Mística feminina – escrita e transgressão

  • Maria Simone Marinho NOGUEIRA UEPB
Palavras-chave: Mística Medieval, Mulheres, Transgressão

Resumo

Objetiva-se abordar o pensamento de algumas mulheres no que diz respeito aos seus escritos que oscilam entre a filosofia, a espiritualidade e a transgressão. Assim, tem-se como horizonte o fato de essas mulheres serem almas femininas numa época em que não lhes cabia o dom de pregar, ensinar ou escrever, sobretudo o que pregaram, ensinaram e escreveram. Logo, suas vozes e suas escritas soam como uma espécie de transgressão, aliás, de uma tripla transgressão: uma transgressão de gênero (mesmo que não deva ter o peso do sentido moderno do termo); uma transgressão contra a ortodoxia da Igreja (quando criticam explicitamente ou veladamente alguns dos seus hábitos) e uma transgressão dos limites da relação entre o humano e o divino (quando a alma e Deus se tornam um só). Ora, se os escritos dessas mulheres nos espantam, não só pela vivência que eles refletem, mas também, como afirmam alguns estudiosos, pelo enraizamento de um fundo sólido de conhecimentos; o que dizer da reação de muitos dos seus contemporâneos: um assombro que alguns consideraram maravilhoso e outros, perigoso. No entanto, a história dessa escrita feminina não deve ser lida apenas como a história de uma transgressão, já que se pode extrair dos seus textos, também, a reescrita de uma paixão. Uma paixão que tem como horizonte o sagrado que, de diferentes formas e por diferentes expressões, acompanha a história da humanidade. Neste sentido, pode-se afirmar que a “escritura feminina” da Filosofia Medieval mostra-se, para além da história de uma transgressão, a história de uma paixão pelo divino.

Referências

BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. De Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

BEATRIZ DE NAZARÉ. Los siete modos de amor – Vidas y visiones. Trad. de M. Tabuyo. Barcelona: J. J. deOlañeta, 2004.

BENEITO, Pablo (Ed.). Mujeres de luz – La místicafeminina, lo femininoen la mística. Madrid: Trotta, 2001.

BRETON, Stanislau. Philosophieetmystique: Existence et surexistence. Grenoble: J. Millon, 1996.

CAPELLE, Philippe. “Verso una tipologia dellarelazione filosofia-mistica”. In: Esperienza mística e pensiero filosófico – Atti Del Colloquio «Filosofia e Mística» (Roma, 6-7 dicembre 2001). Cittàdel Vaticano: LibreriaEditrice Vaticana, 2003, p. 72-86. CATARINA DE SIENA. Cartas completas. Trad. João Alves Basílio. São Paulo: Paulus, 2005.

CIRLOT, Victoria e GARÍ, Blanca. La mirada interior. Escritoras místicas y visionarias enlaedad media. Barcelona: Ediciones Martínez Roca, 1999.

ELIADE, MIRCEA. Origens. História e sentido da religião. Trad. Teresa Louro Perez. Lisboa: Edições 70, 1989.

ÉPINEY-BURGARD, G. e BRUNN, Émile Zum. Mujeres trovadoras de Dios – Una tradición silenciada de la Europa medieval. Trad. de A. López e M. Tabuyo. Barcelona: Paidós, 2007.

GARB, Jonathan. “Mystics' Critiques of Mystical Experience”. In: Revue de l'histoire des religions. tome 22,1 n°3, 2004, p. 293-325. doi : 10.3406/rhr.2004.1492.

GUARNIERI, R. y VERDEYEN, P. (Eds). Marguerite Porete: Le moirouerdes simples ames. Margaretae Porete, Speculumsimpliciumanimarum. Corpus Christianorum, ContinuatioMedievalis LXIX, Brepols: Turnhout, 1996.

HADEWIJCH DE AMBERES.Visiones.Trad.MaríaTabuyo Ortega. Barcelona: Olañeta, 2005.

HADEWIJ DE AMBERES.Dios, Amor y Amante.Las Cartas.Trad.dePablo María Bernardo. Madrid: Ediciones Paulinas,1986.

HEGEL, W. Introdução à História da Filosofia.Trad. Antonio Pinto de Carvalho. São Paulo: Abril Cultural, 1989, (Ospensadores).

RUUSBROEC, Jan. Le Livre des XII Béguines ou de lavraiecontemplation. Traduitduflamand, avecintroduction par l’abbé P. Cuylits. Bruxelles: Libraire Albert Dewit, 1909.

KAZANTZÁKIS, Nikos. Ascese. Os salvadores de Deus. Trad. De José Paulo Paes. São Paulo: Ática, 1997.

LUCCHESI, Marco. “Crítica da razão desesperada: Deus ou Deus”. In: TEIXEIRA, Faustino (Org.). Nas teias da delicadeza – Itinerários místicos. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 267-285.

MECHTHILD VON MAGDEBURG. Das flißenndeLicht der Gottheit. Stuttgard: GmbH&Co., 2008.

NOGUEIRA, Maria Simone Marinho. “A escrita feminina medieval: mística, paixão e transgressão”. In: Mirabilia 17, 2013, p. 127-135. Disponível em:<http://www.revistamirabilia.com/issues/mirabilia-17-2013-2>. Acesso em 24 jun. 2015.

PAES, José Paulo. Introdução à Ascese. Os salvadores de Deus, de NikosKazantzákis. São Paulo: Ática, 1997, p. 11-36.

PORETE, Marguerite. O espelho das almas simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do amor. Trad. Sílvia Schwartz, Petrópolis/RJ: Vozes, 2008.

REHERMANN, Carlos. “Cantos a la dama amor: místicas y trovadoras de laEdad media. Disponível em <http://www.henciclopedia.org.uy/autores/Rehermann/Literaturafemenina.htm>. Acesso em 25 jun. 2015.

TROCH, Lieve. “Mística feminina na Idade Média - Historiografia feminista e descolonização das paisagens medievais”. In: II Seminário de Estudos Medievais da Paraíba - Sábias, Guerreiras e místicas: Homenagem aos 600 anos de Joana D´arc – ANAIS / Luciana Eleonora de F. Calado Deplagne, Fabrício Possebon (Organizadores). - João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2012, p. 27-39. ZAMBRANO, Maria. La confesión: género literario. Madrid: Siruela, 1995.

Publicado
2016-01-11
Como Citar
NOGUEIRA, M. S. M. Mística feminina – escrita e transgressão. Revista Graphos, v. 17, n. 2, p. 91-102, 11 jan. 2016.