Modernização conservadora brasileira como conciliação: ensaio de interpretação filosófica – apontamentos programáticos

  • Leno Francisco Danner Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
  • Agemir Bavaresco Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
  • Fernando Danner Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Palavras-chave: Modernização conservadora Brasileira, Modernização Europeia, Conciliação, Contradição, Despolitização, Antipolítica

Resumo

Propomos, neste artigo, uma definição do processo de modernização conservadora brasileira enquanto conciliação apolítica-despolitizada entre sociedade colonial e República, em que sujeitos, práticas, valores e relações propriamente arcaicos – como o senhor de escravos e grande fazendeiro rural, a fazenda de café monocultora, o escravismo e uma cultura fortemente essencialista e naturalizada – são reestilizados em termos de modernização brasileira, mantendo, por conseguinte, agora dentro da modernidade-modernização, uma perspectiva autoritária nas práticas políticas, racista no que tange às relações interpessoais, imobilista-inerte no que se refere à atuação da sociedade civil e fortemente tecnocrática em termos de constituição das instituições políticas. A conciliação, uma vez que amalgama em um todo indiviso, indiferenciado e homogêneo a pluralidade dos sujeitos sociopolíticos, suas diferenciações e suas contraposições, permite exatamente (a) o autoritarismo político e o institucionalismo forte, (b) o imobilismo e a inércia das relações sociais, (c) a naturalização e a ossificação da cultura tradicional e (d) a recusa e a deslegitimação da política por meio da afirmação de que a sociedade é uma grande família indivisa, unitária, constituída por laços hierárquicos e naturalizados, sem divisão e conflito internos, bastando, aqui, para a integração social, a ordem institucional pura, correlacionada ao imobilismo político na sociedade civil. Desse modo, e isso é o específico de nossa modernização conservadora, há uma integração de sujeitos, valores, práticas e princípios antagônicos – sociedade colonial e modernidade –, mas sem politização das diferenciações e das contradições dali surgidas, que acabam ficando latentes, invisibilizando-se e sendo silenciadas e desarmadas pela correlação de autoritarismo institucional, militarismo político e arcaísmo cultural. Como consequência, a conciliação institui a antipolítica como o núcleo civilizacional, político e normativo tanto das instituições e dos sujeitos institucionalizados quanto da sociedade civil e dos seus sujeitos sociopolíticos informais, de modo a constituir-se como um imobilismo em movimento, com pouca reflexividade, crítica e transformação internas, consistindo basicamente em uma modernização econômica e periferizando e até deslegitimando a modernização cultural.

Biografia do Autor

Leno Francisco Danner, Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Doutor em Filosofia (PUC_RS). Professor de Filosofia e de Sociologia no Departamento de Filosofia da Fundação Universidade Federal de Rondônia.
Agemir Bavaresco, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Doutor em Filosofia (Université de Paris I - Pantheón Sorbonne). Professor de Ética e de Filosofia Política no Departamento de Filosofia e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Fernando Danner, Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Doutor em Filosofia (PUCRS). Professor de Filosofia no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

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Publicado
2019-08-22
Como Citar
Danner, L. F., Bavaresco, A., & Danner, F. (2019). Modernização conservadora brasileira como conciliação: ensaio de interpretação filosófica – apontamentos programáticos. Aufklärung: Revista De Filosofia, 6(2), p.47-74. https://doi.org/10.18012/arf.2016.43834