Tradução como prática cultural: uma leitura inicial a partir de Walter Benjamin e Georges Didi-Huberman
Resumo
A tradução é frequentemente compreendida como uma prática orientada pela comunicação clara do sentido e pela busca de transparência em relação ao texto original. No entanto, essa perspectiva pode ser tensionada quando se considera a complexidade da linguagem literária e das práticas culturais modernas. Esta comunicação propõe uma aproximação inicial a esse debate, tomando como referência “A tarefa do tradutor” (2008), de Walter Benjamin, e “O que vemos, o que nos olha” (2005), de Georges Didi-Huberman.
Em seu ensaio, Benjamin propõe uma concepção de tradução que se afasta da centralidade da comunicação imediata e da transmissão direta de sentido ao leitor (Benjamin, 2008). Ao compreender a tradução como uma “tarefa”, o autor sugere um gesto que se orienta pela relação entre as línguas e pela sobrevivência da obra, abrindo espaço para pensar a tradução como um processo que aceita a diferença, o desvio e o inacabamento.
Por sua vez, Didi-Huberman (2005), ao refletir sobre a experiência do olhar diante das imagens, questiona a ideia de uma leitura transparente e plenamente dominadora. Para o autor, aquilo que vemos também nos olha, instaurando uma relação marcada pela opacidade e pela resistência à interpretação total. Ainda que essa reflexão se concentre no campo das imagens, ela oferece elementos importantes para pensar a leitura como experiência cultural.
Ao articular essas duas perspectivas, esta comunicação busca levantar questões iniciais sobre a tradução como prática cultural situada nas interfaces com a literatura e a cultura. Mais do que apresentar conclusões, o objetivo é esboçar um campo de problemas que permita repensar a tradução para além da transparência, valorizando sua dimensão ética e crítica.