O PAPEL DO TRADUTOR NA HISTÓRIA: A PERSPECTIVA DA CRÍTICA FRANCESA (1814-1837)

Autores

  • Cristian Cláudio Quinteiro Macedo
  • Patrícia Chittoni Ramos Reuillard

Resumo

A questão “Qual o papel do tradutor na sociedade?” é fundamental ao nosso ofício e vem sendo feita ao longo do tempo por todos os que se dedicam à tradução. O presente trabalho objetiva apresentar uma pesquisa que tem um duplo caráter: tradutológico e historiográfico. Trata-se de trabalho tradutológico, porque a questão norteadora diz respeito ao ofício do tradutor em qualquer tempo e espaço. Porém, sabendo que a resposta muda na diacronia, escolhemos um momento histórico específico de grande relevância, no qual ocorreram avanços significativos na imprensa e no mercado editorial. Desta forma, é também uma pesquisa historiográfica porque lança mão da metodologia crítica e hermenêutica para manejar e interpretar documentos produzidos ao longo de um recorte temporal específico, visando responder à questão, agora reformulada: Qual o papel do tradutor na sociedade francesa entre os anos 1814 e 1837? Assim, a delimitação da pesquisa foi desenhada nos parâmetros explicitados a seguir. Como corpus de trabalho, elegemos as resenhas críticas publicadas no Journal des Débats – jornal de caráter político, econômico e cultural e um dos mais longevos e influentes periódicos franceses, fundado em 1789 e extinto apenas em 1944, após a Libertação Francesa. Muitos dos textos resenhados eram traduções, o que fazia o olhar do resenhista voltar-se para o tradutor e seu ofício. Como recorte temporal, delimitamos o período entre os anos de 1814, quando o Journal muda sua linha editorial, após a queda de Napoleão I, e 1837, um ano após a publicação da tradução de Le paradis perdu, de Milton. Segundo Georges Mounin, essa tradução de Chateaubriand é um dos marcos para a mudança histórica da perspectiva tradutória francesa: das Belles infidèles para um novo mot à mot, denominado de tradução reconstituição histórica e que se consolidará em 1866. Muitas das resenhas do corpus, ao tratar do trabalho do tradutor, deixam transparecer as demandas sociais a esse profissional. Em alguns casos, o periódico até garantia espaço para o tradutor responder às críticas. É a partir desse diálogo que marcou o período em questão, cujos vestígios nos foram deixados pela documentação analisada, que podemos refletir sobre o papel do tradutor na sociedade francesa, tanto no que diz respeito às expectativas sociais quanto às atividades realmente exercidas. Pensar no papel social do tradutor em determinado período histórico é refletir acerca de sua memória e sua história disciplinar. É fazer Historiografia da Tradução, privilegiando seu agente (o tradutor), mas não esquecendo sua obra, seu lugar de produção e as demandas sociais em relação a seu trabalho. A pergunta central de nosso trabalho pretende informar ao tradutor de hoje o que a sociedade francesa, representada pelos críticos que publicavam as resenhas no importante jornal de Paris, então capital cultural do mundo ocidental, esperava de seu ofício. O tradutor atual poderá refletir sobre as mudanças sofridas em sua disciplina ao longo do tempo, e sobre o quanto essas mudanças, que seus antecessores promoveram, sofreram influências das críticas e demandas sociais em relação a seu trabalho. A memória disciplinar racionalizada permite um reencontro, uma identidade entre o tradutor do presente e do passado. Essa racionalização contribui para a construção, ou manutenção de uma “consciência histórica”, fruto das ideias que produzem critérios orientadores de sentido para ações e mudanças no mundo, conforme analisa o historiador alemão Jörn Rüsen. Ao mergulhar na história de sua profissão, o tradutor municia-se culturalmente, socialmente e politicamente de elementos para sua busca por mais espaço, visibilidade, profissionalização e legitimação. Acreditamos que os resultados de nossa pesquisa contribuirão para esse processo

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Publicado

2017-09-27

Edição

Seção

Comunicações Longas Eixo História e Historiografia da Tradução