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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1d1 20130915//EN" "JATS-journalpublishing1.dtd">
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      <journal-title-group>
        <journal-title>No Template</journal-title>
      </journal-title-group>
      <issn publication-format="print"/></journal-meta>
    <article-meta>
      <title-group>
        <article-title>PADRÃO ETÁRIO DE RECRUTAMENTO DO ESTADO ISLÂMICO DA SÍRIA E DO IRAQUE: O CASO DOS FILHOTES DO CALIFADO THE AGE PATTERN OF ISIS RECRUITMENT: THE CALIPHATE PUPPIES CASE STUDY</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group><contrib contrib-type="author"><name>
            <givenName>Pedro Henrique</givenName>
            <surname>Ferreira Da Silva</surname>
          </name>
          <email/>
          <xref rid="aff0" ref-type="aff">1</xref>
        </contrib><aff id="aff0"><institution>, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo</institution>
        </aff></contrib-group><permissions/><abstract>
        <title>Abstract</title>
        <p>O presente artigo tem por objetivo analisar como as diferentes posturas entre uma organização islâmica com objetivos de conquista territorial e aquelas que desejam libertar seu território de uma presença estrangeira podem influenciar no recrutamento de jovens para serem utilizadas em táticas de combate. A partir da análise de dados quantitativos sobre a idade de alguns membros de grupos islâmicos e alguns documentos relativos aos direitos das crianças e crianças-soldado, focaremos no caso do Estado Islâmico em razão de seus objetivos de longo prazo. Sendo assim, na conclusão pode-se perceber que o Estado Islâmico da Síria e do Iraque difere de outras organizações islâmicas com relação ao seu trato com crianças em virtude de seus objetivos, que eram um projeto de longo prazo: a perpetuação de um califado. Palavras-chave: terrorismo; Estado Islâmico; recrutamento; crianças-soldado.</p>
        <p>The article has the objective to analyze the different kinds of stance between Islamic organizations with a defined objective of conquer territories and those with the desire to free your territory of a foreign occupation can influence in the recruitment of boys and girls. Based on quantitative data about the age of some members of Islamic groups and some documents about the child rights and child soldiers, the focus will be on studying the ISIS due to its objectives in the long run. Therefore, in the conclusion it can realize that a major presence of children in the ISIS is related to an idea of building a Caliphate, which is a long-term project.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <title>Keywords</title>
        <kwd>terrorism</kwd>
        <kwd>ISIS</kwd>
        <kwd>recruitment</kwd>
        <kwd>child soldiers</kwd>
      </kwd-group>
      </article-meta>
  </front>
  <body>
    <sec>
      <title>INTRODUÇÃO</title>
      <p/>
      <p>Apesar do terrorismo ter adentrado a vida do grande público no pós-11 de setembro, a existência do terrorismo perpassa diversos momentos da história moderna, enquanto o terrorismo suicida é particularmente uma área mais recente de atuação, tendo início na década de 1980. Sendo assim, para perpetuar a existência desses grupos com práticas terroristas suicidas o recrutamento é essencial. As formas de recrutamento são diversas, assim como a idade dos membros angariados. O presente artigo tem por hipótese que a dinâmica de recrutamento do Estado Islâmico difere dos grandes grupos extremistas muçulmanos em razão de seu objetivo a ser concretizado ser a construção de um Califado, o que difere diametralmente do que foi proposto anteriormente por organizações que priorizaram principalmente a libertação do seu país da ocupação estrangeira.</p>
