Editores:
Professor Doutor Vinícius Eufrásio (UFPB)
Professor Doutor Fernando Lacerda Simões Duarte (UFPA)

Prazo: 30/08/2026
Previsão de Publicação: Dezembro de 2026

As atividades musicais tendem a deixar vestígios de caráter material, mas também memórias individuais e/ou compartilhadas entre uma determinada coletividade. Ao analisar a relação que historiadores estabelecem com tais vestígios, Ana Maria de Almeida Camargo recorreu à noção de estatuto documental atribuído – em oposição ao estatuto dos documentos de arquivo, que seria congênito – para descrever a relação que caracteriza aquilo que se considera uma fonte para a pesquisa. No campo da História, viu-se uma gradativa ampliação das fontes aceitas na pesquisa, a partir da Escola dos Annales. O movimento, iniciado em fins da década de 1920, propunha uma alternativa ao modelo positivista até então praticado. No Brasil, o campo da Musicologia passou por uma transformação, desde fins do século XIX, que implicou não apenas uma ampliação da noção de fonte, mas também das metodologias a partir das quais a historiografia da música é produzida. Ademais, os estudos da Antropologia e da Etnomusicologia tiveram impacto sobre a maneira de olhar para o passado.

 

O estudo e análise de diferentes tipologias de fontes para o estudo das práticas musicais do passado, interpeladas a partir de diferentes perspectivas e abordagens interdisciplinares de investigação, são vias cruciais para a produção de narrativas sobre fatos, sujeitos, grupos, trajetórias etc. A produção de conhecimento explorando os possíveis diálogos e interseções da musicologia com correntes específicas da história social, política, cultural, de gênero, micro-história, crítica decolonial, assim como da arquivologia, tem possibilitado a superação de discursos hegemônicos e desafiados as crenças correntes sobre o que, por anos, ficou restrito à ideia de “história da música” ou, mais especificamente, “história da música brasileira". 

 

Diante dos desafios para o acesso às fontes históricas, a promoção de sua preservação e salvaguarda, o ato de pensar no estudo das práticas musicais do passado como produção de conhecimento inovador e de discursos críticos aos moldes do fazer historiográfico estabelecidos ao longo de décadas demanda do pesquisador um esforço investigativo e analítico que excede a lógica disciplinar. O contato com outras abordagens teórico-metodológicas redireciona e até reconfigura o próprio fazer musicológico. 

 

Assim, esta chamada se destina a trabalhos direcionados à práticas musicais do passado, mas também abarca investigações cujas fontes, perspectivas e abordagens de estudo estejam de algum modo direcionadas à compreensão de fazeres tradicionais ainda manifestos na contemporaneidade. Dentre os temas de interesse, é possível elencar:

  • Métodos, técnicas e tecnologias para a abordagem e o tratamento de fontes e acervos musicais: a Musicologia em diálogo com a História, a Antropologia, a Etnologia, a Arqueologia, a Codicologia, a Biblioteconomia, a Arquivologia, a Museologia e as Ciências da Informação;
  • Música para os olhos: fontes iconográficas e as interfaces com as Artes Visuais e o Design;
  • Vestígios materiais e os desafios para uma história da música de sociedades ágrafas;
  • Pianolas, caixas de música, autômatos e outros meios de reprodução mecânica da música: entre processos de musealização e usos no presente;
  • Perspectivas do fazer historiográfico (história cultural, social, política, de gênero, micro-história, crítica decolonial, estudos subalternos e arquivologia) e a produção de conhecimento sobre as práticas musicais do passado;
  • Para além dos cânones: olhares lançados a compositoras, compositores, gêneros e obras musicais relegados ao esquecimento;
  • Interseções entre a história, cultura e a produção de conhecimento em música;
  • Os fazeres historiográficos da música brasileira;
  • Saberes-fazeres musicais, memória, identidade e patrimonialização;
  • Continuidades e rupturas nas práticas musicais;
  • Memória e história dos múltiplos ensinos de música: das artinhas e tratados às transformações da pedagogia musical;
  • Manifestações musicais tradicionais em seu percurso até o presente: negociações, resistências e o perecimento de Pastorinhas, bois, folias, dentre outras;
  • As noções de progresso e decadência nos discursos sobre a história da música;
  • Músicas, sociabilidades, raça e gênero em uma perspectiva histórica;
  • Os musicares locais e a musicologia urbana: transmissão e recepção do repertório e o trânsito de musicistas ao longo da história;
  • Gêneros musicais urbanos e sociabilidades: o compartilhamento de identidades com base no gosto musical em uma perspectiva histórica;
  • O lundu, o maxixe e o funk: história das moralidades, do racismo e da repressão cultural;
  • Da “mais alemã das artes” à canção de protesto latino-americana: permanências e inovações nos usos políticos da música;
  • Diálogos disciplinares: abordagens inovadoras a partir da Teoria e Análise musical, da Etnomusicologia, da Música Popular, da Composição e de outras subáreas para a compreensão das práticas musicais do passado em seus múltiplos aspectos;
  • Construções de narrativas sobre práticas musicais do passado;
  • Interfaces entre a Musicologia e a História: abordagens a partir da História pública, das ideias, do tempo presente, dos estudos historiográficos, e da História e Filosofia da Ciência;
  • Cientometria e análises acerca da produção acadêmica em Musicologia no Brasil;
  • Formação para a musicologia histórica: desafios e perspectivas;
  • Música do passado e Inteligência Artificial: releituras, apropriações, falsos-históricos e dilemas éticos;
  • Comunicação científica e história da música na era da pós-verdade: o interesse das Novas Direitas e os desafios ante o revisionismo e o negacionismo históricos;
  • Pesquisa sobre práticas musicais do passado e possibilidades de intervenção social: a função social do musicólogo e do trabalho musicológico de perspectiva histórica.

 

Com a publicação deste dossiê busca-se não apenas difundir resultados de pesquisa, mas também estimular a reflexão acerca da salvaguarda e preservação da memória das práticas musicais do passado; fomentar a discussão e divulgar experiências capazes de fornecer ferramentas práticas para a preservação de fontes musicais; incentivar o diálogo disciplinar e interdisciplinar, fortalecendo, em última análise, a pesquisa e a divulgação científica no âmbito da musicologia de perspectiva histórica no Brasil.