Os Arquivos de Mulheres em Portugal

Resumo

Nas últimas décadas aumentou significativamente o número de arquivos pessoais preservados nos mais diversos tipos de instituições, incluindo não só os espaços especificamente destinados a arquivos, mas também bibliotecas, museus, universidades, e outros lugares associados à memória. Apesar de ser comum considerar-se que os arquivos pessoais são essenciais para a memória coletiva, e afirmar-se que constituem fonte de informação relevante e alternativa ao discurso oficial das organizações do Estado ou privadas, permanecem escassas as reflexões sobre as consequências da avaliação e da seleção de quais os arquivos a preservar com esse fim. Numa análise do universo dos arquivos pessoais identificados nas várias instituições portuguesas (Pereira, 2018), verificou-se que a decisão da sua preservação depende, quase sempre, de escolhas individuais e de grupos, de ideologias e de quadros de pensamento. Notou-se uma ausência de reflexão sobre o impacto das opções, implícitas ou explícitas, tomadas nas operações de organização e descrição da informação, com consequências para a representatividade abrangente e plural da sociedade. Constatou-se também a existência de níveis de sobrevalorização de indivíduos e de subvalorização de outros, entre os quais se encontra o caso das mulheres. As razões do menor número de arquivos de mulheres radicam-se em complexos fatores sociais, relacionados com objetivos de memorialização e opções de seleção do que preservar, sob influência de critérios subjetivos. Todavia, uma deficiente representação das mulheres está igualmente relacionada com práticas inerentes ao próprio tratamento arquivístico, em particular com operações de classificação e descrição que conduziram a que estas tenham sido, em muitos casos, “silenciadas” face ao homem, ou secundarizadas no universo de contextos familiares, dificultando a recuperação da sua memória individual.

Biografia do Autor

Zélia Maria Cruz Pereira, CES, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra

Doutorada em Ciências da Informação e Documentação, pela Universidade de Évora. Investigadora do CES, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra; e colaboradora do CEC, Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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Publicado
2019-09-14
Como Citar
PEREIRA, Z. M. C. Os Arquivos de Mulheres em Portugal. Archeion Online, v. 7, n. 1, p. p. 57-81, 14 set. 2019.