      <p>Dividiremos a argumentação em três partes para melhor compreensão da hipótese acima. Na primeira, uma breve definição institucional internacional sobre crianças-soldado será construída para situar o conceito a ser utilizado neste texto. Na segunda seção do artigo será analisada a lógica de recrutamento perpetrada pelos grupos da Al-Qaeda e Hamas em razão de sua identificação religiosa islâmica, presença midiática e objetivos de longo prazo. E, por último, na terceira parte, uma análise sobre quais são os objetivos, métodos e alvos dos recrutadores do Estado Islâmico permitirá uma maior diferenciação frente aos grupos extremistas islâmicos citados na seção anterior.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>DEFINIÇÃO INTERNACIONAL DAS CRIANÇAS-SOLDADO</title>
      <p/>
      <p>Apesar do papel das chamadas crianças-soldado ter um tratamento específico e direcionado somente em 2007, a questão da proteção infantil é antiga. A primeira vez que foi oficialmente discutida em âmbito institucional internacional foi na Declaração de Genebra de 1924, tendo a temática da criança sido reconhecida em 1948 com a Declaração Universal de Direitos Humanos, depois sendo afirmada na Declaração sobre o Direito das <italic>Crianças de 1959</italic><xref rid="b12" ref-type="bibr">1</xref>.</p>
      <p>Em virtude deste histórico, o termo "criança" deve ser conceituado para melhor compreensão. A Convenção para os Direitos das Crianças possui a definição mais aceita internacionalmente, tendo em seu artigo 1º: "Nos termos da presente Convenção, criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo" <xref rid="b12" ref-type="bibr">1</xref>. A convenção em questão entrou em vigor oficialmente em 1990 ao ser assinada por 196 países, sendo a mais assinada da história.</p>
      <p>Contudo esta adesão não impediu que as crianças fossem cogitadas como alternativas para o combate armado em inúmeros conflitos atuais. Como argumenta <xref rid="b8" ref-type="bibr">2</xref>, os jovens tornaram-se populares em virtude da maior informalidade das partes em conflitos, porque são grupos pouco estruturados, com pouca reposição de combatentes e com orçamentos para armamentos mais flexíveis e pouco sofisticadas, ou seja, propício para crianças transportarem e consequentemente tornarem-se possíveis soldados. Porém sua mobilização não é somente para linha de frente, mas para funções diversas, a depender da necessidade de quem a recruta. Sendo assim, em razão do reconhecimento destas outras funções, a definição de criança-soldado utilizada no presente artigo será a afirmada nos Princípios de Paris:</p>
      <p>Refere-se a qualquer pessoa menor de 18 anos que foi recrutada por uma força armada ou um grupo armado para qualquer fim, incluindo, mas não limitando a crianças, meninos ou meninas, usadas como combatentes, cozinheiros, mensageiros, espiões ou para propósitos sexuais. Não se refere somente a crianças que estão sofrendo ou já sofreram algum dano devido às hostilidades (UNICEF, 2007: 7).</p>
      <p>Os princípios de 2007 da conferência Free Children from War, portanto, são uma evolução gradual ao que foi proposto em 1989 e ao adicionarem o termo "crianças-soldado" evidenciam como o contexto dos conflitos mudou ao longo do tempo e não é mais possível ignorar os novos atores envolvidos nos confrontos <xref rid="b8" ref-type="bibr">2</xref>. Assim sendo, essa mudança de visão em âmbito internacional é reflexo das novas características e complexidades presentes em conflitos em regiões como, por exemplo, Iêmen e Sudão, em que as partes belicosas são diversas.</p>
      <p>O retrato do aperfeiçoamento das normas internacionais em torno de uma definição e aplicação contra o emprego de crianças em conflitos é a produção de um documento pelo Conselho de Segurança da ONU em 2009 em que o recrutamento de crianças-soldado está entre as seis violências graves praticadas contra uma criança em um conflito armado, juntamente com execução, estupro, sequestro, ataques contra escolas e hospitais e negar acesso à ajuda humanitária (CHILDREN AND ARMED CONFLICT, 2009).</p>
      <p>Este avanço conceitual é central para o desenvolvimento de medidas protetivas internacionais de maneira mais objetiva e refletindo o espírito do seu tempo, pois, como argumenta Giorgio Bianchi, "a existência de normas internacionais que regulam o modo de exercer a violência bélica é resultado de um compromisso entre o reconhecimento do caráter inevitável da guerra e o crescente embaraço da consciência humana em face dela" (1998: 301). Isto posto, o embaraço que existe em virtude do desvirtuamento da infância de muitas crianças é um dos motores que propicia uma busca constante por uma compreensão deste fenômeno relacionado a utilização de crianças em conflitos armados.</p>
