25 durante um ano. Para um melhor entendimento dos conflitos armados foram escolhidas algumas variáveis deste conceito para serem RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 110 analisadas, como: categoria de incompatibilidade, categoria de conflito armado, categorias do conflito e categoria de violência. Conforme Gleditsch, Wallensteen e Strand (2002), a definição de conflito pelo Uppsala Conflict Data Program também inclui a definição da categoria incompatibilidade envolvida que pode ser tanto governamental quanto territorial, a incompatibilidade governamental</title>
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          <title>Posto isso, importância de se estudar o tema dos conflitos armados se baseia na sua frequente ocorrência e número de mortes dos últimos anos. No ano de 2014, o UCDP registrou um total de 40 conflitos armados, este é o maior número de conflitos registrados desde 1999, destes 40 conflitos, 11 foram classificados como guerra, esta estatística de mortes é a maior desde o período de 1989, totalizando 101.400 fatalidades decorrentes de conflito, tornando o ano de 2014 o ano mais violento desde o fim do período da Guerra Fria. Entretanto, se comparado com as guerras interestatais de longa escala do século XX, o número de fatalidades dos conflitos armados foi relativamente baixo</title>
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          <title>Tabela 1. Variáveis do Conflito Armado no Sudão doSul, 2011Sul,  -2018</title>
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          <title>tanto um ator estatal quanto privado, vem em quarto lugar, com vendas em 2014 e 2015.Uganda se localiza em quinto lugar, com vendas em 2016, e EUA e África do Sul vêm logo em seguida, com vendas nos anos de 2013 e 2012. O valor total de importação de "armas convencionais" do Sudão do Sul foi de 133 milhões de dólares, entre os anos de 2011 e 2019(ver Figura 2).Em adição aos principais exportadores, as principais "armas convencionais" importadas pelo Sudão do Sul foram aeronaves, veículos blindados, motores/máquinas e por fim mísseis, o total de todas estas armas importadas dos países mencionados foi de 133 milhões e foram importadas dos países acima (ver Figura 2). Pode haver um questionamento sobre qual o interesse dos fornecedores de armas no Sudão do Sul, o motivo principal pode ser pautado no âmbito econômico, já que a exportação de armamentos, segundo Grillot eStohl (2009) ajuda a economia por meio de competitividade, redução de custos e balança comercial.No entanto, também há interesses políticos e estratégicos, como é o caso da Rússia, que possui uma política externa com caráter expansionista e pretende fortalecer laços militares na África por meio de sua influência militar sobre alguns países(Estadão, 2019). No caso da China, o interesse na região provém do fato de o Sudão do Sul ser um território importante, pois 80% das exportações de petróleo do país são destinados à China e a venda deste constitui 5% do total de importações de petróleo da China(Sputnik Brasil, 2016). No que concerne aos Emirados Árabes Unidos, seu interesse no Sudão do Sul pode ser relativo ao desejo de fortalecer os laços com o continente africano, pois este é uma região muito importante aos EAU devido as suas intensas trocas comerciais (Euronews, 2019). Ludmilla Silva Corcino 123 Figura 2. Principais fornecedores de armas convencionais ao Sudão do Sul em milhões de dólares, 2011-2019 Fonte: SIPRI (2019)Figura 3. Principais armas convencionais importadas pelo Sudão do Sul em milhões de dólares, 2011-2019 Fonte: SIPRI (2019) De forma geral é possível inferir que as dinâmicas armamentistas, no cenário do Sudão do Sul, possuem um efeito mais desestabilizador e tal fato pode ser comprovado por meio da análise dos dados. Os dois anos mais críticos quanto aos gastos militares foram 2011 e 2014, com gastos de 1,2 e 1 bilhões de dólares, estes também foram anos com altos números de mortes, respectivamente, 1.194 e 2.491, sendo 2014 o ano com o maior número de mortes 82 27 12 5 4 2,5 2 1 5 25 125 Rússia Emirados Árabes Unidos China Fornecedor desconhecido Uganda Estados Unidos África do Sul 87 28 16 2,5 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Aeronaves Veículos Blindados Mísseis Motores ou máquinasRICRI, Volume 9, Número 18, 2022 124 do recorte temporal, 2014, o ano mais intenso da guerra civil no país, segundo dados do UCDP, foi também o ano em que o Sudão do Sul comprou 12 milhões de dólares de armamentos convencionais da China, há também relatos de compras dos EUA e de um fornecedor desconhecido. No final do ano de 2013, teve início à guerra civil sul sudanesa e registrou-se o segundo maior número de mortes, atrás apenas de 2014, ainda em 2013, os gastos militares do Sudão do Sul se equivaleram a 6,6% do PIB do país, os anos de 2017, 2018 e 2019 foram os anos com menores gastos militares. 