Corpos ultrajantes, discursos interditos

embates entre a indústria cinematográfica erótica e a censura federal durante a ditadura civil-militar brasileira

Palavras-chave: Biopoder, Censura, Cinema Erótico, Ditadura Civil-Militar Brasileira, Pornochanchadas

Resumo

O presente texto apresenta a trajetória de embates entre as produções cinematográficas denominadas comumente por pornochanchadas – produções de baixo orçamento, forte apelo humorístico e sexual – e a censura federal durante a ditadura civil-militar brasileira. Vistas muitas vezes como inimigas do discurso público de moral e bons costumes que representava o estado, estas acarretaram, por parte dos sujeitos produtores, o desenvolvimento de estratégias para driblar a censura federal. Ora estas disputas favoreceram produtores, ora censores, mas no foco destes embates encontrava-se quase que invariavelmente a disputa pela hegemonia discursiva e pelo lugar de fala que tinham como palco a grande tela do cinema e sua reconhecida capacidade como ferramenta de propagação de valores culturais e normatização de costumes. Na análise ora apresentada enfoca-se no enredo amplamente conflitante desta pretensa normalidade encontrado no longa-metragem Mulher Tentação (1982) dirigido por Ody Fraga e produzido por David Cardoso.  Para esta análise utiliza-se como aporte teórico os escritos de Michel Foucault, especialmente as suas noções de biopoder, normatividade, controle dos corpos e exercício de poder. Tem-se então o objetivo de evidenciar os múltiplos vetores que conformam poderes e contrapoderes, bem como observar como estas disputas marcam corpos, costumes e culturas.

Biografia do Autor

Romulo Gabriel de Barros Gomes, Universidade Federal de Pernambuco

Romulo Gabriel de Barros Gomes é doutorando e mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco, formado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, com período de Graduação Sanduíche na área de Ciências Políticas, realizada no Centro de Investigación y Docencias Económicas – CIDE (Cidade do México). Trabalha temas referentes às produções culturais em regimes autoritários, com foco em produção cinematográfica, censura e discursos sobre masculinidade.

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Publicado
2020-11-18
Como Citar
GOMES, R. G. DE B. Corpos ultrajantes, discursos interditos. Sæculum – Revista de História, v. 25, n. 43, p. 325-342, 18 nov. 2020.