      <p>Todavia, mesmo com a versatilidade propiciada pelo recrutamento infantil em razão da vulnerabilidade e possibilidade de radicalização de longo prazo, organizações extremistas islâmicas de um modo geral não tinham o costume de utilizar crianças-soldado em suas ações. Os objetivos de libertação territorial por parte de grupos islâmicos grandes e estruturados, como Al-Qaeda contra os EUA na Arábia Saudita e Hamas contra Israel na Faixa de Gaza, não possuem uma participação substancial de jovens <xref rid="b11" ref-type="bibr">3</xref>. Mas o mesmo não pode ser afirmado caso uma organização terrorista não tenha por fim libertar uma população ou expulsar alguma força armada estrangeira, mas na verdade alicerçar uma força política e religiosa para seus membros. Portanto, o objetivo deste artigo será analisar a seguir como as diferenças entre a libertação territorial representada pelo Hamas e Al-Qaeda e a conquista e defesa territorial no Estado Islâmico da Síria e do Iraque refletem nos padrões de recrutamento, sobretudo, de crianças.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>A LÓGICA DO RECRUTAMENTO TERRORISTA: HAMAS E AL-QAEDA</title>
      <p/>
      <p>Compreender uma lógica por detrás do terrorismo não é algo simples, seja em seus atentados, seu modo de funcionamento ou até mesmo objetivos. Mary Kaldor (2012) coloca os atos terroristas, entre outras ações conflituosas, em um contexto das chamadas "novas guerras". Segundo a autora, as novas guerras são caracterizadas não somente pela violação de direitos humanos, mas pela presença de atores não-estatais aproveitando-se de Estados internamente instáveis ou em situações de guerra civil para proliferar-se dentro dos territórios nacionais.</p>
      <p>Giovanna Paiva já havia sinalizado, "há um entendimento de que a agenda de segurança não envolve questões apenas militares, mas também questões que extrapolam a lógica estadocêntrica" (2015: 25). Logo, é possível inferir que existe uma percepção de que o terrorismo é um tema relevante em um contexto de quebra da lógica comum de segurança internacional, sendo um fenômeno bastante peculiar: causar terror e pânico nas populações-alvo. Esta peculiaridade é expressa na sua forma de recrutamento, que é muito variada, já que não possui um alistamento como o militarismo convencional. Mas possui um grande fator norteador para sua atuação irregular: aproveita situações de conflitos e instabilidade dentro de um país.</p>
      <p>O recrutamento, apesar de ter esse fator, não é igual para todos os grupos. Os motivos podem ser parecidos, mas as formas de angariar membros para cada causa muda de forma igual. Por isso, é complicado para os governos nacionais e organismos supranacionais de frearem os recrutadores das organizações terroristas de atingirem seus alvos, pois é uma rede extremamente complexa de contatos <xref rid="b11" ref-type="bibr">3</xref>. Contudo, é preciso inicialmente esclarecer algumas ideias a respeito dos participantes de organizações terroristas que permeiam o pensamento mainstream, principalmente a de que pessoas perturbadas e sem perspectiva de vida estão no comando desses grupos ou que os ataques são egoístas. Para tal, a análise será centrada na Al-Qaeda e Hamas em virtude de sua proeminência na mídia e de seus objetivos de longo prazo, a saber: desestabilização do Ocidente representada pelos Estados Unidos para promover a restauração do islã pelo mundo e derrotar definitivamente o Estado de Israel para libertar o povo palestino, respectivamente.</p>
      <p>Como Robert <xref rid="b11" ref-type="bibr">3</xref> analisou, a partir de dados e casos de atentados, muitos suicídios causados por terroristas têm uma tendência altruísta, isto é, são pessoas tão envolvidas em suas sociedades que querem ter seu respeito e aprovação diante de um ato para libertá-las de uma opressão estrangeira em seu país. Sendo assim, elas possuem uma motivação para se tornarem mártires e permitirem, dessa forma, o avanço da luta contra alguma opressão.</p>
