CHAMADA PARA DOSSIÊ 2026.1

2026-02-23

Ecofeminismo(s) e territorialidades: olhares sobre espaços, corpos e subjetividades na literatura

Cunhado na década de 1970 pela teórica francesa Françoise d'Eaubonne, o termo ecofeminismo vem se consolidando como um campo teórico e crítico fundamental para a compreensão das relações entre gênero, poder e natureza, a partir de um viés interdisciplinar. Como observa a ecofeminista Greta Gaard (2017), “a natureza da casa” é uma das questões fundadoras no ecofeminismo. E casa aqui ganha dimensões diversificadas: o planeta, o espaço doméstico habitado (e por vezes imposto), o próprio corpo. Nesse sentido, ao compreendermos a territorialidade – com a geografia crítica de Marcos Aurélio Saquet – como “[...] relações diárias, momentâneas, que os homens [leia-se seres humanos] mantêm entre si, com sua natureza interior e com sua natureza inorgânica, para sobreviverem biológica e socialmente” (2007, p. 129), trazemos para reflexão os modos como as interações com essas casas vêm sendo pensadas e representadas no universo literário, a partir do recorte de gênero e de outras interseccionalidades, como raça/etnia, classe, sexualidades etc.

Este dossiê, portanto, propõe reunir pesquisas que investiguem, no âmbito da literatura e da crítica literária, as múltiplas configurações territoriais. Interessa-nos, especialmente, a análise de obras literárias – preferencialmente de autoria feminina e com protagonismo de mulheres e/ou de outras minorias, em diferentes gêneros, períodos e contextos culturais – que problematizem a noção de espaço e a atuação dos seres humanos nele; experiências afro-brasileiras e indígenas em suas relações com o corpo, a terra e a natureza; a transcorporalidade entre corpos humanos e mais-que-humanos, bem como a materialidade e agência destes últimos (Alaimo, 2017); as configurações e cuidados dos corpos; as práticas alimentares; as dimensões espirituais em comunhão com o corpo e a terra; entre outros eixos possíveis. Serão também bem-vindas contribuições que abordem, na esteira de Félix Guattari (1990) e em diálogo com a perspectiva ecofeminista, “territórios existenciais de subjetividade”, “[...] sejam eles concernentes às maneiras íntimas de ser, ao corpo, ao meio ambiente ou aos grandes conjuntos contextuais relativos à etnia, à nação ou mesmo aos direitos gerais da humanidade” (Guattari, 1990, p. 38).

Convidamos pesquisadoras e pesquisadores a submeterem trabalhos que promovam diálogos interdisciplinares no campo dos ecofeminismos e privilegiem análises literárias que articulem gênero, territorialidade e materialidade do humano e do mais-que-humano, reafirmando a literatura como campo estratégico de reflexão diante das urgências do presente.

Edilane Ferreira da Silva (UPE)

Izabel de Fátima de Oliveira Brandão (UFAL)