MULHERES ENCARCERADAS: DIFICULDADES VIVENCIADAS ANTES, DURANTE E APÓS A PRISÃO

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22478/ufpb.2179-7137.2019v8n3.46725

Palavras-chave:

Mulheres. Cárcere. Dificuldades. Trajetórias de vida.

Resumo

Reiteradas estatísticas revelam um perfil bastante comum da população carcerária feminina: mulheres jovens, solteiras, não brancas, com baixa escolaridade e que cometeram crimes relacionados ao tráfico de drogas. Muitas vieram de contextos de violência prévios e a prisão se encaixa como mais um elo na cadeia de violências vivida. Este ciclo da violência se inicia na família e nas instituições para crianças e adolescentes, continua no casamento, desdobra-se na ação tradicional das polícias e finaliza na penitenciária. Isto porque a múltipla penalização na prisão ultrapassa a pena de reclusão, abarcando castigos corporais, ambientes insalubres, exposição às drogas, contágio de várias doenças e abandono familiar. Assim, o objetivo deste artigo foi conhecer quais foram as maiores dificuldades vivenciadas antes, durante e após o cárcere para mulheres já em livramento condicional. Trata-se de uma análise documental de pareceres psicossociais de mulheres realizados entre junho de 2013 e junho de 2014 na Vara de Execuções Penais do Fórum Criminal de João Pessoa/PB. Foram encontrados 12 pareceres, analisados por meio da técnica de análise de conteúdo de Bardin. As dificuldades vividas antes do cárcere foram categorizadas como “Abandono parental”, “Trabalho precoce”, “Doenças crônicas na infância/adolescência”, “Abuso sexual”, “Relacionamentos abusivos” e “Aliciamento ao crime por figuras masculinas”. Durante o cárcere, as dificuldades encontradas foram “Solidão” e “Estratégias de resistência”. Depois da prisão, os problemas foram classificados em “Saúde comprometida” e “Dificuldade financeira ou de inserção no mercado de trabalho”. O conjunto dos resultados revelou, de fato, histórias atravessadas por vulnerabilidades sociais e um ciclo de violências que pode começar com o abandono pelos pais na infância, passando por abusos diversos, aliciamento ao crime por homens próximos e penalizações adicionais no cárcere, e terminar com a condição socioeconômica precária e exclusão do mercado de trabalho depois da prisão.

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Biografia do Autor

Tatiana Cavalcanti de Albuquerque Leal, Universidade Federal da Paraíba

Mestra e doutoranda em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba. Graduada em Psicologia e graduanda em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Atua principalmente nas áreas de Direitos Humanos, Psicologia Social e Psicologia Jurídica.

Anielle Oliveira Monteiro, Universidade Federal da Paraíba

Mestra em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas pela Universidade Federal da Paraíba e doutoranda em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba. Graduada em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba. Atua principalmente nas temáticas de Direitos Humanos, Gênero e Diversidade.

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Publicado

2019-08-30

Como Citar

LEAL, T. C. de A.; MONTEIRO, A. O. MULHERES ENCARCERADAS: DIFICULDADES VIVENCIADAS ANTES, DURANTE E APÓS A PRISÃO. Gênero & Direito, [S. l.], v. 8, n. 3, 2019. DOI: 10.22478/ufpb.2179-7137.2019v8n3.46725. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ged/article/view/46725. Acesso em: 19 jan. 2022.

Edição

Seção

Direitos Humanos e Políticas Públicas de Gênero