      <p>Hamas é um grande exemplo, pois, conforme Hroub (2009) declara, o objetivo principal de todo tipo de resistência do grupo na Palestina é expulsar o opressor representado pelo Estado de Israel. Por conseguinte, todo aquele que morre nestas ações torna-se um mártir para o grupo de apoiadores. Al-Qaeda, por sua vez, travou sua batalha nos anos 1980 contra o invasor soviético nas terras afegãs e nos anos 1990 contra o domínio dos Estados Unidos na Península Árabe, especialmente na Arábia Saudita. Sendo considerada uma batalha em defesa do islã, todo aquele que morre nestes combates é martirizado pelos membros <xref rid="b1" ref-type="bibr">4</xref>  <xref rid="b5" ref-type="bibr">5</xref>. Portanto, pode-se argumentar que não há padrão claro de apoio ao terrorismo como meio para atingir objetivos políticos focando simplesmente em nível da educação (Krueger, 2018).</p>
      <p>Pape chegou a conclusões parecidas no tocante ao argumento social, mas ampliou para ideia religiosa, ao argumentar que a "diferença religiosa é provavelmente o principal atributo de diferença entre as identidades dos dominadores estrangeiros da comunidade local" <italic>(2006: 87)</italic>. O que significa, portanto, que os grupos mais religiosos podem influenciar aqueles que não são para confrontar o "outro" que é diferente e opressor. A representação máxima desta diferenciação é o ataque suicida, porque cria entre os adeptos e possíveis seguidores a ideia de que um lado possui fé e o outro não o bastante. Consequentemente fortalece a imagem daqueles que se sacrificam, dando mais substância para novos adeptos da mensagem sentirem desejo de apoiar a causa social <xref rid="b5" ref-type="bibr">5</xref>.</p>
      <p>Aplicando isso ao Hamas e Al-Qaeda, é possível ter uma dimensão deste impacto. O primeiro possui manifestações antijudaicas, mas o antissionismo é a principal base discursiva. Isto posto, a manifestação desde 1994 desta diferenciação ocorre por meio de seus atentados suicidas que tem por objetivo enfraquecer o Estado israelense e demonstrar para sociedade palestina o quão engajados estão na defesa tanto do islã quanto das terras palestinas contra um inimigo de outra religião. Como resultado, passa a imagem de um lado empenhado e determinado e o outro como opressor e colonizador de outra religião <italic>(Hroub, 2009</italic>). Al-Qaeda, da mesma forma, após a derrota do inimigo soviético visto como ateu nos anos 1980, ao ver o desenvolvimento das relações entre o reino saudita e os Estado Unidos simbolizada nas bases americanas na região em razão da Guerra do Golfo em 1991, expõe sua visão de combate contra a religião cristã representada pelos americanos em uma visão de nova Cruzada no Oriente Médio <xref rid="b1" ref-type="bibr">4</xref>. Portanto, a base religiosa produz fundamento para perpetuação de recrutamentos e ataques.</p>
      <p>Partindo dessas análises individuais sobre as motivações terroristas, é possível entender de certa forma como as pessoas se interessam pelas causas extremistas em um nível social e religioso. Porém, no tocante a idade, já é um pouco mais delimitado. Pape <italic>(2006)</italic>  Al-Qaeda, igualmente, não possui números expressivos de jovens abaixo de 18 em suas fileiras. Pois uma grande parte de sua base de fundação em 1988 no Afeganistão veio de seminários paquistaneses, assim como seu critério para treinamento e recrutamento de 1996 até o 11 de Setembro ser pautado, em geral, por homens formados, independentes e com fortes convicções <xref rid="b5" ref-type="bibr">5</xref>. Posto isso, as maiores chances de encontrar pessoas com essas características são aquelas acima de 18 anos.</p>
