Dossiê: INFÂNCIAS, CRIANÇAS E ESTUDOS CULTURAIS EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULOS ENTRE E ALÉM DOS MUROS DAS ESCOLAS

2025-04-15

Dossiê: INFÂNCIAS, CRIANÇAS E ESTUDOS CULTURAIS EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULOS ENTRE E ALÉM DOS MUROS DAS ESCOLAS

 

A infância, enquanto categoria construída social e culturalmente, tem sido objeto de investigação em diferentes áreas do conhecimento, por meio de diversas perspectivas teóricas e metodológicas. No que diz respeito aos Estudos Culturais, este campo investigativo tem compreendido a infância a partir de representações e experiências que são atravessadas por relações de poder, discursos, políticas educacionais e práticas sociais vivenciadas pelas crianças. Ao conferir, desde a chamada “virada linguística”, um papel fundamental à linguagem, o campo dos Estudos Culturais entende que toda essa gama de possibilidades de se falar sobre a infância e as crianças não apenas as “descrevem”, mas efetivamente as constituem enquanto sujeitos por meio de relações de poder e saber. 

Os Estudos Culturais têm ampliado os modos como compreendemos e analisamos aspectos centrais das nossas vidas cotidianas, como a própria cultura, a linguagem, os processos de subjetivação e a educação. Especificamente para as pesquisas educacionais, os Estudos Culturais têm mobilizado rupturas significativas às metanarrativas educacionais, possibilitando, por exemplo, a ampliação da compreensão dos espaços de aprendizagem para além da escola, a partir da significação do currículo além da mera descrição de disciplinas acadêmicas ou escolares a serem desenvolvidas com o objetivo de formação dos estudantes. Diante disso, o currículo passa a ser  compreendido como um artefato que tanto inclui como excede aquilo que é produzido em instituições regulamentadas de ensino, sendo articulado também através dos diversos artefatos culturais que são consumidos no cotidiano, tais como: filmes, séries de TV, novelas, programas televisivos, reality shows, músicas, peças publicitárias, livros,, brinquedos, teatro, jogos, revistas etc.

Se, por um lado, tal ampliação do conceito de currículo tem sido importante para reconhecer que diferentes artefatos produzidos na cultura têm constituído currículos culturais não-escolares, também é oportuno valorizar as contribuições que o campo dos Estudos Culturais pode oferecer para o espaço escolar. Afinal, assim como os artefatos culturais, a escola também lida com a construção de identidades, a produção e circulação de discursos e a valorização ou rejeição de determinadas práticas. Nesse sentido, a escola não deve ser pensada apenas como um espaço de transmissão de conhecimentos previamente sistematizados, mas também como um local de produção, veiculação, aceitação e contestação de significados culturais que constituem as crianças como sujeitos no tempo presente. Para tanto, os Estudos Culturais têm possibilitado  compreender como os currículos escolares, as práticas pedagógicas e a docência são forjadas em meio às representações de determinados grupos sociais e culturais. Consequentemente, trata-se de um campo teórico que possibilita o questionamento da escola como espaço de homogeneização e normatização, centralizando aqueles elementos comumente “marginalizados”, como os marcadores da diferença social – gênero, sexualidade, raça, etnia, geração, classe, deficiência etc. 

Mediante o exposto, o presente número temático tem como objetivo geral analisar os agenciamentos entre Infâncias, Crianças e os Estudos Culturais e busca reunir artigos que problematizam as imagens e representações da infância e das crianças para além de concepções normativas e reducionistas, explorando as construções culturais, históricas, políticas, sociais e simbólicas. Nesse contexto, convidamos pesquisadores e pesquisadoras a submeterem propostas de trabalho que, a partir das contribuições do referido campo, dialoguem com as múltiplas, criativas e inventivas formas das crianças vivenciarem as infâncias,  tanto “entre” como “além” dos muros escolares. Assim, serão bem-vindos estudos que abordam a infância em diferentes artefatos culturais, como também aqueles que investigam as intersecções entre os Estudos Culturais e o âmbito da escola, focalizando o papel cultural das instituições de ensino na produção de subjetividades das crianças e daqueles/as  profissionais que lidam diariamente com elas. Também nos interessam as pesquisas que discutem a infância de modo interseccional, compreendendo como os marcadores sociais, por um lado, produzem e reproduzem desigualdades que são sentidas desde cedo, e, por outro, abrem caminhos para resistência e linhas de fuga. Pesquisas que abordam as infâncias e as crianças em contextos de vulnerabilidade social e precariedade, sobretudo em cenários de crise migratória e climática também são fundamentais para o debate proposto. 

Logo, pretendemos fomentar reflexões importantes sobre como as crianças são representadas e valorizar as maneiras em que elas próprias participam da construção de suas identidades e de suas culturas infantis em interdependência com os adultos e os contextos dos quais fazem parte enquanto atores sociais de pleno direito. As contribuições podem adotar diferentes abordagens metodológicas – análise do discurso, cartografia, etnografia, pesquisa narrativa, pesquisa visual etc. – e fundamentação teórica, desde que estejam amparadas pelos Estudos Culturais. 

 

Organização:

Prof. Dr. Evanilson Gurgel (UFERSA)

evanilson.gurgel@ufersa.edu.br

Profa. Dra. Maria Elena Ortiz Espinoza (UPS/Ecuador)

mortize@ups.edu.ec

 

 

Início das submissões: 07 de Junho de 2025.

Fim das submissões: 14 de Julho de 2025 (prorrogadas).

Previsão de publicação: Fevereiro de 2026.