A periferia em números: a modelagem de sistemas literários a partir da quantificação da tradução literária
Resumo
Nos Estudos da Tradução, as noções de “sistema literário” foram desenvolvidas por diferentes autores, a partir de campos distintos do conhecimento. Entres estes autores estão Itamar Even-Zohar, cuja teoria de polissistemas foi construída com base no Formalismo Russo (Even-Zohar, 1990), e Johan Heilbron, cujo sistema mundial de traduções utiliza conceitos sociológicos propostos por Bourdieu e de Swaan (Heilbron, 1999). Levando em consideração ambas as teorias, esta comunicação discute a análise de dados quantitativos relativos à tradução de literatura no Brasil no período de 2020-2023 (Schneider, 2025). Em Schneider (2025), os catálogos on-line de seis grupos editoriais brasileiros, escolhidos com base no ranking de mais vendidos em 2023 publicado pelo newsletter editorial PublishNews (2023), foram utilizados para identificar traduções publicadas no período e identificar seu idioma de partida. Do total de 1.773 títulos analisados em Schneider (2025), 1.201 (67,7%) representam traduções. Para editoras individuais, a proporção de traduções varia de 54,6% a 95,7% dos títulos publicados no período. Tais dados podem ser entendidos como representativos da centralidade da literatura traduzida no polissistema brasileiro, o que pode indicar, em uma leitura a partir de Even-Zohar (2012), a sua posição periférica em relação a outros polissistemas literários. Os dados relativos aos idiomas de partida de tais traduções, coletados em Schneider (2025), podem ser utilizados junto à teoria de Heilbron (1999) para identificar quais sistemas ocupam posições centrais no sistema brasileiro de literatura traduzida: o inglês é o idioma de partida de 78,8% dos títulos analisados, indicando sua posição hiper-central, enquanto espanhol (4,6%), francês (3,3%) italiano (2,9%) e alemão (2,3%) parecem ocupar posições centrais. A pesquisa realizada por Schneider (2025) considera que os dados apontam para uma posição periférica do sistema literário brasileiro no contexto mundial, e afirmam a posição hiper-central do inglês postulada por Heilbron (1999).