O tradutor transcriador de artefatos culturais: cartografando memórias, experiências e processos de criação em libras
Resumo
Com a propagação da cultura surda por meio de artefatos bilíngues e a consolidação da língua de sinais brasileira, Libras, em 2002 após a promulgação da Lei nº 10.436, intensificou-se a necessidade de produção de materiais diretamente em Libras. Essa demanda desafia os profissionais envolvidos a pensar a tradução não apenas como um processo linguístico, mas também como uma prática criativa e educativa (Benjamin, 1923). Isso ocorre visto que a maior parte desses materiais ainda é concebida originalmente em língua portuguesa, exigindo que o tradutor atue também como trans-criador, enfrentando questões que atravessam o campo da tradução interlinguística e da multimodalidade (Lemos, 2021). Assim, investigar, sob a perspectiva do próprio tradutor, os processos de tradução e criação de materiais didáticos em Libras, mapeando memórias, experiências e modos de produção no contexto educacional bilíngue, exige conhecimentos multiculturais e multimodais. A pesquisa adota a cartografia como metodologia qualitativa (Kastrup et al., 2015), que permite acompanhar os fluxos e as vivências envolvidas nos processos criativos. Foram utilizados como dispositivos metodológicos: um diário de pesquisa para registrar experiências subjetivas do tradutor no processo e as cartografias multimodais para observar como diferentes modos semióticos (imagem, som, movimento, etc.) interagem na criação dos materiais. Essa abordagem permite compreender o tradutor como um agente educacional ativo, inserido em um contexto formativo contínuo e marcado por práticas transcriadoras (Campos, 2011). Os registros cartográficos revelam que o tradutor de materiais em Libras vivencia uma multiplicidade de experiências que ultrapassam a mera transposição linguística. Ele atua como um transcriador, combinando tradução, adaptação e criação de forma autoral. As narrativas, imagens, notas e relatos evidenciam que esse profissional mobiliza saberes linguísticos, pedagógicos e culturais, tornando-se peça-chave na mediação entre o conteúdo escolar e os estudantes surdos (Albres, 2015). A multimodalidade aparece como recurso essencial para dar conta da complexidade comunicacional da Libras, articulando texto, imagem, movimento e espacialidade (Kress, 2010). A atuação do tradutor de materiais didáticos em Libras precisa ser reconhecida como prática educativa, criativa e multimodal. Ao invés de ser um simples mediador, ele se mostra como um transcriador, capaz de elaborar materiais que respeitam a especificidade linguística e cultural dos indivíduos surdos. Os dados evidenciam a importância de políticas formativas que considerem essa multiplicidade de competências, contribuindo para a construção de artefatos culturais bilíngues (Rodrigues e Santos, 2018).