Uma psicóloga insider e uma antropóloga outsider:
identidades, documentos e relações de poder entre instituições de saúde
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.2447-9837.2025.n20.72713Resumo
O artigo reflete sobre os desafios éticos, metodológicos e epistemológicos enfrentados por uma antropóloga ao conduzir uma etnografia em um hospital público no Brasil. A autora, também psicóloga, ocupou um papel ambíguo entre o reconhecimento institucional da psicologia e o estranhamento da antropologia no campo biomédico. O texto explora as tensões vividas durante a submissão do projeto aos comitês de ética, cujas exigências baseadas em uma racionalidade biomédica impuseram adaptações linguísticas, metodológicas e institucionais. A exigência de um professor como pesquisador principal, a necessidade de vinculação institucional e o uso de documentos como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) revelam relações hierárquicas e disputas de saberes que atravessam o processo de pesquisa. A autora argumenta que esses documentos, mais que exigências formais, constroem identidades e “pessoas de papel”, apagando a agência da pesquisadora. Com base em Foucault, Marx e Weber, ela analisa como o sistema de aprovação científica opera por meio de normas disciplinares, desigualdades de classe e racionalidade burocrática. Apesar dos entraves, a autora destaca o potencial da antropologia para ampliar os olhares sobre saúde e adoecimento, defendendo a importância do diálogo interdisciplinar e da inserção das ciências sociais em contextos biomédicos. O artigo propõe a etnografia dos documentos como ferramenta analítica para compreender os modos como o saber antropológico é autorizado (ou não) em instituições hierarquizadas, propondo que as antropólogas precisam negociar constantemente seus papéis para produzir conhecimento em campos dominados por outras epistemologias.
PALAVRAS-CHAVE: Antropologia hospitalar. Comitê de ética. Psicologia.
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