"A natureza que fala à câmera não é a mesma que fala ao olhar”
que natureza? Notas sobre natureza, técnica e política em Walter Benjamin
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.3086-2396.2025v1n01.74350Palavras-chave:
EnglishResumo
À guisa de introdução, o ensaio toma um conjunto de passagens de “O narrador”, de Walter Benjamin, que remete a imagens da natureza ou a “metáforas naturais”, como aqui se nomeia. O intuito é mostrar como, inicialmente, Benjamin desenha o seu narrador em proximidade à natureza, com toda generalidade que o termo imprime, compatível com a tradição da oralidade, o artesanato como meio principal de trabalho, o modo de vida camponês e comerciante, etc. Contudo, a partir da leitura detida destas mesmas passagens, e com o auxílio de autores como Vilém Flusser, Susan Buck-Morss, Giorgio Agamben e Hans Vaihinger, o ensaio descarta o desejo, em Benjamin, de retorno a uma natureza primordial, hipótese reforçada pelo avanço da discussão aos textos em que o filósofo alemão trata diretamente das técnicas de produção e reprodução da imagem. Após definir conceitualmente o narrador benjaminiano, no limiar entre a natureza e a técnica, o ensaio arrisca analisa-lo, em suas páginas finais, à luz do contexto social e político brasileiro contemporâneo, apoiado, sobretudo, em Roland Barthes, Marie-José Mondzain e Jacques Rancière. Por fim, o ensaio defende que o narrador de Benjamin autoriza desconfiar de que nosso problema político central não é exatamente de “comunicação”, isto é, que não se limita a uma conformidade técnica a um aparelho e a suas redes sociais, mas se concentra, ainda, na nossa capacidade de re-conectar experiência e imaginário.
Downloads
Referências
AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Trad.: Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2005.
BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Trad. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BARTHES, Roland. Mitologias. Tradução Pedro de Souza e Rita Buongermino. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
BENJAMIN, Walter. “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In:____Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994a, pp. 197-221.
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In:____Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994b, pp. 165-196.
BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de história”. In:____Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994c, pp. 222-232.
BENJAMIN, Walter. “Pequena história da fotografia”. In:____Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994d, pp. 91-107.
BENJAMIN, Walter. “O Surrealismo. O último instantâneo da inteligência europeia”. In:____Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994e, pp. 21-35.
BRUM, Eliane. “O Brasil desassombrado pelas palavras-fantasmas”. In: El país, 10 de julho de 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/10/opinion/1499694080_981744.html.
BUCK-MORSS, Susan. “Estética e anestética: o ‘ensaio sobre a obra de arte’ de Walter Benjamin reconsiderado”. Trad. Rafael Lopes Azize. In: Outra Travessia, n. 33, agosto-dezembro de 1996, pp. 11-41.
CANDIDO, Antonio. “A personagem do romance”. In: ______ et al. A personagem de ficção. 11. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007, pp. 51-80.
FLUSSER, Vilém. “Invenção narrativa em Guimarães Rosa”. Sem data, possivelmente abril de 1964. Inédito. Vilém Flusser Archiv, Berlim.
FLUSSER, Vilém. Vampyroteuthis Infernalis. São Paulo: Annablume, 2011a.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaio para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Annablume, 2011b.
FLUSSER, Vilém. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Annablume, 2011c.
FLUSSER, Vilém. A História do diabo. São Paulo: Annablume, 2008.
MONDZAIN, Marie-Jose. A imagem pode matar?. Trad. Susana Mouzinho. Lisboa: Nova Veja, 2009.
PAZ, Octavio. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo (1967). Trad. Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Perspectiva, 1977.
RANCIÈRE, Jacques. “Se é preciso concluir que a história é ficção. Dos modos da ficção”. In:____ A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2009, pp. 52-62.
SANTIAGO, Silviano. “O entre-lugar do discurso latino- americano”. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, pp. 9-26.
VAIHINGER, Hans. A filosofia do como se: sistema das ficções teóricas, práticas e religiosas da humanidade, na base de um positivismo idealista Trad. Johannes Kretschmer. Chapecó: Argos, 2011.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Rafael Miguel Alonso Júnior

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
A revista utiliza a licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0). Ao submeter seu texto, o autor concorda com a referida política de licenciamento, que permite o compartilhamento (cópia e distribuição do material em qualquer meio ou formato) e adaptação (remix, transformação e criação de material) a partir do conteúdo assim licenciado para quaisquer fins, desde que sejam não comerciais e respeitadas as condições impostas por essa licença.
Uma das condições para uso e reuso é sempre referenciar o conteúdo licenciado, apontando seus autores e um hyperlink para o material publicado. Outras condições, igualmente importantes, estão dispostas no Código Legal da licença Creative Commons.