      <p>Portanto fica evidente a partir desses dados que organizações terroristas possuem uma tendência mais elevada no tocante a idade de seus membros. As causas podem ser diversas, mas o objetivo dos grupos é muito importante como passo fundamental para esse entendimento: libertação de uma presença vista como estrangeira ou opressora. Sendo assim, uma análise possível é que os mais velhos são vistos como mais convictos, contidos e menos explosivos, permitindo uma chance de conclusão mais satisfatória dos atentados. Pois a meta do Hamas e Al-Qaeda, de uma maneira geral, é conquistar pequenas vitórias visando um objetivo maior. O cenário, entretanto, muda de figura quando a organização ao invés de conquistas pontuais deseja resultados imateriais, mais pragmáticos e eternos.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>CALIFADO DO ESTADO ISLÂMICO DA SÍRIA E DO IRAQUE</title>
      <p/>
      <p>O Estado Islâmico da Síria e do Iraque (ISIS, sigla em inglês), grupo extremista de cunho sunita surgido em 2014 como dissidência do braço iraquiano da Al-Qaeda e tinha como líder Abu Bakr al-Baghdadi, cujo objetivo primordial não era libertar, mas liderar seus adeptos na conquista de territórios. A dinâmica de seus atentados na Síria e no Iraque permite conceber esta ideia, principalmente por focar na construção de um Califado e não em atentados midiáticos aos EUA, como fazia a Al-Qaeda no seu auge (Napoleoni, 2016).</p>
      <p>A logística dos ataques e avanços territoriais focam em áreas estratégicas, como Ramadi, Tikrit e Faluja, em virtude do reduto sunita existente nas cidades, o chamado triângulo sunita do Iraque <xref rid="b6" ref-type="bibr">6</xref>. Após conquistar as regiões mencionadas, o grupo tomou força para declarar seu Califado oficialmente na cidade de Mosul, no Iraque, em junho de 2014.</p>
      <p>As pretensões de um Califado do ISIS são muito maiores do que simplesmente atacar as grandes potências para ter mídia. É um projeto muito estruturado na sua concepção: focar nos muçulmanos que possuem o Califado como o ideal islâmico e ao mesmo tempo sentemse perdidos em um mundo secular, conseguir sua aprovação e perpetuar este projeto político e religioso <xref rid="b14" ref-type="bibr">7</xref>. Pois um Califado é o maior símbolo de poder na Terra para o islã, justamente por ser uma entidade supranacional povoada majoritariamente por muçulmanos e regido pelas leis do Alcorão. Esta entidade, por sua vez, não era vista desde a dissolução do Império <italic>Otomano em 1924</italic><italic>(Demant, 2014</italic>. Assim sendo, a força do ISIS está muito mais em sua construção dentro do imaginário glorioso muçulmano do que em atentados chamativos pelo mundo.</p>
      <p>Segundo Cole <xref rid="b4" ref-type="bibr">8</xref>, o principal representante teológico do grupo extremista, Turki al-Binali, declarou que o momento de fundação do Califado foi um marco histórico na história do islã e por esta razão deveria se expandir para outras partes do mundo e reconstruir a glória islâmica. Por conseguinte, a visão que eles possuíam de si era não somente permeada por fatores políticos e religiosos, mas também por um lado nostálgico muito incisivo.</p>
      <p>O ISIS, em vista disso, possui uma lógica de existência permeada por uma missão transcendental pautada por ideais políticos combativos, uma religiosidade intolerante e uma nostalgia cega. Segundo Graeme Wood (2017), a visão original islâmica de uma jihad para defender um território foi alterada pelo ISIS para uma jihad ofensiva, isto é, focada em conquistar territórios, já que o chamado divino do califa Abu Bakr al-Baghdadi e seus seguidores era para restaurar a glória perdida da religião fundada por Maomé. Evidentemente não existe restauração se houver somente a defesa de um território. A consequência de tal pensamento é a perpetuação de um caos social em sociedades que já não possuem uma unidade estável de existência em razão de um desenvolvimento social e econômico precários, que é intensificada pela divisão entre sunitas e xiitas ser intensa no Oriente Médio (Napoleoni, 2016).</p>