2018, por exemplo, foi o segundo menor ano no que tange à quantidade de mortes decorrentes de conflitos e não há dados do SIPRI que indicam que o Sudão do Sul comprou armas convencionais dos fornecedores já citados acima, nem de outros países. Sendo assim, é possível inferir haver uma relação direta das dinâmicas armamentistas com o conflito sul sudanês, já que o mesmo se intensificou à medida que as dinâmicas aumentaram. É clara a conexão existente entre a elevação dos gastos militares, a maior importação de armas e a alta mortalidade, e à medida que os gastos e as importações diminuíram a mortalidade diminuiu também, os motivos que levam os países a fornecerem armas para alguns Estados são inúmeros, mas o fato é que haverá sempre um interesse por trás desta ação. As transferências de armamentos para países de Terceiro Mundo podem resultar em consequências negativas, como é o caso da intensificação do conflito no Sudão do Sul, a falta de transparência e informações no que tange aos dados das dinâmicas também é uma adversidade, já que impossibilita uma análise precisa e abrangente sobre o tema. CONCLUSÃO Este artigo apresenta diretamente o tema dos conflitos armados e das dinâmicas armamentistas, ambos os conceitos foram explicados e analisados tendo como base a atual conjuntura do Sudão do Sul. A realidade do país africano possui enorme importância tanto para as Relações Internacionais quanto para a Segurança Internacional, pois sendo um dos países mais novos do mundo e um dos países com uma das piores crises humanitárias é Ludmilla Silva Corcino 125 necessário entender a sua realidade e também de que maneira o país pode melhorar em um futuro a longo prazo. É válido ressaltar que apesar dos conflitos armados e da violência terem declinado em partes específicas do globo, ela permaneceu concentrada em outras regiões, como é o caso do Sudão do Sul. No âmbito dos fatores que explicam a continuidade da violência é possível perceber que pouca atenção foi dada para a questão das dinâmicas armamentistas, elas continuam sendo poucas exploradas mesmo tendo uma relação direta com a intensificação do conflito e da alta mortalidade. Torna-se necessário indicar as principais limitações do artigo, a primeira limitação se encontra na base de dados do UCDP, no que tange as inconsistências em relação à intensidade do conflito e o número de mortes. Outra limitação diz respeito aos dados de transferência de armamentos do Sudão do Sul, uma das fontes mais confiáveis para esta categoria de coleta, o UNROCA, foi inconclusivo, pois apresentou somente três dados. A principal limitação no quesito de dinâmicas armamentistas faz referência aos grupos rebeldes, seria de extrema valia ter as informações a respeito da transferência de armamentos realizados pelos grupos rebeldes, pois esta informação seria essencial para comprovar com mais exatidão a hipótese aqui estabelecida. No entanto, essas limitações não advêm necessariamente da falta de confiabilidade ou relevância das bases de dados, e sim em função do tema escolhido, como já enfatizado anteriormente, o estudo de conflitos armados por si só encontra diversas limitações e dilemas por uma série de motivos. É comum encontrar inconsistências tanto em dados qualitativos, quanto em dados qualitativos, tal fato não diminui o valor do estudo dos conflitos armados, apenas ressalta as dificuldades comum que todo o pesquisador da área pode encontrar diante de cenários conflitivos. Desta forma, as bases de dados do UCDP, SIPRI e UNROCA são de extrema importância para esse conceito, pois conseguem demonstrar não só o processo em si de dinâmicas armamentistas, como também suas principais consequências, fatores esses essenciais para um melhor entendimento do cenário do Sudão do Sul. Por fim, a finalidade principal do RICRI, Volume 9, Número 18, 2022 126 artigo é estudar mais analiticamente o cenário do Sudão do Sul, principalmente a realidade da questão armada, e entender de que forma esses elementos estão ligados com as dinâmicas armamentistas e com a independência. Um dos objetivos foi testar a hipótese de que as dinâmicas possuem efeito estabilizador a longo prazo e desestabilizador a curto prazo, e apesar das limitações das bases de dados é possível comprovar a hipótese previamente estabelecida. É possível utilizar o resultado aqui presente como modelo experimental para outros estudos de caso envolvendo a influência das dinâmicas armamentistas na ocorrência e intensidade dos conflitos armados. O Sudão do Sul é um entre vários países, principalmente do Terceiro Mundo, que vivem ou vivenciaram uma conjuntura de conflito armado, é necessário deste modo estar a par dos desdobramentos futuros dos conflitos armados no Sudão do Sul, mas também estar a par da realidade de outros países que vivenciam tal conjuntura.</title>
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