CHAMADA DOSSIÊ TEMÁTICO: A insularidade dos cursos de composição no Brasil: características, paradigmas e consequências

 

Editores Convidados:
Valério Fiel da Costa (UFPB)
Marco Scarassatti (UFMG)
Marcello Messina (UFRN)

Prazo: 28/03/2027
Previsão de Publicação: Ago de 2027

A Revista Claves convida a comunidade acadêmica para enviar contribuições para o dossiê: “A insularidade dos cursos de composição no Brasil: características, paradigmas e Consequências”

O dossiê tem como objetivo abrir a discussão sobre as características e situação dos cursos de composição como instâncias de produção artística e acadêmica dentro da academia, através de um debate aberto com a comunidade, de modo a colher informações sobre o funcionamento dos cursos, abordagens, métodos, currículos, atividades em geral, tendo como objetivo de médio prazo um esboço diagnóstico que enseje desdobramentos.

Assim, esperamos estimular uma reflexão sobre o papel da área de Composição nos cursos de música com ênfase nas universidades brasileiras, podendo contemplar também demais espaços/formatos/percursos formativos, num momento no qual cada vez mais é questionada a pertinência e validade de um enfoque eurocêntrico como norteador das atividades no campo da música na academia.

Discute-se em diversos centros, no Brasil e exterior, não apenas a flexibilização de currículos focados na tradição franco-germânica clássica, de modo a incluir elementos de outras tradições musicais, mas também a possibilidade de substituir tal paradigma pelo foco em uma práxis voltada para os contextos locais, suas tradições e suas idiossincrasias (QUEIROZ, 2020b).

Tal demanda existe e é cada vez mais importante no Brasil, porém não há ainda uma correspondência desta com a realidade da constituição dos currículos dos nossos cursos de graduação que permanecem, via de regra, não apenas alinhados ao padrão eurocêntrico, mas praticamente idênticos entre si QUEIROZ (2019, 2020a).

De todas as áreas representadas na academia, a composição tem sofrido pressão por parecer uma das mais representativa de um ambiente de conservação de valores de uma tradição musical europeia no sentido de manutenção de um modelo de produtividade individualista, elitizado e relativamente desligado da realidade de seu entorno sócio cultural brasileiro, marcado pela diversidade estético-ideológica, esquemas colaborativos, experimentação e foco no mundo do trabalho.

 

Como pauta provocativa, propomos algumas questões para reflexão:

1 – Os cursos de composição enfatizam a formação do compositor profissional (aquele que atende a demandas do mundo do trabalho)? Sabemos que os cursos de música, de modo geral, oferecem uma série de componentes curriculares afins com esta demanda. A composição profissional é bastante abrangente no Brasil, movimenta recursos públicos e privados, gera debates importantes sobre inserção, empreendedorismo e direitos autorais. Tais assuntos são bastante relevantes, mas estão sendo satisfatoriamente abordados na academia?

2 - Os cursos de composição cuidam de forma sistemática da formação de um compositor pesquisador capaz de desenvolver novas reflexões sobre o campo capazes de ampliá-lo ou mesmo revolucioná-lo? Valeria a premissa de que a graduação em composição estaria restrita ao desenvolvimento de um metiér de escritura e exposta a cursos de história e análise que funcionariam como mote de afirmação de um contexto e de um repertório bastante específicos e eurocêntricos?

3 - Finalmente, apesar do estímulo à criação com foco na originalidade supor o cultivo dentro da universidade de uma atividade experimental de alto nível em busca de novas maneiras de criar música, é forçoso reconhecer que casos de desvio de um modelo baseado no modelo escrituralista característico da norma europeia, onde as obras são concebidas como “unidades de pertença pessoal completas, discretas, originais e fixas” (GOEHR, 34 1992: p.206), são raros. A que isso se deve? Que exemplos interessantes para além desse paradigma poderiam ser compartilhados com a comunidade?

 

Por outro lado, entendemos que proliferam no Brasil artistas, grupos, salas de espetáculo, espaços de saraus, selos e festivais dedicados à chamada música experimental, que sobrevivem fora dos muros da universidade e ocorrem num volume flagrantemente superior às récitas anuais de alunos e professores de produção universitária. Os cursos de Composição estariam ignorando tais demandas ou, pelo contrário, estariam encubando propostas revolucionárias de atuação e inserção na sociedade? Quais os objetivos concretos desses cursos na academia e de que modo estes poderiam servir de forma mais efetiva ao desenvolvimento da música contemporânea brasileira? Convidamos a comunidade para refletir sobre as consequências de tal contexto para o desenvolvimento da área da criação musical no âmbito universitário e propor reflexões e quiçá soluções no sentido de tornar a área mais consequente e conectada com a realidade.

 

O presente dossiê pretende dar sequência e consistência ao Grupo de Trabalho “A insularidade dos cursos de composição no Brasil: características, paradigmas e Consequências”, grupo formado por professores e estudantes de composição de todo o Brasil, que tem o intuito de realizar um abrangente exame das condições de funcionamento e concepção dos cursos de composição no país.

O GT formulou em 2025, durante o Congresso da ANPPOM em Campo Grande-MS, uma série de 9 perguntas consideradas estruturantes para o debate sobre o tema que expomos a seguir:

01 - O curso de composição está estruturado sobre um suporte eurocêntrico, neo positivista e neo colonial?

02 – Como o curso de composição estabelece vínculo com o contexto local e com a vivência trazida pelas trajetórias dos discentes?

03 – Os currículos dos cursos de composição no Brasil são homogêneos (seus componentes são os mesmos em todos os cursos) ?

04 – Individualismo/competitividade ou colaboração/experimentação. Qual modelo representaria melhor o funcionamento do curso?

05 – O curso forma compositores profissionais? Quanto os cursos estão se empenhando nesta proposta? Discentes estão saindo dos cursos sabendo lidar com o mundo do trabalho?

06 – O curso forma compositores pesquisadores? O perfil é traçado pensando na pós-graduação? Se incentiva a produção de conhecimento em criatividade sonora?

07 – Qual a influência dos esquemas curatoriais no contexto? De que modo o perfil das bancas de avaliação de obras musicais determina o comportamento geral da área?

08 – A universidade pública pode ser vista como espaço de experimentação, na busca por um fazer musical sem concessões e voltado para a produção do “novo”?

09 - Realidade da música contemporânea radical fora da academia: como podem ser criados diálogos e pontes?

 

Mesmo sem um diagnóstico preciso sobre a atual situação dos cursos durante o evento de 2025, compartilhou-se de um mal-estar cujo foco apontou para o tema centra da ementa do GT, ou seja, a insularidade dos cursos de composição, e sua relativa desconexão tanto com a realidade do entorno social, quanto com um diálogo mais propositivo com a própria área. Entre os assuntos abordados pelo grupo, podemos destacar a confirmação do caráter conservatorial da maioria dos espaços abordados, o isolamento, dentro do curso de música (e do campo das artes na academia), dos estudantes de composição, a dificuldade de fazer música concretamente nos espaços formativos, a falta de perspectiva de inserção profissional dos egressos, a constituição de castas dentro da área, responsáveis pela manutenção de esquemas de poder, entre outros aspectos.

Como forma de subsidiar os debates, a Revista Claves vem por meio desta chamada convocar a comunidade acadêmica da área de música para apresentar suas contribuições sobre criação musical em espaços diversos, propostas curriculares inovadoras, relatos de experiência envolvendo tópicos pertinentes, reflexões sobre criatividade e performance, estudos de caso, entre outras contribuições.