      <p>Portanto é possível afirmar que os conflitos decorrentes da presença do ISIS só foram agravados pela existência de conflitos de outra natureza que o grupo se aproveita, principalmente na Síria, que desde 2011 vive uma guerra civil contra Bashar al-Assad, e do Iraque que desde a invasão americana em 2003 vive uma fragmentação do tecido social <xref rid="b6" ref-type="bibr">6</xref>. O cenário caótico existente na região da Síria e do Iraque permite com que o ISIS espalhe um imaginário de confronto contra os governos infiéis, sobretudo naqueles que são mais vulneráveis socialmente: crianças. De acordo com Robin Wright (2019), o Estado Islâmico tinha uma estrutura social baseada na disseminação dos seus ideais para com as crianças, que durante os cinco anos desde a fundação do Califado tiveram um acesso precário à educação formal e locais para lazer. Por conseguinte, passavam muito tempo sendo doutrinadas com as ideias extremistas e belicosas, já que eram consideradas pelos membros do ISIS como a nova geração de muçulmanos responsáveis pela perpetuação do Califado.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>RECRUTAMENTO DO ESTADO ISLÂMICO</title>
      <p/>
      <p>O processo de recrutamento do Estado Islâmico é pautado na disseminação dos seus ideais expansionistas por meio da internet e redes sociais (Napoleoni, 2016). A sensação de união criada pela internet permite que o grupo tenha uma força propagandística nunca antes vista por alguma organização extremista islâmica, tendo até mesmo uma filmografia produzida chamada "Flame of War" ("Chama da guerra") e uma publicação chamada Dabiq, além de diversos outros vídeos bastante explícitos da violência do grupo, como "The End of SykesPicot" ("O Fim do Sykes-Picot"), <italic>de 2014</italic><italic>(Mahood, Rane, 2016</italic>. Segundo Mahood e Rane, "esse conteúdo foi selecionado por ser facilmente achado na internet e estar disponível em inglês, o que é essencial para atingir o público-alvo que são os jovens muçulmanos que vivem no <italic>Ocidente" (2016: 20-21)</italic>. Sendo assim, o grupo extremista islâmico tem uma finalidade de realmente atrair pessoas de diversas partes do mundo de maneira lúdica e criar uma verdadeira comunidade muçulmana transfronteiriça. É justamente dentro de um cenário como este que as crianças são recrutadas pelo ISIS através de uma propaganda visual de alta qualidade, com uma linguagem acessível e, o mais importante, um discurso crítico e em tom de cruzada contra um mundo secular, que é muito bem construído para mobilizar uma população muçulmana que sofre <italic>(Mahood, Rane, 2016)</italic>.</p>
      <p>A condição de vida dessas crianças em situação de refúgio, que perderam os pais ou não possuem perspectiva de vida abre a possibilidade de adesão a um grupo radical com discurso de segurança e estabilidade. Giovanna <italic>Paiva (2015)</italic> argumenta tal fator:</p>
      <p>O recrutamento de crianças-soldado em conflitos armados, em suas diferentes formas, deve ser visto não só como a vitimização da criança forçada a se engajar em grupos armados que as sequestram ou as obrigam a trabalhar, mas também como uma possibilidade de terem proteção e segurança (2015: 24).</p>
      <p>O objetivo principal do Estado Islâmico, como foi mostrado, era montar um Califado e reviver os tempos áureos do islã, ou seja, olhar para o passado como o exemplo a ser seguido, como Karen Armstrong chamou de uma religião com "o espírito conservador" <xref rid="b0" ref-type="bibr">9</xref>. Logo, buscar jovens para suas frentes de batalha tem uma meta muito maior:</p>
      <p>fortalecer o Califado e suas futuras expansões com uma juventude engajada. Sendo assim, os soldados adultos e mais experientes do califa são chamados pelo ISIS de "Leões do Califado" <italic>(Mahood, Rane, 2016)</italic>, enquanto os mais jovens membros ou crianças-soldado, consequentemente, são declaradas "Filhotes do Califado". Uma nomenclatura apropriada e com dupla finalidade: definir hierarquicamente uma nova geração dentro do projeto do ISIS, mas ao mesmo tempo dar a ela uma possibilidade de crescimento.</p>
      <p>A nomenclatura "Filhotes do Califado", por sua vez, ficou mais conhecida entre 2015-2016.</p>
