“A infausta notícia da existencia do cholera-morbus” na Paraíba oitocentista

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22478/ufpb.2317-6725.2023v28n49.66559

Palavras-chave:

Cólera, Doença, Paraíba, História das Doenças

Resumo

Esse texto tem por objetivo discutir os discursos publicados na imprensa e nos documentos oficiais sobre a epidemia de cólera-morbo na Paraíba ocorrida na década de 1850. O cólera-morbo é uma patologia infectocontagiosa, descoberta em 1883 pelo médico alemão Robert Koch, provocada pela bactéria Vibrio cholerae e transmitida pela água ou alimento. Uma doença caracterizada por sintomas como moleza, palidez da face e dos lábios, contração e pressão no estômago, mãos frias, sensação de enfraquecimento e torpor dos dedos, pés frios e pesadas disposições a diarreia com defecções líquidas e esverdeadas. Essa doença provocou uma epidemia que ceifou uma grande quantidade de vidas na Paraíba em meados do século XIX. Metodologicamente, utilizo a análise documental como forma de investigar nas fontes históricas não só os sentidos explicitados, mas aqueles que ficaram escondidos por trás das palavras, os silêncios, os não ditos. Seguindo a operação historiográfica proposta por Michel de Certeau (2008) selecionei os documentos enquanto uma “distribuição cultural” no sentido de “produzir tais documentos” e submetê-los a crítica levando em consideração o lugar social de sua produção para confeccionar uma escrita histórica. As fontes problematizadas são os discursos contidos nos Relatórios de Presidente de Província, no jornal A Regeneração e nos textos publicados na Revista de Medicina, impresso da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Paraíba. Conclui-se que apesar da letalidade da epidemia, o episódio trouxe à tona as fragilidades médico-higiênicas na Província, bem como, projetou politicamente alguns médicos.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Azemar Santos Soares Júnior, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Azemar dos Santos Soares Júnior é professor do Departamento de Práticas Educacionais e Currículo, na área de Didática e Ensino de História do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Campus Natal. É professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGEd/UFRN) e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG). Líder do Grupo de Pesquisa Observatório das Heterotopias.

Referências

ALMEIDA, José Américo de. A Paraíba e seus problemas. João Pessoa: A União, 1980.

BEZERRA, José Vicente de Amorim. Relatório apresentado a Assembleia Legislativa da Província da Paraíba pelo Presidente da Província da Paraíba José Vicente de Amorim Bezerra. Parahyba do Norte: Typografia José Rodrigues da Costa, 1850.

CÂMARA, Epaminondas. Datas campinenses. Campina Grande: Edições Caravelas, 1988.

CASTRO, Oscar Oliveira de. Medicina na Paraíba. João Pessoa: A União, 1945.

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense, 2008.

COELHO FILHO, Heronides. A epidemia de cólera morbo na Paraíba em 1856. Revista de Medicina, n. 19 e 20, p. 29-34, 1959.

CUNHA, Manoel Clementino Carneiro da. Relatório apresentado a Assembleia Legislativa da Província da Paraíba pelo Presidente da Província da Paraíba Manoel Clementino Carneiro da Cunha. Parahyba do Norte: Typografia José Rodrigues da Costa, 1857.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2009.

FRANCO, Sebastião Pimentel. Cólera e surtos epidêmicos no oitocentos, no Espírito Santo (1855-1856). In: FRANCO, Sebastião Pimentel; NASCIMENTO, Dilene Raimundo; MACIEL, Ethel Leonor Noia (orgs.). Uma história brasileira das doenças. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013, p. 69-90.

FREIRE, Flávio Clementino da Silva. Relatório apresentado a Assembleia Legislativa da Província da Paraíba pelo Presidente da Província da Paraíba Flávio Clementino da Silva Freire. Parahyba do Norte: Typografia José Rodrigues da Costa, 1855.

MARIANO, Serioja; MARIANO, Nayana. O medo anunciado: a febre amarela e o cólera na Província da Paraíba. Fênix: Revista de Estudos Culturais, n. 3, p. 01-20, 2012.

MARQUEZ, Gabriel García. O amor nos tempos do cólera. Rio de Janeiro: Record, 1985.

MEDEIROS, Coriolando. Subsídio para a história da hygiene pública na Parahyba. Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, n. 3, p. 117-124, 1911.

Ó, Alarcon Agra do. Relato de males: notas acerca dos modos de adoecer na Paraíba Imperial. In: Ó, Alarcon Agra do; SOUZA, Antônio Clarindo Barbosa de; SOUSA, Fabio Gutemberg Ramos Bezerra de; ARANHA, Gervário Batista (orgs.). A Paraíba no Império e na República: estudos de história social e cultural. João Pessoa: Ideia, 2003, p. 11-46.

PIMENTA, Tânia Salgado. Doses infinitesimais contra a epidemia de cólera em 1855. In.: NASCIMENTO, Dilene R. do; CARVALHO, Diana Mail de (orgs.). Uma história brasileira das doenças. Brasília: Paralelo 15, 2004, p. 31-51.

SILVA, Antonio da Costa Pinto. Relatório apresentado a Assembleia Legislativa da Província da Paraíba pelo Presidente da Província da Paraíba Antonio da Costa Pinto Silva. Parahyba do Norte: Typografia José Rodrigues da Costa, 1856.

SILVA, Antonio da Costa Pinto. Relatório apresentado a Assembleia Legislativa da Província da Paraíba pelo Presidente da Província da Paraíba Antonio da Costa Pinto Silva. Parahyba do Norte: Typografia José Rodrigues da Costa, 1857.

SOARES JÚNIOR, Azemar dos Santos. Corpos hígidos: o limpo e o sujo na Paraíba (1912-1924). João Pessoa: Ideia, 2019.

TRATAMENTO DO CHOLERA-MORBUS. A Regeneração, Parahyba do Norte, 28 fev. 1862.

Downloads

Publicado

2024-02-28

Como Citar

SOARES JÚNIOR, A. S. “A infausta notícia da existencia do cholera-morbus” na Paraíba oitocentista. Saeculum, [S. l.], v. 28, n. 49, p. 36–54, 2024. DOI: 10.22478/ufpb.2317-6725.2023v28n49.66559. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/srh/article/view/66559. Acesso em: 13 jun. 2024.