Chamada para o Dossiê – "O silêncio como linguagem na psicanálise e na literatura" (v. 6, n. 2, 2026)

2026-08-29

Este dossiê é um convite para pensarmos o silêncio como forma de linguagem na psicanálise e na literatura. O silêncio, longe de constituir apenas ausência de ruídos, constitui um campo no qual florescem as inacabáveis possibilidades do não dito. Enquanto, na prática psicanalítica, a fala mostra-se como instrumento privilegiado de tratamento dos sintomas neuróticos, o silêncio revela territórios com os quais evitamos contato, ademais, provoca uma abertura para o inconsciente.

Dessa maneira, o silêncio, na análise, configura-se como possibilidade de subjetivação e de elaboração psíquica, o que permite ao sujeito apropriar-se de suas experiências e memórias. A partir de então, o sujeito pode ser capaz de realizar o trabalho psíquico sobre suas emoções, seus afetos, suas lembranças e suas repetições. Trata-se, portanto, de um silêncio que atua, que produz efeitos e que participa ativamente da construção do espaço terapêutico da análise. O silêncio opõe-se a uma concepção passiva e tece sentidos, intervém, desloca e reorganiza o campo do não dito.

Na literatura, o silêncio configura-se como escuta do indizível, como fio estruturante do discurso, não é ausência, é força que se expressa. O silêncio, assim, convoca o leitor a uma escuta profunda, intensa de sentidos que subjazem no terreno literário. O silêncio não se opõe à palavra, mas a fecunda de sentidos no espaço que ela hesita, desliza, cala, suspende, contempla e resiste, revelando-a. No tecido literário, o silêncio também é teia que articula símbolos, imagens e experiências que antecedem ou extrapolam o discurso.

Em tempos marcados pelo excesso de estímulos, de ruídos, de informações, de tantas vozes que disputam espaço em nossas mentes, silenciar é, também, um ato de coragem e de resistência à lógica da vida contemporânea. Assim, o silêncio se afirma como gesto de recusa aos modelos de desempenho impostos na atualidade, aos ruídos contemporâneos, à superficialidade dos tempos atuais e à hipercomunicação incessante. Neste sentido, silenciar é um convite à presença sem espetáculo, ao reencontro e à escuta do eu, firmando-se como espaço de elaboração, de resistência, de subjetivação e de criação, fundamentais para a prática psicanalítica e para a experiência literária.

Eixos:

  • Poetas do silêncio: a escuta do indizível na escrita literária;
  • O silêncio na análise literária: espaço de subjetivação nos artefatos artísticos da tradição e da modernidade;
  • O silêncio como resistência aos ruídos da contemporaneidade.

Organizadores:
Prof. Dr. Jadson Santos de Jesus (SEE/PB)
Prof.ª Dr.ª Rosilândia Flávia de Lima Ramos (SEE/PB)

Prazo para submissão: 15 de novembro de 2026.
Período previsto para publicação: dezembro de 2026.

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