      <p>Primeiramente depois de ter se espalhado a notícia do recrutamento de 1100 crianças para participarem de atentados na Síria, além de matarem em vídeos muito explícitos <italic>(ÉPOCA, 2015)</italic> e pelo documentário Cries From Syria (2016), que retrata crianças militando pelo ISIS, levantando a bandeira do grupo e sendo fortemente treinadas, enquanto são filmadas para todos muçulmanos verem e inspirarem-se.</p>
      <p>Outro fator crucial para o engajamento destes "filhotes" é a condição financeira e material que o ISIS possibilita a estes pequenos jovens desprotegidos: um financiamento de aproximadamente R$ 6.240,00, com alimentação, lugar para morar e viagem paga para Europa, onde ocorre a radicalização. Estima-se que por volta de 88 mil jovens abaixo de 17 anos tenham aderido em locais como Líbano e Jordânia somente em 2015 <xref rid="b2" ref-type="bibr">10</xref> O que leva essas crianças e jovens a aceitarem entrar nas fileiras do Estado Islâmico? Os jovens tendem a sentirem-se deslocados nas sociedades em que vivem, já que seus costumes e religião são muito diferentes e, muitas vezes, não respeitados. Ademais a discriminação no trabalho e em outros espaços públicos, como na Holanda, Bélgica ou Inglaterra, torna a cidadania e a sensação de pertencimento muito enfraquecidos, dificultando a criação de laços importantes na juventude <italic>(Khosrokhavar, 2018)</italic>. Os recrutadores sabem utilizar desse fator para promoverem o ISIS, pois divulgam a ideia de um Califado em que o pertencimento, perspectiva de vida e criação de laços são priorizados desde a mais tenra idade.</p>
      <p>Paralelamente a este processo de aproximação, os recrutadores produzem um treinamento teológico para os jovens questionarem a ordem social vigente em seus respectivos países de forma radical, seja por atentados ou perpetuando ódio nas redes sociais <xref rid="b14" ref-type="bibr">7</xref>.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>CONCLUSÃO</title>
      <p/>
      <p>O ISIS foi uma organização jihadista complexa e com entendimento estratégico de longo prazo para suas conquistas territoriais. O reflexo disso é sua maneira de recrutar maleável, estratégica e com uma média de idade bem menor que Hamas e Al-Qaeda. Focar em crianças refugiadas e em jovens de maneira geral mostra como o grupo está espalhado por diversos países e possui um projeto consciente de domínio territorial e perpetuação dos seus ideais expansionistas. Uma eficiência poucas vezes vista entre grupos extremistas islâmicos, que se deve a uma propaganda de alta qualidade e de fácil compreensão, células em vários países e um discurso histórico e religioso que traz um sentimento de pertencimento e nostalgia para pessoas que estão vulneráveis e desesperadas física e emocionalmente. Tudo isso girando em torno da criação de uma entidade supranacional duradoura com poder político e religioso para os muçulmanos, que não era discutido e muito menos anunciado desde a dissolução do Império Otomano em 1924. Conclui-se, portanto, tendo vista os esforços e padrões de recrutamento, que a conservação desta ordem seria relegada aos mais jovens em virtude da possibilidade de disseminação dos ideais do ISIS por mais tempo.</p>
      <p>Buscar ampliar a lente de análise para os conflitos do mundo não somente pela via militarizada pode permitir um avanço significativo no entendimento do recrutamento de crianças-soldado por grupos extremistas. A complexidade do tema necessita entender que o problema das crianças-soldado recrutadas pelo ISIS é somente a ponta do iceberg. As formas de financiamento das organizações terroristas, motivações, as lideranças, áreas de influência e, principalmente, situação local dos países de origem das crianças, são outras instâncias dessas organizações que merecem atenção e pesquisa para entender a participação das crianças-soldado de forma mais ampla.</p>
    </sec>
    <sec>
      <title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
      <p/>
      <p>AGÊNCIA EFE. 2015. EI recrutou 1,1 menores de idade ou "Filhotes do Califado" na Síria. Época Negócios, 9 de jul. de 2015. Disponível em: &lt;https://epocanegocios.globo.com/Informacao/Dilemas/noticia/2015/07/ei-recrutou-11-mil-menores-de-idade-ou-filhotes-do-califado-na-siria.html&gt; . Acesso em: 16 dez. 2021.</p>
