A po(ética) da aids e seus movimentos em Blue, de Derek Jarman
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.1887-8214.2025v40n1.77600Resumo
Blue (1993), de Derek Jarman, filme experimental em que o espectador se depara com uma tela azul do início ao fim da narrativa e, por trás dela, vozes que narram a vida do cineasta: a infância, os amigos, as angústias de ser quem se é –homossexual–, as vivências no hospital para tratamento da aids, etc. O filme trata da própria vida do diretor que também é personagem, no entanto, o espectador não está diante de um documentário, senão um relato pessoal-poético entre a vida e a morte. O diretor autodeclarado gay e com hiv empreende uma narrativa expondo a deterioração do corpo consumido pela doença que durante muito tempo é atribuída (e ainda hoje) aos homossexuais masculinos entendidos como promíscuos, inclinados ao sexo fácil, pecadores... Na contramão desta perspectiva social atribuída aos gays, Jarman, por intermédio de seu Blue, demonstra a questão pela via da poesia durante a longa narrativa perpetrada por diferentes vozes, indicando que sujeitos infectados com o hiv (como todos as outros) têm uma história carregada de momentos ambivalentes: tristezas, alegrias, afetos, desamores... e que, ao final, fenecem como todos os demais. A proposta de Derek Jarman é, pois, indicar que o corpo com hiv é um corpo como qualquer outro e não há razão para demonizá-lo como tem sido desde o surgimento do hivaids até os dias hodiernos.

