Culturas Midiáticas recebe artigos para o Dossiê Epistemologias da comunicação no Sul Global
Em "Nem centro nem periferia", o subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), afirma: "A luta, a nossa ao menos, é uma luta entre geografias e calendários". A frase sintetiza tanto uma agenda política quanto um problema epistemológico. Territórios como Chiapas (México), terras Yanomami (Brasil), quilombos, favelas e periferias urbanas fora da Europa e dos EUA situam-se fora da "ordem mundial" – não como periferias, mas como geografias e temporalidades alternativas. São justamente essas geografias e temporalidades que nos interessam.
Enquanto Hartmut Rosa (2013) associa a modernidade à "aceleração social", Dipesh Chakrabarty (2021) sugere que a vantagem dos países não "Ocidentais" (o Sul Global) reside justamente em seu "atraso" (belatedness). No Brasil, essa ironia ecoa em pensadores como Ailton Krenak (2019), Antônio Bispo (2020) e Davi Kopenawa (2019). Krenak lembra que o fim do mundo indígena começou há 500 anos; Bispo recusa a domesticação capitalista da natureza e do trabalho; e Kopenawa evoca saberes da floresta para resistir ao Antropoceno. Esses autores, assim como os zapatistas, exemplificam uma dissidência ontoepistemológica – modos de pensar não capturados pela colonialidade do tempo e do espaço (ROLNIK, 2019).
Diante disso, este dossiê busca articular formas dissidentes de pensamento crítico no campo da comunicação. Para tal, convidamos pesquisadores interessados em visões situadas (HARAWAY, 1988), estratégias de resistência (HOOKS, 2021), outras epistemologias e pluriversos (KOTHARI et al., 2022), que localizem suas investigações na perspectiva do Sul Global e de corpos historicamente marginalizados – negros, indígenas, LGBTQIAP+ e outros –, problematizando modos de ser, estar e conhecer que desafiam a produção hegemônica do saber a partir de cosmovisões pluralistas e estratégias contracoloniais.
Sugerimos pensar o Sul Global como um conceito historicamente situado no pós-Guerra Fria, superando a noção de desenvolvimento como marcador econômico em favor de afinidades culturais e relações geopolíticas (DADOS; CONNELL, 2012). Mas não sem questionamentos. Como aponta Gras (2024), o termo tem sido criticado por seu caráter "pernicioso" e "errôneo", já que inclui países geograficamente localizados no "Norte". No entanto, a autora ressalta que o mesmo argumento se aplica à noção de "Ocidente" ("The West"), que abrange culturalmente países como Austrália e Japão. Diante disso, assimilando a própria proposta teórica e sua possível crítica, interessa-nos pensar o "sul" como um construto teórico – um operador que desvela relações de poder coloniais e, ao mesmo tempo, agrega saberes dissidentes, gerando elos entre culturas e epistemologias que desafiam o status quo.
Nessa linha de reflexão, concordando com Iqani e Resende (2019), o "sul global" pode ser um bairro de imigrantes árabes na Bélgica, um gueto nos EUA ou um território ameríndio na Austrália. Trata-se de um dispositivo conceitual que ressoa em corpos e territórios dissidentes, precarizados pelo projeto colonial, mas também portadores de histórias, cosmologias e lutas ainda insuficientemente discutidas. É a partir desse entendimento que esta chamada se constitui e incentiva trabalhos que dialoguem com a perspectiva do “sul global” e outras cosmovisões – corroborando-as, problematizando-as e ampliando-as.
Destacam-se, então, os seguintes subtópicos (não exaustivos):
- Corpos dissidentes: raça, gênero, sexualidade e políticas da comunicação
- Mídia, plataformização e pensamento decolonial: leituras críticas desde o Sul
- Memória, arquivo e visualidades: afetos e reconfigurações do passado
- Escrevivência: a experiência como método
- Epistemologias antirracistas, decolonialidade e necropolítica
- Ações educacionais, comunidades de aprendizado e discurso meritocrático
- Combate ao epistemicídio e metodologias em comunicação e questões étnico-raciais
- Mestiçagem, branqueamento e os desdobramentos do mito da democracia racial na sociedade brasileira
- Racismo e reações culturais (dança, estética, cinema, música etc.)
O dossiê é conduzido pelos editores convidados Diego Amaral (UEM) e Renata Nascimento (UFRJ), e pela editora Clara Câmara (UFPB). A Revista convida os pesquisadores interessados a contribuir com suas pesquisas até 30 de setembro de 2025. A publicação está prevista para janeiro de 2026.
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