    </sec>
    <sec>
      <fig id="fig_0" orientation="portrait" fig-type="graphic" position="anchor">
        <caption>
          <title>que não são jovens desempregados ou impulsivos, mas pessoas com diversas idades que permeiam os atentados. Como ficou evidente pelos resultados obtidos por ele, de 278 terroristas suicidas analisados, o mais jovem tinha 15 e a mais velha 52 anos, no período de 1980-2003. Sendo, "somente 13% entre 15-18, enquanto 55% entre 19-23, e 32% -quase um terço -tinha 24 ou mais" (Pape, 2006: 207). Logo, jovens abaixo de 18 não são necessariamente o alvo das organizações terroristas. O gráfico abaixo retirado da sua pesquisa ajuda a ilustrar: Imagem 1. Idade dos terroristas suicidas de 1980-2003 Fonte: PAPE, 2006:207 Krueger (2018) não possui análises específicas para idade de recrutamento, mas a partir de suas entrevistas com jovens estudantes na Palestina concluiu que 90% aprovam os atentados do Hamas contra Israel em 2001, no início da Segunda Intifada: "A maior expressão de apoio veio de estudantes, um dado nada surpreendente, considerando que estudantes são geralmente o segmento mais radicalizado em uma sociedade" (2018: 30-31). Ele não faz Silva 62 uma delimitação clara, porém é possível inferir que jovens largamente apoiam o terrorismo justificado contra uma presença estrangeira em seu território. Mas, como argumentou Hroub (2009), Hamas possui um crescente apoio universitário. Logo, é seguro expor que boa parte possui mais de 18 anos.</title>
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          <title>Krueger (2018) produziu uma pesquisa empírica bastante consistente para analisar que os fatores de pobreza, desemprego ou pouca educação formal não justificam suporte aoSilva 60 terrorismo, sendo justamente o oposto dessas características que levam os indivíduos a grupos extremistas. O Hamas, mais uma vez, é um exemplo desta afirmativa, pois é uma organização estruturada por eruditos islâmicos, que foi construindo desde os anos 1990 um projeto de apoio dentro de universidades palestinas, especialmente a Bir Zeit, e conseguiu desta forma conquistar 45% das cadeiras do conselho estudantil em 2006 (Hroub, 2009). De modo que é seguro dizer que existe uma base instruída que segue o Hamas. Al-Qaeda, por seu turno, possui um caráter acadêmico também, já que seus membros principais possuem formações técnicas, como Bin Laden e seu curso de Administração e Economia na Arábia Saudita, Abdallah Azzam com sua formação em jurisprudência islâmica, al-Zawahiri com sua formação médica e Mohamed Atta, o possível líder do 11 de Setembro de 2001, detinha um título como arquiteto</title>
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          <title>).Silva66A disseminação para áreas do Oriente Médio além de Síria e Iraque mostra a estratégia de expansão do ISIS. Como argumentaPaiva (2015), é neste momento que a complexidade do problema aumenta pois pode haver a chance dos jovens espalharem a notícia para amigos e conhecidos em situação semelhante, dificultando a fiscalização e impedimento. De modo que é preciso olhar as particularidades de cada realidade de conflito para entender a situação, não existe um único motivo.Segundo Farhad Khosrokhavar(2018)em seu estudo sobre o recrutamento de jovens para o ISIS, entre 1200 indivíduos no período de 2012-2015, que foram para Síria e Iraque, 14% deles tinham menos de 18 anos, 27% entre 18 e 21 anos, 26% entre 22 e 25 anos, 17% entre 26 e 29, 9% entre 30 e 35 e 7% 36 anos ou mais. Se pensarmos em crianças no sentido internacionalmente aceito definido anteriormente, isto é, aqueles menores de 18 anos, é uma quantidade relevante em comparação com os dados relativos às outras organizações terroristas apresentadas na seção anterior. No caso de jovens, em geral, como entre 14-25 anos a quantidade é mais expressiva: 67% no período de 2012-2015. O próprio representante teológico do grupo extremista, Turki al-Binali, encaixa-se neste padrão mais jovem, já que ele, no período destacado por Khosrokhavar (2018), estava na faixa entre 25-30.</title>
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